Educação e arte na redução jesuítico-guarani de Trinidad

Education and art in the jesuitic-guarani mission of Trinidad

Resumos

Esta investigação trata da arte nos processos educativos introduzidos pelos jesuítas junto aos Guarani nas reduções missioneiras. Objetiva-se interpretar os modos educacionais e as estratégias textuais utilizadas pelos jesuítas, descrever o espaço urbanístico da redução de Santísima Trinidad del Paraná e da produção artística para tentar entender a influência europeia na população indígena, no período compreendido entre 1706 e 1767. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica que utiliza também fontes primárias embasadas na documentação já publicada e fotografias. Optou-se por uma abordagem qualitativa, seguindo o método histórico-antropológico descritivo de um grupo populacional assentado numa determinada redução e discutem-se as relações educacionais entre ambas as culturas. Nesse sentido, são apontadas no texto as diferenças culturais e o que pode ser compreendido como suas possibilidades de interculturalidade.

arte; educação; missões


This research is about art in Jesuitical educative process with Guarani Indians in the Missions. The objective is to interpret the educational ways and textual strategies used by Jesuits, to describe the urbanite space in Santísima Trinidad del Paraná and the artistic production to understand the European influence in the native population, between 1706 and 1767. This is a bibliographic research that uses primary fountains and photographs. It's a qualitative study that follows the historic-anthropologic method that describes a group of people living in a determinate reduction and talks about educational relations between both cultures. The text approaches cultural differences and possibilities of interculturality.

art; education; missions


ARTIGOS

Educação e arte na redução jesuítico-guarani de Trinidad

Education and art in the jesuitic-guarani mission of Trinidad

Graciela René Ormezzano

Professora do Departamento de História. Universidade de Passo Fundo. gormezzano@upf.br

RESUMO

Esta investigação trata da arte nos processos educativos introduzidos pelos jesuítas junto aos Guarani nas reduções missioneiras. Objetiva-se interpretar os modos educacionais e as estratégias textuais utilizadas pelos jesuítas, descrever o espaço urbanístico da redução de Santísima Trinidad del Paraná e da produção artística para tentar entender a influência europeia na população indígena, no período compreendido entre 1706 e 1767. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica que utiliza também fontes primárias embasadas na documentação já publicada e fotografias. Optou-se por uma abordagem qualitativa, seguindo o método histórico-antropológico descritivo de um grupo populacional assentado numa determinada redução e discutem-se as relações educacionais entre ambas as culturas. Nesse sentido, são apontadas no texto as diferenças culturais e o que pode ser compreendido como suas possibilidades de interculturalidade.

Palavras-chave: arte, educação, missões

ABSTRACT

This research is about art in Jesuitical educative process with Guarani Indians in the Missions. The objective is to interpret the educational ways and textual strategies used by Jesuits, to describe the urbanite space in Santísima Trinidad del Paraná and the artistic production to understand the European influence in the native population, between 1706 and 1767. This is a bibliographic research that uses primary fountains and photographs. It's a qualitative study that follows the historic-anthropologic method that describes a group of people living in a determinate reduction and talks about educational relations between both cultures. The text approaches cultural differences and possibilities of interculturality.

Keywords: art, education, missions

Aspectos introdutórios

O vento originário no coração do qual nosso pai

de novo se deixa unir cada vez que volta

o tempo originário,

cada vez que volta o tempo originário.

Terminado o tempo originário, quando a árvore tajy está florida,

então o vento se converte em tempo novo:

ei-los aqui já os ventos novos, o tempo novo,

o tempo novo de coisas não-mortais.1 1 CLASTRES, Pierre. A fala sagrada: mitos e cantos sagrados dos indígenas guarani. Campinas, SP: Papirus, 1990, p.24.

Esta investigação trata da arte nos processos educativos introduzidos pelos jesuítas ao utilizar metodologias específicas com o propósito de atingir determinados objetivos pedagógicos junto aos Guarani.2 2 Nesta obra não será encontrada a flexão para o plural, pois mesmo no sentido coletivo escreveremos os "Guarani", não os "Guaranis", porque na maioria dos casos, como os nomes dos povos indígenas se originam de suas próprias línguas, acrescentar um "s" resultaria em um hibridismo idiomático. Dá continuidade a uma pesquisa anterior desenvolvida no Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, no Rio Grande do Sul. Dos Trinta Povos Missioneiros, sete se encontram no que hoje é o Brasil, oito no Paraguai e quinze na Argentina.3 3 Os sete povos fundados no atual Estado do Rio Grande do Sul foram São Miguel, São Nicolau, São Borja, São Luís Gonzaga, São Lourenço, São João e Santo Ângelo. Oito povoados situados no que hoje é o território paraguaio foram Itapuá, Trinidad, Jesús, San Cosme, Santiago, Santa Rosa, Santa María de la Fé e San Ignacio Guazú. Os quinze que se encontravam na atual Argentina foram San Ignacio Miní, Loreto, Candelaria, Santa Ana, Corpus, Mártires, San Javier, Santa María, San Carlos, San José, Apóstoles, Concepción, San Thomé, La Cruz e Yapeyú. Optou-se por realizar a investigação na redução4 4 Redução é o termo utilizado para denominar as aldeias cristãs indígenas. de Santísima Trinidad del Paraná, por ser a que está em melhor estado de conservação, a mais extensa do atual território paraguaio e ter sido declarada, em 1993, Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela Unesco, assim como, as de São Miguel Arcanjo, no Brasil, e San Ignacio Miní, na Argentina. Se Trinidad é um sítio arqueológico que se encontra hoje no Paraguai, porém, é preciso entender seu vínculo estreito com Brasil e Argentina, por constituírem um espaço indiviso pelas atuais fronteiras, denominado anteriormente de Província Jesuítica do Paraguai.

Apesar dos estudos realizados pela comunidade acadêmica sobre o período colonial, esta produção não é tão intensa quanto a respeito de outras épocas. Os jesuítas permaneceram mais de dois séculos na Região do Guayrá e o número de trabalhos na área de educação é quase inexpressivo. A este respeito Maria Hayashi, Carlos Hayashi e Márcia da Silva, em uma síntese da produção de conhecimento realizada no Brasil, inferem que o que orienta os investimentos intelectuais está mediado por oportunidades de lucro material ou simbólico, conduzindo quem trabalha com campos "menos importantes" a esperar de outro objeto de estudo uma certa gratificação recusada pelo própria área científica.5 5 HAYASHI, Maria, HAYASHI, Carlos e SILVA, Márcia. Panorama da educação jesuítica no Brasil colonial: síntese do conhecimento em teses e dissertações. Em Aberto, Brasília, v.21, n.78, p.137-172, dez. 2007. Então, espera-se que este trabalho possa, de certo modo, contribuir com as lacunas no campo da história, da arte e da educação.

Missões era o nome dado aos projetos catequizadores de indígenas pelos seguidores de Inácio de Loyola que a bordo da Contra-Reforma da Igreja Católica chegaram à América e organizaram as reduções, onde procederam à formação do espírito cristão. Parece ter sido o método de ensino algo mais importante que a organização reducional para o triunfo dos missionários junto aos Guarani. Nesse sentido, Kern aponta:

Evangelizar e civilizar os indígenas "pagãos" foram os principais objetivos das Missões religiosas na América espanhola, dentro do espírito de cruzadismo que ainda imperava tanto na Espanha como em Portugal, transposto agora para as novas terras que se descobriam e povoavam.6 6 KERN, Arno. Missões: uma utopia política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982, p.97.

