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Gênero, trajetória de vida e biografia: desafios metodológicos e resultados empíricos<A NAME="BM_n"></A>

Gender, life courses and biography: methodological challenges and empirical results

Resumos

Com o objetivo de examinar as transformações sociais em trajetórias de vida, marcadas especificamente pela questão de gênero, na Alemanha, apresentaremos os resultados e os procedimentos metodológicos de um projeto de pesquisa empírica que trata de pesquisa sobre trajetórias de vida e biografias sob a perspectiva de gênero. À medida em que as transformações sociais nas trajetórias de vida dependem do entrelaçamento dos atores individuais e da estrutura social, a análise dessas trajetórias exige uma abordagem inovadora e que envolva múltiplos métodos - a integração das técnicas quantitativas. Após uma discussão teórica sobre as oportunidades e restrições associadas à vinculação dos métodos qualitativos e quantitativos, sua integração é ilustrada de forma prática, a partir de exemplos de nossa própria pesquisa. O formato e os resultados da pesquisa demonstram as vantagens e o caráter frutífero do uso de múltiplos métodos neste projeto de pesquisa.

gênero trajetórias de vida; biografia; abordagem de múltiplos métodos; integração de métodos quantitativos e qualitativos


In order to examine social change of gender specific life courses in Germany, results and methodological procedures an empirical research project, which deals with life course and biography research under the perspective of gender, will be presented. As social change in the life course depends on the interlacing of individual actors and social structure, the analysis of life course patterns requires an innovative mixed-methods approach - the integration of quantitative techniques. After a theoretical discussion of the opportunities and restrictions associated with linking qualitative and quantitative methods, their integration is illustrated in practice (with examples of our own research). The research design and the results show the advantages and fruitfulness of the mixed-methods approach within this research project.

qualitative methods; quantitative methods; gender; biography research; quantitative techniques; mixed-methods


INTERFACES

Gênero, trajetória de vida e biografia: desafios metodológicos e resultados empíricos* * Esta é uma versão escrita de um trabalho apresentado no Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 25 de maio de 2000. Traduzido por Beatriz Guimarães.

Gender, life courses and biography: methodological challenges and empirical results

Claudia Born

Pesquisadora Senior junto à Universidade de Bremen, membro do Special Collaborative Centre 186 Status passages and the life course.

RESUMO

Com o objetivo de examinar as transformações sociais em trajetórias de vida, marcadas especificamente pela questão de gênero, na Alemanha, apresentaremos os resultados e os procedimentos metodológicos de um projeto de pesquisa empírica que trata de pesquisa sobre trajetórias de vida e biografias sob a perspectiva de gênero.

À medida em que as transformações sociais nas trajetórias de vida dependem do entrelaçamento dos atores individuais e da estrutura social, a análise dessas trajetórias exige uma abordagem inovadora e que envolva múltiplos métodos - a integração das técnicas quantitativas. Após uma discussão teórica sobre as oportunidades e restrições associadas à vinculação dos métodos qualitativos e quantitativos, sua integração é ilustrada de forma prática, a partir de exemplos de nossa própria pesquisa. O formato e os resultados da pesquisa demonstram as vantagens e o caráter frutífero do uso de múltiplos métodos neste projeto de pesquisa.

Palavras-chave: gênero trajetórias de vida, biografia, abordagem de múltiplos métodos/integração de métodos quantitativos e qualitativos.

ABSTRACT

In order to examine social change of gender specific life courses in Germany, results and methodological procedures an empirical research project, which deals with life course and biography research under the perspective of gender, will be presented.

As social change in the life course depends on the interlacing of individual actors and social structure, the analysis of life course patterns requires an innovative mixed-methods approach – the integration of quantitative techniques. After a theoretical discussion of the opportunities and restrictions associated with linking qualitative and quantitative methods, their integration is illustrated in practice (with examples of our own research). The research design and the results show the advantages and fruitfulness of the mixed-methods approach within this research project.

Keywords: qualitative methods, quantitative methods, gender, biography research, quantitative techniques, mixed-methods.

Introdução

Minha apresentação tem como foco a pesquisa baseada na trajetória de vida e na biografia, sob a perspectiva de gênero. Envolve a comparação entre padrões de trajetória de vida de homens e de mulheres na Alemanha. Serão apresentadas aqui uma combinação atípica de métodos qualitativos e quantitativos que utilizamos em nosso projeto de pesquisa, bem como algumas descobertas. Após fazer uma explanação abrangente do que são os Centros Especiais de Colaboração (Special Collaborative Centre, a sigla alemã é Sfb) na Alemanha, serão apresentadas informações básicas relativas ao Special Collaborative Centre 186 da Universidade de Bremen.

Este trabalho está dividido em três partes:

A Parte I consiste de um esboço do conceito de pesquisa e da estrutura teórica do programa de pesquisa de nosso Sfb 186. De um modo geral, o Centro trata de pesquisas de trajetória de vidas e de mudança social ao examinar a interação entre o contexto institucional e significado subjetivo (ver Heinz, 1997; Weymann/Heinz, 1996).

A Parte II começa com as definições de trajetórias de vida e biografia e as diferenças e vínculos entre ambos os conceitos de pesquisa. Considerando a afirmação de que a mudança social depende do entrelaçamento entre atores individuais e a estrutura social num determinado tempo (ver Giddens, 1984) e que, ao menos na Alemanha, tanto as regras institucionais quanto o comportamento pessoal/individual são igualmente relevantes para o entendimento de padrões da trajetória de vidas e de suas mudanças através do tempo, irei concentrar-me em uma das principais questões e desafios provenientes do interesse desta pesquisa: é a questão metodológica de combinar informações estruturais e biográficas, ou seja, métodos de pesquisa padronizado-quantitativos e interpretativo-qualitativos. Essa parte é finalizada com algumas observações sobre a metodologia de combinação de métodos qualitativos e quantitativos.

