Open-access Enfrentamento das violências contra a mulher na Atenção Primária à Saúde: revisão de escopo

Confronting violence against women in Primary Health Care: scope review Confronting violence against women in Primary Health Care: scope review

Enfrentamiento de la violencia contra la mujer en la Atención Primaria a la Salud: revisión de ámbito

Resumo

Este estudo objetivou mapear as evidências científicas sobre o enfrentamento da violência contra a mulher pela Atenção Primária à Saúde. Trata-se de uma revisão de escopo – conforme recomendações da Joanna Briggs Institute Reviewers – na Biblioteca Virtual de Saúde, na National Library of Medicine, na Web of Science e no Google Acadêmico, por meio dos descritores: “Violence Against Women”, “Primary Health Care”, “Health Promotion” e sinônimos, combinados com os operadores AND e OR. Para a seleção dos estudos, utilizou-se o Rayyan, software que auxilia na triagem e seleção de artigos. Encontraram-se 249 artigos, dos quais 27 responderam à pergunta de pesquisa e foram processados pelo IRaMuTeQ, o que resultou em seis classes textuais e cinco categorias. Estas revelam o estabelecimento do vínculo e da confiança construídos por meio do acolhimento e da escuta ativa, o cuidado humanizado, a articulação intersetorial, os encaminhamentos e notificações, a atuação estratégica dos agentes comunitários de saúde, além das ações de orientação e educação em saúde. Limitações são frequentes, como escassez de treinamentos, sobrecarga de trabalho e estigmas sociais. É perceptível a importância das estratégias de enfrentamento das violências contra a mulher na Atenção Primária à Saúde, mas ainda existem muitos desafios para sua concretização.

Palavras-chave:
violência contra a mulher; Atenção Primária à Saúde; estratégias de enfrentamento

Abstract

The objective was to map the scientific evidence on addressing violence against women through Primary Health Care. A scoping review was conducted in accordance with the Joanna Briggs Institute Reviewer’s guidelines, with data searched in the Virtual Health Library, the National Library of Medicine, Web of Science, and Google Scholar. The search used the descriptors: “Violence Against Women,” “Primary Health Care,” and “Health Promotion,” along with their synonyms, combined using the operators AND and OR. Rayyan was used to select the studies. A total of 249 articles were found, of which 27 answered the research question and were processed by IRaMuTeQ, resulting in six textual classes and five categories. These reveal the establishment of bonds and trust through welcoming and active listening, the promotion of comprehensive and humanized care, multiprofessional and intersectoral coordination, referrals, and notifications, with an emphasis on the approach by Community Health Agents due to their strategic role. Additionally, health guidance and education emerge as essential strategies. Limitations such as lack of training, work overload, and social stigmas are common. Therefore, the importance of strategies to combat violence against women in Primary Health Care is clear, but many challenges remain for their implementation.

Keywords:
violence against women; primary health care; coping strategies

Resumen

El objetivo fue recopilar las pruebas científicas sobre la lucha contra la violencia hacia la mujer por parte de la Atención Primaria de Salud. La revisión del alcance se realizó según las recomendaciones del Joanna Briggs Institute Reviewers, con una búsqueda de datos en la Biblioteca Virtual de Salud, la Biblioteca Nacional de Medicina, Web of Science y Google Académico, mediante los descriptores: «Violence Against Women», «Primary Health Care» y «Health Promotion», y sus sinónimos combinados utilizando los operadores AND y OR. Para la selección de los estudios se utilizó Rayyan. Se encontraron 249 artículos, de los cuales 27 respondieron a la pregunta de investigación y fueron procesados por IRaMuTeQ, lo que dio como resultado seis clases textuales y cinco categorías. Estas revelan el establecimiento de vínculos y confianza a través de la acogida y la escucha activa, la promoción de la atención integral y humanizada, la articulación multiprofesional e intersectorial, las derivaciones y notificaciones, con énfasis en el enfoque de los agentes comunitarios de salud, debido a su actuación estratégica, además de las orientaciones y la educación en salud como estrategias esenciales. Además, son frecuentes las limitaciones, como la escasez de formación, la sobrecarga de trabajo y los estigmas sociales. De este modo, se percibe la importancia de las estrategias de lucha contra la violencia hacia la mujer en la atención primaria de salud, pero aún existen muchos retos para su concreción.

