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Pro-Posições

On-line version ISSN 1980-6248

Pro-Posições vol.31  Campinas  2020  Epub Apr 22, 2020

https://doi.org/10.1590/1980-6248-2019-0004 

LEITURAS E RESENHAS

A (auto)exploração do sujeito em rede digital: a liberdade em crise?1

The subject (self) exploitation in digital network: freedom in crisis?

iUniversidade La Salle – UNILASALLE, Canoas, RS, Brasil. https://orcid.org/0000-0002-5378-7981,adilsonhabowski@hotmail.com.

iiUniversidade La Salle – UNILASALLE, Canoas, RS, Brasil. http://orcid.org/0000-0002-0204-0757,elaine.conte@unilasalle.edu.br.

Han, Byung-Chul. 2018. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Âyiné,


A obra Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder, de Byung-Chul Han, publicada em 2018 no Brasil pela Editora Âyiné, é dividida em treze capítulos e aborda a crise da liberdade do sujeito pelas novas formas de exploração e submissão em rede digital, provocando coerções em sua própria liberdade ao estar submetido (Han, 2018). Embora o sentimento de liberdade e de insubmissão nos acompanhe em termos de projetos livres e de reinvenção constante, esses mesmos projetos surgem na figura de coerção, ainda mais eficiente em termos de subjetivação e sujeição. Han (2018, p. 9, grifo do autor) alerta que “o eu como projeto, que acreditava ter se libertado das coerções externas e das restrições impostas por outros, submete-se agora a coações internas, na forma de obrigações de desempenho e otimização”. O livro aborda a situação paradoxal dessa questão, visto que a liberdade é antagônica à coerção.

De acordo com a obra, o excesso do capital acaba provocando doenças psíquicas, tais como depressão (solidão emocional pelo isolamento e incapacidade de agir) ou síndromes do esgotamento profissional pela autoexploração, em vista do melhor desempenho na competição com os outros, obrigando o sujeito a trabalhar incansavelmente como um ideal de vida, sem a formação de um nós político. Tal sujeito dominado pela ditadura do capital é explorado em sua própria liberdade e “incapaz de se relacionar livre de qualquer interesse” ou por solicitude (Han, 2018, p. 11). A tese defendida pelo autor reside no fato de que “a liberdade individual é uma servidão na medida em que é tomada pelo capital para a sua própria multiplicação. Assim, o capital explora a liberdade do indivíduo para se reproduzir na livre concorrência” (Han, 2018, p. 13). A rigor, “quem fracassa na sociedade neoliberal de desempenho, em vez de questionar a sociedade ou o sistema, considera a si mesmo como responsável e se envergonha por isso” (Han, 2018, p. 16). Essa lógica peculiar não permite qualquer tipo de resistência ao sistema e torna os explorados depressivos. A análise realizada traz novos elementos apontando que “a política moderna é caracterizada pela emancipação da ordem transcendente, ou seja, das premissas fundamentadas na religião”, tornando a política serva do capital (Han, 2018, p. 17).

O autor considera, no que se refere à transparência, que é uma reivindicação da produção imaterial da informação tornar-se um dispositivo de mais comunicação, produtividade, crescimento e aceleração à vontade, que circula independentemente do contexto. Ressalta ainda que “o segredo, o estranhamento ou a alteridade representam barreiras à comunicação ilimitada. Por isso, em nome da transparência, devem ser desmontados. A comunicação sofre uma aceleração quando se aplaina” (Han, 2018, p. 20). Tal efeito nivelador gera conformidade e uma democracia de espectadores ou consumidores passivos de serviços, isto é, “o eleitor apenas reage de forma passiva à política, criticando, reclamando, exatamente como faz o consumidor diante de um produto ou de um serviço de que não gosta”, e os políticos degradam-se a meros fornecedores, seguidamente investigados e envolvidos em escândalos (Han, 2018, p. 21, grifo do autor). A exposição na rede sem qualquer avaliação crítica gera consequências gravíssimas e crise da liberdade.

