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DIREITOS HUMANOS PARA QUEM? POLÍTICAS PÚBLICAS E REPRESENTAÇÃO DA GESTÃO ESPACIAL DA POBREZA URBANA EM O GLOBO

HUMAN RIGHTS FOR WHOM? PUBLIC POLICIES AND SPATIAL MANAGEMENT OF URBAN POVERTY REPRESENTED IN O GLOBO

RESUMO

O objetivo geral do projeto "Representação midiática da violação de direitos e da violência contra pessoas em situação de rua no jornalismo on-line" (CNPq 304075/2014-0) é mapear e analisar representações da situação de rua na produção discursiva dos portais de notícias online de três jornais de circulação nacional - Folha de S. Paulo, O Globo e Correio Braziliense. Para tanto, foi realizado um mapeamento abrangente dessas publicações, com coleta de todos os textos publicados no período considerado para a pesquisa - de 2011 a 2013 - que resultaram das buscas por palavras-chave, levando a cerca de 750 textos. Este artigo toma um foco parcial dos dados do projeto, situando formas como o jornal O Globo representa a população em situação de rua em notícias que tematizam políticas públicas. Os textos foram analisados em seus aspectos verbais e visuais, com ferramentas da análise de discurso crítica e da gramática do design visual. Os resultados analíticos apontam a ênfase das notícias na ocupação do espaço público, tanto nas imagens como nos textos verbais. A naturalização da distribuição desigual de recursos, da separação entre classes e da escassez ao lado do privilégio dá o tom das notícias, pelas relações locativas que se desenham. Há espaços de privilégio que são impenetráveis para segmentos populacionais que não disponham dos recursos condizentes. A desigualdade é normalizada, inclusive pelo recurso da ironia, no caso dos textos verbais.

Palavras-chave:
análise de discurso crítica; situação de rua; políticas públicas

ABSTRACT

In the project "Media representation of the violation of rights and violence against street people in online journalism" (CNPq 304075/2014-0) we map and analyze representations of homelessness in the discursive production of three national online newspapers - Folha de S. Paulo, O Globo and Correio Braziliense. In order to do so, a comprehensive mapping of these online publications was carried out, collecting all the texts published during the period considered for the research - from 2011 to 2013 - that resulted from searches by keywords, leading to 750 texts. This article takes a partial focus of these data, exploring how O Globo represents the homeless population in news thematizing public policies. The texts were analyzed in their verbal and visual aspects, with tools from critical discourse analysis and the grammar of visual design. The analytical results point to the emphasis of the news in the occupation of the public space, both in the images and in the verbal texts, and the naturalization of the unequal distribution of resources and the segregation of classes, through the locative relations that are designed. There are privilege spaces that are impenetrable to population segments like homeless people. Inequality is normalized, including by the use of irony, in the case of verbal texts.

Keywords:
critical discourse analysis; homelessness; public policies

INTRODUÇÃO

O ceticismo misantrópico duvida do modo mais óbvio. Declarações como 'Você é um humano' assumem a forma de questões retóricas cínicas: 'você é completamente humano?', 'Você tem direitos' torna-se 'por que você acha que tem direitos?'.

(Maldonado-Torres, 2007MALDONADO-TORRES, N. (2007). On the coloniality of being: contributions to the development of a concept. Cultural Studies. 21, pp. 240-70., p. 246)

O projeto de pesquisa "Representação midiática da violação de direitos e da violência contra pessoas em situação de rua no jornalismo on-line" (CNPq 304075/2014-0) é um projeto colaborativo que toma a representação da situação de rua no jornalismo online como problema para a análise de discurso crítica. Nele, investigamos colaborativamente, com a participação das professoras Carolina Lopes Araújo (FUP/UnB), Maria Carmen Aires Gomes (UFV/UFMG), das pesquisadoras Daniele Mendonça e Ingrid Ramalho (PPGL/UnB), e das bolsistas Mariana Moura, Lygia Vaz e Dara Abreu (IL/UnB), dados de notícias sobre a situação de rua no jornalismo web. Tomamos por base os estudos discursivos críticos, e tiramos proveito dos ambientes de investigação constituídos na Rede Latino-Americana de Análise de Discurso Crítica sobre a Pobreza (REDLAD/ ALED), no Núcleo de Estudos de Linguagem e Sociedade (NELiS/ UnB), no Laboratório de Estudos Críticos do Discurso (LabEC/ UnB) e no Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos (Poslin/ UFMG)1 1 Este artigo apresenta um recorte de resultados parciais do projeto de pesquisa "Representação visual de pessoas em situação de rua no jornalismo on-line - Correio Braziliense e O Globo, de 2011 a 2013", projeto de pós-doutorado de Viviane de Melo Resende, com supervisão de Maria Carmen Aires Gomes, realizado junto ao referido programa de pós-graduação (2016-2017), e parte integrante do projeto mais amplo CNPq 304075/2014-0. No projeto realizado junto à UFMG, consideram-se apenas os corpora do Correio Braziliense (166 textos) e de O Globo (121 textos). Neste texto, o corpus de O Globo me serve de objeto. .

O objetivo geral do projeto é mapear e analisar representações da situação de rua na produção discursiva dos portais de notícias de três jornais de circulação nacional - Folha de S. Paulo, O Globo e Correio Braziliense. Para tanto, foi realizado um mapeamento abrangente dessas publicações, com coleta de todos os textos publicados no período considerado para a pesquisa - de 2011 a 2013 - que resultaram das buscas pelas palavras-chave: "morador(a)(es) de rua", "pessoa(s) em situação de rua" e "população (em situação) de rua". As buscas nos três portais, juntas, levaram a mais de 700 textos. Este artigo toma um foco parcial dos dados do projeto, situando formas como o jornal O Globo representa a população em situação de rua em notícias que tematizam políticas públicas. Veremos adiante a motivação para a escolha desse foco temático na abordagem dos direitos humanos conforme (não) discutidos na produção discursiva de O Globo.

Focalizando apenas os textos classificados na temática de políticas públicas e que contêm imagens, o corpus para este artigo compõe-se de 30 textos, que analiso com auxílio do pacote QDA disponibilizado pelo NVivo 11 Pro e tomando categorias analíticas da análise de discurso crítica (FAIRCLOUGH, 2003FAIRCLOUGH, N. (2003). Analysing discourse: textual analysis for social research. London: Routledge.; VIEIRA; RESENDE, 2016VIEIRA, V. C.; RESENDE, V. M. (2016). Análise de discurso (para a) crítica: o texto como material de pesquisa. 2 ed. Campinas: Pontes .) e da gramática do design visual (KRESS; VAN LEEUWEN, 1996KRESS, G.; VAN LEEUWEN, T. (1996). Reading images: the grammar of visual design. London; New York: Routledge.; VAN LEEUWEN, 2005VAN LEEUWEN, T. (2005). Introducing social semiotics. London: Routledge .; BIASI-RODRIGUES; NOBRE, 2010BIASI-RODRIGUES, B; NOBRE, K.C. (2010). Sobre a função das representações conceituais simbólicas na gramática do design visual: encaixamento ou subjacência. Linguagem em(Dis)curso. 10(1), pp. 91-109.). O artigo foi dividido em três seções: 1) Análise de discurso crítica em abordagem decolonial; 2) Políticas públicas em O Globo: vozes e avaliações, e 3) Representação imagética da situação de rua em O Globo: violação de direitos. Por fim, apresento algumas considerações sobre as análises.