Palabras clave:
violencia contra la mujer; atención primaria de salud; estrategias de lucha

Introdução

A violência contra a mulher é um problema sócio-histórico, perpetrado desde os primórdios da humanidade, estruturado em uma sociedade autoritária e predominantemente machista, constituída por sistemas de hierarquia e dominação, como o patriarcado, o racismo e o capitalismo (Barroso, 2019). Caracteriza-se por toda e qualquer conduta com uso intencional de força ou poder, por meio de ameaça ou agressão real, fundamentada em relações de gênero, que resulte ou possa resultar em morte, danos ou sofrimentos físicos, sexuais, morais ou psicológicos à mulher, tanto no âmbito público como no privado (Silva e Oliveira, 2015).

A necessidade de mudança desse cenário torna-se urgente, o que implica a criação de leis e políticas públicas para redução e criminalização da violência contra a mulher. Como exemplo, tem-se a Política de Enfrentamento da Violência contra a Mulher, a Lei Maria da Penha, a Política Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra as Mulheres, a Lei do Feminicídio e o Plano Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, implementados no Brasil (Domingos, 2024).

No entanto, mesmo com tantos avanços e conquistas, a violência contra a mulher configura-se como um problema urgente e endêmico na sociedade atual. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a violência contra a mulher ocorre em fases cada vez mais precoces da vida e afeta grande parcela da população feminina mundial (World Health Organization, 2021).

Dados indicam que o Brasil ocupa posição de destaque no ranking dos países com maior incidência de feminicídio e violência contra a mulher. Com base na Pesquisa Nacional de Saúde do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNS/IBGE), estima-se que a cada ano ocorram no mínimo 822 mil casos de estupro no país e que cerca de 30% da população feminina já tenha sido vítima de algum tipo de violência ao longo da vida. Ademais, estima-se que 4.762 mulheres sejam assassinadas por ano no Brasil, das quais 50,3% resultam de conflitos familiares (Cerqueira e Bueno, 2023).

Embora atinja todas as mulheres e não esteja condicionada a cor ou etnia, religião, cultura, grau de escolaridade ou classe social, a violência contra a mulher apresenta maior incidência e perpetração em populações mais vulneráveis, como mulheres negras, com baixa escolaridade e de baixa classe social, manifestando-se sob as formas física, psicológica, sexual, patrimonial e moral, com importantes repercussões negativas nas vidas das mulheres (Curia et al., 2020).

Estudos apontam que mulheres que sofrem ou já sofreram algum tipo de violência são mais propensas a adotar comportamentos de vida não saudáveis, a exemplo de sedentarismo e consumo de substâncias como álcool e drogas, além de apresentarem maior risco de desenvolver problemas de saúde física, mental, sexual e reprodutiva, bem como maior incidência de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), gravidez indesejada e abortos (Curia et al., 2020). Nesse sentido, percebem-se a gravidade e a repercussão da violência contra a mulher na sociedade, interferindo negativamente, sobretudo, na saúde pública, com efeitos tanto na saúde individual quanto na coletiva, o que exige medidas urgentes na formulação de políticas e ações específicas para a prevenção e o enfrentamento da violência e suas repercussões no campo da saúde pública (Azambuja e Nogueira, 2008).

Em tal cenário, a Atenção Primária à Saúde (APS) desempenha um papel primordial no enfrentamento da violência contra a mulher e seus agravos, uma vez que se constitui como a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) (Mendonça et al., 2020). A APS configura-se como um ponto estratégico da rede de atendimento à mulher em situação de violência, pois possibilita a realização de ações educativas e de prevenção na comunidade, oferece assistência integral e promove o empoderamento das mulheres em articulação com outros setores, permitindo a concretização dos preceitos estabelecidos nos eixos estruturantes da Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres (Brasil, 2011).

Assim, percebe-se a necessidade de se compreenderem mais profundamente as ações realizadas pelos profissionais da APS no contexto da atenção às mulheres em situação de violência. Nesse contexto, o estudo aqui apresentado teve como objetivo mapear as evidências científicas sobre o enfrentamento da violência contra a mulher pela Atenção Primária à Saúde.