Na Parte III, retorno ao nível empírico, que trata de nosso projeto de pesquisa no Sfb. Inicialmente darei aqui uma visão geral do programa de nosso projeto de pesquisa e, então, darei mais detalhes referentes ao trabalho empírico do primeiro e segundo projetos que realizamos entre 1988 e 1995, refletindo sobre trajetória de vida de alemães. Falarei sobre o nosso interesse na pesquisa, a concepção e composição do projeto, procedimento metodológico e apresentarei alguns resultados e descobertas que ilustram na prática o entrelaçamento e a relação de métodos e informações qualitativos e quantitativos.

Centro Especial de Colaboração (Sfb) 186: estrutura teórica e programas de pesquisa

Os Centros Especiais de Colaboração foram criados pela Fundação de Pesquisa da Alemanha com o objetivo de incentivar a pesquisa interdisciplinar com uma perspectiva de longa duração, em geral de 12 anos. Eles estão baseados num programa de pesquisa abrangente, que é avaliado por uma banca examinadora de especialistas, a cada três anos. Cada Centro Especial de Colaboração inclui projetos diversos que tratam de questões diferentes relacionadas a um tópico central. Eles atendem tanto ao desenvolvimento da pesquisa empírica básica quanto ao treinamento de jovens acadêmicos.

O Centro Especial de Colaboração da Universidade de Bremen (Sfb 186) foi criado em 1988, e o tema principal é Mudança de Status e Riscos na Trajetória de Vida. O subtítulo é Controle Institucional e Ação Individual. Em janeiro iniciaremos a quinta e última fase de pesquisa, que se manterá até o final de 2001. Atualmente envolve 9 projetos (o número de projetos muda a cada 3 anos, dependendo da avaliação feita pela Fundação de Pesquisa Alemã), abordando diferentes aspectos da pesquisa da trajetória de vida e biografia. Os temas dos projetos variam de carreiras na área social, na saúde pública, e comportamento desviante, até a investigação de vínculos entre carreiras ocupacionais e biografias familiares.

A pesquisa sobre a trajetória de vida introduziu debates essenciais sobre a estrutura social e a ação individual. Considerando que, desde os tempos da descoberta da trajetória de vida como uma questão sociológica (inicialmente por Thomas/Znaniecki, 1918), muitos autores se concentraram na relação entre mudança social e biografias e sua adaptação aos novos contextos sociais e culturais. Outros enfatizaram os acontecimentos regulados institucionalmente envolvendo grupos com diversas pressões sociais ou oportunidades, tendendo a negligenciar a perspectiva do indivíduo. Atualmente a trajetória de vida e a biografia tornaram-se ambas campos de trabalho interdisciplinar fundamentais nas ciências sociais. Este desenvolvimento responde às atuais modificações nos padrões de trajetória de vida, experiências biográficas e planos de vida, resultado da desregulamentação no mercado de trabalho, processos de modernização cultural e de mudança no direcionamento do trabalho e da vida familiar.

Para descobrir as relações entre mudança social e trajetória de vida, consideramos tanto os procedimentos institucionais quanto soluções individuais, tendo em vista os riscos que ocorrem nas transições entre educação, trabalho e família, bem como as que ocorrem durante uma única história de emprego, por exemplo. No sentido de analisar esses desenvolvimentos, vamos concentrar-nos na noção de mudança de status. Essas transições envolvem, por exemplo, a mudança da escola para um treinamento profissional, do treinamento para o trabalho, mudanças dentro da estrutura de emprego e também transições entre o emprego e a família.

Usamos também o conceito de mudança de status para ligar uma perspectiva micro à macro (ver, por exemplo, Alexander et al., 1987). Consideramos que os indivíduos desenvolvem perspectivas de vida e negociam variações ao longo de suas vidas, tendo como referência a mudança de status e que une várias áreas e estágios da vida. As mudanças de status conferem - como momentos cruciais - uma estrutura à trajetória de vida.

No Centro Especial de Colaboração em que atuamos, existem alguns projetos que se concentram nas conseqüências das normas e regulações institucionais comparando grupos diversos. Outros estudam experiências biográficas e planejamento de vida em diferentes estágios do ciclo de vida. Outros grupos ainda tratam da estruturação do curso de vida e suas transições, bem como tratam da interpretação individual das experiências de transição e suas atividades, razões e orientações das alterações dentro da situação de mudança de status. Nosso projeto pertence a esse terceiro grupo. Como já indiquei, estaremos tratando disso na terceira parte.

Trajetória de vida, biografia e o método de abordagem combinada

Iniciaremos com a definição de trajetória de vida como uma estrutura social em comparação com o que é chamado de biografia normal e as realizações individuais dessas trajetórias/biografia únicas, então indicando as diferenças e suas similaridades, aproximações e interdependências. Finalmente abordarei os desafios metodológicos relacionados a isso.

A trajetória de vida pode ser descrita como um conjunto de eventos que fundamentam a vida de uma pessoa. Normalmente é determinada pela freqüência dos acontecimentos, pela duração e localização dessas existências ao longo de uma vida. O curso de uma vida adquire sua estrutura pela localização desses acontecimentos e pelos estágios do tempo biográfico. A localização dos acontecimentos, a duração da existência e a sua situação no transcurso de uma vida são normalmente o resultado de informações que perpassam a população como, por exemplo, a idade média para casar, a idade média para ter o primeiro filho, duração do treinamento, idade de ingresso escolar, anos de escolaridade, idade para aposentadoria e assim por diante.

O curso de uma vida, composto por essas informações sociodemográficas, pode ser considerado como socialmente estruturado num maior ou menor grau, em toda a sociedade moderna (Mayer & Müller, 1986) guardando, certamente, as diferenças e peculiaridades nacionais e culturais. A Alemanha, por exemplo, é um caso extremo de uma política cujas trajetórias de vida são institucionalmente reguladas. Há exigências formalizadas de treinamentos para determinados trabalhos e uma correlação relativamente alta entre nível de educação, ocupação, estratificação de cargos e carreiras (Krüger & Baldus, 1999).

