RESUMO
Introdução: O artigo analisa o processo editorial de periódicos científicos, com foco no percurso institucional que vai da submissão à publicação de artigos acadêmicos. Parte do diagnóstico de que decisões editoriais e critérios de avaliação permanecem, em grande medida, pouco transparentes para os autores, especialmente pesquisadores em formação, apesar de seu papel central na legitimação e circulação do conhecimento científico.
Materiais e métodos: Trata-se de um estudo qualitativo, descritivo e analítico-reflexivo, fundamentado na experiência das autoras como editoras de periódicos científicos e no diálogo sistemático com a literatura especializada sobre publicação acadêmica, avaliação por pares e Ciência Aberta. A análise é organizada segundo as etapas do fluxo editorial adotado por revistas científicas.
Resultados: O artigo descreve e sistematiza as principais fases do processo editorial, incluindo a escolha do periódico, a avaliação editorial inicial (desk review), a avaliação por pares, a mediação editorial dos pareceres, os processos de revisão e as etapas finais de editoração e publicação. Identificam-se os principais motivos de rejeição ao longo do fluxo editorial, bem como desafios operacionais, éticos e epistemológicos associados às práticas contemporâneas de publicação científica, em especial no contexto da Ciência Aberta.
Discussão: Ao tornar visíveis os critérios, decisões e dilemas que estruturam o trabalho editorial, o artigo contribui para a qualificação da escrita e da publicação científica. Os achados oferecem subsídios analíticos tanto para autores quanto para editores, promovendo maior transparência, previsibilidade e qualidade na comunicação científica.
Palavras-chave
publicação científica; processo editorial; avaliação por pares; Ciência Aberta; análise qualitativa
ABSTRACT
Introduction: This article examines the editorial process of scholarly journals, focusing on the institutional trajectory from manuscript submission to publication. It is grounded in the observation that editorial decisions and evaluation criteria remain largely opaque to authors - particularly early-career researchers - despite their central role in shaping the circulation and legitimation of scientific knowledge.
Materials and methods: The study adopts a qualitative, descriptive, and analytically reflexive approach, drawing on the authors' experience as journal editors and on systematic engagement with the literature on scholarly publishing, peer review, and Open Science. The analysis is organized according to the successive stages of the editorial workflow commonly adopted by academic journals.
Results: The article systematizes the main phases of the editorial process, including journal selection, initial editorial screening (desk review), peer review, editorial mediation of reviewers' reports, revision processes, and the final stages of editing and publication. It identifies the main reasons for manuscript rejection at different points in the workflow, as well as operational, ethical, and epistemological challenges associated with contemporary publishing practices, particularly in the context of Open Science.
Discussion: By rendering editorial criteria, decision-making processes, and underlying dilemmas more visible, the article contributes to improving scholarly writing and publishing practices. The findings provide analytical guidance for both authors and editors, fostering greater transparency, predictability, and quality in scientific communication.
Keywords
scholarly publishing; editorial process; peer review; Open Science; qualitative analysis
I. Introdução
Este artigo tem o objetivo de esclarecer como se dá o processo editorial e o longo caminho entre a submissão e a publicação de um artigo, apresentando informações frequentemente acessíveis apenas àqueles com experiência em editoria científica. O fluxo editorial envolve funções deliberativas, gestoras e executivas necessárias para a transparência do processo de publicação (Grants et al., 2011). O(a) autor(a) geralmente terá que lidar com uma equipe gestora que envolve alguns assistentes, responsáveis diretos pela comunicação da revista e auxílio em todo fluxo editorial, além do contato com os próprios editores chefes e/ou o comitê editorial. Ao mesmo tempo, haverá aqueles responsáveis pela análise acerca da qualidade do artigo: pareceristas e editores. Por fim, caso aceito, há toda uma fase de execução final da publicação que envolve profissionais de revisão e diagramação, bem como os administradores da plataforma em que será publicado. São muitos momentos em que algo pode atrapalhar ou impossibilitar a publicação de um artigo.
