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Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311Xversão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública v.20 n.5 Rio de Janeiro set./out. 2004

https://doi.org/10.1590/S0102-311X2004000500028 

ARTIGO ARTICLE

 

Epidemias de dengue e divulgação de informações pela imprensa

 

Dengue epidemics and press coverage

 

 

Elisabeth FrançaI; Daisy AbreuII; Márcia SiqueiraIII

IDepartamento de Medicina Preventiva e Social, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil
IINúcleo de Estudos em Saúde Coletiva, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil
IIIPontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A ocorrência de sucessivas epidemias de dengue no Brasil ressalta a importância da divulgação de informações pela mídia, pois, como esfera de mediação das sociedades contemporâneas, a mídia produz, amplifica e faz circular informações e significados que afetam as decisões das pessoas. Com o objetivo de contribuir nessa discussão, analisou-se a cobertura do principal jornal diário de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, sobre as epidemias de dengue naquela capital entre 1996 e 2000, buscando-se avaliar a prioridade do noticiário para a doença e os enfoques privilegiados. Foram selecionadas 446 notícias, classificadas segundo o tema abordado nos títulos e nos textos das matérias. Verificou-se que o número de notícias guardou estreita relação com o número de casos de dengue registrados, com "picos" de cobertura coincidindo com a ocorrência de epidemias. A prioridade jornalística na cobertura das epidemias e o pouco espaço destinado à prevenção observados neste estudo apontam a necessidade de se considerar, no campo de atuação dos serviços de vigilância, estratégias de divulgação de informação nos meios de comunicação, visando propiciar intervenções mais participativas e, assim, mais eficientes para a prevenção de epidemias.

Dengue; Vigilância; Meios de Comunicação


ABSTRACT

The occurrence of successive dengue epidemics in Brazil highlights the importance of information dissemination by the media. As a sphere for mediation in contemporary societies, the news media produce, expand, and circulate information and meanings that affect people's decisions. In order to contribute to the discussion, this study analyzes coverage by the main daily newspaper in Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil, on dengue epidemics in that State capital from 1996 to 2000, assessing the priority ascribed to the epidemics as news and the various approaches to the disease. Some 446 news stories were selected, classified according to the themes approached in the titles and in the body of the articles. There was a close relationship between the number of news stories and the number of reported dengue cases, with "peaks" in coverage coinciding with outbreaks. According to this study, the news priority for epidemics and the limited space reserved for prevention highlight the need for epidemiological surveillance services to consider strategies to disseminate information through the mass media, aimed at fostering more participatory interventions that would thus be more efficient in the prevention of epidemics.

Dengue; Surveillance; Communications Media


 

 

Introdução

O dengue é uma doença viral aguda, transmitida por um tipo de mosquito, o Aedes aegypti. Considerada a mais importante arbovirose no mundo, acomete anualmente cerca de 50 milhões de pessoas, apresentando grande potencial de expansão e um caráter endemo-epidêmico em praticamente todos os continentes do globo. A doença manifesta-se geralmente de forma benigna, mas pode evoluir para o tipo grave, o dengue hemorrágico (World Health Organization: http://www.who.int/ctd/dengue/burdens.htm, acessado em 22/Mai/2001).

Desde a década de 80, várias epidemias se repetem no Brasil, transformando o dengue em um importante problema de saúde pública, que se agrava rapidamente. Segundo o Ministério da Saúde (http://www.funasa.gov.br/epi/ dengue/pdfs/plano_controle_dengue.pdf, acessado em 06/Fev/2002), cerca de 3.600 municípios nos 27 Estados brasileiros encontravam-se infestados pelo vetor no ano 2000. Em 2001 e 2002, apenas Amapá, Rio Grande do Sul e Santa Catarina não relataram a ocorrência de casos autóctones da doença, enquanto 19 unidades da federação monitoravam a circulação concomitante de dois ou três sorotipos virais.

