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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262On-line version ISSN 1678-7110

Cad. CEDES vol.35 no.96 Campinas May/Aug. 2015

https://doi.org/10.1590/CC0101-32622015723767 

Caleidoscópio

A leitura do mundo e a leitura da palavra em Paulo Freire

Paulo Freire: reading the world and reading the word

Ana Maria Araújo Freire* 

1* - Doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Estudiosa, colaboradora, viúva e sucessora legal de obra de Paulo Freire.


Paulo foi um pensador dialético, tanto no seu falar quanto no seu escrever, porque foi enquanto pessoa e homem apaixonado pelas pessoas e pela vida, autêntica e profundamente dialético. Pensava porque sentia. Sentia porque deixava seu corpo consciente falar por ele mesmo. Sentir e pensar, tentando sempre, dialeticamente, completar assim a sua incompletude. Incompletude, aliás, como um traço humano comum a toda e qualquer pessoa. Sua sabedoria e sua capacidade de pensar, sua tolerância e respeito pelo diferente, sua magnanimidade na crença no outro e na outra sua coerência existencial não nasceram com ele. Foram estas - como tantas outras qualidades pessoais e profissionais - construídas por ele mesmo na busca de sua formação pessoal com o mundo e de sua formação enquanto educador ético e político. 1

Enfim, estou dizendo que Paulo praticou nele mesmo a Aretê, como os mestres da Antiguidade a praticavam com seus alunos para tornarem-se seres da inteligência e dos afetos dentro do ideal da Paidéia Grega.

Paulo sabia-se um homem que precisa se tornar mais e mais um educador exemplarmente ético, que, precisava, portanto, tratar as suas próprias fragilidades. Tratar as suas fragilidades é já ir construindo as suas qualidades. Em Paulo não foi diferente, fez pouco a pouco crescer suas virtudes e estas foram tomando o lugar de suas "deficiências", fazendo, assim, dialeticamente: da sua força de luta a sua energia vital; de sua busca de Ser Mais, um político educador "buscador" da libertação e da autonomia dos homens e das mulheres - não somente dele e para ele. Incessantemente, por toda a sua vida, Paulo lutou para ganhar as suas qualidades de homem, de filho, de marido, de pai e de educador.

Procurou obter a maior coerência possível ao não contradizer o seu escrever do seu sentir, do seu pensar, do seu dizer, e do seu fazer. Dadivosamente, não se fixou na mesquinhez humana, ao contrário, procurou a grandeza ontológica de homens e de mulheres, mesmo sabendo das fragilidades destes e destas, e, portanto, das dele também. Tolerantemente respeitou os diferentes dele mesmo, como também os seus antagônicos, obviamente, sem dar a esses e a essas os créditos de valor aos seus pensamentos e ações, como deu aos seus diferentes e a si próprio. Assim, fez-se sabiamente um humanista.

Por isso, ele viveu intensa e profundamente todas as coisas da vida, atento às contradições e às ambiguidades próprias da existência humana. Para isso, Paulo entendeu que o diálogo deveria começar dentro de seu próprio corpo, dele com ele mesmo, enquanto ser que sentia e que pensava procurando atingir o máximo possível a coerência, a tolerância e o respeito. Assim, nunca deixou de procurar na inteireza do seu ser o diálogo de seu corpo como sendo o das totalidades contraditórias buscando o seu Ser Mais. Foi assim, estendendo à sua maneira de ser através do diálogo consigo mesmo, que entendeu tão bem os seus semelhantes.

Paulo compreendeu o seu corpo como uma entidade capaz de amar, de sentir, de pensar, de dizer e de fazer as coisas - à imagem do "tudo está no meu corpo", "tudo acontece no meu corpo" de Merleau-Ponty -, relacionando-se humilde e amorosamente com os outros seres, humanos ou não, voltado para um projeto de um mundo melhor, porque mais justo, procurando unificar tudo num gesto único de constituir-se enquanto ser gente. Esta é a natureza de sua gentidade 2 sobre a qual nos falou muitas vezes, sobretudo nos últimos anos de sua vida.

