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Revista Brasileira de Ciências do Esporte

versão impressa ISSN 0101-3289versão On-line ISSN 2179-3255

Rev. Bras. Ciênc. Esporte vol.42  Porto Alegre  2020  Epub 15-Maio-2020

http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2018.07.004 

ARTIGO ORIGINAL

Perfil sociodemográfico de praticantes de handebol em cadeira de rodas

David dos Santos Calheirosa  d 
http://orcid.org/0000-0002-4761-5569

Jorge Lopes Cavalcante Netob  e 
http://orcid.org/0000-0002-8396-2410

Flávio Anderson Pedrosa de Meloa  f  * 
http://orcid.org/0000-0001-8031-2052

Mey de Abreu van Munsterc 
http://orcid.org/0000-0003-2943-5967

aUniversidade Federal de São Carlos (UFScar), Programa de Pós-Graduação em Educação Especial, São Carlos, SP, Brasil.

bUniversidade Federal de São Carlos (UFScar), Programa de Pós-Graduação em Fisioterapia, São Carlos, SP, Brasil.

cUniversidade Federal de São Carlos (UFScar), Programa de Pós-Graduação em Educação Especial, São Carlos, SP, Brasil.

dUniversidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL), Maceió, AL, Brasil.

eUniversidade do Estado da Bahia (UNEB), Jacobina, BA, Brasil.

fInstituto Federal de Alagoas (IFAL), Palmeira dos Índios, AL, Brasil.

RESUMO

Objetivou-se caracterizar o perfil sociodemográfico de praticantes de handebol em cadeira de rodas (HCR) no Brasil. Trata-se de um estudo descritivo, feito com 105 sujeitos. Aplicou-se um questionário elaborado para o estudo, analisado através de estatística descritiva. Constatou-se que a maioria dos praticantes não exercia atividade laboral e tinha o ensino médio completo. Grande parte dos atletas praticou esportes durante a infância e antes da aquisição da deficiência. Contudo, seus treinamentos acontecem numa frequência inferior ao que se recomenda para esportes de rendimento. Conclui-se que o HCR ainda é um esporte em ascensão e executado de forma amadora no país e necessita de maior fomento.

Palavras Chave Deficiência; Esporte; Esporte adaptado; Educação física adaptada

ABSTRACT

The objective of this study was to characterize the socio-demographic profile of WCH players in Brazil. This is a descriptive study, carried out with 105 players. A questionnaire developed for the study was used and the answers were analyzed through the descriptive statistics. It was found that the most of players had no job and presented the full high school. Most of the players used to play sports during their childhood and before the acquisition of disability. However, their training sessions happens in a lower frequency than that recommended for sports performance. In conclusion, the WCH is still a sport on rising and it has been developing by amateur way in the country and needs further development.

Keywords: Disability; Sport; Sport adapted; Adapted physical education

RESUMEN

El objetivo fue definir el perfil sociodemográfico de los jugadores de balonmano en silla de ruedas (BSR) de Brasil. Se trata de un estudio descriptivo, feito con 105 individuos. Se aplicó un cuestionario elaborado para el estudio y las respuestas se analizaron mediante estadística descriptiva. Se constató que la mayoría de los jugadores no ejercía actividad laboral, había completado la enseñanza media, no tenía enfermedades y no hacía uso de un medicamento controlado. Gran parte de los jugadores practicaron deportes durante la infancia y antes de la adquisición de la discapacidad. Sin embargo, sus entrenamientos se producen con una frecuencia inferior a lo que se recomienda para el rendimiento deportivo. Se concluye que el BSR continúa siendo un deporte en ascenso que se juega de forma amateur.

Palabras Clave: Discapacidad; Deporte; Deporte adaptado; Educación física adaptada

INTRODUÇÃO

O handebol em cadeira de rodas (HCR) é uma modalidade esportiva adaptada praticada por pessoas com deficiência física recentemente sistematizada no Brasil (Calegari, 2010; Costa e Silva, 2011; Oliveira e Munster, 2013). Dois momentos distintos demarcam o início da modalidade no país: essa prática começou a ser desenvolvida, na década de 1990, com finalidades lúdicas e pedagógicas em projetos de extensão universitária na Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (FEF/Unicamp) (Itani et al., 2004). Posteriormente, o HCR passou a ser sistematizado como modalidade esportiva, de maneira que foram estabelecidos seus princípios, suas normatizações e suas regras, em 2005, inicialmente também no âmbito extensionista na Universidade Paranaense (Unipar) em Toledo-PR (Oliveira e Munster, 2013).