1. ANÁLISE DE DISCURSO CRÍTICA EM ABORDAGEM DECOLONIAL

Os estudos críticos do discurso são capazes de sustentar explanação de problemas sociais particulares com base no uso da linguagem porque esta mantém um tipo especial de relação com outros elementos sociais. Sendo a linguagem parte de toda estrutura, na forma de semiose; de toda prática social, na forma de ordem do discurso, e de todo evento social, na forma de texto, as relações de linguagem-sociedade são internas, a linguagem interiorizando e realizando traços de outros elementos das estruturas, práticas e eventos (CHOULIARAKI; FAIRCLOUGH, 1999CHOULIARAKI, L.; FAIRCLOUGH, N. (1999). Discourse in late modernity. Edinburgh: University Press.). O uso situado da linguagem, ao produzir textos, que são parte do resultado de eventos sociais, tem efeitos causais, gerando mudanças em nosso conhecimento sobre o mundo e, consequentemente, em nossas crenças e atitudes a respeito desse mundo (FAIRCLOUGH, 2003FAIRCLOUGH, N. (2003). Analysing discourse: textual analysis for social research. London: Routledge.). Isso inclui as fundantes estruturas de classe, gênero, sexualidade, raça e etnia, e as instituições que ordenam a ação social (RESENDE, 2017aRESENDE, V. M. (2017a). Reflexões teóricas e epistemológicas quase excessivas de uma analista obstinada. In: Resende, V. M.; Regis, J. F. S. (orgs.), Outras perspectivas em análise de discurso crítica. Campinas: Pontes . pp. 11-52.). Tomando a ordenação social do discurso como potência epistemológica e incluindo o referencial do projeto decolonial no entendimento dos eixos do poder, do saber e do ser (FOUCAULT, 1984FOUCAULT, M. (1984). What is Enlightenment? In: P. Rabinow (org.). The Foucault Reader. New York: Pantheon Books, pp. 32-50.), represento assim algumas dessas relações:

Figura 1
Mapa ontológico do funcionamento social da linguagem.

Destaco as estruturas sociais de classe, gênero, sexualidade, raça e etnia, que atuam sobre as instituições ordenadoras das práticas sociais e o potencial de significação (semiose), enfatizando seu caráter abstrato, de maior permanência, embora nunca permanência trans-histórica, haja vista, por exemplo, as modificações em estruturas de gênero (entre outras) e as pressões que intentam reduzir essas modificações ao longo da história, em tensão com as forças que as promovem. Enfatizo, sobretudo, sua ampla penetração numa variedade de práticas: enquanto a noção de prática social diz respeito a potencialidades já situadas em campos ou esferas da atividade humana, a noção de estrutura é mais ainda abstrata, já que uma estrutura como a de classe (ou gênero, sexualidade, raça, etnia) transcende as práticas situadas, invade os diferentes campos, exerce sua influência nas mais diversas esferas institucionais.

Isso nos permite compreender a necessidade de reflexão sobre a colonialidade, pois a fundação das sociedades coloniais a partir de hierarquias racializadas não se supera com a liberdade política das colônias: a invenção da América enseja sentidos interseccionais de raça-classe-gênero que se mantêm fundantes (BALLESTRIN, 2013BALLESTRIN, L. (2013). América Latina e o giro decolonial. Rev. Bras. Ciênc. Polít. [online].11, pp. 89-117.; GROSFOGUEL, 2016GROSFOGUEL, R. (2016). A estrutura do conhecimento nas universidades ocidentalizadas: racismo/sexismo epistêmico e os quatro genocídios/epistemicídios do longo século XVI. Soc. estado. [online]. vol.31, n.1, pp.25-4.). Daí "não só a pobreza, mas também a proximidade da morte - na miséria, falta de reconhecimento, linchamento e prisão - caracterizam a situação do damné", o "condenado da terra" (FANON, [1961] 2015FANON, F. (2015). Pele negra márcaras brancas. Tradução Renato da Silveira. Salvador: UFBA.), que Wacquant (2001) recontextualiza para falar do "condenado da cidade". Para Maldonado-Torres (2007, p. 259)MALDONADO-TORRES, N. (2007). On the coloniality of being: contributions to the development of a concept. Cultural Studies. 21, pp. 240-70., é isso o que define a colonialidade do ser, esse espaço de não ser, de negação ontológica do outro e de seus direitos humanos. O lócus de enunciação não é marcado unicamente por nossa localização geopolítica dentro do sistema mundial moderno/colonial, mas é também marcado pelas hierarquias raciais, de classe, gênero, sexuais etc. que incidem sobre o corpo.3 3 A esse respeito, ver também as contribuições de Mbembe (2016), em seu conceito de "necropolítica", e de Butler (2015), em Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto?. "No discurso colonial, o corpo colonizado foi visto como corpo destituído de vontade, subjetividade, pronto para servir e destituído de voz" (BERNARDINO-COSTA; GROSFOGUEL, 2016BERNARDINO-COSTA, J.; GROSFOGUEL, R. (2016). Decolonialidade e perspectiva negra. Soc. estado. [online]. vol.31, n.1, pp.15-24., p. 19). Nesse sentido, Benedito (2017)BENEDITO, D. (2017). Palestra no Seminário Direito em Debate. Auditório da Fiocruz, em 13 de março de 2017. Brasília: Universidade de Brasília. se pergunta: como alguém despersonalizado em sua existência como pessoa pode ter direitos?

Para Zaffaroni (2017)ZAFFARONI, E. R. (2017). Derecho penal humano y poder en el siglo XXI. Vídeo Aula do Curso Internacional Estudios Críticos de Derecho y Sociedad. Buenos Aires: CLACSO., o conceito de pessoa invoca etimologicamente a marca do teatro grego, e os direitos humanos exigem que se ponha em cada ser humano uma 'máscara de pessoa'. Quando se nega uma máscara humana a um ser humano, nos conta o criminólogo crítico, é preciso colocar nele outra máscara que não a de pessoa, e nesse caso se lhe põe a máscara de inimigo, o que atualmente se realiza pela apropriação dos discursos de periculosidade, que escondem atrás de si a racialização do controle punitivo (SOUZA ET AL., 2017SOUZA, L. et al. (2017). A criminalização de Rafael Braga Vieira: notas sobre a seletividade racializada e a cidade revanchista In: Resende, V. M.; Silva, R. B. (orgs.), Diálogos sobre resistência: organização coletiva e a produção do conhecimento engajado. Campinas: Pontes . pp. 31-58.). Essa perspectiva nos faz lembrar Frantz Fanon (2015)FANON, F. (2015). Pele negra márcaras brancas. Tradução Renato da Silveira. Salvador: UFBA. e sua discussão sobre ontologia e negação da ontologia. Retomando Fanon, Maldonado-Torres se pergunta sobre o significado de damné, e conclui que "o damné é o sujeito que surge em um mundo marcado pela colonialidade do Ser. O damné, como disse Fanon, não possui resistência nos olhos do grupo dominante. O damné também é invisível ou excessivamente visível. O damné existe no modo de não-ser" (MALDONADO-TORRES, 2007MALDONADO-TORRES, N. (2007). On the coloniality of being: contributions to the development of a concept. Cultural Studies. 21, pp. 240-70., p. 257).

O baixo grau de humanidade atribuído a certas identidades é que define a negação ontológica de que nos fala Fanon (2015)FANON, F. (2015). Pele negra márcaras brancas. Tradução Renato da Silveira. Salvador: UFBA., a sub-alteridade. Para Benedito (2017)BENEDITO, D. (2017). Palestra no Seminário Direito em Debate. Auditório da Fiocruz, em 13 de março de 2017. Brasília: Universidade de Brasília., é preciso pensar nos corpos torturáveis: aqueles a serem disciplinados, dominados, domesticados, castigados. Esses corpos são também os corpos de pessoas em situação de rua, que, perdendo sua condição de humanidade "nos olhos do grupo dominante", podem ser deixados ao relento, podem ser violentados (RESENDE, 2017cRESENDE, V. M. (2017c). Gestão policial da pobreza: vulnerabilidade de pessoas em situação de rua aos rigores da ordem pública. Trabalho apresentado na Conferencia Internacional Marginalidad Urbana y Efectos Institucionales. Auditorio FADEU, em 10 de outubro de 2017. Santiago: Universidad Católica de Chile .).