Este artigo apresenta as dinâmicas do processo editorial de um periódico acadêmico, a partir da experiência das autoras como editoras de um periódico classificado em alto extrato pelo Qualis Capes, e do diálogo com algumas referências bibliográficas sobre o tema. A organização do artigo segue o fluxo editorial das revistas, porém, é preciso considerar que haverá variações a depender do periódico escolhido para publicação. O texto ainda apresenta debates que atualmente orientam a prática editorial em torno da produção do conhecimento científico, como a Ciência Aberta e vieses de peer review. Compreender quais são os obstáculos que os autores podem encontrar no caminho entre a submissão e a publicação e as escolhas que deverão fazer pode diminuir bastante o tempo de publicação e colaborar com a produção de trabalhos de qualidade científica. Ao mesmo tempo, o artigo pode contribuir para a reflexão de editores sobre boas práticas de avaliação científica e os desafios mais prementes do processo editorial em um contexto de crescente mudança na forma de produzir e disseminar conhecimento.
II. Visão geral do processo
A submissão de artigos a periódicos científicos envolve os seguintes passos:
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Preparação do manuscrito antes de submeter;
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Avaliação inicial do texto pelo comitê editorial (desk review);
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Avaliação por pares;
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Avaliação dos pareceres pelo comitê editorial;
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Em caso de revisão, interação entre autor e pareceristas;
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Em caso de aceite, revisão, diagramação e encaminhamento à plataforma para publicação.
Um artigo pode ser rejeitado em dois momentos - na revisão inicial e após a avaliação de pareceres externos. Em caso de artigos científicos, o aceite ocorre geralmente após pelo menos uma rodada de avaliações entre pares, ainda que, a depender da área de conhecimento, exista diferentes formas de avaliação como a feita pelos próprios editores ou pela disponibilização pública à comunidade científica interessada no tema (Ross-Hellauer, 2017). Isso significa que o(a) autor(a) deve tomar o cuidado de somente submeter um artigo que esteja em estágio bem avançado1 e que preparado para escutar críticas e melhorar o texto.
O fluxograma da Figura 1 resume e sistematiza essas etapas, as quais serão explicadas nas próximas seções.
Uma vez escolhida a revista, é importante ler com muito cuidado as instruções aos autores para evitar atrasos ou mesmo uma rejeição sumária. Em algumas revistas, a submissão em desacordo com as normas pode resultar em rejeição imediata, antes mesmo da avaliação editorial. Além disso, é preciso estar ciente das diretrizes de ética em pesquisa. A maioria das revistas brasileiras se orienta pelas regras do Committee on Publication Ethics - COPE2, instituição internacional que estabelece orientações sobre temas relacionados à ética em pesquisa, como coleta e transparência de dados, plágio, conflitos de interesse, entre outros. A Figura 2 apresenta um “checklist” de itens mínimos que deveriam ser considerados no momento da submissão.
Embora o anonimato seja implícito no processo de editoração e geralmente o autor tenha o direito de receber um tratamento confidencial durante todo o processo de avaliação de seu manuscrito (Coimbra Jr., 1998), é importante considerar que os periódicos adotam cada vez mais os princípios da Ciência Aberta (Heinz & Miranda, 2024). Isso envolve uma série de práticas, para além da abertura no processo de avaliação de manuscritos por pares, como o acesso aberto e o compartilhamento dos conjuntos de dados de análise, instrumentos, scripts de análise estatística, roteiros e materiais adicionais, disponibilizados em repositórios online abertos.