Na prática, o avanço da doença pelo território brasileiro, com a escalada nas notificações de casos hemorrágicos e óbitos, insere-se em um contexto mais amplo, latino-americano e caribenho. O problema encontra explicação no permanente intercâmbio de pessoas e mercadorias entre diversas regiões do continente e do mundo, sugerindo o que se poderia chamar de uma "globalização" de vetores e agentes etiológicos. Mas a rápida deterioração do quadro epidemiológico local tem, sobretudo, forte determinação social, com a permanência da desigualdade na organização do espaço urbano gerando bolsões carentes de infra-estrutura de saneamento básico, como abastecimento de água potável e serviços de coleta de lixo, ou de uma estrutura adequada de educação e de saúde pública. Embora o dengue se caracterize por uma intensa dispersão geográfica e social, é também correto afirmar que tais bolsões constituem ambientes mais propícios e vulneráveis ao surgimento de inúmeros e variados criadouros do Aedes, aumentando a competência vetorial para a disseminação de epidemias 1,2.

Minas Gerais foi uma das unidades da federação que apresentou crescimento mais expressivo do dengue nos últimos anos e, em 1998, registrou o maior número de casos do país - 47.402 notificações (http://www.funasa.gov.br/ epi/pdfs/sh_dnc_uf_1980_2000.pdf, acessado em 31/Out/2001). Em Belo Horizonte, os primeiros casos autóctones foram registrados em 1996 e, dois anos depois, ocorreu uma epidemia de grandes proporções, com cerca de 87 mil casos de dengue clássico e 27 casos confirmados de dengue hemorrágico 3.

Como essa é uma doença viral sem tratamento específico e ainda sem vacina, o único método atualmente disponível para a sua prevenção é o combate ao vetor, o A. aegypti. Para isso, além da atuação dos serviços de saúde, a participação direta da população exerce papel fundamental, pois o habitat do mosquito é o ambiente doméstico. Diversos estudos sobre a participação popular no combate ao vetor do dengue discutem a importância do envolvimento da comunidade não só na implementação, mas também na definição e no planejamento das atividades de controle 4,5,6,7. Esse critério da participação deve funcionar, quando se incorpora a perspectiva da promoção da saúde, como um marco balizador das ações. Significa afirmar que o papel do cidadão, longe de ser mero cumpridor de ações ditadas por técnicos e autoridades públicas, é também o de um "sujeito sanitário", crítico e co-responsável pelo processo coletivo de construção da saúde 8.

Ainda quanto ao envolvimento efetivo da população, Pitta & Oliveira 9 destacam que as instituições governamentais dificilmente transformarão questões de interesse social em pauta da agenda pública, se não utilizarem estratégias de divulgação junto aos meios de comunicação de massa. Como um campo destinado às mediações em uma sociedade marcada pela complexidade, a mídia tornou-se, atualmente, indispensável às organizações e aos poderes para a circulação de suas mensagens e representa "...uma das mais importantes instâncias de construção de sentidos e significados sociais..." 9 (p. 138). Entretanto, as informações epidemiológicas veiculadas pelos meios de comunicação devem ser trabalhadas, considerando "(...)a gama de variáveis que, potencialmente, podem interferir não apenas no campo da circulação dos discursos e mensagens que constituem a polifonia social e os múltiplos interesses aí presentes, mas também nos próprios processos de apropriação destes discursos e mensagens" 9 (p. 141).

O poder da mídia de informar em grande escala pode contribuir para a emancipação dos cidadãos e sua inserção autônoma na sociedade. Mas é certo que a qualidade da informação prestada, a forma e o momento em que se veicula a notícia produzem significados variados e podem concorrer para o esclarecimento e a mobilização popular ou, ao contrário, para a confusão e o alarmismo reativo. No dizer de Castro 10 (p. 103), "os veículos de comunicação social podem ser instrumentos assustadoramente autoritários - se forem utilizados para a manipulação e a distorção da informação (...). Mas podem também, no reverso, serem profundamente democratizantes, se transmitirem e repartirem (...)todas as informações à sociedade, para que ela as analise, processe e decida seus rumos. É dentro desse quadro de grande complexidade que se insere a questão dos espaços destinados à cobertura da área de saúde pública".

