Open-access Traçados & Caminhos - desenhando espaços encantados de existência a partir dos pontos riscados

Traces & Paths: drawing enchanted spaces of existence from pontos riscados

Trazados & Caminos - dibujando espacios encantados de existencia a partir de los puntos riscados

Resumo:

O presente ensaio visual investiga as intersecções entre as linguagens da collage e as grafias sagradas dos pontos riscados da Umbanda, articulando noções de territorialidade, pertencimento, deslocamento e cura. A partir do processo poético e material que culminou na série Traçados & Caminhos, composta por originais-múltiplos efêmeros sobre mapas e intervenções em nanquim, analisa-se a colagem como uma prática de recomposição espacial, física e espiritual. A fundamentação teórica ancora-se nos estudos de Arthur Valle sobre a dimensão geométrica e espiritual dos pontos riscados, nas reflexões de Fernando Fuão e Vilém Flusser acerca do ato de recortar e colar e no pensamento de Leda Maria Martins sobre o corpo como suporte de constituição simbólica e memória. O texto reflete sobre o fazer artístico enquanto reinvenção do sagrado e espaço de resistência, em que a desconstrução e a justaposição de mapas geram territórios simbólicos de acolhimento e investigação de trajetórias pessoais.

Palavras-chave:
colagem; pontos riscados; Umbanda; artes visuais; território

Abstract:

This visual essay investigates the intersections between the language of collage and the sacred graphisms of Umbanda’s pontos riscados, articulating notions of territoriality, belonging, displacement, and healing. Based on the poetic and material process behind the series Traçados & Caminhos, composed of ephemeral multiple-originals over maps with ink interventions, collage is analyzed as a practice of spatial, physical, and spiritual recomposition. The theoretical framework is grounded in Arthur Valle's studies on the geometric and spiritual dimensions of pontos riscados, Fernando Fuão and Vilém Flusser's reflections on the act of cutting and pasting, and Leda Maria Martins' thoughts on the body as a support for symbolic composition and memory. The text reflects on artistic practice as a reinvention of the sacred and a space of resistance, where the deconstruction and juxtaposition of maps generate symbolic territories of refuge and the investigation of personal trajectories.

Keywords:
collage; sacred graphism; Umbanda; visual arts; territory

Resumen:

El presente ensayo visual investiga las intersecciones entre los lenguajes del collage y las grafías sagradas de los puntos riscados de la Umbanda, articulando nociones de territorialidad, pertenencia, desplazamiento y sanación. A partir del proceso poético y material que culminó en la serie Trazados & Caminos, compuesta por originales-múltiples efímeros sobre mapas e intervenciones en tinta china, se analiza el collage como una práctica de recomposición espacial, física y espiritual. La fundamentación teórica se sustenta en los estudios de Arthur Valle sobre la dimensión geométrica y espiritual de los puntos riscados, en las reflexiones de Fernando Fuão y Vilém Flusser acerca del acto de recortar y pegar, y en el pensamiento de Leda Maria Martins sobre el cuerpo como soporte de constitución simbólica y memoria. El texto reflexiona sobre el hacer artístico como reinvención de lo sagrado y espacio de resistencia, en el que la deconstrucción y la yuxtaposición de mapas generan territorios simbólicos de acogida e investigación de trayectorias personales.

Palabras clave:
collage; puntos riscados; Umbanda; artes visuales; territorio

O ponto riscado e seus conceitos

Arthur Valle (2020:68) define assim o ponto riscado: “Nas religiões afro-brasileiras, pontos riscados são diagramas mágicos que possuem diversas funções, notadamente as de invocar ou identificar entidades espirituais”. Dessa forma, os pontos riscados podem ser compreendidos como uma grafia sagrada: desenhar um ponto é abrir um portal. Seguindo os conceitos de Valle (2020) e Thompson (1983), poderíamos dizer que a produção de um ponto riscado é um ato de pensamento geométrico que envolve a manipulação de símbolos e formas para estabelecer um canal de comunicação com o mundo espiritual.

