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Pro-Posições

On-line version ISSN 1980-6248

Pro-Posições vol.31  Campinas  2020  Epub Jan 20, 2020

https://doi.org/10.1590/1980-6248-2018-0129 

LEITURAS E RESENHAS

Os selves na modernidade líquida1

The selves in the Liquid Modernity

Valéria Rocha Aveiro do Carmoi 
http://orcid.org/0000-0002-0442-4201

iUniversidade Estadual de Campinas – Unicamp, Campinas, SP, Brasil; Secretaria da Educação do Estado de São Paulo – SEE/SP, Mauá, SP, Brasil. http://orcid.org/0000-0002-0442-4201,valaveiro77@gmail.com


Fruto de um curso de inverno na Universidade de Talin, a obra A individualidade numa época de incertezas apresenta um profícuo diálogo, organizado em seis capítulos, entre Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, professor emérito da Universidade de Varsóvia, considerado um dos grandes pensadores da modernidade, e Rein Raud, doutor em teoria literária, poeta e ficcionista que, nascido na Estônia, leciona estudos japoneses na Universidade de Helsinque.

O tema da conversa entre esses homens ímpares é o conceito de individuação na pós-modernidade, ou “modernidade líquida”, termo cunhado por Bauman para se referir à época atual, que teria como principal característica a fluidez, ou inconstância e adaptabilidade. A discussão se dá à luz da sociologia, da filosofia, da teoria cultural e da literatura, havendo nas falas dos autores muitas referências a serem buscadas pelos leitores mais curiosos.

A questão central do livro é a construção da individualidade e quais interferências esse processo vem sofrendo frente aos fenômenos de hoje, sobretudo o surgimento de novas tecnologias. Para explicar a posição dos seres no mundo, como determinam ou são determinados pelas circunstâncias, Bauman e Raud comparam a ordem das ciências clássicas à instabilidade e múltiplas escolhas das ciências modernas, estabelecendo relações entre as singularidades e a história de toda a humanidade. Para tal, os autores discutem os selves2 a partir da linguagem, da atuação dos seres e sua capacidade de autorrealização e da conectividade.

Para começar, Bauman e Raud (2018, p. 9) dissertam sobre a impossibilidade de dar respostas definitivas sobre a existência, devido à própria natureza do mundo. Ainda que os homens superem, dia após dia, a insuficiência de saberes, “estamos destinados à incerteza: para o mal porque ela é uma fonte inesgotável de nossa miséria; e para o bem porque ela é também a principal causa de nossa glória”. Essa herança, advinda das descobertas científicas que colocam o universo em uma situação de complexidade infinita, transporta os homens e mulheres para futuros instáveis, deslocados “de um mundo do ‘ser’ para um mundo do ‘tornar-se’” (p. 9).

A primeira provocação de Raud a seu interlocutor diz respeito às posições do self no mundo moderno, uma vez que a história da humanidade é a história de seus indivíduos. Bauman destaca três mudanças fundamentais na modernidade: a primeira ocorre quando a existência passa a ser objeto de contemplação e investigação; na segunda, relacionada ao cogito cartesiano, o sujeito assume sua posição suprema na criação, como o único capaz de conhecer a verdade sobre os objetos presentes no mundo, vistos como frutos de sua cognição; a terceira refere-se à incompletude humana, que por um esforço de autorregulação, autocorreção e autocontrole, conquista uma característica humana, que não é simples prerrogativa de sua nascença. A estas mudanças Raud acrescenta a relação que os seres têm com o tempo, observada a nova cronologia, que passou da existência divina e eterna para a limitada passagem terrena do indivíduo, desde a Renascença. A partir dessas ideias e do conceito de Pascal sobre a grandeza do homem ao se reconhecer miserável, Bauman define: “a vida humana é, assim, um esforço incessante para preencher um vazio assustador, tornar a vida significativa” (p. 17). E esse esforço de tornar a vida tolerável na busca por esquecer a efemeridade é que se chamaria “cultura”.

Acerca das formas que a humanidade encontra para suplantar sua miséria existencial, os autores discutem os princípios das religiões indianas, do budismo e do cristianismo, que preveem diferentes soluções a partir do que propõem como visão sobre a morte. Bauman e Raud apontam que na pós-modernidade tais soluções se deslocam para o entretenimento, com uma espécie de imortalidade profanada através das experiências tecnológicas. Um dos exemplos dessa mudança é a experiência de Kevin Warwick, que inseriu dispositivos no cérebro em busca de um upgrade, numa tentativa antropofágica de ampliar a própria capacidade. Os autores então discutem engenharia genética, biônica, ciborguização e clonagem, até concluírem que o sentido da vida talvez seja mesmo a sua finitude, surgindo assim uma preocupação: “Os poderes criativos dos homens podem estar ligados precisamente às inadequações da linguagem humana que os designers de computador pretendiam eliminar” (p. 30), ou seja, a ambição por exterminar as representações ambíguas da realidade pode privar os seres de sua maior qualidade, como preço a se pagar por um mundo menos ambivalente e, portanto, mais confortável.

A partir desses entraves, Raud e Bauman tratam, no segundo capítulo, sobre a relação da individualidade com a linguagem e a tensão constante entre a compreensão e a não compreensão da realidade e do outro, nos movimentos complexos de percepção do mundo pela representação. Além disso, há também o movimento inverso, no qual a codificação dos sentidos se dá por ordem oposta, com o homem tentando se exprimir a partir do papel que assume socialmente, cerceando identidades, que nunca podem ser fielmente expressas, até porque moram na heteroglossia: “meu self é um postulado da razão buscando a lógica no ilógico e a ordem no caos” (p. 52).

