35 anos de Varia História: a mente do editor e os desafios na gestão de periódicos científicos

Varia Historia 35th Anniversary: The Editor’s Mind and the Challenges of Managing Scientific Journals

Silvia LIEBEL Sobre o autor

Ao se deparar com a edição brasileira de La main de l’auteur et l’esprit de l’imprimeur, traduzida como A mão do autor e a mente do editor (2014), Roger ChartierCHARTIER, Roger. A Mão do autor e a mente do editor. São Paulo: Ed. UNESP, 2014. expressou seu desagrado com a escolha do termo “editor” pelo tradutor. Afinal, obviamente editores se utilizam de seu aparato mental no processo de composição textual, não há nenhum surpresa nessa fórmula. Ao distinguir ações manuais de ações mentais, o autor realizava um trocadilho que, está claro, referia-se ao ato de compor um texto por um tipógrafo. E é precisamente em torno das ações de seus editores (não mais dos tipógrafos), com o advento da segunda revolução nas artes de se difundir um texto que é o processo de digitalização, que as revistas acadêmicas se fortaleceram.

Fundada como Revista do Departamento de História, com o empenho do professor Ciro Flávio Bandeira de Mello, Varia Historia percorreu 35 anos nos quais acompanhou as transformações no cenário dos periódicos científicos. De uma revista local, que contava com publicações de seus docentes e discentes, a revista cresceu, multiplicou os temas apresentados, adentrou o cenário nacional, profissionalizou-se e passou a integrar indexadores internacionais1 1 Varia Historia faz parte hoje dos seguintes indexadores: Latindex, DOAJ, LiVre!, Redalyc, SciELO, Web of Science (SciELO Citation Index), Historical Abstracts with Full Text, Fonte Academica (EBSCOhost), ERIH PLUS (European Reference Index for the Humanities and Social Sciences) e Scopus. . O esforço das equipes editoriais que a consolidaram ao longo das últimas décadas se faz presente em cada uma dessas etapas, e a elas nosso reconhecimento deve ser público. Destaco, em especial, a atuação das duas últimas editoras que gerenciaram a revista em um momento decisivo para seu formato digital e classificação atual, Regina Horta Duarte e Ana Paula Sampaio Caldeira (que, aliás, continua atuante na revista, e a quem sou grata pelo compartilhamento das dificuldades editoriais).

Além de uma revista de excelência, Varia Historia se constitui em uma referência de práticas éticas, legando, inclusive, guias práticos para autores e para uma boa editoria, frutos da dedicação de Regina Horta Duarte.2 2 Ver, nesse sentido, editorial acerca do amadurecimento e originalidade dos artigos científicos (DUARTE, 2015) e dos artigos em coautoria (DUARTE, 2017). As discussões levantadas sobre os significados da coautoria impactaram não apenas a revista, comprometida com seu processo de publicação de originais, mas também repercutiram em outros periódicos da área. Garantir que a publicação de uma pesquisa em coautoria seja resultado efetivo de uma parceria, e não de uma relação de orientação (que carrega pesos e poderes diferentes), tornou-se um dos pilares de nosso código ético que, esperamos, incitará reflexões profundas nas práticas acadêmicas nacionais.

No futuro próximo, Varia Historia continuará a enfrentar desafios. De um lado, temos uma exigência crescente em torno da presença virtual da revista, o que implica em, de alguma forma, ultrapassar as limitações orçamentárias. Com uma equipe dedicada, a revista leva seus artigos ao público leitor nas redes sociais, demarcando sua presença e permanecendo visível em meio à multiplicidade de periódicos acadêmicos. Mais do que visível, Varia Historia é reconhecida como uma das principais publicações da área pela manutenção do rigor de seu processo de avaliação, inibindo práticas de plágio e autoplágio que reproduzem indefinidamente o mesmo conteúdo central de uma pesquisa. Mais do que publicar, Varia Historia assinala a importância de se publicar com qualidade e originalidade.

De outro lado, vemo-nos imersos em discussões que, muito em breve, promoverão alterações na forma como as revistas são percebidas pela comunidade acadêmica, tanto em termos de fator de impacto, quanto das políticas editoriais. As exigências em relação à abertura dos pareceres aparecem como um entrave ético, na medida em que o sistema double blinded forma um dos pilares da profissionalização dos periódicos acadêmicos nas Humanidades. Diferentemente de artigos curtos, que fornecem uma resposta a um problema imediato, artigos que resultam de experimentos específicos, os artigos nas Ciências Humanas são, em geral, mais longos, frutos de uma pesquisa conjuntural que recorre à ampla bibliografia. Os pareceristas, nesse processo, fazem mais do que avaliar uma metodologia ou aferir os números apontados, eles têm o potencial de contribuir para a argumentação apresentada, indicando possibilidades que podem não ter sido antevistas pelos autores.