O pressuposto sociológico por trás do movimento de Ciência Aberta é que o conhecimento é um produto de colaboração social que pertence à comunidade e, portanto, deve ser socializado a fim de gerar um ambiente de colaboração, reprodutibilidade, transparência e interatividade entre autores e avaliadores (Inácio & Amante, 2021; SciELO Brasil, 2022; Albagali et al., 2015; Wachholz, 2022). As maiores controvérsias dizem respeito à disponibilização de dados e abertura do processo avaliativo. No primeiro caso, a literatura mostra que a disponibilização pública tem o potencial de aumentar a confiança nos achados, permitir a confirmação dos resultados e gerar novas hipóteses e estudos (Wachholz, 2002). Os limites não são desprezíveis, entre eles o temor dos autores de não obterem o devido crédito pelo uso dos dados e a dificuldade de produzir dados que sejam acessíveis, razoavelmente estruturados e inteligíveis, de modo a permitir a replicabilidade (Machado, 2015).
Ao mesmo tempo, quando se trata de pesquisas qualitativas e etnográficas, pesquisadores têm levantado problemas éticos como a dificuldade de proteger o anonimato e até proteção física de entrevistados (Shih, 2015; Parkinson & Wood, 2015). Há também problemas epistemológicos em tornar públicos os dados de pesquisa. Nesse caso, questiona-se o pressuposto central do debate sobre transparência de dados de que a pesquisa em ciências sociais envolve a extração de dados do mundo social. Pachirat (2015), argumenta, por exemplo, que em pesquisas etnográficas, o conhecimento deriva de interações entre pesquisador e pesquisado que não podem ser simplesmente apresentadas como “dados”3.
Diante dessas críticas, os autores precisam avaliar a viabilidade de disponibilizar dados e estar atentos às novas exigências de produção do conhecimento científico. Um bom começo é conhecer as plataformas de acesso gratuito disponíveis para repositório dos dados, como a SciELO Data e a Havard Dataverse4.
Segundo, em relação à abertura do processo de revisão, as definições mais conhecidas envolvem a abertura de identidade de pareceristas e autores e a publicação dos pareceres (Ross-Hellauer, 2017). A abertura da avaliação tem sido adotada no país, especialmente nos periódicos indexados na plataforma SciELO, não como obrigação, mas como opção. Existe ainda grande resistência à abertura da autoria pelo temor de geração de vieses contra autores por questões de gênero, ou mesmo pertencimento a instituições menos prestigiosas. Para Ross-Hellauer (2017), o anonimato do parecerista é visto como uma proteção contra influência indevida e garantia de liberdade para emitir sua verdadeira opinião sem medo de causar ofensa ou gerar retaliação. Porém, o autor também destaca uma série de argumentos favoráveis à avaliação aberta como o aumento da accountability, o reconhecimento do trabalho dos pareceristas, e a possibilidade de melhorar a qualidade de pareceres uma vez que o nome do avaliador estará associado à publicação. Em geral, os estudos mostram que o anonimato continua central no processo de revisão por pares e escolhido pela maioria dos pareceristas, ainda que não haja evidências de que a abertura comprometa significativamente a disponibilidade dos revisores para analisar os trabalhos, as recomendações ou os prazos de resposta (Bravo et al., 2019).
Nos casos em que a autoria permanece anônima - prática ainda predominante na área de ciência política - é necessário realizar a anonimização do texto conforme as instruções da revista. Anonimizar significa retirar todas as referências à autoria, tanto na capa quanto ao longo do manuscrito, e remover os metadados e propriedades do arquivo.
III. Avaliação inicial
Após a submissão, o artigo passa pela etapa de desk review ou avaliação inicial. Como a avaliação por pares é um processo custoso, a maioria das revistas realiza uma triagem cuidadosa para verificar não apenas se o texto se enquadra na linha editorial, mas também se apresenta condições mínimas de aprovação futura, mesmo após revisões. Essa fase concentra a maior parte das rejeições: entre 60% e 75% (Björk, 2019).
O desk review pode ser realizado pela(o) editora(or)-chefe ou por um comitê editorial no qual diferentes editoras(es), responsáveis por áreas temáticas específicas, assumem essa função. Em geral, dois fatores predominam como razão para a rejeição nessa fase: inadequação à linha editorial e baixa qualidade do trabalho.
