SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.29 issue3Sensibility of Trichoderma spp. isolates to benomyl and iprodioneYield and postharvest storability of onion genotypes grown in lowland author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478On-line version ISSN 1678-4596

Cienc. Rural vol.29 no.3 Santa Maria July/Sept. 1999

https://doi.org/10.1590/S0103-84781999000300004 

INOCULANTE “GRAMINANTE” NAS CULTURAS DE TRIGO E AVEIA

 

INOCULANT “GRAMINANTE” IN WHEAT AND OAT CROPS

 

Ben-Hur Costa de Campos1 Sergiomar Theisen2 Valderi Gnatta3

 

 

RESUMO

Com o objetivo de avaliar o inoculante “Graminante”, foram realizados seis experimentos em área experimental localizada na FUNDACEP FECOTRIGO, Cruz Alta, RS, conduzidos no sistema plantio direto. Na safra 1996, conduziram-se dois experimentos com a cultura do trigo e, na safra 1997, dois com a cultura do trigo e dois com a cultura da aveia. O produto comercial foi testado individualmente e associado à adubação nitrogenada. Na safra 1996, os tratamentos foram: 1) testemunha sem inoculação e sem fertilizante nitrogenado (N); 2) com “Graminante”; 3) com N na semeadura e em cobertura; 4) com “Graminante” + N na semeadura e em cobertura; 5) com “Graminante” + N na semeadura e, 6) com “Graminante” + N em cobertura. Na safra 1997, foram acrescidos dois tratamentos: 7) com N na semeadura e, 8) com N em cobertura. Na safra 1996, foram avaliados, no trigo, o rendimento bruto e líquido dos grãos. Na safra 1997, para a mesma cultura, foram avaliados o número de plantas, de perfilhos e de espigas, a altura de plantas, o teor de nitrogênio total do grão e o rendimento de grãos. Para a cultura da aveia, foram avaliados o número de plantas e perfilhos, a massa verde, a massa seca, o teor de nitrogênio total do grão e o rendimento de grãos com corte e sem corte. O “Graminante” não apresentou resposta agronômica favorável em nenhum dos parâmetros analisados nas culturas do trigo e da aveia.

Palavras-chave: fixação biológica de N2, inoculação, Azospirillum, trigo, aveia.

 

SUMMARY

To evaluate the inoculant “Graminante”, six field experiments were carried out at FUNDACEP FECOTRIGO, in Cruz Alta, RS. In the 1996 cropping season, two experiments were carried out with wheat crop and in the 1997 cropping season two experiments were carried out on wheat and two on oat crop. The commercial product was tested isolated and in association with nitrogen fertilization. In the 1996 cropping season the treatments were as follows: 1) Check without inoculation and without nitrogen fertilizer (N); 2) “Graminante” inoculant; 3) Nitrogen fertilizer applied at the planting date and broadcasting; 4) “Graminante” inoculant + N fertilizer at planting date and broadcasting; 5) “Graminante” inoculant at planting date + N fertilizer broadcasting; 6) “Graminante” inoculant + N at planting date and fertilizer broadcasting. In the 1997 cropping season another two treatments were added: 7) N at planting date and 8) N fertilizer broadcasting. In the 1996 season, both the gross and the net yield weights were evaluate on the wheat crop. In the 1997 season, and for the same crop, the parameters evaluated were: number of plants, of tillerings and of spikes, plant height, the total nitrogen content of the grain and grain yield. On the oat crop the parameters evaluated were: number os plants and tillerings, green matter weight, dry matter weight, total nitrogen content in the grain and grain yield, both with and without cutting. The inoculant “Graminante” did not show any favourable agronomical answer to any of the parameters analized for both the wheat and the oat crops.

Key words: nitrogen biological fixation, inoculation, Azospirillum, wheat, oat.

