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versão impressa ISSN 0011-5258versão On-line ISSN 1678-4588

Dados v.43 n.3 Rio de Janeiro  2000

https://doi.org/10.1590/S0011-52582000000300005 

Teoria dos Jogos e Política Comparada: Novas Perspectivas, Velhos Interesses*

Gerardo L. Munck

 

 

INTRODUÇÃO

Pode-se atribuir a crescente influência da teoria da escolha racional (TER) na ciência política ao impacto de um número de trabalhos de grande fecundidade: Theory of Games and Economic Behavior, de John von Neumann e Oskar Morgenstern (1944), Social Choice and Individual Values, de Kenneth Arrow (1951), An Economic Theory of Democracy, de Anthony Downs (1957) e The Logic of Collective Action, de Mancur Olson (1965). Inicialmente, a importância da teoria da escolha racional refletiu-se nos estudos sobre política americana, sobretudo por causa dos trabalhos de William H. Riker e da Escola de Rochester; na década de 90 a influência da TER nesse campo já era bem grande. Também na área das relações internacionais a TER é muito difundida, embora sem ter alcançado um nível equivalente de influência. Não se pode dizer o mesmo em relação ao campo da política comparada. Na verdade, a TER, e mais especificamente a teoria dos jogos ¾ termo pelo qual me refiro ao ramo da teoria da escolha racional que estuda a tomada de decisões interdependentes com base em uma metodologia formal ¾ , não foi uma referência teórica habitual entre os comparativistas até muito recentemente1.

Mas desde o começo da década de 90 as coisas vêm mudando no campo da política comparada. Alguns destacados comparativistas publicaram estudos muito conhecidos e influentes nos quais aplicavam a TER e a teoria dos jogos a temas de grande interesse para os estudiosos da área, tais como a democratização, reforma econômica, mobilização étnica e nacionalismo (ver Bates, 1981; 1988; 1991; 1997; Laitin, 1993b; 1998; 1999b; Przeworski, 1991). Além disso, foi feito um esforço coletivo para divulgar as potencialidades da TER e da teoria dos jogos. Muitas das afirmações são mais promessas do que realidades, mas não se pode ignorá-las ¾ fundamentalmente, a TER e a teoria dos jogos são apresentadas como as abordagens mais adequadas para a construção de teorias, a integração de pesquisas sobre diferentes problemas (ver Laitin, 1993a; Bates, 1996; Weingast, 1997a; 1997b; Bates et alii, 1998)2 e a acumulação de conhecimentos.

Esse apelo a uma reorientação da área de política comparada se tem expressado freqüentemente em termos absolutos que exageram as contribuições da TER e da teoria dos jogos e diminuem, ou simplesmente ignoram, os aportes de outras perspectivas teóricas e metodológicas. Por exemplo, embora Barry Weingast (1997a:6; 1997b:245-246) reconheça que "as abordagens formais e tradicionais são paradigmas complementares e não concorrentes", ele afirma que a teoria formal tem "a capacidade de responder perguntas para as quais os métodos tradicionais são menos adequados", e sugere especificamente que, enquanto outros pesquisadores fazem "descrições minuciosas", os teóricos formalistas dão "explicações" e oferecem um método para sintetizar pesquisas sobre uma diversidade de temas que outros estudos geralmente tratam de modo compartimentado. Nessa mesma linha, Barbara Geddes (1991:46, 63-64; 1995:102) afirma que a TER é útil para a "construção de teorias gerais" e "possibilita a construção de teorias", ao passo que as outras abordagens utilizadas no estudo da política comparada "acumularam [...] poucos conhecimentos teóricos" e produziram, na melhor das hipóteses, "generalizações indutivas ad hoc"3. Por isso, não causa surpresa que o debate em torno da posição da teoria dos jogos na área de política comparada seja muito acirrado e que duas opiniões, igualmente implausíveis, tenham obtido tanto apoio: de um lado, a visão de que a TER e a teoria dos jogos são o único caminho para a construção de teorias, a integração temática e a acumulação de conhecimentos, e que, por conseguinte, outras abordagens mais consolidadas devem ser abandonadas; ou que essa nova linha de análise não tem nada a oferecer aos estudiosos da política comparada, devendo, portanto, ser completamente rejeitada.

Este artigo pretende ir além desse debate apaixonado e pouco esclarecedor, fazendo uma avaliação equilibrada e bem fundamentada da teoria dos jogos em suas aplicações na política comparada. Cabe, porém, ressaltar de saída que a intenção deste artigo não é fazer um balanço das contribuições que os estudos da teoria dos jogos tenham ou não proporcionado à compreensão de problemas concretos. A TER e a teoria dos jogos têm sido utilizadas no estudo de um grande número de temas fundamentais para a política comparada, de modo que já existe uma enorme bibliografia a ser avaliada. No entanto, Margaret Levi (1997:36) tem razão quando diz que a pesquisa empírica que usa a TER no campo da política comparada "ainda se encontra em sua infância." Assim, embora este artigo discuta a pesquisa empírica como uma forma de identificar algumas tendências e ilustrar problemas bem demarcados na literatura da TER e da teoria dos jogos em política comparada, meu propósito não é emitir julgamentos definitivos sobre contribuições de caráter substantivo4. Em vez disso, focalizo os princípios fundamentais da teoria dos jogos com a finalidade de mostrar que eles determinam tanto as utilizações potenciais da teoria quanto seus limites. A importância do enfoque aqui escolhido está em chamar a atenção para uma distinção freqüentemente negligenciada entre dois elementos que se combinam nos estudos da teoria dos jogos: a teoria da escolha racional e a metodologia formal (Snidal, 1985:25, 32-36; Ordershook, 1996:179; Niou e Ordershook, 1999:93)5. Visto que estes dois componentes fundamentais estão associados a diferentes princípios, o artigo oferece uma base sólida para a identificação e o isolamento de qualidades e deficiências que, com demasiada freqüência, são misturadas e confundidas no debate. Em suma, focalizar os princípios fundamentais provavelmente é a melhor maneira de fazer o debate avançar.

Antecipando o argumento básico deste texto, eu diria que minhas idéias são inegavelmente misturadas, pois ao mesmo tempo identifico importantes virtudes e aponto notáveis insuficiências da teoria dos jogos. Relativamente ao status dessa teoria como uma extensão da TER aos processos de tomada de decisões interdependentes, tema da primeira seção, a ênfase nos atores e nas escolhas estratégicas é vista como uma qualidade. Por outro lado, embora a teoria dos jogos prometa contribuir para uma teoria da ação, ressalto sua incapacidade de dar uma explicação completa para as ações e sua inaplicabilidade a campos ou domínios de grande significação. Dessa forma, o texto lança dúvidas sobre as proposições correntes acerca das virtudes teóricas da teoria dos jogos e indica a necessidade de um marco teórico mais amplo.

O status da teoria dos jogos como uma forma de teorização apoiada em uma metodologia formal, tema da segunda seção, também está associado a uma propriedade positiva: a capacidade de gerar previsões de uma forma logicamente rigorosa e internamente consistente. Entretanto, chego aqui à conclusão de que a falta de procedimentos na modelagem formal para orientar a primeira e mais decisiva etapa do processo de construção de modelos ¾ sua conceituação ¾ põe em dúvida as afirmações correntes sobre as virtudes metodológicas da teoria dos jogos e sugiro a necessidade de prestar-se mais atenção nos critérios de avaliação de conceitos. Na conclusão, afirmo que o desafio posto aos pesquisadores em política comparada é o de levar em conta as novas perspectivas oferecidas pela teoria dos jogos e fazer uso de suas qualidades sem perder de vista as antigas preocupações das ciências sociais que esta teoria não está apta a enfrentar6.

 

A TEORIA NA TEORIA DOS JOGOS: O UNIVERSALISMO E SEUS LIMITES

Com sua ênfase na escolha estratégica, a teoria dos jogos faz uma importante promessa programática: contribuir para o desenvolvimento de uma teoria da ação. É difícil ressaltar em demasia a importância desse objetivo programático. De fato, a agenda da teoria dos jogos tem vários pontos de contato com as recentes críticas às formas estruturais de análise e com a ênfase geral nos atores e nas ações (Elster, 1979:viii-ix, 1, 28-35, 112-117; 1986:22-23). Além disso, a ênfase na ação é motivada por uma crítica análoga à análise de correlações e pela aceitação da necessidade de enfocar de modo mais explícito os processos e mecanismos dos quais provêm os resultados (Coleman, 1986; 1990, cap. 1; Elster, 1989a, cap. 1; 1999, cap. 1; Hedström e Swedberg, 1998:7-11, 15-17). Não obstante o amplo reconhecimento da necessidade de uma teoria da ação, também é importante admitir que esta teoria baseada na TER que os partidários da teoria dos jogos propõem, tem sido objeto de avaliações muito contraditórias.

Certos temas não despertam muita discussão. De modo geral, os estudiosos concordam que a essência da teoria da ação proposta pela teoria dos jogos consiste em uma estrutura bastante simples, formada por três componentes fundamentais. Em primeiro lugar, admite-se que a teoria dos jogos se rege por um entendimento do processo de escolha fundado no modelo de utilidade esperada da tomada de decisões. Em segundo, acredita-se que a teoria dos jogos gera previsões associando a análise do processo de escolha ao conceito de equilíbrio [equilibrium]. Em terceiro lugar, considera-se que a teoria dos jogos trata as regras do jogo ¾ expressão que inclui o conjunto dos jogadores, as estratégias ou escolhas com que estes se defrontam, a seqüência em que as escolhas são feitas, as preferências dos atores e as informações de que dispõem ao fazerem suas escolhas ¾ como fatores exógenos, simplesmente aceitos como dados e assumidos como constantes. Isto não se discute. Contudo, diferentes autores avaliam por óticas distintas o compromisso dos praticantes da teoria dos jogos com esse conjunto de princípios teóricos.