No primeiro caso, um artigo pode ser recusado por não se configurar claramente como contribuição à área da revista. Por exemplo, a Revista Brasileira de Ciência Política costuma rejeitar artigos que, embora relevantes, deixem de dialogar com a literatura de ciência política. Podem ser trabalhos de alta qualidade, mas as questões e literaturas apresentadas se direcionam especificamente a debates no direito, políticas públicas ou história. Por exemplo, um artigo que parte de autores do pensamento político brasileiro, mas cujo problema de pesquisa se pauta por uma preocupação de como ideias se consolidaram no plano jurídico e encontraram respaldo constitucional. Ou um artigo cuja temática central é a guerra na Ucrânia, mas que não se propõe a refletir sobre o problema do ponto de vista da ciência política, destacando seus atores, arenas e conflitos, mas apenas apontando fatores históricos que levaram à eclosão do ataque russo.
No segundo caso, a decisão está ligada à qualidade. Os(as) editores(as) avaliam se o artigo atende às expectativas de um texto científico da área. Em caso de artigos originais, geralmente espera-se uma contribuição efetiva aos debates científicos, seja teórica ou empírica. A literatura destaca que as razões para a rejeição estão ligadas a: a) qualidade da escrita; b) ausência de problema de pesquisa delimitado e adequado ao escopo de um artigo; c) limitado diálogo (ou excesso de citações sem direcionamento e aprofundamento) com referências fundamentais; d) má formulação de hipóteses; e) falta de apresentação adequada do método; f) lacunas na apresentação e tratamento dos dados e conclusões que não aliam teoria e resultados; g) não explicitação da contribuição do artigo para o campo de conhecimento (Falaster et al., 2016; Ross-Hellauer, 2017). Em artigos quantitativos se nota maior destaque para problemas provenientes de amostras com baixa representatividade da população, pouca informação sobre os dados e inadequação no tratamento dos dados; em textos qualitativos as insuficiências ocorrem na apresentação dos procedimentos, coleta e análise dos dados. Os motivos são tão diversos que é importante que as revistas detalhem os motivos da decisão final a fim de preservar a transparência do processo editorial (Mendes-Da-Silva, 2020).
Além dos artigos originais, várias revistas aceitam diferentes tipos de documentos para além de artigos originais como artigos de revisão de literatura, ensaios, artigos de métodos, notas de pesquisa etc., os quais possuem seus indicadores de qualidade geralmente definidos nas normas da revista.
IV. Avaliação por pares
A avaliação por pares, que data da revolução científica no século XVI, foi caracterizada por Merton (1973, p. 339) como um “sistema de vigilância institucionalizada” que protegeria normas compartilhadas de excelência científica. Ou seja, é “um processo da ciência para a própria ciência”, cujo objetivo é julgar e dar um veredito sobre os méritos do trabalho (ou artigo) científico (Falaster et al., 2016). Os revisores são considerados os gatekeepers do conhecimento, pois têm a função de escrutinar e controlar a qualidade dos argumentos oferecidos (Ferreira et al., 2014). A imparcialidade do processo de avaliação de pares é seu princípio central, garantida em grande medida pelo papel do editor como intermediador entre parecerista e autor(a) (Lee et al., 2013).
Essa é a etapa mais demorada do processo e está sujeita a uma diversidade de críticas tais como: a) falta de consistência entre distintos pareceristas; b) alto tempo e recursos gastos; c) viés de seleção do editor e de preferência temática dos pareceristas; d) falta de incentivos aos avaliadores; e) comentários pouco úteis para o trabalho apresentado (Ross-Hellauer, 2017).