Ao mesmo tempo, nessa procura da unidade forjada intencionalmente em si próprio pelas qualidades pessoais e intelectuais, profissionais, éticas e morais, Paulo foi capaz de construir um diálogo para o saber e o conhecer absolutamente genuíno: dele com o mundo, através da análise das relações mais diversas entre os homens e as mulheres entre si, e com ele mesmo; desses e dessas com o mundo que os cercava; dele mesmo com a leitura da palavra escrita ou dita por ele e por outros e outras, como também pela observação e análise dos fenômenos sociais e da natureza. Pôde, portanto, nos oferecer uma teoria pedagógica que ultrapassou os muros da que necessita a educação escolarizada. Disse do mundo, ao dizer de si próprio. Disse do outro e da outra, ao dizer de si e do mundo. Nisso reside a sua compreensão e vivência da dialeticidade cognoscitiva e humanista.

Em suma, foi pela imbricação de sentimentos, emoções, observação, intuição e razão que ele criou a sua "leitura de mundo", uma epistemologia, uma teoria do conhecimento, uma compreensão crítica da educação na qual disse a sua palavra lendo o contexto do mundo ditado pelo "texto" que seu corpo consciente lhe dizia e ele "escutava" e sobre ele refletia. Daí porque Paulo entendia que a palavra verdadeira é práxis transformadora, porque ela diz da intenção de não dizer a palavra vazia ou perversa, oca ou inconsistente, astuta ou destruidora, mas a palavra certa, a palavra verdadeira. Dizer a palavra é, para Paulo, portanto, o resultado do diálogo mais profundo de respeito entre homens e mulheres, respeitando cada um a inteireza de dignidade do outro ou da outra. Dizer a palavra verdadeira, para ele, é biografar-se. É possibilitar que sejamos sujeito da história também e saiamos da condição de apenas objeto da sociedade.

Dizer a palavra verdadeira restaura a beleza do que é profundamente humano - que são o amor e o cuidado com a vida - porque nisto reside a ética humanista/libertadora de Paulo Freire. A Ética da vida e do respeito que ele criou, nega a ética do mercado e a ética formal, do discurso, que ajuízam as pessoas sobre o mundo pelo dinheiro acumulado e pelo consumismo sem freios, ou pelos padrões moralistas milenarmente tradicionais e mantidos pela negação da história e da verdadeira identidade e natureza humana. A ética do mercado e a ética do discurso negam o verdadeiro destino humano, enquanto a Ética da vida abriga o verdadeiro endereço ontológico da existência humana.

A leitura da palavra para Paulo estava sempre irremediavelmente imbricada, vinculada ao ato de escrever, ao sujeito que lê/escreve; ao que se passa ou se passou no mundo concreto, como o vemos e interpretamos diante da ideologia que temos e praticamos.

Em outras palavras, estou dizendo que o texto e o contexto e, portanto, o diálogo e a leitura de mundo em Paulo, não se travam em campo neutro, alheio ao projeto de vida que cada um de nós tem, explicitem isso ou não. Se o sonho coletivo é progressista, humanista, voltado para a utopia de uma sociedade mais justa, melhor, verdadeiramente democrática, se identifica com o sonho de Paulo e de todos e todas que lutam pela justiça social, política e econômica.

A leitura sistematizada de um texto/contexto para ser entendida criticamente - aliás, nenhuma leitura da palavra e do mundo pode ser verdadeira se for feita tendenciosa e "neutramente" ou ingenuamente - tem, portanto, algumas condições: o sujeito curioso "desarmado" de preconceitos, aberto a aceitar pensar sobre o novo, ou mesmo sobre o velho dito e entendido de maneira crítica; escrever textos rigorosos e claros tendo em vista um mundo concreto no qual o diálogo fundado nas perguntas abre as possibilidades de avançarmos no regaço de um mundo no qual respeitamos todos os seres da natureza, a serviço dos homens e das mulheres.

