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Revista Brasileira de Saúde Ocupacional

Print version ISSN 0303-7657On-line version ISSN 2317-6369

Rev. bras. saúde ocup. vol.43  São Paulo  2018  Epub Aug 09, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/2317-6369000013617 

Artigo

Aspectos da sobrecarga e qualidade de vida de cuidadores de pacientes hospitalizados: uma análise baseada na Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF)

Burden and quality of life of hospitalized patients’ caregivers: an analysis based on the International Classification of Functioning, Disability and Health (ICF)

Paulo Alberto Tayar Peresa 
http://orcid.org/0000-0002-4595-943X

Cassia Maria Buchallab 
http://orcid.org/0000-0001-5169-5533

Soraia Micaela Silvaa  b  c 
http://orcid.org/0000-0002-5929-3253

a Universidade Nove de Julho, Programa de Graduação em Fisioterapia. São Paulo, SP, Brasil.

b Universidade de São Paulo, Faculdade de Saúde Pública, Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública. São Paulo, SP, Brasil.

c Universidade Nove de Julho, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Reabilitação. São Paulo, SP, Brasil.


Resumo

Objetivo:

caracterizar o perfil e a relação entre sobrecarga e qualidade de vida (QV) de cuidadores de pacientes hospitalizados de acordo com o modelo biopsicossocial da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF). Analisar a correlação entre a sobrecarga do cuidador e o nível de dependência motora e cognitiva do paciente.

Métodos:

estudo transversal com 68 cuidadores de pacientes hospitalizados há 12 ou mais dias. Para avaliação da QV e da sobrecarga dos cuidadores foram utilizados, respectivamente, o Short Form Health Survey (SF-36) e a escala de Zarit (Zarit Burden Interview). Utilizou-se a Medida de Independência Funcional para caracterizar a dependência motora e cognitiva dos pacientes. Os resultados foram relacionados aos conceitos da CIF.

Resultados:

de acordo com os qualificadores da CIF, um comprometimento progressivo na QV dos cuidadores foi observado com o aumento da sobrecarga. Houve correlação negativa, estatisticamente significante e de fraca magnitude, entre a percepção de QV e sobrecarga. Não houve correlação entre a sobrecarga do cuidador e o nível de dependência do paciente.

Conclusão:

o SF-36 é capaz de analisar 13 categorias da CIF, permitindo avaliar o cuidador de forma integral, de acordo com o modelo biopsicossocial, e facilitando o uso da CIF na prática clínica.

Palavaras-chave: cuidadores; Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde; qualidade de vida; sobrecarga; pacientes hospitalizados

Abstract

Objective:

to characterize the profile and the relationship between burden and quality of life (QOL) of hospitalized patients’ caregivers according to the International Classification of Functioning Disability and Health (ICF) biopsychological model. To analyze the correlation between caregiver’s burden and the level of patients’ motor and cognitive dependency.

Methods:

cross-sectional study, involving 68 caregivers of patients hospitalized for 12 or more days. Caregivers’ QOL and burden were assessed by the Short Form Health Survey (SF-36) and the Zarit scale (Zarit Burden Interview), respectively. Functional Independence Measure was used to characterize patients’ motor and cognitive dependency. The relationship between the results and the ICF concepts was analyzed.

Results:

according to ICF qualifiers, a progressive impairment in the caregivers’ QOL was observed with burden increasing. There was a statistically significant negative correlation, of low magnitude, between perception of QOL and burden. There was no correlation between caregiver’s burden and patient’s dependency level.

Conclusion:

SF-36 can analyze 13 ICF categories. It allows evaluating caregivers in a comprehensive way and in accordance with the biopsychosocial model. It can also help to apply ICF in clinical practice.

Keywords: caregivers; International Classification of Functioning, Disability and Health; quality of life; burden; hospitalized patients

Introdução

A internação hospitalar prolongada pode culminar em alterações neurológicas e musculares por vezes até irreversíveis1; e em virtude do número limitado de profissionais especializados em hospitais públicos, observa-se a necessidade de cuidadores na atenção ao paciente hospitalizado. No Brasil, frequentemente os familiares assumem a função de cuidadores, porém ainda de forma desassistida e sem apoio de programas governamentais efetivos2. O guia prático do Ministério da Saúde3 define claramente que a função de cuidador envolve domínios da vida, que vão além do ato de prestar cuidados de higiene, alimentação e medicação3, como são os cuidados oferecidos pela equipe de enfermagem no ambiente hospitalar. Cuidar envolve também doar seu tempo, fazer companhia, zelar pela educação e cultura, auxiliar na recreação e melhorar a qualidade de vida (QV) do paciente3. Para tanto, o cuidador altera sua rotina, restringe sua vida social e profissional e pode ter prejuízos financeiros por abdicar de seu tempo de trabalho.

