Open-access TECNOLOGIAS EDUCACIONAIS PARA AUTOCUIDADO DE CRIANÇAS COM ANEMIA FALCIFORME: REVISÃO INTEGRATIVA*

RESUMO

Objetivo:  identificar as tecnologias educacionais utilizadas para auxiliar crianças com anemia falciforme no seu autocuidado.

Método:  revisão integrativa realizada em seis fases consecutivas, entre os meses de junho a julho de 2023, sem recorte temporal, nos recursos informacionais: Public/Publish Medline, Biblioteca Virtual em Saúde, Scientific Electronic Library Online e Web of Science e Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature.

Resultados:  foram encontrados cinco estudos, dos quais se destacaram: jogo, dois aplicativos eletrônicos, livro para colorir e imagem guiada para alívio da dor. Todas as tecnologias educacionais refletiram na melhor compreensão da criança sobre o autocuidado.

Conclusão:  os estudos selecionados permitiram compreender que as tecnologias educacionais auxiliam o público infantil com anemia falciforme na compreensão da doença e em ações que melhorem seus sinais e sintomas, favorecendo o autocuidado, porém, é imprescindível a criação de novas tecnologias educacionais, já que a maioria dos achados é antiga e não condiz com a realidade atual.iliar; Transtorno do espectro autista; Infecções por coronavírus; Emergências; Criança.

DESCRITORES:
Anemia falciforme; Crianças; Autocuidado; Tecnologia educacional; Enfermagem.

HIGHLIGHTS

Enfermeiros devem criar tecnologias educacionais para crianças.

Tecnologias Educacionais auxiliam no autocuidado na anemia falciforme.

Entender a doença auxilia na promoção do autocuidado infantil.

Foram encontrados: um jogo, dois aplicativos, um livro e um diário.

ABSTRACT

Objective:  To identify the educational technologies used to help children with sickle cell anemia in their self-care.

Method:  an integrative review carried out in six consecutive phases, between June and July 2023, with no time frame, in the following information resources: Public/published Medline, Virtual Health Library, Scientific Electronic Library Online, and Web of Science and Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature.

Results:  Five studies were found, of which the following stood out: a game, two electronic applications, a coloring book, and a guided image for pain relief. All the educational technologies reflect the child’s better understanding of self-care.

Conclusion:  The selected studies allowed us to understand that educational technologies help children with sickle cell anemia to understand the disease and take actions that improve its signs and symptoms, favoring self-care, but it is essential to create new educational technologies since most of the findings are old and do not match the current reality.

KEYWORDS:
Anemia; Sickle Cell; Children; Self Care; Educational Technology; Nursing.

HIGHLIGHTS

Nurses should create educational technologies for children.

Educational technologies help with self-care in sickle cell anemia.

Understanding the disease helps promote self-care in children.

The following were found: a game, two apps, a book, and a diary.

RESUMEN

Objetivo:  identificar las tecnologías educativas utilizadas para ayudar a los niños con anemia falciforme en su autocuidado.

Método:  revisión integradora realizada en seis fases consecutivas, entre junio y julio de 2023, sin marco temporal, en los siguientes recursos de información: Public/Publish Medline, Virtual Health Library, Scientific Electronic Library Online y Web of Science y Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature.

Resultados:  Se encontraron cinco estudios, de los que destacaron los siguientes: un juego, dos aplicaciones electrónicas, un libro para colorear y una imagen guiada para el alivio del dolor. Todas las tecnologías educativas se reflejaron en una mejor comprensión del autocuidado por parte del niño.

Conclusión:  Los estudios seleccionados permitieron comprender que las tecnologías educativas ayudan a los niños con anemia falciforme a comprender la enfermedad y a realizar acciones que mejoren sus signos y síntomas, favoreciendo el autocuidado. Sin embargo, es fundamental crear nuevas tecnologías educativas, ya que la mayoría de los hallazgos son antiguos y no se ajustan a la realidad actual.

