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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478On-line version ISSN 1678-4596

Cienc. Rural vol.38 no.1 Santa Maria Jan./Feb. 2008

https://doi.org/10.1590/S0103-84782008000100042 

NOTA
BIOLOGIA

 

Superação da dormência de sementes de Schinopsis brasiliensis

 

Dormancy loss in seed of Schinopsis brasiliensis

 

 

Maria da Conceição Prado de OliveiraI, 1; Geraldo José de OliveiraII

IDepartamento de Biologia, Centro de Ciências da Natureza (CCN), Universidade Federal do Piauí (UFPI). Campus Universitário Petrônio Portela, Ininga, 64049-550, Teresina, PI, Brasil. E-mail: pradoliveira@hotmail.com
IICentro de Educação Federal Tecnológica do Piauí (CEFET-PI), Teresina, PI, Brasil

 

 


RESUMO

Schinopsis brasiliensis Engler (Anacardiaceae), popularmente conhecida como baraúna ou brauna, é uma árvore típica da caatinga, tem sementes de germinação difícil e demorada. O trabalho teve por objetivo avaliar a germinação das sementes de S. brasiliensis e indicar técnicas que tornem mais eficiente esse processo. Os frutos foram coletados em novembro de 2001 (período de frutificação), na Fazenda Juriti, município de Caruaru, Pernambuco, Brasil, na região semi-árida. Foram utilizados frutos recém-coletados, testando-se: frutos com e sem epicarpo e mesocarpo, lavados e sem lavar. Diferentes metodologias foram usadas para superar a dormência do endocarpo de frutos armazenados por trinta dias em saco de papel Kraft, em câmara fria e seca (15±2°C, 50%UR). Em função dos resultados apresentados, pode-se concluir que a melhor maneira de se obter uma germinação mais regular, rápida e completa das sementes de S. brasiliensis é a remoção do epicarpo e do mesocarpo e a realização da semeadura após 25 a 30 dias de armazenamento (pré-secagem) em areia úmida.

Palavras-chave: germinação, escarificação mecânica, escarificação ácida, velocidade de germinação.


ABSTRACT

Schinopsis brasiliensis Engler (Anacardiaceae), commonly known as “baraúna or brauna”, a typical “Caatinga” tree. It presents seeds with difficult and delayed germination. This research had the objective to evaluate the germination seeds of S. brasiliensis, and to suggest techniques that make more efficient the germination process. The fruit were collected on November 2001 (fructification period) in Juriti Farm, municipality of Caruaru, Pernambuco State, Brazil, in semi-arid region. It were used newly collected fruit to the tests of: fruit with and without epicarp and mesocarp, washed fruit and not washed fruit. Different methods were used to overcome the endocarp dormancy of fruit stored during 30 days in a cold and dry chamber (15±2°C, 50%UR) kept in Kraft paper bags. According to the results, the best way to get a regular, fast and completed germination of S. brasiliensis is the extraction of epicarp and mesocarp and to sow in humid sand after 25 to 30 days stored (pre-drying).

Key words: germination, mechanical scarification, acid scarification, germination velocity


 

 

A espécie em estudo, Schinopsis brasiliensis Engler (braúna ou baraúna, como é conhecida), é uma árvore típica da caatinga, com 10-12m de altura, cerca de 60cm de diâmetro e com ramos providos de espinhos fortes (ENGLER, 1879), ocorrendo em quase toda a área das caatingas da Bahia à Paraíba, com poucos representantes do Rio Grande do Norte ao Piauí (ANDRADE–LIMA, 1989). Sua madeira é de grande valor econômico, apresenta cerne duro, resistência a fungos xilófagos (PAES et al., 2004) e, no passado, foi bastante utilizada para a feitura de dormentes e vigamentos (ANDRADE–LIMA, 1989). O emprego irracional para esses e outros fins fez com que o seu nome fosse incluído na lista oficial das espécies ameaçadas de extinção (BRASIL, 1992b). O fruto de baraúna é uma sâmara com as camadas do pericarpo marcadamente diferenciadas: epicarpo membranoso, mesocarpo esponjoso e endocarpo lenhoso “ósseo” e impermeável à água (PRADO et al., 1996). O endocarpo envolve a semente e não se desprende facilmente, formando o que BARROSO et al. (1999) definiram como pirênio. Essa camada funciona como uma barreira, dificultando a germinação e, sob condições naturais, essa pode ser uma estratégia para que a espécie escape da seca (ANGEVINE & CHABOT, 1979).