De acordo com Maurin e Boyd4, a sobrecarga pode ser dividida em duas dimensões: objetiva e subjetiva. A sobrecarga objetiva está relacionada às consequências negativas do papel de cuidador: por exemplo, alterações na rotina, restrição da vida social e profissional e perdas financeiras. O aspecto subjetivo da sobrecarga refere-se às percepções, preocupações, sentimentos negativos e incômodos gerados pelo trabalho de cuidar de um paciente4. Portanto, o cuidador pode se sobrecarregar física, social e emocionalmente, o que acarreta ansiedade, estresse, desarranjo pessoal, declínio da qualidade de vida e sobrecarga financeira5),(6.

Todos esses fatores influenciam a funcionalidade do cuidador, e esses aspectos são avaliados pela Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF)7, cujo modelo baseia-se na abordagem biopsicossocial, usada para integrar as várias dimensões da saúde (biológica, individual e social).

A CIF é dividida em duas partes: a primeira abrange os componentes da estrutura e da função corporal, a atividade e a participação; a segunda cobre os fatores contextuais, incluindo fatores ambientais e pessoais. Essas duas partes formam o modelo conceitual da funcionalidade e incapacidade humana da CIF, também chamado de modelo biopsicossocial. As estruturas e funções corporais referem-se a partes anatômicas e funções fisiológicas, respectivamente. O termo “atividade” representa a perspectiva individual e refere-se às capacidades do indivíduo em realizar ações e tarefas cotidianas em diversos contextos7. Já “participação” refere-se à experiência do indivíduo em situações da vida real e leva em consideração o envolvimento do indivíduo na sociedade, representando a perspectiva social da funcionalidade7.

Apesar de diversos estudos retratarem o impacto da sobrecarga de cuidadores de pacientes em diversas condições de saúde8)-(11, há poucos dados referentes a cuidadores de pacientes hospitalizados e nenhum estudo conhecido pelos autores dessa pesquisa que relacione esses aspectos aos componentes do modelo biopsicossocial da CIF.

Nessa perspectiva, é relevante facilitar a utilização da CIF na prática clínica e aumentar a atenção ao cuidador, avaliando-o de modo integral, utilizando o modelo biopsicossocial proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Destaca-se a importância de analisar de forma abrangente os encargos de cuidadores informais, de modo a subsidiar políticas públicas de saúde e programas assistenciais destinados a apoiá-los. Assim, os objetivos deste estudo foram: caracterizar o perfil e a relação entre sobrecarga e QV de cuidadores de pacientes hospitalizados de acordo com o modelo biopsicossocial da CIF e analisar a correlação entre a sobrecarga do cuidador e o nível de dependência motora e cognitiva do paciente.

Métodos

Estudo observacional analítico de corte transversal, composto por uma amostra de conveniência de cuidadores informais que auxiliavam pacientes nas enfermarias de internação do Conjunto Hospitalar do Mandaqui (São Paulo, Brasil). A pesquisa foi realizada de março a novembro de 2014.

Para os cuidadores, foram estabelecidos os seguintes critérios de inclusão: ter idade superior ou igual a 18 anos, estar cuidando, por no mínimo 12 dias, de indivíduos internados com incapacidade total ou parcial para cuidarem de si mesmos e ter compreensão e responsabilidade sobre o paciente. Foram excluídos cuidadores que apresentassem comprometimento cognitivo rastreado por meio do mini exame do estado mental, sendo os pontos de corte considerados conforme descrito por Bertolucci12.

Este estudo obedeceu aos princípios da Declaração de Helsinque, e todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, sendo informados da possibilidade de se retirarem da pesquisa em qualquer fase. O Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Nove de Julho (Uninove - São Paulo, Brasil) analisou e aprovou o estudo sob o protocolo nº 448.347/2013.