DESCRIPTORES:
Anemia de Células Falciformes; Niño; Autocuidado; Tecnología Educacional; Enfermería.

HIGHLIGHTS

Enfermeros deben crear tecnologías educativas para los niños.

Las tecnologías educativas ayudan al autocuidado en la anemia falciforme.

Entender la enfermedad ayuda a promover el autocuidado en los niños.

Se encontraron: un juego, dos apps, un libro y un diario.

INTRODUÇÃO

A anemia falciforme (AF) é uma hemoglobinopatia e sua origem está no continente africano, de onde o gene S é oriundo e se espalhou para muitos países, atingindo maior prevalência nos países em que ocorreu o período escravocrata1. No Brasil, a distribuição da Hemoglobina S (HbS) é mais frequente nas regiões: Sudeste e Nordeste devido á maior miscigenação nestas áreas2.

É uma patologia genética, hereditária, crônica, com raras chances de cura que, em situações de ausência ou diminuição de oxigênio, altera a forma da hemácia que adquire o formato de foice1,2. Com este formato, a HbS impede a ligação do oxigênio, desencadeando os episódios de vaso-oclusão. Caso não tratada, com o tempo, provoca isquemia tecidual que pode desencadear dor aguda e disfunção nos órgãos com: baço, cérebro, pulmão e rins1.

No Brasil, a AF tem maior prevalência e elevada incidência. Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre os anos de 2014 e 2020, estimou-se que ocorreram 1.087 novos casos da doença, em uma incidência de 3,78 a cada 10 mil nascidos vivos. A taxa de óbito entre os anos de 2014 a 2019, foi maior em pessoas de 20 a 29 anos e estima-se que a AF ocasiona um óbito por semana em crianças de 0 a 5 anos3.

Os familiares e cuidadores das crianças com AF devem conhecer os sinais e sintomas, para oferecer o cuidado adequado, além de serem orientados para a identificação de possíveis sinais de agravos 4. Na idade escolar, a criança tem maior compreensão da doença e deve ser orientada pelos profissionais de saúde quanto à identificação e controle dos sinais e sintomas, além dos horários e doses das medicações, introduzindo, assim, a criança no seu autocuidado5.

O autocuidado é a capacidade de o indivíduo aplicar no dia a dia atitudes e ações que auxiliem a melhorar sua qualidade de vida, o que impacta na percepção sobre a doença. Compreende-se que essa prática precisa ser ensinada desde cedo, assim a criança estará familiarizada com as ações necessárias para o seu bem-estar. Com a assistência da equipe especializada e dos cuidadores, o autocuidado infantil será promovido de modo integral6.

Devido à cronicidade e alta taxa de mortalidade da AF, a criança e seus cuidadores devem receber orientações para o adequado manejo da doença e conhecimentos necessários sobre a fisiopatologia da doença, aspectos preventivos, alimentação adequada e tratamento medicamentoso. É notório que muitas informações são direcionadas somente aos cuidadores, porém, a criança é elemento fundamental de seu autocuidado e entendendo sobre a doença, conseguirá aprender sobre o que fazer no dia a dia e isso é um processo gradual e às vezes lento5.

Assim, o enfermeiro deve criar meios que estimulem o autocuidado durante a infância5 com o uso de tecnologias educacionais, muito utilizadas atualmente para a compreensão de um determinado público sobre sua doença. As tecnologias educacionais possuem vários formatos: cartilhas, pôster, almanaque, jogos, aplicativos e vídeos7 e seu uso melhora o vínculo e diálogo do profissional com a criança e cuidador5-8.

Atualmente, tecnologias educacionais podem ser utilizadas de forma ampla e ser compartilhada por intermédio de vários meios de comunicação8, cabendo ao enfermeiro procurar materiais que possam ser utilizados e auxiliem na promoção do autocuidado da criança com AF. Assim, o estudo se justifica pela importância de se utilizar tecnologias educacionais para auxiliar crianças com AF, pois são instrumentos lúdicos, didáticos que ajudam a disseminar informações e compreensão do autocuidado para o público infantil ainda em formação do seu conhecimento concreto5,8,9.

