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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478On-line version ISSN 1678-4596

Cienc. Rural vol.34 no.3 Santa Maria May/June 2004

https://doi.org/10.1590/S0103-84782004000300043 

RELATO DE CASO
CLÍNICA E CIRURGIA

 

Artrodese do carpo em gatos associada à hidroxiapatita

 

Arthrodesis of the carpus in cats associeted with hydroxyapatite

 

 

Francisco de Assis Dórea NetoI; João Guilherme Padilha FilhoII, 1; Arianne Pontes OriáI; Juliana Maziero FurlaniI; Luís Alberto dos SantosIII

IPós-graduando em Cirurgia Veterinária, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Universidade Estadual Paulista (UNESP) Jaboticabal
IIProfessor Assistente, Doutor, FCAV, UNESP Jaboticabal. Via de Acesso Prof. Paulo Donato Castellane Km 5, 14884-900, Jaboticabal, São Paulo, Brasil. E-mail: padilha@fcav.unesp.br, Tel 55 16 32092626, Fax: 551632024275
IIIProfessor Doutor Assistente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 


RESUMO

Realizaram-se artrodeses carpais em dois gatos como forma de tratamento para alterações severas na articulação carpiana. A hidroxiapatita foi empregada para preenchimento do espaço articular do carpo. Os animais foram encaminhados ao Serviço de Ortopedia do Hospital Veterinário, UNESP, Campus de Jaboticabal, São Paulo - Brasil. O animal 1, Siamês, 10 anos de idade, apresentava apoio inadequado do membro torácico esquerdo, dor, hiperextensão, instabilidade, luxação, degeneração articular e osteartrite da articulação radiocárpica. O animal 2, sem raça definida, 8 meses de idade, apresentava apoio inadequado do membro torácico direito, hiperflexão da articulação cárpica, contração dos tendões da região carpiana, rotação externa do olécrano e o membro voltado para dentro. Foram aplicados fixadores esqueléticos externos (tipo IIb) com barras de polimetilmetacrilato, em ambos os casos. As avaliações clínicas e radiográficas após os procedimentos, demonstraram que a hidroxiapatita é uma alternativa promissora como substituto para os enxertos ósseos.

Palavras-chave: artrodese, carpo, gato, hidroxiapatita, fusão óssea.


ABSTRACT

Severe disorders of the carpus in two cats were treated with arthrodesis. Hydroxyapatite was usage in filling up of the joint space in the carpus. Both cats were sent to the Orthopedic Service of the Veterinary Hospital, UNESP, Jaboticabal, São Paulo - Brazil. The first cat, a Siamese, 10 years old, showed hyperextension movements and luxation of the carpus joint and pain with inadequate support of the left thoracic limb. It was also observed joint degeneration and osteoarthritis. The second animal, a domestic shorthair, 8 months of age, showed inadequate support of the right thoracic limb with hyperflexion of the carpus joint and contractures of the carpus flexor tendons. A modified trans-articular external skeletal fixator (tipe IIb) with methylmethacrylate bars was utilized in these cases. The clinical and radiographic evaluations of the joints after the surgical procedure proved that the hydroxyapatite can be used as an promising alternative to cancellous bone grafts.

Key words: arthrodesis, cat, carpus, hydroxyapatite, bone fusion.


 

 

INTRODUÇÃO

Define-se artrodese como a remoção do movimento articular por procedimento cirúrgico e formação de unidade óssea sólida (LESSER, 1993; TURNER & LIPOWITZ, 1996). É considerado procedimento relevante no salvamento do membro, sendo indicado para afecções dolorosas, instabilidade e perda da função articular (JOHNSON, 1995; TURNER & LIPOWITZ, 1996).

As cerâmicas de fosfato de cálcio, em especial a hidroxiapatita, foram concebidas para a remodelação e reconstrução de defeitos ósseos. As propriedades de biocompatibilidade, bioatividade e osteocondução destas, permitem que possam ser implantadas em sítios ósseos, sem indução de resposta imunológica (LEGEROS, 1991). O objetivo deste relato foi demonstrar a utilização da hidroxiapatita, como substituto do enxerto ósseo em artrodeses do carpo em dois gatos.