Instrumentos/procedimentos

Três instrumentos de avaliação foram utilizados. Para avaliação da sobrecarga dos cuidadores foi utilizada a escala de Zarit (Zarit Burden Interview) em versão brasileira validada13),(14, composta por 22 questões que aferem a sobrecarga do cuidador associando-a ao desarranjo funcional e comportamental do paciente e à situação domiciliar. As respostas variam de 0 a 4: (0) nunca, (1) raramente, (2) algumas vezes, (3) frequentemente e (4) sempre. A interpretação do escore alcançado divide-se em 4 níveis: 0-21, pouca ou nenhuma sobrecarga; 21-40, leve a moderada; 41-60, moderada a severa; e 61-88, severa15.

A qualidade de vida foi avaliada pelo questionário Short Form Health Survey (SF-36)16, um instrumento genérico de fácil administração e compreensão que considera a percepção do indivíduo quanto a seu estado de saúde, contemplando os aspectos mais representativos da qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS)16. O SF-36 é composto por 36 itens, subdivididos em 8 domínios. Cada item apresenta de duas a seis possibilidades de respostas, e um escore final de 0 a 100, no qual 0 corresponde à pior e 100 à melhor QVRS15. A identificação das categorias da CIF avaliadas pelo SF-36 foi baseada no estudo de Frez et al.17. O Quadro 1 elucida a relação entre os domínios do SF-36 e as categorias da CIF.

Quadro 1 Identificação das categorias da CIF* relacionadas aos domínios do SF-36** 

Domínios SF-36 Categoria da CIF Descrição da categoria da CIF
Capacidade funcional b760 Funções de controle do movimento voluntário
d2 Realizar uma única tarefa
d4 Mobilidade
Limitação das atividades físicas b1644 Autoconhecimento
Dor b280 Sensação de dor
Estado geral de saúde b Funções corporais
d Atividades
Vitalidade b1300 Nível de energia
b4550 Resistência física geral
Aspectos Sociais b122 Funções psicossociais globais
d7 Interações e relacionamentos interpessoais
Aspectos emocionais b152 Funções emocionais
Saúde mental b199 Funções mentais, não especificadas

* CIF: Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde.

**SF-36: Short Form Health Survey.

Fonte: adaptado de Frez et al. 201417.

Cada uma dessas categorias pode ser classificada pelos qualificadores da CIF, que variam de .0 a .4; quanto maior o qualificador, maior a gravidade do problema. Entretanto, as pontuações do SF-36 são maiores para indivíduos com melhor qualidade de vida. Por causa desse relacionamento inverso, foi calculada a diferença entre a máxima pontuação do SF-36 e as gamas de descritores quantitativos da CIF17. A relação entre os qualificadores da CIF e a pontuação do SF-36 é elucidada no Quadro 2.

Quadro 2 Relação entre os qualificadores da CIF* e a pontuação do SF-36** 

Qualificadores da CIF Escore SF-36
.0 Nenhum problema 96 - 100
.1 Problema leve 76 - 95
.2 Problema moderado 51 - 75
.3 Problema severo 5 - 50
.4 Problema completo 0 - 4

* CIF: Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde.

** SF-36: Short Form Health Survey.

Fonte: adaptado de Frez et al. 201417.

Para caracterizar o nível de independência funcional dos pacientes, utilizou-se a Medida de Independência Funcional (MIF), um instrumento capaz de quantificar o grau de solicitação de cuidados exigidos pelas tarefas da vida diária18),(19. Nele, 18 atividades reunidas em dois domínios (motor e cognitivo) e seis subescalas (autocuidado, transferências, locomoção, controle esfincteriano, comunicação e cognição social) foram avaliadas segundo relato do entrevistado e pontuadas de 1 a 7, obedecendo ao nível crescente de independência18),(19. Neste estudo, aplicou-se a MIF sob a forma de entrevista, na qual os cuidadores respondiam às perguntas de acordo com o perfil do paciente.

A avaliação foi realizada por examinadores devidamente treinados com uma abordagem teórica e prática dos instrumentos.

Análise estatística

Para caracterizar a amostra, utilizou-se a estatística descritiva, por meio de média e desvio-padrão para as variáveis quantitativas, como a idade dos cuidadores. A frequência foi utilizada para sumarizar as variáveis categóricas, caracterizando a amostra em relação ao sexo e ao grau de parentesco com o paciente. As variáveis não paramétricas, referentes aos escores dos instrumentos de avaliação, foram sumarizadas em mediana e intervalo interquartil.

O grau de associação entre os instrumentos foi analisado por meio do coeficiente de correlação de Spearman (rho). A força ou magnitude do relacionamento entre as variáveis foi classificada como fraca (coeficiente de correlação entre 0,1 a 0,3), moderada (entre 0,4 a 0,6) e forte (entre 0,7 a 0,9), considerando os mesmos aspectos em caso de correlações negativas20. Em todas as análises inferenciais foi considerado um nível de significância α = 0,05.