No terceiro capítulo, “Os selves em atuação” os pensadores tratam do desempenho social, evidenciando que as pessoas não se relacionam exatamente entre si, mas sim com a compreensão que têm sobre os atos dos outros, o que gera a reformulação de cada um nessas relações. Surge, nesse ponto, a discussão sobre a vida off-line e on-line, em uma nova morfologia de convívio: “Uma pessoa na rede é como uma criança perdida numa loja de doces” (p. 63). São confrontadas ideias sobre a lógica perversa do consumismo e da construção de falsas imagens com a concepção de que talvez não devêssemos lutar contra a internet, mas sim buscar formas de unificar as autorrepresentações, em um diálogo entre o velho e o novo.

Na sequência, é abordada a questão da autorrealização, que seria fruto do trabalho constante do indivíduo de buscar algo que se encontra em seu horizonte, como se a vida fizesse sentido e a felicidade fosse possível através desse percurso. A discordância entre os interlocutores está no questionamento sobre se a autorrealização está ou não obsoleta, uma vez que os objetivos fixos agora se tornam mais fluidos e a lógica dominante é a do consumismo, em que apenas a classe média ainda teria motivos para sonhar.

No último capítulo é travada uma contenda sobre os selves conectados. Quando Bauman critica a forte influência da tecnologia e do universo on-line por construir seres mais fechados em seus egos, Raud questiona: “Se a internet é uma lente de aumento capaz de ampliar imensamente tanto a sabedoria quanto a estupidez – esta última, evidentemente, muito mais visível –, devemos culpar a tecnologia ou a estupidez? ” (p. 115). A internet passa a ser vista de modo contraditório como mais uma possibilidade de escape engendrada pelo ser humano, sendo as tecnologias sempre mostras de um estágio evolutivo em processos contínuos, sem retorno.

A obra apresenta ainda dois posfácios. No primeiro, Zygmunt Bauman chama a atenção do leitor para a cooperação como solução para a instabilidade e turbulência que submetem os selves na atualidade. Para o autor, submetidos à enorme desigualdade que nos assola, os seres humanos não podem ter qualidade de vida. Privados da ferramenta básica para o esquema de meritocracia, que é a educação, os indivíduos de classe média veem seus filhos sem chance de ascensão social e sem liberdade, ou seja, sem “capacidade de autocriação, de escolher, moldar e controlar seu modo de vida” (p. 156), alimentando a desesperança e a manifestando de várias formas, inclusive no âmbito político, abalando a democracia. Por fim, Bauman apresenta o conceito de generatividade3 como condição necessária aos indivíduos para escapar às armadilhas da vida pós-moderna.

Em seu posfácio, Rein Raud discute as mudanças nos princípios pelos quais as individualidades se constroem, evidenciando que nos fazemos em um processo contínuo e interdependente a partir do lugar em que nos situamos. Raud destaca que a tecnologia se estabeleceu inevitavelmente em nossas vidas, alterando as trajetórias individuais, mas ela é fruto do homem, e como tal cumpre os objetivos de quem a desenvolve, precisando ser utilizada com o mesmo cuidado e sabedoria com que o homem das cavernas lidava com o fogo.

A visão de Raud sobre a evolução é relacionada ao conceito de “‘adequação cognitiva’, ou a capacidade de nos fornecer respostas satisfatórias e aceitáveis (embora não necessariamente corretas) a perguntas sobre nosso mundo da vida” (p. 166), sendo natural para o autor essa característica transitória da vida humana. Com esse argumento, a obra é encerrada com grandiosidade, levando o leitor a refletir sobre a inevitável dúvida sobre estar no mundo, o dilema mais complexo da contemporaneidade.

A obra é extremamente recomendável a todos aqueles que se interessam pelas questões pós-modernas. Trata-se de uma conversa que trata das dificuldades de relacionamento pessoal da atualidade, em um dos diálogos mais inteligentes e frutíferos sobre o tema já travados na história.

Referências

Bauman, Z. & Raud, R. (2018). A individualidade numa época de incertezas. Rio de Janeiro: Zahar.

Submetido à avaliação em 02 de novembro de 2018; aceito para publicação em 27 de novembro de 2018.

1 Normalização, preparação e revisão textual: Caique Zen (Tikinet) – revisão@tikinet.com.br

2 “Selves” é aqui tomado como o plural de self, que no inglês tem o significado de “eu”, podendo, por extensão, ser entendido como pessoa, personalidade, caráter etc.

3 “A generatividade é um modo de vida cujo propósito é ajudar outras pessoas em sua existência, no cuidado com suas vidas e no volume de seus recursos vitais” (p. 160).

1Normalização, preparação e revisão textual: Caique Zen (Tikinet) – revisão@tikinet.com.br

“Selves” é aqui tomado como o plural de self, que no inglês tem o significado de “eu”, podendo, por extensão, ser entendido como pessoa, personalidade, caráter etc.

“A generatividade é um modo de vida cujo propósito é ajudar outras pessoas em sua existência, no cuidado com suas vidas e no volume de seus recursos vitais” (p. 160).

Referências

Bauman, Z., & Raud, R. (2018). A individualidade numa época de incertezas. Rio de Janeiro: Zahar. [ Links ]

Recebido: 02 de Novembro de 2018; Aceito: 27 de Novembro de 2018

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