No meio acadêmico, o caráter recente dessa modalidade esportiva desencadeou a necessidade de estudos voltados para a prática do HCR no Brasil. Tais pesquisas abordaram desde a proposta de sua sistematização, por meio da tese de doutorado “Adaptação do handebol para a prática em cadeira de rodas” elaborada na Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (FEF/Unicamp) (Calegari, 2010), bem como a “Proposta de sistematização pedagógica e avaliação no handebol em cadeira de rodas”, dissertação de mestrado feita no Programa de Pós-Graduação em Educação Especial (PPGEEs) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Além do exposto acima, também foram feitos estudos voltados para a área da avaliação motora. Como exemplo tem-se a “Validação de uma bateria de testes de habilidades motoras para atletas de handebol em cadeira de rodas” feita na FEF/Unicamp (Costa e Silva, 2011) e estudos que abordaram e buscaram diretrizes para a elaboração de um sistema de classificação funcional para o HCR (Gatti, 2013).

Desde seu surgimento, tal modalidade tem sido praticada principalmente nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Tal afirmativa pode ser comprovada pelos estados onde têm se concentrado a maioria das competições desenvolvidas em âmbito nacional e estadual: Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro (ABRHACAR, in press). Destaca-se ainda o grande número de equipes cadastradas na Associação Brasileira de Handebol em Cadeira de Rodas (ABRHACAR) pertencentes a essas regiões. Das 25 equipes cadastradas, 19 (76%) se encontram nas regiões Sul e Sudeste (ABRHACAR, in press). A frequente promoção de campeonatos esportivos em nível estadual e nacional nessas regiões tem incrementado o número de equipes e ampliado o envolvimento de atletas na modalidade. Considera-se necessário fazer um diagnóstico do perfil dos praticantes de HCR no país, de forma a estimular a difusão da modalidade, incentivar a participação de novas equipes e fomentar estudos sobre o esporte em todo o país.

O HCR é uma modalidade esportiva adaptada em processo de desenvolvimento e expansão. Diante disso, tem-se evidenciado a necessidade de compreensão de aspectos relacionados aos seus praticantes, para a melhoria das condições de treinamento, bem como do aumento das possibilidades de prática e desenvolvimento dos atletas nas atividades esportivas (Samulski e Noce, 2002). O diagnóstico do perfil sociodemográfico e atlético dos atletas da modalidade poderá orientar a elaboração de planos de treinamento voltados para a preparação e o desempenho dos praticantes a partir de suas peculiaridades, bem como favorecer e subsidiar a promoção da saúde e do bem estar à população em questão.

Muito embora sejam feitas pesquisas acerca do HCR, até o momento não foram identificados estudos que busquem caracterizar o perfil sociodemográfico dos praticantes, aspecto esse fundamental para o desenvolvimento da modalidade.

Além disso, esse tipo de investigação poderá servir como base para novos estudos, sobretudo para pesquisas com características mais analíticas, nas quais é necessária a compreensão das particularidades da população em questão para o posterior aprofundamento nas variáveis estudadas.

Diante do exposto, o estudo tem como objetivo caracterizar o perfil sociodemográfico de praticantes de handebol em cadeira de rodas no Brasil.

MÉTODOS

Estudo de natureza qualitativa, do tipo descritivo.

Local

A pesquisa foi feita durante as segunda e terceira etapas do VII Campeonato Paulista de Handebol em Cadeiras de Rodas, nos municípios de Santo Antônio de Posse e Sorocaba, respectivamente. Além disso, também foram coletados dados durante o VII Campeonato Brasileiro de Handebol em Cadeiras de Rodas em Toledo (PR). Todas as competições ocorreram em 2015.