Resultados

Dos 92 cuidadores de pacientes internados no Conjunto Hospitalar do Mandaqui no período da pesquisa, 24 foram excluídos, pois os pacientes não estavam há 12 ou mais dias internados ou tiveram alta antes das entrevistas. Assim, a amostra foi composta por 68 indivíduos. A avaliação da sobrecarga desses participantes identificou: 19 cuidadores com pouca ou nenhuma sobrecarga, 36 com sobrecarga de leve a moderada, 12 com moderada a severa e 1 com severa. As características clínico-demográficas dos cuidadores estão apresentadas na Tabela 1.

Tabela 1 Características pessoais e domínios de qualidade de vida (SF-36)* de cuidadores de pacientes internados segundo níveis de sobrecarga 

Variável Sobrecarga (Burden)
Pouco/nenhuma Leve/moderada Moderada/severa Severa
(n = 19) (n = 36) (n = 12) (n = 1)
Dados pessoais
Sexo: M/F 0 / 19 2 / 34 1 / 11 0/1
Idade (anos) ** 48 (10) 47 (13) 52 (10) 59
Grau de Parentesco: família / não família*** 14 / 5 29 / 7 11 / 1 1/0
SF-36 ****
Capacidade funcional 80 (68-95) 80 (60-90) 85 (52-97) 70
Limitação das atividades físicas 100 (38-100) 75 (25-100) 75 (6-100) 0
Dor 61 (51-72) 52 (41-73) 41,5 (40-58) 22
Estado geral de saúde 65 (51-84) 67 (55-79) 66 (52-84) 20
Vitalidade 75 (58-88) 55 (40-65) 50 (36-65) 20
Aspectos sociais 88 (75-100) 75 (63-100) 75 (37-87) 62,5
Aspectos emocionais 67 (17-100) 67 (0-100) 0 (0-100) 0
Saúde mental 76 (56-86) 64 (52-72) 60 (44-77) 48
Escore total SF-36 74 (56-86) 64 (56-73) 57,5 (45-72) 30

* SF-36: Short Form Health Survey.

** Média (DP).

*** Grau de parentesco: família (cônjuges, pais, filhos, irmãos e netos) e não família (cunhados, tios, amigos e outros).

**** Valores expressos em medianas e intervalos interquartis (25 e 75%).

Na Tabela 2 observa-se que, segundo os qualificadores da CIF, a QVRS está intimamente relacionada ao nível de sobrecarga dos cuidadores. Os indivíduos com pouca ou nenhuma sobrecarga apresentaram qualificadores que variaram de nenhum problema a problemas leves e moderados. Entretanto, no grupo com sobrecarga de leve a moderada foram reportados, predominantemente, qualificadores moderados. No grupo com sobrecarga de moderada a severa houve maior comprometimento da QVRS, principalmente nos domínios de dor, vitalidade e aspectos emocionais. Por fim, no grupo severo predominaram qualificadores que indicam problemas severos e completos (Tabela 2). Portanto, nota-se que os indivíduos com pouca ou nenhuma sobrecarga apresentaram pouco comprometimento da QVRS, enquanto os cuidadores com sobrecarga de leve/moderada e moderada/severa tiveram maior comprometimento da QVRS.

Tabela 2 Classificação da pontuação dos escores do SF-36* de acordo com os qualificadores da CIF** e nível de sobrecarga de cuidadores de pacientes internados 

Domínios SF-36*** Sobrecarga dos cuidadores (Burden)
Pouco/Nenhuma Leve/Moderada Moderada/Severa Severa
Escore SF-36 Qualificador da CIF Escore SF-36 Qualificador da CIF Escore SF-36 Qualificador da CIF Escore SF-36 Qualificador da CIF
CF 80 .1 - leve 80 .1 - leve 85 .1 - leve 70 .2 - moderado
LAF 100 .0 - nenhum 75 .2 - moderado 75 .2 - moderado 0 .4 - completo
Dor 61 .2- moderado 52 .2- moderado 41,5 .3 - severo 22 .3 - severo
EGS 65 .2 - moderado 67 .2 - moderado 66 .2 - moderado 20 .3 - severo
V 75 .2 - moderado 55 .2 - moderado 50 .3 - severo 20 .3 - severo
AS 88 .1 - leve 75 .2 - moderado 75 .2 - moderado 62,5 .2 - moderado
AE 67 .2 - moderado 67 .2 - moderado 0 .4 - completo 0 .4 - completo
SM 76 .1 - leve 64 .2 - moderado 60 .2 - moderado 48 .3 - severo
Total 74 .2 - moderado 64 .2 - moderado 57,5 .2 - moderado 30 .3 - severo

* SF-36: Short Form Health Survey.