Portanto, no estudo dos fenômenos epidêmicos, a natureza dos temas veiculados pela mídia deve ser considerada, para avaliar o enfoque da informação jornalística e possíveis contribuições para a mudança de comportamento da população frente às doenças. Apesar de reconhecido, o papel da mídia não tem sido objeto de investigação, com exceção de alguns poucos autores 11,12,13,14,15. Nessa perspectiva, este estudo teve como objetivo delinear as principais características do noticiário sobre a epidemia de dengue em Belo Horizonte, entre 1996 e 2000, analisando a cobertura jornalística em relação ao tipo e à natureza da informação veiculada. Representa, pois, um esforço para a melhor compreensão do papel desempenhado pela imprensa na divulgação de informações importantes em saúde pública.

 

Material e métodos

Foi realizado um levantamento de todo o conteúdo informativo (notícias, reportagens e notas) sobre a ocorrência do dengue no Município de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, publicado no Estado de Minas, principal jornal diário da capital mineira. A análise compreendeu o período de 1o de janeiro de 1996 a 31 de dezembro de 2000, já que somente a partir de março de 1996 passaram a ser registrados casos de dengue em Belo Horizonte e, desde então, vêm ocorrendo sucessivas epidemias, com casos de febre hemorrágica a partir de 1998.

As matérias jornalísticas sobre dengue foram selecionadas, obtendo-se o nomeado "número de notícias". O conteúdo foi então codificado pela(s) idéia(s) central(is) do título, classificada(s) segundo categorias pré-estabelecidas. A classificação foi testada em uma amostra de notícias e, então, completada com novas categorias. O conteúdo das matérias também foi classificado com base na mesma tipologia, procurando analisar a cobertura jornalística em relação ao enfoque da informação veiculada. Foram propostas as seguintes categorias temáticas: casos da doença, clínica da doença, medidas de controle. Cada uma dessas categorias foi desdobrada em subcategorias, de modo a se obterem mais elementos para a análise do material: (a) casos da doença: número de casos, reconhecimento da epidemia, tipos de vírus, óbitos; (b) clínica da doença: aspectos clínicos, dengue como doença benigna, dengue como doença grave; (c) medidas de controle: informação geral e relativas ao vetor/criadouros, ações oficiais de controle, participação popular no controle, problemas/dificuldades no controle. As notícias que não se classificaram em nenhum dos três grupos propostos foram enquadradas na categoria "outros".

Para a classificação das fontes do noticiário, foram considerados os seguintes informantes: Ministério de Saúde, Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais, Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, população e outras fontes.

O levantamento foi registrado com o preenchimento de uma ficha, contendo a data da publicação, número da notícia por dia (considerando que poderia haver mais de uma notícia sobre dengue por edição), códigos da classificação dos títulos, dos conteúdos e das fontes de informação. Tanto o título, quanto o conteúdo e a fonte de informação de uma notícia poderiam ser classificados em mais de uma categoria e, conseqüentemente, o total de registros por categoria poderia ser maior que o número de matérias veiculadas por dia.

Para a coleta dos dados, foram revistas todas as notícias publicadas no período de 1996 a 2000. O acesso ao material foi possível através de duas fontes: para 1996, 1997 (parte), 1999 (parte) e 2000 foram analisadas as matérias registradas em microfilmes pela Gerência de Documentação do jornal; já as notícias para o período de 1997 (parte), 1998 e 1999 (parte) foram coletadas de fotocópias de bancos de dados disponibilizados de outros estudos 16,17. A codificação das notícias coube a dois estagiários especialmente treinados pelos pesquisadores. O treinamento constou de instruções sobre a leitura e codificação do material, sendo que nas duas primeiras semanas de trabalho, um dos pesquisadores desenvolveu todo o processo de codificação junto com os estagiários. No esforço de detectar possíveis erros de interpretação ou viés devido ao codificador, todas as notícias do primeiro semestre de 1998 foram reclassificadas por outro codificador nas subcategorias definidas. Na análise de confiabilidade, verificou-se um índice de concordância global de 99%.