Isto posto, objetiva-se interpretar os modos educacionais e as estratégias textuais utilizadas pelos jesuítas, descrever o espaço urbanístico da redução de Trinidad e da produção artística para tentar entender a influência europeia na população indígena, no período compreendido entre a fundação em 1706 e a expulsão dos jesuítas da região platina em 1767.

Os atores da pesquisa foram os clérigos pertencentes à ordem jesuítica fundada pelo militar espanhol Inácio de Loyola (1491-1556) com o objetivo de consagrar-se à educação da juventude, seguindo os princípios cristãos com rígida disciplina e culto de obediência a todos os componentes da ordem. A Companhia de Jesus, cujo lema foi trabalhar para a maior glória de Deus e o maior bem das almas, deu ênfase ao campo educacional desde 1549. A Ratio Studiorum7 7 RATIO, Atque Institutio Studiorum Societatis Iesu. Roma: Collegio Romano eiufdem Societatis, 1616. Disponível em: http://books.google.com.br/books?id=yhQmQu04ILoC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false. Acesso em: 21 abr. 2013. foi o programa de estudos, de regras e a base filosófica e teológica dos jesuítas no âmbito educacional. Ela foi promulgada em 1599, depois de um período de elaboração e experimentação nas Províncias.

Também se contemplaram os indígenas que constituíram as populações da família lingüística tupi-guarani e que à chegada dos europeus ocupavam parte das regiões sudeste e sul do Brasil, parte de Paraguai, Argentina e Uruguai, sendo um povo nômade, de crenças animistas, que acreditava na "Terra sem mal", porque a terra onde viviam estava destinada ao cataclismo, obrigando-os a estar sempre a caminho. Esta crença facilitou a tarefa dos jesuítas, que explicavam a vida como um caminho até o Paraíso. Os religiosos se transformaram nos novos karaís,8 8 Pajés, feiticeiros ou xamãs da sociedade guarani. pois podiam ser mais poderosos que os feiticeiros Guarani no exercício da medicina, na interpretação dos fenômenos meteorológicos e na produção de efeitos mágicos para manter os maus espíritos afastados.9 9 KERN, Arno. Missões.

Trinidad foi fundada como colônia de San Carlos, situando-se entre San José e Mártires, mas foi transferida e reconsagrada em 1712, para sua localização definitiva com a denominação Santísima Trinidad del Paraná. A respeito é preciso esclarecer que foi transladada para um local mais seguro em razão dos contínuos ataques dos bandeirantes paulistas. A população de Trinidad, pelo censo de 1767, apontava 2.866 habitantes, mas atingiu o máximo de aproximadamente quatro mil pessoas nos períodos de maior índice demográfico. Os indígenas se agrupavam nas missões para libertar-se do sistema escravista das encomiendas10 10 Sistema que dava ao indígena sustento e educação cristã em troca do trabalho que ele deveria realizar para a Coroa pelo pagamento de tributos. A encomienda foi idealizada pelos espanhóis para evitar a escravização dos nativos americanos, mas acabou apresentando características semelhantes à escravidão. hispânicas, o que era um obstáculo tanto para o expansionismo do Império português como para a sociedade colonial hispano-americana e contribuiu para a queda do conjunto reducional, com o Tratado de Madri, em 1750.11 11 OLIVEIRA, Marilda. História e arte guarani: identidade e interculturalidade. Santa Maria. RS: Editoraufsm, 2004.

Trata-se de uma pesquisa bibliográfica que utiliza também fontes primárias embasadas na documentação já publicada e fotografias produzidas pela autora. Optou-se por uma abordagem qualitativa, seguindo o método histórico-antropológico descritivo de um grupo populacional assentado numa determinada redução, a de Santísima Trinidad del Paraná, e discutem-se as relações educacionais entre a cultura europeia e a sul-americana. De acordo com Ginzburg: "Só através do conceito de 'cultura primitiva' é que se chegou de fato a reconhecer que aqueles indivíduos outrora definidos de forma paternalista como 'camadas inferiores dos povos civilizados' possuíam cultura".12 12 GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.12. Esse conceito pode ser também discutido, uma vez que, segundo o autor, os termos do problema mudam radicalmente diante da proposta de compreender a "cultura produzida pelas classes populares" e a "cultura imposta às classes populares". Nesse sentido, são apontadas no texto as diferenças entre ambas as culturas e o que pode ser compreendido como suas possibilidades de interculturalidade.

O itinerário do artigo inicia pelos processos pedagógicos e as estratégias textuais que se utilizaram na fusão educacional de jesuítas e Guarani; segue uma descrição do espaço da redução e o modo em que este local com sua urbanidade barroca influenciou na criação artística da população indígena e, por último, as considerações finais.

Processos pedagógicos jesuíticos e estratégias textuais

Não é possível fazer afirmações sobre o modelo educacional jesuítico, mas pode estar baseado no deslumbramento pela América e na Utopia de Thomas Morus (1478-1535). Talvez, como escreve Dommanget, "tem uma tendência para separar demasiado a instrução da educação, como o prova o papel que concede aos padres. Este papel postula, e isto compreende-se da sua parte, o lema de que não há educação sem religião".13 13 DOMMANGET, Maurice. Os grandes socialistas e a educação: de Platão a Lenine. Braga: Publicações Europa-América, 1974, p.51. No modelo utópico, as crianças eram iniciadas na educação manual bipartida entre a agricultura e o artesanato, com caráter obrigatório. Além do ensino religioso e profissionalizante, o espírito das crianças devia ser formado pelo ensino literário. A instrução compreendia o estudo das ciências e das belas-artes. Morus foi um dos primeiros educadores a preconizar o uso das imagens como recurso educativo. Quer dizer que sua proposta educacional é semelhante à jesuítica pelo estudo das letras, das artes e da educação mediante o trabalho.

Apesar de existirem algumas teorias que falam da influência de Morus, há outras que sugerem a do dominicano Campanella (1568-1639) na experiência comunitária missioneira, pela ênfase na educação visual e musical. A leitura de imagens aparecia na cidade ideal junto ao estudo das artes mecânicas. Campanella previa também o ensino musical e o canto, considerado algo especial para crianças e mulheres, porque, para ele, essas vozes eram mais agradáveis. Dommanget afirma que o sistema escolar jesuítico não praticava a educação comum e que seu sistema escolar até os doze anos era "excessivamente despótico e muito estreitamente decalcado sobre a vida monacal para representar um empréstimo sério à Cidade do Sol".14 14 DOMMANGET, Maurice. Os grandes socialistas e a educação, p.69.

O modelo extraído dos mosteiros utilizava os sentidos do ouvido e da visão, mas o maior objetivo dos seguidores de Santo Inácio não era nem o ensino das artes, nem o das ciências, mas, evangelizar os infiéis, acabar com a bebedeira, a poligamia e a ociosidade. Com essa intenção, os missionários chegaram a ensinar a língua castelhana e o latim para os filhos dos caciques e outros notáveis, mas sempre a conversão à fé era o objetivo principal. Furlong cita o padre Cardiel para mostrar as dificuldades de comunicação: "Hablámosles los Padres (misioneros) nuestro idioma (castellano), escribe Cardiel, y responden en el suyo. Instámosle en que nos hablen en nuestra lengua: responden que no es natural suya ni del país. Reprendémosles, dámosles muchas razones y aun nos enojamos".15 15 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes. Buenos Aires: Theoria, 1962, p.474. Percebe-se, nesta fala, a tentativa de imposição da língua estrangeira aos indígenas.