Métodos

Trata-se de um estudo de revisão de escopo, conduzido conforme o referencial metodológico proposto pelo Joanna Briggs Institute Reviewers (JBI) e as recomendações do checklist Prisma-ScR (Prisma Extension for Scoping Reviews). Para seu delineamento, seguiram-se as cinco etapas metodológicas definidas por Arksey e O’Malley (2005): identificação da questão de pesquisa; identificação dos estudos relevantes; seleção dos estudos; mapeamento dos principais dados de informação obtidos; categorização, resumo e exposição descritiva dos resultados.

Para a construção da pergunta de pesquisa, utilizou-se a estratégia PCC: population (população), concept (conceito) e context (contexto). A população do estudo corresponde a mulheres em situação de violência; o conceito refere-se ao enfrentamento; e o contexto é a Atenção Primária à Saúde (APS). Com base nessas definições, estabeleceu-se a seguinte pergunta norteadora: quais são as evidências científicas acerca do enfrentamento da violência contra a mulher na Atenção Primária à Saúde?

O levantamento dos dados foi feito na Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), na National Library of Medicine (PubMed), na Web of Science e na literatura cinzenta, por meio do Google Acadêmico. A busca ocorreu de forma pareada e independente por dois revisores, utilizando o vocabulário controlado Medical Subject Headings (MeSH) e seguintes descritores “Violence Against Women”, “Health Promotion” e “Primary Health Care”, bem como o vocabulário controlado Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) com os descritores “Violência Contra a Mulher”, “Promoção da Saúde” e “Atenção Primária à Saúde”.

Combinaram-se os descritores de formas variadas, com sinônimos e variações terminológicas para ampliar as buscas. A combinação dos descritores foi realizada por meio dos operadores booleanos AND e OR. Entre os termos do mesmo componente da estratégia PCC, usou-se o operador OR, e nas combinações entre componentes diferentes, empregou-se o operador AND, conforme apresentado no Quadro 1.

Quadro 1
– Detalhamento da estratégia de busca de população, conceito e contexto.

Consideraram-se para inclusão todas as literaturas publicadas em acesso aberto, sem restrição de idioma e sem recorte temporal, que apresentassem pelo menos os dois primeiros termos de busca ou suas derivações no título, no resumo ou no texto, bem como estudos que abordassem a violência contra a mulher no contexto da APS, expondo experiências com esse fenômeno e estratégias de enfrentamento da violência. Foram excluídos todos os artigos duplicados, pagos e não disponíveis em texto completo, cartas ao editor, resumos de anais de eventos, revisões da literatura, monografias, dissertações, teses, legislações e atos normativos.

Para auxiliar no gerenciamento da revisão e no cegamento das partes no processo de seleção pareada dos estudos, utilizou-se o aplicativo gratuito da web Rayyan, desenvolvido pelo Qatar Computing Research Institute (QCRI). Após submetidos ao Rayyan, os estudos foram avaliados por meio dos títulos e resumos, com o objetivo de verificar sua conformidade com os critérios de elegibilidade. Posteriormente, procedeu-se à leitura na íntegra dos artigos, resultando na seleção da amostra da revisão.

Agruparam-se todos os estudos selecionados conforme a semelhança dos objetivos, apresentando-se informações referentes ao autor e ao ano de publicação, objetivos e principais resultados dos estudos, as quais foram organizadas em planilha no Microsoft Excel.

Com o intuito de qualificar os achados por meio da análise estatística textual, houve a transcrição das informações obtidas na seção ‘principais resultados’ dos estudos selecionados para um documento Writer do software LibreOffice 24.8. Posteriormente, o corpus textual foi processado pelo software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRaMuTeQ).

Resultados

Encontraram-se 249 artigos, sendo 161 provenientes das bases de dados e 88 da literatura cinzenta. Todos os artigos foram processados no Rayyan para garantir a imparcialidade na seleção pareada dos estudos conforme os critérios de elegibilidade. Nesse sentido, realizou-se a exclusão das 13 duplicatas identificadas, seguida pela triagem de títulos e resumos, na qual excluíram-se 183 artigos e selecionaram-se 53 para leitura na íntegra. Desses, 27 artigos responderam à pergunta de pesquisa (Figura 1).

Figura 1
– Fluxograma do resultado da busca de artigos.

Agruparam-se os artigos selecionados conforme a semelhança dos objetivos (Quadro 2). Tais estudos foram publicados no período de 2009 a 2023 – 21 desenvolvidos no Brasil, quatro na Espanha, um nos Estados Unidos e um na África. Prevaleceram pesquisas exploratórias descritivas com abordagens qualitativas e, em menor quantidade, pesquisas transversais, estudos de caso, pesquisas participantes, pesquisas etnográficas e estudos metodológicos. Os instrumentos utilizados para a coleta de dados nas pesquisas foram entrevistas, questionários e observação.