De um lado, existem aqueles que encaram esses componentes fundamentais como uma fonte de força da teoria. Vistos como formando um conjunto coerente, esses princípios são considerados a base de uma forma de análise matemática rigorosa que faz da teoria dos jogos, diferentemente de outras teorias, uma abordagem científica para a construção de teorias. Além disso, como são considerados universais e, portanto, não restritos a um domínio concreto particular, se entende que esses componentes fundamentais provêem um princípio unificador que permite integrar pesquisas sobre questões substantivas diversas e produzir um bem valioso, mas escasso: o conhecimento acumulado7. Por outro lado, todas essas proposições sobre a teoria dos jogos se baseiam em um pressuposto que é seriamente questionado sobre cada um dos seus componentes estruturadores: o de que a teoria dos jogos desfruta de um status especial como teoria totalizadora, tanto no sentido de ser uma teoria completa ¾ que se sustenta nos próprios pés, e não é apenas uma explicação parcial ¾ , quanto no sentido de ter alcance universal, isto é, ser aplicável a todos os campos ou domínios de pesquisa, e não estar restrita a determinados contextos espaciais e temporais (Green e Shapiro, 1994:23-29, 183-188, 192-194; 1996:261-268; Hausman, 1992:90-101, 224-226, 270-274).

As questões em jogo nessas duas avaliações opostas da teoria da ação proposta pela teoria dos jogos são muito complexas. Por isso, defesas e críticas simplistas geralmente fracassam. Mas os fatos que evidenciam os limites da teoria dos jogos também são muito convincentes e lançam dúvidas sobre seu pretenso status de teoria completa e de aplicabilidade universal. De fato, as críticas à afirmação de que a teoria dos jogos goza de um status especial como explicação totalizadora não podem ser ignoradas e apresentam aos seus adeptos uma importante opção: adotar uma postura purista, que em essência ignora os fatos que indicam limitações da teoria dos jogos, ou uma postura pragmática, que leva a sério estes fatos e é mais defensável, mas que, por isso mesmo, se abre a uma série de novos problemas (ver Quadro 1).

 

Quadro 1

Princípios Teóricos Fundamentais da Teoria dos Jogos e suas Limitações:
Reações Puristas e Pragmatistas

Princípios teóricos

Limitações

Reações às limitações

Modelo de utilidade esperada

Falta de realismo do modelo

Purista: ignora contra- evidências relativas aos principais supostos teóricos.

Pragmatista: restringe o uso da teoria a domínio apropriado (universalismo segmentado).

Conceito de equilíbrio Problema da indeterminação: incapacidade de sempre gerar previsões únicas Purista: salva a teoria mudando o modelo.

Pragmatista: restringe o uso da teoria a domínio apropriado (universalismo segmentado) ou gera determinação com fatores fora da teoria (universalismo parcial).

Regras do jogo Regras do jogo como fatores exógenos aceitos como dados e assumidos como constantes Purista: ignora contra-evidências relativas aos principais supostos teóricos.

Pragmatista: restringe o uso da teoria a domínio apropriado (universalismo segmentado) e explica fatores aceitos como dados com elementos de fora da teoria (universalismo parcial).

 

O Modelo de Utilidade Esperada

A primeira crítica ao status universal da teoria dos jogos provém das pesquisas dos psicólogos cognitivos, que contestam o modelo de utilidade esperada. Fortes evidências empíricas põem em dúvida a precisão descritiva do pressuposto comportamental de que os atores são maximizadores de utilidade. Realmente, décadas de pesquisa têm demonstrado evidências difíceis de ignorar (Halpern e Stern, 1998)8. No entanto, os adeptos da teoria dos jogos formulam respostas muito variadas a essas críticas.

Uma das respostas toma a forma do argumento clássico de Milton Friedman, de "como se", e descarta sumariamente a crítica inteira. As únicas coisas que importam para esses partidários da teoria dos jogos são as previsões de um modelo e a capacidade do suposto universalismo do modelo de utilidade esperada de constituir uma base para previsões (Elster, 1979:viii-ix, 112-117; 1986:4, 22, 26-27). Assim, pouco importa que as previsões se baseiem em pressupostos sobre o comportamento dos atores que são "representações descritivas grosseiramente equivocadas da realidade" (Friedman, 1953:14). A simplicidade e a coerência de uma teoria que permite fazer previsões se sobrepõem a qualquer preocupação com o realismo do modelo.

Não obstante o valor das previsões, essa resposta purista é quase uma negação completa do problema. Por isso, alguns críticos têm razão em ver nessa resposta sinais alarmantes de dogmatismo (Hausman, 1992:256-257, 274, cap. 13). Mas esse mal-estar diante das opiniões dos puristas não afeta apenas os críticos. Até mesmo alguns defensores da teoria dos jogos consideraram essas idéias um tanto excessivas e saíram em busca de uma defesa menos frágil do modelo de utilidade esperada, argumentando que este deveria ser considerado, mais modestamente, como uma útil aproximação à maneira como os atores tomam decisões em certos contextos, mas não em outros (Morton, 1999:77-79).

Essa resposta pragmática se exime das acusações de dogmatismo, moderando o pressuposto da aplicabilidade universal. Mas essa nova postura, que Green e Shapiro (1994:27-28) definem muito bem com o oportuno rótulo de universalismo segmentado, um oxymoron, introduz novos problemas. Primeiro, os adeptos da teoria dos jogos que assumem essa posição têm de enfrentar o complexo problema da especificação de domínio, a formulação de critérios para identificar campos ou domínios em que se considera que a teoria seja aplicável9. E como os princípios teóricos fundamentais dessa análise abstraem explicitamente o contexto, e negam sua importância, isso significa que não se pode empreender uma tarefa crítica com as ferramentas da própria teoria. Segundo, a decisão de limitar a aplicação da teoria dos jogos a determinados domínios mais apropriados enfraquece uma de suas mais importantes pretensões: a de fornecer uma linha de análise unificadora capaz de proporcionar um fundamento inigualável para a integração e acumulação de conhecimentos.

Em resumo, as objeções ao realismo do modelo de utilidade esperada da tomada de decisões apontam para um importante foco de tensão na teoria dos jogos, o qual forçou seus partidários a adotarem duas respostas diferentes, cada uma delas repleta de seus próprios problemas. Os puristas sustentam a tese da universalidade e por isso defendem as virtudes da teoria dos jogos, rejeitando abertamente as numerosas contra-evidências sobre como os atores fazem escolhas. Os pragmatistas, por seu lado, dão uma resposta mais defensável, de enormes conseqüências para sua teoria. De fato, a maneira como eles respondem às críticas ao modelo de utilidade esperada mina a força da teoria que adotam. Portanto, o debate em torno deste modelo sugere que os partidários da teoria dos jogos se defrontam com um grave dilema interno, ainda que nem sempre reconhecido. Ademais, conforme revelará a discussão da próxima seção, mais críticas a outros pressupostos teóricos fundamentais apenas exacerbam esse dilema e aumentam a distância entre a defesa da teoria dos jogos dos puristas e o reconhecimento dos pragmatistas dos limites dessa teoria.

O Conceito de Equilíbrio

Uma segunda crítica às proposições da teoria dos jogos diz respeito ao uso do conceito de equilíbrio. Seu papel nesta teoria é fácil de entender: proporcionar um critério preciso para identificar, dentro de um conjunto de escolhas possíveis, quais devem ser feitas pelos atores à luz dos supostos comportamentais do modelo de utilidade esperada. Assim, este conceito relaciona a análise do processo de escolha ao objetivo último da teoria dos jogos: gerar previsões. No entanto, o uso do conceito de equilíbrio é muito complicado, porque, conforme já admitiram há muito tempo os pesquisadores que adotam a teoria dos jogos, os modelos nem sempre produzem um equilíbrio único, situação geralmente apresentada como o ideal a ser alcançado e padrão para a avaliação do poder explicativo da teoria (Elster, 1989b:7-8; Morton, 1999:165). Na realidade, os modelos da teoria dos jogos muitas vezes produzem mais de um ou nenhum estado de equilíbrio (Elster, 1979:118-123; 1989a, caps. 4 e 11; 1989b:7-17).

O fato de os modelos da teoria dos jogos não conseguirem gerar uma previsão única não invalida totalmente a análise. Permite eliminar muitas escolhas ou resultados possíveis dentro do leque de escolhas e resultados estudados ou, alternativamente, identificar as situações em que a maximização da utilidade esperada não dá mais aos atores uma orientação confiável. Mas a falta de determinação das previsões produzidas pela teoria dos jogos é uma limitação mais importante. Ela sugere que, mesmo nos domínios em que se considera aplicável o modelo da utilidade esperada, a teoria dos jogos pode não produzir necessariamente uma explicação completa (Kreps, 1990:97; Elster, 1979:123; 1989a:110; 1989b:26-27; Morrow, 1994:306-307).

Novamente, os adeptos da teoria dos jogos respondem a essa restrição de duas maneiras. Alguns simplesmente relutam em admiti-la e sugerem que não se deveria "construir modelos tão complexos que não permitam previsões", e que ao se depararem com modelos que não geram previsões únicas, os pesquisadores deveriam pensar na possibilidade de "mudar [...] para um modelo que efetivamente preveja estados de equilíbrio" (Morton, 1999:163, 208). Portanto, essa resposta purista representa um esforço post-hoc de salvar a teoria, uma prática extremamente problemática.

Mas os defensores da teoria dos jogos também articularam respostas mais moderadas, mais pragmáticas. Por um lado, os pragmatistas procuraram contornar o problema da falta de previsões determinadas, limitando o uso da teoria dos jogos àqueles domínios em que ela de fato faz previsões únicas. Mas assim como acontece com esforços similares com o modelo da utilidade esperada, o recuo para uma posição de universalismo segmentado também tem custos, mesmo que se trate de uma resposta mais defensável do que a dos puristas. Em primeiro lugar, a resposta pragmatista obriga mais uma vez os partidários da teoria dos jogos a lidar com a complexa tarefa de especificação de domínio10. Além disso, tal resposta pode confinar a teoria a um domínio muito estreito11. Na realidade, "situações da mais tênue complexidade estão infestadas de múltiplos equilíbrios", e modelos sobre diversas questões fundamentais, como a política redistributiva, tendem a resultar em situações sem equilíbrio algum (Stein, 1999:218; ver, também, Walt, 1999a:18-19; Rae e Schickler, 1997:175). Assim, essa resposta limita muito o alcance teórico da teoria dos jogos e enfraquece seriamente o argumento de que essa teoria fornece um conjunto de princípios privilegiados para a integração das pesquisas acerca de um grande número de temas substantivos e da acumulação de conhecimentos.