As críticas apontam para a possibilidade de que pareceristas sejam enviesadas contra determinados posicionamentos teóricos ou metodológicos, temas de pesquisa ou pessoas provenientes de países ou instituições periféricas, ou ainda pertencentes a grupos sociais menos privilegiados, como as mulheres. O viés na avaliação por pares tem sido estudado de forma sistemática, com resultados pouco conclusivos. Por exemplo, em uma revisão sistemática da literatura, Lee et al. (2013) constatam que as avaliações por pares de fato variam em função da nacionalidade e das instituições de autoras e pareceristas, e que frequentemente favorecem hipóteses com as quais as(os) avaliadoras(es) já concordam. Contudo, também argumentam que não há evidências convincentes de que a avaliação por pares promova o conservadorismo na ciência, e encontram apenas evidências mistas de viés contra autoras mulheres e contra autoras(es) que vivem em países não anglófonos. Em trabalho mais recente, Aigner et al. (2025) mostram, para revistas de Economia, que autores de países em desenvolvimento têm muito mais dificuldade em publicar em revistas de alto impacto, mesmo quando a qualidade do trabalho é controlada.
A escolha dos pareceristas é um desafio, pois é preciso encontrar pessoas que tenham a formação adequada, conheçam o tema ou a metodologia em questão e que, ao mesmo tempo, não tenham conflitos de interesse com o(a) autor(a). A maioria das revistas qualificadas exige pelo menos dois pareceres para tomar uma decisão. Quando há divergências significativas entre pareceres, ou um dos pareceres é considerado superficial, pode ser solicitado um terceiro. Conseguir o número mínimo de pareceres, contudo, é uma das maiores dificuldades do processo. Não é raro que os editores precisem entrar em contato com cinco, dez ou até mais especialistas, enviar lembretes e mensagens adicionais, até receber dois pareceres consistentes. Esse processo pode demorar meses. é importante que os autores lembrem que, geralmente, os pareceres não são remunerados e o trabalho é pouco reconhecido em processos avaliativos como progressão funcional ou avaliações dos programas. Todo autor(a) precisa considerar esse dilema quando também está do outro lado e recebe um convite para ser parecerista.
A forma dos pareceres varia de acordo com a revista. Algumas solicitam apenas um documento em formato livre, enquanto outras disponibilizam formulários com perguntas específicas. Não é raro que os pareceres tragam críticas e sugestões divergentes ou até contraditórias. Muitas vezes, as diferenças são tão grandes que o(a) autor(a) não consegue atender a todas em uma única revisão. O conteúdo também é bastante heterogêneo: há pareceres longos e detalhados, outros curtos e pouco informativos; alguns concentram-se em críticas severas, enquanto outros trazem sugestões construtivas para o aperfeiçoamento do texto. Um bom parecer precisa discutir os méritos e defeitos do manuscrito, indicar claramente por que são avaliados dessa forma e apontar maneiras de melhoria, como sugestão de referências bibliográficas e destaque de trechos pouco claros. Representa o comprometimento com o conhecimento científico que carece ainda de mais treinamento e sensibilização dos acadêmicos no país, ainda que melhoras sejam sentidas ao longo dos últimos anos (Campos, 2019).
Além dos comentários, aos pareceristas geralmente é solicitado que apresentem uma recomendação específica. As opções variam por revista, e podem incluir as seguintes: aceitar, aceitar com pequenas revisões; revisar com pequenas modificações, revisar com grandes modificações ou rejeitar. Uma submissão que não consegue atender às recomendações dos pareceristas, independentemente do número de vezes em que foi avaliada, pode ser rejeitada, mesmo depois de duas ou mais revisões.
V. Como as recomendações dos pareceristas são tratadas pelos editores
Os editores não tratam as recomendações dos pareceres como uma decisão vinculativa, pois precisam compará-los, analisar inconsistências e compreender os pareceres em sua integralidade. Isso ocorre porque os critérios dos pareceristas podem diferir das prioridades e da linha editorial da revista. Por isso, o autor pode ter seu artigo rejeitado, apesar dos pareceres apenas recomendarem revisão e ressubmissão, ou mesmo ser solicitada revisão quando um dos pareceres rejeitou o artigo, pois os editores consideram que os comentários indicam caminhos para uma revisão viável do texto.