Essa violência também se exerce pela linguagem. Há nesse âmbito, da violência epistêmica, a violência da subrepresentação, da impossibilidade de autorrepresentação e também da vinculação nos meios de comunicação social de certos grupos a discursos preconceituosos, avaliações pejorativas. Diante disso, e compondo um corpus de 121 notícias publicadas em O Globo ao longo de três anos, sobre a temática da situação de rua, nos perguntamos: como esse jornal online cruza os temas da situação de rua e das políticas públicas?

2. POLÍTICAS PÚBLICAS EM O GLOBO: VOZES E AVALIAÇÕES

Nos dados de O Globo, veremos a cobertura noticiosa de ações e políticas públicas voltadas à população em situação de rua e focalizaremos as violações de direitos que essas políticas, em lugar de combater, realizam. Para Ávilla e Molina (2017, p. 61)ÁVILLA, H.; MOLINA, L. (2017). A situação de rua como problemática social estrutural nas cidades. In: Resende, V. M.; Silva, R. B. (orgs.), Diálogos sobre resistência: organização coletiva e a produção do conhecimento engajado. Campinas: Pontes. pp. 59-86., "a naturalização da situação de rua é parte de uma estratégia das políticas neoliberais, dado que permite legitimar a exclusão e justificar medidas políticas assistencialistas ou expulsivas que não levam em conta as determinações estruturais e históricas". Sobre isso, o autor e a autora concluem:

Em síntese, dá-se uma situação paradoxal: o Estado que expulsa as pessoas da rua é o mesmo que em seguida as assiste, impondo condições de integração insuficientes que voltam a levar as pessoas à rua. Desde a perspectiva dos homens e das mulheres em situação de rua, isso dificulta a saída dessa situação: gera desgaste, depressão e acomodação, já que os circuitos se repetem e restringem suas possibilidades de projetar caminhos alternativos. (ÁVILLA; MOLINA, 2017ÁVILLA, H.; MOLINA, L. (2017). A situação de rua como problemática social estrutural nas cidades. In: Resende, V. M.; Silva, R. B. (orgs.), Diálogos sobre resistência: organização coletiva e a produção do conhecimento engajado. Campinas: Pontes. pp. 59-86., p. 78)

Como consequência, o Estado torna-se "o ator principal das violações sofridas por esta população" (FREITAS; FEITOSA, 2017FREITAS, U. F. C; FEITOSA, M. (2017). Políticas públicas e luta pela garantia de direitos da população em situação de rua no Distrito Federal. In: Resende, V. M.; Silva, R. B. (orgs.), Diálogos sobre resistência: organização coletiva e a produção do conhecimento engajado. Campinas: Pontes . pp. 119-152., p. 142). Neste artigo, apresento alguns resultados analíticos a que chegamos quando analisados os textos de O Globo que em nosso corpus foram classificados na temática de políticas públicas; as perguntas que orientam nossas descobertas, favorecidas por recursos do software, são três:

  1. Quando O Globo web cruza os temas da situação de rua e das políticas públicas, quais são as vozes convocadas a falar?

  2. Como a população em situação de rua é avaliada nesses casos?

  3. O que as imagens presentes nos textos, quando é o caso, nos dizem a respeito do cruzamento dos temas da situação de rua e das políticas públicas em O Globo web?

O mapeamento dessas questões nos permitirá conhecer detalhes sobre a representação do cruzamento 'situação de rua/ políticas públicas' nos textos e sobre a identificação de pessoas em situação de rua nesses casos. A definição dessas perguntas foi orientada por pesquisas anteriores em que percebemos a frequente avaliação da população em situação de rua, por outros grupos sociais, como perigosa, incômoda e oportunista (RESENDE, 2015RESENDE, V. M. (2015). A violação de direitos da população em situação de rua e a violência simbólica: representação discursiva no jornalismo on-line. Revista Latinoamericana de Estudios del Discurso. v. 15, pp. 71-92., 2016, por exemplo). Neste artigo, nosso foco serão apenas os 30 textos de O Globo classificados na temática das políticas públicas que contêm imagens. Escolhemos este recorte porque é nesta temática que O Globo mais inclui imagens nas notícias. Das 121 notícias de O Globo em nosso corpus, apenas três temas incluem imagens (sempre fotografias) na composição de textos: outros temas, políticas públicas e violência. Das 52 fotografias presentes nessas 121 notícias, 30 compõem matérias sobre políticas públicas (12, sobre outros temas, e 10, sobre violência). Em O Globo é também a temática das políticas públicas a que mais inclui diferentes vozes, e essas duas características - maior presença de imagens e de vozes - são tomadas como indicativos da centralidade deste tema no jornal carioca.

Dos 30 textos sobre políticas públicas que contêm imagens em sua composição, interessa saber quais vozes se convocam para falar da situação de rua e como pessoas em situação de rua são avaliadas. Das 30 imagens, interessa-nos saber como pessoas em situação de rua são semiotizadas, quais elementos são postos em proeminência, que modos de interação entre participantes representados e o/a observador/a da imagem são projetadas, que estruturas de representação são recorrentes.

Para chegar aos resultados analíticos que passo a apresentar, utilizamos a ferramenta de análise 'matriz de codificação' do pacote QDA que utilizamos na pesquisa, o software NVivo 11 Pro, cruzando informações codificadas em diferentes nós e classificações. Assim, tomamos os dados de O Globo classificados na temática das políticas públicas e observamos como se preenchem os sub nós de 'intertextualidade e fontes jornalísticas',4 4 Na metalinguagem do software utilizado, categorias analíticas são 'nós' - por exemplo, "intertextualidade e fontes jornalísticas" é um nó de codificação. Esse nó se preenche em sub nós, que, neste caso, são as vozes mapeadas nos dados. Assim, o nó alimenta-se indutivamente nos dados, e vão-se criando os sub nós à medida em que a análise avança (os sub nós aqui, então, são as vozes que encontramos em cada corpus, e por isso os sub nós não coincidem necessariamente entre um jornal e outro). Outra possibilidade de constituição de nós aparece no caso das categorias com quadros teoricamente motivados, cujos sub nós são informados na teorias - por exemplo, os sub nós do nó 'estrutura de representação', na análise de imagens, são motivados pelo quadro analítico da gramática do design visual - mas também nesse caso os sub nós só receberão conteúdo à medida que a análise avança e as situações teoricamente descritas são encontradas nos dados. o que nos permite ver quais grupos sociais são convocados a falar sobre situação de rua e políticas públicas no jornal entre 2011 e 2013.5 5 O mapeamento de vozes convocadas a falar nos textos analisados incluiu a citação em discurso direto e as paráfrases em discurso indireto. No caso das mediações de fala (por exemplo, quando associações, entidades religiosas e movimentos sociais falam em nome de pessoas em situação de rua), consideramos em nosso mapeamento a voz referida, não aquela em nome da qual esta se expressa. A Tabela 1, a seguir, mostra resultados de matriz que permitem observar a presença de vozes nos textos sobre políticas públicas. Obviamente, cada texto pode incluir um conjunto de variadas vozes.