Por outro lado, os pragmatistas respondem ao problema das previsões indeterminadas recuando para uma postura de universalismo parcial (Green e Shapiro, 1994:26-27), o que implica o reconhecimento de que a teoria dos jogos não pode oferecer explicações completas e deve ser complementada por outras (Ferejohn, 1991). Por mais atraente que tal opção pareça, ela é muito problemática do ponto de vista da teoria dos jogos. O apelo a fatores não previstos na teoria praticamente assegura a destruição da coerência da explicação, transformando a busca de teorias completas em uma tarefa ad hoc. É isso que acontece com os esforços para resolver o problema de múltiplos equilíbrios pelo recurso ao conceito de pontos focais, de Schelling (1980). E, mais importante ainda, é isso que acontece com todo o trabalho de "equilibrium refinements" [refinamentos do conceito de equilíbrio], que trata de uma questão crucial ¾ como resolver o problema da escolha entre múltiplos equilíbrios ¾ com critérios que não provêm da teoria dos jogos propriamente dita e são introduzidos como adendos12. Assim, o recuo para uma postura de universalismo parcial põe em risco a afirmação de que a teoria dos jogos proporciona uma abordagem científica à construção de teorias.

As Regras do Jogo

Uma terceira crítica às proposições a favor da teoria dos jogos diz respeito às regras do jogo, ou seja, ao grupo de jogadores, às estratégias e escolhas com que estes se defrontam, à seqüência em que as escolhas são feitas, às preferências dos atores e às informações que cada um possui quando faz sua escolha (Tsebelis, 1990:93; Kreps, 1990:128-132, 182-183). Esse conjunto de fatores tem um papel fundamental na análise da teoria dos jogos; mas como as regras são consideradas fatores exógenos, e, portanto, meramente aceitos como dados e assumidos como constantes, produzem uma restrição ainda mais importante do que as que discutimos até agora.

Uma parte do problema é que considerar as regras do jogo como dadas implica entender que os fatores que sustentam uma boa dose da carga explicativa não são vistos como aspectos do jogo propriamente dito (Berger e Offe, 1982:525). Assim, a despeito de todas as contribuições que a teoria dos jogos é capaz de oferecer sobre como os atores fazem escolhas em uma determinada situação, isto é, como um jogo é jogado, fica sem resposta uma pergunta decisiva: por que um determinado jogo, dentre toda uma gama de jogos concebíveis, é jogado? As explicações que os partidários da teoria dos jogos podem oferecer são, portanto, no melhor dos casos, patentemente incompletas. Esse questionamento da força teórica da teoria dos jogos não passou despercebido ou ficou sem resposta. Vários seguidores da teoria alegam que os fatores aceitos como dados não constituem em si mesmos um grande problema teórico, porque "o que é tido como exógeno num contexto pode ser ‘problematizado’ e investigado em outro" (Frieden, 1999:46, 44; ver, também, Lake e Powell, 1999:15, 17-20, 31-34). Essa resposta engenhosa não deve ser descartada sem uma reflexão. No mínimo, a resposta sublinha a potencial versatilidade da teoria dos jogos e o perigo de adotar precipitadamente conclusões negativas a respeito dela.

Entretanto, essa forma de contornar o problema acaba não dando certo por dois motivos. Em primeiro lugar, porque embora os fatores tomados como dados em um jogo possam ser até certo ponto explicados nos termos de outros jogos, há limites nisso (Kreps, 1990:128-132; Kitschelt, 1993:415). De fato, a primazia concedida ao princípio da racionalidade entre meios e fins limita os elementos teóricos que fazem parte do arsenal dos praticantes da teoria dos jogos e obriga os analistas interessados em explicar as regras do jogo a procurar respostas fora da própria teoria. O segundo motivo, ainda mais grave, é que a proposta de colocar entre parênteses a preocupação com os fatores aceitos como dados e de examiná-los fora do jogo propriamente dito baseia-se no pressuposto de que as regras não variam, são fixas ou constantes, pelo menos enquanto o jogo se desenvolve. Entretanto, esta pressuposição fundamental da teoria dos jogos foi questionada por autores tão díspares quanto Marx, Riker e os construtivistas contemporâneos, todos eles apontando para o mesmo problema simples mas crucial de que se é possível caracterizar o comportamento dos atores como regido por regras, também é verdade que eles se aplicam com afinco na destruição e construção de regras (ver Elster, 1979:107-111; Stein, 1999:220-222). Aliás, a suposição de que os atores, de modo geral, obedecem a regras é difícil de defender. E dada a posição crucial desta suposição nos fundamentos da teoria dos jogos, é difícil ressaltar em demasia a importância desse ponto.

As respostas a esse problema variam em formas interessantes. Os puristas simplesmente desconsideram os fatos que evidenciam a natureza instável das regras do jogo. Além disso, ou relegam qualquer preocupação com fatores exógenos e, por isso, ignoram o evidente peso teórico de fatores tomados como dados na teoria dos jogos, ou insistem que estes podem ser perfeitamente explicados no âmbito da própria teoria, exagerando o poder explicativo da racionalidade instrumental.

Os pragmatistas, ao contrário, reconhecem os problemas da posição purista. Contudo, sua resposta tem um custo. Por tentarem explicar fatores tomados como dados por meio de teorias outras além da teoria dos jogos, eles abrem uma agenda de pesquisas potencialmente fecunda. Mas esse reconhecimento do universalismo parcial diminui muito a força explicativa da teoria dos jogos13. Por sua vez, com a admissão de que as regras do jogo nem sempre podem ser tratadas como constantes e que, por isso, a aplicação da teoria dos jogos deveria ficar restrita aos domínios usualmente descritos como "estruturados" (Ferejohn e Satz, 1996:78; Friedman e Hechter, 1988:214), ocorre toda uma série de novos problemas. Primeiro, a identificação destes domínios depende da viabilidade de conceituar os processos de interação estratégica como sistemas fechados ¾ o que é altamente questionável. Segundo, o recuo para uma perspectiva de universalismo segmentado provavelmente limita muito mais o alcance da teoria dos jogos do que os esforços semelhantes de especificação de domínios acima indicados. A verdade é que essas limitações provavelmente constituem a mais poderosa contestação das proposições que insistem nas virtudes da teoria dos jogos.

Recapitulando: se poucos estudiosos tendem a rejeitar o principal objetivo programático da teoria dos jogos ¾ produzir uma teoria da ação ¾ , a teoria proposta tem sido alvo de sérias críticas. De fato, a suposta fonte das virtudes da teoria dos jogos ¾ o pressuposto de que é uma teoria completa e não uma explicação parcial, e pode ser aplicada a todas as áreas de pesquisa em vez de se restringir a determinados contextos espaciais e temporais ¾ é seriamente questionada do ponto de vista de cada um dos seus componentes teóricos fundamentais. É interessante notar que essas objeções criam um dilema para os partidários da teoria dos jogos, os quais são obrigados a escolher entre respostas que têm virtudes e defeitos opostos (ver Quadro 2).

 

Quadro 2

A Teoria na Teoria dos Jogos: Uma Avaliação

  Pressupostos sobre os princípios teóricos fundamentais Qualidades Deficiências
Perspectiva purista Alcance universal (universalismo)

 

Domínio irrestrito de aplicação; integração de pesquisas sobre diferentes questões substantivas e acumulação do conhecimento Invalidade do pressuposto

 

  Teoria completa (universalismo) Coerência teórica: abordagem científica da construção de teoria Invalidade do pressuposto
Perspectiva pragmatista Alcance limitado (universalismo segmentado) Validade do pressuposto Domínio restrito de aplicação; incapacidade de relacionar teorias sobre várias questões substantivas e, portanto, de proporcionar uma base para a acumulação do conhecimento
  Teoria incompleta (universalismo parcial) Validade do pressuposto Poder restrito de explicação; nexo ad hoc com fatores explicativos suplementares e, portanto, falta de coerência da teoria

 

A resposta dos puristas é a mais simples, e também a mais problemática. Em essência, a defesa das virtudes da teoria dos jogos fecha os olhos para significativas provas em contrário. A resposta pragmática, por sua vez, é mais complexa e defensável; admite os limites da teoria e, por conseguinte, baseia-se em pressupostos mais válidos, evitando com isso os problemas que enfraquecem a posição dos puristas. Entretanto, como os teóricos pragmatistas continuam a sustentar que os princípios básicos da teoria dos jogos são a âncora e o ponto de partida para o trabalho de construção teórica, e, em conseqüência, continuam relutando em levar a uma conclusão lógica o reconhecimento dos limites desta teoria e a enfatizar o desenvolvimento de um marco teórico mais amplo, mais adequado a cumprir a promessa de contribuir para uma teoria da ação, eles fazem uma grande concessão. Ao desistirem da perspectiva autoconfiante que caracteriza a posição dos puristas, os pragmatistas na realidade renunciam aos pressupostos subjacentes aos argumentos correntes a favor da teoria dos jogos.

As Posições dos Puristas e dos Pragmatistas em Política Comparada

As tentativas de aplicar a teoria dos jogos ao campo da política comparada têm se defrontado com as críticas aos princípios fundamentais desta teoria e, por esse motivo, não surpreende que as duas posições, purista e pragmatista, estejam representadas na literatura da área. A primeira é mais evidente e mais difundida do ponto de vista do primeiro princípio fundamental da teoria dos jogos: seu alicerce no modelo da utilidade esperada. De fato, as experiências de aplicação da teoria dos jogos no campo da política comparada têm ignorado, para qualquer fim prático, todo o debate sobre o modelo da utilidade esperada e adotam o modelo do ator racional sem considerar suas importantes limitações14. Mas vários autores levaram mais longe a posição purista. Em alguns casos, a aplicação da teoria dos jogos mostra notável despreocupação em justificar o domínio em que é utilizada. Em outros casos, ela é apresentada como se fosse uma teoria completa, mesmo quando a complexidade do fenômeno estudado sugere uma probabilidade de indeterminação, ou quando o status das regras do jogo como fatores dados impõe uma explicação. Em certos casos extremos, defensores da teoria dos jogos chegam a negar-se explicitamente a aceitar as sugestões de que os pesquisadores talvez quisessem combinar essa teoria com outros enfoques, mesmo que estes últimos sejam considerados meros complementos da primeira15. Em suma, os adeptos da teoria dos jogos em política comparada tendem a adotar uma resposta purista quando defrontados com as objeções aos princípios desta teoria.