** CIF: Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde.

*** CF: Capacidade Funcional; LAF: Limitações das Atividades Físicas; EGS: Estado Geral de Saúde; V: Vitalidade; AS: Aspectos Sociais; AE: Aspectos Emocionais; SM: Saúde Mental.

Acerca da correlação entre a qualidade de vida e a sobrecarga dos cuidadores (Tabela 3), observou-se correlação negativa, estatisticamente significante e de fraca magnitude, entre a percepção geral de QVRS e sobrecarga. Apenas no domínio “vitalidade” foi possível verificar uma correlação negativa de moderada magnitude e estatisticamente significante.

Tabela 3 Correlação entre níveis de sobrecarga e qualidade de vida de cuidadores (n=68) 

Domínios SF-36 Sobrecarga (Burden)
(rho)
Capacidade funcional -0,08
Limitação das atividades físicas -0,29**
Dor -0,30**
Estado geral de saúde -0,19
Vitalidade -0,40**
Aspectos sociais -0,32*
Aspectos emocionais -0,08
Saúde mental -0,30**
Score total SF-36 -0,30**

*p ≤ 0,05; **p ≤ 0,01.

SF-36: Short Form Health Survey

rho: Coeficiente de correlação de Spearman.

Não foi identificada correlação estatisticamente significante entre a sobrecarga do cuidador e o nível de dependência do paciente (rho = 017; p > 0,05).

Discussão

A temática deste estudo tem instigado crescente interesse científico e a necessidade de seu aprofundamento com relação ao cuidador. As diferenças de sobrecarga reforçam a necessidade de planejamento de ações de saúde para avaliar cada tipo de cuidador, visando reduzir o impacto social e pessoal que recai sobre eles.

Em relação às características demográficas da amostra, observou-se que houve predominância do sexo feminino e que a maior parte dos cuidadores eram familiares dos pacientes. Dados sobre cuidadores de pacientes hospitalizados são escassos, porém, tendo como base a literatura científica nacional e internacional, que descreve os cuidadores, em sua maioria, como mulheres, filhas ou esposas dos pacientes, pode-se inferir que a amostra avaliada confirma estudos prévios10),(21)-(23. O predomínio desse perfil pode estar relacionado a questões socioculturais que atribuem à mulher o papel de principal cuidadora da família e de entes próximos24.

Nesse sentido, a CIF facilita o diagnóstico situacional, colhendo informações para a formulação de políticas públicas de saúde que garantam o direito à saúde de cuidadores de pacientes hospitalizados. Além disso, o modelo biopsicossocial analisado pela CIF complementa a avaliação funcional, podendo subsidiar e direcionar diretrizes terapêuticas caso seja necessário.

O agrupamento das questões do SF-36 com os componentes e categorias da CIF permite avaliar a funcionalidade como um todo, considerando a complexidade das condições físicas e sociais dos indivíduos, conforme preconizado pela OMS. Esse modelo de avaliação biopsicossocial aprofunda a avaliação da QVRS, inclusive de outras populações6),(17. Com o SF-36 foi possível analisar 13 categorias da CIF, que puderam ser codificadas com os qualificadores da própria classificação (Quadro 1,Tabela 2). Dessa forma, em um estudo longitudinal, podemos aplicar essa metodologia para avaliar estruturas, funções corporais, atividade e participação, estabelecendo comparações ao longo do tempo, antes e depois das intervenções. Esse tipo de análise facilita a inserção da classificação na prática clínica.

Acerca da avaliação dos cuidadores por meio do SF-36, observou-se que o grupo com sobrecarga moderada a severa apresentou tendência a uma pior percepção de QVRS. Relatos da literatura reportam que o cuidador com menores níveis de qualidade de vida tem mais riscos de desenvolver doenças como depressão, principalmente quando o paciente é mais dependente14),(25).

