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Psicologia Escolar e Educacional

On-line version ISSN 2175-3539

Psicol. Esc. Educ. vol.21 no.2 Maringá May./Aug. 2017

https://doi.org/10.1590/2175-3539/2017/02111098 

Relato de Prática Profissional

Workshops sobre desenvolvimento na primeira infância com profissionais da educação infantil

Workshops about early childhood development with daycare professionals

Workshops sobre desarrollo en la primera infância con profesionales de la educación infantil

Tatiele Jacques Bossi1 

Beatriz Schmidt1 

Marcela Bortolini1 

Mônia Aparecida Silva1 

Denise Ruschel Bandeira1 

Cesar Augusto Piccinini1 

1Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Porto Alegre - RS - Brasil


Nas últimas décadas, tem-se observado a ampliação no número de crianças que frequentam a creche1, o que se associa sobretudo ao ingresso da mulher no mercado de trabalho (Hook & Wolfe, 2013). Ademais, nota-se que o início da vida escolar ocorre progressivamente mais cedo (Pasinato & Mosmann, 2015). Nacionalmente, ao considerar estabelecimentos públicos e privados, a quantidade de matrículas para crianças de 0 a 3 anos quase triplicou no período compreendido entre 2000 e 2014. Segundo dados do Observatório do Plano Nacional da Educação {PNE} (2014), 29,6% das crianças até o terceiro ano de vida estavam matriculadas em creches em 2014. No entanto, o PNE tem como meta, até 2024, o acesso à educação infantil para 50% das crianças nessa faixa etária. Isso mostra que o crescimento no número de matrículas será ainda mais expressivo nos próximos anos, o que ressalta a necessidade de qualificar um grande contingente de profissionais da educação infantil.

A expansão das creches é um fenômeno ainda recente no Brasil, pois apenas no ano de 1996, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a educação infantil foi incorporada como primeira etapa da educação básica. Assim, são escassos os estudos que enfatizam o processo de cuidar e educar crianças pequenas em ambientes coletivos (Santos & Haddad, 2010). Tradicionalmente, na organização curricular dos cursos de pedagogia, pouca ênfase tem sido dada às práticas apropriadas às especificidades da faixa etária de 0 a 3 anos (Marques & Muller, 2012). De tal forma, os saberes e os fazeres do educador infantil parecem fortemente influenciados pelo modelo escolar, pautado nas particularidades do ensino fundamental (Santos & Haddad, 2010).

Nesse sentido, destaca-se que os impactos favoráveis da educação infantil nas trajetórias de vida se relacionam, notadamente, à qualidade dos cuidados prestados nos ambientes educacionais (Cortázar, 2015). Assim, a formação dos educadores é fundamental para atender à finalidade da educação infantil, isto é, a promoção do desenvolvimento integral da criança, em seus aspectos psicológico, social, físico e intelectual (Marques & Muller, 2012). Merece particular atenção o trabalho com crianças até o terceiro ano de vida, por se tratar de fase peculiar do desenvolvimento, que demanda conhecimentos práticos e teóricos específicos (Santos & Haddad, 2010). Os primeiros anos constituem uma janela de oportunidades à promoção da saúde. Neste período, há uma maior plasticidade cerebral, ou seja, uma capacidade aumentada do cérebro em se remodelar em função das experiências da criança e das influências externas (Dennis & cols., 2013). Logo, investir no cuidado e no bem-estar infantil leva a benefícios em longo prazo (Gulliford, Deans, Frydenberg, & Liang, 2015).

Com o objetivo de proporcionar reflexões sobre temáticas relacionadas ao desenvolvimento de crianças com idade entre 0 e 3 anos, os Núcleos de Infância e Família e o Grupo de Estudos, Aplicaçao e Pesquisa em Avaliação vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, firmaram parceria com a Secretaria de Educação de um município do Rio Grande do Sul, para efetivação de um projeto de extensão que visava contribuir para o aprimoramento da formação de educadores de berçário e de maternal. Para tanto, foram realizados workshops que possibilitaram a exposição de teorias sobre o desenvolvimento infantil e a trocas de ideias com os grupos de educadores participantes.