A oposição ao aprendizado da língua castelhana estava, provavelmente, relacionada com o amor que sentiam os nativos pelo idioma Guarani. A escola onde se preparavam os dirigentes dos setores de artesanato, de administração dos bens comuns e de direção política do Cabildo16 16 Local onde se reunia o conselho de caciques. era bilíngüe. Ainda, Cardiel escreve: "Tienen sus maestros indios; aprenden algunos a leer con notable destreza, y leen la lengua extraña (castellano o latín) mejor que nosotros. También hacen la letra harto buena".17 17 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes. Esta modalidade educacional selecionava a elite indígena e era uma honra para os caciques ver seus filhos sendo educados pelos missionários. Contudo, na realidade, dois ou três clérigos não podiam ensinar a um grande número de crianças, de modo tal que os nativos que se destacavam na aprendizagem se constituíam em educadores.

Como seria muito difícil a comunicação até todos os indígenas aprenderem latim e castelhano, os missionários precisaram aprender a língua dos nativos. Além de facilitar a comunicação, cabe destacar que os Guarani se dirigiam aos seus deuses na língua materna, considerada no estudo de Clastres, como: "Bela linguagem, fala sagrada, agradável ao ouvido dos divinos, que as consideram dignas de si".18 18 CLASTRES, Pierre. A fala sagrada, p.9. Para atingir o objetivo dos missionários, utilizando as ñe'ẽ porá19 19 Belas palavras dirigidas aos deuses. foi elaborado um Catecismo Guarani, no qual se optou pela palavra "Tupã" como substituta do termo "Deus". Tupã, deus do trovão para os Guarani, foi escolhido pela associação com a força e a luz deste fenômeno, que seria o mais semelhante à condição de Deus Pai do cristianismo. Além desta opção, também os santos foram sincretizados com seres míticos da cultura nativa, denominados kandire, ou seja, os que podiam chegar ao Paraíso sem passar pela morte. Possivelmente, a adoração dedicada aos Tupã Mirim20 20 Deuses menores do panteão guarani. também levou a que a veneração aos santos ecoasse na mentalidade dos nativos.21 21 AFFANI, Flavia. La imaginería de las misiones jesuíticas de guaraníes: aspectos iconográficos distintivos, análisis estadístico y comparación con la imaginería andina. In: MELIÁ, Bartomeu. (ed.) Historia inacabada futuro incierto: VIII Jornadas internacionales sobre las misiones jesuíticas. Asunción: Centro de Estudios Paraguayos Antonio Guasch, 2002, p.327-356. O fato de São Miguel ter sido um dos prediletos na temática iconográfica pode ter consistido na identificação deste povo belicoso com o santo guerreiro. Essa assimilação foi tão profunda que todos os povoados contavam com uma confraria deste arcanjo. Além dos exemplos de sincretismo citados, os Guarani acreditavam na "Terra sem mal" associada ao Éden, e logo perceberam os jesuítas que não haveria um grande conflito entre as crenças, por haver outros elementos mítico-religiosos que auxiliariam na assimilação dos sacramentos e das práticas litúrgicas. E para aqueles que não dominavam as letras, as imagens, os cantos e o teatro ajudavam a aprender tais preceitos cristãos.

Sempre na intenção de atingir os objetivos evangelizadores, a educação missioneira não acontecia em escolas de ensino regular; seguindo a modalidade elitista ministravam-se a doutrina, a alfabetização e algo de conhecimento de aritmética, num processo de educação não formal. Não se pode exigir que, em pleno século XVII, os jesuítas tivessem criado nas reduções um sistema de educação formal. Com apenas dois ou três padres em cada Missão seria impossível esta realização. Nem nas missões jesuíticas, nem nas de qualquer outra ordem religiosa, nunca foram instalados colégios. Este privilégio era apenas de algumas cidades maiores.22 22 KERN, Arno. Missões.

As aulas aconteciam no sistema de dupla escolaridade. Porém, enfatizava-se a educação através do trabalho, para evitar a ociosidade, mantendo os nativos ocupados. Três dias por semana trabalhavam para o bem comum; mais três para o próprio proveito, principalmente na produção de suas hortas e pomares. O trabalho durava umas seis ou sete horas diárias. Dos seis aos doze anos, podiam aprender as artes mecânicas ou as artísticas porque tinham abertas as portas das oficinas; dos doze aos cinqüenta anos, todos os Guarani deveriam ter uma profissão, escolhida por eles e seguindo suas inclinações pessoais.23 23 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes.

Sob um olhar contemporâneo, pode-se inferir que a ideia de texto constitui-se como pressuposto teórico baseado na prática estética orientada para a educação. Isso implica um modo de produção sígnica, de produção de cultura em formato textual, que pode constar de cinco modalidades textuais fundamentais: a palavra, a imagem visual, o som, o gesto e o número.24 24 GENNARI, Mario. La educación estética: arte y literatura. Barcelona: Paidós, 1997.

Sobre a palavra foi mencionada a importância dada à comunicação e ao estudo das línguas estrangeiras. A educação da palavra foi fundamental tanto para cada sujeito em particular como para a expressão cultural de toda a comunidade. Evidentemente, que o número interessava também à comunicação humana por ser a base de toda contagem e medida, incluindo signos específicos da linguagem matemática. Na Ratio Studiorum25 25 RATIO, Atque Institutio Studiorum Societatis Iesu. se indicava que todos os alunos aprendessem matemática por uns quarenta e cinco minutos, dando lições particulares aos que se interessavam mais por este tipo de estudo.

Além da palavra e do número, a imagem foi fundamental para a conversão. A obra artística que possuía finalidade evangelizadora permitia que o espírito cristão e a simbologia transmitida pelas imagens fossem facilmente compreendidos pelos Guarani. O som passou a integrar as estratégias educativas textuais dos jesuítas, porque se dava primazia ao ouvido, apesar de pensarem que distraia os outros sentidos. Foram relevantes a música instrumental e o canto, porque houve uma integração do estilo católico de ladainha com as modalidades de canto indígena. Pode-se sentir a importância dada ao canto por este povo através dos tempos nas palavras proferidas por um xamã encontrado junto ao rio Paraná, em 1965, por Clastres: "Os cantos que entoamos, eles também os entoarão. E ficaremos na escuta, para saber se eles cantam ou não. Quando Tupã se erguer, eles deverão entoar os cantos que nós lhes ensinamos. E quando voltarmos para visitar a terra, seremos acompanhados de um grande vento".26 26 CLASTRES, Pierre. A fala sagrada, p.137.

Os missionários serviram-se da integração das estratégias textuais do som e do gesto para atrair os nativos ao cristianismo. As toadas monótonas da música e da dança Guarani foram adaptadas pelos jesuítas para as festas do Divino Espírito Santo. A dança continua sendo fundamental para os indígenas até hoje, como se extrai do apelo de um homem sábio destinado aos Guarani para que desconsiderem os ensinamentos do homem branco e permaneçam fiéis aos antigos valores:

Não se esqueçam de dançar!

Há muitas nações sobre a terra. Não se impacientem com elas! Continuem a dançar! Agitem seu chocalho de dança com força. Que suas irmãs os acompanhem com seus bastões de dança. Que elas saibam manejá-los!27 27 CLASTRES, Pierre. A fala sagrada, p.137.

Mas, voltando à época que interessa a este artigo, disse o padre Cardiel a respeito do que era aprendido nas escolas, em termos de diversidade textual: "Hay escuelas de leer en su lengua, en español y en latín; y de escribir de letras de mano y de la de molde; escuela de música, y también de danzas de cuenta..."28 28 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes, p.468.