Felizmente, alguns desses pesquisadores também adotam um enfoque mais pragmático à luz dos conhecidos limites da teoria dos jogos; não só reconhecendo a não-aplicabilidade universal da análise, como também procurando identificar seus domínios mais apropriados. Tsebelis (1990:38, 33-39) fez uma notável tentativa de explorar os limites do modelo da utilidade esperada como ferramenta para analisar a tomada de decisões. Ele afirma que "a escolha racional não pode pretender explicar todo tipo de comportamento humano" e tenta identificar cinco critérios que definem a área na qual o modelo do ator racional pode ser considerado "uma legítima aproximação de processos reais." Por outro lado, Geddes (1991:67-69) acompanha Riker (1990:169-172) na sugestão de que os praticantes da teoria dos jogos deveriam focalizar as pequenas questões em vez das grandes; uma recomendação útil para limitar a teoria a algumas áreas de pesquisa de modo a evitar o problema da indeterminação que resulta da análise do equilíbrio. Finalmente, a declaração de Bates (1997:704) de que a teoria dos jogos "parece ser mais apropriada a prover fundamentos para a investigação científica quando é aplicada a contextos altamente estruturados" demonstra uma sensibilidade à necessidade de justificar o pressuposto de que as regras do jogo são fatores constantes (ver, também, Tsebelis, 1990:32; Levi, 1997:25).

Nessa mesma linha de raciocínio, os adeptos da teoria dos jogos na política comparada também reconhecem a natureza incompleta dessa análise e sugerem que outras abordagens poderiam ser utilizadas para complementá-la. Refletindo genericamente sobre essa questão, Bates, Figueiredo Jr. e Weingast (1998:603) sugerem "a possibilidade de combinar [a teoria dos jogos] com outras perspectivas", tais como "a análise cultural" ou as abordagens estruturais (ver, também, Laitin, 1997; Bates, 1997). Mas também foram feitas sugestões mais específicas. Observando que a teoria dos jogos nem sempre gera previsões únicas, vários autores sugeriram que uma gama de fatores ¾ desde idéias e normas até instituições e heranças culturais ¾ pode explicar as escolhas dos atores em jogos com múltiplos equilíbrios, geralmente oferecendo pontos focais (Levi, 1999:168; 1997:30; Weingast, 1997b:257; Laitin, 1999a:30; Cox, 1997:186). Por outro lado, diversos autores focalizam as deficiências relacionadas com a dependência da teoria dos jogos das regras aceitas como dadas e sugerem a possibilidade de explicar fatores significativos, como as crenças dos atores e, conseqüentemente, a informação que estes possuem, a partir de uma análise interpretativa (Bates, Figueiredo Jr. e Weingast, 1998:628-636).

Embora esses esforços para vincular uma abordagem pragmatista à teoria dos jogos sejam bem-vindos, continuam sendo prejudicados pela persistência de certos problemas. Um destes é o não-esclarecimento de como se deve usar a teoria dos jogos quando se admite que seus princípios teóricos fundamentais têm um alcance limitado. Por um lado, a despeito de alguns esforços, obteve-se pouco progresso na formulação de critérios claros para identificar os domínios adequados à teoria dos jogos. A literatura está cheia de recomendações vagas e contraditórias. Por exemplo, enquanto Tsebelis (1990:38) sugere que a teoria dos jogos funciona melhor quando aplicada às elites do que às massas, Elster (1989b:27) adverte que ela pode não ser apropriada a jogos com pequeno número de atores. Da mesma maneira, enquanto Geddes (1991:67-69) sugere que os adeptos da teoria dos jogos deveriam concentrar-se nas pequenas questões em vez das grandes, Levi (1997:32) afirma que "os pesquisadores podem fazer grandes perguntas, mas apenas determinados tipos de grandes perguntas", ao passo que Elster (1989b:26-27) recomenda que a teoria dos jogos não seja aplicada nem aos pequenos nem aos grandes problemas, mas "aos médios". Enfim, até nos trabalhos de um mesmo autor, escritos na mesma época, encontram-se recomendações radicalmente diferentes16. Por outro lado, esses critérios não têm sido aplicados com muita consistência. Conseqüentemente, o nexo entre as proposições referentes às restrições de domínio e os problemas de pesquisa efetivamente estudados pode ser muito tênue17. Ou, então, a teoria dos jogos pode ser aplicada a fenômenos históricos de grande escala ou a processos de mudança macroestrutural, domínios que excedem de muito sua abrangência teórica. Na realidade, é muito comum a tendência a extrapolar a aplicação dessa análise18.

O fracasso dos pesquisadores na solução do problema da especificação clara e consistente de domínios não é intransponível. Mas se os pragmatistas quiserem responder adequadamente a esse problema, terão de aceitar as conseqüências de rejeitarem o pressuposto de que os fundamentos teóricos da teoria dos jogos têm aplicabilidade universal. Isso significa aceitar, pura e simplesmente, o fato de que algumas importantes questões substantivas ou alguns aspectos essenciais de certas questões de relevo estão fora do alcance da teoria dos jogos. Mas os pragmatistas relutam em admitir essa conclusão.

Um segundo problema, ainda mais sério, tem a ver com o fato de que os princípios básicos da teoria dos jogos se prestam apenas a produzir uma teoria incompleta. Em certos contextos isto cria um problema insuperável. Assim, as tentativas de formular uma base coerente para vincular a teoria dos jogos a outras abordagens, no caso de jogos com resultados indeterminados, estão de antemão condenadas ao fracasso, porque a primazia atribuída à teoria dos jogos implica que os outros fatores são considerados residuais e necessariamente tratados ad hoc. A conseqüência disso é clara: qualquer esforço para estabelecer um vínculo sistemático entre a teoria dos jogos e outros fatores terá de partir de um marco teórico mais amplo do que o dessa própria teoria. Contudo, esta é outra conclusão que os pragmatistas relutam em aceitar. Assim, como a prática tem seguido a recomendação de Levi (1999:168) de que "para chegar a esses [outros] fatores, é preciso examinar as especificidades de cada caso", não surpreende que o problema da indeterminação prejudique a capacidade da teoria dos jogos de oferecer explicações teóricas coerentes.

O problema é outro quando nos voltamos para as regras do jogo. Nesse caso, a relação entre a teoria dos jogos e as demais abordagens é, em princípio, muito mais fácil, porque o impacto explicativo de cada uma das diferentes teorias pode ser nitidamente isolado, pelo menos em parte. Por essa razão, pode ser relativamente simples combinar os argumentos da teoria dos jogos com os fatores institucionais, estruturais e culturais geralmente invocados para explicar as regras do jogo. No entanto, mesmo que, nessas situações, se consiga evitar o perigo latente da incoerência teórica, a suposição de que a teoria dos jogos é uma teoria incompleta tem outra implicação muito significativa: quando as regras do jogo são explicadas por outras abordagens, é legítimo questionar o valor agregado da teoria dos jogos, como argumentam vários estudiosos das revoluções e das transições democráticas (Skocpol, 1994:325; Kitschelt, 1993). Dessa forma, a coerência teórica pode ser mantida, mas a força explicativa da teoria dos jogos, por ser uma teoria incompleta, fica muito limitada.

Concluindo: as tentativas de usar a teoria dos jogos em política comparada enfrentam uma série de objeções. Enquanto os puristas se defrontam com o problema óbvio de ignorar um conjunto significativo de evidências, os pragmatistas, por terem recuado de uma posição de universalismo irrestrito, são obrigados a admitir que a teoria dos jogos não é uma teoria completa para todas as coisas, ainda que eles ancorem seus esforços na construção teórica. Os pragmatistas, portanto, colocam-se em uma posição extremamente ambígua. Para adequar seus estudos aos pressupostos que fazem, eles teriam de: (1) aplicar a teoria dos jogos a um domínio bastante restrito; (2) reconhecer que mesmo nos domínios em que a teoria pode ser legitimamente aplicada, ela pode não servir de base para uma explicação teoricamente coerente; (3) admitir que mesmo quando a teoria consegue produzir uma explicação coerente, o valor agregado pode ser relativamente insignificante. Em suma, para garantir a validade de suas pressuposições, os pragmatistas têm de sacrificar as próprias virtudes teóricas supostamente associadas à teoria dos jogos (ver Quadro 2). Mas por manterem seus compromissos com essa teoria, não conseguem superar seus limites reconhecidos pelo desenvolvimento de uma nova teoria da ação mais geral.

A Metodologia Formal na Teoria dos Jogos: A Modelagem e seus Limites

Além de examinar a teoria dos jogos à luz dos princípios teóricos da escolha racional, uma avaliação completa desta teoria também deve avaliar o uso que ela faz de uma metodologia formal. Os dois aspectos estão habitualmente combinados nos estudos que usam a teoria dos jogos e é difícil perceber a diferença entre eles. Entretanto, estes aspectos desempenham papéis distintos e levantam problemas diversos. Resumidamente, pode-se dizer que os princípios teóricos usados na teoria dos jogos são formulados com o objetivo explícito de não refletirem as especificidades de qualquer problema substantivo e, portanto, de serem aplicáveis a qualquer contexto. Em contraste, o uso de uma metodologia formal, ou modelagem formal, está inextricavelmente ligado a problemas substantivos, já que seu objetivo é exatamente articular os princípios da teoria da escolha racional à análise de questões concretas. Assim sendo, é importante examinar os diferentes problemas relacionados com o uso de uma metodologia formal.

Para organizar essa reflexão, desagreguei o processo de modelagem formal em três etapas: construção, solução e teste dos modelos (ver Quadro 3). Essa estratégia mostra com clareza as várias tarefas envolvidas na condução de pesquisas que adotam modelos formais. Além disso, fornece uma base para que se distingam as tarefas do processo de modelagem que são rigorosamente regidas pela teoria dos jogos daquelas em que a teoria é omissa, em parte ou no todo. Assim, a distinção de três etapas no processo de modelagem nos proporciona um marco de referência valioso para a identificação das qualidades e deficiências metodológicas da teoria dos jogos.

 

Quadro 3

Principais Etapas na Modelagem Formal com a Teoria dos Jogos

Primeira Etapa: Construção do Modelo Os modelos da teoria dos jogos são construídos pela especificação dos seguintes elementos: (a) atores que participam do jogo; (b) seqüência das escolhas que os atores devem fazer; (c) informações que os atores têm sobre o jogo; (d) todos os resultados logicamente possíveis do jogo; (e) as preferências de todos os atores sobre os resultados possíveis.
Segunda Etapa: Solução do Modelo Os modelos são solucionados por intermédio de uma análise dos estados de equilíbrio que resolve o jogo e identifica as estratégias fundadas em determinadas crenças que os atores em busca da maximização da utilidade esperada não teriam estímulo algum para mudar.
Terceira Etapa: Teste do Modelo Os modelos são testados por intermédio de uma avaliação empírica das hipóteses derivadas da análise dos estados de equilíbrio.

