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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

versão impressa ISSN 0102-6445

Lua Nova  no.30 São Paulo ago. 1993

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64451993000200007 

DIREITO E DIREITOS

 

A modernidade européia e sua crise

 

The european modernity and its crisis

 

 

Angelina Peralva

Socióloga, professora da Faculdade de Educação da USP e pesquisadora do Centre d'Analyse et d'Intervention Sociologiques (CADIS), da EHESS/Paris

 

 


RESUMO

Discute-se a face sombria da unificação européia atual. Populismo e violência, racismo e xenofobia aparecem como a contrapartida de um processo acelerado de modernização que desafia a capacidade de integração social européia. Examinam-se os modos diferentes como a França e a Alemanha enfrentam o problema.


ABSTRACT

The dark side of the European unification is discussed. Populism and violence, racism and xenophobia appear as a counterpart to an accelerated process of modernization that defies Europe's capability for integration. The different ways of facing this problem in France and Germany are examined.


 

 

Vista da América Latina em crise, a integração européia, ora em curso, aparece sobretudo em sua face positiva, sinalizando uma modernização acelerada, da qual inelutavelmente nos distanciamos pela decadência.

Não se trata aqui de negar a extensão da crise latinoamericana. Mas parece-me importante que se incorpore à reflexão atual a idéia de que não é apenas neste continente que a modernidade se encontra ameaçada.

De certa maneira, a Europa hoje se aproxima da América Latina. Em sua agenda de discussões figuram temas tipicamente latino-americanos, como os da dualização e do populismo, aos quais se agregam outros, mais especificamente europeus, como a xenofobia, o anti-semitismo e as violências racistas. O velho mundo redescobre seus demônios e a nosso exemplo ele se divide também entre a palavra e o sangue.

Em 1992, ao mesmo tempo em que os franceses hesitavam em referendar — e não o fizeram senão por estreita margem de votos — os acordos de Maastricht, que dariam forma concreta à unificação européia, na Alemanha as pesquisas de opinião apontavam 60% da população favoráveis a um fechamento das fronteiras.

Essas reações defensivas seriam inexplicáveis, não fosse o fato de que a Europa está enfrentando os efeitos da combinação perversa de dois processos distintos, mas interligados: de um lado, o custo social da modernização; de outro, o fim do socialismo e da configuração geopolítica que definiu os destinos do mundo a partir do segundo pós-guerra.

 

MODERNIZAÇÃO X MODERNIDADE

Em artigo publicado há algum tempo nesta revista1, Norbert Lechner formulou os termos do que lhe parecia o grande desafio da democracia latino-americana, perguntando: a modernidade e a modernização são compatíveis? É possível construir uma ordem humana, apoiada na racionalidade normativa, e, ao mesmo tempo, obedecer às injunções da racionalidade instrumental, que definem alguns dos principais aspectos da modernização e dos processos de mudança no mundo moderno?

Constatando a natureza excludente do atual padrão de modernização mundial, Lechner pensava, porém, que não havia alternativas viáveis. A questão não se punha apenas para a América Latina: os setores marginais o são, diz ele, "não por seus valores ou aspirações, mas em relação ao processo de modernização que, dado o peso crescente do fator capital (incluindo a tecnologia), é incapaz de integrá-los, gerando um desemprego estrutural". (...) Conclusão: "assemelhamo-nos à 'sociedade de dois terços' dos países industrializados, onde um terço da população tornou-se 'supérflua', vivendo dos subsídios estatais que a população ativa proporciona".2

Duas proposições principais desse artigo merecem uma atenção particular. A primeira é de que "não há alternativas" para o modelo de desenvolvimento descrito. Na França, um pensamento de resistência começa a se organizar. Pierre Rosanvallon afirmou, em um debate recente, que é preciso conter uma espiral que se orienta pela lógica do nível de emprego zero. (E — vale acrescentar — já está conduzindo a tensões sociais consideráveis.) Ora, essa tendência não corresponde a um modelo geral:

"É justo sublinhar que um dos aspectos da crise do emprego na França está vinculado à hiperprodutividade de sua economia. Um número resume o problema: o PNB por emprego é de 300.000 francos na França, contra 275-000 francos na Alemanha e 240.000 francos no Japão."3 Enquanto em vinte anos a França atingiu um patamar de desemprego estrutural da ordem de 10%, a economia alemã (até a reunificação) e a japonesa, mais competitivas que a francesa, haviam conseguido manter durante esse período níveis de desemprego bem mais baixos.4

A segunda proposição de Lechner é de que cabe ao Estado responder aos imperativos da modernidade, assegurando funções redistributivas que garantam a sobrevida na sociedade daqueles que a economia expulsa. Formulação brutal, como ele próprio reconhece, e que dificilmente poderia ser expressa dessa maneira nos países mais modernos, para os quais a retomada do crescimento do nível de ocupação sempre se manteve como objetivo.