Por que esse aparente descompasso entre pareceristas e editores? Os editores fazem uma análise integral dos pareceres, buscando entender as diferentes perspectivas e a força dos argumentos apresentados. Em alguns casos, pareceres solicitam mudanças que extrapolam a mera revisão, demandando alterações demasiadamente profundas considerando o prazo da revista. Quando os pareceres são muito díspares, os editores também podem optar por priorizar o parecerista que considera ser o maior especialista na temática ou o parecer que se alinha melhor com a linha editorial da revista. Por fim, os editores podem escolher publicar o artigo, mesmo sem a concordância total dos pareceristas. Para fazer isso, os editores e comitê editorial podem inclusive ler o artigo em questão e avaliar em que medida as mudanças solicitadas são de fato imprescindíveis para garantir sua qualidade.
VI. Chegou o parecer, e agora?
As respostas ou reações aos pareceres geralmente variam a depender do grau de mudanças sugerido. Esse é um momento carregado de frustrações. Primeiro porque conseguir concluir um artigo apto para a fase de avaliação por pares é um longo e árduo caminho. Segundo, a vida de pesquisador envolve uma série de exigências de publicação - o chamado produtivismo acadêmico - que quase sempre ocorre em ordem inversamente proporcional ao nosso tempo para dedicação à tarefa de pesquisa e escrita e às demandas de um processo editorial de qualidade. Ao reagir aos pareceres, é interessante pensar nos revisores como aliados, que dedicaram voluntariamente o seu tempo para contribuir para sua pesquisa (Lira Neto, 2023).
A primeira dica prática é não reagir à primeira leitura e ler várias vezes os pareceres para: sistematizar os pontos principais que requerem direta resposta ou justificativa e mapear as concordâncias e divergências entre os pareceres.
A segunda dica é levar a sério o processo de revisão, uma vez que a mesma pessoa que solicitou modificações lerá o seu artigo e não gostará de ver sua opinião ignorada. Nesse processo de revisão, é comum que os autores apenas adicionem ideias, e com isso extrapolem o número de palavras permitido, sem de fato realizar uma revisão geral do texto.
Texto revisto, a terceira dica é responder detalhadamente ao parecerista. Algumas revistas, além de uma carta resposta, solicitam que os autores também identifiquem no texto as principais mudanças. Esse processo agiliza a revisão subsequente e facilita o trabalho do revisor, podendo tornar sua publicação mais rápida.
Para elaborar a carta resposta considere os seguintes passos: 1) trate com respeito os pareceristas, pois, nos principais periódicos acadêmicos da área, este é ainda um trabalho praticamente anônimo e gratuito (Campos, 2019). Uma mensagem inicial de agradecimento é bem-vinda e mostra o respeito com o conhecimento científico, que é sempre cumulativo. 2) Os autores não são obrigados a aceitar todas as mudanças propostas, até porque os pareceres costumam discordar entre si. Porém, é essencial justificar suas escolhas e fundamentar a negativa. 3) Responda, se possível, a cada um dos principais questionamentos, apontando as mudanças realizadas. A Figura 3 apresenta um exemplo de modelo de resposta, adaptado da carta enviada a autoras e autores pela Revista de Sociologia e Política.
Em caso de novo pedido de revisão, não desista, reinicie o processo e considere que você está mais próximo do que no início de talvez ter seu artigo aprovado.
Casos de rejeição são diferentes e também demandam um certo posicionamento do autor. O primeiro cuidado é estar ciente que uma rejeição pode levar a várias emoções negativas, e autores podem passar por diferentes estágios de um ciclo de luto: “negação, raiva, barganha e depressão, ou um estado de miséria emotiva, que pode retardar ou mesmo prejudicar sua produtividade” (Teixeira da Silva & Nazarovets, 2025, p. 1). Por isso, é importante que as revistas tenham um desk-review rápido para evitar esperas desnecessárias. Ao mesmo tempo, ainda carecemos de maior especialização dos pareceristas e, por conta do excesso de trabalho ou mesmo da baixa valorização acadêmica para esta tarefa, nem sempre as revisões apresentam o detalhamento e até o respeito necessário com o autor, aumentando a frustração e a raiva.