O texto de qualquer pessoa, o nosso texto escrito ou falado - científico ou filosófico - para ser verdadeiro, para transmitir a Verdade tem que carregar a possibilidade de que os nossos leitores e leitoras entendam a que e a quem queremos estar comunicando e servindo. O porquê nós dizemos isso e não aquilo. O porquê nós escrevemos isso e não aquilo.

Temos que estabelecer com eles e elas o diálogo que necessariamente tem que ser gerado pelas respostas às perguntas fundamentais que Paulo se fez continuadamente por toda a sua vida, e provocou-nos a que fizéssemos sempre. Por quê? Contra que? Contra quem? A favor de que? A favor de quem?

A aceitação imediata do que foi ouvido ou lido, sem questionamentos, que não instigue o perguntarmo-nos, o inquietarmo-nos, a deixar que a curiosidade espontânea do dia a dia passe a ser a curiosidade epistemológica - esta que nos deixa ansioso / a na busca das possíveis respostas -, que não permite ir ao âmago das questões e das coisas; que não permite percebermos criticamente a razão de ser das coisas ou dos fatos - não estabelece, portanto, o verdadeiro diálogo freireano. O diálogo freireano vai à raiz mais profunda das coisas para explicar, temporária e criticamente, a realidade concreta. O diálogo freireano prioriza a pergunta que faz pensar, que nos coloca em dúvida e não a resposta pronta, espontânea, "neutra", sem reflexão.

O diálogo freireano se faz à semelhança da maiêutica socrática, superando-a, porque nega o idealismo da busca socrática. O diálogo freireano não procura descobrir o pré-existente, o já pronto, coberto apenas pelo véu que o "ignorante" deve des-cobrir. O diálogo em Paulo se faz pela pergunta que requer reflexão, mas que jamais abandona a intuição sentida, a observação acurada, os sentimentos vividos e a emoção presente e exposta eticamente na busca da realidade que nós mesmos, seres humanos, vimos construindo há milênios.

O diálogo freireano procura desvelar a verdade que está na relação subjetividade-objetividade, nunca na objetividade mecanicista ou na subjetividade delirante do subjetivismo - ambas alheias à história do momento das perguntas que precisam ser feitas, que trazem, portanto, os conhecimentos e os mitos, as crenças e os valores do passado; os desejos e os afetos e os sonhos utópicos do presente preparando-nos para o futuro melhor e mais bonito.

O diálogo freireano não despreza a história humana, não despreza os sonhos que só nós, homens e mulheres, podemos realizar para um futuro intencionalmente projetado, contraditoriamente, no limite quase infinito que a história possibilita, e que leva dentro dele tudo que constitui o que de ontológico temos, enquanto seres que somos, ao irmos nos fazendo existência humana, forjando em nós mesmos a natureza ontológica própria e exclusiva dos homens e mulheres.

O diálogo freireano poderia ser imaginado como se fosse uma psicanálise do ego com o superego e com o id de cada um de nós mesmos, na busca de encontrar em si mesmo a possibilidade da humanidade que nos permite respeitar e ter cumplicidade com o Tu diferente do Eu, ou de se identificar, na sua própria existência, a existência própria do outro e da outra. Encontrar no outro e na outra a possibilidade de ir construindo uma história coletiva mais humana, transformando tudo que rouba a humanidade de cada um de nós, infelizmente possível pela capacidade da distorção da ética em antieticidade, cada dia mais comum em nossas sociedades. O diálogo em Paulo pretende uma arqueologia das possibilidades mais profundamente humanas dos seres humanos, voltada para o fazerem-se Seres Mais; do entender o mundo para transformá-lo num mundo de todos e todas, independentemente do gênero, da classe social, da idade, da etnia, da religião, da idade e de toda sorte de opções e de escolhas.

