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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.51 n.6 Belo Horizonte Dec. 1999

https://doi.org/10.1590/S0102-09351999000600007 

COMUNICAÇÃO

(Communication)

Diagnóstico ecodopplercardiográfico da fibrose crônica da válvula mitral em cão

(Echodopplercardiographic diagnostic of mitral chronic valvular fibrosis in dog)

 

R.A.L. Muzzi1, L.A.L. Muzzi1, R.B. Araújo2, J.L.B. Pena3 , R.B. Nogueira1

1Departamento de Medicina Veterinária – UFLA – Campus Universitário
Caixa Postal 37
37200-000 - Lavras, MG
2Prof. Adjunto – Escola de Veterinária da UFMG
3Médico Cardiologista, Hospital Felício Rocho - BH

 

Recebido para publicação em 6 de abril de 1999.
ralmuzzi@ufla.br 
Apoio Financeiro: FAPEMIG

 

 

A fibrose crônica da válvula mitral (FCVM), também conhecida como degeneração mixomatosa ou endocardiose valvar mitral crônica, é uma das alterações cardíacas de maior prevalência em cães. Histopatologicamente, a incidência da FCVM aumenta com a idade, tendo sido descrita em 5% dos cães com menos de um ano de idade, aumentando para cerca de 75% naqueles com idade superior a 12 anos (Buchanan, 1977). Relata-se maior freqüência nos machos, sendo as raças em que a doença mais ocorre as de pequeno porte e miniaturas, tais como Poodle Toy e Miniatura, Schnauzer Miniatura, Chihuahua, Pinscher, Fox Terrier, Boston Terrier, Cocker Spaniel Inglês e Americano, Whippet e Cavalier King Charles Spaniel (Buchanan, 1977; Thrusfield et al., 1985; Atkins, 1995; O’Grady, 1995; Pedersen et al., 1996; Häggström et al., 1997).

A ecodoplercardiografia é o exame complementar não-invasivo mais importante no diagnóstico da FCVM. Por meio dos modos bidimensional, M e Doppler determina-se de forma precisa a anatomia das cúspides, detectando-se o espessamento da válvula, assim como o diagnóstico precoce naqueles casos assintomáticos, sem sinais clínicos de insuficiência cardíaca congestiva (Kittleson et al., 1984; O'Grady, 1995). Nos quadros iniciais da FCVM, os animais podem ser assintomáticos, devido aos mecanismos compensatórios, e somente com o avançar da idade e progressão da degeneração valvar é que o sopro torna-se evidente e há o desenvolvimento de insuficiência cardíaca congestiva esquerda. Os quadros de insuficiência cardíaca congestiva grave, com surgimento repentino, estão relacionados com desenvolvimento de fibrilação atrial, ruptura de cordoalha tendínea ou ruptura do átrio esquerdo (Thrusfield et al., 1985; Darke et al., 1996).

O objetivo deste trabalho é relatar o exame ecodopplercardiográfico no diagnóstico da fibrose crônica da válvula mitral (FCVM) em um cão, uma vez que diagnosticando corretamente essa alteração é possível instituir medidas terapêuticas adequadas. Considerando que a FCVM é uma doença freqüente, é importante conhecer métodos de diagnóstico eficientes como a ecocardiografia, ainda pouco difundida no Brasil.

Um cão macho da raça Poodle Miniatura, com 10 anos de idade, pesando 3kg, foi atendido no Hospital Veterinário da UFMG, com histórico de tosse noturna, intolerância ao exercício, cansaço, perda de apetite e emagrecimento há cerca de três meses, sendo que nos últimos dias os episódios de tosse exacerbaram-se e tornaram-se freqüentes, com o aparecimento de síncope.

Após a realização de exame clínico geral e cardiovascular, foi constatada a presença de cardiopatia, com quadro de insuficiência cardíaca congestiva e edema pulmonar. Foi realizado exame ecodopplercardiográfico (Aparelho Ecodopplercardiográfico Fukuda 5800 - Panamedical Sistemas Ltda), modos bidimensional, M e doppler, segundo recomendações de Thomas et al. (1993).

O diagnóstico mais provável foi de fibrose crônica da valvula mitral, devido à idade, porte, sexo e sintomatologia clínica presentes neste animal. Todos estes dados são descritos também por Thrusfield et al. (1985), Ettinger (1992), Atkins (1995) e O’Grady (1995).

Ao exame clínico, foram observados tosse freqüente, mucosas oral, conjuntival e peniana pálidas, tempo de perfusão capilar superior a dois segundos, sopro holosistólico intenso à ausculta no ápice esquerdo, irradiando-se craniodorsalmente para o hemitórax direito e crepitações à ausculta pulmonar. Para Ettinger (1992), Rubin (1992) e O’Grady (1995), a tosse pode ser devida ao aumento progressivo do átrio esquerdo, que se eleva e pressiona o brônquio principal esquerdo. Buchanan (1977), Ettinger (1992), Atkins (1995) e O’Grady (1995) relatam que todos esses sinais clínicos são similares nas raças predispostas, e que a gravidade pode variar com o avançar da idade.