O objetivo deste estudo foi identificar as tecnologias educacionais utilizadas para auxiliar crianças com AF no seu autocuidado.

MÉTODO

Trata-se de uma Revisão Integrativa (RI), um dos métodos utilizados na Prática Baseada em Evidências para sintetizar e analisar as obras publicadas sobre o assunto estudado com o intuito de obter o resultado esperado com a pesquisa. Para realização da RI, foram desenvolvidas seis etapas: elaboração da questão norteadora; busca na literatura; coleta de dados; análise crítica dos estudos incluídos; discussão dos resultados; e apresentação da revisão integrativa10.

A formulação da pergunta norteadora foi construída com auxílio da estratégia de construção mnemônica apontada pelo acrônimo PICo (População, Interesse, Contexto)11, no qual o P são as crianças com anemia falciforme, o I são as tecnologias educacionais e o Co é o autocuidado. Assim, surgiu a seguinte questão norteadora: quais são as tecnologias educacionais voltadas para o autocuidado de crianças com anemia falciforme?

A seleção dos artigos iniciou-se no mês de junho e julho de 2023 por dois revisores, de forma independente, nos seguintes recursos informacionais: Pubmed (Public/Publish Medline), BVS (Biblioteca Virtual em Saúde), SciELO (Scientific Electronic Library Online) e CINAHL (Web of Science e Cummulative index to nursing and allied health literature). Utilizaram-se os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) próprios das bases de dados da BVS e SciELO; Medical Subject Headings (MeSH) próprios da base de dados PubMed e nos Títulos CINAHL, próprio da base de dados CINAHL. As escolhas dos descritores foram feitas em inglês, buscando captar o máximo possível de estudos disponíveis nas bases de dados. Os termos de busca utilizados, combinados com os operadores booleanos AND e OR estão exemplificados no Quadro 1 abaixo.

Quadro 1
Estratégias de busca dos estudos, nos recursos informacionais, por meio da associação dos descritores. Niterói, RJ, Brasil, 2023.

Os critérios de inclusão foram: artigos de pesquisa originais completos, sem limitação de idioma, que abordassem as tecnologias educacionais para crianças com AF. Ressalta-se que estudos feitos com o público infantil e adolescentes foram mantidos. Os critérios de exclusão foram: estudos direcionados apenas para o público adolescente com AF, cuidadores e outros públicos; teses; dissertações; resumos; artigos incompletos; editoriais; e artigos duplicados. Em relação ao período de publicação, optou-se por não realizar o recorte temporal.

Para elucidar o processo realizado na inclusão dos estudos foi elaborada uma adaptação do Fluxograma PRISMA 2020 (Figura 1), utilizado em Revisões Sistemáticas e Metanálises, para auxiliar o autor na escrita do relatório final12.

Figura 1
Fluxograma do processo de identificação, seleção e inclusão dos estudos. Adaptado a partir da recomendação PRISMA. Niterói, RJ, Brasil, 2023

Ao final, foram selecionados cinco estudos, sendo elaborado um instrumento próprio no qual cada artigo foi numerado, apresentando as seguintes informações: título, autores, ano, país, objetivos, tecnologia educacional e nível de evidência.

A leitura dos artigos foi feita por duas revisoras, mestranda e doutora, que pesquisam sobre a saúde da criança. Uma terceira revisora, doutoranda em enfermagem, foi consultada em caso de divergências e dúvidas, minimizando o risco de viés no estudo. Os achados foram agrupados ao final em categorias para melhor exemplificar a análise dos resultados encontrados nos estudos selecionados.

O nível de evidência para os estudos incluídos na síntese qualitativa foi baseado na categorização da Agency for Healthcare Research and Quality (AHRQ) dos Estados Unidos. A qualidade das evidências é classificada em seis níveis: I-são provenientes de metanálises e estudos randomizados e controlados; II-estudos experimentais; III-estudos quase-experimentais; IV-estudos descritivos, não experimentais ou qualitativos; V-relatos de experiência e VI-oriundas de opinião de autoridades e/ou relatório de comitês de especialistas13.