População/Amostra

A amostra do estudo foi de 105 participantes, de um universo de 119 que se fizeram presentes nas competições mencionadas. A seleção dos atletas fundamentou-se no critério de amostragem não probabilística, do tipo conveniência, levaram-se em consideração os seguintes critérios: ter deficiência física, ser do sexo masculino, praticar handebol em cadeira de rodas por um tempo mínimo de seis meses. Não compuseram a amostra deste estudo atletas com deficiência física que tinham outras deficiências associadas, tais como intelectual, visual, auditiva e múltipla e atletas que tinham adquirido a deficiência com um tempo inferior a 18 meses.

Instrumento de coleta de dados

O instrumento usado para coletar os dados foi o “Questionário sobre aspectos sociodemográficos e atléticos”, elaborado especificamente para o estudo, com dados pessoais dos atletas, estado civil, condições de moradia, renda média familiar, meios de transporte, condições de saúde, especificações da deficiência, iniciação esportiva, volume de treinos, participações em competições, entre outros aspectos. O instrumento foi composto por 35 questões fechadas e abertas. A aplicabilidade do instrumento foi devidamente atestada através de um estudo-piloto.

Procedimentos de coleta de dados

A presente pesquisa ocorreu após aprovação do Comitê de Ética da Universidade Federal de São Carlos (n° CAEE 47087515100005504), conforme orientação da Resolução do Ministério da Saúde 466/2012.

Inicialmente foi feito um contato com os diretores/técnicos dos clubes de handebol em cadeira de rodas, para apresentar a proposta da pesquisa. Todos os responsáveis pelos clubes autorizaram o estudo. O contato com os atletas ocorreu durante a segunda etapa do Campeonato Paulista de Handebol em Cadeira de Rodas. Quando abordados, foram esclarecidos quanto aos objetivos, métodos, benefícios previstos, potenciais riscos, garantia de anonimato, forma de participação, entre outros aspectos da pesquisa. Todos os atletas consentiram e assinaram voluntariamente o Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE).

O questionário foi aplicado de forma individual e autoadministrável. Nos casos em que os participantes tivessem dificuldades de leitura/compreensão do questionário e/ou por não ter destreza manual para assinalar as respostas, o pesquisador aplicou o instrumento em formato de entrevista. O tempo usado para responder os questionários variou entre cinco e 10 minutos.

Análise dos dados

Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva, com distribuição de frequências absolutas e relativas, médias e desvio-padrão. Os dados foram tabulados no programa Microsoft Office Excel 2010, em seguida transportados para o software Statistical Package for Social Sciences (SPSS®) versão 20,0 for Windows.

RESULTADOS

A média de idade dos atletas foi de 35,07 anos (± 9,45DP). A Tabela 1 expõe as características sociodemográficas desses atletas.

Tabela 1 Características sociodemográficas dos atletas de handebol em cadeira de rodas (n = 105) 

