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Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul

versão impressa ISSN 0101-8108

Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul v.28 n.1 Porto Alegre jan./abr. 2006

https://doi.org/10.1590/S0101-81082006000100012 

CARTA AOS EDITORES

 

Alteração da sensopercepção por uso inadequado de zolpidem

 

Alteración de la sensopercepción por uso inadecuado de zolpidem

 

 

Felipe Filardi da Rocha

Médico, Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG. Residente de Psiquiatria, Hospital das Clínicas da UFMG, Belo Horizonte, MG

Correspondência

 

 

Prezado editor,

O uso de indutores do sono está cada vez maior, ocorrendo, muitas vezes, abuso e automedicação. Baseando-se no artigo "Tolerância ao fenômeno alucinatório induzido pelo zolpidem: relato de caso" (Rev Psiquiatr RS. 2005;27(3):319-22), relata-se um caso de alteração da sensopercepção secundária ao uso inapropriado de zolpidem em jovem do sexo feminino.

W., 26 anos, estudante de medicina. Em uma noite, por não estar "conseguindo dormir", resolveu tomar meio comprimido (5 mg) de zolpidem do seu namorado, que estava em tratamento psiquiátrico por transtorno de ansiedade (citalopram 20 mg/dia e zolpidem 10 mg/dia). Aproximadamente 20 minutos após o uso, começou a "sentir" que havia uma pessoa no quarto, perto da sua cama. Achou "curiosa" a sensação, pois, apesar de não estar vendo ninguém, tinha certeza da presença de um homem "pelo quarto". Durante o ocorrido, que durou aproximadamente 5 minutos, não ocorreram outras alterações. No dia seguinte, W. se recordava perfeitamente da vivência da noite passada, comentando o fato com seu namorado. Após 2 dias, utilizou novamente 5 mg da medicação. Voltou a ter a sensação de que havia um homem em seu quarto, apresentando um fenômeno alucinatório com duração de "mais ou menos uns 5 segundos". Relata que, após ter visto "um vulto passando ao seu lado", presenciou a figura de um homem negro, vestindo uma enorme capa preta com detalhes vermelhos, parado na lateral da sua cama. Recorda da experiência de uma forma muito espontânea, como se realmente tivesse encontrado uma pessoa durante a noite, mas manteve a crítica em relação ao fenômeno - "Parecia verdade, mas sabia que não era. (...) Não tive medo, nem fiquei preocupada. Sabia que ia passar, por isso, acabei dormindo após uns minutos". W. não voltou a tomar a medicação, apesar de dizer que não teria receio em usá-la novamente. Para as duas situações, a paciente negou sonolência e sedação, estando, conseqüentemente, orientada auto e alopsiquicamente. Não fazia uso de outros fármacos ou apresentava condições médicas subjacentes.

O caso apresentado complementa o artigo citado, devido aos poucos relatos de alucinações secundárias ao uso de zolpidem, ressaltando-se as seguintes características da paciente em questão: forte nexo das alterações sensoperceptivas com o uso da droga; dose utilizada pela paciente (5 mg), que, segundo a literatura, não é a usual nos casos descritos; nível de consciência adequado, excluindo, a princípio, a possibilidade de distorções hipnagógicas; ausência de outras condições médicas associadas e uso de medicações que poderiam estar relacionados ao fenômeno.

Concluindo, fica registrado um efeito adverso pouco descrito do zolpidem, hipnótico intensamente receitado. Novos trabalhos se tornam necessários, com o intuito de esclarecer a incidência e a fisiopatologia desse e de outros efeitos colaterais observados na prática clínica e descritos em revistas especializadas.

 

 

Correspondência:
Felipe Filardi da Rocha
Rua Sapucaia, 83, Condomínio Retiro das Pedras
CEP 30140970 - Belo Horizonte - MG
E-mail: fil_bh@yahoo.com.br

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