O diálogo freireano permite, portanto, a arqueologia do contexto contido no texto. Permite fazermos a arqueologia de nós mesmo, humanos, ao lermos o texto que se refere a um contexto. Assim, o diálogo em Paulo, é preciso que isto fique claro, não é uma simples conversa descompromissada, ou uma conversa sem um fim que não seja a preservação do mais ético que temos e devemos resguardar em nós mesmos. Diálogo é, assim, compromisso com a afetividade e a amorosidade, com a construção do saber e com a preservação da vida humana e das outras vidas do nosso planeta. Em outras palavras, é o compromisso com a ética a serviço da vida humana, mesmo que o diálogo esteja se dando também em torno da presença de outros elementos da natureza.

Como para Paulo não havia dicotomia, mas relação entre o ensinar e o aprender, a teoria e a prática, o senso comum e a ciência e a filosofia; também, para ele não poderia haver a leitura da palavra, ou do texto, desvinculada da leitura do mundo ou do contexto. Entre texto e contexto há uma conexão intrínseca, mediatizada pelo diálogo entre os seres humanos, que não permite que possa existir o diálogo fora daquela relação, isto é, fora da relação texto/contexto.

Texto falado ou escrito - criado na construção e constituição da existência humana - sem contexto são signos vazios dos significados que lhes atribuímos como subjetividade de sujeitos históricos que somos. Contexto sem texto nos remete aos primórdios de nossa animalidade, quando ainda nos fazíamos homens e mulheres; nega a objetividade concreta. Texto e contexto, quando não relacionados pelo diálogo entre os seres humanos, são coisas subjetivistas e objetivistas que dicotomizam o indicotomizável, a integridade dialética própria da existência humana.

O diálogo freireano é, portanto, o que se propõe a abrir as possibilidades de entender que só lemos um texto se formos lendo o contexto de quem o escreveu, relacionando-o com o nosso, o contexto de quem está lendo o texto. Fora dessa relação dialética vivencial, texto-contexto-diálogo, não pode haver a compreensão precisa, clara, verdadeira, nem das palavras pronunciadas ou escritas, nem do contexto do mundo que as palavras estão a se referir. Falta a dobradiça, a ligadura, a "alma" que produz tal compreensão; o diálogo prenhe de curiosidade, de dúvidas, de hipóteses, sem determinismos, sem arrogância, sem a prioris. Por isso, só o diálogo, como Paulo o concebeu, nos leva a ler o texto com relação ao contexto, e, em última instância, ao caminho da possibilidade da libertação.

Só o diálogo, como Paulo o entendeu, sério e rigoroso, nos impede das certezas estreitas e limitantes das interpretações do mundo e da Verdade, e nos introduz no complexo "mundo das possibilidades", dando as aberturas ao mundo da criação, da ousadia e da invenção. Só o diálogo freireano, sério e rigoroso, permite ler o texto lendo o contexto, repito mais uma vez.

Por tudo isso, é que o "Método de Alfabetização Paulo Freire", contido em sua compreensão crítica de educação, propõe ensinar a leitura do texto lendo o contexto histórico, a leitura da palavra ao lado da leitura do mundo. Esta dialeticidade implica, pois, na conscientização da realidade.

Precisei falar de Paulo pessoa, para falar de Paulo pensador, não para matar saudades ou para impingir a minha crença nele como pensador. Não havia outra maneira de falar sobre leitura, texto, contexto e diálogo a não ser falando também dele: porque nele se identificam pessoa/pensador/educador. Libertação, politicidade, eticidade e educabilidade

1Conferência proferida na abertura do III Encontro de Comunidades de Aprendizagem, organizado pelo Núcleo de Investigação e Ação Social e Educativa (Niase), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em setembro de 2010, com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Esta é a primeira versão escrita publicada do texto.

2Leiam o capítulo 22, Parte VI, do livro de minha autoria: Paulo Freire: uma história de vida. Indaiatuba: Villa das Letras, 2006; contemplado com o Prêmio Jabuti, 2007, 2º. Lugar na categoria "O Melhor Livro de Biografia".

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