Mas a trajetória de vida não apenas forma a sua estrutura por meio dessas instituições reguladoras (como o sistema escolar, o mercado de trabalho e o sistema de bem-estar com suas leis específicas), mas também é definida pela sua padronização que, ao mesmo tempo, produz suas normas. É devido a essas normas que definimos, por exemplo, uma certa idade como sendo muito cedo para casar, ou mesmo para morrer. Este conhecimento - sobre o que ocorre na vida de alguém - faz com que as pessoas acreditem que a trajetória de vida seja previsível. Mas não se trata, absolutamente, de um fenômeno natural; isto surgiu apenas ao longo do processo de modernização e está ligado a uma mudança estrutural no curso da vida. Somente a trajetória da vida moderna está esquematizada numa duração determinada, estruturada pelas instituições. E isso influencia o próprio plano de curso de vida das pessoas, o qual - se compararmos o projeto de vida que indivíduos de uma nação ou espaço cultural diversos têm para si - seria muito parecido.

O vínculo entre a estrutura de uma trajetória de vida moderna, acrescida de uma análise de informações verticalizadas, e a realização da trajetória de vida dos assuntos/biografia do indivíduo é a chamada biografia normal. É um conceito formulado por Levi (1977), um sociólogo suíço. Embora provavelmente haja grandes diferenças relativas à imaginação de uma biografia normal entre países diferentes, isso é o resultado de normas e de estruturas modeladas culturalmente. Mas há - segundo Levi - ao menos dois tipos de biografias normais num mesmo país. Significa, portanto, que há diferença de gênero. Uma típica trajetória de vida, ou aquela normal, de uma mulher apresenta-se diferente da do homem e, da mesma forma, as mulheres têm percepções de trajetória de vida diferentes das que os homens têm a respeito de suas próprias vidas.

Isto nos remete ao segundo conceito: a pesquisa biográfica. A biografia trata da interpretação subjetiva da trajetória da própria vida de uma pessoa. A biografia não apenas inclui o local dos acontecimentos, mas também a sua opinião, os motivos, planos para o futuro, assim como a percepção/interpretação do passado. As biografias são sempre seletivas, e uma das conseqüências é que temos mais do que uma biografia. Todas elas refletem, ou melhor, reconstroem a realidade biográfica, mas normalmente enfatizam áreas diferentes. Por exemplo: a sua biografia apresentada numa entrevista para seleção é certamente diferente daquela que você relata ao seu médico, e esta será diferente de uma biografia que você irá contar para um novo amigo - embora a estrutura do curso de sua vida mantenha-se a mesma.

As biografias são geralmente compostas e analisadas usando informações qualitativas, como conseqüência de os próprios indivíduos relatarem suas histórias. Portanto, as biografias são interpretações subjetivas de experiências individuais. Ao passo que as informações estruturais da trajetória de vida, ou da situação dos acontecimentos, das fases, e de sua duração podem ser coletadas em pesquisa de forma quantitativa.

A regulação institucional - vinculada ao sistema educacional, ao mercado de trabalho, definição de políticas sociais e familiar - e comportamentos e ações individuais são igualmente relevantes para o entendimento dos padrões de trajetória de vida. Por sua vez, eles desafiam a metodologia: a análise dos padrões de trajetória de vida requer a combinação inovadora de informações qualitativas e quantitativas.

Portanto permitam-me apresentar aqui algumas pequenas observações sobre conceitos metodológicos. Ainda que a concepção de pesquisa que combina informações ou métodos qualitativos e quantitativos tenha uma longa tradição na pesquisa sociológica (ver, por exemplo, estudos do caso de Le Play no século XIX, Burgess, 1927 em Chicago) este fato foi obscurecido, no início dos anos 80, pelo debate intenso entre especialistas em metodologia qualitativa e quantitativa sobre qual das abordagens seria a mais apropriada para a investigação do universo da vida moderna.

Uma das proposições metodológicas que ainda é bastante popular entre os pesquisadores quantitativistas para vincular técnicas quantitativas e qualitativas no mesmo projeto de pesquisa é a definição de fases diversas durante uma investigação (Barton & Lazarsfeld, 1955). Seguindo essa linha, os métodos qualitativos devem ser usados numa fase preliminar como um recurso para a produção de hipóteses, ao passo que os métodos quantitativos devem ser empregados para testar essas hipóteses. Este tipo de vínculo está baseado na suposição de que os métodos qualitativos são bastante adequados para explorar o campo de pesquisa e descobrir aspectos imprevisíveis da realidade, mas em geral não são adequados para provar ou refutar teorias, pelo fato de que os exemplos qualitativos não são selecionados de uma forma sistemática, e a informação não é medida de um modo preciso e não pode, portanto, ser generalizada. Essas condições somente poderiam ser satisfeitas por meio de uma pesquisa quantitativa com suas técnicas de amostras elaboradas, métodos de construção de índices e teoria de erros.