Han traz no segundo capítulo as questões emergentes do poder inteligente que se expressa como violência ou repressão, mas não necessariamente excludente ou oposta à liberdade. Ao mesmo tempo, por deixar as pessoas dependentes e viciadas no digital, essa técnica de controle é muito mais eficiente, porque “faz com que as pessoas se submetam ao contexto de dominação por si mesmas. A particularidade da sua eficiência está no fato de que não age através da proibição e da suspensão, mas através do agrado e da satisfação” (Han, 2018, p. 26, grifo do autor). O autor nos convida a repensar a tirania inteligente da comunicação digital que cria necessidades, desejos, preferências, e isso recai sobre nós na forma de (auto)exploração da própria vida. “O poder inteligente lê e avalia nossos pensamentos conscientes e inconscientes. Baseia-se na auto-organização e na otimização pessoal voluntárias. Assim, não precisa superar nenhuma resistência” (Han, 2018, p. 28).

No terceiro capítulo, “A toupeira e a serpente”, Han discute a sociedade disciplinar de reclusão, que deu lugar a outras formas de produção em rede como forma de insistir na dissolução de fronteiras e na coerção por transparência, que coincidem com a abertura à técnica psicopolítica de dominação neoliberal. No quarto capítulo, os escritos de Han voltam-se à reflexão sobre a biopolítica como massa de (re)produção da população que deve ser administrada. “A biopolítica é a técnica de governança da sociedade disciplinar, mas é totalmente inadequada para o regime neoliberal, que, antes de tudo, explora a psique” (Han, 2018, p. 35, grifo do autor). Segundo o filósofo, “a partir do big data é possível extrair não apenas o psicograma individual, mas o psicograma coletivo, e quem sabe até o psicograma do inconsciente. Isso permitiria expor e explorar a psique até o inconsciente” (Han, 2018, p. 36, grifos do autor).

O diálogo do quinto capítulo ressalta “O dilema de Foucault” em relação ao conceito não explorado de biopolítica (vinculado à forma disciplinar do biopoder capitalista – política do corpo). Segundo Han (2018, p. 43, grifo do autor), Foucault “não reconhece que o regime neoliberal de dominação se apropria completamente das tecnologias do eu, nem que a otimização permanente de si como técnica de si neoliberal não seja nada mais do que uma forma eficiente de dominação e exploração”. Han descobre com a virada para a psique e também para a psicopolítica uma inter-relação com os modos imateriais e incorpóreos da produção de otimização estética (corpo se torna um objeto sexy e fitness) ou técnico-sanitários da atualidade. Nas palavras do autor, “o corpo como força produtiva não é mais tão central como na sociedade disciplinar biopolítica. Em vez de superar resistências corporais, processos psíquicos e mentais são otimizados para o aumento da produtividade” (Han, 2018, p. 40, grifos do autor). E acrescenta: “Aqui coincidem a otimização de si e a submissão, a liberdade e a exploração. Esse estreitamento entre a liberdade e exploração na forma de exploração de si escapa ao pensamento de Foucault” (Han, 2018, p. 44).

No sexto capítulo, “A cura como assassinato”, o autor explora e sintetiza as técnicas de dominação de subjetivação mais refinadas, centradas na gestão e otimização de pessoas até o esgotamento. Trata-se de uma lógica da eficiência e desempenho que vende às pessoas um sonho intimamente relacionado aos próprios desejos de realização e otimização de si, que representa a cura terapêutica das fraquezas ou debilidades humanas. Tal controle motivacional do mercado “visa explorar não apenas a jornada de trabalho, mas a pessoa por completo, a atenção total, e até a própria vida. O ser humano é descoberto e tornando objeto de (auto)exploração”, que conduz ao colapso mental e à barbárie da vida pessoal e social (Han, 2018, p. 45). Hoje, as mídias digitais permitem que o nosso consciente seja invadido pelas narrativas mais absurdas, mas sempre favoráveis aos empresários do mercado.