RESULTADOS

Foram selecionados cinco estudos (Quadro 2) voltados para o autocuidado da criança com AF, o que evidenciou a ausência de tecnologias educacionais atuais e nacionais que auxiliem o autocuidado.

Quadro 2
Síntese dos estudos incluídos na revisão integrativa. Niterói, RJ, Brasil, 2023

A busca teve um elevado número de estudos duplicados entre as bases de dados da Pubmed e BVS com um total de 131 estudos (82%) e poucos resultados: na CINAHL, com 26 estudos (16%), na SciELO foram encontrados apenas três estudos (2%), mas eles não tinham relação com a pesquisa. Assim, os cinco estudos selecionados foram encontrados nas bases de dados da Pubmed e BVS, com três estudos (60%) e CINAHL, com dois estudos (40%), somente em periódicos internacionais (100%).

Os cinco artigos foram publicados entre os anos de 2007 a 2022 e são, predominantemente, dos Estados Unidos, com três estudos (80%); Jamaica, com um estudo (10%); e França, com um estudo (10%). Quatro estudos foram publicados há mais de cinco anos (90%) e houve um predomínio de estudos de nível de evidência III, sendo: três quase experimentais (80%), um de ensaio clínico randomizado (10%) e um não experimental (10%).

As tecnologias educacionais avaliadas foram diversificadas, sendo o celular a tecnologia mais utilizada, com dois estudos (n=70%), um jogo (n=10%), um diário (n=10=%) e um livro (n=10%). Os autores mostraram graus de intervenções que examinassem o nível de compreensão das crianças sobre o autocuidado com a doença e entendimento sobre a AF e obtiveram resultados favoráveis sobre o entendimento da criança sobre o autocuidado após a aplicação das tecnologias. Contudo, é necessário maior tempo de pesquisas para validar as tecnologias encontradas, segundo a maioria dos autores. O Quadro 3 ressalta a síntese das tecnologias educacionais analisadas, suas intervenções e resultados.

Quadro 3
Síntese das tecnologias educacionais analisadas nos estudos. Niterói, RJ, Brasil, 2023

Assim, as tecnologias educacionais para abordagens de saúde em crianças com AF nos cinco artigos selecionados foram organizadas em três categorias temáticas: jogos, aplicativos eletrônicos e produtos impressos.

CATEGORIA 1 - JOGOS

O estudo A114 criou um jogo educacional em formato CD-ROM para auxiliar crianças com AF na obtenção e melhoria do conhecimento sobre a doença, utilizando sete perguntas em cada etapa do jogo, que eram três etapas, divididas em: fatos sobre a doença; cuidando da sua saúde e controle da dor. As respostas tinham entre duas ou três opções e o programa indicava qual era a resposta correta.

A pesquisa, realizada nos Estados Unidos, teve participação de 22 crianças e adolescentes, entre seis e 14 anos, que fizeram um pré-teste para determinar os níveis de conhecimento e confiança sobre a doença; jogaram o jogo intitulado “The Sickle Cell SlimeO-Rama Game®”, no CD-ROM, e após fizeram um pós-teste para determinar o grau de conhecimento que adquiriram com o jogo. Entretanto, após o jogo, os pesquisadores observaram que seria difícil analisar o grau de compreensão das crianças e adolescentes somente com o auxílio do aplicativo. Por isso, desenvolveram um questionário com 15 perguntas sobre o conteúdo que estava no jogo, em cada rodada, e puderam avaliar a taxa de resposta do público da pesquisa.

O estudo teve um resultado positivo, ao ocorrer um aumento nos níveis de conhecimento das crianças após utilizarem o jogo, entretanto, o estudo sofre limitações, pois segundo os pesquisadores, é necessário maior desenvolvimento de tecnologias educacionais com pessoas com AF e ensaio clínico maior e por mais tempo.