A estratégia textual do gesto foi utilizada não só na dança como no teatro; estas linguagens expressivas eram somente para os domingos e dias de festa, especialmente ensinadas para agradar os santos e os personagens ilustres que chegavam de visita à Missão. Nas cerimônias reforçavam-se certos comportamentos desejados em relação ao controle do corpo e à disciplina e, também, à luta entre o bem e o mal que era representada por dançarinos vestidos de anjos e demônios. Dança e teatro misturavam-se junto com a música criando verdadeiros espetáculos com dramas religiosos ou históricos. Constam em todos os inventários de 1768 que as reduções possuíam enorme quantidade de figurinos e elementos cênicos, do que se deduz que as representações teatrais e as danças que aconteciam nas celebrações ao ar livre deveriam ser magníficas.29 29 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes.

O espaço da redução de Trinidad

A categoria de espaço é fundamento básico social e define a ideia que a sociedade faz de si mesma. Qual a ideia que os Guarani tinham de sua sociedade ao alterar um modus vivendum nômade para um sedentário? Como as noções de arquitetura e urbanização foram oferecidas aos indígenas pelos jesuítas e estavam alicerçadas nos valores cristãos, os critérios de inserção espacial possuíam parâmetros europeus e não americanos. No imaginário do colonizador, o indígena era o habitante de um espaço indefinível e difícil de compreender. O projeto colonizador foi, ante tudo, o de transformar o espaço desconhecido em território baseado nos códigos culturais europeus.30 30 MALDI, Denise. De confederados a bárbaros: a representação da territorialidade e da fronteira indígenas nos séculos XVIII e XIX. Revista de Antropologia, São Paulo, v.40, n.2, p.183-221, 1997.

A estrutura espacial que caracterizava os trinta povos das missões foi, direta ou indiretamente, idealizada pelo padre Sepp,31 31 SEPP, Antônio. Viagem às missões jesuíticas e trabalhos apostólicos [1698; 1710]. São Paulo: Martins, 1943. ao conjugar as tendências urbanísticas do Renascimento e do Barroco com os materiais do local. A paróquia e o templo deviam ocupar o meio da praça, que seria o centro de onde partiriam as ruas paralelas. Desse modo, os sacerdotes podiam subministrar os sacramentos pelos caminhos mais curtos evitando a marcha sob forte calor e chuvas torrenciais.

Em Santísima Trinidad del Paraná a praça era retangular e encontrava-se no centro espacial das moradias dos indígenas. A igreja maior situava-se no lado sudoeste da praça. Numa lateral da igreja, o grande claustro, onde se encontrava a escola, e ao seu lado, o coty guazú;32 32 Quarto grande ou casa que abrigava mulheres sós: viúvas, órfãs e idosas. nos fundos dessas construções, a horta dos padres. Na outra lateral, o cemitério; a praça estava rodeada por oito blocos de casas Guarani. No norte da redução, havia uma praça menor, rodeada pela igreja e o cemitério primitivos, o campanário e mais três blocos de casas; no extremo sul, uma construção afastada das outras, denominada barbacuá.33 33 Andaime para armazenar o milho.

A educação missioneira se caracterizou por difundir o trabalho para acabar com a preguiça, e para isto não faltavam aos indígenas atividades referentes à construção de todos estes espaços, de ruas e calçadas e de encanamento para provisão de água. Em todas as reduções haviam instalado os jesuítas oficinas para fazer carpintaria, telhas, tecelagem, canoas e barcos, rosários e peças de prata para os ofícios religiosos, e outros produtos para a subsistência coletiva, assim como aqueles que se dedicavam ao atendimento dos armazéns, à guarda noturna ou ao cuidado do gado e das hortas.

O espaço comunitário religioso das praças sediou a organização das celebrações em detrimento do uso espacial indiscriminado que havia anteriormente nas aldeias Guarani, gerando uma fusão entre o sagrado e o profano. Um cenário efêmero era montado para sacralizar o espaço da procissão, cujo trajeto era perfumado por incensos e flores eram lançadas ao passo do sacerdote. Imagens de santos, estandartes, hinos e objetos de arte sacra eram utilizados durante as festas.

Os próprios jesuítas, em várias oportunidades, destacaram que os indígenas reduzidos poderiam ensinar aos cristãos antigos as posturas adequadas para uma festa religiosa, tendo o papa Bento XIV citado as celebrações de Corpus Christi das Missões como exemplares para toda cristandade.34 34 MARTINS, Maria Cristina. Sobre festas e celebrações: as reduções do Paraguai (séculos XVII e XVIII). Passo Fundo, RS: UPF/ANPUH, 2006, p.173.

A mise en scène dos líderes religiosos era espetacular: as praças se constituíam no teatro do mundo, pois as vestes, os instrumentos musicais, a cruz, os cânticos e as imagens exerciam uma impressão estética sem par na população nativa. Todas as estratégias textuais eram utilizadas durante o cerimonial para comunicar os ensinamentos religiosos.

Em 1730, chegou às missões o arquiteto jesuíta Juan Bautista Prímoli, que foi o autor da igreja da Trinidad. Lamentavelmente, esta obra não tinha sido concluída quando aconteceu o desterro dos jesuítas. Cardiel, em carta ao padre Calatayud, relatou: "Las dos magníficas iglesias, que dije, son de piedra de sillería hasta el tejado, y son las de San Miguel y la Trinidad; las hizo sin cal un hermano Coadjutor, grande arquitecto y esas no tienen pilares, sino que están al modo de Europa [...]".35 35 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes, p.551-552. Mais adiante, o padre Oliver citado por Furlong também tece seus comentários sobre o templo informando:

Toda de piedra, con bóveda muy hermosa, con media naranja y linterna; todo con gran claridad, proporción y adorno. La fachada y torre era cosa soberbia. Lo interior de la iglesia tan hermosa por sus pinturas que parecía la gloria que representaba. Le faltaban aun los altares laterales, ya que los que había, eran como de prestado. Concluido esto, escribe Oliver, hubiera sido obra sin igual en toda aquella América y muy envidiable aún en las principales ciudades de Europa. 36 36 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes, p.553.

Ante a necessidade de reunir um grande número de fieis, a construção das igrejas determinou uma escala arquitetônica monumental, desconhecida da cultura Guarani. A igreja maior de Trinidad se assemelha à de São Miguel Arcanjo por serem o ensaio de uma arquitetura audaciosa, que se afastava um pouco da missioneira para se aproximar das grandes construções europeias, com sólidos muros de pedra, tetos arredondados, arcos, cripta, abóbada e cúpula. Observe-se a descrição que fez o padre Sepp: "Cada aldeia tem uma linda igreja grande, uma tôrre com quatro ou cinco sinos, um ou dois órgãos, um altar-mor ricamente dourado, dois ou quatro altares laterais, um púlpito inteiramente dourado." E complementa o relato impregnado de valores culturais e religiosos desconhecidos para os Guarani, falando sobre as toalhas dos altares e as capas de Asperges utilizadas para as diversas festas: "são tão limpos e asseados e bonitos e de material tão precioso, que não só poderiam figurar com muita honra em qualquer convento ou Colégio da Companhia na Europa, como em qualquer igreja episcopal".37 37 SEPP, Antônio. Viagem às missões jesuíticas e trabalhos apostólicos (1698; 1710), p.122.

A fachada do templo adotou o padrão da igreja do Gesù, em Roma, com o aditamento de duas torres sineiras, uma das quais possuía relógio.38 38 MARTINS, Nestor. O legado arquitetônico. In: TAVARES, Eduardo, NARDI FILHO, Hélio e DALTO, Renato. Missões. São Leopoldo, RS: Unisinos, 1999, p.112-139. Este mecanismo, introduzido pelos europeus, trouxe uma nova noção de tempo para os nativos, que antes se guiavam pela lua, o sol e os ciclos naturais. No interior da igreja é possível ver que o púlpito permanece em boas condições, assim como alguns nichos com esculturas, a pia batismal, a entrada da sacristia, o altar e frisos esculpidos com motivos vegetais e de anjos músicos que tocam diferentes instrumentos de sopro, de corda e de percussão.