Variáveis N %
Estado Civil
Solteiro 47 47,7
Casado 45 42,8
Divorciado 07 06,7
Viúvo 01 01,0
Outros 05 04,8
Trabalha
Sim 47 44,8
Não 58 55,2
Renda familiar
<1 salário mínimo 14 13,3
Entre 1 a 3 salários mínimos 53 50,5
De 3 a 5 salários mínimos 26 24,8
De 5 a 8 salários mínimos 06 05,7
Acima de 10 salários mínimos 04 03,8
Não respondentes 02 01,9
Benefício do governo
Sim 50 47,6
Não 52 49,5
Não respondentes 3 02,9
Benefício específico do HCR
Sim 14 13,3
Não 89 84,8
Não respondentes 02 01,9
Escolaridade
Sem instrução 01 01,0
Ensino Fundamental incompleto 21 20,0
Ensino Fundamental completo 08 07,6
Ensino Médio incompleto 17 16,2
Ensino Médio completo 36 34,3
Superior incompleto 08 07,6
Superior completo 06 05,7
Pós-graduação completa 08 07,6
Origem da deficiência
Amputação 29 27,6
Lesão medular 29 27,6
Paralisia infantil 24 22,8
Paralisia cerebral 05 04,8
Outras 15 14,3
Não respondentes 03 2,9
Recursos de locomoção/mobilidade
Cadeira de rodas 49 46,9
Muletas 19 18,1
Muletas e próteses de MI 01 01,0
Próteses de MI 17 16,3
Outros 05 04,9
Não respondentes 14 12,8
Grau de independência
Depende do auxílio de uma pessoa 08 07,6
Parcial 31 29,5
Total 66 62,9
Praticava esporte durante a infância
Sim 62 59,0
Não 43 41,0
Praticava esporte antes da lesão
Sim 54 51,4
Não 51 48,6
Tempo de handebol
Menos de 1 ano 10 09,5
Mais de 1 ano 07 06,7
Mais de 2 anos 13 12,4
3 anos 21 20,0
Mais de 3 anos 52 49,5
Não respondentes 02 01,9
Pratica outra modalidade esportiva
Sim 58 55,2
Não 45 42,9
Não respondentes 02 01,9
De que tipo de competições de
handebol já participou
Estaduais 11 10,5
Nacionais 14 13,3
Estaduais e nacionais 57 54,3
Nacionais e mundiais 02 01,9
Estaduais, nacionais e mundiais 19 18,1
Não respondentes 2 01,9
Quantidade de treinos semanais
1 vez 31 29,5
2 vezes 39 37,1
3 vezes 30 28,6
4 vezes 03 02,9
Não respondentes 02 01,9
Quantidade de horas de treino
1 hora 05 04,8
2 horas 53 50,4
3 horas 28 26,7
4 horas 09 08,6
5 horas 08 07,6
Não respondentes 02 01,9
Possui cadeira de rodas esportiva
Sim 32 30,5
Não 73 69,5
Possui cadeira de rodas sob medida
Sim 66 62,8
Não 38 36,2
Não respondentes 01 01,0
Finalidade com o HCR*
Participação em competições esportivas 24 22,8
Promoção da saúde 68 64,7
Lazer 05 04,8
Convívio social 03 02,9
Não respondentes 05 04,8

Fonte: Elaboração própria (2017).

DISCUSSÃO

Em relação aos dados sociodemográficos, cabe destacar que a maioria dos atletas era solteiro (44,7%), não exercia atividade laboral (55,2%) e tinha o ensino médio como escolaridade máxima (34,3%). Observou-se também que a maioria (86,7%) dos atletas faz uso de recurso para locomoção/mobilidade, a cadeira de rodas é o dispositivo mais usado (46,9%).

Apesar de terem deficiência física, a maioria (62,9%) dos atletas de handebol destacou ter independência total na execução de suas atividades cotidianas. Contudo, eles (55,2%) não exerciam atividade laboral remunerada. Embora os praticantes de HCR sejam indivíduos com ampla funcionalidade e potencial físico, questiona-se o fato de não ocuparem postos de trabalho. Por outro lado, muitos atletas se mantêm financeiramente por meio de benefícios governamentais (47,6%). A renda de suas famílias gira em torno de um a três salários mínimos (50,5%).

Cabe destacar que esses achados são condizentes com os dados do Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Brasil, 2012), o qual revela que o quantitativo de pessoas com deficiência inseridas no mercado de trabalho ainda é significativamente inferior ao número de pessoas com deficiência em idade ativa no país, já que somente 47,72% das pessoas com deficiência aptas ao trabalho ocupavam postos de trabalho no Brasil em 2010.

Dados da mesma fonte (Brasil, 2012) também revelam que a população com deficiência ainda apresenta menor acesso à escolarização, quando comparada com a população sem deficiência. Contudo, os dados do presente estudo apontam que os atletas de HCR participantes da pesquisa conseguiram, em sua maioria, completar o ensino médio (34,3%), divergiram, em certa medida, da população geral com deficiência do país, uma vez que um grande contingente dessas pessoas com deficiência sequer conseguiu se alfabetizar.

Em 2010, na população com deficiência, 14,2% tinham o fundamental completo, 17,7% o médio completo e 6,7% o superior completo. A proporção denominada “não determinada” foi igual a 0,4%. Em 2010 havia, ainda, grande parte da população sem instrução e fundamental completo, 61,1% das pessoas com deficiência (Brasil, 2012, p. 17).