 

 

INTRODUÇÃO

Os microrganismos fixadores de N2 em vida livre, também chamados diazotróficos, apesar de importantes em número, em geral contribuem pouco em N fixado, devido à pouca quantidade de substrato como fonte de energia existente na biosfera circundante (RUSCHEL & PONTES, 1992). O efeito dessas bactérias está, principalmente, na promoção do crescimento radicular das plantas, pela produção de substâncias promotoras de crescimento (OKON & LABANDERA-GONZALEZ, 1994).

O grande interesse na fixação biológica em gramíneas é devido à maior facilidade de aproveitamento de água das mesmas em relação às leguminosas, pela maior efetividade fotossintética. As gramíneas apresentam um sistema radicular fasciculado, tendo vantagens sobre o sistema pivotante das leguminosas para extrair água e nutrientes do solo e por serem as gramíneas largamente utilizadas como alimento pelo homem. Por isso, mesmo que apenas uma parte do N pudesse ser fornecida pela associação com bactérias fixadoras, a economia em adubos nitrogenados seria igual ou superior àquela verificada com as leguminosas que podem ser auto- suficientes em nitrogênio (DÖBEREINER, 1992).

O estudo de fixadoras associadas com gramíneas é bastante novo. A fixação de N em Paspalum notatum foi determinada em 1977 e estimada em 40 kg/ha/ano, suficiente para manter essa espécie o ano inteiro sem adição de fertilizantes nitrogenados. A bactéria Azotobacter paspalli é a responsável pela fixação e vive na superfície das raízes (DÖBEREINER, 1992).

Além das bactérias fixadoras que ocorrem na superfície de raízes, têm sido identificadas várias espécies de Azospirillum, que ocorrem na superfície e no interior de raízes de várias plantas, especialmente gramíneas forrageiras e cereais (DÖBEREINER & PEDROSA, 1987). Essas bactérias, em regiões tropicais e subtropicais, ocorrem em números entre 103 a 106 por grama de solo, e em números ainda maiores na superfície de raízes de cereais e gramíneas forrageiras (DÖBEREINER et al., 1990). Esse aumento é mais pronunciado dentro das raízes e ocorre junto com o pico de fixação de nitrogênio. Dentro das raízes, a bactéria fica protegida de fatores negativos do solo, como o excesso de O2, a competição com outros organismos, a acidez do solo e a deficiência de fósforo. Esta interação constitui um estágio intermediário entre a associação de A. paspali, que vive na superfície de raízes, e a simbiose das leguminosas com o rizóbio, onde ocorrem modificações anatômicas e fisiológicas dos tecidos do hospedeiro, em resposta à presença da bactéria e perfeita integração funcional entre os dois organismos (DÖBEREINER & PEDROSA, 1987).

Segundo ALVAREZ et al. (1996), as bactérias do gênero Azospirillum, além de fixadoras assimbióticas de N2, também são consideradas rizobactérias promotoras de crescimento de plantas comumente associadas com raízes de cereais. Dentro de cada espécie deste gênero, existem estirpes com comportamento diferente. Esses autores, testando estirpes de Azospirillum brasilense, constataram que a estirpe Sp 245 foi mais hábil em promover o rápido crescimento de plântulas de trigo em condições de estresse hídrico do que outras. Esta característica torna-se importante quando se deseja inocular essa bactéria em solos já colonizados, buscando-se estirpes com maior eficiência.

DÖBEREINER et al. (1990) citam que, como no caso das leguminosas, o efeito da inoculação de cereais com essas bactérias depende do estabelecimento de estirpes selecionadas sob condições de campo. Este estabelecimento torna-se difícil em solos de regiões tropicais, onde a incidência de Azospirillum é relativamente grande e não há especificidade nas associações de gramíneas com essa bactéria. Dessa forma, a inoculação com estas bactérias não parece um meio muito promissor de incrementar a fixação de N2 em gramíneas (DÖBEREINER, 1977).

Recentemente, têm sido introduzidos no Brasil inoculantes contendo cepas de Azospirillum, com o nome comercial “Graminante”, havendo, contudo, carência de informações relativas ao seu potencial agronômico e retorno econômico para o agricultor.