Muitas vezes tratados apenas sob o aspecto estético, ou como provas de crime (Valle 2020), os pontos riscados estão presentes em religiões de matriz africana, mais notadamente na Umbanda. Embora não sejam exclusivos desta, os pontos são muito associados a essa religião baseada nos cultos kongo aos ancestrais, mas que assimila elementos da religião iorubá dos orixás, do Espiritismo de Allan Kardec, do Cristianismo e de religiões ameríndias (Valle 2020). Para Leda Maria Martins (2021:30), embora os povos africanos tenham sido “desvestidos de seus sistemas simbólicos” pela violência colonial, eles mantiveram em seus corpos uma complexa constituição simbólica.

Na Umbanda, assim como no desenho dos pontos riscados, percebe-se essa constituição acrescida de assimilações de diversas matrizes, em um processo que considero análogo à collagem,1 a qual utiliza matrizes diversas para a constituição de sua imagem. Um ponto riscado apresentado em sua forma poética, como expressão gráfica que emula caminhos e abre espaços poéticos na alma, poderia ser visto como uma reinvenção do sagrado, uma expressão de resistência.

Processos de collage

A collage é uma linguagem artística reconhecida e utilizada por muitos artistas no mundo inteiro. No Brasil, o grande teórico da collage (ou colagem, como se utiliza em português) é Fernando Fuão.2 Ele entende o ato da colagem como um ato de conexão, de união, um trânsito que transporta como uma ponte. Uma ponte que tem por finalidade conectar fragmentos de mundos, realidades distintas ou similares (Fuão 2025). Fuão entende a collage como uma antilinguagem que reconecta fragmentos dispersos no mundo.

Ainda sobre collage,3 apresento algumas reflexões de Flusser (1981) sobre o tema:

A maioria dos estudos da collage/montagem sempre tratou de colocar a collage numa antinomia de oposição entre o recortar-colar, rasgar-costurar, desmontar-montar, ignorando que não há o colar sem o recortar, ou mesmo o importante intervalo significativo que se dá entre essas etapas [...] nesse lugar e instante que guarda segredos, entre a separação e o acolhimento.

O ato de rasgar-costurar, no qual se trabalha a desconstrução da matéria e do sentido para uma nova construção (e um novo sentido), norteou o processo inicial da minha série Traçados & Caminhos, através da dilaceração e da montagem de mapas diversos. Nele, meu interesse se concentra na justaposição a partir das relações visuais e cromáticas, e não nos lugares que os mapas representam: desconstruir para reconstruir. Trata-se de um processo que Fuão (2011:51) denomina como encontro: “Diz-se ‘Encontro’ a relação recíproca envolvente entre figuras, objetos e corpos, ou do próprio ser frente à sua representação”.

O ato de pensar o mapa como uma representação gráfica de um espaço determinado - ligada e independente, ao mesmo tempo, desse espaço - possibilita a (re)composição dos mapas como se, nesta “costura” de fragmentos, um novo espaço pudesse ser construído em um tempo sagrado.

Para Flusser (1981), o “encontro” na collage seria a relação recíproca entre figuras, objetos e corpos. Na (re)construção de espaços através da collagem de mapas, existe o desejo de encontrar um espaço que abrigue os caminhos da alma, sejam eles artísticos e/ou espirituais. O que a alma não encontra na realidade pode ser (re)construído através da arte.

Poética dos deslocamentos

Com a minha atuação constante de mais de dez anos em processos de colagem (digitais ou analógicos), é natural que eu desenvolva uma poética no fazer. Na relação entre materiais banais4 e no acúmulo matérico das camadas de elementos e materiais pictóricos,5 investigo a construção de uma poética dos deslocamentos: de sentido, forma e espaço.

Tratando a colagem como encontro, Fuão (2011) diz que esses encontros acontecem no intervalo (entre o recortar e o colar), no qual se testam as junções entre as figuras a fim de encontrar aquela que melhor se “encaixa”. Nos processos que apresento, esse encontro se amplia para a inclusão de elementos externos à cola: materiais pictóricos como o nanquim e o pincel.