Em uma área que, tradicionalmente, privilegia livros, a publicação de artigos científicos implica em paciência e humildade por parte dos autores, que submetem seus textos ao crivo da avaliação pelos pares, e generosidade dos avaliadores, que dedicam tempo à leitura de trabalhos que não os seus. É um processo demorado, que frequentemente gera desconfortos, mas que garante uma publicação abalizada, um manuscrito que passou pelos ritos necessários e mostrou sua relevância para ser conhecido pelo público. Uma avaliação criteriosa, sem os melindres que o personalismo das críticas poderia gerar ou a necessidade de conformação a abordagens e grupos de pesquisa bem estabelecidos, favorece a criatividade e a pluralidade temática. O saber histórico que produz embates não se apequena diante das redes e conhecimentos há muito aceitos e tomados como padrão de medida. Hoje, jovens ou consagrados, pesquisadores têm um tratamento equânime de seus manuscritos.

Ao abraçar esses e tantos outros desafios que nos foram lançados, Varia Historia se apresenta como uma revista que mantém um padrão de qualidade atraente para pesquisadores e pesquisadoras de diferentes partes do mundo. Uma revista que é hoje uma das principais referências brasileiras no campo da História, cujo acesso se mantém aberto e gratuito. Uma revista que, sobretudo, construiu pilares éticos quanto ao tratamento dos dados, à qualidade das pesquisas, ao ineditismo dos manuscritos publicados e aos artigos em coautoria. Uma revista que é mantida pela Universidade Federal de Minas Gerais através de seu Programa de Pós-Graduação em História, mas que se oferece à comunidade acadêmica. Em um mar de publicações, Varia Historia segue relevante.

O número 73 de Varia Historia apresenta o dossiê “O Governo dos negócios: comércio, instituições e seus agentes entre os séculos XVIII e XIX”, organizado por Andréa Slemian e Cláudia Chaves. A apresentação de Simona Cerutti dá o tom das transformações nas pesquisas sobre os comerciantes, suas práticas e regulações nas últimas décadas, destacando a contribuição do dossiê. A seção de artigos livres traz textos de Antonio Luigi Negro, que discute as nuances do trabalho livre nas plantações em Sumatra e na Bahia do começo do século XX; Rosemeri Moreira, que aborda a pouco explorada participação feminina brasileira no auxílio de guerra entre 1942 e 1945; e Maurício Brito, em busca da sanha anticomunista que equivalia subversão à degeneração sexual dos estudantes universitários durante a ditadura brasileira. A resenha de Marcio Both da Silva acerca da construção de Alexander von Humboldt conclui o número que, novamente, é entregue ao público de forma livre e gratuita, zelando pela transmissão de conteúdo de qualidade.

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    Varia Historia faz parte hoje dos seguintes indexadores: Latindex, DOAJ, LiVre!, Redalyc, SciELO, Web of Science (SciELO Citation Index), Historical Abstracts with Full Text, Fonte Academica (EBSCOhost), ERIH PLUS (European Reference Index for the Humanities and Social Sciences) e Scopus.
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    Ver, nesse sentido, editorial acerca do amadurecimento e originalidade dos artigos científicos (DUARTE, 2015DUARTE, Regina Horta. Editorial. “Cru e quente”: autores ansiosos, leitores insatisfeitos. Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 31, n. 57, p. 629-631, set./dez. 2015. Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?script= sci_arttext&pid=S0104-87752015000300629&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 07 set. 2020.
    https://www.scielo.br/scielo.php?script=...
    ) e dos artigos em coautoria (DUARTE, 2017DUARTE, Regina Horta. Editorial. A quatro mãos: encruzilhadas da co autoria na área de história. Varia Historia , Belo Horizonte, vol. 33, n. 63, p. 571-576, set./dez. 2017. Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-87752017000300571>. Acesso em: 07 set. 2020.
    https://www.scielo.br/scielo.php?script=...
    ).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Out 2020
  • Data do Fascículo
    Sep-Dec 2020
Pós-Graduação em História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais Av. Antônio Carlos, 6627 , Pampulha, Cidade Universitária, Caixa Postal 253 - CEP 31270-901, Tel./Fax: (55 31) 3409-5045, Belo Horizonte - MG, Brasil - Belo Horizonte - MG - Brazil
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