O objetivo deste trabalho foi testar a eficiência agronômica do produto comercial “Graminante” nas culturas de trigo e aveia.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os experimentos foram instalados a campo, em áreas experimentais da FUNDACEP FECOTRIGO, Cruz Alta, RS. Na safra 1996, foram instalados dois experimentos com a cultura de trigo, um sobre resteva de feijão e outro sobre resteva de nabo forrageiro. Na safra 1997, foram conduzidos quatro experimentos, dois com a cultura do trigo e dois com a cultura da aveia (Avena strigosa Schreb.), sendo que um experimento de cada cultura foi em resteva de soja e o outro em resteva de milho.

O solo das áreas experimentais é classificado como latossolo vermelho-escuro, fase argilosa, pertencente à unidade de mapeamento Passo Fundo, cujas principais características são apresentadas na tabela 1.

O produto comercial “Graminante” para trigo e aveia teve como origem a Empresa Laboratórios Alquimia S.A., com sede na Argentina. Segundo o fabricante, trata-se de um inoculante, composto por bactérias do gênero Azospirillum e tendo como veículo carbonato de cálcio e carbonato de magnésio. A aplicação do produto foi feita a seco, conforme recomendação do fabricante, e realizada em laboratório imediatamente antes da semeadura. Em ambas as culturas, foi utilizada a dose de 200g do produto comercial por 50kg de sementes. O fabricante não especifica o número de bactérias por grama de inoculante.

Anteriormente à semeadura, a área foi dessecada com 600g/ha de i.a. sal isopropilamina de glifosate e, como adjuvante, 1% de óleo mineral e 2% de sulfato de amônio. A semeadura foi realizada mecanicamente no sistema plantio direto, com espaçamento de 0,17m entre linhas para ambas as culturas, iniciando-se pelos tratamentos que não continham inoculante, para diminuir os riscos de contaminação.

O trigo, cultivar CEP 27, teve a semeadura, na safra 1996, realizada em 25/06/96 na resteva de feijão e em 17/07/96 na resteva de nabo forrageiro. Na safra 1997, esta ocorreu em 12/06/97 na área com resteva de soja e em 13/06/97 na resteva de milho. A aveia preta, cultivar comum, foi semeada em 21/05/97 na área com resteva de soja e em 23/06/97 na área com resteva de milho.

Em todos os experimentos, as parcelas tiveram 3,0m de largura e 5,0m de comprimento, com quinze linhas das culturas. As parcelas tiveram bordaduras de 0,50m nas extremidades e uma linha da cultura em cada lateral. Foram deixadas ruas com 1,0m entre as parcela e de 2,0m entre os blocos.

O delineamento experimental foi de blocos ao acaso com cinco repetições. Na safra 1996, os tratamentos foram os seguintes: 1) Testemunha sem inoculação e sem adubação nitrogenada; 2) Graminante; 3) Fertilizante nitrogenado na semeadura e em cobertura; 4) Graminante + fertilizante nitrogenado na semeadura e em cobertura; 5) Graminante + fertilizante nitrogenado na semeadura e, 6) Graminante + fertilizante nitrogenado em cobertura. Na safra 1997, foram incluídos os tratamentos: 7) somente com fertilizante nitrogenado na semeadura e 8) somente fertilizante nitrogenado em cobertura.

Nos tratamentos com adubação nitrogenada na cultura do trigo, aplicaram-se 15kg/ha de N na semeadura e 30kg/ha em cobertura, no início do perfilhamento, na safra 1996 e, 45kg/ha, na safra 1997. Na cultura da aveia, foram aplicados 20kg/ha de N na semeadura e 50kg/ha em cobertura, no início do perfilhamento. O adubo nitrogenado usado foi a uréia.

