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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.55 n.6 Belo Horizonte dez. 2003

https://doi.org/10.1590/S0102-09352003000600016 

COMUNICAÇÃO

 

Freqüência de Giardia spp. por duas técnicas de diagnóstico em fezes de cães

 

Frequency of Giardia spp. for two diagnosis methods in feces of dogs

 

 

M.J.S. MundimI; S.Z. SouzaII; S.M. HortêncioII; M.C. CuryI

ILaboratório de Parasitologia - Universidade Federal de Uberlândia Avenida Pará, 1720, Bloco 4C Campus Umuarama 38400-902 - Uberlândia, MG
IIFaculdade de Medicina Veterinária - UFU

 

 


Palavras-chave: Giardia sp., giardíase, cão, sulfato de zinco, MIFC


ABSTRACT

One hundred fecal samples from male and female dogs of several ages and breeds were collected in kennels of Uberlândia in Minas Gerais, Brazil. These samples were analyzed to determine the frequency of Giardia spp. using two different diagnostic methods: zinc sulfate flotation technique and merthiolate-iodine-formaldehyde concentration (MIFC). The frequency of giardiasis was 41%. Dogs, which were less than 12 months of age, were the most parasitized (68.4%). No difference between male and female frequency of giardiasis (31.4% and 46.1%, respectively) was observed. MIFC detected 38% of positive samples and zinc sulfate flotation technique 29%. Giardia spp. is present in dogs of Uberlândia’s kennels in a high frequency.

Keywords: Giardia spp., giardiasis, dog, zinc sulfate flotation technique, MIFC


 

 

Dos protozoários que freqüentemente acometem os animais e o homem, Giardia spp. tem despertado maior interesse dos pesquisadores, possivelmente por seu potencial como agente de zoonose, além de causar, em animais jovens, diarréia intermitente com comprometimento da digestão e absorção de alimentos, acarretando desidratação, perda de peso e morte.

As espécies de Giardia isoladas de mamíferos apresentam aspectos morfológicos e propriedades antigênicas, genéticas e bioquímicas similares (Leib, Zajac, 1999).

Sua prevalência, particularmente nos cães, apresenta índices variáveis, dependendo da localização geográfica, do método utilizado para o diagnóstico e da população estudada (Collins et al., 1987; Nikolic et al., 1993; Marcel et al., 1994). Há maior sensibilidade de animais menores de um ano de idade do que adultos, sugerindo o desenvolvimento de certo grau de resistência com o aumento da idade. Os animais de rua ou aqueles densamente abrigados (canis e lojas) estão mais expostos, devido ao maior contato com água, alimentos e fezes de animais ou de pessoas contaminadas (Kirkpatrick, Farrel, 1984).

As várias cepas de Giardia possuem grau variado de patogenicidade. Os sinais clínicos podem ser autolimitantes em alguns pacientes e a doença grave ocorre em filhotes e em animais com doenças concomitantes ou debilitados, sendo a diarréia o sintoma mais comum.

O método de diagnóstico considerado mais eficaz para a giardíase é a técnica de centrífugo-flutuação em solução de sulfato de zinco a 33% (densidade 1.180). Entretanto outras técnicas, como a centrífugo-sedimentação com mertiolato-iodo-formaldeído, têm sido utilizadas com bons resultados (Zimmer, Burrington, 1986).

Este estudo teve como objetivo determinar a freqüência de Giardia spp. em cães provenientes de canis da cidade de Uberlândia, usando a centrífugo-flutuação com sulfato de zinco e a centrífugo-sedimentação com mertiolato-iodo-formaldeído (MIFC).

Foram colhidas, ao acaso, 100 amostras de fezes de cães machos e fêmeas, de diferentes raças, com idades entre dois meses a sete anos e provenientes de cinco canis de Uberlândia, Minas Gerais.

De cada animal foram colhidas três amostras com intervalos de sete dias entre cada colheita. As amostras de fezes foram colhidas sempre no período da manhã e processadas pelos métodos de centrífugo-flutuação em solução de sulfato de zinco a 33% (Faust et al., 1938) e centrífugo-sedimentação pelo mertiolato-iodo-formaldeido (MIFC) (Blagg et al., 1955). Foram examinadas para cada método duas lâminas de cada amostra, perfazendo 1.200 lâminas.

As freqüências obtidas segundo o sexo e a idade foram avaliadas estatisticamente pelo teste de dispersão de freqüência (qui-quadrado) e para comparar os métodos laboratoriais utilizou-se o teste binominal para diferença de proporções, ambos com 5% de probabilidade (Triola, 1999).