 

A construção de modelos

Há dois modos pelos quais a teoria dos jogos orienta a construção de modelos. Em primeiro lugar, identifica com clareza os elementos necessários à construção de um modelo completo (ver a lista no Quadro 3). Essa orientação proporciona um ponto de referência à avaliação de questões ligadas à especificação de um modelo e ajuda a detectar os problemas de erro de especificação ¾ a incorporação do elemento errado em um modelo ¾ ou os problemas de subespecificação ¾ a omissão no modelo de elementos relevantes. Isto evita que fatores importantes, como as preferências de todos os atores em relação a todos os desfechos possíveis, sejam omitidos no modelo. De fato, conforme sugerem Gates e Humes (1997:10-11), os problemas de especificação "podem ser em grande parte evitados com o uso correto dos modelos da teoria dos jogos." Assim, a identificação de um grupo de elementos que precisa ser incluído em um modelo é uma recomendação importante, especialmente se levamos em conta a tendência dos adeptos da teoria dos jogos a construir modelos incompletos19.

O segundo modo pelo qual a teoria dos jogos orienta a construção de modelos se encontra em seu conhecido catálogo de jogos no formato de matrizes 2 por 220, cujos benefícios merecem citação. Primeiro, estes jogos contêm os elementos essenciais para uma análise de teoria dos jogos ¾ atores, suas escolhas e as preferências associadas a todos os desfechos ¾ e, por isso, evitam alguns problemas óbvios de subespecificação. Segundo, por serem pré-construídos, os jogos são relativamente fáceis de usar. Desde que o pesquisador tenha algum conhecimento da lista desses jogos (encontrável em qualquer texto introdutório à teoria dos jogos), basta determinar qual jogo capta melhor a interação estratégica do fenômeno que lhe interessa estudar. Terceiro, os benefícios parecem ser bem grandes, pois a teoria dos jogos mantém a promessa de facilitar uma codificação do conhecimento pela identificação de um conjunto manejável de padrões aplicáveis a uma ampla gama de fenômenos. Como escreve Schelling (1998:40, 37-43; 1978:42, 89-91), o uso de jogos no formato de matrizes permite aos pesquisadores criar "um catálogo de mecanismos sociais", isto é, alguma coisa parecida com uma tabela de elementos químicos para as ciências sociais. Não surpreende, portanto, que muitos comparativistas adotem esse roteiro sedutor.

Mas alguns defensores da teoria dos jogos também criticaram esse tipo de análise. David Kreps (1990:41, 37-40), por exemplo, afirma que o uso de tais jogos, como o Dilema do Prisioneiro, o jogo da Galinha [o Chicken] e o jogo da Garantia [Assurance], não é muito útil porque geralmente se baseia em "absurda (e em geral inútil) supersimplificação". Por conseguinte, essa abordagem da teoria dos jogos está associada a uma tendência a ignorar boa parte da inevitável complexidade dos fenômenos políticos. Além do mais, conforme Gates e Humes (1997:7, 12) assinalam, a simples "adaptação da estrutura de um modelo preexistente de jogo a uma situação específica [...] não gera novas explicações ou previsões" (ver, também, Snidal, 1985:26-27, 29-30). Ao contrário, esse tratamento muitas vezes significa a mera tradução do conhecimento existente para a linguagem da teoria dos jogos ou, como afirma Walt (1999a:26-31), pôr "vinho velho em garrafa nova"21. Por último, um argumento ainda mais importante é que o uso de modelos "prontos" ou "de prateleira" ["off-the-shelf models"] (Laitin, 1999a:33) como base da padronização e acumulação de conhecimentos conflita com a criatividade dos cientistas sociais que recorrem à teoria dos jogos para elaborar novas conceituações.

O reconhecimento de que a construção de modelos é mais do que um procedimento pré-programado e que pode ser usada de modo criativo e teoricamente inovador, dá ensejo a uma nova visão da prática da modelagem que realça a versatilidade da teoria dos jogos, por mais limitada que ela seja por seus compromissos com os princípios teóricos discutidos na seção anterior. Esta visão mostra, ademais, que a modelagem, não obstante sua ênfase na técnica, na realidade não difere muito de outras formas de teorização. Uma metodologia formal é apenas uma ferramenta, no sentido de que "as teorias são formalizadas [...] depois de criadas pelo insight e pela intuição" (Turner, 1994:43; ver, também, Bueno de Mesquita, 1996:51). E, como ressalta Powell (1999b:28), "a construção de modelos é um procedimento interativo ou um diálogo no qual a pesquisa se move continuamente entre a teoria e a empiria", impulsionado "por idéias acerca das possíveis explicações de fenômenos empíricos". Por conseguinte, se alguns pesquisadores usam modelos da teoria dos jogos como fórmulas prontas, isto não deve obscurecer o fato de que a modelagem também pode ser uma boa ferramenta para formas criativas de teorização.

Contudo, o uso criativo da modelagem levanta outras questões acerca da orientação que a teoria dos jogos oferece para a construção de modelos. Quanto mais a modelagem é usada para abrir novos campos, mais relevante torna-se a afirmação de Morrow (1994:57) de que "a decisão mais importante na modelagem é a concepção do jogo." Ou seja, quando usados com criatividade, os modelos refletem os conceitos dos pesquisadores sobre um fenômeno empírico e os contextos particulares que eles conhecem ou observam. Conseqüentemente, os elementos conceituais enfatizados e ao alcance dos casos são sempre diferentes. Nesse sentido, a modelagem assemelha-se a qualquer outra forma de teorização inovadora: introduz novos elementos conceituais e/ou altera o alcance empírico de conceituações anteriores, provocando com isto uma certa desordem conceitual. Só que a teoria dos jogos não dá nenhuma orientação explícita sobre como lidar com a tensão intrínseca entre criatividade conceitual e ordem conceitual. Assim, a despeito da insistência de seus defensores, é um exagero dizer que somente a teoria dos jogos é capaz de originar teorias gerais, de alcance claramente definido, acumuláveis de modo ordenado22.

A falta de fundamento dessas afirmações pode ser ilustrada pelo desenvolvimento da literatura da teoria dos jogos que trata da transição e liberalização de regimes políticos. No conjunto, essa literatura se desenvolveu de forma relativamente organizada, em boa parte por efeito da influência e da ampla difusão do modelo de liberalização de Przeworski (1991:62)23. Discussões subseqüentes propuseram seja ligeiras modificações no modelo de Przeworski ¾ constituindo meras variações desse jogo (Zielinski, 1995; Gates e Humes, 1997, cap. 5; Crescenzi, 1999) ¾ , seja mudanças mais significativas, que claramente tomaram como referência esse mesmo modelo (Sutter, 1995; 2000; Swaminathan, 1999). Portanto, essas obras constituem verdadeiramente um corpo coeso de literatura. Mas outros autores abordaram o mesmo fenômeno com perspectivas distintas, nem tomando o modelo de Przeworski como ponto de partida, nem deixando explícito de que maneira cada modelo se superpõe ou discrepa de outro24. À medida que surgiram novos modelos para o estudo das transições, os analistas tiveram dificuldades para mostrar se estes modelos são concorrentes ou se são esforços parciais, mas complementares, de dar conta do mesmo fenômeno e, neste último caso, como poderiam se combinar uns com os outros e servir de base para a acumulação de conhecimentos. Ao contrário, o que restou foi um grande número de modelos que conceitua os elementos-chave ¾ atores, escolhas e preferências ¾ de maneiras muito diversas, raramente comparadas e quase nunca integradas com alguma coerência.

Outra faceta dessa problemática diversidade é a tendência de alguns autores a propor modelos profundamente discrepantes em seu alcance empírico. Alguns modelos, como o de Przeworski, parecem bastante gerais. Mas outros focalizam questões muito específicas e nada gerais. Jakub Zielinski (1995), por exemplo, criou um modelo do impacto da ameaça de uma invasão soviética na transição polonesa, e Bates, Figueiredo Jr. e Weingast (1998:615, 624) construíram dois modelos diferentes: um para a transição na Zâmbia, outro para as mudanças políticas na ex-Iugoslávia. Isto nos deixa com uma grande quantidade de modelos construídos em níveis muito diferentes de generalidade, assunto que raramente, se tanto, é objeto de discussão.

Conseqüentemente, quando utilizada de modo criativo, a teoria dos jogos pode contribuir para a teorização por meio da construção de uma série de modelos. Mas os modelos propostos não se combinam de modo organizado simplesmente porque são modelos da teoria dos jogos25. Este problema não é inerente nem específico à teoria dos jogos. Além disso, algumas características desta teoria proporcionam uma boa base para enfrentar o desafio de extrair ordem do processo necessariamente confuso de criar teorias inovadoras. A modelagem formal obriga que os pesquisadores deixem claro quais são os elementos conceituais usados na construção dos modelos, o que facilita sua comparação. A teoria dos jogos, além disso, fornece uma rica e útil linguagem comum para a discussão de questões relacionadas com a especificação26. Mas essas características não indicam por si mesmas como pôr ordem na multiplicidade de modelos.

Essa discussão destaca dois argumentos importantes que se relacionam com a construção de modelos (ver Quadro 4). Primeiro, não há fundamento algum na afirmação de que a teoria dos jogos produz teorias gerais de alcance claramente determinado, que se acumulam de modo ordenado. Segundo, essas fortes mas infundadas proposições acerca da teoria dos jogos acabam desestimulando os pesquisadores diante dos esforços necessários ao progresso de uma inovação teórica organizada. O fato de a teoria dos jogos ser omissa quanto a um aspecto fundamental da teorização não é um problema em si mesmo; mas implica que seus praticantes, como quaisquer outros teóricos, têm de procurar uma literatura complementar que trate das questões envolvidas na formação e mudança de conceitos27. O problema, porém, é que a constante menção por parte desses teóricos do poder do raciocínio dedutivo e sua incansável insistência em afirmar que seus modelos são gerais (ver, p. ex., Kiser e Hechter, 1991; Levi, 1999:155-157, 171; Martin, 1999:76) impedem-lhes de ver a modelagem como um trabalho em que a lógica dedutiva e a lógica indutiva estão fortemente entrelaçadas, e dificulta-lhes a compreensão de que os modelos são inevitavelmente construídos em níveis variáveis de generalidade28. Assim, embora os praticantes da teoria dos jogos não sejam os únicos a ignorar a necessidade de seguir procedimentos destinados a estabelecer uma ordem conceitual, até agora têm se mostrado pouco alertas para a importância de fazê-lo.