Na safra 1996, foram avaliados, no trigo, o rendimento bruto e líquido dos grãos. O cálculo do rendimento líquido foi baseado no custo do inoculante (R$ 10,00/ha), da uréia (R$ 0,37/kg) e da aplicação do adubo (R$ 3,35/ha), transformados em kg de trigo (R$ 0,12/kg) descontados do rendimento bruto, nos respectivos tratamentos. Na safra 1997, para a mesma cultura, foram avaliados o número de plantas, de perfilhos, de espigas e a altura de plantas. Também nesta safra, foi avaliado o teor de nitrogênio total do grão pelo método Kjeldahl (TEDESCO et al., 1985), no Laboratório de Análise de Solos, Adubos, Corretivos e Tecido Vegetal da FUNDACEP FECOTRIGO. O rendimento de grãos foi avaliado colhendo-se 13 linhas centrais, correspondendo a 8,84m2, expressando-se o resultado em kg/ha a 13% de umidade.

Durante o estágio vegetativo da cultura da aveia, foram avaliados o número de plantas e o número de perfilhos. Quando a aveia atingiu cerca de 30cm de altura, ponto considerado para primeiro corte ou pastejo, a parcela foi dividida ao meio, ficando cada subparcela com 2,5m de comprimento. Em uma subparcela, foi feito o corte da aveia a uma altura de 5 a 7cm em uma área de 1m2 para avaliação da produção da massa verde e massa seca por área. Posteriormente, a aveia de toda a subparcela foi cortada. Este procedimento ocorreu em 14/08/97 na área com resteva de soja e em 04/09/97 na área com resteva de milho. O rendimento de grãos foi avaliado tanto na subparcela mantida sem corte como naquela com corte, colhendo-se todas as 15 linhas da cultura, correspondendo a 6,68m2 em cada subparcela, expressando-se o resultado em kg/ha a 13% de umidade. Também foi avaliado o teor de nitrogênio total do grão.

Os resultados foram avaliados pela análise da variância e as médias dos tratamentos foram comparadas pelo teste de Duncan a 5% de significância.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

1. Efeito na cultura do trigo

Na safra 1996 (tabela 2), na área em que o trigo foi cultivado em resteva de feijão, não houve efeito da inoculação com Graminante, uma vez que o rendimento bruto de grãos de trigo não diferiu entre os tratamentos testemunha sem inoculação e sem adubação nitrogenada (T1) e com o inoculante Graminante (T2), nem entre os tratamentos com N mineral completo (T3) e com inoculação mais N mineral completo (T4). Com relação ao rendimento líquido, na mesma resteva, não houve diferenças estatísticas entre os tratamentos já que aqueles que produziram mais foram os de maior custo, nivelando-se com os demais. No experimento em que o trigo foi cultivado em resteva de nabo forrageiro também não houve diferenças no rendimento de grãos entre os tratamentos T1 e T2 e os tratamentos T3 e T4, confirmando a ausência de resposta à aplicação do inoculante. Nesta área, verifica-se que os tratamentos, que apresentaram maior rendimento bruto, continuaram a apresentar maior rendimento líquido, devido ao maior teto de rendimento da área.

 

 

Na safra 1997 (tabela 3), não houve diferenças estatísticas entre os tratamentos para o número de plantas, número de perfilhos e altura de plantas em ambos os experimentos. Para número de espigas, houve diferenças entre os tratamentos apenas na área com resteva de milho, com destaque para aqueles que receberam as maiores doses de nitrogênio mineral, onde o melhor tratamento foi o Graminante + fertilizante nitrogenado na semeadura e em cobertura (T4), diferindo da testemunha (T1), Graminante (T2) e fertilizante somente na semeadura (T5). Com relação ao produto comercial Graminante, verificou-se não haver resposta deste, pois não houve diferença estatística na comparação dos tratamentos que receberam a mesma dose de N mineral com e sem Graminante.

O teor de nitrogênio no grão, tanto na área de resteva de soja como na de resteva de milho, diferiu entre os tratamentos, sendo que as diferenças observadas estão relacionadas à quantidade de adubo nitrogenado aplicada e não ao produto Graminante. Aqueles tratamentos que receberam as maiores doses de N apresentaram maior teor de nitrogênio total no grão.