 

RELATO DOS CASOS

Caso 1: gato da raça Siamês, macho, não castrado, com 10 anos de idade, 5,0 kg, apresentando afuncionalidade do membro torácico esquerdo, cujo tempo de ocorrência era desconhecido. Ao exame clínico, verificaram-se movimentos de hiperextensão, instabilidade radiocárpica, dor à palpação, abscesso próximo a região da articulação carpiana e ausência de alterações em nervos periféricos. Ao exame radiográfico, observou-se luxação radiocárpica, degeneração articular e osteoartrite.

Caso 2: gato sem raça definida, macho, não castrado, com oito meses de idade, 3,0kg, com o membro torácico direito afuncional, devido à união inadequada de fratura do rádio e ulna. Ao exame clínico, verificou-se contratura de tendões flexores na região da articulação radiocárpica, devido à aplicação da bandagem de Velpeau. Observou-se, ainda, rotação externa do olécrano, membro voltado para dentro e lesão cutânea na região articular. Não houve evidências de alterações em nervos periféricos.

As abordagens cirúrgicas das articulações foram realizadas conforme a descrição de PIERMATTEI (1993). Foi observado, no gato do caso 1, extensa fibrose, degeneração da cartilagem, não havendo sinais de infecção articular. As faces articulares, em ambos os casos, foram removidas com auxílio de curetas e freza elétricaa. Ato contínuo, adicionou-se a hidroxiapatitab, em quantidade suficiente para preencher o defeito produzido pela curetagem.

As articulações foram anguladas em extensão, em ângulos de 175o e 180o graus, para os casos 1 e 2, respectivamente. A estabilização óssea, para ambos os casos, foi realizada mediante o emprego de fixador esquelético externo do tipo IIb, adaptado de PIERMATTEI & FLO (1997), aplicando-se pino de rosca central de 2,5mm no rádio proximal e pinos de Schanzc de 2,0mm, sendo um distal ao rádio e dois nos metatarsianos. Para o caso 2, foram utilizados três pinos de Schanzc nos metacarpianos, conectados por polimetilmetacrilato. No pós-cirúrgico, empregaram-se bandagens acolchoadas para proteção do membro e do fixador e foi administrado cetoprofenod (1,0mg/kg a cada 24 horas), pela via subcutânea, durante três dias; morfinae (0,1mg/kg), pela via intramuscular, durante três dias e ceptiofurf (2.2mg/kg, a cada 24 horas), pela via subcutânea, durante 10 dias consecutivos.

 

RESULTADOS

Durante o período de acompanhamento dos animais, não foram observadas formações de fístulas ou exsudato purulento. No pós-operatório imediato, notou-se edema intenso na extremidade do membro e em torno dos pinos, com decréscimo nos três dias subseqüentes. Compressas quentes e frias foram administradas como terapia coadjuvante. Já os fixadores esqueléticos externos foram bem tolerados pelos animais havendo apenas, permanecido ligeira rotação no membro no gato do caso 2.

Nas análises radiográficas do caso 1, aos 30 dias, a articulação apresentava sinais de proliferação óssea, mas, a fusão da articulação, só foi observada aos 60 dias (Figura 1a e 1d). Relativamente ao fixador esquelético externo, foi observado afrouxamento do pino de rosca central aos 60 dias. No caso 2, aos 30 dias observou-se secreção serosa em torno dos pinos de fixação com movimentação dos mesmos. A análise radiográfica, neste período, constatou o afrouxamento de todos os pinos de fixação, com lesões de reabsorção óssea em torno dos mesmos e evidenciado a união óssea da articulação (Figura 1c e 1b).

 

 

Os implantes metálicos foram removidos após a confirmação da união óssea aos 60 e 30 dias respectivamente, para os casos 1 e 2. No caso 1, aos 90 dias, foi observado melhora no apoio, ausência de dor e na avaliação radiográfica, visibilizou-se a incorporação do excedente da hidroxiapatita e o fechamento dos orifícios referentes aos pinos de fixação. No caso 2, a despeito da correção cirúrgica, observou-se a persistência da rotação inicial do cotovelo, tendo sido recomendado ao proprietário procedimento de osteotomia corretiva do rádio e ulna.