Tabela 1
Intertextualidade e fontes jornalísticas em OG-Políticas Públicas

O que a Tabela 1 permite ver é que as vozes mais frequentemente convocadas para falar sobre políticas públicas são vozes do governo e vozes de moradores e trabalhadores locais, seguidas de vozes da polícia. A alta frequência de vozes do governo não causa estranhamento, já que políticas públicas são ações que têm no governo não o único, mas o principal ator. Chama atenção a alta frequência de vozes de moradores e trabalhadores locais, especialmente quando agregamos a informação de que 11 das 30 notícias sobre políticas públicas que contêm imagens em sua composição estão publicadas no caderno Eu-Repórter, uma seção na qual o veículo online convoca leitoras6 6 Neste artigo, assim como em outros de meus textos mais recentes, opto pelo feminino genérico como modo padrão de referência. Isso significa que em "leitoras" entendam-se incluídos também os leitores. a contribuir com notícias, sugerindo pautas. Na chamada para o caderno, O Globo convida: "Aqui, é você quem faz a notícia. Essa é a regra do Eu-repórter, a seção de jornalismo participativo do GLOBO que abre um espaço exclusivo para o que faz diferença no seu dia a dia".7 7 Disponível em <https://oglobo.globo.com/eu-reporter/eu-reporter-veja-como-transformar-seu-flagrante-em-noticia-3214613>. Acesso em 21 jul. 2017. A seção é especialmente relevante, então, porque permite identificar o que, entre o considerado relevante por leitoras de O Globo, é também considerado relevante por suas editoras. Isso é mais ainda pertinente se considerarmos também que em todo o corpus de 121 notícias de O Globo, todas as 11 que estão publicadas nesse caderno tematizam políticas públicas e contêm imagens. Esse caderno de O Globo publica exclusivamente matérias indicadas por leitoras, que por isso trazem muitas citações diretas e indiretas das vozes dessas "repórteres" ocasionais, e inclusive imagens produzidas por elas.

A presença também elevada de vozes da polícia permite especular sobre a natureza das políticas públicas noticiadas, mais no campo da segurança pública. Por outro lado, a baixa presença de vozes de pessoas em situação de rua sugere que em O Globo a opinião desse segmento a respeito dos serviços públicos que lhe são oferecidos não é considerada relevante.8 8 Assim como no Correio Braziliense (RESENDE, 2016), também em O Globo as vozes de pessoas em situação de rua aparecem mais frequentemente em texto sobre outros temas, textos que "são caracterizados por apresentarem cunho excepcional, que foge ao padrão de notícias relacionadas à população em situação de rua, como histórias 'bem-sucedidas' relacionadas à superação da situação de rua, ou à generosidade e honestidade. Sendo assim, não se pode considerar que o direito a voz no tema 'outros' seja equivalente ao do tema 'políticas públicas', por exemplo" (MOURA, 2016, p. 7). Ainda mais se vemos que as duas referências a vozes de pessoas em situação de rua na temática de políticas públicas aparecem no mesmo texto, realizando na verdade duas instâncias de articulação de uma só voz, de Márcio Pereira dos Santos. Assim, apenas uma pessoa em situação de rua é consultada no corpus a respeito dos serviços públicos disponíveis.

Salvando os resultados da consulta anterior especificamente no que se refere às vozes que se articulam para falar de políticas públicas, e cruzando esse resultado (políticas públicas/ intertextualidade) com os modos de avaliação de pessoas em situação de rua, podemos mapear as avaliações que o jornal atribui a outras vozes nesses textos:

Tabela 2
Modos de avaliação X Políticas Públicas/Intertextualidade

No conjunto de textos que tematizam a políticas públicas, vimos que oito diferentes vozes são convocadas a falar. Nem sempre nessas vozes articulam-se avaliações, mas algumas vezes sim. Nesses casos, os modos de avaliação mais presentes são perigosos, viciados e incômodos, avaliações presentes em 21 dos 30 textos que incluem imagens na temática de políticas públicas. Nenhuma avaliação positiva da população em situação de rua é observada quando se tematizam políticas públicas dirigidas a esse segmento populacional.

Outro recurso que o software possibilita é a pesquisa de frequência de palavras, em que se visualizam as palavras mais usadas em um corpus. No caso dos textos tematizando políticas públicas em O Globo, esse recurso retornou a seguinte nuvem (destaques acrescentados), composta das 50 palavras de no mínimo quatro letras mais frequentes nos 30 textos em foco:

Figura 2
Nuvem de Palavra, com destaques

Na nuvem gerada, o tamanho de cada palavra indica sua frequência, de modo que as palavras mais frequentes são, nessa ordem, "moradores", "social", "secretaria", "pessoas", "prefeitura". As palavras em si não chamam atenção: são esperadas nos textos dessa temática. A palavra "moradores" na maioria das vezes ocorre em colocação com "de rua", e 'rua' não aparece aqui porque a pesquisa de frequência de palavras foi limitada a palavras de no mínimo quatro letras.

A segunda palavra mais frequente nesse corpus de 30 textos sobre políticas públicas é "social". Essa palavra também é esperada, já que um critério para a categorização de textos na temática de políticas públicas foi justamente a referência a secretarias de Estado, e o padrão de colocação mais frequente é "Secretaria Municipal de Assistência Social" e "Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social". Mas as ações públicas mais representadas são do campo da ordem pública, o que se torna visível na pesquisa de palavra com "operação", também palavra de nossa nuvem. Essa pesquisa de palavra mostra o vínculo entre as ações públicas e o campo da segurança e ordem pública, não da assistência, embora as secretarias de assistência sejam frequentemente referidas. As colocações encontradas são do tipo: "operação da Guarda Municipal", "operação de recolhimento", "As polícias Civil e Militar fizeram uma operação", "os policiais iniciaram a operação", "operação em conjunto da secretaria com a PM", "Operação Choque de Ordem", "agentes da Seop realizaram uma operação". Assim, as operações de política e ação pública referidas nessas notícias estão predominantemente no plano das políticas repressivas e de internação compulsória, no campo da segurança e ordem pública.

"Foram" também é uma palavra bastante frequente no corpus. A pesquisa de palavra nesse caso é reveladora do papeis atribuídos a pessoas em situação de rua quando se trata de representar políticas e ações públicas. Vejamos na árvore de palavras, que para melhor visualização foi dividida em duas partes:

Figura 3
Árvore de Palavra - "foram" parte 1

Figura 4
Árvore de Palavra - "foram" parte 2

No que se refere ao sujeito gramatical de "foram", 10 casos têm sujeito não humano ("documentos e roupas", "colchões e lixo", "placas e rodas", "bloco", "táxis", na parte 1, "carros", "manilhas", "latões", "canivetes", "barracas", na parte 2), e os demais casos referem-se a pessoas em situação de rua que sofrem ações de serem abordadas, acolhidas, aconselhadas, apreendidas, atendidas, cadastradas, checadas, detidas, encaminhadas, flagradas, levadas, liberadas, mortas, recolhidas, retiradas, revistadas. Trata-se de ações de controle e vigilância a que estão sujeitas pessoas em situação de rua: seus corpos podem ser controlados sem cerimônia pelo aparato público posto a serviço de outros direitos que não os de pessoas em situação de rua propriamente. Exceções a esse padrão são as ocorrências de "foram acolhidas" e "foram acolhidos". Então vejamos esses casos mais de perto.

Há dois textos em que "foram acolhidas" ocorre. O primeiro informa que "De acordo com a secretaria, no último mês foram acolhidas cerca de 950 pessoas em situação de rua na região do Centro", entretanto, quando lemos a matéria "Moradores de rua ocupam o Centro do Rio e intimidam pedestres", um texto do caderno Eu-Repórter, vemos que se trata de focalizar o espaço público como espaço degradado pela presença de pessoas em situação de rua, e não os direitos dessas pessoas e a necessidade de serem acolhidas. Por essa razão, parece que "foram acolhidas" é eufemismo para 'foram recolhidas', já que não há acolhimento ou necessidade de acolhimento sendo focalizados no texto.

O segundo texto com essa colocação é "Moradores de rua montam acampamento na Lagoa". Nesse texto, o que se noticia é que "Um grupo de moradores de rua montou um acampamento improvisado na Avenida Epitácio Pessoa, na altura dos pedalinhos da Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul do Rio". Trata-se, mais uma vez, de notícia sobre o espaço público ocupado, e a política em foco é de expulsão, não de acolhimento: "A moradia tem deixado algumas pessoas do bairro com receio, conforme afirma a leitora Maria Regina Ferraz, que se sente intimidada ao passar pelo local (...) Como ninguém toma providências, o número de moradores e a barraca estão aumentando cada vez mais". É mais uma notícia do caderno Eu-Repórter. O trecho em que a colocação estudada aparece está mais ao fim da notícia: "Em nota, a Secretaria municipal de Desenvolvimento Social (SMDS) afirmou que, em agosto, oito pessoas em situação de rua foram acolhidas no bairro da Lagoa". Mais uma vez, "acolhidas" funciona como eufemismo para 'recolhidas', ou melhor, 'retiradas', já que o bairro nobre da Lagoa não conta com equipamentos de acolhimento para pessoas em situação de rua, donde a inadequação contextual do uso de "acolhidas no bairro da Lagoa" nesse trecho.