O rendimento de grãos no experimento instalado em área de resteva de soja não apresentou diferenças estatísticas entre os tratamentos. Já no experimento com resteva de milho, houve diferenças entre os tratamentos, com destaque novamente para as maiores doses de nitrogênio mineral. Com relação ao Graminante, este não apresentou resposta para rendimento de grãos, pois os tratamentos com dose equivalente de N mineral, com e sem o produto, não apresentaram diferenças entre si, verificando-se, inclusive, que o tratamento que recebeu somente Graminante (T2), apresentou um rendimento inferior à testemunha.

2. Efeito na cultura da aveia

Os resultados referentes à cultura da aveia em resteva de soja e em resteva de milho encontram-se na tabela 4.

Na área de resteva de soja, destacaram-se na produção de massa verde e de massa seca os tratamentos que receberam a dose completa de nitrogênio mineral (T3 e T4). O produto Graminante não aumentou a produção de fitomassa, pois não houve diferença estatística na comparação dos tratamentos que receberam doses equivalentes de nitrogênio mineral com e sem o produto. Na resteva de milho, as diferenças foram maiores entre os tratamentos do que na resteva de soja, quando novamente os tratamentos que receberam a dose completa de nitrogênio mineral (T3 e T4) tiveram produções bem superiores aos demais tratamentos, principalmente de massa verde. Os tratamentos que não receberam N mineral tiveram as menores produções (T1 e T2), não diferindo em massa seca dos tratamentos que somente receberam N mineral na semeadura. Conforme já observado na resteva de soja, não houve resposta em aumento de fitomassa de aveia pelo uso do produto Graminante na resteva de milho.

O teor de N total no grão foi semelhante entre os tratamentos na área de resteva de soja. Na área de resteva de milho, houve diferenças significativas entre os tratamentos, mas estas diferenças estão relacionadas à quantidade de adubo nitrogenado aplicada e não ao produto Graminante, sendo que os tratamentos que receberam as maiores doses de N apresentaram maior teor de nitrogênio total no grão.

Houve menor rendimento de grãos na área de resteva de soja para aqueles tratamentos que receberam as maiores doses de N mineral, principalmente para o tratamento 4 (Graminante + fertilizante mineral na semeadura e em cobertura). Este resultado deveu-se, provavelmente, ao acamamento da cultura, ocasionado por fortes chuvas e ventos ocorridos no período, principalmente naqueles tratamentos com maior produção de fitomassa e, portanto, mais suscetíveis ao acamamento. Este comportamento foi observado tanto na área sem corte como naquela com corte, onde houve redução severa na produção de grãos. O produto Graminante não afetou a produção de grãos, confirmando os resultados obtidos com a cultura do trigo.

Na área de resteva de milho, o rendimento de grãos foi extremamente baixo, provavelmente em conseqüência das fortes chuvas e ventos que acamaram a cultura, provocando a debulha das espigas no campo, prejudicando a produção final de grãos. Como a incidência de chuvas e ventos ocorreu principalmente na fase final do ciclo da cultura, o experimento sobre resteva de milho foi o mais prejudicado, uma vez que ele foi colhido cerca de 25 dias após o experimento sobre resteva de soja. Além disso, os menores rendimentos, tanto de aveia como de trigo, em área de resteva de milho, quando comparada à resteva de soja, podem ser atribuídos à alta relação carbono/nitrogênio da palhada de milho, que causa a imobilização microbiana do nitrogênio mineral do solo, retardando a disponibilidade deste elemento para as culturas posteriores, principalmente as gra míneas. Entretanto, este comportamento não ocorreu na produção de massa seca da aveia, pois esta foi ligeiramente maior na área de resteva de milho quando comparada à área de resteva de soja. Mesmo assim, conforme já mencionado, neste parâmetro houve uma maior resposta à aplicação de N na resteva de milho do que na resteva de soja. Salienta-se que a comparação das restevas foi prejudicada pelas diferentes épocas de semeadura e corte nas duas áreas, podendo influenciar o comportamento da cultura.