A síntese intercultural jesuítico-guarani se encontra no friso que mostra a relação harmoniosa da arquitetura europeia e a ornamentação americana, a imagem de Maria (ao centro) e os anjos católicos com rostos marcados pela fisionomia indígena (Figura 1). As mãos em oração, o cabelo longo e a lua aos pés mostram a Inmaculada como a mulher indígena. A lua possui um caráter astral diferente nos ritos americanos do que na Europa: a lua é mãe do sol, a mãe universal, e assim os Guarani receberam o culto da Virgem como a Mãe de Deus, muito menos pelas palavras do que pela força da imagem lunar.39 39 SUSTERSIC, Darko. María-Luna y las maracas del friso de Trinidad: un ensayo de interpretación de las artes visuales de las Misiones guaraníes. In: MELIÀ, Bartomeu. (ed.). Historia inacabada futuro incierto, p.357-392.


Os relevos esculpidos na igreja maior de Trinidad evidenciam a musicalidade dos indígenas e a ênfase dada ao ensino musical. A música foi um dos aspectos de educação popular mais eficaz além do trabalho, com freqüência as tarefas eram acompanhadas de cânticos. E, após o serviço diário, o violão acompanhava as horas de mateada.40 40 Roda de amigos para conversar e tomar chimarrão. Os padres elogiavam organistas e outros músicos que interpretavam composições de mestres europeus, mas também incentivavam os indígenas a seguir a profissão de luthiers.

No século XVII, todas as reduções possuíam bandas, orquestras ou agrupações de músicos e cantores que precisavam importar instrumentos musicais. Mas, no século seguinte se fabricavam nas missões com a mesma perfeição dos importados. Yapeyú chegou a ser um empório musical que exportava harpas, cornetas, órgãos e todo tipo de instrumentos às reduções e às cidades dos espanhóis. O padre Sepp não só foi um excelente músico, como também maestro e luthier. Tinham os missionários que atender ao pedido do padre Diego de Torres que, em 1609, havia ordenado aos fundadores dos povoados indígenas que, todas as manhãs se recolhessem as crianças para aprenderem a doutrina, ler e cantar.41 41 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes.

A igreja primitiva possuía uma única nave, era pequena e, provavelmente, foi construída com a intenção de ser usada de modo provisório até a conclusão da igreja maior. Ainda se conservam algumas paredes, as colunas externas que indicam os alpendres, o altar de pedra e o piso cerâmico. Fica ao lado do campanário e da casa dos padres. O campanário possui uma planta quadrada; trata-se de uma torre sobre uma escadaria de dez degraus. Possui uma porta central num dos lados e duas pequenas janelas muito altas em cada parede. O teto parece um terraço e, pela altura, quiçá tenha sido um local de observação da redução.

Os párocos eram sepultados dentro da igreja maior. Ainda se conserva a cripta no centro da nave principal, com a escada que permite o acesso ao subterrâneo. Prateleiras de pedra marcam o local onde eram depositados os féretros. Existe um grande cemitério ao lado desta igreja e outro pequeno junto à igreja primitiva; neles, eram enterrados os indígenas divididos por sexo e idade. Adjacente à escola ficava o coty guazú, apesar de, na maioria das reduções, estar localizado em área contígua ou próxima ao cemitério.

O claustro possuía um pátio central de aproximadamente seis mil metros quadrados; da escola e das oficinas não restou praticamente nada. Os muros eram de adobe, material que não ofereceu resistência ao tempo úmido da região, mas pode-se perceber a estrutura da planta com o pátio central e algumas paredes quase completamente derruídas. Pisos originais de formato octogonal no que foram as salas de aula e de pedra rústica nas áreas externas são ainda apreciáveis (Figura 2).


Nas oficinas se ensinavam as artes que eram dirigidas às crianças e jovens que não faziam parte da elite e tinham aptidão para o trabalho manual. Ficavam em volta do pátio-claustro e eram coordenadas por alcaides,42 42 Indígena responsável pelo trabalho desenvolvido nas oficinas, chefe de oficiais e aprendizes. que instruíam em atividades como desenho, pintura, escultura, arquitetura, agricultura e diversas técnicas artesanais. Os jesuítas trouxeram da Europa grandes mestres em diversos ofícios e conseguiram formar excelentes discípulos; assim, as oficinas permitiram gerar atividades artesanais especializadas em pedra, metal e madeira.

A escultura e a pintura de Trinidad foram semelhantes ao conjunto dos outros povos; caracterizaram-se por ter uma predominância da temática religiosa dos missionários e seus discípulos, que reproduziam os modelos europeus, resultando numa arte híbrida que possuía também características Guarani, como a fisionomia indígena, a frontalidade e o esquematismo, indicando a interferência da cultura americana no modelo importado de Europa.

Os mestres em artes da Companhia se utilizavam das influências artísticas de seus países de origem para ensinar as técnicas pictóricas. O Barroco impulsionado pelos jesuítas procurava enaltecer o ideal comunitário. As pinturas produzidas foram em número muito menor do que as esculturas e se conservaram muito poucas. Grimau atuou em Trinidad junto a Prímoli e foi um dos poucos bons pintores europeus que atuaram nas reduções no século XVIII. Havia também muitos bons artistas indígenas, embora fossem famosos como copiadores, não criadores de obras originais.43 43 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes.

Se os indígenas se destacaram na cópia das técnicas e da iconografia ensinada pelos padres, isso não significa que eles não tivessem criatividade para realizar suas próprias obras. O ofício de pintor evocava uma técnica puramente européia. Entretanto, a de escultor era uma condição xamánica que evocava na matéria a figura de um poder superior capaz de produzir nos contempladores a experiência do assombro, do sagrado, do contato com a força de Tupã. O criador de imagens formulava certos rituais sobre a madeira e a pedra diferentes daqueles sobre a tinta e a tela. As imagens herdadas da cultura missioneira mostram esse processo de ritualização da linguagem plástico-visual. Independentemente de rótulos estilísticos, os escultores não tentavam imitar a natureza, mas sublimá-la ou sacralizá-la até atingir seu poder.44 44 SUSTERSIC, Darko. Imaginería y patrimonio mueble. In: GAZANEO, Jorge. (ed.). La herencia de la humanidad: las misiones del Guayrá. Buenos Aires: Manrique Zago; Unesco, 1993, v.II, p.155-186.

A participação dos escultores Guarani aparece em vários vestígios líticos, dentre eles, nas feições dos rostos dos anjos, expoentes da síntese estética jesuítico-guarani (Figura 3). Embora a arte das missões não tivesse como objetivo somente à fruição estética, mas a formação moral e religiosa, estando diretamente vinculada ao serviço da catequese.


As moradias dos Guarani eram habitações de um cômodo onde as famílias foram isoladas para combater a poligamia. Inicialmente, as casas eram feitas com estrutura de madeira nobre, as paredes de barro cru amassado com fibras vegetais e os tetos de palha, mas em Trinidad mudaram os materiais utilizados noutras reduções, incorporando peças cerâmicas e pedras ferruginosas. Junto ao templo se encontra o museu lítico onde é possível ver material de investigações arqueológicas e muitas telhas cerâmicas da antiga redução.