Ainda aqui a França é um bom exemplo, porque de fato o Estado tem procurado desenvolver, nessa fase de modernização acelerada, uma série de políticas compensatórias, para combater os efeitos perversos da queda da taxa de ocupação. Apesar disso, um tema recorrente no debate francês é o da deliquescência das periferias urbanas, onde os índices de desemprego são particularmente elevados na faixa de 18 a 25 anos. A exemplo do que há muito ocorre na Inglaterra ou nos Estados Unidos, essas periferias têm sido palco de sublevações populares periódicas e de verdadeiros incêndios rituais.5

Os resultados das políticas compensatórias implementadas pelo Estado são significativos — sem elas o grau de violência seria bem maior — e ainda assim magros. Por uma razão simples: ter ou não ter emprego é hoje o primeiro critério que define uma situação de autonomia, ou de dependência dentro da sociedade.

Contrariamente à idéia de que o trabalho perde importância enquanto princípio constitutivo da sociedade moderna, são apenas seu lugar e seu significado que mudam. "Hoje, toda a reflexão sobre o emprego está exclusivamente polarizada em tomo da organização da economia, da repartição do tempo de trabalho e da renda e não o bastante sobre esse aspecto fundamental: a sociologia da plena atividade social."6

Mais do que isso: é ilusório pensar que o Estado possa arbitrar sozinho sobre a modernidade, enquanto se dá livre curso a lógicas econômicas que seriam por seu lado puramente instrumentais. Quem, nos tempos que correm, em face do fracasso de todos os modelos estatais de organização econômica, ousaria, tendo o aparelho de Estado como lugar de fala, afirmar a necessidade de impor um limite à racionalização econômica?

Nesse sentido, as hesitações de Rosanvallon são reveladoras. "É preciso", diz ele, "redescobrir condições de organização da concorrência. Eu não ouso (grifo meu) utilizar o termo limitação. Mas, de um modo ou de outro, será necessário organizar a concorrência em termos legais. Que a palavra protecionista não apareça aqui como um espectro ou uma maldição, mas consideremos pelo menos que a espiral deflacionista a que a preferência ao consumidor conduz hoje o mundo ocidental deve ser, de um modo ou de outro, interrompida."7

O dilema pode ser expresso em linguagem simples: é necessário um limite, mas o Estado não tem legitimidade para pronunciá-lo. Só é possível sair desse impasse deslocando os termos do problema.

A radonalidade normativa não é um sistema de valores: ela é a expressão desse limite, por trás do qual se esconde um protesto e uma revolta. Do mesmo modo como por trás da racionalidade instrumental se esconde um poder. Só pode haver compatibilidade entre ambas se as relações entre elas forem de aceitação, mas ao mesmo tempo de limitação recíproca. Ora, quem diz aceitação e limite diz atores, capazes de se expressarem autonomamente e de negociarem entre si. Isso implica pensar a modernidade como um sistema de ação; simultaneamente, como racionalização e subjetivação, para falar como Alain Touraine em seu último livro.8

 

INVENTAR ATORES SOCIAIS

Se considerarmos que esse tipo de definição da modernidade é adequado, é preciso dizer também que a Alemanha é hoje o país mais moderno da Europa, ainda que paradoxalmente seja também aquele onde a modernidade vem sofrendo as mais graves ameaças.

A tendência, em países de atores sociais débeis, como os latino-americanos ou a França, é pensar a modernização como um processo puramente econômico, e portanto dessocializado.

No caso da França, há dez anos Pierre Rosanvallon já chamava a atenção para a crise "intelectual", dizia ele, do Estado-providência. O problema era menos das fronteiras econômicas do Estado como provedor e mais o da necessidade de sair da alternativa estatização-privatização, transferindo para coletividades não públicas a incumbência de serviços públicos e reinserindo assim a solidariedade no interior da sociedade.9

Entretanto, a modernização fez-se às custas do sindicalismo e sob a batuta do Estado.10 A responsabilização de novos atores sociais, no espírito das reformas sugeridas por Rosanvallon, foi tentada pelo governo, mas apenas no plano das iniciativas urbanas. Com a erosão dos sindicatos, historicamente débeis e tutelados pelos partidos, a economia permaneceu a descoberto de qualquer regulação social direta.