DUTTO et al. (1996) citam que a aveia é sensível à inoculação com Azospirillum, embora sejam variáveis as respostas da cultura à inoculação. Estes autores não encontraram resposta da aveia ao uso da inoculação em experimento no campo, além da produção de raízes e da parte aérea das plantas inoculadas terem sido inferiores à testemunha sem inoculação.

FAGES (1994), com base em uma ampla revisão da literatura concernente ao uso de inoculantes à base de Azospirillum em experimentos de campo, enfatiza que o uso agronômico desta bactéria foi extensivamente testado durante o final dos anos 70 e nos anos 80, mostrando os primeiros resultados promissores no desenvolvimento das plantas. Entretanto, o autor salienta que a análise global dos experimentos de campo, durante este período, conduz ao entendimento de que apesar de vários resultados positivos, a falta de consistência dos mesmos impede um significativo desenvolvimento comercial de produtos à base de Azospirillum. Para este autor, é necessária uma mudança nos programas de pesquisa, os quais devem enfocar prioritarimente o estudo da associação Azospirillum-planta, permitindo aumento significativo do conhecimento básico da genética e fisiologia desta espécie e dos mecanismos moleculares de interação com as raízes. Neste mesmo sentido, SUMNER (1990) relata que, apesar do número expressivo de trabalhos, falta clareza com relação aos mecanismos que resultam no melhor crescimento e performance da planta hospedeira e a ausência de resposta é muitas vezes observada no campo. Por outro lado, DIDONET et al. (1996) citam que vários resultados experimentais têm mostrado efeitos benéficos expressivos da inoculação em sementes de trigo com a estirpe 245 de Azospirillum brasilense, resultando em aumento de produtividade de grãos, principalmente relacionado à presença da bactéria no interior da raiz do trigo e não na superfície radicular. Em trabalho realizado no campo, os mesmos autores concluíram que os inoculantes à base de turfa em pó das estirpes de Azospirillum brasiliense 245 e JA04 promoveram maior acúmulo de massa seca total da planta de trigo, no período compreendido entre 20 dias após a antese e a maturação. Todavia, apenas a inoculação com a estirpe JA04 resultou em aumento na produção de grãos em relação à testemunha sem nitrogênio.

Um dos aspectos que deve merecer a atenção permanente da pesquisa refere-se à seleção de estirpes adaptadas às condições locais e às culturas e cultivares usados na região (DÖBEREINER & PEDROSA, 1987; MARTIN & DIDONET, 1996; SAUBIDET & BARNIEX, 1996). É preciso testar as estirpes e buscar aquelas melhor adaptadas a cada região, em termos de clima e sistema de manejo e posteriormente, introduzi-las no produto comercial Graminante, pois a estirpe presente, além de não especificada pelo fabricante, não foi eficiente. Uma vantagem verificada no produto é a sua formulação. O veículo a seco, o qual facilita a aplicação do produto na semente, se associado a estirpes eficientes, certamente, permitirá uma maior aceitação por parte do agricultor.

 

CONCLUSÃO

O produto comercial “Graminante” não é eficiente nas culturas de trigo e aveia.

 

AGRADECIMENTOS

Ao funcionário Jorge Antônio de Moraes, demais funcionários, colegas e estagiários que colaboram para realização deste trabalho. À AZOTEC pelo financiamento do trabalho na safra 1997 e pela bolsa de iniciação científica do aluno Sergiomar Theisen.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVAREZ, M.I., SUELDO, R.J., BARASSI, C.A. Effect of Azospirillum on coleoptile growth in wheat seedlings under water stress. Cereal Research Communications, Szeged, v. 24, n. 1, p. 101-107, 1996.        [ Links ]

DIDONET, A.D., RODDRIGUES, O., KENNER, M.H. Acúmulo de nitrogênio e de massa seca em plantas de trigo inoculadas com Azospirillum brasiliense. Pesquisa Agropecuária Brasileira, Brasília, v. 31, p. 645-651, 1996.        [ Links ]