Quadro 2
– Principais informações dos artigos selecionados.

As informações extraídas de cada artigo na seção ‘principais resultados’ foram organizadas no corpus textual e processadas para análise textual no software IRaMuTeQ por meio da classificação hierárquica descendente (CHD), com 77,14% de aproveitamento, resultando em seis classes textuais (Figura 2), as quais deram origem a cinco categorias, em razão de semelhança temática entre as duas primeiras classes.

Figura 2
– Dendrograma sobre a análise temática do enfrentamento da Violência contra a Mulher na Atenção Primária à Saúde.

As categorias apresentadas no Quadro 3 revelam a importância do acolhimento e da escuta ativa na APS para mulheres em situação de violência, por meio da atenção holística, considerando as sequelas não apenas físicas, mas também psicológicas e sociais da violência. Nesse contexto, a construção de vínculos é essencial, por meio de visitas domiciliares, escuta atenta e empatia, além de práticas que promovam o diálogo com a comunidade.

Quadro 3
– Classes textuais resultantes da análise temática do enfrentamento da Violência contra a Mulher na Atenção Primária à Saúde.

É notável que a atenção à saúde da mulher em situação de violência na APS encontra-se muitas vezes limitada à realização de encaminhamentos para serviços especializados, com foco no atendimento aos danos físicos. Observam-se ainda limitações relacionadas à falta de preparo dos profissionais, ao desconhecimento de políticas e protocolos, a dificuldades estruturais e organizacionais, à sobrecarga de trabalho, à ausência de diretrizes claras e ao receio em intervir em assuntos conjugais.

Destaca-se a necessidade de que se desenvolvam e implementem protocolos claros, realizem-se ações de prevenção e acompanhamento contínuo, capacitem-se os profissionais, integrem-se as redes de cuidado e criem-se fluxos que promovam um atendimento holístico e humanizado. Ademais, a atuação do agente comunitário de saúde é indispensável, visto que desempenha papel fundamental na identificação de casos de violência doméstica, devido à proximidade com as famílias e ao conhecimento da dinâmica familiar e do território.

Tais discursos evidenciam que a abordagem da violência contra a mulher na APS precisa ser ampliada, de modo a incluir dimensões psicossociais e comunitárias, bem como ações de apoio e empoderamento das mulheres.

Discussão

Os resultados revelam que as estratégias adotadas pelos profissionais da APS caracterizam-se pelo estabelecimento de vínculo e confiança, por meio do acolhimento e escuta ativa; promoção de um cuidado integral e humanizado; articulação multiprofissional e intersetorialidade, com a realização correta de encaminhamentos e notificações; além de educação em saúde e desenvolvimento de grupos terapêuticos na comunidade, com destaque para a atuação estratégica dos ACSs. Cabe salientar que a sobrecarga de trabalho, o medo e a insegurança, assim como o (des)conhecimento ante a problemática e a escassez de treinamentos e capacitações dos profissionais, também influenciam diretamente a efetividade do cuidado e o enfrentamento da violência contra a mulher.

A APS caracteriza-se como principal porta de entrada para o SUS e assume um importante papel na identificação precoce dos casos de violência, no encaminhamento para a rede especializada e na promoção de uma atenção integral (Aguiar et al., 2023). Mendonça e colaboradores (2020) destacam que a APS possibilita maior proximidade entre profissionais e a população, o que a torna ponto estratégico na rede de atenção à saúde, favorecendo prevenção, identificação, notificação, coordenação do cuidado e assistência às mulheres em situação de violência.

Assim, o acolhimento constitui o primeiro passo para o estabelecimento de vínculo com a pessoa, a família e a coletividade, sendo essencial para a promoção da saúde na APS (Arboit et al., 2017). Para Costa e Lopes (2012), o acolhimento é uma conduta de cuidado que promove escuta qualificada e atendimento às necessidades de saúde do indivíduo, tanto implícitas quanto explícitas.