 

DISCUSSÃO

A impossibilidade de correção das alterações resultantes, do processo degenerativo no caso 1 e da deformidade causada pela má-união da fratura do rádio e ulna, além da contratura dos tendões, no caso 2, tornaram as artrodeses necessárias, haja vista, que tal procedimento, conforme descrito por PENWICK (1987), LESSER (1993), JOHNSON (1995) e MOAK et al. (2000), é recomendado para processos que cursam com dor crônica, instabilidade e perda funcional carpiana, podendo restaurar a funcionalidade do membro.

Atribui-se o afrouxamento nos pinos de fixação óssea a complicações de sobrecarga aplicada sobre os mesmos (LESSER, 1993; OLMSTEAD et al., 1995). LESSER (1993) salienta, ainda, que as estruturas mecânicas dos membros são arquitetadas para promover movimentação articular, desta forma, trabalham contra a imobilização no ponto de fixação.

A união óssea obtida aos 60 e 30 dias para os casos 1 e 2, respectivamente, pode ser explicada pela diferença etária entre os animais, qualidade óssea, alimentação e atividade dos mesmos. No entanto, o tempo para a união óssea em artrodeses pode ser variável, pois, segundo JOHNSON (1995), pode ocorrer entre 4 e 8 semanas. Os tempos de união óssea obtidos nos dois casos foram semelhantes aos achados de JOHNSON & BELENGER (1980) e GRUMADAS (1987), em artrodeses carpais experimentais em cães com utilização de enxerto ósseo. Tal fato pode ser atribuído a capacidade de osteotransdutividade da hidroxiapatita, que implicaria em biodegradação e substituição desta por novo osso de forma simultânea (CARRODEGUAS et al., 1999). Embora sejam realizadas artrodeses em gatos na prática veterinária existem poucos relatos nesta espécie. MOAK et al. em 2000, ao relatar artrodeses de cotovelo em três gatos, utilizando enxerto ósseo autógeno verificaram, ainda, que os animais retornaram à normoatividade num período de 5 a 10 semanas não especificando o exato período de união óssea.

A hidroxiapatita foi preconizada para o preenchimento do espaço articular criado pela curetagem, tomando como prerrogativa a freqüente aplicação desta na medicina e odontologia e por esta ser um dos materiais mais biocompatíveis conhecidos (BLOKHUIS et al., 2000). Atribui-se esta característica à estrutura de cristal hexagonal e à similaridade com a fase mineral do tecido ósseo, além da porosidade da biocerâmica que influencia na sua osteocondutividade (BLOKHUIS et al., 2000), por servir de arcabouço para migração de vasos sangüíneos e deposição de novo osso. Fato este que também foi descrito por STEVESON (1993), PARKER (1995) e FOX (1983) relativamente aos enxertos ósseos.

Apesar da extensa e freqüente aplicabilidade da hidroxiapatita na medicina humana e odontologia, na medicina veterinária a sua aplicação restringe-se, quase que exclusivamente, aos procedimentos experimentais, com a sua implantação em diversos sítios, mas, visando apenas à avaliação da sua biocompatibilidade. Esses estudos ressaltaram, também, resultados satisfatórios com relação à incorporação da hidroxiapatita, osteointegração e crescimento ósseo entre a cerâmica e o osso hospedeiro (DACULSI et al., 1989; FULLER et al., 1996; DELECRIN et al., 1997).

 

CONCLUSÃO

Tendo em vista os resultados obtidos e os dados da literatura sobre o comportamento biológico da hidroxiapatita, esta passa a apresentar-se como um substituto ósseo promissor na prática cirúrgica de pequenos animais.

 

FONTES DE AQUISIÇÃO

a Micro retifica elétrica Dremelâ
b Biosynthâ (Biosynth LTDA, granulometria < 177 micra)
c Pinos meios de rosca de perfil negativo. Biomecânica –SP
d Ketofen® Meryal
e Dimorf®Lab. Cristália
f Exenel®Shering Plung Veterinária

 

AGRADECIMENTO

A FAPESP processos no 00/07715-5 e 00/12655-1. Ao Prof. Dr. Júlio Carlos Canola pela execução dos exames radiográficos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação 02.10.02
Aprovado em 06.08.03

 

 

1 Autor para correspondência.

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