No laboratório, a utilização de métodos para a superação da dormência pode permitir uma germinação mais regular, rápida e completa das amostras de sementes de uma espécie (BRASIL, 1992a). A escolha do método a ser aplicado depende do tipo de dormência. No caso das espécies dotadas de sementes com envoltório duro e impermeável, como S. brasiliensis, recomenda-se: a imersão em solventes (por exemplo água quente), escarificação mecânica, escarificação com ácido e resfriamento rápido (POPINING, 1985).

Pouco se sabe sobre a germinação das sementes de S. brasiliensis sob condições naturais e/ou controladas. Neste trabalho, objetivou-se avaliar a germinação das sementes de baraúna e indicar técnicas que possam acelerar esse processo. Informações como essas poderão ser úteis para sua indicação em programas de reposição de áreas devastadas pela ação antrópica.

Para o presente estudo, frutos maduros de S. brasiliensis foram coletados em novembro de 2001 (período de frutificação), diretamente das árvores em uma população natural, localizada na Fazenda Juriti, no município de Caruaru, na subzona fisiográfica do agreste pernambucano.

Após 24 horas da coleta dos frutos, retirou-se uma amostra de 380 unidades, separando-a em quatro lotes, para submetê-los aos seguintes tratamentos: A – Frutos íntegros lavados em água corrente, por cinco minutos, e mais três vezes com água destilada; B – Frutos com epicarpo e mesocarpo removidos manualmente; C – Frutos com epicarpo e mesocarpo removidos e lavados por três vezes com água destilada; D – Frutos íntegros (controle).

Para avaliar o melhor método para superar a dormência causada pelo endocarpo duro, foram utilizados 380 frutos armazenados por 30dias em saco de papel Kraft, em câmara fria e seca (15±2°C, 50%UR). Removeram-se, manualmente, o epicarpo e o mesocarpo dos frutos. Em seguida, os pirênios foram separados em quatro lotes e submetidos aos tratamentos: A – água a 100°C/2 minutos - os pirênios foram envolvidos com gases presos a um cordão de náilon e imersos em banho-maria regulado, sendo, em seguida, esfriados e lavados com água destilada; B – escarificados, com lixa de ferro - os pirênios foram escarificados, na posição da emissão da raiz, e lavados por três vezes com água destilada; C – escarificação com ácido clorídrico (HCl) a 10% /10 minutos - os pirênios foram imersos em 300mL de ácido, sendo, em seguida, lavados com água corrente por 15 minutos e lavados novamente por duas vezes com água destilada; D – Frutos com epicarpo e mesocarpo removidos – controle.

Após os tratamentos, os frutos foram semeados em bandejas de plástico contendo areia lavada e esterilizada em autoclave ventilado, a 120°C/30min. As bandejas foram distribuídas em blocos casualizados no balcão do laboratório (25±2°C e 50±5%UR). Diariamente, registraram-se as sementes germinadas (critério de germinação: aparecimento na superfície do solo da parte aérea da plântula) e cada bandeja umedecida com 100mL de água. O tempo médio foi estimado segundo EDMOND & DRAPALA (1965) e, para comparação dos tratamentos, aplicou-se o teste de Tukey a 5% de probabilidade.