Visentin e colaboradores (2015) destacam que os profissionais da APS devem oferecer um ambiente seguro para escuta ativa, com estabelecimento de vínculos de confiança, a fim de garantir assistência humanizada, integral e acolhedora (Castanha, Lima e Pecoraro, 2022). Ressalta-se que a escuta ativa é essencial para a identificação da violência e o alcance do acolhimento, de modo a possibilitar a observação de sinais e sintomas não verbalizados por elas (Arboit, Padoin e Vieira, 2020).

Nesse cenário, os ACSs desempenham um papel estratégico devido à sua proximidade com a comunidade, permitindo maior vínculo com as famílias, identificação precoce de situações de violência, realização de abordagens iniciais e encaminhamento das mulheres para a rede de cuidados, garantindo um atendimento multiprofissional e humanizado (Moreira et al., 2014; Arboit et al. 2018). Os agentes atuam como facilitadores para o estabelecimento de relações de vínculo e confiança com as famílias, além de identificar suas necessidades, desempenhando funções primordiais no apoio social a essas mulheres por meio do planejamento de ações integradas, que envolvem equipe de saúde e outros setores da rede de atendimento às mulheres em situação de violência (Signorelli, Taft e Pereira, 2018). As visitas domiciliares constituem ferramentas-chave, pois promovem contato mais próximo e contínuo, permitindo a observação de situações no contexto familiar que não são identificadas em consultas de rotina e facilitando as orientações (Hesler et al., 2013).

Marinho e Gonçalves (2019) destacam a importância das orientações destinadas a essas mulheres, visando empoderá-las e auxiliá-las a romper o ciclo de violência. Essas ações envolvem informar sobre seus direitos e a importância da denúncia como mecanismo de proteção e justiça, os tipos de violência previstos na legislação, os recursos disponíveis para enfrentamento e o encaminhamento aos serviços de proteção social, delegacias e centros de referência (Bezerra e Saldanha, 2022). As ações de educação em saúde devem ir além de orientações individuais, alcançando a comunidade por meio de grupos terapêuticos e campanhas educativas, que promovam a conscientização sobre o problema e contribuam para a redução do estigma em torno da violência (Souza e Pereira, 2024).

Carneiro e colaboradores (2022) salientam que os profissionais devem ainda direcionar essas mulheres para outros serviços especializados. Assim, a intersetorialidade é essencial para uma abordagem integrada, por meio de respostas assistenciais articuladas em rede, o que possibilita a ampliação e a melhoria da qualidade do atendimento (Gonsalves e Schraiber, 2021).

Gonsalves e Schraiber (2021) destacam que os encaminhamentos devem ser feitos de forma criteriosa e com acompanhamento, garantindo que as mulheres tenham acesso ágil aos serviços especializados. Para tanto, é indispensável a comunicação do caso entre as equipes intersetoriais, por meio de referência e contrarreferência em saúde, bem como o conhecimento dos fluxos de atendimento (Borburema et al., 2017).

Para Santos e colaboradores (2014), os encaminhamentos e a notificação dos casos na APS ainda são bastante limitados, devido à falta de conhecimento dos profissionais, à ausência de protocolos e fluxos de atendimento, bem como ao medo e à insegurança dos profissionais ao agir diante de tais situações (Vasconcelos et al., 2024).

Oliveira e colaboradores (2024) evidenciaram que a formação na graduação de cursos da área da saúde sobre a violência contra a mulher é insuficiente, sendo abordada de forma superficial e fragmentada, o que causa insegurança e receio nos profissionais para atuarem diante desses casos.

Ademais, foi identificada a escassez de capacitações, treinamentos e ações de educação continuada em saúde sobre o atendimento à mulher em situação de violência (Silva, Padoin e Vianna, 2013). Dada a sua importância para sensibilização e atualização permanente dos profissionais quanto à melhor abordagem, ao uso correto dos protocolos, ao fortalecimento da rede de cuidado e à desconstrução de preconceitos, a educação continuada é considerada por Bearzi e colaboradores (2020) como essencial para a prestação de uma assistência acolhedora, humanizada e assertiva para o enfrentamento da violência.

Segundo Iverson e colaboradores (2019), a sobrecarga de trabalho configura-se também como uma importante limitação na busca pela melhor abordagem. Esse contexto é marcado por demandas excessivas, escassez de profissionais, falta de tempo para consultas aprofundadas, pressão para cumprir metas relacionadas a outras condições de saúde e assistência pautada no modelo biomédico, o que compromete o atendimento à mulher em situação de violência (Villa et al., 2018).