CATEGORIA 2 - APLICATIVOS ELETRÔNICOS

Os artigos A215 e A518 são tecnologias educacionais criadas e analisadas quanto à adesão de crianças em programas educativos que as auxiliem no conhecimento e posterior autocuidado com a doença.

O estudo A215, realizado nos Estados Unidos, teve participação de 19 pacientes entre nove e 20 anos e tinha por objetivo avaliar o uso de um aplicativo em um dispositivo sem fio eletrônico portátil (celular) para implementar um protocolo de gerenciamento de dor. Para isso, utilizou o “diário de dor” em que as crianças foram orientadas a descrever o nível de dor naquele dia, como foi seu sono, a participação em atividades e se recorreram a medicamentos. Durante dois meses, foram analisados os registros enviados via celular, sendo observada uma notória adesão dos participantes ao protocolo de avaliação de dor. O estudo teve altas taxas de participação, preenchimento diário e satisfação do público infantil no uso celular para implementar o protocolo da dor, tendo um resultado positivo e animador para os pesquisadores.

O estudo A518, realizado na França, comparou o grau de atendimento de crianças com AF durante a pandemia da COVID-19 utilizando o programa de educação terapêutica online, que anteriormente era apenas presencial. O estudo comparou a TEP antes e depois do início da pandemia, sendo discutidas as diferenças na participação nas sessões conforme os sete departamentos de Paris, onde foram avaliados em grupos de seis a 10 anos, 11 a 14 anos e 15 a 20 anos. O grupo de seis a 10 anos que obteve maior participação na terapia online, com 45% de aproveitamento.

Durante o confinamento, não foi proposta nenhum tipo de educação terapêutica presencial, as sessões podiam ser em grupo ou individuais por meio de videoconferência, segundo a vontade dos pais. A adesão à terapia online foi bem aceita pelas crianças e pelos pais. Segundo os pesquisadores, este estudo não foi criado para avaliar o nível de eficácia nas crianças com AF, mas para avaliar a viabilidade da TEP online no período pós-pandemia. Além disso, o estudo ainda ressalta que as crianças, entre seis a 10 anos, tiveram uma ótima adaptação do uso da videoconferência ao longo da pesquisa.

CATEGORIA 3 - PRODUTOS IMPRESSOS

O estudo A316, realizado nos Estados Unidos, utilizou uma amostra de 20 crianças com idades entre seis e 11 anos e criou um “diário da dor”, que foi muito utilizado pelas crianças durante os dois meses de testes. Nas primeiras quatro semanas, as crianças foram treinadas sobre como deveriam utilizar as imagens guiadas em casa individualmente, exceto por dois irmãos treinados juntos. Todas as crianças foram instruídas a iniciar o teste com as imagens guiadas por um período diário de cinco a dez minutos, três vezes ao dia. Após o treinamento no uso de imagens guiadas, os participantes relataram aumentos significativos na autoeficácia e reduções na intensidade da dor, e o uso de analgésicos também diminuiu.

O estudo A417, realizado na Jamaica, destaca como um livro de colorir pode melhorar o nível de conhecimento da criança acerca da sua doença. O livro de colorir, denominado de “MeToo”, foi um material criado por médico e enfermeiros da Unidade Falciforme da Universidade das Índias Orientais. O livro tinha 24 páginas, com um pequeno texto em cada página e imagens simples sobre o texto. Eles tiveram baixo custo para produção, cerca de um dólar americano cada.

No estudo, 56 crianças, de seis a 10 anos, receberam o livro e outras 60 crianças não receberam. Foi observado um aumento no grau de conhecimento sobre AF nas crianças mais velhas, sem diferenciação entre sexos, entretanto, os pesquisadores concluíram que o desenho do estudo era uma limitação, pois não havia nenhuma pontuação de conhecimento pré-teste, antes de a criança ter o livro em mãos. Mas eles reforçam que o estudo foi satisfatório em demonstrar que um livro simples é uma forma de intervenção lúdica e facilmente acessível para as crianças com AF.