É também no deslocamento da matéria que os processos aqui apresentados ganham contornos esotéricos. Durante a produção da série, período que coincidiu com meu desenvolvimento mediúnico em uma casa de Axé em Sepetiba (RJ), experimentei intensos processos oníricos com mensagens dos Encantados da Umbanda. Em uma dessas experiências, o ponto riscado do caboclo Sete Flechas apareceu desenhado sobre uma das colagens-mapas. Foi o ponto de partida para um novo encontro entre os grafismos feitos a pincel e nanquim e as collagens de mapas.

A minha experiência em design6 me permite conhecer sistemas de construção e significado das imagens; como artista visual, passo a invocar o uso de uma gramática visual como ferramenta de desenvolvimento de narrativas. As grafias que emulam pontos riscados são o caminho para a criação de meus espaços simbólicos de cura nessa gramática visual desenvolvida. Dessa forma, pertencimento e identificação são as chaves desse processo, auxiliando-me na compreensão de onde vim e para onde vou.

A poética da minha obra tem se concentrado em torno de questões de deslocamento e pertencimento. Movo-me no espaço-tempo. Meu deslocamento é interno, sobrepondo espaços de medo e culpa atrelados à maternidade de quem precisa da arte para viver ao desenvolvimento de novos mundos a partir de camadas de materiais e significados. A collagem me proporciona esse “criar mundos”, unindo espaços e gestando territórios. Nascida nas páginas dos meus diários visuais, a série de mapas (re)criados foi inicialmente chamada por mim de “me (re)encontro”, de tão perdida que eu estava.

Segundo Araújo e Amorim (2023:175), “Umbanda é uma religião em processo, que vem se autoconstruindo a partir de sua própria prática, pelas inter-relações das inúmeras vivências religiosas de seus/suas líderes e daqueles/as que optaram (e optam) por segui-la”.

Gosto de pensar a construção dessas collages, territórios em camadas, como um processo que também se constrói a partir da própria prática: sem orientações prévias, mas de forma orgânica e fluida.

Desenhando sobre esses territórios (re)criados, demarco espaços de existência. São essas construções em camadas, vividas e sonhadas, que me permitem modular encantamentos no desejo de uma vida mais plena.

Selecionada para a 3ª Bienal Black Art Brasil7 - “Fluxos (in)Fluxo: Transitoriedade, Migração e Memória”, a série Traçados & Caminhos possui 10 imagens8 no formato A3, denominadas originais-múltiplos efêmeros (reproduções impressas com desenhos a nanquim por cima). A sequência aqui apresentada traz seis dessas imagens, descritas a seguir. A primeira evoca Exú (Figura 1).

Figura 1.
Sem título (Exus). Imagem em formato 29,7 × 42 cm, parte da obra Traçados & Caminhos, de Hannah23 (2023).

Na sequência, as Figuras 2 e 3 mesclam forças ameríndias e do Atlântico Negro.

Figura 2.
Sem título (Atlântico Negro). Imagem em formato 29,7 × 42 cm, parte da obra Traçados & Caminhos, de Hannah23 (2023).

Figura 3.
Sem título (Ameríndias). Imagem em formato 29,7 × 42 cm, parte da obra Traçados & Caminhos, de Hannah23 (2023).

A Figura 4 é a imagem recebida em sonho, um ponto riscado.

Figura 4.
Ponto Caboclo Sete Flechas. Imagem em formato 29,7 × 42 cm, parte da obra Traçados & Caminhos, de Hannah23 (2023).

As Figuras 5 e 6, concebidas em um segundo momento, possuem uma imagem mais translúcida. Nelas, Orixás e Encantados são representados sem uma distinção estrita quanto à qual entidade pertencem.

Figura 5.
Sem título (Tempo e Oxóssi). Imagem em formato 29,7 × 42 cm, parte da obra Traçados & Caminhos, de Hannah23 (2023).

Figura 6.
Sem título (Moças). Imagem em formato 29,7 × 42 cm, parte da obra Traçados & Caminhos, de Hannah23 (2023).

Esta é minha oferenda de arte e cura que encontra, na construção simbólica e arquetípica, espaços para habitar.