No entanto, neste estudo, não foi identificada correlação entre a sobrecarga do cuidador e o nível de dependência do paciente. Isso pode ser explicado pelo fato dos cuidadores receberem ajuda de profissionais de saúde na higiene e transporte do paciente durante o período de internação, assim, o grau de solicitação dos cuidadores tende a ser menor. Dessa forma, inferimos que, nesse caso, a sobrecarga dos cuidadores é oriunda de outros fatores que causam declínio na QVRS, como o fato de deixarem seus próprios interesses e atividades profissionais. Esses resultados refutam os achados de um estudo prévio, em que a percepção de cuidadores familiares de pacientes hospitalizados foi previamente analisada e correlacionada com o nível de dependência dos pacientes, sendo observadas nos cuidadores sensações que incluíam sacrifício, tensão, constrangimento, raiva e perda de controle14.

A despeito da relação entre o nível de sobrecarga do cuidador e sua qualidade de vida, observaram-se correlações negativas estatisticamente significantes e de fraca magnitude entre o escore total de QVRS e os domínios “limitações das atividades físicas”, “dor”, “aspectos sociais” e “saúde mental”. Apenas no domínio “vitalidade” observou-se correlação estatisticamente significante de moderada magnitude. Isso significa que, quanto maior a sobrecarga dos cuidadores, maior o comprometimento da vitalidade, o que pode culminar no adoecimento dos cuidadores2. Por ser um fenômeno relacionado ao fardo do ato de cuidar, a sobrecarga reflete dificuldades de enfrentar situações cotidianas conflitantes, dificuldades econômicas e stress emocional26. Por isso, destaca-se a importância de desenvolver estratégias de saúde também para os cuidadores. O sentimento de sobrecarga precisa ser identificado, tratado e acompanhado para que se evite o declínio da QVRS.

Contudo, salienta-se que estudos transversais como o aqui realizado não fornecem relações de causalidade. Portanto, ressaltamos a necessidade de estudos longitudinais para determinar essas relações. Cabe destacar ainda que esta é uma pesquisa de amostragem não probabilística, e consequentemente há limitações de inferência estatística. Outra limitação refere-se ao fato de não analisarmos os fatores contextuais. Como não fazia parte de nossos objetivos, esse construto não foi previamente avaliado na amostra estudada; contudo, sua inclusão poderia trazer resultados mais abrangentes à pergunta da pesquisa. Assim, sugerimos que outros estudos sejam desenvolvidos considerando também os fatores ambientais e pessoais dos cuidadores.

Apesar das limitações apontadas, os resultados obtidos são de extrema relevância para a área da saúde pública e de atenção ao cuidador, pois são os primeiros dados referentes à sobrecarga e à QVRS de cuidadores de pacientes hospitalizados relacionados aos componentes da CIF. Ressalta-se ainda que este estudo facilita a utilização da CIF na prática clínica e aumenta a atenção ao cuidador, tendo em vista que esses indivíduos poderão ser avaliados de acordo com o modelo biopsicossocial proposto pela OMS.

Conclusão

O SF-36 é capaz de analisar 13 categorias da CIF, como estruturas, funções corporais, atividade e participação do indivíduo, permitindo, avaliar o cuidador de forma integral, de acordo com o modelo biopsicossocial, e facilitando o uso da CIF na prática clínica.

Neste estudo, não houve correlação estatisticamente significante entre a sobrecarga do cuidador e o nível de dependência motora e cognitiva do paciente, mas observou-se que indivíduos com pouca ou nenhuma sobrecarga apresentaram pouco comprometimento da QVRS, enquanto cuidadores com sobrecarga leve/moderada, moderada/severa e severa tiveram maior comprometimento. Por esse motivo, destaca-se a importância de desenvolver estratégias de avaliação e atenção ao cuidador de pacientes hospitalizados a fim de evitar o declínio da QVRS desses importantes atores da atenção à saúde.

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Os autores informam que o trabalho não é baseado em tese ou dissertação e não foi apresentado em eventos científicos.

Recebido: 23 de Junho de 2017; Revisado: 05 de Setembro de 2017; Aceito: 25 de Outubro de 2017

Contato: Soraia Micaela Silva E-mail:soraia.micaelaa@gmail.com

Contribuição de autoria
Peres, PAT contribuiu na concepção, delineamento do estudo e redação do manuscrito. Buchalla, CM contribuiu com importante crítica intelectual do conteúdo do manuscrito e com revisão da versão final publicada. Silva, SM contribuiu na análise e interpretação dos dados, na redação do manuscrito e na aprovação da versão final publicada.

Os autores declaram que o estudo não foi subvencionado e que não há conflitos de interesses.

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