Além disso, são perceptíveis a insegurança e o medo dos profissionais para atuarem diante da violência contra a mulher, especialmente nos casos de violência por parceiro íntimo (Silva et al., 2022). Tal situação decorre de fatores estruturais e organizacionais dos serviços, como falta de protocolos claros, ausência de treinamentos específicos, carência de apoio institucional para lidar com as implicações legais e sociais dos casos, além de receio de represálias pelo agressor ou julgamentos da comunidade (Alsalman, Shafey e Al Ali, 2023).

Cabe salientar que a percepção e identificação da violência pelas mulheres que vivenciam situações de abuso variam amplamente, influenciadas por fatores culturais, emocionais e sociais (Carneiro et al., 2021). Muitas mulheres não reconhecem imediatamente tais situações, especialmente quando elas ocorrem de maneira psicológica ou simbólica. Isso se deve às crenças culturais associadas a sentimentos como culpa, medo de represálias e dependência econômica, que podem levar à negação ou minimização do problema (Baragatti et al., 2019).

Dessa forma, Moreira e colaboradores (2018) e Souza (2021) enfatizam a necessidade da implementação de processos de capacitação contínuos e intersetoriais, a fim de se fortalecer a rede de cuidado e promover intervenções mais efetivas, com foco nas necessidades das mulheres para o rompimento do ciclo de violência. Ressaltam-se, ainda, estratégias voltadas para a reorganização das tarefas dentro das equipes multiprofissionais, a ampliação do quadro de profissionais e a promoção de processos de educação permanente.

Considerações finais

O presente estudo possibilitou o mapeamento de evidências científicas voltadas à descrição das estratégias de enfrentamento da violência contra a mulher na Atenção Primária à Saúde. Demonstrou que, apesar de desafios significativos, a APS desempenha um papel crucial nesse enfrentamento, constituindo a principal porta de entrada para o SUS.

As estratégias de acolhimento, escuta ativa, articulação multiprofissional e intersetorial, juntamente com a promoção de orientações, educação em saúde e redes de apoio para o empoderamento das mulheres, assim como a atuação estratégica dos agentes comunitários de saúde, constituem pilares fundamentais para garantia do cuidado integral e humanizado às mulheres em situação de violência. Entretanto, fatores como sobrecarga de trabalho, insegurança profissional, escassez de capacitações, desconhecimento de protocolos e fluxos de atendimento, além de barreiras culturais e sociais, comprometem a efetividade das ações de enfrentamento. A subnotificação e a falta de articulação da rede de cuidados apontam a necessidade de maior preparo dos profissionais, bem como o fortalecimento da formação acadêmica e da educação continuada.

Os achados evidenciam a necessidade de se formularem ações e estratégias comunitárias e campanhas educativas para identificação precoce, abordagem e enfrentamento do agravo pelos profissionais da APS, visando ao fortalecimento da rede de enfrentamento da violência contra a mulher.

Referências

  • Aspectos éticos:
    Por se tratar de uma pesquisa de revisão, não houve necessidade de aprovação por um comitê de ética em pesquisa (CEP).
  • Apresentação prévia:
    Este artigo é resultante de um trabalho de Gerliane Filgueira Leite, realizado como requisito para a conclusão de curso de graduação em enfermagem na Universidade Regional do Cariri, em 2024.
  • Preprint e versão final:
    Os autores declaram que o manuscrito não foi disponibilizado em repositório de preprint. O protocolo desta revisão está registrado no Open Science Framework (OSF) (https://osf.io/8j52h/?view_only=8f8fa563584940cc8dfab7d0423d3f8b).
  • Declaração de disponibilidade de dados:
    Os dados de pesquisa estão disponíveis no SciELO Data, DOI: https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.1Y9CQ0
  • Processo de avaliação:
    Revisão por pares duplo-cega (double blind peer review).
  • Avaliadores:
    Dois pareceristas ad hoc avaliaram este artigo e somente Alba Regina Silva Medeiros, [https://orcid.org/0000-0003-0208-6509], autorizou a divulgação de seu nome.
  • Financiamento:
    Não houve financiamento para a realização desta pesquisa.

Editado por

Disponibilidade de dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no SciELO Data, DOI: https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.1Y9CQ0

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    31 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    15 Ago 2025
  • Revisado
    06 Maio 2026
  • Aceito
    26 Maio 2026
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