A partir da classificação das notícias, foi criado um banco de dados utilizando o programa Epi Info 6.04, para o processamento e análise das informações.

 

Resultados

Entre 1996 e 2000, o jornal Estado de Minas publicou 446 notícias sobre o dengue no Município de Belo Horizonte, 70% delas veiculadas em 1998. No mesmo período da análise, foram registrados 91.311 casos da doença no município, com maiores taxas de incidência em 1998. A comparação entre a freqüência do noticiário e a incidência do dengue revela que a divulgação de notícias apresentou "picos" de cobertura coincidindo com a ocorrência de ondas epidêmicas. A relação se torna mais evidente no terceiro bimestre de 1996, durante a primeira epidemia de dengue em Belo Horizonte, no segundo bimestre de 1997 e nos primeiro, segundo e terceiro bimestres de 1998, quando ocorreu a epidemia de maior magnitude do período. Neste episódio, 86.699 casos foram confirmados ao final do ano e o jornal veiculou 312 matérias sobre o tema. Já em 2000, apesar de o número de casos registrados (n = 221) indicar a permanência do problema, a cobertura jornalística foi inexpressiva, com apenas duas notícias publicadas em todo o ano (Figura 1).

A Tabela 1 apresenta os resultados encontrados para a classificação das notícias segundo o tema abordado nos títulos e nos textos das matérias. Considerando o enfoque dado pelo noticiário a partir da análise dos títulos, constata-se que o jornal privilegiou temas relacionados aos "casos da doença" e à "clínica da doença": 53,5% deles foram classificados nas duas categorias. Há variações dessa abordagem em cada ano analisado, sendo que no início da epidemia, houve uma atenção relativamente significativa para as "informações gerais e relativas ao vetor" (26,4% dos títulos), possivelmente com o intuito de prestar esclarecimentos à população sobre uma doença "nova" que surgia na cidade. Entretanto, à medida que a epidemia se tornou mais grave em 1998, a veiculação de matérias sobre "medidas de controle" não acompanhou a mesma tendência das taxas de incidência.

Na classificação das subcategorias das notícias, observa-se que predominou o relato do "número de casos" da doença notificados oficialmente, tanto nos títulos quanto nos textos. Verifica-se certo destaque para as "ações oficiais de controle" nos textos das matérias, principalmente no primeiro ano de epidemia - quase 20,0% do conteúdo das matérias publicadas em 1996 -, mas o tema foi tratado em apenas 12,0% do noticiário nos demais anos. Já as notícias sobre medidas de controle, relacionadas à "mobilização popular", não tiveram a mesma importância de outros enfoques. No ano de maior incidência do dengue (1998), apenas 3,7% dos conteúdos reportavam o tema. Os "problemas e dificuldades" encontrados pelos serviços de saúde na execução de medidas de controle foram gradativamente ganhando espaço tanto nos títulos quanto nos conteúdos, tendo o jornal assumido muitas vezes o papel de instrumento de denúncia.

Dois temas abordados nas notícias merecem ser destacados. Em 1996, apenas 11% dos títulos das matérias trataram do "reconhecimento da epidemia", o que representa questão importante para a saúde pública e ressalta a necessidade de ações oficiais de controle objetivas e de urgência. Além disso, o enfoque inicial foi tratar o dengue como uma doença benigna. Somente nos anos de 1997 e 1998, os títulos do noticiário (10,6% e 12,3%, respectivamente) voltam-se para o dengue hemorrágico, que representava uma ameaça de fato à população. Mas esses temas não permaneceram como sendo de interesse para o jornal nos demais anos de epidemia.

No período estudado, as fontes de informação mais utilizadas pelo jornal foram as oficiais (84,0% da cobertura), especialmente os serviços de saúde municipais: em 58,0% das notícias, a Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, forneceu a informação veiculada. O cidadão não foi uma fonte a quem o diário recorreu com freqüência para abordar o tema: apenas 6,0% das matérias jornalísticas consultaram a população (Figura 2).