Dos 100 cães examinados, 41,0% apresentavam-se positivos para Giardia spp., independente do método utilizado. A freqüência encontrada pode ser considerada muito elevada frente aos trabalhos de Sogayar e Corrêa (1984) e Lopes et al. (2001) que demonstraram índices de infecção de 3,4% e 6,6%, respectivamente. Na giardíase o contato direto animal-animal facilita a transmissão e nos canis o maior número de animais em um espaço limitado pode facilitar a contaminação, sendo essa a possível explicação para a freqüência tão elevada.

Do total de animais examinados, 28 (28,0%) apresentaram diarréia e desses 15 (53,6%) estavam infectados por Giardia spp e em apenas um havia associação com Dipylidium caninum. Lopes et al. (2001) compararam o índice de positividade e a existência de diarréia, observando apenas 3,4% de concomitância entre eles. Isso porque a maioria das infecções pelo protozoário é assintomática. Entretanto, nos animais que apresentam sintomas a diarréia é o achado mais freqüente.

A freqüência de positivos foi maior (P<0,05) nos animais com até 12 meses de idade (Tab. 1). Estes dados são condizentes com os de Kirkpatrick (1987) e Leib e Zajac (1999) que relataram maior freqüência de Giardia spp. em cães e gatos com idade inferior a três anos, em especial entre aqueles com até 12 meses. O papel da imunidade no curso da infecção requer maiores esclarecimentos, e o que se observa é uma maior sensibilidade de animais jovens por apresentar, possivelmente, sistema imunológico não totalmente amadurecido. Considera-se ainda que o comportamento dos filhotes facilita a contaminação, já que eles têm contato mais freqüente com todo o tipo de material que pode estar contaminado com cistos de Giardia spp.

 

 

Não houve diferença entre sexos quanto à freqüência de cistos de Giardia spp. nas fezes (Tab. 1). Hoskins et al. (1982) e Kirkpatrick (1987) também não encontraram relação entre sexo ou raça e positividade para Giardia spp.

Não se observou diferença (P>0,05) entre métodos de processamento das fezes quanto à freqüência de cistos. Tanto o MIFC quanto o sulfato de zinco demonstraram a mesma eficiência na detecção do parasita (Tab. 2).

 

 

O método de MIFC foi o que detectou maior número de casos, apresentando 38,0% de positividade. Zimmer e Burrington (1986) citaram que a prevalência da giardíase em cães com ou sem sintomas, na América do Norte, variou de 0,6% a 60,0%. A disparidade nesses resultados é atribuída, em parte, às diferenças nas técnicas de diagnóstico utilizadas. Em medicina veterinária, o exame das fezes tem demonstrado ser o meio mais prático e eficiente de diagnóstico da giardíase. Na literatura, o método do sulfato de zinco é considerado o mais viável, pela sensibilidade e baixo custo. Neste estudo, o MIFC detectou maior número de amostras positivas, provavelmente por fornecer maior quantidade de sedimento para análise, aumentando a probabilidade de detecção do protozoário. Entretanto, Zimmer e Burrington (1986) consideram esse método inadequado para o diagnóstico da giardíase, pois os cistos do protozoário não são facilmente visualizados em meio aos detritos fecais.

Em relação ao número de colheitas, observou-se que quanto maior o seu número maior a chance de se obter amostras positivas. De acordo com Heymans et al. (1987) e Adam (1991), é recomendado que se faça o exame em três amostras consecutivas colhidas em dias alternados, pois os cistos são excretados intermitentemente, evitando assim falsos negativos.

Este foi o primeiro estudo realizado em Uberlândia, MG. Em suma, cães procedentes de canis da cidade apresentam elevada freqüência de cistos de Giardia spp. nas fezes, principalmente nos animais com até 12 meses de idade, não havendo diferenças de ocorrência entre sexos e raças. As técnicas de diagnóstico comportaram-se igualmente na detecção dos cistos, com leve (não significativa) supremacia para a do MIFC.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à técnica do laboratório de parasitologia da Universidade Federal de Uberlândia, Elaine Silva Marques Faria, pelo auxílio no processamento das análises das amostras de fezes.

 

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Recebido para publicação em 26 de setembro de 2002
Recebido para publicação, após modificações, em 20 de maio de 2003

 

 

E-mail: cury@umuarama.ufu.br

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