Também há colocação de "foram acolhidos", no masculino, em um caso. Trata-se do texto "Choque de Ordem multa táxis, apreende mercadorias e acolhe moradores de rua na Rodoviária e no Santos Dumont". Chama atenção a listagem de ações em que o único objeto gramatical humano é "moradores de rua", ao lado de "táxis" e "mercadorias". Aqui esse corpo-objeto da ação é ainda mais explícito. A mesma lista se repete na expansão, conforme os destaques a seguir:

Na ação, 20 táxis foram multados por irregularidades na documentação e 12 lacrados. Nove carros de passeio foram rebocados por estacionamento em local proibido. Na mesma operação, 15 moradores de rua foram acolhidos, sendo 11 maiores que foram levados para o abrigo da prefeitura em Paciência e quatro menores encaminhados para o abrigo da Cidade Nova.

Assim, vemos que 'ser acolhido' aqui, novamente, está muito mais para 'ser recolhido' que para receber qualquer acolhimento. O foco nesses casos não é o desabrigo que deveria levar a acolhimento ou a uma política pública acolhedora. O foco é o espaço, a ocupação do espaço público, a degradação do espaço público e a sensação de insegurança que resulta para outros segmentos populacionais. Os direitos desses segmentos, incomodados com a presença de pessoas em situação de rua, é que são visados nas políticas e ações públicas, não os direitos da própria população em situação de rua. Daí sua frequente objetificação. Sobre isso, nos contam Ávilla e Molina (2017, p. 68)ÁVILLA, H.; MOLINA, L. (2017). A situação de rua como problemática social estrutural nas cidades. In: Resende, V. M.; Silva, R. B. (orgs.), Diálogos sobre resistência: organização coletiva e a produção do conhecimento engajado. Campinas: Pontes. pp. 59-86.:

O discurso hegemônico tenta negar um contrato social prévio, segundo o qual as pessoas em situação de rua são cidadãs como todos os demais: pessoas cidadãs com seus direitos violados, e que devem ser atendidas. Portanto, é falso que a única demanda cidadã legítima seja a dos 'vizinhos' que opinam sobre o espaço público e sobre a necessidade de mantê-lo livre de ocupantes. É a ideologia neoliberal mediante o discurso hegemônico que etiqueta alguns como "cidadãos" e trata os outros como si não o fossem.

A questão do espaço urbano também se deixa ver nas palavras mais frequentes do corpus, organizadas na nuvem de palavras exibida na Figura 2. As palavras "local", "área", "região", "centro", "Lapa" e "bairro" também estão entre as mais presentes. Isso faz mais sentido quando se nota que dos 30 textos sobre políticas públicas que contêm imagens em O Globo, 24 têm locativos em suas manchetes, o que mostra um foco preponderante na questão da gestão do espaço urbano. Quando organizamos as 24 manchetes cronologicamente e as colocamos juntas, em um quadro inspirado no método sincrônico-diacrônico proposto por Laura Pardo (2011)PARDO, M. L. (2011). Teoria y metodologia de la investigación lingüística: método sincrónico-diacrónico de análisis lingüísitco de textos. Buenos Aires: Tersites., o resultado é o Quadro 1, a seguir. Embora não incorpore a reflexão de Pardo (2011)PARDO, M. L. (2011). Teoria y metodologia de la investigación lingüística: método sincrónico-diacrónico de análisis lingüísitco de textos. Buenos Aires: Tersites. a respeito das categorias gramaticalizadas e semântico-discursivas, trata-se ainda de um quadro sincrônico-diacrônico, pois pode ser lido no sentido das linhas, o que provê acesso à linearidade textual (sua sincronia, para Laura Pardo), ou no sentido das colunas, o que permite analisar a representação dos elementos posicionados em cada coluna (em diacronia no desenvolvimento do texto). No Quadro 1, cada linha corresponde a uma manchete:

Quadro 1
Quadro sincrônico-diacrônico das 24 manchetes que incluem locativos

No quadro, as manchetes estão ordenadas cronologicamente, e as cores em gradação de cinza indicam os padrões identificados na análise: o cinza mais claro indicando o padrão mais recorrente, e o mais escuro o menos recorrente (ver a seguir). O quadro é útil, então, para mapear os padrões composicionais dessas manchetes, em que há efetivamente regularidade. O principal padrão, realizado em 12 das 24 manchetes, é o seguinte:

Pessoas em Situação de Rua + Ação Realizada + Espaço

Nesses casos, apenas as três últimas colunas do quadro são preenchidas, exceto quando há uma circunstância vinculada ao poder executivo (em apenas um caso: "Mesmo com operações da prefeitura"). Trata-se de descrever ações indesejadas (eternalizadas no presente, como é o padrão para manchetes), vinculando sua natureza reprovável aos locais em que as ações são desempenhadas. Na maior parte dos casos (oito), trata-se de ações corriqueiras como dormir, lavar roupa, viver, acampar; mas em outras ocorrências descrevem-se ações mais ostensivas, como 'ocupar e intimidar', ou metafóricas, como 'trocar calçada por monumento' e 'não arredar pé'. Finalmente, um único caso não inclui ações, realizando uma frase nominal; este último caso é o único em que a referência a pessoas em situação de rua não é simplesmente 'moradores de rua', mas 'moradores de rua e sujeira', e esse item na colocação (sujeira) poderia ser interpretado como um substituto da ação (de sujar). Assim, podemos dizer que, nessas manchetes, quando pessoas em situação de rua são identificadas como origem de ações desempenhadas, sua representação é dirigida para a descrição de ações inoportunas, na maior parte das vezes relacionadas à simples rotina, mas outras vezes implicando algum tipo de desobediência. Em todos os casos, as ações são condenadas por seu contexto espacial no território urbano.

No segundo padrão mais produtivo, a recorrência, em seis casos, é:

Espaço + Ação Metafórica + Pessoas em Situação de Rua

Os seis casos realizam um padrão em que o foco inicial da ação descrita é o espaço, associado a uma ação metafórica de 'virar algo', sempre relativa a uma subversão do espaço ("vira abrigo", "vira dormitório", "vira casa"), ou a uma ação metafórica de caráter biológico ("sofre"), ou bélico ("volta a ser tomada"). Nesses casos, pessoas em situação de rua aparecem em posição circunstancial introduzida por "com", "de", "para", "por". Em três manchetes, há dois níveis espaciais definidos: o espaço específico da ação metafórica de transformação ("vira") - obra, carro, viaduto -, posicionado no início da manchete, e o espaço urbano, na zona focal ao final.9 9 Para a noção de zona focal, ver Pardo (2011), Marchese (2014), Santos (2017).

Os outros dois padrões identificados acontecem três vezes cada. O primeiro (em ordem cronológica) tem como foco inicial o poder executivo, referido como "Choque de Ordem", "Prefeitura" e "Subprefeitura", ao qual se associam ações dirigidas a pessoas em situação de rua - acolher e retirar, com a especificação espacial em zona focal. Em um desses casos, pessoas em situação de rua são associadas, por paralelismo, a objetos não humanos - táxis e mercadorias. Por fim, no último padrão, temos três casos em que pessoas em situação de rua são ligadas a ações sofridas (no particípio passado), vinculadas ao poder executivo federal ou municipal, com circunstância espacial flutuando entre o início e o fim da representação na manchete. Em dois de três nesse último caso, há agregação quantificando pessoas em situação de rua ("101", "mais de 20").