À diferença dos outros povoados, a arquitetura doméstica ganhou refinamento, e sobre as portas foram talhados florões. Seus corredores não tinham postes de madeira, senão arcos de meio ponto, apoiados em fortes pilares e decorados com baixo-relevos (Figura 4). Inclusive, observa-se que estes arcos de pedra se encontram, em alguns blocos, em melhor estado que as próprias vivendas. É necessário pensar a arte, a educação e a cultura jesuítico-guarani com uma perspectiva contemporânea. O passado da cultura Guarani não pode ficar somente gravado na pedra e esquecido, a significação das vivências naquele momento histórico precisa ser revisitada dentro do tempo-espaço atual.45 45 OLIVEIRA, Marilda. Arte guarani: identidade na contemporaneidade. Revista da Fundarte, Montenegro, ano 5, v.5, n.9, p.33-37, 2005.


Da fusão de indígenas Guarani e jesuítas surgiram uma urbanização e uma arquitetura religiosa geométrica específicas da redução, que favoreciam a educação diferenciada por gênero. As meninas aprendiam a fiar, costurar e tecer, e os meninos a ler e escrever. A produção de algodão era armazenável e utilizada para produzir as vestes da população realizada pelas meninas, o que auxiliava a combater a nudez, hábito tipicamente indígena.46 46 RIZZO, Antonia.; SEMPE, María Carlota. El uso del espacio y sus transformaciones durante el contacto jesuítico-guaraní. In: MELIÁ, Bartomeu. (eds.) Historia inacabada futuro incierto, p.253-264. Assim, nessa diferença de gênero pode-se argüir que enquanto os rapazes contabilizavam o algodão nos armazéns, as moças deviam fazer as vestimentas que eles utilizavam; enquanto os moços dançavam louvando São Miguel, as moças eram somente espectadoras; enquanto os alcaides liam as sagradas escrituras, o demônio era expresso através da forma feminina.47 47 MARTINS, Maria Cristina. Sobre festas e celebrações.

A pedagogia da Companhia de Jesus tem sofrido duras críticas, apesar de ter sido reformulada através dos tempos, por tentar suprimir a originalidade de pensamento e comandar a invasão cultural colonialista europeia no mundo. Todos os indígenas não optaram livremente pelos valores da sociedade ocidental e cristã que os jesuítas representavam. Valores transmitidos de forma autoritária, por decisões que se transformaram em obrigações, como a vassalagem ao monarca da Espanha, o pagamento de tributo ou a instalação do Cabildo segundo modelo espanhol.

A história das oito reduções paraguaias difere um pouco das doutrinas argentinas e brasileiras, porque foram enriquecidas com os aportes dos habitantes e dos bens das missões destruídas da outra margem do Paraná: Candelaria, Santa Ana, Loreto, San Ignacio Miní e Corpus. Contudo, assemelha-se nas questões básicas, uma vez que todas formavam a Província Jesuítica do Paraguai e muitos dos religiosos atuavam em mais de uma Missão, levando a experiência e os conhecimentos adquiridos junto à população nativa e aos missionários de diversos países europeus.

Considerações finais

Esta investigação não pretende esgotar o assunto da produção artística e das metodologias educacionais utilizadas no cotidiano da redução de Santísima Trinidad del Paraná, que se constituiu, ao mesmo tempo, no sucesso evangelizador e artístico por meio da educação dada nas escolas e oficinas, e do insucesso, ao desconsiderar as aptidões e as tradições da população nativa.

Nas reduções jesuíticas, por um lado, os padres sofreram um processo de mestiçagem forçado pelas referências milenares e as atitudes de contestação e resistência à invasão evangelizadora reveladora da essência guerreira dos Guarani. Por outro, os indígenas sofreram muitas alterações no seu modo de ser, deixando de lado o nomadismo e a poligamia para viver na urbanização missioneira; a nudez, a autoridade dos pajés, a antropofagia e a adoração a vários deuses cederam aos rituais, à moral e os "bons costumes" dos clérigos; a ausência de escrita, o ócio, a caça, a cultura de espécies vegetais americanas e o tempo cíclico que faziam parte de uma educação informal dividida entre pai e mãe passaram a conformar uma educação metódica, letrada, cronometrada, religiosa, de trabalho, ministrada por estranhos homens que mal falavam sua língua.

A expansão espacial da missão jesuítica, à semelhança do que ocorreu com outras ordens religiosas, implicou um constante processo de integração da cultura dos Guarani, das instituições imperiais espanholas e da Igreja Católica Apostólica Romana. Pondera-se que, além da integração, também houve a permanência de grupos que não se misturaram aos invasores, mesmo que seus hábitos culturais tenham sofrido transformações evidentes. Mas, ao contrário do que aconteceu na expansão colonial ibérica, o resultado não foi a extinção dos Guarani, mas a mestiçagem parcial e a absorção pela sociedade colonial desses grupos nativos sob a forma de uma interculturalidade progressiva, como acontece nos fenômenos típicos de fronteira.

Artigo recebido em: 11/07/2011.

Aprovado em: 09/04/2012.