Durante a última década, o debate metodológico entre pesquisadores quantitativos e qualitativos mudou o seu foco para a integração dos dois métodos, reportando-se a noções como o vínculo entre micro e macro (ver Alexander et al. 1987), a de abordagem de métodos mistos (Fielding & Fielding, 1986) ou a da triangulação (Denzin, 1977). O ponto de partida para esta discussão era a idéia de que as diversas metodologias de pesquisa - análise interpretativa da informação qualitativa e análise estatística da informação numérica quantitativa – têm cada qual seus pontos fortes e fracos específicos. Enquanto a pesquisa quantitativa freqüentemente negligencia o fato de que as estruturas sociais somente podem sobreviver quando são ativamente reproduzidas e representadas por atores sociais, os pesquisadores qualitativos tendem a ignorar que existe uma realidade social objetiva além das interpretações individuais e, assim, tendem a desconsiderar a diferença entre narrativas e realidade. Mas é claro que é difícil estudar, ao mesmo tempo, o mesmo fenômeno social tanto extensiva quanto intensivamente. Sob a perspectiva de economia da pesquisa não seria propriamente possível aplicar os métodos de análise interpretativa para uma grande variedade de amostras coletadas em estudos quantitativos. E por outro lado, não existem, até o momento, métodos estatísticos para analisar pequenas amostras selecionadas deliberadamente, que produzam resultados que possam ser generalizados com um bom padrão. Mas, em relação à pesquisa de trajetória de vida, a integração de uma perspectiva biográfica com a análise das estruturas sociais que influenciem nessa trajetória, dificilmente será concebível sem uma metodologia que contemple as duas abordagens.

Antes de ilustrar como conseguimos aliar os métodos qualitativos e quantitativos em relação ao mesmo objeto de pesquisa, na parte III, irei apenas mencionar a relação possível entre os resultados conseguidos pelos métodos qualitativos e quantitativos (ver em detalhe Erzberger & Prein, 1997).

Se considerarmos fontes e métodos diferentes de informação sobre um mesmo campo empírico podem-se obter três resultados diversos em relação ao seu vínculo:

1. Os resultados podem ser congruentes, o que significa que eles chegam ao mesmo resultado. Nesse caso, os resultados podem ser interpretados como algo que reforça a validade das conclusões.

2. Os resultados podem ser complementares. Isto quer dizer que se pode obter um quadro mais completo do fenômeno investigado, de tal forma que os métodos diferentes representem perspectivas, aspectos, ou níveis de realidade diferentes. As diversas conclusões podem ser chamadas de complementares se puderem ser integradas sob uma premissa teórica comum. Se não houver uma premissa teórica sobre a relação entre as conclusões empíricas, nenhuma complementaridade pode ser encontrada.

Os resultados podem ser incongruentes/divergentes. E isto acaba sendo sempre uma descoberta desagradável porque não prevista. A discrepância de resultados, em primeiro lugar, obriga necessariamente o pesquisador a rever todos os estágios da investigação no sentido de detectar possíveis erros de interpretação e de metodologia. Mas chegar a resultados discrepantes não significa necessariamente que seja devido a erros. Se você for capaz de provar que os métodos e a interpretação não são inapropriados, mas os resultados parecem contraditórios, isso oferece uma oportunidade de encontrarmos novas idéias teóricas. As novas percepções teóricas emergem por meio da combinação de conhecimentos adquiridos com novas experiências. Isto significaria que a relação dos resultados muda da discrepância para a complementaridade1 1 Um conceito para explicar a variedade de fatos novos e claramente contraditórios foi desenvolvido por filósofos como Pierce e Hanson e é chamado de apropriação ( abduction). De acordo com essa abordagem os fenômenos novos e inesperados são explicados ao se estabelecerem ligações entre teorias que até então tinham sido adotadas em campos de pesquisa diversos. Mas isso deve ser considerado não como o fim, mas como o ponto de partida para a produção de novas percepções teóricas. .

Gostaríamos de encerrar a discussão mais ou menos teórica sobre as possibilidades e dificuldades relativas à ligação e relação dos métodos qualitativos e quantitativos e nos concentrar em nosso próprio projeto de pesquisa do Sfb no qual utilizamos, na prática, a estratégia da triangulação.

Assim, chegamos à terceira parte do meu trabalho: nosso projeto (B1), começando com o programa de pesquisa.

Em primeiro lugar, devo dizer que o interesse de pesquisa e as informações reunidas refletem a trajetória de vida alemã. Temos - como mencionei antes – uma política na qual as trajetórias de vida são extremamente reguladas institucionalmente, o que causa um imenso impacto específico de gênero (ver Born/Krüger, 1994).

Nosso interesse de pesquisa envolve a mudança social de trajetória de vida específica de gênero entre família e mercado de trabalho como processo de desenvolvimento no curso de vida e entre as gerações do final da II Guerra Mundial até os dias de hoje. No sentido de desvendar as seqüências e os padrões de trajetória de vida, considerando as diferenças e similaridades dessas trajetórias entre mulheres e homens, investigamos em cada um dos períodos de nossos (quatro) projetos do Sfb amostras e questões de pesquisa diferentes.

Partimos do pressuposto de que a trajetória de vida não está isenta da questão de gênero, mas que existem diferenças específicas de gênero relativas à mudança de status entre a atividade doméstica (família) e o emprego, entre homens e mulheres. A atividade doméstica é concebida como a realizada individualmente no interior da família. E este tipo de trabalho continua a ser identificado, em grande parte, como um trabalho da mulher.

Seguindo Kohli (1985), um sociólogo suíço, a trajetória da vida moderna é, em geral, organizada em torno do sistema de emprego - com uma nítida divisão tripartite de estágios da vida em uma fase de preparação para o trabalho, uma de atividade econômica, e uma outra de aposentadoria.

Pré-emprego

emprego

pós-emprego

Mas acreditamos que este modelo de três fases é válido somente para os homens. Considerando que os homens são vistos como o suporte da família, a trajetória de vida deles está estruturada por uma extensa vida de participação no mercado de trabalho. Embora a família não seja vista como uma instituição que interfira na trajetória de emprego da vida de um homem, a família e a atividade familiar têm um impacto enorme nos padrões de trajetória de vida da mulher. Assim, o modelo de vida em três fases foi prematuramente atribuído como sendo apropriado para a trajetória de vida da mulher. Em relação ao conceito de Levi de biografia normal, que já mencionei anteriormente, a primeira fase na trajetória de vida da mulher é a fase do emprego, seguida da fase familiar sem emprego, e então, uma segunda fase de emprego. Há uma suposição implícita de que as mulheres seguem este " modelo das três fases" como afirmado por Myrdal/Klein (1962).