Referências bibliográficas, Site acessado

  • ARAÚJO, Mayara Mychella Sena; AMORIM, Nayara Cristina Rosa. (2023), “Pontos riscados no chão: a presença da umbanda em Salvador, Bahia”. Laje, Salvador, vol. 2, nº 1: 166-195.
  • BLACK BRAZIL ART. (2024), 3ª Bienal Black: Fluxos (in)Fluxo, Transitoriedade, Migração e Memória: catálogo Porto Alegre: Black Brazil Art. Disponível em: https://issuu.com/blackbrazilarte/docs/3bba_catalogo_pdf.compacto Acesso em: 25/08/2026.
    » https://issuu.com/blackbrazilarte/docs/3bba_catalogo_pdf.compacto
  • FLUSSER, Vilém. (1981), “Reflexão sobre ‘collage’: valor e lixo”. In: S. Lima (org.). Palestra proferida São Paulo: Galeria S. Paulo.
  • FUÃO, Fernando Freitas. (2011), A collage como trajetória amorosa. Porto Alegre: Editora da UFRGS.
  • FUÃO, Fernando Freitas. (2025), “O amor louco da collage”. Revista Brasileira de Literatura Comparada, vol. 27: e20251103.
  • MARTINS, Leda Maria. (2021), Afrografias da memória: o reinado do Rosário no Jatobá São Paulo: Perspectiva, 2ª ed. rev.
  • THOMPSON, Robert Farris. (1983), Flash of the Spirit: African & Afro-American Art & Philosophy New York: Vintage Books.
  • VALLE, Arthur. (2020), “Pontos riscados: invocação espiritual, nomeação, pensamento geométrico”. Revista de História da Arte e Arqueologia, Campinas, nº 33: 68-69.
  • VALLE, Arthur. (2021), Historicizando os pontos riscados. 19&20, Rio de Janeiro, vol. XVI, nº 1.
  • BIENAL BLACK. “3ª Bienal Black - Fluxos (in)Fluxo, Transitoriedade, Migração e Memória”. Bienal Black Disponível em: https://www.bienalblack.com.br/3bienalblack Acesso em: 25/08/2026.
    » https://www.bienalblack.com.br/3bienalblack

1

Permito-me uma adaptação livre do termo francês collage - que designa o processo artístico -, fundindo-o com a palavra “colagem”, em português. Dessa forma, utilizo “collagem” para denominar a técnica que serve de base para o meu trabalho e que funciona como ponte entre outros processos, técnicas e mundos.

2

Seu livro mais conhecido é A collage como trajetória amorosa, publicado pela Editora da UFRGS em 2011. Ver Fuão (2011).

3

Serão utilizadas as expressões collagem para me referir ao processo das obras apresentadas e collage para designar a técnica artística.

4

Entendo como materiais banais os descartes da rotina contemporânea, tais como notas fiscais, folhas de árvores caídas e papéis de diversas origens.

5

Entendo como elementos os papéis de diversas origens, e como materiais pictóricos recursos tais como tinta, pastel seco, crayon e canetas gel.

6

Sou graduada em Desenho Industrial (habilitação em Programação Visual) desde 1995 e atuo como designer gráfica, desenvolvendo sistemas simbólicos para identidades visuais, espetáculos e eventos de educação e cultura.

7

A 3a Bienal Black Art - “Fluxos (in)Fluxo: Transitoriedade, Migração e Memória” teve uma curadoria colaborativa internacional e aconteceu no Rio de Janeiro, de 27 de março a 15 de junho de 2024. Para saber mais, acesse: https://www.bienalblack.com.br/3bienalblack.

8

A montagem da obra está disponível no catálogo da 3ª Bienal Black Art (Black Brazil Arte, 2024:54).

Declaração de Disponibilidade de Dados

Não aplicável.

Editor-Chefe:

Edilson Pereira

Editor convidado:

João Leal

Editor-Assistente:

Lucas Bártolo

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Out 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    30 Out 2025
  • Aceito
    16 Ago 2026
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