 

Quadro 4

Uma Avaliação da Metodologia Formal da Teoria dos Jogos

Etapas do processo de pesquisa Benefícios reais Benefícios duvidosos Literatura complementar
Construção da Teoria      
1. Construção do Modelo   Generalidade

Alcance definido

Acumulação

Sobre formação de conceitos, mudança conceitual e níveis de generalidade
2. Solução do Modelo Gera previsões em uma forma logicamente rigorosa e internamente consistente    
Teste da Teoria   Testes fortes

Falsificabilidade

Sobre formas quantitativas e qualitativas de avaliação causal

 

A solução do modelo

Contrastando com as importantes omissões em relação à primeira etapa do processo de modelagem ¾ a da construção de um modelo ¾ a teoria dos jogos fornece um grande número de orientações para a segunda etapa, a da solução do modelo. Como as soluções se baseiam em axiomas sobre a tomada de decisões que permitem derivar matematicamente previsões, é nesta etapa que reside a verdadeira força de uma metodologia formal. De fato, as decisões que os pesquisadores precisam tomar nessa etapa da modelagem são tratadas em detalhe pela teoria dos jogos, de modo que são perfeitamente justificáveis os argumentos de que o emprego de uma lógica dedutiva origina previsões em uma forma logicamente rigorosa e internamente consistente com os pressupostos do modelo. Por isso, é com razão que essas qualidades dos modelos da teoria dos jogos são admitidas não só pelos defensores desta teoria (Tsebelis, 1990:40; Morrow, 1994:6-7, 302-303; Bueno de Mesquita, 1996:66-70; Gates e Humes, 1997:5-6; Morton, 1999:68, 280), mas também pelas avaliações geralmente críticas de alguns analistas (Green e Shapiro, 1994:10; Walt, 1999a:14-15, 45-46).

Contudo, algumas advertências devem ser mencionadas. Em primeiro lugar, é importante que se evite exagerar o papel dessa etapa do exercício de modelagem, porque, mesmo que a teoria dos jogos realmente se baseie em uma rigorosa lógica dedutiva, os resultados continuam sendo tão bons quanto o modelo que buscam resolver (Snidal, 1985:33-34). Isto é, as idéias embutidas no modelo são tão preservadas quanto as confusões relativas ao processo que está sendo modelado e o alcance do modelo. Walt (1999a:17, 32), portanto, tem razão em alegar que "a mera consistência lógica não é suficiente" (ver, também, Kaplan, 1964:278-280, 289-290). Em segundo lugar, como a solução de um modelo pode levar a uma previsão de múltiplos equilíbrios, ou, ao contrário, a nenhum equilíbrio, resolver um modelo de maneira logicamente consistente não garante por si mesmo que a teoria seja poderosa ou tenha utilidade.

Em terceiro lugar, mesmo que seja possível modificar modelos indeterminados a fim de que gerem previsões mais poderosas e mais exatas (Morton, 1999:182-183, 206-208, 281), essa possibilidade aponta para um problema ainda maior ¾ o de que a teoria dos jogos não é imune a exercícios de "curve fitting"** (Snidal, 1985:33; Stein, 1999:223). Daí que embora os modelos produzam resultados rigorosos, essa qualidade não garante que tais resultados não sejam o produto de mudanças introduzidas a posteriori no modelo e, por isso mesmo, suspeitas. De modo geral, porém, ainda que a teoria dos jogos inclua uma grande quantidade de orientações para essa etapa do processo de modelagem e embora alguns dos argumentos mais freqüentemente invocados sobre a modelagem formal sejam perfeitamente justificáveis, é aconselhável ter prudência ao propagá-los aos quatro ventos.

O teste do modelo

Finalmente, no que diz respeito à terceira etapa do processo de modelagem ¾ o teste dos modelos ¾ , o mais importante a assinalar é que ela é objeto de muita confusão. A importância desta etapa se deve ao fato de que o critério decisivo na avaliação da teoria dos jogos é sua contribuição para a compreensão de problemas substantivos; quanto a isto, poucos discordam (Green e Shapiro, 1994:32; Walt, 1999a:31; Snidal, 1985:55; Powell, 1999a:104). Existe também uma boa margem de concordância no que se refere a um tema ainda mais controverso: a tendência dos praticantes da teoria dos jogos de se interessarem mais em construir modelos do que em fazer o teste empírico das hipóteses geradas por esses modelos (Green e Shapiro, 1994:203; Walt, 1999a:8, 32-33; 1999b:125-126; Gates e Humes, 1997:12). Exceto isto, reina grande confusão em relação a vários outros problemas cruciais.

Por um lado, alguns críticos se têm mostrado extremamente céticos quanto à possível contribuição de uma metodologia formal para o conhecimento de uma realidade concreta. Certamente, é justo dizer que a divisão do trabalho na literatura da teoria dos jogos entre os pesquisadores que constroem modelos e os que se interessam por problemas reais é bem profunda, a ponto de limitar suas contribuições para o debate substantivo. Isto é admitido por defensores da teoria dos jogos, como Niou e Ordershook (1999:84), que afirmam que "existe um certo formalismo pelo formalismo", e Powell (1999b:29), que admite que "um trabalho que gaste tempo demais na modelagem pode se tornar [...] estéril do ponto de vista substantivo" (ver Bueno de Mesquita e Morrow, 1999:71; Zagare, 1999:114). Mas é outra coisa dizer que essa divisão do trabalho é inerente à metodologia formal utilizada na teoria dos jogos, ou que apreende corretamente a interação entre construção de teoria e observação empírica no processo de modelagem (Powell, 1999b:24-29). Assim, embora possa haver alguma legitimidade na crítica aos estudos da teoria dos jogos por se tratar de exercícios governados mais pelo desejo de modelar do que pelo de contribuir para o conhecimento da realidade, é importante reconhecer que a modelagem também pode ser motivada pelo interesse nos problemas substantivos, conforme argumentaram recentemente alguns defensores das narrativas analíticas (Bates et alii, 1998:11; ver, também, Laitin, 1999b).

Mas também é importante avaliar com cuidado os habituais argumentos dos defensores da teoria dos jogos sobre as contribuições de uma metodologia formal para o teste de modelos. Os argumentos mais comuns afirmam que a modelagem gera testes fortes (Snidal, 1985:34; Tsebelis, 1990:40; Gates e Humes, 1997:12; Levi, 1997:27; Geddes, 1999b:199; Martin, 1999:77) e hipóteses que têm a virtude da falsificabilidade (Bueno de Mesquita, 1996:50, 58; Levi, 1997:20). Embora estas sejam qualidades importantes, essas afirmações erram completamente o alvo no que diz respeito à modelagem. Isto é, embora os modelos sejam em último caso avaliados pelo conhecimento empiricamente comprovado que produzem, o exercício da modelagem propriamente dita culmina na formulação de hipóteses. Por conseguinte, os autores dos modelos devem testar essas hipóteses. Mas uma metodologia formal não tem implicações diretas para a testabilidade das hipóteses, nem fornece diretrizes sobre como realizar os testes29. Portanto, a modelagem pode levar a testes fortes, mas também gerar previsões consistentes com muitas ou mesmo todas as observações possíveis (Morton, 1999:197-198, 206-208). Da mesma forma, a modelagem pode dar origem a hipóteses que têm a virtude da falsificabilidade, mas também a argumentos praticamente não falsificáveis (Snidal, 1985:27, 56; Morton, 1999:119). Além disso, um modelo pode ser testado de várias maneiras: focalizando-se hipóteses relativas a previsões pontuais ou previsões comparativas estáticas (Morton, 1999, caps. 6 e 7); com base na análise de pequeno número de casos ou de muitos (Laitin, 1999b; Levi, 1999:158; Blossfeld e Prein, 1998), dentre outras. Em suma, a questão básica é que a metodologia formal "não prescreve nenhuma metodologia específica para o teste de hipóteses" (Geddes, 1995:101).

Cabe, portanto, chamar a atenção para dois problemas importantes. Primeiro, ainda que alguns exercícios de modelagem tendam a estar desligados de preocupações concretas, não há nada intrínseco ao processo de modelagem que diminua sua capacidade de contribuir para o conhecimento de questões substantivas. Segundo, como o processo de modelagem formal tem a ver fundamentalmente com a geração de hipóteses, argumentos sobre as contribuições da teoria dos jogos para o teste de modelos só fazem confundir o esforço de avaliação desta teoria. Uma vez que os modelos formais sejam submetidos a teste, é claro que os partidários da teoria dos jogos precisam recorrer a outras literaturas que tratam de todo um conjunto de problemas envolvidos na análise causal usando metodologias quantitativas e qualitativas. Mas esta não parece ser uma questão polêmica.

Recapitulando, o emprego de uma metodologia formal efetivamente fundamenta um dos argumentos mais importantes a favor da teoria dos jogos: de que ela pode gerar previsões em uma forma rigorosa e internamente consistente. Esta é uma propriedade de grande valor, que contribui para recomendar a adoção de uma metodologia formal, mas é preciso fazer três advertências gerais. Em primeiro lugar, o fato de que uma metodologia formal seja propícia a uma forma rigorosa de análise não significa que os pesquisadores que trabalham com modelos formais tenham o monopólio do rigor30. Segundo, conforme demonstrou este artigo e resumiu o Quadro 4, há muitas questões metodológicas não abordadas pelos procedimentos de modelagem formal. Embora este ponto raramente seja apreciado, o rigor também é um padrão que diz respeito a essas outras questões. Visto que a capacidade de comparar modelos com rigor afeta o modo de avaliar suas diversas previsões, pode-se dizer que esse aspecto largamente ignorado da modelagem tem um grande impacto no rigor global dos exercícios de modelagem. Terceiro, o rigor isoladamente não é garantia do valor da pesquisa do ponto de vista substantivo. Em suma, não obstante o valor da modelagem formal, é importante não exagerar seus benefícios e admitir que se trata de um processo mais complexo do que os defensores da teoria dos jogos costumam reconhecer, e que ele implica uma quantidade de problemas dos quais esses pesquisadores simplesmente não se ocupam.