O sétimo capítulo, intitulado “Choque”, refere-se à terapia de choques elétricos como forma de reformatação e reescrita humana, ou seja, um tratamento que “poderia erradicar o mal do cérebro humano e então produzir novas personalidades a partir dessa tábula rasa, que deveria ser a base para seu renascimento como cidadãos-modelo. Assim, concebia seus atos destrutivos como uma espécie de criação” (Han, 2018, p. 49). Na tentativa de erradicar o mal ideológico (comunista de resistência), tais práticas estavam relacionadas à lavagem cerebral, por meio de paralisações traumáticas e aniquilação dos conteúdos psíquicos dirigidas ao outro, com bases em interrogatórios maniqueístas. No livro, o regime neoliberal “opera com o choque; o choque apaga e esvazia a alma, tornando-a indefesa, de modo que o indivíduo se submete voluntariamente a uma reprogramação radical” (Han, 2018, p. 51). O simples ato de curtir lisonjeia a alma e a paralisa, atuando proativamente, constituindo-se numa psicopolítica neoliberal “inteligente que busca agradar em vez de oprimir” (Han, 2018, p. 53).

No capítulo oito, “O amável grande irmão” revela o Estado de vigilância, que é dominado pela aparência de liberdade e comunicação ilimitadas. Por isso, o filósofo defende que “a técnica do poder do regime neoliberal não é proibitiva, protetora ou repressiva, mas prospectiva, permissiva e projetiva. O consumo não se reprime, só se maximiza.… Somos todos compelidos a comunicar e a consumir”, pelo princípio de positividade da estimulação e exposição voluntária (Han, 2018, p. 57). Nesse ponto, traz elementos para uma reflexão de que “a liberdade é sempre explorada. Ao pan-óptico digital falta aquele Grande Irmão que arranca informações contra nossa vontade. Em vez disso, nós nos revelamos, expomo-nos por iniciativa própria” e somos assim também controlados (Han, 2018, p. 57).

No capítulo nove, “O capitalismo da emoção”, o excesso de sentimentos e emoções é enfatizado, partindo de análises conceituais em torno desses debates históricos paradoxais, no sentido de que as expressões da emocionalidade são priorizadas em detrimento da racionalidade do agir humano. Para o autor, esses debates “ignoram que a conjuntura da emoção é uma consequência do processo econômico. Além disso, predomina uma confusão conceitual. Ora se fala de emoção, ora de sensação, ora de afeto”, que são características inenarráveis da comunicação digital, sem uma orientação performática (Han, 2018, p. 59). Como defende Han (2018, p. 66-68), “o emotional design molda emoções e padrões para maximizar o consumo. Hoje, em última instância, não consumimos coisas, mas emoções”, que se desdobram na comunicação tendenciosa da produção social do próprio comportamento, isto é, “um meio muito eficiente de controle psicopolítico do indivíduo”.

No capítulo dez, Han evidencia a “Gamificação” de forma atraente e nos faz refletir sobre os jogos como mecanismos do capitalismo da emoção, capazes de operacionalizar o mundo do trabalho criando mais motivação, no sentido de explorar o homo ludens e o submeter às relações de dominação enquanto joga. Nessa perspectiva, “o tempo livre como tempo para o desenvolvimento pleno do indivíduo colabora para a produção de capital fixo. Assim, o conhecimento é capitalizado, [pois] o aumento do tempo de ócio multiplica o capital humano” como algo totalmente improdutivo de fazer uso do luxo, do supérfluo, enquanto liberdade esvaziada de potencial emancipatório (Han, 2018, p. 71, grifos do autor). De acordo com Han (2018, p. 75), “existem dois modos de pensamento: o que trabalha e o que joga”, e diante dessa diferenciação problematiza as visões de Hegel e de Marx sobre como é regido o princípio do trabalho, tecendo analogias com o campo do espaço-de-jogo-temporal como um espaço-acontecimento.