  • 1
    CLASTRES, Pierre.
    A fala sagrada: mitos e cantos sagrados dos indígenas guarani. Campinas, SP: Papirus, 1990, p.24.
  • 2
    Nesta obra não será encontrada a flexão para o plural, pois mesmo no sentido coletivo escreveremos os "Guarani", não os "Guaranis", porque na maioria dos casos, como os nomes dos povos indígenas se originam de suas próprias línguas, acrescentar um "s" resultaria em um hibridismo idiomático.
  • 3
    Os sete povos fundados no atual Estado do Rio Grande do Sul foram São Miguel, São Nicolau, São Borja, São Luís Gonzaga, São Lourenço, São João e Santo Ângelo. Oito povoados situados no que hoje é o território paraguaio foram
    Itapuá, Trinidad, Jesús, San Cosme, Santiago, Santa Rosa, Santa María de la Fé e San Ignacio Guazú. Os quinze que se encontravam na atual Argentina foram
    San Ignacio Miní, Loreto, Candelaria, Santa Ana, Corpus, Mártires, San Javier, Santa María, San Carlos, San José, Apóstoles, Concepción, San Thomé, La Cruz e Yapeyú.
  • 4
    Redução é o termo utilizado para denominar as aldeias cristãs indígenas.
  • 5
    HAYASHI, Maria, HAYASHI, Carlos e SILVA, Márcia. Panorama da educação jesuítica no Brasil colonial: síntese do conhecimento em teses e dissertações.
    Em Aberto, Brasília, v.21, n.78, p.137-172, dez. 2007.
  • 6
    KERN, Arno.
    Missões: uma utopia política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982, p.97.
  • 7
    RATIO, Atque Institutio Studiorum Societatis Iesu. Roma: Collegio Romano eiufdem Societatis, 1616. Disponível em:
  • 8
    Pajés, feiticeiros ou xamãs da sociedade guarani.
  • 9
    KERN, Arno.
    Missões.
  • 10
    Sistema que dava ao indígena sustento e educação cristã em troca do trabalho que ele deveria realizar para a Coroa pelo pagamento de tributos.
    A encomienda foi idealizada pelos espanhóis para evitar a escravização dos nativos americanos, mas acabou apresentando características semelhantes à escravidão.
  • 11
    OLIVEIRA, Marilda.
    História e arte guarani: identidade e interculturalidade. Santa Maria. RS: Editoraufsm, 2004.
  • 12
    GINZBURG, Carlo.
    O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.12.
  • 13
    DOMMANGET, Maurice.
    Os grandes socialistas e a educação: de Platão a Lenine. Braga: Publicações Europa-América, 1974, p.51.
  • 14
    DOMMANGET, Maurice.
    Os grandes socialistas e a educação, p.69.
  • 15
    FURLONG, Guillermo.
    Misiones y sus pueblos de guaraníes. Buenos Aires: Theoria, 1962, p.474.
  • 16
    Local onde se reunia o conselho de caciques.
  • 17
    FURLONG, Guillermo.
    Misiones y sus pueblos de guaraníes.
  • 18
    CLASTRES, Pierre.
    A fala sagrada, p.9.
  • 19
    Belas palavras dirigidas aos deuses.
  • 20
    Deuses menores do panteão guarani.
  • 21
    AFFANI, Flavia. La imaginería de las misiones jesuíticas de guaraníes: aspectos iconográficos distintivos, análisis estadístico y comparación con la imaginería andina. In: MELIÁ, Bartomeu. (ed.)
    Historia inacabada futuro incierto: VIII Jornadas internacionales sobre las misiones jesuíticas. Asunción: Centro de Estudios Paraguayos Antonio Guasch, 2002, p.327-356.
  • 22
    KERN, Arno.
    Missões.
  • 23
    FURLONG, Guillermo.
    Misiones y sus pueblos de guaraníes.
  • 24
    GENNARI, Mario.
    La educación estética: arte y literatura. Barcelona: Paidós, 1997.
  • 25
    RATIO, Atque Institutio Studiorum Societatis Iesu.
  • 26
    CLASTRES, Pierre.
    A fala sagrada, p.137.
  • 27
    CLASTRES, Pierre.
    A fala sagrada, p.137.
  • 28
    FURLONG, Guillermo.
    Misiones y sus pueblos de guaraníes, p.468.
  • 29
    FURLONG, Guillermo.
    Misiones y sus pueblos de guaraníes.
  • 30
    MALDI, Denise. De confederados a bárbaros: a representação da territorialidade e da fronteira indígenas nos séculos XVIII e XIX.
    Revista de Antropologia, São Paulo, v.40, n.2, p.183-221, 1997.
  • 31
    SEPP, Antônio.
    Viagem às missões jesuíticas e trabalhos apostólicos [1698; 1710]. São Paulo: Martins, 1943.
  • 32
    Quarto grande ou casa que abrigava mulheres sós: viúvas, órfãs e idosas.
  • 33
    Andaime para armazenar o milho.
  • 34
    MARTINS, Maria Cristina.
    Sobre festas e celebrações: as reduções do Paraguai (séculos XVII e XVIII). Passo Fundo, RS: UPF/ANPUH, 2006, p.173.
  • 35
    FURLONG, Guillermo.
    Misiones y sus pueblos de guaraníes, p.551-552.
  • 36
    FURLONG, Guillermo.
    Misiones y sus pueblos de guaraníes, p.553.
  • 37
    SEPP, Antônio.
    Viagem às missões jesuíticas e trabalhos apostólicos (1698; 1710), p.122.
  • 38
    MARTINS, Nestor. O legado arquitetônico. In: TAVARES, Eduardo, NARDI FILHO, Hélio e DALTO, Renato.
    Missões. São Leopoldo, RS: Unisinos, 1999, p.112-139.
  • 39
    SUSTERSIC, Darko. María-Luna y las maracas del friso de Trinidad: un ensayo de interpretación de las artes visuales de las Misiones guaraníes. In: MELIÀ, Bartomeu. (ed.).
    Historia inacabada futuro incierto, p.357-392.
  • 40
    Roda de amigos para conversar e tomar chimarrão.
  • 41
    FURLONG, Guillermo.
    Misiones y sus pueblos de guaraníes.
  • 42
    Indígena responsável pelo trabalho desenvolvido nas oficinas, chefe de oficiais e aprendizes.
  • 43
    FURLONG, Guillermo.
    Misiones y sus pueblos de guaraníes.
  • 44
    SUSTERSIC, Darko. Imaginería y patrimonio mueble. In: GAZANEO, Jorge. (ed.).
    La herencia de la humanidad: las misiones del Guayrá. Buenos Aires: Manrique Zago; Unesco, 1993, v.II, p.155-186.
  • 45
    OLIVEIRA, Marilda. Arte guarani: identidade na contemporaneidade.
    Revista da Fundarte, Montenegro, ano 5, v.5, n.9, p.33-37, 2005.
  • 46
    RIZZO, Antonia.; SEMPE, María Carlota. El uso del espacio y sus transformaciones durante el contacto jesuítico-guaraní. In: MELIÁ, Bartomeu. (eds.)
    Historia inacabada futuro incierto, p.253-264.
  • 47
    MARTINS, Maria Cristina.
    Sobre festas e celebrações.
    • 1 CLASTRES, Pierre. A fala sagrada: mitos e cantos sagrados dos indígenas guarani. Campinas, SP: Papirus, 1990, p.24.
    • 5 HAYASHI, Maria, HAYASHI, Carlos e SILVA, Márcia. Panorama da educação jesuítica no Brasil colonial: síntese do conhecimento em teses e dissertações. Em Aberto, Brasília, v.21, n.78, p.137-172, dez. 2007.
    • 6 KERN, Arno. Missões: uma utopia política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982, p.97.
    • 7 RATIO, Atque Institutio Studiorum Societatis Iesu. Roma: Collegio Romano eiufdem Societatis, 1616. Disponível em: http://books.google.com.br/books?id=yhQmQu04ILoC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false. Acesso em: 21 abr. 2013.
    • 9 KERN, Arno. Missões.
    • 11 OLIVEIRA, Marilda. História e arte guarani: identidade e interculturalidade. Santa Maria. RS: Editoraufsm, 2004.
    • 12 GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.12.
    • 13 DOMMANGET, Maurice. Os grandes socialistas e a educação: de Platão a Lenine. Braga: Publicações Europa-América, 1974, p.51.
    • 14 DOMMANGET, Maurice. Os grandes socialistas e a educação, p.69.
    • 15 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes. Buenos Aires: Theoria, 1962, p.474.
    • 17 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes.
    • 18 CLASTRES, Pierre. A fala sagrada, p.9.
    • 21 AFFANI, Flavia. La imaginería de las misiones jesuíticas de guaraníes: aspectos iconográficos distintivos, análisis estadístico y comparación con la imaginería andina. In: MELIÁ, Bartomeu. (ed.) Historia inacabada futuro incierto: VIII Jornadas internacionales sobre las misiones jesuíticas. Asunción: Centro de Estudios Paraguayos Antonio Guasch, 2002, p.327-356.
    • 22 KERN, Arno. Missões.
    • 23 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes.
    • 24 GENNARI, Mario. La educación estética: arte y literatura. Barcelona: Paidós, 1997.
    • 25 RATIO, Atque Institutio Studiorum Societatis Iesu.
    • 26 CLASTRES, Pierre. A fala sagrada, p.137.
    • 27 CLASTRES, Pierre. A fala sagrada, p.137.
    • 28 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes, p.468.
    • 29 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes.
    • 30 MALDI, Denise. De confederados a bárbaros: a representação da territorialidade e da fronteira indígenas nos séculos XVIII e XIX. Revista de Antropologia, São Paulo, v.40, n.2, p.183-221, 1997.
    • 31 SEPP, Antônio. Viagem às missões jesuíticas e trabalhos apostólicos [1698; 1710]. São Paulo: Martins, 1943.
    • 34 MARTINS, Maria Cristina. Sobre festas e celebrações: as reduções do Paraguai (séculos XVII e XVIII). Passo Fundo, RS: UPF/ANPUH, 2006, p.173.
    • 35 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes, p.551-552.
    • 36 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes, p.553.
    • 37 SEPP, Antônio. Viagem às missões jesuíticas e trabalhos apostólicos (1698; 1710), p.122.
    • 38 MARTINS, Nestor. O legado arquitetônico. In: TAVARES, Eduardo, NARDI FILHO, Hélio e DALTO, Renato. Missões. São Leopoldo, RS: Unisinos, 1999, p.112-139.
    • 39 SUSTERSIC, Darko. María-Luna y las maracas del friso de Trinidad: un ensayo de interpretación de las artes visuales de las Misiones guaraníes. In: MELIÀ, Bartomeu. (ed.). Historia inacabada futuro incierto, p.357-392.
    • 41 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes.
    • 43 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes.
    • 44 SUSTERSIC, Darko. Imaginería y patrimonio mueble. In: GAZANEO, Jorge. (ed.). La herencia de la humanidad: las misiones del Guayrá. Buenos Aires: Manrique Zago; Unesco, 1993, v.II, p.155-186.
    • 45 OLIVEIRA, Marilda. Arte guarani: identidade na contemporaneidade. Revista da Fundarte, Montenegro, ano 5, v.5, n.9, p.33-37, 2005.
    • 46 RIZZO, Antonia.; SEMPE, María Carlota. El uso del espacio y sus transformaciones durante el contacto jesuítico-guaraní. In: MELIÁ, Bartomeu. (eds.) Historia inacabada futuro incierto, p.253-264.
    • 47 MARTINS, Maria Cristina. Sobre festas e celebrações.