3. REPRESENTAÇÃO IMAGÉTICA DA SITUAÇÃO DE RUA EM O GLOBO: VIOLAÇÃO DE DIREITOS

Nos 30 textos articulando situação de rua e políticas públicas no corpus de O Globo com fotografias em sua composição, tomei como categorias analíticas, para mapeamento nas 30 fotografias, categorias da gramática do design visual (GDV. KRESS; VAN LEEUWEN, 1996KRESS, G.; VAN LEEUWEN, T. (1996). Reading images: the grammar of visual design. London; New York: Routledge.; VAN LEEUWEN, 2005VAN LEEUWEN, T. (2005). Introducing social semiotics. London: Routledge .), considerando a 'saliência', no significado composicional; os sistemas de 'contato' e 'distância', no significado interativo; e o sistema de 'estruturas de representação', no significado representacional. Para este último significado, agregamos ao quadro analítico da gramática do design visual as categorias de 'cenário' e 'corpo representado', um acréscimo indicado por necessidades analíticas de nosso corpus e dos objetivos da pesquisa.

Para cada um dos três significados (composicional, interativo e representacional), a discussão analítica no relatório da pesquisa foi organizada pelos padrões mais recorrentes para cada categoria. Os resultados analíticos por categorias estão resumidos a seguir na Tabela 3.

Tabela 3
Resumo do mapeamento de categorias para 30 imagens O Globo/ Políticas Públicas

No relatório da pesquisa, elaborado para o CNPq, todas as 30 imagens foram detalhadamente analisadas considerando as categorias elencadas na tabela. Pelos limites próprios a um artigo, entretanto, aqui apenas ilustrarei as análises com algumas imagens representativas dos padrões encontrados no corpus. A seguir, veremos exemplos de cada caso recorrente, considerando as fotografias e as manchetes correspondentes.

Começamos pelo significado composicional, que se refere a como recursos semióticos operam na composição da imagem como texto. A saliência diz respeito a recursos utilizados na imagem que acarretam a colocação dos participantes representados em maior ou em menor evidência, atribuindo proeminência e projetando valor sobre o que é representado na imagem. Os padrões para o significado composicional nesse corpus são: saliência não humana e saliência de pessoa em situação de rua. Vejamos um exemplo representativo de cada caso.

O caso da saliência não humana, padrão mais recorrente no corpus, será ilustrado pela figura que compõe a notícia de 14 de outubro de 2013. Trata-se de texto publicado no caderno Eu-Repórter, outra recorrência, já que 11 das 30 fotografias compõem notícias publicadas nesse caderno. A notícia "Moradores de rua vivem em área do Canal de Marapendi, na Barra" apresenta a seguinte fotografia, de autoria da leitora Roberta Fonseca, em sua composição:

Figura 5
Fotografia 14/10/2013 com faixa de codificação10 10 A faixa de codificação é um recurso de visualização do software utilizado. Esse recurso permite ver, em um trecho selecionado, quais as categorias analíticas (nós e/ou sub nós) mapeadas. As cores apresentadas na faixa são aleatórias, dadas automaticamente pelo software.

Em saliência na imagem, a vegetação, pela luminosidade que se destaca sobre ela. Dificilmente visível, ao pé do viaduto e camuflado na vegetação, está um homem de pé. A ocupação do espaço público também se destaca na imagem pela presença de duas cadeiras, que, sendo brancas, contrastam com a paisagem.

A estrutura é conceitual - não há ação representada, apenas um estar no mundo - e a fotografia, tomada em plano geral, com ângulo horizontal oblíquo, não provoca nenhuma aproximação com a pessoa representada por trás do viaduto. Contudo, com Biasi-Rodrigues e Nobre (2010)BIASI-RODRIGUES, B; NOBRE, K.C. (2010). Sobre a função das representações conceituais simbólicas na gramática do design visual: encaixamento ou subjacência. Linguagem em(Dis)curso. 10(1), pp. 91-109., podemos sustentar um encaixe dessa estrutura conceitual com uma relação locativa, já que o estar no mundo da pessoa em situação de rua conceitualmente representada dá-se em estreita relação com o local que ocupa, o que se constrói na relação multimodal: o foco no espaço urbano destaca-se desde a manchete. A separação de classes se deixa ver na voz da leitora-colaboradora: "Pagamos um dos IPTUs mais caros do Rio e a prefeitura ignora a situação". Representações que comparam o espaço ocupado por pessoas em situação de rua com apartamentos, lofts, espaços com vista para o mar, bairros nobres, naturalizando a distância social e a desigualdade, e normalizando os privilégios de classe, são recorrentes nos dados desse corpus.

Como é o padrão nas imagens publicadas no caderno Eu-repórter, o efeito discursivo desta imagem é de distanciamento entre o participante representado - que aqui é pouco visível - e a leitora. Com sistema de olhar ausente e tomada em plano geral, temos assim uma imagem que não cria empatia entre leitora e participante representado. Quando pautam o tema das políticas públicas, geralmente leitoras de O Globo dão foco no espaço público, não na situação de rua como questão. Como nos dizem Ávilla e Molina (2017)ÁVILLA, H.; MOLINA, L. (2017). A situação de rua como problemática social estrutural nas cidades. In: Resende, V. M.; Silva, R. B. (orgs.), Diálogos sobre resistência: organização coletiva e a produção do conhecimento engajado. Campinas: Pontes. pp. 59-86., o espaço é o ator a ser defendido, é sua ocupação o problema a ser enfrentado politicamente.

Nossos dados sugerem que essa perspectiva é compartilhada por leitoras de O Globo que se dispõem a pautar a situação de rua no veículo e aos quais o jornal decide ceder espaço na publicação. Essas leitoras enviam imagens, que na maior parte das vezes realizam todas as estratégias de distanciamento que conhecemos na gramática do design visual: ausência ou obscurecimento da pessoa, representada algumas vezes de forma metafórica, por seus parcos pertences, desordenados nesse espaço, ou sua representação distante, ou mesmo de costas; predominância de ângulo horizontal oblíquo e vertical elevado, em plano geral.

As imagens reforçam o distanciamento que os textos verbais reproduzem, e assim a desigualdade é normalizada, inclusive pelo recurso da ironia, pelas comparações indevidas ("apartamento", "loft a céu aberto"), pela ênfase no espaço de exclusividade que se corrompe ("de frente pro mar", "cartão-postal", "conjunto arquitetônico"), reafirmando-se os privilégios de classe no que se refere à moradia. Políticas habitacionais não são demandadas.

Ainda em termos de saliência, também são recorrentes as fotografias que põem em posição de destaque pessoas em situação de rua. Vejamos um exemplo do caderno Rio, a editoria mais recorrente (15 de 30 textos) e que concentra dez das 11 fotografias de pessoas em situação de rua em saliência nesse corpus. Em 28 de março de 2011, foi publicado o texto intitulado "Lapa sofre com aumento de moradores de rua", que traz em sua composição a seguinte fotografia:

Figura 6
Fotografia 23/3/2011 com faixa de codificação

Na imagem, as pessoas em situação de rua postas em saliência - por sua posição central na fotografia, pelo espaço que ocupam e pelo contraste de suas cores, tanto dos corpos negros contra os arcos brancos da Lapa quanto de suas roupas - estão tão juntas que constroem um corpo coletivo. Por isso codificamos a imagem como de estrutura conceitual, tomando o grupo como conceito construído.

Há complexidade, entretanto, nessa estrutura de representação. Se tomarmos os diversos participantes representados em sua individualidade, há padrões narrativos realizados: das duas mulheres sentadas ao centro, uma que produz vetor acional com o braço, a outra que reage com o olhar a algo que não distinguimos, e do menino deitado à esquerda, de blusa amarela, que reage com o olhar a quem fotografa o grupo.