O exame ecodopplercardiográfico foi conclusivo, confirmando o diagnóstico de FCVM. No modo bidimensional, observou-se espessamento acentuado da cúspide septal e, em menor grau, da cúspide parietal da valva mitral, dilatação do anel valvar e aumento considerável do átrio esquerdo (Fig. 1, 2 e 3). Kienle & Thomas (1995) e Atkins (1995) consideram esses achados como os mais precoces e consistentes dessa alteração.

 

 

 

 

 

 

No modo M verificou-se hipercinesia das paredes do ventrículo esquerdo, sugerindo diminuição da pós-carga ventricular devido à ejeção no átrio esquerdo. Kittleson et al. (1984), Kienle & Thomas (1995) e O’Grady (1995) relatam que estes achados são explicados pela regurgitação mitral, em que parte do volume ejetado pelo ventrículo retorna para o átrio esquerdo, reduzindo o volume do ventrículo esquerdo e conseqüentemente uma contração mais fácil que a normal. Descrevem ainda que a função miocárdica tende a ser preservada até que o curso da doença se prolongue, passando a apresentar falência miocárdica e sinais de insuficiência cardíaca congestiva. Outro fator importante é a relação diâmetro interno do átrio esquerdo na sístole com o diâmetro da raiz da aorta na diástole (AEs/AOd) que Kienle & Thomas (1995) e Häggström et al. (1997) citam ser um bom índice para diagnóstico do aumento atrial esquerdo. Segundo Henik (1995), a relação AEs/AOd em um cão normal encontra-se em torno de 1,0. Neste relato foi observada uma relação aumentada (1,9), comprovando o aumento do átrio esquerdo.

No modo Doppler do fluxo mitral, constatou-se a presença de onda A maior que onda E e ainda presença de uma onda de regurgitação após o clic de fechamento valvar, localizado abaixo da linha base do gráfico. Para Kienle & Thomas (1995), essa alteração na onda A é explicada pela dilatação do átrio esquerdo, o qual ao contrair-se, ejeta um volume maior no ventrículo esquerdo. Descrevem ainda que a onda de regurgitação é a representação gráfica da velocidade das hemácias que retornam para o átrio esquerdo no momento da sístole ventricular, devido à valva defeituosa.

Foi prescrita terapia oral à base de digoxina (Digoxina - Wellcome-Zeneca Ltda) (0,2mg/kg2 q12h), enalapril (Eupressin - Biosintética Ltda) (0,25mg/kg q24h), furosemida (Lasix - Hoechst S.A). (4,0mg/kg q12h) e dieta hipossódica (Ração CNN - CV fórmula - Purina Nutrimentos Ltda), como sugerido por Opie (1995) e Keene & Bonagura (1995). Após um período de sete dias foi constatada melhora do quadro clínico. O animal foi reavaliado clinicamente e a prescrição de furosemida foi alterada para 2,0mg/kg q24h. Exames clínicos trimestrais foram realizados para avaliação da evolução da doença e acompanhamento da terapia instituída. Keene & Bonagura (1995) relatam que nos quadros de regurgitação mitral apresentando sinais de insuficiência cardíaca congestiva, como intolerância ao exercício, tosse e edema pulmonar, é indicada terapia com todas essas drogas, que podem ser efetivas na redução do tamanho do átrio esquerdo e da congestão pulmonar, e conseqüentemente dos episódios de tosse secundários à regurgitação mitral crônica. Citam ainda que, com a melhora da insuficiência cardíaca congestiva, constatada pela ausência ou diminuição do edema pulmonar durante o exame clínico, a dose do diurético pode ser reduzida ou mesmo interrompida. Dessa forma, como nos exames clínicos trimestrais subseqüentes, foi observada estabilização do quadro, pois o animal se mantinha sem sinais de congestão, edema pulmonar e tosse, apenas com o sopro à ausculta do ápice esquerdo, a dose do diurético foi reduzida e demais prescrições mantidas.

Palavras-chave: Cão, fibrose crônica da válvula mitral

 

ABSTRACT

A ten year-old male Poodle dog, weighing 3kg, was referred to the Veterinary Hospital of UFMG due to nocturnal coughing, exercise intolerance, weakness and weight loss. Physical examination revealed pale mucous membranes, prolonged capillary refill time, holosystolic regurgitant murmur at left apex and signs of congestive heart failure. M-mode, two-dimensional, and Doppler echocardiography revealed mitral chronic valvular disease

Keywords: Dog, mitral chronic valvular disease

 

 

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