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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.53 n.1 Belo Horizonte fev. 2001

https://doi.org/10.1590/S0102-09352001000100010 

Histomorfometria e função da tireóide de frangos de corte após ingestão por curto período de toxina T-2 de Fusarium sporotrichioides

[Histomorphometric and functional analysis of the thyroid from broiler chicks after short-term exposure to the Fusarium sporotrichioides T-2 toxin]

 

M.A. Rachid, V.A. Nunes*, R. Serakides, J.A.F.B. Nascimento

Escola de Veterinária da UFMG
Caixa Postal 567
30123-970 - Belo Horizonte, MG

 

Recebido para publicação em 1 de junho de 2000.
*Autor para correspondência
E-mail: vera@vet.ufmg.br
Apoio financeiro: FAPEMIG, CNPq. Trabalho do Núcleo de Estudo em Patologia da Nutrição (NEPAN).

 

 

RESUMO

Determinaram-se a histomorfometria e a função da tireóide de frangos de corte após ingestão de toxina T-2 de Fusarium sporotrichioides, veiculada na ração por curto período. Foram utilizados 30 pintos da linhagem Hubbard, todos machos e com um dia de idade, distribuídos ao acaso em dois grupos. O grupo tratado recebeu ração contaminada com 2,64 mg/kg de toxina T-2 e o grupo controle, ração livre de qualquer toxina. Cinco animais de cada grupo foram sacrificados aos 7, 14 e 21 dias após o início do tratamento, momentos em que foram colhidos plasma para dosagem de tiroxina livre e tireóides para avaliação histomorfométrica. As tireóides dos frangos do grupo tratado sacrificados aos 7 e 14 dias apresentaram prevalência de folículos pequenos com epitélio baixo, confirmada pela morfometria. Aos 21 dias acentuaram-se as diferenças com o grupo controle, observando-se três tireóides com características de bócio parenquimatoso e duas com bócio colóide. O nível sérico de tiroxina livre no grupo tratado foi significativamente menor, mas apenas aos 14 dias. Conclui-se que a toxina T2 é agente potencialmente bociogênico, capaz de alterar a histomorfometria da tireóide e os níveis plasmáticos de tiroxina e se ingerida por curto período de tempo e em doses reduzidas permite à tireóide manter seu estado de eutireoidismo.

Palavras chave: Frango de corte, toxina T-2, Fusarium sporotrichioides, tireóide

 

ABSTRACT

Thyroids from broiler chicks fed Fusarium sporotrichioides T-2 toxin were morphometrically and functionally analyzed. Thirty male Hubbard broiler chicks (one day old) were randomly divided into two groups. One group received contaminated food and the other group was used as control. Five animals from each group were killed at 7, 14, and 21 days after the beginning of the experimental treatment. The thyroids were sampled for histomorphometric evaluation and plasma was collected to determine the levels of free thyroxin. The thyroids from treated animals at 7 and 14 days showed predominance of small follicles with flatter epithelium, which was confirmed by morphometry. The differences between groups were more pronounced at 21 days, when three thyroids showing features of parenchymatous goiter and two thyroids showing features of colloid goiter were observed. The treated animals showed significantly reduced levels of free thyroxin only at 14 days. In conclusion, T-2 toxin can potentially induce goiter, which is associated with histomorphometric changes in the thyroid and decrease in the levels of free thyroxin. However, the thyroid can keep euthyroidism after a short-term exposure to T-2 toxin at low doses.

Keywords: Broiler chick, T-2 toxin, Fusarium sporotrichioides, thyroid gland

 

 

INTRODUÇÃO

A toxina T-2 pertence a um grupo de micotoxinas, os tricotecenos, produzido por fungos do gênero Fusarium (Baldissera et al., 1992). Os tricotecenos são toxinas veiculadas principalmente pelo consumo de milho contaminado e provocam, nas aves, diminuição do ganho de peso e da velocidade de crescimento (Wyatt et al., 1973; Joffe & yagen, 1978; Hoerr et al., 1982).

Embora alguns tricotecenos já tenham sido incriminados como causadores de discondroplasia tibial (Walser et al., 1982), nenhuma referência é feita à toxina T-2 como agente de alteração do crescimento ósseo, exceto por alguns trabalhos recentes (Rachid et al., 1997; Nascimento, 2000).