É por essa reação do menino que a imagem realiza demanda, em termos interativos. É das raras imagens desse corpus em que uma pessoa em situação de rua estabelece contato pelo olhar com a leitora da imagem, mas essa demanda é mitigada pelo corpo grupo, representação predominante. Consideramos essa representação, ainda, em encaixe com relação locativa, pelo enquadre dos arcos da Lapa ao fundo. A relação locativa é fortalecida na composição multimodal com a manchete metafórica que humaniza o espaço e desumaniza as pessoas - "Lapa sofre com aumento de moradores de rua" - e com a legenda da foto: "Com os arcos da Lapa ao fundo, moradores de rua dormem num gramado: problema é crônico na região". Também na manchete há objetificação da população em situação de rua, representada como "problema". Embora nem todas as pessoas fotografadas durmam, a legenda expressa essa inatividade para representar no texto verbal o grupo saliente na imagem.

Dando continuidade ao padrão de efeito discursivo anteriormente destacado, também aqui o problema que se coloca dirige-se ao espaço, não à vida das pessoas. No canto esquerdo superior da imagem, o cartaz que em letras grandes vocaliza dizeres associados a uma instituição bancária privada: "Atitudes pelo Rio!" fortalece esse efeito de sentido.

Quanto aos padrões de recorrência para o significado interativo, consideradas todas as 30 imagens que compõem os textos publicados em O Globo entre 2011 e 2013 cruzando as temáticas da situação de rua e das políticas públicas, as codificações mais recorrentes são ângulo horizontal oblíquo e vertical elevado, para o sistema de atitude, sistema de olhar ausente, para o sistema de contato, e plano geral, para o sistema de distância.

Vejamos um exemplo representativo do padrão interativo em todas as categorias: ângulo horizontal oblíquo e vertical elevado, plano geral, sistema de olhar ausente. Em 5 de outubro de 2012, a notícia "Moradores de rua com passagem por abrigo municipal voltam a ser recolhidos em Copacabana",11 11 Uma nota sobre esta manchete. Note-se a colocação “com passagem por abrigo municipal”, que subverte a lexia “passagem pela polícia”, deixando ver a relação implícita entre a política de assistência (abrigo) e a política de segurança (prisão). do caderno Eu-Repórter, foi publicada incluindo a fotografia, reproduzida na Figura 7, de autoria do leitor Augusto Janot:

Figura 7
Fotografia 5/10/2012 com faixa de codificação

Esta fotografia inclui três pessoas entre os participantes representados - duas pessoas deitadas, uma coberta na parte superior esquerda da imagem e outra abaixo à direita, da qual só se vê a parte superior do corpo, e uma pessoa agachada, na parte inferior esquerda. Entretanto, o que se põe em saliência na imagem não são as pessoas, mas o conjunto desordenado de objetos no centro-direita da imagem. Essa zona da imagem está em proeminência por suas cores e pela linha de frame delimitada à direita pelo container e à esquerda pela esteira de palha.

A fotografia é tomada em plano geral, com ângulo horizontal oblíquo e vertical elevado, com sistema de olhar ausente: tudo leva ao distanciamento. Parece ter sido tomada de um apartamento vizinho, talvez a residência do leitor-colaborador da matéria. A composição destaca o cenário em que se desenrola a ação do homem na parte baixa esquerda da imagem. Embora não seja possível saber o que ele faz, o ângulo formado por seu braço deixa ver que uma ação é realizada ali, talvez a preparação de algum alimento. O foco é na circunstância espacial da ação, e essa mesma imagem também ilustra mais dois padrões recorrentes no corpus para os significados interativos: tomada em plano geral e sistema de olhar ausente.

Quanto aos significados representacionais, o padrão de recorrência no corpus é a estrutura conceitual que inclui o corpo representado de pessoa em situação de rua em cenário externo. A Figura 8, com fotografia que compõe a notícia "Mesmo com operações da prefeitura, moradores de rua continuam dormindo em Ipanema e no Leblon", ilustra esse padrão:

Figura 8
Fotografia 5/10/2011 com faixa de codificação

O corpo da pessoa em situação de rua, que dorme, está em saliência pela posição que ocupa, embora não seja visível, pois está completamente coberto. A manta xadrez em cores que contrastam entre si e com a luz que incide direto sobre ela fica em saliência na imagem, inclusive por seu enquadramento na linha de frame composta pelo peitoril da janela, a mureta à esquerda e o papelão à direita. O sistema de olhar está ausente, e não se realiza qualquer ação, sendo a imagem um reforço conceitual à perspectiva de inatividade incômoda recorrente nas fotografias publicadas em O Globo. A manchete, reproduzindo o padrão, enquadra localmente a permanência que contesta: "continuam dormindo em Ipanema e no Leblon", bairros nobres da Zona Sul do Rio de Janeiro.

O primeiro parágrafo do texto escrito dá o reforço à já comentada naturalização da separação de classe no espaço urbano:

RIO - Os bairros do Leblon e de Ipanema estão repletos de moradores que não pagam IPTU. São mendigos que fazem da praia e das calçadas do bairro suas moradias. Durante a madrugada desta quarta-feira, uma equipe do GLOBO percorreu as ruas da região e se deparou com mais de 15 mendigos nos dois bairros. Há menos de uma semana, no entanto, a Secretaria municipal de Assistência Social esteve nos dois bairros e realizou uma operação de recolhimento.

A referência por "mendigo" não nos deve passar despercebida, pois se trata de modo de referência de teor pejorativo. Em todo o corpus de textos de O Globo cruzando as temáticas da situação de rua e das políticas públicas que contêm imagens em sua composição, o modo de referência "mendigo" é utilizado sete vezes, e cinco delas em textos com imagens com pessoas em situação de rua em posição saliente.

Embora tenhamos visto, neste artigo, apenas quatro das 30 imagens que compõem textos cruzando as temáticas da situação de rua e das políticas públicas publicados em O Globo entre 2011 e 2013, percorremos todos os padrões representacionais, interativos e composicionais dessas 30 fotografias. Para encerrar a seção, vou tecer apenas algumas últimas e breves considerações a respeito dos corpos representados. Consideradas as 30 imagens, a classificação relativa aos corpos representados retorna a seguinte tabela:

Tabela 4
Classificações de corpos representados OG-PP

Em oito casos, não há pessoas em situação de rua representadas. Trata-se de imagens de espaços públicos em que pessoas em situação de rua não estão, mas sua indesejada presença se faz notar na ausência (por exemplo, uma fotografia de um coreto de praça em Niterói com uma barraca montada). É também de ausência-presença que se constroem os casos de corpos-metáfora (roupa estendida, cobertores na calçada). Quanto à presença, o padrão mais recorrente é de corpos em inatividade, dormindo, cobertos, sem olhos e sem olhares. Desconectados.

Nas imagens, predominam: a estrutura conceitual (muitas vezes com encaixe de relação locativa), o plano geral, o ângulo horizontal oblíquo e vertical elevado. Como resultado, nesse padrão não há ação representada, apenas um estar no mundo que não provoca nenhuma aproximação. A ausência sistemática do sistema de olhar reforça o distanciamento entre participante representado e leitora.

CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE AS ANÁLISES

Neste artigo, o foco foram os 30 textos de O Globo classificados na temática das políticas públicas que contêm fotografias. Trata-se de ações de controle e vigilância dirigidas a pessoas em situação de rua, cujos corpos são controlados sem cerimônia pelo aparato público posto a serviço dos direitos e privilégios de outros segmentos da população. Estando na zona do não ser, a população em situação de rua torna-se corpo manipulável, invisível em sua carência, mas excessivamente visível em sua presença, tomada ora como incômoda ora como perigosa.

O foco não é o desabrigo, mas a ocupação do espaço público. Dos 30 textos sobre políticas públicas que contêm imagens em O Globo, 24 trazem locativos em suas manchetes, o que também mostra um foco preponderante na questão da gestão do espaço urbano. Só assim podem fazer sentido as analogias impróprias que buscam definir os espaços ocupados pela população em situação de rua como "apartamentos", "lofts a céu aberto", moradas de "cartão postal", "com vista para o mar". Assim também se podem interpretar as recorrentes referências ao imposto territorial urbano (IPTU) a ao preço do metro quadrado nos bairros da Zona Sul.