O capítulo onze trata de uma questão provocadora: “Big data” como forma de controle muito eficiente do panóptico digital de uma comunicação massiva travestida de uma lente transparente e confiável. O imperativo são os dados e a informação que conduz a um totalitarismo digital, uma espécie de fetichismo massivo praticado por meio de “datassexuais” (Han, 2018, p. 83). Agora o novo lema é: “Autoconhecimento através dos números” pelo controle de si na rede digital (Han, 2018, p. 84). Han analisa que a vida pessoal é reproduzida pelas coisas que utilizamos e consumimos cotidianamente em registros eficientes do sistema digital, o que pode influenciar e direcionar as mensagens e gostos em diferentes contextos sociais. “O micro-targeting, como prática da microfísica do poder, é uma psicopolítica movida por dados … sobre o comportamento eleitoral que otimiza o discurso. Cada vez mais, votar e comprar, Estado e mercado, cidadão e consumidor se assemelham” em um grande negócio com os dados pessoais (Han, 2018, p. 87, grifos do autor). O livro recorre ao fato de que “a memória digital se constitui de momentos presentes indiferentes ou, por assim dizer, de momentos zumbis. Falta-lhe esse horizonte temporal estendido que constitui a temporalidade dos viventes”, pois vigora a era dos mortos-vivos ou do saber absoluto dos repositórios digitais (Han, 2018, p. 93, grifos do autor).

No penúltimo capítulo, Han aborda a questão “Para além do sujeito” e articula “uma quebra da certeza dominante que invoca uma constelação do ser completamente diferente. Os acontecimentos são viradas nas quais se realiza uma inversão, uma subversão da dominação. Um acontecimento dá lugar a algo que faltava no estado interior” (Han, 2018, p. 106, grifos do autor). A arte de bem viver ou da experiência formativa plena de sentido enquanto prática de liberdade que recria formas de vida e linguagem se contrapõe à psicopolítica neoliberal do estar submetido ao terror psicológico, isto é, “ela se realiza como uma despsicologização” (Han, 2018, p. 107).

No último capítulo, intitulado “Idiotismo”, o autor aprofunda os estudos da expansão do consumismo irresponsável e da violência mundial que identifica o idiotismo no poder, mas que, ao mesmo tempo, dá

acesso ao completamente Outro. O idiotismo torna acessível ao pensamento um campo de imanência de acontecimentos e singularidades que escapa a qualquer subjetivação e psicologização, [visto que] o pensamento recupera o estado virginal no qual ele se refere a si mesmo.

(Han, 2018, p. 109-110, grifos do autor)

O autor esclarece que a história é constituída por idiotismos desde “Sócrates, que só sabe que nada sabe …. Descartes também é um idiota que põe tudo em dúvida. Cogito ergo sum é um idiotismo. Uma contração interna do pensamento torna possível outro começo” (Han, 2018, p. 109-110). Tendo por base esses pensadores, Han diz que hoje há uma força de inércia que parece ter banido da sociedade esse perfil de idiota desconectado e desinformado, que representa uma prática de liberdade e resistência à aceleração da comunicação conformada com o capital. “Diante da coerção da comunicação e da conformidade … a resistência e a rebeldia da alteridade ou do estranhamento perturbam e retardam a comunicação plana do Mesmo” (Han, 2018, p. 111).

Por uma razão simples, a obra projeta um primoroso debate sobre a Psicopolítica e as novas técnicas de poder e coerção da liberdade humana como um desafio que precisa ser esclarecido em vários segmentos educacionais, sociais, culturais, políticos e institucionais da atualidade. O livro intensifica as discussões sobre a questão da otimização do sujeito em uma sociedade do conhecimento sem fronteiras e da comunicação total, visando reconhecer como esses mecanismos neoliberais funcionam e que subterfúgios poderiam fazer frente a essa tendência à despsicologização por conta de um saber hegemônico.

1Apoio: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS). Normalização, preparação e revisão textual: AndressaPicosque (Tikinet) – revisao@tikinet.com.br

Referências

Han, B.-C. (2018). Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Âyiné. [ Links ]

Recebido: 03 de Janeiro de 2019; Aceito: 28 de Abril de 2019

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