DISCUSSÃO

A partir da análise dos artigos selecionados para o presente estudo, houve a identificação das principais tecnologias educacionais utilizadas para auxiliar crianças com AF na melhor compreensão da doença e aplicação dos cuidados diários, sendo os produtos impressos e aplicativos eletrônicos os mais utilizados.

Os resultados dessa revisão mostram como a utilização de tecnologias educacionais é importante para o desenvolvimento infantil, estímulo ao autocuidado e conhecimento da AF. Estas crianças necessitam de cuidados contínuos que devem ser realizados por profissionais de saúde, cuidadores e pelo próprio indivíduo, inicialmente de maneira supervisionada e com auxílio e após de modo autônomo no decorrer do seu desenvolvimento, com a aquisição de habilidades cognitivas e motoras19,20.

O autocuidado, o qual é o componente fundamental na melhora dos sinais e sintomas da AF, será adquirido pela criança com o tempo e com a ajuda dos cuidadores e dos profissionais de saúde. Além disso, diante da compreensão sobre a doença, as crianças se tornam mais ativas sobre o seu autocuidado20. Os estudos demonstraram que a melhor compreensão da doença começa na fase escolar, em que ocorre a concretização dos conhecimentos adquiridos desde cedo por intermédio dos cuidadores e profissionais de saúde19. Por isso, para que o autocuidado se torne eficaz, salienta-se a importância do contínuo desenvolvimento da competência do indivíduo para cuidar de si6,19,20.

Os cinco estudos corroboram que a utilização de tecnologias educacionais, nas mais variadas formas, auxilia a criança no cuidar de si, ao proporcionarem conhecimento e estratégias para evitar as crises de dor, como no estudo que utilizou um “diário de dor”. Entretanto, a falta de maturidade combinada com o despreparo da criança pode deixá-la mais confusa e realizar o autocuidado inadequadamente6,9,21.

Assim, o uso do lúdico com o público infantil é importante e, se feito da forma correta, pode ter ótimos resultados. A criança apresenta uma inteligência aguçada e fácil compreensão de assuntos que os interessem e, com o auxílio de jogos, aplicativos eletrônicos e materiais impressos, este nível de conhecimento acerca da doença e do autocuidado estará mais presente no dia a dia da criança.

O lúdico é uma forma eficaz de divertir as pessoas envolvidas, está muito ligado ao ato de brincar e é importante para o aprendizado das crianças. Estas entendem que aprender também pode ser divertido e se envolvem na ação22. Como estamos na era tecnológica, o uso de tecnologias educacionais por parte dos profissionais de saúde pode ser meios interativos para auxiliar a criança no seu autocuidado, mas deve-se sempre pensar na facilidade de integração dessa tecnologia no dia a dia da criança6.

Os profissionais de saúde, em especial o enfermeiro, devem saber empoderar o público infantil para o autocuidado e sobretudo auxiliar a criança a encontrar sentido no cuidado a ser realizado20. Contudo, é importante ter certa atenção ao que é ensinado, assim como ao que é levado para a criança com doença crônica, em forma de informações. Ela se encontra, ainda, no início de formação de sua concepção de vida em sociedade e da própria doença, então algumas informações podem ser tiradas do contexto e prejudicar o andamento do tratamento21.

É importante destacar que, quando o assunto são pessoas, cada uma tem sua individualidade e nem sempre uma coisa utilizada para uma criança auxiliará a outra23. Assim, crianças, de uma mesma faixa etária, adquirirão costumes sobre seu autocuidado diferentes conforme o ambiente em que vivem e por isso se faz importante que o enfermeiro saiba buscar os meios certos de educar crianças pensando em sua individualidade6. Os estudos selecionados mostram isso ao elucidarem que as crianças aceitaram bem as tecnologias educacionais impostas a elas para a pesquisa e tiveram um grau elevado de aproveitamento e melhor compreensão da doença.