De acordo com esse modelo, as mulheres trabalham antes do casamento e da maternidade, param de trabalhar para ficar em casa cuidando dos filhos, e então, quando as crianças saem de casa (a fase do ninho vazio) retornariam ao mercado de trabalho. Portanto, aquela fase única centrada no emprego do homem adulto seria dividida em três fases diferentes na trajetória de vida da mulher.

Emprego

Familía

Emprego

Conseqüentemente, dois gêneros diferenciados de padrão de trajetória de vida emergem.

Nossa segunda premissa, comparando grupos diferentes, aponta - especialmente na Alemanha - para a existência de mudanças estruturais na integração dos sexos no sistema de emprego. Elas podem ser consideradas como o resultado de tentativas das mulheres em aumentar a proporção de empregos pagos nas suas biografias, no sentido de reduzir a dependência individual na manutenção da casa. As mulheres de gerações mais jovens estão em grande parte muito mais integradas no mercado de trabalho do que as gerações mais velhas costumavam ser. E, por outro lado, observamos sob a perspectiva intergeracional mudanças específicas nos homens, relativas à orientação dos mesmos em termos da família e da reprodução.

Desta forma, a questão principal que resulta desses modelos e premissas é se, e em que extensão, ambos os sexos experimentam as mesmas seqüências nas trajetórias de vida, se há mudanças nos diferentes grupos, ou mesmo na trajetória de vida de homens e mulheres nos últimos 40 anos. O que fizemos para responder a essas questões?

Na primeira fase do ciclo de nosso projeto, foi realizado um estudo qualitativo e quantitativo do emprego e das histórias de família de mulheres que concluíram seus treinamentos imediatamente após a II Guerra Mundial (1948-49). Acompanhamos o padrão do curso de vida dessas mulheres de 1949 a 1991. Todas as mulheres tinham sido treinadas para uma das cinco ocupações mais populares para mulheres (cabeleireira, costureira, balconista, escriturária, babá) e todas se casaram e tiveram filhos (na maioria, durante os anos 50). Na época da pesquisa e das entrevistas a maioria das mulheres tinha 60 anos e estava em idade de aposentadoria, e assim podia rever o passado e narrar integralmente a sua história de emprego e os anos de criação dos filhos.

O projeto seguinte - o segundo - concentrou-se nos maridos dessas mulheres, e fizemos um paralelo de suas vidas. Eles foram entrevistados com a intenção de esclarecer o entrelaçamento do curso de vida entre homens e mulheres. O objetivo era descobrir um processo de modernização na relação dos casais. A hipótese principal era a de que a mudança extraordinária entre a participação no mercado de trabalho e o trabalho familiar - uma descoberta da primeira fase do projeto - também desencadeara mudanças no comportamento dos maridos ou em sua orientação em relação à família e à ocupação.

O terceiro projeto estava relacionado aos processos de mudança dentro dos padrões da vida familiar entre as duas gerações. Os filhos adultos (de ambos os sexos) dos casais analisados nos dois projetos de pesquisa precedentes foram entrevistados para explorar a sua própria vida familiar no sentido de descobrir quais atitudes e comportamentos eles haviam herdado de seus pais e quais os que haviam rejeitado, constituindo-se como membros de uma nova geração.

A quarta fase foi concebida para selecionar as descobertas da primeira fase e investigá-las com mais profundidade, com amostras maiores e mais diversificadas.2 2 Na primeira fase, a descoberta surpreendente foi o extraordinário poder das cinco ocupações modelando o curso de vida das mulheres, e não, como é freqüentemente afirmado, a família. Considerando que todas as ocupações forneceram qualificações num mesmo nível, os diferentes padrões de emprego observados poderiam unicamente ser explicados como característicos para as diversas ocupações. Na quarta fase, a rede foi ampliada para incluir dez ocupações, mulheres mais jovens, e a restrição às mães casadas foi abolida. Um questionário padronizado foi enviado para 6240 mulheres que tinham sido treinadas para essas ocupações e foram devolvidos 2130 questionários completos. Estes continham informações sobre as histórias de empregos e de família dessas mulheres.

Porém irei concentrar-me nos dois primeiros projetos, iniciando com a concepção empírica. Nos dois projetos, a concepção da pesquisa consistiu de um método de amostragem gradual examinando tanto a dinâmica da trajetória de vida socioestrutural quanto a auto-avaliação biográfica.

Selecionamos uma amostra inicial de 500 mulheres aleatoriamente retiradas da Câmara de Comércio, que mantém um registro de candidatas para treinamento profissional e testes de aprendizado. Com o objetivo de estudar as diferenças culturais, escolhemos grupos de duas regiões culturalmente contrastantes da Alemanha Ocidental, uma, protestante urbana e outra, católica rural. Escolhemos as ocupações referidas anteriormente, que eram, e ainda são, as cinco ocupações mais comuns para mulheres (cabeleireira, escriturária, costureira, balconista, e babá) que requerem todas um treinamento equivalente. Portanto, queríamos examinar o impacto do mercado de trabalho, família e auto-avaliação de suas vidas.

Esta amostragem foi pesquisada através de um questionário enviado pelo correio sobre informações gerais (data de casamento, data de nascimento dos filhos, nascimento dos netos, começo e término de todos os tipos de empregos, aposentadoria, e fases da família). Com base nessas informações, foram selecionadas 220 mulheres para estudos posteriores. Conferimos a consistência dessa amostragem quantitativa, embora pequena, em comparação com amplas informações, tais como estatísticas governamentais que mostravam que nossa amostragem não era tendenciosa em relação à média de idade de casamento, maternidade, número de filhos, índice de divórcio, etc.