Apesar desses limites inerentes ao processo de revisão por pares, é importante reconhecer que a rejeição de artigos geralmente está pautada numa lista extensa de motivos - discutida anteriormente - o que nos ajuda a entender por que é mais fácil um artigo ser rejeitado do que aprovado. Assim, a rejeição não precisa ser apenas uma experiência negativa. é possível aprender e revisar a partir da rejeição (Stewart, 2002 apud Teixeira da Silva & Nazarovets, 2025). Não é uma vergonha ter um artigo rejeitado e, com frequência, estudantes têm uma impressão errônea de que apenas eles passam por essa experiência. é importante ouvir os conselhos, aprender com as críticas e estar disposto a trabalhar nas fragilidades do artigo. Ou seja, você pode escolher a encarar essa etapa como um processo iterativo de investigação científica, que melhora os padrões pessoais e profissionais (Teixeira da Silva & Nazarovets, 2025).
VII. O processo de editoração e publicação
O caminho não acaba quando você recebe uma mensagem de aceite do artigo. Cada revista adota procedimentos muito variados para o processamento dos artigos até a publicação em suas plataformas próprias e/ou publishers de conteúdo científico. Vamos considerar aqui as diferentes etapas que podem ou não estar presentes a depender do periódico escolhido.
A mensagem de aceite geralmente apresenta uma série de procedimentos que devem ser seguidos para preparação do artigo e envio de sua versão final. Preste atenção em todas as instruções e, principalmente, não envie um documento final sem que ele esteja formatado de acordo com as regras da revista. Lembre-se que as revistas brasileiras e na área de Humanidades, em sua maioria, não adotam nenhum tipo de taxa de submissão, inscrição ou publicação. Mesmo aquelas que adotam taxas, contam com uma equipe que quase sempre é não remunerada. Além disso, as revistas sofrem cada vez mais de falta de financiamento e escassez de editais de fomento para realizar todo o trabalho discutido neste artigo. Então, é importante considerar que há um custo por trás de cada artigo publicado que pode ser diminuído com a responsabilidade dos autores no momento da formatação.
Após o envio da versão final, as revistas podem fazer uma revisão de português e normas de citação. Esta revisão geralmente é apresentada ao autor que precisa responder aos comentários do revisor de texto e realizar os ajustes necessários. é muito importante que o autor cumpra os prazos determinados, pois muitas vezes o atraso na publicação deriva da má comunicação com a revista nesse estágio.
Vencida a fase de revisão de texto, os artigos são enviados para profissional responsável pela diagramação. Nesse momento, geralmente é criado um arquivo em formato .pdf e realizada a padronização do artigo considerando o tipo de formatação, linguagem, uso de imagens, tabelas, quadros etc., adotados pela revista. Algumas revistas também solicitam dos autores que seja feita uma segunda revisão final, apontando erros de diagramação ou mesmo erros pontuais no texto que ainda não tinham sido percebidos. Os editores, assistentes e/ou comitê editorial farão uma revisão final para garantir que todas as etapas foram cumpridas.
Por fim, algumas revistas ainda precisam realizar a marcação e formatação de texto usando o XML (Extensible Markup Language), para criar uma estrutura de dados que pode ser interpretada por diferentes sistemas. Essa marcação será comunicada ao repositório de publicação que terá ainda, de acordo com seu fluxo de trabalho, um tempo para finalmente disponibilizar o artigo para o público. No caso da plataforma SciELO, por exemplo, a equipe responsável pela disponibilização pública dos artigos é pequena. Lembre-se de que além da revista em que você está publicando, existem mais de trezentas outras esperando que a mesma tarefa seja cumprida por essa plataforma.