Entretanto, a maioria das tecnologias educacionais utilizadas esbarra na viabilidade destes produtos a todas as crianças que participaram dos estudos. O jogo no CD-ROM, por exemplo, teve elevada aceitação do público, mas detém-se na premissa de: como as crianças poderiam introduzir este jogo como melhora dos sinais e sintomas da AF no seu dia a dia, se as pessoas tinham acesso limitado a meios computacionais na época em que o estudo foi realizado. Assim, como também, os demais aplicativos eletrônicos utilizados, como o celular em 2009.

Mesmo o estudo de 2022 ressalta que a adesão à educação terapêutica online teve menor adesão nos grupos socioeconomicamente fragilizados18. Apesar de estarmos na era tecnológica, as pessoas menos favorecidas ainda não têm acesso à tecnologia em grande escala24, impactando negativamente em estudos que utilizam tecnologias por meio eletrônico.

Já os produtos criados como tecnologia educacional impressa têm maior adesão e melhor acesso para as crianças com AF, mas necessitam de recursos para manter a demanda, o que pode ser contornado com gestão dos serviços de saúde.

Um dos estudos ressaltou que poucos artigos são desenvolvidos pensando somente nas crianças com AF18 e o processo de identificação, seleção e inclusão dos estudos desta RI mostrou que muitos pesquisadores preferem realizar estudos com adolescentes, cuidadores e outros públicos. Assim, torna-se importante realizar pesquisas também com as crianças, são elas que crescerão e se fortalecerão no seu conhecimento sobre o autocuidado.

Para uma tecnologia educacional ser efetiva para o público-alvo, é necessário que se tenha rigor metodológico para desenvolvê-la. Ao ser implantada no serviço, ela servirá para melhorar a educação em saúde, importante para a manutenção do autocuidado do paciente a que se destina5.

As principais limitações da revisão foram o risco de viés, pois mesmo tendo três revisoras, qualquer estudo incorre no risco de se haver distorções ao longo do processo de investigação.

CONCLUSÃO

Os resultados dessa RI ressaltam a importância e a relevância de se criar tecnologias educacionais para crianças com AF. Com as tecnologias, a criança aprende mais e se cuida melhor, auxiliando os pais e cuidadores em questões que melhorem sua saúde, ao começarem a ter voz ativa e entendimento sobre sua doença.

No Brasil, não foi encontrado nenhum estudo que utilizasse tecnologias educacionais para crianças com AF nas bases de dados pesquisadas. Esse fato aumenta a relevância do estudo e mostra a importância de investimentos na área de tecnologia educacional em saúde.

Esta revisão traz contribuições para a enfermagem e os demais membros da equipe multidisciplinar, que atende crianças com AF e necessitam de novos métodos para auxiliar a assistência a este público. Além disso, traz implicações importantes para a área, ao abrir espaço para novos estudos com tecnologias educacionais para tratamento de crianças com doenças crônicas e auxiliam na criação de práticas atualizadas para pesquisas futuras.

  • COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
    Santana RC, Silva LF da, Gama P da SM da, Nascimento L de CN, Silveira ALD da, Moraes JRMM de. Educational technologies for the self-care of children with sickle cell anemia: an integrative review. Cogitare Enferm. [Internet]. 2024 [cited “insert year, month and day”]; 29. Available from: https://doi.org/10.1590/ce.v29i0.96369.
  • *
    Artigo extraído da dissertação do mestrado: “ELABORAÇÃO E VALIDAÇÃO DE VÍDEO EDUCATIVO PARA O AUTOCUIDADO DE CRIANÇAS ESCOLARES COM ANEMIA FALCIFORME”, Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ, Brasil.

AGRADECIMENTOS

O presente estudo teve apoio educacional do Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais (Coren-MG).

O presente estudo teve apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG). Publicado no Diário Oficial do Estado de Minas Gerais: ANO 132, n.º 124, 28 de junho de 2024, p. 37.

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  • Editora associada:
    Dra. Luciana Kalinke

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    17 Mar 2024
  • Aceito
    03 Jul 2024
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