Num terceiro momento, 52 dessas mulheres foram escolhidas para entrevistas centradas em problemas, de novo, distribuídos igualmente ao longo do espectro de trajetórias identificadas nos 220 casos. Escolhemos grupos com características variável/estrutural. Para a variável "ocupação" selecionamos 10-12 mulheres de cada um dos grupos ocupacionais; para a da variável configuração de status de trajetória de vida, escolhemos 10-12 mulheres que tinham sido, na maior parte do tempo, empregadas, ou ao contrário, donas-de-casa, ou que, freqüentemente oscilavam entre essas esferas. Esse procedimento nos permitiu a comparação entre grupos contrastantes, bem como isolar o impacto das variáveis estruturais na interpretação das próprias mulheres.

A técnica das entrevistas centradas em determinadas questões permite uma narrativa de momentos decisivos, mas também permite que o entrevistador intervenha para direcionar respostas em torno de áreas específicas de interesse, em nosso caso, a entrada e saída do mercado de trabalho, ou mudança na família ou no status. Estes momentos decisivos foram apresentados ao respondente como ajuda para memorizar, na forma de um mapa baseado nas informações do questionário. (Irei ilustrar isto mais adiante).

O segundo projeto trata da trajetória de vida e interpretações pessoais de 118 dos maridos dessas mulheres, que concordaram em participar do estudo. Todos completaram um questionário sobre suas vidas, e continuamos com entrevistas qualitativas com 43 deles. Já que não havia diferença na trajetória de vida dos homens, eles foram agrupados conforme as características de vida das suas mulheres – empregadas, na maior parte do tempo, ou donas-de-casa, na maior parte do tempo, ou, em trânsito freqüente entre uma atividade e outra.

O seguinte gráfico mostra a concepção do projeto:

Gráfico 1: Concepção do projeto

Estágio 1:

Total de todos os treinamentos profissionais em 1948-49 em duas regiões

(Região urbana protestante/rural católica)

Estágio 2:

Pesquisa pelo correio com questionários abrangendo mulheres treinadas em cinco ocupações:

balconista; escriturária; cabeleireira, costureira, babá

Acontecimentos familiares tratados:

casamento, nascimento de crianças, divórcio/viuvez, netos

Perguntas sobre a vida profissional

períodos de trabalho na ocupação em que foi treinada

em outras áreas ocupacionais

em ocupações sem contribuição para o seguro social

220 casos foram selecionados para análises posteriores

Estágio 3:

Entrevista qualitativa com 52 mulheres

base: padrão de seqüência de vida/padrão de configuração dominante

Momentos decisivos:

educação profissional (escolha e circunstâncias)

entrada e saída do mercado de trabalho

experiências no trabalho e na família

padrões de vida planejados para filhas e filhos

_________________________

Projeto de Acompanhamento (concepção estruturada similar)

Sobre a trajetória dos maridos

padrões de carreira (n=118)

entrevistas qualitativas (n=43)

O perfil a seguir foi retirado de informações dos questionários padronizados e ilustram a trajetória de vida de uma das 220 mulheres de nosso estudo.

Gráfico 2: Trajetória de vida de uma mulher/Id. n.091


Explicando o gráfico. No sentido de apresentar informações sobre emprego e família, de acordo com a idade e qualificação, o gráfico começa em 1949 com o final do treinamento da entrevistada e termina em 1991, ano em que inicia nossa investigação. Os anos de emprego pago estão representados em blocos que podem ser vinculados às seqüências dos acontecimentos familiares. Os períodos de emprego pago foram posteriormente diferenciados conforme elas tivessem sido treinadas para o cargo, ou não, em outros trabalhos, ou em trabalhos parciais de menos de 18 horas por semana e um salário de menos do que 560 marcos por mês, que não requer contribuição para o seguro social obrigatório. Os períodos posteriores de educação e treinamento adicionais são também representados em blocos.

Fizemos o mesmo em relação aos maridos, e o gráfico a seguir mostra a trajetória de vida que obtivemos de um dos maridos.

Gráfico 3: Trajetória de vida do marido, no. 856


As diferenças de trajetórias de vida são evidentes.

Ao analisar a trajetória de vida de uma mulher somos imediatamente surpreendidos pela descontinuidade temporal e pelo número de mudanças de empregos durante a vida de uma mulher. Embora este seja um caso extremo, não deixa de ser representativo: menos da metade da trajetória de vida das 220 mulheres correspondem a qualquer uma das fases da trajetória de vida descritas por Levy ou Myrdal/Klein.

Ao contrário, os padrões de trajetória de vida dos maridos correspondem perfeitamente às fases exemplares descritas por Kohli. E não há diferenças entre as trajetórias de vida individual dos homens. Portanto, acreditamos que o modelo de trajetória de vida dos homens, ou da "biografia normal" dos homens, reflete a realidade: os homens estão integrados no mercado de trabalho sem interrupção. Tudo é perfeitamente congruente se compararmos as entrevistas qualitativas dos maridos e suas biografias normais. Eles realizam individualmente aquilo que acreditamos os homens fazem normalmente, e se perguntarmos a eles quais as razões de seu comportamento em particular, eles responderão que este é o tipo normal de vida de um homem. Afirmam que, em relação ao seu papel de provedor da família, eles têm que passar suas vidas sustentando suas famílias, o que significa uma participação contínua e extensa no mercado de trabalho, caso não fiquem doentes ou desempregados. Novamente, considerando a relação de resultados quantitativos e qualitativos da trajetória de vida dos maridos individualmente, a biografia normal dos homens e a estrutura do curso de suas vidas, temos um bom exemplo de convergência perfeita. O curso de vida de um homem está estruturado pela sua participação no mercado de trabalho.