Para os alemães, ao contrário, a modernização sempre foi entendida como o resultado de uma ação social. Ali onde os atores econômicos não existem para levá-la a cabo de forma controlada, os alemães acreditam que é preciso inventá-los. Por isso, todo o movimento, de resto extremamente traumático, de incorporação da antiga Alemanha oriental à economia de mercado vem-se dando sob o duplo signo da racionalização e da subjetivação.

Para entender esse processo é preciso recuar um pouco, relembrando as bases de constituição da República Federal Alemã enquanto sociedade nacional, no período anterior à reunificação.

O modelo alemão combina uma dupla lógica de memória e projeto. Ele contém uma referência fundadora ao passado. A cidadania se apóia em um legado cultural e étnico: no direito do sangue, e não no direito do solo. A naturalização envolve procedimentos difíceis que a tomam quase inviável para um estrangeiro. Essas restrições têm sido combatidas por todos aqueles, como Jürgen Habermas, que defendem uma concepção mais aberta da nacionalidade: um patriotismo não étnico, mas constitucional.11 A concepção atual no entanto indica a importância para o povo alemão da referência ao passado e a uma tradição, enquanto princípio de solidariedade de um grupo.

Mas a Alemanha, é claro, não é uma Gemeinschaft, Ela é também capacidade de invenção do futuro, através da transformação permanente de suas condições de existência. Ela é portanto racionalidade normativa, expressa na afirmação dos direitos de um grupo solidário, e racionalidade instrumental. O processo de modernização da Alemanha — terceira economia mundial e primeira da Europa — vem-se dando há quarenta anos, com custos sociais limitados, e mantendo a tensão entre essas duas lógicas.

Como isso foi possível? Em parte, graças a um concurso de circunstâncias históricas. Depois da guerra, a reconstrução do país apoiou-se em grande parte na rearticulação da vida sindical. Herdeiro de uma importante tradição de luta operária, mas operando em um país dividido, centro da guerra fria, o sindicalismo não se orientou por uma perspectiva revolucionária. Em contrapartida, ele obteve, como se sabe, condições ímpares de participação na gestão da economia.

A cogestão não foi uma concessão do patronato; foi uma conquista progressiva, alcançada em troca de greves duras. Ela tem implicações maiores do que a simples gestão de cada empresa e reflete a ampla influência do sindicalismo, não apenas trabalhista, mas também patronal. Em relação à Alemanha, é quase um equívoco falar de Estado-providência. Uma grande parte das incumbências relacionadas com o bem-estar social são diretamente assumidas pela sociedade civil. O Estado é apenas um facilitador.

A Confederação Sindical "Deutscher Gewerkschaftsbund (DGB)" é uma das maiores proprietárias imobiliárias na área da moradia popular, assim como o "Bank für Gemeinwirtschaft", banco sindical, é o quarto banco privado mais importante do país. No campo da educação, uma parte significativa do ensino médio, aquele orientado para a formação profissional, é administrado em regime tripartite pelas empresas, pelos sindicatos e pelo Estado.12

Seria simples dizer que esses fatos implicam redução do sindicalismo à situação de simples parceiro social — mas não é totalmente exato. Primeiro porque os sindicatos mantêm uma função importante de defesa dos interesses dos trabalhadores, e isso se traduz em diversos níveis. Se a política habitacional e em parte também a política educacional, por exemplo, se desenvolveram sob controle dos sindicatos, isso significa sob o influxo de uma cultura operária.

O resultado é que, se a Alemanha, por razões conjunturais, enfrenta hoje um grave déficit de moradias, não se pode falar, em relação ao seu lado ocidental, pelo menos, de crise urbana no sentido francês. A França está vivendo o fracasso das cidades novas, inventadas pelos urbanistas dos anos 60. É verdade que mudou a concepção de qualidade de vida, e esses projetos coletivistas, verdadeiros universos de concreto armado, tornaram-se inaceitáveis para os padrões atuais. Tenta-se a remodelação dos conjuntos, através da implosão de algumas construções (principalmente as torres verticais, consideradas sem condições de habitabilidade). Na Alemanha, ao contrário, as construções do posguerra resistiram notavelmente à evolução dos costumes.