Acredita-se que o esporte adaptado tem o potencial de possibilitar maior aprimoramento cognitivo e acadêmico para seus praticantes. A Conferência de Consenso de Copenhagen, em sua declaração consensual, apresenta o acordo sobre os efeitos da atividade física na aptidão física, saúde, funcionamento cognitivo, envolvimento, motivação, bem-estar psicológico e inclusão social de crianças e jovens, além de apresentar estratégias de implantação educacional e de atividade física (Bangsbo et al., 2016). O documento destaca a especial importância da prática de atividades físicas bem elaboradas para crianças e jovens, traz benefícios não só à saúde e qualidade de vida, mas possibilita o desenvolvimento cognitivo.

De acordo com os pesquisadores participantes, indivíduos mais ativos apresentam melhor desenvolvimento ligado ao crescimento; capacidade intelectual; maior motivação; adquirem maior comprometimento; têm maior sensação de bem-estar; apresentam maior facilidade de inclusão social; e desenvolvem a autoestima (Bangsbo et al., 2016). Além dos aspectos citados, se considerarmos que as pessoas com deficiência, quando passam a praticar atividades físicas e esportivas, ganham maior independência para suas atividades cotidianas, logo se tornam mais objeto para as questões acadêmicas.

A origem da deficiência da maioria dos atletas participantes deste estudo se deve a lesão medular (27,6%) e amputação (27,6%), seguidos da paralisia infantil (22,8%), paralisia cerebral (04,8%) e outras causas (14,3%). O estudo feito por Castro et al. (2010) com dados de inquéritos epidemiológicos feitos no Estado de São Paulo apontam para essa tendência, já que os resultados sobre a causa/origem da deficiência física dos participantes da pesquisa indicam as paralisias e perdas de membros, devido a causas externas, como as principais responsáveis pela deficiência física entre os indivíduos do sexo masculino.

Apesar de a literatura assinalar que muitas das causas de deficiência física presentes entre atletas de HCR são extremamente incapacitantes (Brito et al., 2011; Castro et al., 2010), esses sujeitos conseguiram superar os níveis de intensidade de apoio advindos da deficiência e se inserir em práticas esportivas de extrema exigência física, como o handebol em cadeira de rodas (Melo e Munster, 2013). Os contextos esportivos favorecem a construção da identidade social da pessoa com deficiência, as façanhas no esporte podem ajudá-la a perceber que os estereótipos predominantes em torno da deficiência não são representações precisas de suas capacidades (Groof e Kleiber, 2001).

Além disso, muitos dos sujeitos que compuseram a amostra do presente estudo estão inseridos em outras modalidades esportivas (55,2%), além do HCR, o que permite inferir que o esporte adaptado é um elo importante na superação da deficiência, faz com que os atletas se sintam ativos, motivados e funcionais e que tomem para si a identidade de seres humanos competentes, e não incapazes (Brazuna e Castro, 2001).

Além disso, foi possível verificar que a maior parte (59%) dos atletas teve oportunidade de praticar esportes durante a infância. Ademais, verificou-se também que parte (51,4%) dos atletas já praticava esporte antes da aquisição da deficiência. Tais informações demonstram que a maior parte (59%) dos participantes do estudo passou por um processo de iniciação ao esporte durante sua infância. No entanto, não são todos os adultos que tiveram a oportunidade de passar por um processo de iniciação ao esporte quando crianças, sobretudo adultos com deficiência.

As pessoas com deficiência têm em sua maioria poucas oportunidades de se movimentar, jogar e/ou praticar esportes, quer seja no ambiente escolar ou em outros locais (Busto et al., 2009). As crianças e os jovens com deficiência física, na maior parte dos casos, não são encorajadas a levar uma vida ativa e de fato tendem a adotar um estilo de vida sedentário, devido a barreiras como superproteção, medo do fracasso, bullying, entre outros fatores que impedem suas participações em atividades físicas (Longmuir e Bar-or,2000; Moran e Block, 2010; Shapiro e Martin, 2010; Melo,2014).

Em relação ao processo de iniciação, Arena e Bohme, 2000 Arena e Bohme (2000) ressaltam a importância de considerar aspectos como a faixa etária mais adequada para se iniciar uma modalidade específica, os subsídios para a elaboração de programas de iniciação adequados à idade, bem como considerar as tradições de cada país, assim como as características do esporte praticado.