Não encontramos tal compatibilidade em relação ao curso de vida das mulheres. Começando com os resultados das informações quantitativas, uma das descobertas significativas foi a falta de evidência do modelo tradicional de três fases, do curso de vida no caso da trajetória de vida das mulheres. Muitas das saídas do mercado de trabalho não coincidem com o nascimento de filhos, mas ocorrem muito mais tarde. Da mesma forma, a duração do recesso familiar não era absolutamente uniforme. Muitas mulheres retornaram ao trabalho imediatamente após o parto, ou entre os partos, e certamente não esperaram até o estágio seguinte, quando os filhos saem de casa (empty nest). A investigação inicial sobre o número de transições entre emprego pago e os recessos familiares mostrou que eles ultrapassavam três transições. As mulheres que possuíam apenas um momento de transição, que se tinham retirado completamente do mercado de trabalho após esse acontecimento inicial (que era o modelo estabelecido para as mulheres na década de 50), eram menos de um terço (32%). Mulheres com dois momentos de transição, aquelas que retornaram aos empregos pagos depois do recesso familiar e, portanto, de acordo com o modelo das três fases, eram somente 15%. Ainda que teoricamente a família seja considerada a maior instituição no curso de vida da mulher, a idéia de que o ciclo da maternidade e da família sejam os fatores reguladores na trajetória de vida das mulheres, não encontra suporte na realidade segundo nossa amostragem.3 3 Este é um resultado que Levy tende a desconsiderar, já que ele concentra seu foco no nascimento dos filhos e consegue evidência por meio de dados empíricos agregados. Produzido por agregação estatística de dados de emprego envolvendo um acontecimento que define o curso de vida de todo o grupo de mulheres num tempo biográfico semelhante - o nascimento dos filhos -, as descobertas dessas fases revelaram-se artificialmente construídas. Outros recessos também são desconsiderados, já que são distribuídos ao longo de um período extenso. Esses fatos tendem a ser omitidos ao agregar-se evidência empírica e somente podem ser revelados ao analisar-se a trajetória de vida por meio de informação longitudinal.

Numa análise posterior da informação quantitativa da trajetória de vida das mulheres, foi utilizada uma técnica chamada life-time-budget-analyses abrangendo 40 anos entre o término da escolaridade (aos 20 anos) até a aposentadoria (aos 60). Para este período, a média de tempo gasto em emprego pago (tanto para aquelas atividades especializadas quanto para as outras) e o tempo gasto fora do mercado de trabalho foi calculado para cada respondente. Utilizamos uma análise de grupo de acordo com a duração do emprego, como segue:

a. nos trabalhos para os quais ela tinha sido treinada anteriormente;

b. nos trabalhos em que a mulher não tinha sido treinada;

c. nos trabalhos sem contribuição ao seguro social.

Quatro grupos com alta importância estatística surgiram para as mulheres na amostragem.

O grupo 1 inclui as mulheres que passaram a maior parte do tempo da sua vida ativa (28,6 anos) em trabalhos diferentes daqueles para os quais tinham sido treinadas. As mulheres do grupo 2 trabalharam por um período muito menor (7,5 anos) e não mudaram o seu campo de atuação. No grupo 3, encontramos mulheres que trabalharam por períodos longos em situações relacionadas à sua qualificação inicial. O grupo 4 mostra mulheres que trabalharam por um longo período, principalmente em atividades não cobertas pelo seguro social.

Este procedimento revelou diferenças surpreendentes entre as ocupações relacionadas às áreas de treinamento inicial e o curso de vida ativa, posteriormente: as balconistas e as costureiras são bastante representativas no grupo 1, as cabeleireiras no grupo 2, e escriturárias no grupo 3. No grupo 4, as babás estão excessivamente representadas. Portanto, o que observamos foi a força da primeira ocupação na trajetória de vida da mulher. A distribuição das mulheres ao longo de cada grupo é, portanto, fortemente influenciada pelos fatores ocupacionais.

As conclusões contradizem não apenas o argumento corriqueiro de que a participação da mulher no mercado de trabalho depende da situação familiar e das tarefas correspondentes, mas contradizem também o argumento de que a participação da mulher no mercado de trabalho depende do salário do marido, o que foi sempre a conclusão dos estudos quantitativos durante os últimos 35 anos. Os salários dos maridos, normalmente são definidos conforme o status socioeconômico do homem. Porém, quando o status do marido (do qual temos informação pelo segundo projeto) era incluído na análise, não desaparecia a relação forte entre a ocupação e a participação no mercado de trabalho na trajetória de vida das mulheres. Por exemplo, os maridos das cabeleireiras (que trabalhavam pouco) não recebiam mais do que os das escriturárias (que trabalhavam bastante).

Parece que as análises qualitativas das entrevistas realizadas levam a um entendimento mais preciso da trajetória de vida dessas mulheres, da quantidade de empregos, e das circunstâncias que as levaram a eles. Mas a análise das entrevistas com as 52 mulheres, ou seja, o material qualitativo, mostrava que as mulheres viam seus maridos como fator decisivo na sua própria participação no mercado de trabalho. Elas afirmaram que as dificuldades, ou o estímulo, de seus maridos na participação delas no mercado de trabalho foi o resultado de um processo de negociação. E isso foi confirmado nos depoimentos com os maridos. Eles também acreditavam que eram responsáveis pela participação de suas mulheres no mercado de trabalho.

Se tivéssemos confiado apenas nos resultados do estudo quantitativo teríamos concluído que as mulheres entram no mercado de trabalho independentemente dos seus maridos. Por outro lado, se tivéssemos apenas considerado o material qualitativo teríamos concluído que a decisão das mulheres de participar do mercado de trabalho, em grande parte, dependia de seus maridos. Portanto, a informação que se origina dessas duas fontes de pesquisa parecem contradizer uma a outra, e não poderiam ser integradas como hipótese no texto. Assim, tivemos aqui um caso de divergência, o que nos impeliu a considerar outras explicações até então desconhecidas para essa questão

Acrescentando-se a isso, a combinação dos resultados qualitativos e quantitativos esclareceu a discrepância dando complementaridade a ela. As conclusões das entrevistas com as mulheres revelaram que as diversas ocupações proporcionaram às mulheres um poder de negociação maior ou menor dentro da família, assim como com os seus maridos (ver Born et al. 1997).