Postula-se que a toxina T-2 atue diretamente sobre o osso, alterando o crescimento endocondral e conduzindo à discondroplasia tibial (Rachid et al., 1997). No entanto, também existem evidências de que ela altera a síntese de tireoglobulina (Middlesworth, 1986), o que a incrimina como um agente bociogênico (Langer & Michajlovskij, 1992). Esse fato conduz à suspeita de que seu efeito sobre a tireóide torne secundárias as alterações do crescimento ósseo, pela diminuição dos níveis plasmáticos dos hormônios tireoidianos, necessários para a diferenciação e maturação das células cartilaginosas da placa epifisária (Lebovitz & Eisenbarth, 1975; Haynes et al., 1985; Willians et al., 1998).

Apesar das alterações ósseas compatíveis com a discondroplasia tibial já terem sido induzidas, em aves, após curto período de ingestão da toxina T-2 (Rachid et al., 1997), não existem estudos que avaliem a tireóide de animais após sua ingestão, pelo mesmo período experimental. Assim, o objetivo deste trabalho foi determinar a histomorfometria e a função da tireóide de frangos de corte, após a ingestão por curto período de tempo de toxina T-2 de Fusarium sporotrichoides.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados 30 pintos de um dia de idade, da linhagem Hubbard, todos machos, distribuídos ao acaso em dois grupos: controle e tratado, com 15 animais por grupo. Os pintinhos foram submetidos ao esquema usual de vacinação e alojados, por sorteio, nas gaiolas centrais de seis baterias, providas de comedouro linear, bebedouro de pressão e fonte de aquecimento, numa lotação de cinco animais por gaiola.

A ração básica (Tab.1), fornecida ad libitum, constava de ração inicial à base de milho e soja, formulada para atender as exigências de frangos de corte até 21 dias de idade (Rostagno, 1996). A matéria-prima usada foi previamente avaliada para a pesquisa de contaminantes biológicos e de micotoxinas. Para o grupo tratado todo o milho da formulação foi substituído por milho contaminado contendo apenas toxina T-2, de Fusarium sporotrichoides, na concentração de 2,64 mg/kg.

 

 

Cinco animais de cada grupo foram submetidos a exame pós-morte aos 7, 14 e 21 dias de idade. O sangue heparinizado, obtido por punção cardíaca, foi centrifugado e o plasma obtido estocado a –20ºC até a feitura da análise hormonal. À necropsia, as tireóides foram colhidas e fixadas em formalina neutra e tamponada a 10%, processadas pela técnica rotineira de inclusão em parafina e coradas pela técnica de hematoxilina-eosina (Luna, 1968). As secções histológicas foram examinadas ao microscópico óptico e submetidas à análise morfométrica.

Em cada glândula, com auxílio de ocular micrométrica e objetiva de 100x, foi determinada a altura do epitélio de 50 folículos em quatro pontos distintos, obtendo-se o valor médio das quatro medidas. Às médias foi aplicado um fator de correção, obtido pela escala de uma lâmina micrométrica.

A dosagem plasmática de tiroxina livre foi realizada pela técnica da quimioluminescência, segundo protocolo do fabricante do kit comercial (Access Imunoassay System Sanofi Diagnostics Pasteur Inc., Chaska, MN, USA.).

O delineamento experimental foi o inteiramente ao acaso, em esquema fatorial 2´3 (grupo ´ período). Para cada variável estudada foram determinadas a média e o desvio-padrão. A verificação da significância da diferença entre as médias foi realizada pela análise de variância, com comparação das médias pelo teste t de Student (Sampaio, 1998).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

No grupo controle, independente do período experimental, todas as tireóides apresentavam morfologia dentro dos padrões de glândulas histologicamente normais. Os folículos eram mais ou menos esféricos, de tamanhos variados, preenchidos por colóide com densidade também variável e revestidos, na sua maioria, por células cuboidais baixas (Fig.1). No grupo tratado as alterações foram discretas, aos 7 e 14 dias, sendo que em algumas glândulas havia prevalência de folículos pequenos com altura epitelial mais baixa do que no grupo controle (Fig.2). Essa observação foi confirmada pela morfometria que detectou altura do epitélio folicular significativamente menor no grupo tratado, aos 7 dias (P £ 0,05) (Tab.2).