Embora o tempo de prática informado pelos atletas de HCR tenha variado, a maior parte (49,5%) já participava de treinos da modalidade havia mais de três anos. A frequência dos treinos ocorre uma (29,5%) ou duas vezes (37,1%) por semana, entre duas (50,4%) ou três (26,7%) horas. Por meio dos dados de tempo de dedicação semanal implica dizer que esses atletas ainda treinam em uma frequência e duração inferior ao que é recomendado pela literatura para periodização esportiva coletiva, como acontece no handebol convencional (Gomes, 2002). Vale destacar que o esporte tem demandas fisiológicas de treino intermitente (Eleno et al., 2002), além da preparação técnica e tática necessárias ao rendimento de seus praticantes. Ademais, o volume de treino constatado é insuficiente para preparar esses atletas para um verdadeiro nível de alto rendimento esportivo, assim como o fato de se dedicarem de forma amadora ao esporte.

A maior parte dos atletas participou de competições estaduais e nacionais (54,3%) e poucos foram os que tiveram oportunidade de participar de competições em nível internacional (01,9%). Muitas vezes, os atletas já praticam a modalidade esportiva havia anos e nunca conseguiram participar de competições internacionais, devido às dificuldades encontradas. Dentre as principais dificuldades para a promoção do esporte adaptado é comum a falta de apoio de patrocinadores, bem como a dificuldade de implantação das políticas governamentais existentes para o desenvolvimento de esportes no país, principalmente nas esferas estaduais e municipais, além da falta de acessibilidade dos transportes públicos (Melo e Fumes, 2013; Andrade, 2015).

Alguns estudos buscaram compreender melhor as ações existentes direcionadas para a promoção de programas físico-esportivos e de lazer em municípios brasileiros, as características da população atendida, dos programas físico-esportivos existentes e das ações públicas que os sustentam (Andrade, 2015; Melo e Fumes, 2013), das articulações intersetoriais e o papel da universidade nesse contexto (Andrade, 2015). Além de buscarem identificar os planos e ações existentes no âmbito do esporte e lazer voltados para pessoas com deficiência (Munster e Almeida, 2016).

Tais estudos demonstram a existência de programas esportivos voltados para pessoas com deficiência (Andrade, 2015; Melo e Fumes, 2013; Munster e Almeida, 2016), ainda que tais programas sejam desenvolvidos por modalidades específicas e que esteja clara a fragilidade na articulação das secretarias e serviços (Andrade, 2015; Munster e Almeida, 2016), bem como do planejamento e da existência de políticas públicas específicas (Melo e Fumes, 2013). No entanto, é ainda tímida a participação e o envolvimento de pessoas com deficiência, nas questões políticas e de práticas esportivas, sobretudo o público feminino e infantil.

Torna-se relevante destacar que, ainda que existam políticas destinadas à prática de esportes para pessoas com deficiência, as quais têm possibilitado resultados excelentes, tornado possível a iniciação e prática esportiva, a exemplo da bolsa-atleta paraolímpico, clube escolar paraolímpico, lei de incentivo ao esporte, lei Agnelo Piva, encontram-se em sua maioria destinadas aos esportes paraolímpicos.

Compreende-se que o esporte adaptado abrange todas as formas de esporte para pessoas com deficiência, independentemente de a que megaevento esse se encontra ligado (Paralypic Games, Special Olympics, DeafLympics, entre outros). Portanto, todo esporte paraolímpico é um esporte adaptado, mas nem todo esporte adaptado é um esporte paraolímpico. Logo, acredita-se na necessidade de maior entusiasmo para desenvolvimento das modalidades esportivas adaptadas em geral, inclusive as independentes, com vistas a possibilitar maiores opções de prática para pessoas com deficiência, bem como fomentar o potencial paraolímpico delas.