Deve-se principalmente ao sindicalismo um alto grau de integração dos trabalhadores estrangeiros à sociedade alemã. A regulação do fluxo migratório, a partir dos anos 50, foi negociada, como de costume, em regime tripartite, pelos sindicatos patronais, pelos sindicatos de trabalhadores e pelo Estado. E Dietrich Thränhardt relembra que o acordo dos sindicatos de trabalhadores, inicialmente hesitantes em relação a essa operação, só foi obtido em contrapartida de garantias explícitas de uma igualdade de direitos entre operários alemães e estrangeiros.13

Com isso foi possível evitar a dualização do país, que é extremamente limitada, ao contrário do que induz a crer o best seller mundial de Günter Wallraff, Cabeça de turco.14 Assim, a sindicalização dos trabalhadores estrangeiros produziu efeitos de integração efetiva, apesar das limitações de acesso à cidadania, que são um problema real.15

Outro aspecto importante diz respeito à função que os sindicatos desempenharam na modernização alemã. É uma história de quarenta anos. A modernização foi progressiva. Atingiu primeiro a indústria e só muito mais lentamente o setor de serviços, permitindo um deslocamento de mão-de-obra, através de políticas de requaliflcação articuladas conjuntamente pelos sindicatos de patrões e de trabalhadores. Durante todo esse tempo os sindicatos aceitaram a modernização, sem abrir mão da modernidade...

O reconhecimento da modernização como um bem impediu-os de se retraírem em uma lógica puramente defensiva e corporativista. Isso só foi possível, porque existe, ao mesmo tempo que a consciência de um conflito latente entre trabalhadores e patrões, um reconhecimento do patronato como parte da nação alemã. Essa mesma referência à nação — que é identidade e modernização, passado e futuro — impede que a modernização se degrade em pura lógica de mercado, induzindo os patrões a aceitarem como legítima a imposição de um limite à racionalidade instrumental.

Nesse sentido, a lógica sindical corresponde termo a termo à definição dada outrora por Camus. Para ser, dizia Camus, o homem deve revoltar-se. Mas a revolta precisa respeitar os limites que ela descobre em si mesma e onde os homens, reunidos, começam a ser. Se os homens não puderem referir-se a um valor comum, reconhecido por todos em cada um, então o homem se torna incompreensível para o homem. O rebelde exige que esse valor seja claramente reconhecido nele próprio, porque ele supõe ou sabe que, sem esse princípio, a desordem e o crime reinariam no mundo. O movimento de revolta aparece como reivindicação de clareza e de unidade. A rebelião mais elementar exprime paradoxalmente a aspiração a uma ordem...16

Os "novos movimentos sociais", herdeiros da revolta estudantil dos anos 60, tiveram um papel fundamental nesse modelo, como agentes de um processo de modernização cultural. Eles foram os grandes portadores da crítica ao autoritarismo alemão e contribuíram à sua maneira para uma maior abertura e uma maior sensibilidade da Alemanha à mudança. Ainda hoje, as iniciativas de cidadãos (Butter Initiative) são agentes de uma democracia de base, que funciona paralelamente ao sistema representativo.17

Não quero pintar um quadro idílico da antiga Alemanha ocidental. Mas a verdade é que, ainda hoje, o sociólogo em campo que visita esse lado do país (não me refiro a Berlim, cidade à parte dentro da Alemanha) tem a impressão de estar entrando em um livro de Talcott Parsons: as situações que ele observa são de uma forte correspondência entre as normas que regulam o exercício de papéis e o modo como esses papéis são desempenhados. Mas, estranhamente, é algo que não parece derivar de um constrangimento moral.

Se o sociólogo vem, como é freqüentemente o caso, de um mundo definido pela desregulação, pela desordem e pelo inesperado, o sentimento de previsibilidade nos comportamentos é acolhido como uma novidade agradável. Se conhece bem a França, país sob diversos aspectos próximo da Alemanha, e cuja capacidade de integração social decompôs-se brutalmente sob o impacto da modernização acelerada dos últimos vinte anos, dirá que a diferença de resultados é considerável.