Uma Agenda Pluralista para a Política Comparada

A intenção deste artigo foi fazer uma avaliação da teoria dos jogos e seus usos nos estudos de política comparada, analisando seus fundamentos teóricos e metodológicos e identificando suas qualidades e deficiências. Em vez de focalizar as contribuições substantivas desta teoria para a política comparada, enfatizei os princípios fundamentais que determinam suas potencialidades de uso e suas limitações quando aplicada à política comparada ou a qualquer outro campo. Além de identificar as tendências atuais de aplicação dessa análise na área da política comparada, o objetivo principal do artigo foi apresentar uma reflexão bem fundamentada e equilibrada das práticas usuais da teoria dos jogos que possam servir de base a uma discussão sobre suas perspectivas de longo prazo naquela área de estudos.

Essa avaliação tem implicações, antes de tudo, para a pesquisa na teoria dos jogos. Conforme demonstrei aqui, os princípios fundamentais desta teoria são limitados tanto do ponto de vista dos domínios aos quais ela se aplica, quanto de sua capacidade explicativa nesses domínios. Ademais, os pesquisadores que adotam esta teoria demonstram pouca sensibilidade aos problemas de especificação de domínios. Dessa maneira, estes pesquisadores deveriam concentrar-se em duas tarefas da maior importância. Em primeiro lugar, deveriam se preocupar em enunciar critérios claros para a identificação dos domínios apropriados à teoria dos jogos e então aplicá-los de modo consistente. Em segundo, deveriam atacar a tarefa mais árdua de ampliar os domínios que podem estudar e a força explicativa da teoria dos jogos nesses campos, desenvolvendo um marco teórico mais geral que ultrapasse seus limites como uma teoria da ação. Quanto a esta última tarefa, talvez seja possível elaborar os pressupostos de escolha racional embutidos na teoria dos jogos, em vez de substituí-los. Esta é uma idéia que ainda não está muito clara, mas para que se possa construir uma teoria da ação mais adequada, parece ser necessário introduzir grandes modificações nos pressupostos da teoria dos jogos.

Quanto ao alicerce da teoria dos jogos em uma metodologia formal, o artigo sugere que são necessárias mudanças menos radicais. Conforme ressaltei anteriormente, a modelagem formal proporciona um método atraente de teorização por causa de sua capacidade de gerar previsões em uma forma rigorosa e internamente consistente. No entanto, o trabalho também sugere que, juntamente com a adoção de uma metodologia formal, é preciso empreender duas importantes tarefas. Primeiramente, os pesquisadores precisam prestar mais atenção aos procedimentos de construção de modelos formais que lhes permitam pôr ordem na multiplicidade de modelos que, apesar de propostos como modelos para o mesmo fenômeno, são muito diferentes nos elementos conceituais que elegem e no alcance das situações em que se aplicam. Em segundo lugar, os pesquisadores precisam concentrar sua atenção na maneira de testar seus modelos com o recurso a metodologias quantitativas e/ou qualitativas. Em alguns casos, essa tarefa talvez seja muito simples, exigindo apenas que se lance mão das metodologias empíricas existentes. Entretanto, o desafio pode tornar-se mais difícil quando se trata de testar teorias da ação, o que demandaria importantes inovações metodológicas. Em síntese, um importante argumento deste artigo é que a teoria dos jogos terá muito a ganhar com uma admissão explícita dos seus limites e o reconhecimento de que seus adeptos precisam ocupar-se de uma série de problemas que é de interesse central nas ciências sociais.

De um ponto de vista mais geral, este artigo tem importantes implicações para o esforço de aperfeiçoar a pesquisa na área da política comparada. Uma avaliação da teoria dos jogos revela um quadro muito diversificado, pois suas virtudes são contrabalançadas por importantes limitações. Mas o grande problema é que, embora seja possível melhorar a teoria se desenvolvendo maior sensibilidade a uma série de antigas preocupações das ciências sociais, a única maneira de tratar sistematicamente dos limites dessa teoria consiste, em última análise, em abandonar seu argumento mais fundamental ¾ o de que a teoria dos jogos ocupa um status especial tanto como uma teoria de aspirações universalistas quanto como um tipo de metodologia formal. De outro modo, o grande número de problemas que está além dos limites da teoria dos jogos será tratado, quando muito, como adendo.

Por mais benéfica que seja a integração das observações produzidas pelas novas perspectivas da teoria dos jogos com os antigos interesses dos cientistas sociais que trabalham na área de política comparada, os prognósticos de uma agenda pluralista desse tipo ainda são obscuros. O contraste entre as pretensas qualidades e as alegadas deficiências de outras abordagens ¾ caracterizadas, alternativamente, como indutivas, históricas ou, simplesmente, não formais ¾ é enorme. Além disso, a paixão com que se defende a supremacia da escolha racional e da teoria dos jogos e o tom do debate em torno da crítica cuidadosa e bem fundamentada de Green e Shapiro (1994) sobre as aplicações dessa teoria na área da política americana31, e as de Walt (1999a)32 sobre os estudos de relações internacionais, sugerem que há pouco interesse em um diálogo. Em suma, o debate em torno da teoria dos jogos pode muito bem vir a assumir uma natureza de confronto e competição (Murphy, 1996:168-173; Lichbach, 1997:240-242, 272-274), com conseqüências profundamente destrutivas para o futuro da área.

Existe, porém, a possibilidade de uma outra agenda para a política comparada, que destacaria os temas desenvolvidos pelos vários participantes de um simpósio de 1995 da revista World Politics sobre o futuro da disciplina, e enfatizada mais recentemente por Collier: manter e fortalecer o "centro eclético" em política comparada e entreter um diálogo centrado no desafio de integrar novas perspectivas, como as oferecidas pela teoria dos jogos, com os velhos interesses dos comparativistas (Kohli et alii, 1995; Collier, 1999). Resta saber se o centro da política comparada já se enfraqueceu tanto que eliminou toda a base viável para essa espécie de diálogo.

Felizmente, há sinais de que até os defensores mais ardentes da teoria dos jogos na política comparada vêm admitindo explicitamente os limites dessa análise. Na realidade, se olharmos para além do exagero das freqüentes declarações programáticas, encontraremos indícios de um pragmatismo, especialmente no que se refere às reivindicações teóricas da teoria dos jogos. Por outro lado, alguns adeptos desta teoria têm se manifestado de modo claramente pluralista ou incorporado saudáveis doses de ecletismo em seu próprio trabalho. De importância igualmente crucial é o fato de que se pode detectar a existência de sérios esforços por parte de não-praticantes de se informarem sobre a teoria dos jogos e chegarem a uma opinião equilibrada sobre as potencialidades e limites desta teoria. Apesar de sinais tão promissores, o status da teoria dos jogos e da teoria da escolha racional continua sendo uma questão altamente controvertida. Se a agenda dos estudos de política comparada tomará no futuro próximo uma feição pluralista capaz de estimular o diálogo é uma pergunta que ainda não se pode responder.

(Recebido para publicação em julho de 2000)
(Versão definitiva em outubro de 2000)

 

NOTAS:

* Na preparação deste artigo, contei com os valiosos comentários de Badredine Arfi, William Bernhard, Dexter Boniface e David Collier. Agradeço ainda as minuciosas e ponderadas observações de Bear Brumoeller e Richard Snyder. Os erros e omissões são, naturalmente, de minha responsabilidade. [Tradução do original em inglês "Game Theory and Comparative Politics. New Perspectives and Old Concerns", de Vera Pereira.]

** Curve-fitting é um termo que provém da estatística e significa adaptar ou mudar uma explicação teórica de acordo com os dados ou a linha da regressão. Uma tradução literal seria "mudar a teoria que se usa para adaptá-la aos dados". [N. do T.]

1. Sobre o impacto dos textos fundadores e a ascensão da teoria da escolha racional na ciência política, ver Mueller (1997); Riker (1990; 1992); Amadae e Bueno de Mesquita (1999:272-278). Sobre o impacto da TER nas diferentes áreas da ciência política, ver Amadae e Bueno de Mesquita (1999); Gates e Humes (1997:12-14).

2. Przeworski (1985; 1995:16) é um caso especial por não favorecer a primazia apriorística de nenhuma teoria ou método e por abordar expressamente as limitações da TER.

3. A tendência de exagerar as afirmações não é exclusiva do debate sobre a teoria da escolha racional e a teoria dos jogos na política comparada. Declarações semelhantes, no campo dos estudos sobre política americana e relações internacionais podem ser encontradas em Riker (1990:177), o qual relaciona a possibilidade de um progresso nas ciências sociais diretamente ligado à adoção de modelos de escolha racional, e em Niou e Ordershook (1999:96), que deixam implícito que as pesquisas realizadas pelos teóricos formalistas têm uma "sólida base científica", ao passo que as análises produzidas pelos pesquisadores não formalistas são "mero jornalismo". Ver, também, Bueno de Mesquita (1996:55-57), que descreve a teoria dos jogos como "uma abordagem científica", oposta a um enfoque indutivo e histórico considerado falho em termos teóricos e metodológicos.

4. Para alguns esforços preliminares de inventariar a literatura da escolha racional e da teoria dos jogos em política comparada, ver Bates (1990; 1997); Keech, Bates e Lange (1991:243-248); Geddes (1995); Levi (1997); Brubaker e Laitin (1998:437-441). Ver, também, Friedman e Hechter (1988; 1990); Hechter e Kanazawa (1997).

5. A lógica de estabelecer essa distinção é bastante simples: a teoria dos jogos pode ser em parte definida pelo uso de uma metodologia formal, que consiste em uma série de procedimentos empregados para construir modelos formais e derivar hipóteses sobre os fenômenos que interessam aos pesquisadores. Contudo, uma metodologia formal não se sustenta por si só, no sentido de que a solução de modelos formais requer o uso de uma teoria ¾ a teoria da escolha racional na literatura sobre a teoria dos jogos avaliada neste artigo. Além de diferenciar dois elementos básicos, essa distinção entre teoria e método também ajuda a separar a teoria dos jogos de abordagens estreitamente relacionadas com ela. Por um lado, o emprego de uma metodologia formal sublinha a diferença entre versões formais e "soft" da teoria dos jogos. Por outro, o uso da TER acentua a distinção entre uma teoria dos jogos "tradicional", que aceita a TER, e suas variantes mais recentes, como a teoria dos jogos "evolucionária", que se baseia em outros pressupostos comportamentais. Assim sendo, o objetivo deste artigo é avaliar a teoria dos jogos tradicional que utiliza uma metodologia formal.