DÖBEREINER, J. Fixação de nitrogênio em gramíneas. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Campinas, v. 1., n. 1, p. 1-9, 1977.        [ Links ]

DÖBEREINER, J. Fixação de nitrogênio em associação com gramíneas. In.: CARDOSO, E.J.B.N., TSAI, S.M., NEVES, M.C.P. Microbiologia do Solo. Campinas: SBCS, 1992. p. 173-180.        [ Links ]

DÖBEREINER, J., PEDROSA, F.O. Nitrogen-fixing bacteria in nonleguminous crop plants. Madison: Science Tech, 1987, 155 p.        [ Links ]

DÖBEREINER, J., PAULA, M.A. de, MONTEIRO, E.M.S. A pesquisa em microbiologia do solo no Brasil. Revista Brasileira de Biologia, Rio de Janeiro, v. 50, p. 841-854, 1990.        [ Links ]

DUTTO, P., LABANDERA, C., CANZANI, F. Inoculación de Avena sp. con Azospirillum. In: REUNIÓN LATINOAMERICANA DE RHIZOBIOLOGÍA, 28., Santa Cruz de la Sierra, 1996. Memorias. Santa Cruz de la Sierra: Asociación Latinoamericana de Rhizobiología, 1996, 347 p. p. 291-292.        [ Links ]

FAGES, J. Azospirillum inoculants and field experiments. In: OKON, Y. Azospirillum/plant associations. Boca Raton: CRC, 1994. p. 87-109.        [ Links ]

MARTIN, C.C.G., DIDONET, A.D. Acumulación de nitrito y N2O en aislados de Azospirillum sp. de raíces de trigo (Triticum aestivum). In: REUNIÓN LATINOAMERICANA DE RHIZOBIOLOGÍA, 28., Santa Cruz de la Sierra, 1996. Memorias: Santa Cruz de la Sierra, Asociación Latinoamericana de Rhizobiología, 1996. 547 p. p. 291-292.        [ Links ]

OKON, Y., LABANDERA-GONZALEZ, C.A. Agronomic applications of Azospirillum: an evaluation of 20 years wordwide field inoculation. Soil Biology and Biochemistry, Oxford, v. 26, p. 1591-1601, 1994.        [ Links ]

RUSCHEL, A.P., PONTES, M.C.F. Fixação biológica de nitrogênio por microrganismos assimbióticos. In.: CARDOSO, E.J.B.N., TSAI, S.M., NEVES, M.C.P. Microbiologia do Solo. Campinas: SBCS, 1992. p. 181-200.        [ Links ]

SAUBIDET, M.I., BARNIEX, A.J. Crecimiento y fijación de nitrógeno en plantas de trigo con Azospirillum sp. In: REUNIÓN LATINOAMERICANA DE RHIZOBIOLOGÍA, 28., Santa Cruz de la Sierra, 1996. Memorias. Santa Cruz de la Sierra, Asociación Latinoamericana de Rhizobiología, 1996. 547 p. p. 533-535.        [ Links ]

SUMNER, M.E. Crop Responses to Azospirillum inoculation. Advances in Soil Science, New York, v. 12, p. 53-123, 1990.        [ Links ]

TEDESCO, M., WOLKWEISS, S.J., BOHNEN, H. Análise de solos, plantas e outros materiais. Porto Alegre: UFRGS, 1985. 188 p. Boletim Técnico, 20.        [ Links ]

 

 

1 Engenheiro Agrônomo, Mestre, Pesquisador da Fundação Centro de Experimentação e Pesquisa Fecotrigo (FUNDACEP FECOTRIGO), RS 342, km 14, CP 10, 98100-970. Cruz Alta, RS. E-mail: fundacep@azcomnet.com.br. Autor para correspondência.

2 Aluno do Curso de Agronomia, Universidade de Cruz Alta. Cruz Alta, RS. Bolsista do CIEE.

3 Técnico Agrícola, FUNDACEP FECOTRIGO.

Recebido para publicação em 20.04.98. Aprovado em 11.11.98

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License