O tratado de reunificação, no entanto, pôs face a face duas Alemanhas extremamente diferentes, e não apenas pelos seus patamares de desenvolvimento econômico. De um lado havia um Estado relativamente débil, descentralizado, e uma sociedade civil auto-regulada; de outro, um Estado onipresente. A liquidação desse Estado, ainda em curso, não significou como se pode imaginar uma reconstituição imediata do tecido social no Leste.

É verdade que, no processo de passagem da antiga RDA à economia de mercado, a influência reguladora dos sindicatos de patrões e de trabalhadores tem sido mais uma vez decisiva. A privatização das empresas é sempre objeto de negociação tripartite; o Estado é apenas um dos parceiros e não necessariamente o mais influente.18

Algumas características desse processo, apenas a título de exemplo. Globalmente, a estratégia adotada envolve um jogo bem estudado de compensações para atenuar o choque da racionalização econômica: desestruturação da economia, porém paridade com o marco; desemprego, porém equivalência salarial progressiva em todo o territorio nacional.

François Bafoil comenta a resistência dos economistas, contrários à equivalência salarial: primeiro, pela fragilidade da economia alemã oriental; segundo, porque ela suprimiria uma das supostas razões de investimento no Leste — os baixos salários. A equivalência salarial, no entanto, é indispensável, do ponto de vista dos sindicatos, para evitar a dualização do país e a evasão de mão-de-obra para o lado ocidental, desequilibrando o mercado de emprego. Quanto aos investidores, as pesquisas de opinião mostraram que eles não são atraídos pelos baixos salários, mas pela existência de um mercado potencial.

A importância dos sindicatos consiste assim, em primeiro lugar, em não deixar ir longe demais a dessocialização da economia em proveito exclusivo das regras do mercado, embora aceitando essas regras. Em segundo lugar, trata-se de inventar, no Leste, tanto pelo lado do patronato, quanto pelo lado dos trabalhadores, verdadeiros atores sociais.

Nessa perspectiva, o Estado tem subsidiado parcialmente a compra de empresas da antiga RDA por grandes grupos, como Volkswagen, Siemens ou Mercedes. A natureza da participação do Estado, no entanto, é regressiva e em poucos anos ele deverá ter-se retirado totalmente.19

A desestruturação da economia, ainda assim, é brutal. Os índices oficiais de desemprego situam-se em torno dos 15%, embora possam chegar aos 50%, levando-se em conta a parte crescente de trabalho precário.

Não bastassem os problemas diretamente decorrentes do processo de reunificação, a Alemanha é ainda, na Europa, o país que mais diretamente sofre os efeitos da decomposição do mundo socialista. Devastado pela crise econômica e pela eclosão de nacionalismos ferozes, o Leste europeu gera um fluxo ininterrupto de emigrantes. A maior parte deles dirige-se para a Alemanha, que os acolhe em função de um princípio constitucional: o artigo 16 de sua Constituição federal assegura proteção a qualquer pessoa cuja vida se encontre ameaçada em seu país de origem. Essa a razão pela qual o esforço, por exemplo em relação aos refugiados de guerra da antiga Iugoslávia — e estes são apenas uma parcela dos estrangeiros que encontram abrigo em seu território — tem sido muito superior àquele que vem sendo empreendido pelos demais países da Europa.20

Em face de todas essas dificuldades, a capacidade reguladora dos sindicatos não basta para restabelecer integralmente um princípio de solidariedade. O espaço da violência se alarga na Alemanha e a xenofobia condensa, através da adesão crescente a teses da extrema direita, o apelo de tipo populista a uma ordem rompida.

Segundo informações do serviço secreto, 17 pessoas morreram, desde a reunificação, em decorrência direta de violências racistas. O número de atos de violência com essa conotação passou de 270 em 1990 a 1.483 em 1991 e a 1.800 em 1992. Esses números incluem agressões contra abrigos de refugiados e atos de profanação de cemitérios judeus. O número de simpatizantes das organizações de extrema direita elevou-se de 32.300 para 39.800 durante o mesmo período.21

As pesquisas de opinião apontam 19% de intenções de voto para a extrema direita no lado ocidental e 12% no lado oriental, sendo esses índices particularmente importantes entre a população jovem. Apesar da crise, mantém-se uma certa confiança da população do Leste nos partidos tradicionais.22

A ameaça à modernidade expressa nesses números deriva, paradoxalmente, da extrema modernidade alemã. Os alemães desconfiam do Estado e confiam na capacidade de auto-regulação dos atores sociais, sejam eles quais forem. Essa estratégia no momento está tendo terríveis conseqüências na antiga RDA.