 

 

Discussão

O quadro atual de ocorrência de epidemias de dengue em várias capitais e pólos regionais brasileiros demanda ações de controle voltadas para a melhoria da infra-estrutura urbana. E ainda articuladas ao estímulo da motivação e do envolvimento da população para reduzir a infestação ou mesmo erradicar o mosquito A. aegypti. As ações oficiais, nos últimos anos, têm se caracterizado pela descontinuidade operacional dos programas de combate ao vetor, refletindo sua reduzida capacidade de gerar compromissos da sociedade e a não-priorização dessas medidas por parte das instituições públicas de saúde. Dessa forma, como ocorre na maioria dos países, são implementadas ações emergenciais de combate às epidemias, em detrimento de ações preventivas 18.

Os resultados aqui apresentados indicam que os meios de comunicação também priorizavam a doença principalmente quando esta se manifestava de forma epidêmica, sendo a mesma praticamente esquecida pelo noticiário quando diminuíam os casos. Assim, o número de notícias publicadas guardou estreita relação com o número de casos de dengue registrados. Em 1998, ano em que ocorreu epidemia de enorme magnitude, foram publicadas 70,0% das notícias do período avaliado, demonstrando o reconhecimento pelo jornal da importância que o problema assumia para a população do município. Nos períodos interepidêmicos, quando o dengue atingiu menor número de pessoas, deixou de ser vista como uma ameaça presente e diminuiu o número de notícias relativas ao tema. Assim, o próprio caráter cíclico da doença se transferiu para a cobertura da imprensa. Sabe-se que na medida em que o dengue se concentra em áreas periféricas, diminui o interesse da imprensa e a doença passa a ser considerada somente mais um problema de saúde 19.

Neste estudo, foram analisadas somente notícias sobre dengue publicadas em jornal, não sendo coletada a informação veiculada na televisão, considerada uma fonte de informação mais utilizada pela população 20. Considera-se, entretanto, que a análise desse material jornalístico serve como um indicador da importância atribuída ao tema pela mídia em geral, já que os conteúdos veiculados em um determinado meio com freqüência geram pautas em outros, em um permanente processo de amplificação da mensagem. Embora se tenha abordado as notícias publicadas em apenas um periódico, vale lembrar que era o maior jornal regional, considerado referência no mercado e, portanto, com maior potencial de divulgação de informações e formação de opinião. É importante ressaltar que, apesar de o jornal ter publicado, também, notícias sobre a ocorrência da doença no interior de Minas Gerais e em outros Estados brasileiros, elas não foram contabilizadas para efeito desta pesquisa - o que explica, por exemplo, terem sido incluídas na amostra apenas duas matérias no ano 2000.

A prioridade na cobertura das epidemias atende a atributos fundamentais da notícia jornalística - a abrangência e atualidade desses acontecimentos, isto é, o potencial de o agravo atingir indistintamente um grande número de pessoas, aqui e agora. É por essa razão que as epidemias despertam o interesse da mídia, funcionando como temas que captam e fixam a atenção do público. Como fatos extraordinários inscritos no cotidiano da população, com grande capacidade de despertar elementos do imaginário e desorganizar a esfera social, as epidemias constituem momentos privilegiados para a explicação da vida privada e da sociedade.

"Através da experiência desse fenômeno [adoecer], as pessoas falam de si, do que as rodeia, de suas condições de vida, do que as oprime, ameaça e amedronta. Expressam também suas opiniões sobre as instituições e sobre a organização social em seus substratos econômico-político e cultural" 21 (p. 193).