O fato de o HCR não ser ainda um esporte paraolímpico vinculado às entidades promotoras de esportes paraolímpicos e a dificuldade existente para implantação das políticas para fomento do esporte nas esferas municipais e estaduais dificultam o seu desenvolvimento no país, impossibilitam a promoção e o surgimento de novas equipes em todas as regiões do Brasil; inviabilizam o fortalecimento de competições estaduais, bem como o apoio às equipes para sua participação nas competições nacionais. Diante do exposto, vale ressaltar que uma parcela mínima dos atletas participantes do estudo recebia benefícios orçamentários específicos do HCR (13,3%).

A maior parte dos atletas não tem cadeira de rodas esportiva própria (69,5%), por esse motivo usava as que pertenciam aos clubes. Apesar disso, muitos praticantes usavam cadeiras confeccionadas sob medida (62,8%). A cadeira de rodas esportiva é mais do que um dispositivo de locomoção, necessita ser prescritas para atender às necessidades (físicas e funcionais), aos anseios e à personalidade de cada usuário (Batavia et al., 2001; Carvalho, 2006; Melo, 2014). Embora as cadeiras de rodas esportivas tenham grande importância para os praticantes de esportes dessa natureza, nem sempre é possível adquiri-las, uma vez que têm alto custo e a insuficiência de fomento impede a aquisição.

A maior parte dos praticantes relatou que sua finalidade para prática do HCR é a promoção da saúde (64,7%), seguida da participação em competições (22,8%) e do lazer (4,8%). Portanto, pode-se dizer que, embora esses sejam praticantes de um esporte de rendimento, e de sua participação no estudo ter acontecido em meio a um contexto competitivo, outras finalidades têm sido associadas com mais vigor, em especial o cuidado com a saúde. Nesse sentido, o esporte adaptado pode abranger finalidades pedagógicas, recreativas, competitivas e terapêuticas (Munster e Almeida, 2010). Assim, nada impede que dentro de uma mesma equipe existam pessoas com intenções distintas para a prática esportiva e possivelmente com mais de uma finalidade.

Como limitação do estudo, cabe destacar o uso de um questionário não validado. Apesar da importância do uso de instrumentos de pesquisas validados e específicos para o contexto investigado, a população de interesse deste estudo apresenta características correspondentes ao perfil sociodemográfico ainda pouco investigado. Todos os itens presentes no questionário foram devidamente pensados e elaborados a partir de várias discussões junto ao grupo de pesquisa ao qual este estudo é vinculado. Adicionalmente, um estudo-piloto foi conduzido e permitiu atestar a aplicabilidade desse instrumento junto à população-alvo.

CONCLUSÃO

Este estudo é pioneiro em caracterizar os atletas de HCR de equipes brasileiras. Foi possível identificar informações importantes acerca dos dados sociodemográficos desses sujeitos, com fins de ampliar a literatura da área e possibilitar uma descrição detalhada da modalidade esportiva em questão. De maneira específica, a análise dos dados permite concluir que determinadas ações devem ser priorizadas para que o handebol em cadeira de rodas possa impactar na área esportiva: 1) Haver uma periodização maior no treinamento do HCR, a fim de preparar os atletas com vistas a atuar em um esporte de alto rendimento; 2) Formular e/ou reforçar as políticas governamentais com atenuantes para modalidades independentes, a exemplo do HCR, e promover maior acesso à população dessa modalidade; 3) Participação mais contundente do comitê paraolímpico na estruturação e no financiamento das modalidades esportivas adaptadas com potencial paraolímpico; 4) Difundir o handebol em instituições que trabalhem com pessoas com deficiência física, como em contextos de reabilitação, educacionais e de lazer, cujo intuito é conquistar mais adeptos para o esporte. Por fim, infere-se que este estudo oferece uma importante fonte de análise para futuros estudos no campo do esporte adaptado no Brasil, levanta indicativos das lacunas de pesquisas a serem feitas.

FINANCIAMENTO

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

REFERÊNCIAS

ABRHACAR - Associação Brasileira de Handebol em Cadeira de Rodas. Disponível em: https://www.abrhacar.com.br/. [ Links ]

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Recebido: 28 de Fevereiro de 2018; Aceito: 04 de Julho de 2018

* Correspondence author: Flávio Anderson Pedrosa de Melo E-mail: flavioedf06@yahoo.com.br

CONFLITOS DE INTERESSE

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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