    1 CLASTRES, Pierre. A fala sagrada: mitos e cantos sagrados dos indígenas guarani. Campinas, SP: Papirus, 1990, p.24. 2 Nesta obra não será encontrada a flexão para o plural, pois mesmo no sentido coletivo escreveremos os "Guarani", não os "Guaranis", porque na maioria dos casos, como os nomes dos povos indígenas se originam de suas próprias línguas, acrescentar um "s" resultaria em um hibridismo idiomático. 3 Os sete povos fundados no atual Estado do Rio Grande do Sul foram São Miguel, São Nicolau, São Borja, São Luís Gonzaga, São Lourenço, São João e Santo Ângelo. Oito povoados situados no que hoje é o território paraguaio foram Itapuá, Trinidad, Jesús, San Cosme, Santiago, Santa Rosa, Santa María de la Fé e San Ignacio Guazú. Os quinze que se encontravam na atual Argentina foram San Ignacio Miní, Loreto, Candelaria, Santa Ana, Corpus, Mártires, San Javier, Santa María, San Carlos, San José, Apóstoles, Concepción, San Thomé, La Cruz e Yapeyú. 4 Redução é o termo utilizado para denominar as aldeias cristãs indígenas. 5 HAYASHI, Maria, HAYASHI, Carlos e SILVA, Márcia. Panorama da educação jesuítica no Brasil colonial: síntese do conhecimento em teses e dissertações. Em Aberto, Brasília, v.21, n.78, p.137-172, dez. 2007. 6 KERN, Arno. Missões: uma utopia política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982, p.97. 7 RATIO, Atque Institutio Studiorum Societatis Iesu. Roma: Collegio Romano eiufdem Societatis, 1616. Disponível em: http://books.google.com.br/books?id=yhQmQu04ILoC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false. Acesso em: 21 abr. 2013. 8 Pajés, feiticeiros ou xamãs da sociedade guarani. 9 KERN, Arno. Missões. 10 Sistema que dava ao indígena sustento e educação cristã em troca do trabalho que ele deveria realizar para a Coroa pelo pagamento de tributos. A encomienda foi idealizada pelos espanhóis para evitar a escravização dos nativos americanos, mas acabou apresentando características semelhantes à escravidão. 11 OLIVEIRA, Marilda. História e arte guarani: identidade e interculturalidade. Santa Maria. RS: Editoraufsm, 2004. 12 GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.12. 13 DOMMANGET, Maurice. Os grandes socialistas e a educação: de Platão a Lenine. Braga: Publicações Europa-América, 1974, p.51. 14 DOMMANGET, Maurice. Os grandes socialistas e a educação, p.69. 15 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes. Buenos Aires: Theoria, 1962, p.474. 16 Local onde se reunia o conselho de caciques. 17 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes. 18 CLASTRES, Pierre. A fala sagrada, p.9. 19 Belas palavras dirigidas aos deuses. 20 Deuses menores do panteão guarani. 21 AFFANI, Flavia. La imaginería de las misiones jesuíticas de guaraníes: aspectos iconográficos distintivos, análisis estadístico y comparación con la imaginería andina. In: MELIÁ, Bartomeu. (ed.) Historia inacabada futuro incierto: VIII Jornadas internacionales sobre las misiones jesuíticas. Asunción: Centro de Estudios Paraguayos Antonio Guasch, 2002, p.327-356. 22 KERN, Arno. Missões. 23 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes. 24 GENNARI, Mario. La educación estética: arte y literatura. Barcelona: Paidós, 1997. 25 RATIO, Atque Institutio Studiorum Societatis Iesu. 26 CLASTRES, Pierre. A fala sagrada, p.137. 27 CLASTRES, Pierre. A fala sagrada, p.137. 28 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes, p.468. 29 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes. 30 MALDI, Denise. De confederados a bárbaros: a representação da territorialidade e da fronteira indígenas nos séculos XVIII e XIX. Revista de Antropologia, São Paulo, v.40, n.2, p.183-221, 1997. 31 SEPP, Antônio. Viagem às missões jesuíticas e trabalhos apostólicos [1698; 1710]. São Paulo: Martins, 1943. 32 Quarto grande ou casa que abrigava mulheres sós: viúvas, órfãs e idosas. 33 Andaime para armazenar o milho. 34 MARTINS, Maria Cristina. Sobre festas e celebrações: as reduções do Paraguai (séculos XVII e XVIII). Passo Fundo, RS: UPF/ANPUH, 2006, p.173. 35 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes, p.551-552. 36 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes, p.553. 37 SEPP, Antônio. Viagem às missões jesuíticas e trabalhos apostólicos (1698; 1710), p.122. 38 MARTINS, Nestor. O legado arquitetônico. In: TAVARES, Eduardo, NARDI FILHO, Hélio e DALTO, Renato. Missões. São Leopoldo, RS: Unisinos, 1999, p.112-139. 39 SUSTERSIC, Darko. María-Luna y las maracas del friso de Trinidad: un ensayo de interpretación de las artes visuales de las Misiones guaraníes. In: MELIÀ, Bartomeu. (ed.). Historia inacabada futuro incierto, p.357-392. 40 Roda de amigos para conversar e tomar chimarrão. 41 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes. 42 Indígena responsável pelo trabalho desenvolvido nas oficinas, chefe de oficiais e aprendizes. 43 FURLONG, Guillermo. Misiones y sus pueblos de guaraníes. 44 SUSTERSIC, Darko. Imaginería y patrimonio mueble. In: GAZANEO, Jorge. (ed.). La herencia de la humanidad: las misiones del Guayrá. Buenos Aires: Manrique Zago; Unesco, 1993, v.II, p.155-186. 45 OLIVEIRA, Marilda. Arte guarani: identidade na contemporaneidade. Revista da Fundarte, Montenegro, ano 5, v.5, n.9, p.33-37, 2005. 46 RIZZO, Antonia.; SEMPE, María Carlota. El uso del espacio y sus transformaciones durante el contacto jesuítico-guaraní. In: MELIÁ, Bartomeu. (eds.) Historia inacabada futuro incierto, p.253-264. 47 MARTINS, Maria Cristina. Sobre festas e celebrações.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      11 Jul 2013
    • Data do Fascículo
      Abr 2013

    Histórico

    • Recebido
      11 Jul 2011
    • Aceito
      09 Abr 2012
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