VIII. Conclusão
O processo editorial não é perfeito e pode sofrer de várias falhas, como o viés e falta de transparência editorial, rigor de seleção excessivo, inadequação dos pareceristas sugeridos e viés dos avaliadores em relação aos autores e temas, baixa qualidade dos pareceres ou posição arrogante e indelicada do parecer - que deve ser corrigida sempre que possível pelos editores - entre outras. Aqui escolhemos dar ênfase nas características de um processo editorial, esclarecendo o caminho por trás de um artigo até ele chegar na fase vitoriosa de publicação. Na medida do possível, oferecemos algumas dicas de como navegar por esse processo e discutimos alguns dos dilemas centrais da prática editorial atualmente.
Como apresentamos, não é um processo fácil, mas é necessário para garantirmos a qualidade do conhecimento científico que está sendo produzido e divulgado no país. Neste artigo consideramos que o conhecimento do processo editorial, geralmente muito pouco visível ao público, pode contribuir para o aprimoramento da publicação científica no país. Há vários erros que podem ser inicialmente evitados, como a escolha correta da revista e a leitura de suas regras e linha editorial. Em relação à produção dos artigos, destacamos alguns dos principais motivos de rejeição nas diferentes fases de submissão e a necessidade de os autores estarem cientes do movimento de ciência e dados abertos, que tem sido intensificado nos últimos anos. Esse movimento coloca desafios à transparência e à ética editorial, ao mesmo tempo que demanda que os autores reflitam sobre anonimato, disponibilização de dados e interação com pareceristas. é muito importante ainda que os acadêmicos no país tenham ciência não só do trabalho hercúleo por trás de uma editoria e seus assistentes, bem como dos pareceristas, trabalho que em sua maioria é levado a cabo sem nenhuma remuneração ou mesmo reconhecimento. O bom relacionamento entre essas diversas partes do processo é fundamental para a melhoria dos artigos, a troca entre pares e a qualidade das publicações. Afinal, como diria o poeta José Datrino, mais conhecido como o Profeta Gentileza pelas ruas do Rio de Janeiro: “gentileza gera gentileza”. Ademais, a rejeição, mais comum do que imaginada, não é o fim do processo: pode ser o caminho.
Declaração de uso de IA
As autoras declaram que não utilizaram ferramentas de inteligência artificial generativa na elaboração deste manuscrito, assumindo total responsabilidade pelo conteúdo autoral.
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Declaração de disponibilidade dos dados
Todo o conjunto de dados deste estudo foi publicado no artigo.
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Financiamento
Esta pesquisa contou com o apoio da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP).
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1
Outros artigos da coletânea tratarão da preparação de artigos científicos. Alguns cursos sobre escrita científica também estão disponíveis online e podem ser acessados, por exemplo, o Curso de Escrita Acadêmica do canal da Professora Rosana Pinheiro-Machado. Disponível em: <https://www.youtube.com/@rosanapinheiro-machado9854>. Acesso em: 12 jan. 2026.
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2
Disponível em: <https://publicationethics.org/guidance>. Acesso em: 21 dez. 2026.
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3
O simpósio sobre transparência de dados produzido pela Seção de Pesquisa Qualitativa e Multimétodos da Associação Americana de Ciência Política é uma fonte muito rica de debates sobre este tema (Buche et al., 2015).
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4
Disponível em: <https://data.scielo.org/; https://dataverse.harvard.edu/>. Acesso em: 21 dez. 2025.
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Editor Científico:
Adriano Codato http://orcid.org/0000-0002-5015-4273
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Editor Associado:
Adriano Codato http://orcid.org/0000-0002-5015-4273
Todo o conjunto de dados deste estudo foi publicado no artigo.




Fonte: elaborado pelas autoras (2025).
Fonte: elaborado pelas autoras (2025).
Fonte: adaptação de modelo enviado pela Revista de Sociologia e Política, a partir da resposta enviada aos pareceristas deste artigo (2025).