Observações efetuadas na população de S. brasiliensis, ocorrente na Fazenda Juriti, mostraram índice baixo de plantas jovens sob as copas das árvores (PRADO-OLIVEIRA, 1993). Sabe-se que compostos químicos inibidores de germinação de sementes podem ser lançados no ambiente exudados das folhas, raízes, caules ou frutos (PULMAN, 1983). Extratos de folhas de baraúna inibiram a germinação de sementes de espécies nativas e cultivadas (TAVARES, 1982). Estudos fitoquímicos sugeriram que o ácido gálico (grupo dos taninos hidrossolúveis) foi o responsável pela inibição da germinação das sementes avaliadas (SOUZA, 1990). Outros estudos mostraram que os frutos maduros também apresentam compostos do grupo dos taninos pirogálicos (2,17g de ácido tânico 100 mL-1 de solução aquosa) (PRADO-OLIVEIRA, 1993). A remoção do epicarpo e mesocarpo elevou a germinação das sementes de 4 para 19% e reduziu o tempo médio a praticamente a metade (Tabela 1), sugerindo a presença dessas substâncias, nessas camadas. Para eliminar essas substâncias recomenda-se lavagem em água corrente (POPININGIS, 1985).

A análise dos parâmetros (percentual e tempo médio de germinação) de avaliação para determinar o melhor método para superar a dormência causada pelo endocarpo duro mostrou que somente o tratamento com água quente diferenciou-se do controle (Tabela 1). A intolerância à água quente por um período tão curto corrobora a hipótese de que o pericarpo tem papel importante na sobrevivência das sementes durante a estiagem na caatinga. A baraúna frutifica no período seco, e os frutos podem permanecer no solo até a chegada das chuvas, intervalo que dura até onze meses e a temperatura do solo alcançar 60°C (GUIMARÃES DUQUE, 1973). Sob essas condições, algumas sementes sobrevivem graças ao envoltório e às estruturas anexas, os quais podem exercer um papel isolante, tanto face ao aquecimento, quanto à perda de água (LABORIAU, 1983). A análise mostrou também que o tratamento com escarificação ácida foi ineficaz, considerando-se o sucesso do método com sementes de outras espécies com tegumento duro (DUARTE, 1978). Supõe-se que o tempo de exposição ao ácido e/ou a concentração foram insuficientes para influenciar o percentual e a velocidade de germinação das sementes. O pré-tratamento, utilizando-se lixa para romper o endocarpo, também não foi satisfatório. Ao cortar o endocarpo dos frutos de baraúna com alicate e semeá-los em caixas plástica sobre papel “kimpak”, FELICIANO (1989) obteve 70% de germinação, resultado não muito diferente do mostrado na tabela 1. Os frutos de baraúna armazenados durante 30 dias em câmara fria e seca apresentaram 63% de germinação média (CV% =9,7), com ou sem tratamento ao remover-se parte do pericarpo e semear os frutos em areia úmida (Tabela 1). O acompanhamento do armazenamento durante dez meses, sob essas mesmas condições, mostrou que não houve efeito significativo do tempo de armazenamento na germinação, após 30 dias (PRADO-OLIVEIRA 1993). Frutos armazenados em laboratório por 25 dias e semeados em areia úmida apresentaram 75% de germinação (SILVA et al. 1988).

A combinação da desidratação com o congelamento em nitrogênio líquido, seguido de descongelamento, foi considerada eficaz para a germinação (52 a 55%) de S. brasiliensis. SALOMÃO et al. (2001) sugerem que o congelamento proporcionou o amolecimento do endocarpo, melhorando a absorção de água e as trocas gasosas. Para os resultados apresentados na tabela 1, supõe-se que a câmara fria e seca possa ter provocado rachaduras no endocarpo, enquanto a remoção do epicarpo e mesocarpo eliminou os inibidores de germinação e a areia úmida promoveu o amolecimento do endocarpo. Assim, para se obter uma germinação mais regular, rápida e completa de S. brasiliensis, deve-se manter seus frutos à sombra (pré-secagem) por 25 a 30 dias, remover parte do pericarpo e semear o pirênio em areia úmida.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido para publicação 14.03.06
Aprovado 04.04.07

 

 

1 Autor para correspondência.

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