Ali, não existia o conceito de tempo livre. A vida das crianças e jovens era inteiramente ritmada por diferentes instituições: além da escola e do trabalho, havia as brigadas da juventude, os círculos de pioneiros e a Juventude Livre Alemã. Em 1988, essas organizações enquadravam 1.600 mil pessoas.23

Desde a reunificação, esses espaços desapareceram. A experiência da desescolarização e da dessocialização penetrou nesse lado do país. Muitos jovens — às vezes a partir de doze, treze anos — romperam qualquer laço com suas famílias, a tal ponto que se colocou a necessidade de criar casas especiais para acolhê-los.24

Mas não é apenas no sentido da eliminação dessas estruturas de enquadramento que se manifesta a auto-desconfiança do Estado alemão. Durante muito tempo, ele se absteve de exercer qualquer repressão política contra a extrema direita. Ao contrário da França, que não hesitou em punir historiadores revisionistas, afastando professores universitários que contestaram em aula a existência das câmaras de gás, e que jamais hesitou em proibir concertos organizados por jovens neo-nazistas, a Alemanha durante dois anos permitiu que a extrema direita se rearticulasse livremente.

Só ao final de 1992, diante do recrudescimento da violência e da certeza do serviço secreto de que grupúsculos neonazistas se encaminhavam para uma política de terrorismo sistemático, o governo decidiu reagir. Uma organização política no lado ocidental, o Nationalistische Front, e outra na parte oriental, Deutsche Alternative, foram postas na ilegalidade, ao mesmo tempo em que armas e munições eram apreendidas junto a diversos círculos de extrema direita.

O crescimento da violência na Alemanha traduz a forte tensão entre uma lógica de modernização econômica e o apelosubjetivo a uma ordem rompida. Essa tensão é multiplicada pela extraordinária capacidade de abertura das fronteiras de que o país vem dando provas, em uma conjuntura difícil. Há riscos de derrapagens mais graves? Claro. Mas quem se arriscaria a prever o futuro? Há ao mesmo tempo, no país, uma extraordinária capacidade de ação e uma enorme vontade de democracia.

 

 