Como pudemos evidenciar, tanto através das mulheres quanto pelos seus maridos, muitos dos homens eram contra a idéia de suas mulheres retornarem ao trabalho depois de terem os filhos. Por outro lado, foi possível entender também que a maioria das mulheres queriam retornar ao mercado de trabalho. Levando em conta as razões apresentadas pelas mulheres para entrarem no mercado de trabalho, ficou evidente que o salário tornou-se uma questão dominante em função de que os maridos consideravam as questões salariais as únicas realmente válidas. Dessa forma, as mulheres tinham que ocultar o seu desejo de ter um trabalho por sua própria vontade - o que não estava de acordo com as regras ou com a biografia normal de uma mulher - em função de receber algum salário. Como conseqüência, tornou-se claro que quanto melhor as oportunidades de trabalho associadas a certas ocupações, mais fácil tornou-se para as mulheres negociar o seu retorno. Assim, o resultado dos acordos entre os casais dependia da situação ocupacional do marido e da formação profissional específica da mulher. Tendo em vista que o salário era o único argumento aceito pelos maridos, a oportunidade de as mulheres retornarem ao mercado de trabalho dependia do seu treinamento profissional anterior. Cabeleireiras que recebiam muito pouco não conseguiam convencer seus maridos de que seria oportuno trabalhar. Já as escriturárias que recebiam salários maiores o conseguiram.

Concluindo, darei um exemplo para complementar os resultados. Afirmamos anteriormente que o curso de vida dos homens refletia a sua participação no mercado de trabalho. Este resultado decorrente de informações quantitativas mostra que o papel de provedor da família exercido pelo homem não mudou nesses 40 anos investigados. Porém, isso não significa que não tenha havido efeitos modernizantes relativos à sua participação no trabalho familiar. A análise do material qualitativo dos maridos sugeriu diferenças, de forma sutil, quando os comparamos com a participação de suas mulheres no mercado de trabalho. Os maridos cujas mulheres trabalhavam fora em tempo integral, estavam disponíveis para ajudá-las nas tarefas domésticas, o que não ocorria com aqueles cujas mulheres eram donas-de-casa. No entanto, nenhum deles mudou seus valores em relação à participação no trabalho específico de gênero.

Portanto, como resultado, consideramos que os processos de modernização em relação aos homens, depende da situação de trabalho de suas mulheres. Este é um exemplo de complementaridade.

Ao invés de fornecer um sumário extenso, encerrarei com uma pequena conclusão relativa à questão metodológica: a pesquisa de trajetória de vida realizada com informações agregadas pode revelar a importância das variáveis estruturais (como o papel do trabalho para a trajetória de vida da mulher), e estas análises estatísticas quantitativas são, conseqüentemente, necessárias e importantes para desvendar o fenômeno estrutural da trajetória de vida - que os indivíduos não são capazes de ver devido ao isolamento de sua experiência pessoal de vida. Por outro lado, as informações quantitativas são necessárias para entender os motivos dos indivíduos para determinado comportamento, o que, do contrário, permaneceria no campo da especulação.

Embora tenha tentado mostrar as vantagens de um projeto de pesquisa integrando métodos quantitativos e qualitativos em função de nossos próprios projetos de pesquisa, acredito que seja importante mencionar que a integração prática dos métodos, ainda que muitas vezes produtivo, não pode ser exclusivamente baseado em conceitos metodológicos, pois isto sempre requer reflexões teóricas sobre a natureza do campo de investigação.

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  • *
    Esta é uma versão escrita de um trabalho apresentado no Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 25 de maio de 2000. Traduzido por Beatriz Guimarães.
  • 1
    Um conceito para explicar a variedade de fatos novos e claramente contraditórios foi desenvolvido por filósofos como Pierce e Hanson e é chamado de apropriação (
    abduction). De acordo com essa abordagem os fenômenos novos e inesperados são explicados ao se estabelecerem ligações entre teorias que até então tinham sido adotadas em campos de pesquisa diversos. Mas isso deve ser considerado não como o fim, mas como o ponto de partida para a produção de novas percepções teóricas.
  • 2
    Na primeira fase, a descoberta surpreendente foi o extraordinário poder das cinco ocupações modelando o curso de vida das mulheres, e não, como é freqüentemente afirmado, a família. Considerando que todas as ocupações forneceram qualificações num mesmo nível, os diferentes padrões de emprego observados poderiam unicamente ser explicados como característicos para as diversas ocupações. Na quarta fase, a rede foi ampliada para incluir dez ocupações, mulheres mais jovens, e a restrição às mães casadas foi abolida. Um questionário padronizado foi enviado para 6240 mulheres que tinham sido treinadas para essas ocupações e foram devolvidos 2130 questionários completos. Estes continham informações sobre as histórias de empregos e de família dessas mulheres.
  • 3
    Este é um resultado que Levy tende a desconsiderar, já que ele concentra seu foco no nascimento dos filhos e consegue evidência por meio de dados empíricos agregados. Produzido por agregação estatística de dados de emprego envolvendo um acontecimento que define o curso de vida de todo o grupo de mulheres num tempo biográfico semelhante - o nascimento dos filhos -, as descobertas dessas fases revelaram-se artificialmente construídas. Outros recessos também são desconsiderados, já que são distribuídos ao longo de um período extenso. Esses fatos tendem a ser omitidos ao agregar-se evidência empírica e somente podem ser revelados ao analisar-se a trajetória de vida por meio de informação
    longitudinal.
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      14 Dez 2004
    • Data do Fascículo
      Jun 2001
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