6. É muito difícil indicar as qualidades e deficiências da teoria dos jogos sem oferecer um real exercício de modelagem. Embora este artigo evite fazê-lo, por razões de espaço, o original mais extenso apresenta um exercício detalhado de modelagem com a teoria dos jogos.

7. Para análises que ressaltam essas qualidades, ver Riker (1990:177); Tsebelis (1990:42-43); Geddes (1991:63-67; 1995:100-102); Morrow (1994:6-7); Levi (1997:20).

8. Para um resumo da crítica da escolha racional dos psicólogos, ver Morton (1999:84-93) e Stein (1999:210-217).

9. Embora muitos estudiosos tenham dedicado alguma reflexão ao problema da especificação de domínios, parece não haver atualmente um consenso sobre os domínios nos quais se sustentam os pressupostos comportamentais do modelo da utilidade esperada. Compare-se, p. ex., Elster (1989b:26-27); Tsebelis (1990:36, 38); Fiorina (1996:88); Ferejohn e Satz (1996:78); Lane (1996:108-109); Taylor (1996:225-228); Green e Shapiro (1994:27-28; 1996:267, 254-255).

10. Embora o trabalho de especificação de domínios concernente à aplicabilidade do modelo da utilidade esperada deva ser realizado fora da teoria dos jogos, os domínios em que essa teoria produz previsões únicas podem ser determinados com as ferramentas da própria teoria. Assim, a tarefa torna-se menos exigente e desafiante para a teoria dos jogos.

11. À luz do problema das previsões indeterminadas, Elster (1989b:181-194) sugere que se restrinja o uso da teoria dos jogos aos efeitos de escolha local, parcial e de curto prazo, em oposição aos efeitos globais, totais e de longo prazo. Ver, também, Fearon (1996) e Riker (1990:169-172).

12. Sobre a natureza problemática dos refinamentos do equilíbrio, ver Kreps (1990:104, 108-114) e Walt (1999a:18-19).

13. As ameaças à coerência interna da teoria dos jogos ¾ importante falha do ponto de vista do universalismo parcial ¾ provavelmente são menos importantes nesse contexto. Isto porque a articulação de diferentes abordagens não envolve um complexo processo de interação, como acontece nos jogos que produzem resultados indeterminados, mas um processo aditivo em que abordagens não ligadas à teoria dos jogos são usadas para explicar os inputs básicos de um jogo.

14. Só para dar um exemplo significativo: essa falha é visível em Analytical Narratives, de Bates et alii (1998), conforme assinalou Elster (2000).

15. Por exemplo, Cohen (1994, caps. 2 e 4) contesta expressamente o valor das abordagens estruturais e institucionais.

16. Por exemplo, compare-se o apelo de Bates (1997:704) ao enfoque de "contextos altamente estruturados" com a análise de Bates, Figueiredo Jr. e Weingast (1998:635).

17. Um exemplo dessa desvinculação é a análise de Geddes (1999a:125-130) sobre as transições de regimes não democráticos. Não fica claro de que maneira esse é o tipo de pequena questão que a autora sugere ser apropriado à teoria dos jogos em Geddes (1991:67-69).

18. Um exemplo dessa tendência é Bates, Figueiredo Jr. e Weingast (1998). Embora estes autores estejam interessados nas mudanças na "própria estrutura da política", tudo o que fazem para dar conta disso é reconhecer que os atores possuem informações incompletas (idem:613-614). Assim, o fato mais importante ¾ que as transições políticas que eles estudam violam o pressuposto de que as regras do jogo são constantes ¾ não é discutido. Elster (2000) faz observação semelhante a respeito de Bates et alii (1998).

19. Conforme observam Gates e Humes (1997:113-124), Przeworski (1991:61-66) não fornece as preferências para um dos atores em seu modelo de teoria dos jogos, impedindo com isso uma análise formal dos equilíbrios. Essa advertência também se aplica aos teóricos "soft" da escolha racional, que não constroem modelos formais e que são ainda mais suscetíveis a problemas de subespecificação.

20. Para uma lista completa desses jogos, ver Rapoport (1966) e Brams (1994:215-219).

21. Entre os exemplos desse tipo de teoria dos jogos na política comparada estão Colomer (1991; 1995); Cohen (1994) e Geddes (1999a:121-130).

22. As reivindicações de generalidade são feitas por Kreps (1990:6-7); Gates e Humes (1997:7); Levi (1997:20). A alegação de que a modelagem permite afirmações de alcance bem definido é enfatizada por Levi (1997:20) e Geddes (1999b:201). O nexo entre modelagem e acumulação de teoria é ressaltado por Riker (1990:177); Tsebelis (1990:42-43); Gates e Humes (1997:7-8, 14-16); Levi (1997:20).

23. Embora a utilização por Przeworski da teoria dos jogos no contexto da análise das transições seja evidentemente inovadora, ela se fundamentou em idéias introduzidas por O’Donnell (1999[1979]) e O’Donnell e Schmitter (1986).

24. É o caso dos trabalhos de Colomer (1991; 1995); Colomer e Pascual (1994); Marks (1992); Casper e Taylor (1996); Bates, Figueiredo Jr. e Weingast (1998).

25. É claro que se pode falar de uma integração teórica no sentido de que a pesquisa na teoria dos jogos produz uma série de modelos que são unificados em virtude de serem aplicações de uma mesma teoria (Snidal, 1985:25, 32-36). Mas essa é uma questão completamente diferente do questionamento da acumulação entendido em termos da integração de modelos.

26. Por exemplo, os construtores de modelos poderiam argüir se um fenômeno deveria ser modelado como um jogo de lance único ou repetido, como um jogo de informações completas ou incompletas, e assim por diante.

27. Para indicações sobre as pesquisas relevantes acerca da formação e evolução do uso de conceitos, ver Sartori (1970; 1984); Collier e Mahon (1993); Collier e Levitsky (1997).

28. As tentativas de caracterizar a teoria dos jogos como uma forma de teoria geral são extremamente enganosas. Conforme argumenta Skocpol (1994:321-323) em resposta à defesa da "teoria em geral" feita por Kiser e Hechter, todo bom trabalho, quer trate-se ou não de teoria dos jogos, combina dedução e indução, e portanto está em "um meio caminho complexo entre o pensamento ideográfico e o nomotético", como afirmam Bates et alii (1998:12).

29. É importante notar que a ênfase teórica da teoria dos jogos na escolha estratégica, diferentemente de seu uso de uma metodologia formal, tem importantes implicações para o modo de testar hipóteses. Bueno de Mesquita (1996:61-63) faz uma boa defesa de como a teoria dos jogos, e especificamente a noção de comportamento fora da rota do equilíbrio, ajuda a alertar os pesquisadores para o problema de não-eventos e contém uma interessante maneira de pensar as contraprovas. Ver, também, as provocativas discussões do problema do bias de seleção, em Signorino (1999) e Smith (1999).

30. Se os autores de modelos formais detêm monopólio do rigor, no sentido usado neste artigo, é um argumento a respeito do qual os adeptos da teoria dos jogos divergem. Uns parecem alegar que as pesquisas que usam modelos formais são sempre superiores às que não o fazem (Martin, 1999:77-80; Morton, 1999:36, 41-47). Outros adotam uma posição de meio-termo, dizendo que a teorização baseada em modelos formais não é intrinsecamente superior à teorização não formal ou verbal, mas apresenta uma grande vantagem (Morrow, 1994:6; Bueno de Mesquita e Morrow, 1999:56-57, 72; Powell, 1999a:101-102; 1999b:29-33, 38). Por fim, outros defensores são menos propensos a tais juízos apriorísticos e prontamente admitem que não há base alguma para afirmar que a teoria dos jogos e outras formas de modelagem têm monopólio sobre o rigor, porque "o rigor lógico não é uma propriedade exclusiva dos modelos formais" (Tsebelis, 1990:42-43; ver, também, Snidal, 1985:30).

31. Sobre o debate em torno de Green e Shapiro (1994), ver Friedman (1996); Johnson (1996); Cox (1999), e a resposta de Green e Shapiro (1996).

32. Sobre o debate em torno de Walt (1999a), ver Bueno de Mesquita e Morrow (1999), Martin (1999); Niou e Ordershook (1999); Powell (1999a); Zagare (1999) e a resposta de Walt (1999b). O debate inteiro foi republicado em Brown et alii (2000).

 

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ABSTRACT
Game Theory and Comparative Politics: New Perspectives, Old Interests
Seeking to conduct an inventory of the arguments used by game theory proponents, the article assesses both this theory and a set of theoretical principles that extend the scope from rational choice to interdependent decision-making and a type of formal methodology. The article identifies some key qualities, like the theory’s emphasis on actors and strategic choices and its ability to generate logically rigorous and internally consistent predictions. But it also discusses many of the theory’s shortcomings. Therefore, the challenge faced by scholars of comparative politics is to consider the new perspectives offered by game theory and to make use of its qualities, without losing sight of a series of relevant long-standing issues from the social sciences that this approach is not prepared to solve.
Keywords: political theory; game theory; comparative politics

 

RÉSUMÉ
Théorie des Jeux et Politique Comparée: Nouvelles Perspectives, Vieux Intérêtes
En vue de faire l'inventaire des arguments utilisés par les adeptes de la théorie des jeux, cet article évalue celle-ci à la fois comme un ensemble de principes théoriques étendant l'objectif du choix rationnel à une prise de décisions dépendantes les unes des autres et comme un type de méthodologie formelle. Il y relève quelques qualités capitales telles que l'importance attribuée aux acteurs et aux choix des stratégies, ainsi que la capacité de ces théories d'engendrer des prévisions non seulement logiques et rigoureuses mais aussi cohérentes entre elles. On y perçoit aussi des faiblesses. Ainsi pour les chercheurs en politique comparée, l'enjeu est de prendre en considération les nouvelles perspectives proposées par la théorie des jeux et en tirer profit sans pour autant perdre de vue une série d'anciens centres d'intérêt des sciences sociales que la dite théorie n'est pas à même de résoudre.
Mots-clé: théorie; politique; théorie des jeux; politique comparée

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