 

 

 

 

Aos 21 dias, todas as tireóides do grupo tratado apresentavam alterações histológicas significativas em relação àquelas dos demais períodos e às glândulas do grupo controle. No entanto, havia nesse mesmo grupo variação do padrão morfológico. Em três tireóides, o quadro histológico era de bócio parenquimatoso, caracterizado por grande quantidade de folículos pequenos e disformes e de aglomerados de células foliculares desprovidos de lúmen. Os folículos eram revestidos por células cuboidais altas (Fig.3) às vezes com citoplasma vacuolizado; o número de figuras de mitose era elevado e o colóide apresentava-se muito escavado. Em uma dessas tireóides, a hipertrofia e hiperplasia do epitélio folicular eram menos intensas. Nas duas outras tireóides, vários folículos apresentavam diâmetro aumentado e estavam revestidos por uma única camada de epitélio pavimentoso e lúmen preenchido por grande quantidade de colóide pouco escavado, caracterizando bócio colóide. Alterações histológicas semelhantes foram observadas por Glávits et al. (1983) e por Hoerr et al. (1992), pela ação de tricotecenos.

 

 

A despeito dessas variações de morfologia, as diferenças morfométricas não foram estatisticamente significativas com o período anterior e mesmo com o grupo controle (Tab.2). É provável que aos 21 dias a variação morfológica dentro do próprio grupo tenha influenciado os dados morfométricos, elevando o desvio-padrão da amostra (Tab.2).

Vánnyi et al. (1994) atribuem a presença de folículos dilatados, hiperplasia e hipertrofia do epitélio folicular à disfunção hormonal causada pela toxina. No presente trabalho, apesar de o nível plasmático de tiroxina livre do grupo tratado aos 14 dias ter sido significativamente menor (P £ 0,05), aos 21 dias, ele se equivaleu ao do grupo controle (Tab.3). Dessa forma, pode-se inferir que a hiperplasia e a hipertrofia das células foliculares, de algumas tireóides, aos 21 dias, tenham ocorrido numa tentativa de elevar a concentração plasmática de tiroxina diminuída no período antecedente (Tab.3). Sabe-se que a tireóide é uma glândula que está em constante adaptação, podendo ocorrer hiperplasia em resposta a agentes bociogênicos por mecanismo compensatório de manutenção do estado de eutireoidismo (Serakides & Nunes, 1998). No entanto, são necessários estudos com período maior de administração da toxina T-2, a fim de se verificar em que momento os seus efeitos sobre a tireóide suplantariam a capacidade adaptativa da glândula, conduzindo ao estado permanente de hipotireoidismo.

 

 

O mecanismo pelo qual a toxina T2 causa diminuição dos hormônios tireoidianos ainda é controverso e não está totalmente elucidado. Algumas evidências indicam que ela altera a síntese de tireoglobulina ou bloqueia a síntese da tireoperoxidase (Middlesworth, 1986), a enzima responsável pela proteólise e, conseqüentemente, a secreção dos hormônios tireoidianos (Haynes Jr., 1991). A diminuição significativa da altura do epitélio folicular nas tireóides do grupo tratado, aos sete dias, é indicativo de diminuição da atividade celular induzida pela toxina. A presença de bócio colóide em alguns animais do grupo tratado, aos 21 dias, pode ser resultado do bloqueio da proteólise, com acúmulo da secreção no interior do folículo. Por outro lado, a presença de tireóides com bócio parenquimatoso, nesse mesmo período, conduz à suspeita de que a hipertrofia e a hiperplasia das células foliculares tenham ocorrido na tentativa de aumentar a secreção de hormônio em resposta à diminuição dos níveis plasmáticos de tiroxina livre aos 14 dias.

Embora não tenha sido possível apontar o mecanismo de ação da toxina T-2 sobre a histomorfometria e a função da tireóide de frangos de corte, conclui-se que a toxina T2 produzida por Fusarium sporotrichoides é agente potencialmente bociogênico que, se ingerida por curto período em dose subletal, permite que a tireóide mantenha o estado de eutireoidismo.

 

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