1 Lechner, N. "A modernidade e a modernização são compatíveis? — O Desafio da Democracia Latino-Americana". Lua Nova nº 21, outubro 1990.         [ Links ]
2 Ibid, p. 78.
3 Coriat, B. e Rosanvallon, P. "Le chômage partagé". le Nouvel Observateur. Collection dossiers: Vaincre les douze Peurs de 1'An 2000, nº 14, 1993.         [ Links ]
4 Os índices fornecidos pelo Ofício Estatístico das Comunidades Européias apontam, em dezembro de 1992, uma taxa de desemprego de 4,9% para a Alemanha (não incluída a parte oriental); 10,3% para a França. Fontes oficiais japonesas indicam uma taxa de 2,3% para o Japão em novembro de 1992. Le Monde, Conjuncture, 9/2/1993.
5 Sobre a dualização da sociedade francesa, cf. F. Dubet e D. Lapeyronnie. Les quartiers d'exil. Paris, Seuil, 1992.         [ Links ] Sobre a violência urbana na França e na Inglaterra, cf. "Violences urbaines". Cultures et conflits nº 6, agosto de 1992;         [ Links ] e também o número especial de Les annales de la recherche urbaine, nº 54, dezembro de 1992.
6 Coriat, B. e Rosanvallon, P., op. cit.
7 Coriat, B. e Rosanvallon, P., op. cit.
8 Critique de la modernité. Paris, Fayard, 1992.         [ Links ]
9 Rosanvallon, P. La crise de l'Etat-providence. Paris, Seuil, 1981.         [ Links ]
10 Entre a década de 60 e o fim dos anos 80, as taxas de sindicalização na Fiança sofreram uma queda de 11 pontos percentuais, passando de 20 a 9%; na RFA, a queda foi de 4 pontos percentuais, passando de 43% a 39%. Citado por Pierre Rosanvallon. La question syndicate. Paris, Calmann-Lévy, 1988.         [ Links ]
11 Habermas, J. "Apologetic Tendencies". In The New Conservatism. Cultural Criticism and the Historian's Debate. Cambridge, Ma., The MIT Press, 1990.         [ Links ]
12 Grosser, A. L'Allemagne de notre temps. Paris, Fayard, 1970.         [ Links ] Ver também Marc Maurice, François Sellier, Jean-Jacques Silvestre. Politique d'éducation et organisation industrielle en France et en Allemagne. Essai d'analyse sociétale. Paris, PUF, 1982.         [ Links ]
13 Thranhardt, D. "West Germany — an Undeclared Immigration Country". Beiträge zur Politikwissenschajt und Verwaltungwissenschaft. Institut für Politikwissenschaft der Westfálischen Wilhelms-Universität. Münster, novembro de 1989.         [ Links ]
14 Cf. Tête de turc. Paris, Editions de La Découverte, 1986.         [ Links ] Isso não significa que as descrições de Wallraff sejam falsas; apenas elas correspondem a um universo específico e limitado, o do trabalho ilegal, que se situa fora do controle dos sindicatos. O impacto de Cabeça de turco levou à promulgação de uma nova legislação que legaliza até mesmo o trabalho de duração extremamente breve. Ainda assim um resíduo de atividade ilegal persiste, por exemplo, na fronteira com a Polônia, onde os conflitos entre trabalhadores alemães e poloneses degringolam às vezes em verdadeiros pogroms.
15 Uma anedota bem conhecida nos meios sindicais ilustra essa integração. Um operário alemão dirige-se a um delegado sindical, di2endo: "Basta! Há estrangeiros demais no país. Temos que mandá-los embora..." O delegado sindical revida: "Mas quem você quer mandar embora? Fulano, que trabalha junto com você na máquina?" "Não, ele não." "Beltrano, seu vizinho, cujos filhos são colegas de seus filhos na escola?" "Nao, ele também não..." "Então quem você quer mandar embora?" "Não sei, eu estava dizendo assim, em geral..." A anedota é importante porque traduz em termos concretos as tensões, mas ao mesmo tempo as possibilidades de combinação entre uma identidade natural, que é diferencialista e regressiva, e uma identidade que se constrói socialmente pela consciência de uma dominação sofrida e da resistência comum que ela suscita. Citado em Angelina Peralva, "L'expérience allemande". In Michel Wieviorka, Philippe Bataille, Kristin Couper, Danilo Martuccelli et Angelina Peralva, Pour une sociologie du racisme l'expérience européenne. Compte-rendu de fin d'étude d'une recherche financée par le Ministère de la Recherche et de la Technologie Paris, EHESS-CADIS, Janeiro 1993.         [ Links ]
16 L'homme révolté. Paris, Gallimard, 1977.         [ Links ]
17 Sobre a importância das Bürger Initiative, cf. Tilman Evers, "Zivilgesellschaft und direkte Demokratie in gesamtdeutscher Verfassung". Vorgänge 110, Heft 2, April 1991.         [ Links ]
18 Cf. François Bafoil, "L'Allemagne de l'Est: une crise polymorphe". In Allemagne d'aujourd'hui nº 115, janeiro-março 1991.         [ Links ]
19 Ibid.
20 Desde o início da guerra, a Alemanha acolheu 250.000 refugiados provenientes da ex-Iugoslávia, contra 80.000 acolhidos pela Suíça; 73.000 pela Áustria; 62.000 pela Suécia; 40.000 pela Hungria; 16.000 pela Itália; 10.000 pela Tchecoslováquia; 7.000 pela Dinamarca e pela Holanda; e pouco mais de 4.000 pela Grâ-Bretanha e pela França. Números fornecidos pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Le Monde, 24-25 de janeiro de 1993.
21 Informações extraídas de um dossiê de imprensa referente ao período de setembro a dezembro de 1992, a partir dos seguintes jornais: Die Zeit, Le Monde, Liberation, Le Point, La Tribune d'AIlemagne, Le Quotidien de Paris, L'Humanité, Courtier International
22 Idem.
23 Schubarth, W. "Sieger der Geschichte. Verordneter Antifaschismus und die Folgen". Der Antifaschistische Stoat entlässt seine Kinder. Köln, PapyRossa, 1992.         [ Links ]
24 Heinemann, K.H. "Ihr wollt nicht wissen, wer wir sind, also wundert Euch nicht, wie wir sind!" (Vocês não querem saber quem somos, então não se espantem de descobrir como somos! Pixação feita por hooligans nas paredes do estádio de futebol de Halle.) Entrevista com Christine Günther, assistente social em Halle/S. In Der Antifaschistische Staat entlässt seine Kinder, op. cit.

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