É também nessa linha que se pode supor por que o diário conferiu maior ênfase, sobretudo nos títulos, ao número de casos de dengue registrados a cada momento ou ao reconhecimento oficial da situação de epidemia. Na mancha acinzentada das páginas de jornal, os títulos têm a função de atrair a atenção do leitor, fornecendo-lhe uma informação imediata sobre a essência da notícia. Ao mesmo tempo, o enfoque predominante no número de casos indica um interesse do noticiário pela informação renovável. As medidas de controle, ao contrário, representam uma informação "antiga", que não se renova no curso da narrativa sobre a epidemia sendo, portanto, de menor apelo para captar a atenção do público.

Para compreender melhor a predominância no conteúdo do noticiário do enfoque nas estatísticas de casos ocorridos, deve-se também analisar as fontes de informação. O discurso dos meios de comunicação tende a ser influenciado pelos diferentes atores envolvidos no acontecimento. É sabido que a cobertura dos eventos coletivos reflete, de um lado, a atuação do Estado e, de outro, a própria atuação dos meios enquanto órgãos de divulgação/formação de opinião 22. É interessante ressaltar, no caso das epidemias em Belo Horizonte, a relativa ausência, na cobertura, das ações de controle do dengue baseadas na mobilização popular: o cidadão, as lideranças comunitárias, as organizações não-governamentais foram fontes menos procuradas pelo jornal. Ao mesmo tempo, uma proporção importante das notícias classificadas na categoria "medidas de controle" se direcionou para a abordagem de dificuldades (do município) em relação a recursos (federais) para a implementação de ações de controle. Nesse caso, o discurso da mídia muitas vezes privilegiou o enfoque da denúncia e serviu à simples troca de acusações entre instâncias de poder, sem aprofundar fatores políticos que determinam os investimentos em saúde.

Chama a atenção, neste estudo, o enfoque do dengue como uma doença benigna no primeiro ano de registro da epidemia em Belo Horizonte. É importante lembrar que o caráter de "uma ameaça, um perigo que corre em meio ao povo", impregnado nas próprias origens etimológicas do termo "epidemia", basta para que as enfermidades e suas formas epidêmicas ativem o imaginário social sobre a vida e a morte 23. Esse é um processo coletivo de elaboração de sentidos, que afeta a compreensão do próprio viver social e o reconhecimento dos riscos de adoecer e morrer nele implícitos. Assim, a interpretação do dengue como uma doença "benigna" no início da implantação epidêmica teve provavelmente repercussões nos significados que a população lhe atribuiu e na forma como reagiu à sua ocorrência no cotidiano. Dados como esses precisam ser incorporados à análise das equipes de saúde, pois é a partir do senso comum, de um certo "saber popular" acumulado em torno da doença, que será possível sugerir intervenções mais participativas e eficientes no combate às epidemias.

Nesse contexto, os meios de comunicação social - e, em particular, o jornalismo - podem assumir papel de relevância para o setor saúde no enfrentamento de epidemias, difundindo informações de caráter técnico e científico com agilidade e abrangência. Assim, torna-se oportuno aprofundar o estudo sobre o tema buscando, na análise do discurso, mais elementos para compreender o papel dos meios de comunicação e sua interação com o setor saúde. Sobretudo, reconhecendo a necessidade de se considerar, no campo de atuação dos serviços de vigilância, estratégias comunicacionais para a mídia e o direito dos cidadãos a informações completas e acessíveis, que promovam sua autonomia e a participação consciente no processo social de produção da saúde.

 

Colaboradores

E. França e D. Abreu participaram da elaboração do projeto de pesquisa, processamento e análise dos dados, discussão dos resultados e redação do artigo; M. Siqueira participou das etapas de discussão dos resultados e redação do artigo.

 

Agradecimentos

Agradecemos à Professora Ada Ávila Assunção, pela revisão do texto e ao CNPq, pelo apoio financeiro (Processo n. 521158/98-2).

 

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Endereço para correspondência
E. França
Departamento de Medicina Preventiva e Social, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais
Av. Alfredo Balena 190, 9o andar, Belo Horizonte, MG 30130-100, Brasil
efranca@medicina.ufmg.br

Recebido em 29/Out/2003
Versão final reapresentada em 05/Mai/2004
Aprovado em 10/Mai/2004

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