O que as notícias enfatizam é a ocupação do espaço público, nas imagens e também nos textos verbais. A naturalização da distribuição desigual de recursos, da separação entre classes e da escassez ao lado do privilégio dá o tom das notícias, tanto nas imagens quanto nos textos, pelas relações locativas que se desenham. Há espaços de privilégio que são impenetráveis para segmentos populacionais que não disponham dos recursos condizentes. A desigualdade é normalizada, inclusive pelo recurso da ironia, no caso dos textos verbais.

Quando pautas e fotografias foram enviadas por leitoras e selecionadas para darem origem a notícias do caderno Eu-Repórter, realizaram denúncias, não sobre as violações dos direitos das pessoas em situação de rua, a começar pela violação ao direito à moradia, mas para denunciar a ocupação do espaço público. Nesses casos, chama atenção a regularidade não apenas da abordagem dada à temática, mas também das fotografias enviadas. Quando O Globo publica pautas de leitoras que se dispõem a focalizar a situação de rua, trata-se de imagens realizando estratégias de distanciamento: ausência ou obscurecimento da pessoa, representada algumas vezes de forma metafórica, ou sua representação distante, de costas; fotografias tomadas em ângulo horizontal oblíquo e vertical elevado, em plano geral. As imagens enviadas, assim, reforçam o distanciamento.

Há também imagens em que pessoas em situação de rua são postas em saliência, e nesses casos também se constroem corpos conceituais. O padrão fortalece os sentidos de distanciamento e atomização já mencionados; os corpos deitados sugerem inatividade; os corpos-grupo criam um efeito de ameaça ou risco, são corpos quase condensados, voltados para si mesmos, um reforço de sentidos de desconexão.

Enfim, os textos e imagens publicados em O Globo cruzando as temáticas da situação de rua e das políticas públicas são eficazes em não mencionar as políticas públicas necessárias à superação da situação de rua. Nada se diz de políticas de habitação, educação, saúde, esporte e lazer; nada se diz sobre os direitos violados das pessoas em situação de rua. Há um foco exclusivo: os direitos e privilégios de outros segmentos populacionais e sua segurança.

  • 1
    Este artigo apresenta um recorte de resultados parciais do projeto de pesquisa "Representação visual de pessoas em situação de rua no jornalismo on-line - Correio Braziliense e O Globo, de 2011 a 2013", projeto de pós-doutorado de Viviane de Melo Resende, com supervisão de Maria Carmen Aires Gomes, realizado junto ao referido programa de pós-graduação (2016-2017), e parte integrante do projeto mais amplo CNPq 304075/2014-0. No projeto realizado junto à UFMG, consideram-se apenas os corpora do Correio Braziliense (166 textos) e de O Globo (121 textos). Neste texto, o corpus de O Globo me serve de objeto.
  • 2
    Agradeço à Dra. Jacqueline Fiuza S. Regis seus preciosos comentários a respeito desta figura - embora eu não tenha incorporado todas as suas sugestões nesta versão.
  • 3
    A esse respeito, ver também as contribuições de Mbembe (2016)MBEMBE, A. (2016). Necropolítica. Arte & Ensaios. v. 32, pp. 123-51., em seu conceito de "necropolítica", e de Butler (2015)BUTLER, J. (2015). Quadros de guerra - quando a vida é passível de luto? Trad. S. Lamarão, A. M. Cunha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira ., em Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto?.
  • 4
    Na metalinguagem do software utilizado, categorias analíticas são 'nós' - por exemplo, "intertextualidade e fontes jornalísticas" é um nó de codificação. Esse nó se preenche em sub nós, que, neste caso, são as vozes mapeadas nos dados. Assim, o nó alimenta-se indutivamente nos dados, e vão-se criando os sub nós à medida em que a análise avança (os sub nós aqui, então, são as vozes que encontramos em cada corpus, e por isso os sub nós não coincidem necessariamente entre um jornal e outro). Outra possibilidade de constituição de nós aparece no caso das categorias com quadros teoricamente motivados, cujos sub nós são informados na teorias - por exemplo, os sub nós do nó 'estrutura de representação', na análise de imagens, são motivados pelo quadro analítico da gramática do design visual - mas também nesse caso os sub nós só receberão conteúdo à medida que a análise avança e as situações teoricamente descritas são encontradas nos dados.
  • 5
    O mapeamento de vozes convocadas a falar nos textos analisados incluiu a citação em discurso direto e as paráfrases em discurso indireto. No caso das mediações de fala (por exemplo, quando associações, entidades religiosas e movimentos sociais falam em nome de pessoas em situação de rua), consideramos em nosso mapeamento a voz referida, não aquela em nome da qual esta se expressa.
  • 6
    Neste artigo, assim como em outros de meus textos mais recentes, opto pelo feminino genérico como modo padrão de referência. Isso significa que em "leitoras" entendam-se incluídos também os leitores.
  • 7
  • 8
    Assim como no Correio Braziliense (RESENDE, 2016RESENDE, V. M. (2016). Representação de pessoas em situação de rua no jornalismo on-line: quais são as vozes convocadas para falar sobre a situação de rua? Revista de Estudos da Linguagem. 26(3), pp. 955-988.), também em O Globo as vozes de pessoas em situação de rua aparecem mais frequentemente em texto sobre outros temas, textos que "são caracterizados por apresentarem cunho excepcional, que foge ao padrão de notícias relacionadas à população em situação de rua, como histórias 'bem-sucedidas' relacionadas à superação da situação de rua, ou à generosidade e honestidade. Sendo assim, não se pode considerar que o direito a voz no tema 'outros' seja equivalente ao do tema 'políticas públicas', por exemplo" (MOURA, 2016, p. 7).
  • 9
    Para a noção de zona focal, ver Pardo (2011)PARDO, M. L. (2011). Teoria y metodologia de la investigación lingüística: método sincrónico-diacrónico de análisis lingüísitco de textos. Buenos Aires: Tersites., Marchese (2014)MARCHESE, M. C. (2014). Estado de excepción y políticas de emergencia: su impacto sobre la construcción simbólica del espacio habitacional. Cadernos de Linguagem e Sociedade. 15(1), pp. 117-40., Santos (2017)SANTOS, G. (2017). A voz da situação de rua na agenda de mudança social no Brasil: um estudo discursivo crítico sobre o Movimento Nacional da População de Rua (MNPR). Tese (Doutorado em Linguística). Brasília: Universidade de Brasília ..
  • 10
    A faixa de codificação é um recurso de visualização do software utilizado. Esse recurso permite ver, em um trecho selecionado, quais as categorias analíticas (nós e/ou sub nós) mapeadas. As cores apresentadas na faixa são aleatórias, dadas automaticamente pelo software.
  • 11
    Uma nota sobre esta manchete. Note-se a colocação “com passagem por abrigo municipal”, que subverte a lexia “passagem pela polícia”, deixando ver a relação implícita entre a política de assistência (abrigo) e a política de segurança (prisão).

REFERÊNCIAS

  • ÁVILLA, H.; MOLINA, L. (2017). A situação de rua como problemática social estrutural nas cidades. In: Resende, V. M.; Silva, R. B. (orgs.), Diálogos sobre resistência: organização coletiva e a produção do conhecimento engajado Campinas: Pontes. pp. 59-86.
  • BALLESTRIN, L. (2013). América Latina e o giro decolonial. Rev. Bras. Ciênc. Polít [online].11, pp. 89-117.
  • BENEDITO, D. (2017). Palestra no Seminário Direito em Debate. Auditório da Fiocruz, em 13 de março de 2017. Brasília: Universidade de Brasília.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    May-Aug 2018

Histórico

  • Recebido
    06 Mar 2018
  • Aceito
    21 Jun 2018
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