As principais temáticas abordadas foram indicadas pela Secretaria de Educação, conforme demandas identificadas na prática dos educadores como, por exemplo, a importância de se fortalecer a sensibilidade no cuidado às crianças. A partir disso, realizou-se o projeto de extensão, em formato de workshops, junto a quatro grupos de educadores2 (dois de berçário e dois de maternal), compostos por aproximadamente 45 participantes (180 educadores no total).

Os encontros foram coordenados por quatro psicólogas, todas doutorandas, que compareciam em duplas e apresentavam temáticas relacionadas às pesquisas desenvolvidas pelos Núcleos, e que atendiam às demandas levantadas pela Secretaria de Educação. Para cada um dos quatro grupos, foram realizados quatro encontros, uma vez por mês, com duração de três horas. Os principais temas abordados foram: 1) desenvolvimento socioemocional, cognitivo, motor e da linguagem da criança; 2) sensibilidade na interação educador-criança; 3) necessidades emocionais da criança; 4) diferenças individuais na infância; 5) importância das interações iniciais para o desenvolvimento infantil; e 6) relações família-creche-educador. As técnicas consistiram em treinamento instrucional, vinhetas de vídeos e discussões dos educadores com as psicólogas e entre si. As psicólogas propunham um momento inicial expositivo sobre o tema de cada encontro, a fim de orientar os educadores sobre o assunto a ser abordado. Além disso, vinhetas de vídeos eram utilizadas com o objetivo de possibilitar o aprofundamento da temática sugerida, bem como suscitar discussões e reflexões. À medida que o tema era exposto, contribuições por parte dos educadores eram acolhidas para reflexões pelo grupo como um todo.

Com isso, destaca-se que embora os workshops fossem planejados previamente, eles se adaptavam à dinâmica que cada grupo desenvolvia. Os encontros eram organizados de modo a possibilitar que os educadores falassem sobre o seu dia a dia com as crianças e pudessem, em conjunto, refletir sobre a sua prática na educação infantil. Cabe ressaltar que não se buscou discutir cuidados básicos com a criança, mas sim aspectos relacionais, com foco na importância da sensibilidade e afetividade do adulto para promover o desenvolvimento infantil integral. Tal aspecto se configura como um diferencial desta proposta, já que se centrou em algo para além da psicoeducação, ao possibilitar que os próprios educadores buscassem respostas às suas demandas nas interações com as crianças, por meio de reflexões juntamente aos colegas, o que nem sempre é possibilitado em cursos de aperfeiçoamento mais tradicionais.

Avaliações escritas e anônimas eram realizadas ao final de cada encontro. Optou-se por essa modalidade para permitir que os educadores expressassem sua opinião de forma reservada. As avaliações foram positivas para a maioria dos educadores, que destacaram as contribuições do curso para (re)pensar a prática profissional e o quanto usufruíram do aprendizado e da troca de experiências. Muitos indicaram interesse em aplicar os conhecimentos adquiridos no trabalho com as crianças, bem como compartilhá-los com os pares. Os participantes se referiram ainda à relevância das temáticas tratadas, pois tende a haver pouca disponibilidade de cursos para profissionais que atuam notadamente junto a bebês. Nesse sentido, diferentes autores assinalaram a importância de se aprimorar a formação de educadores no que tange às especificidades da faixa etária de 0 a 3 anos (Marques & Muller, 2012; Santos & Haddad, 2010).

Conclui-se que a realização dos workshops sobre desenvolvimento na primeira infância atingiu o objetivo de contribuir com o aprimoramento de educadores de creche, com foco na sensibilidade e na afetividade nas interações educador-criança. Destaca-se a promoção do aprendizado reflexivo, tanto teórico quanto prático, possibilitado pelo formato workshop com exposição dos temas e discussões entre os educadores. Além disso, a parceria dos Núcleos de pesquisa com a Secretaria de Educação permitiu a efetivação do tripé ensino-pesquisa-extensão. Igualmente, possibilitou a vinculação e a aplicabilidade dos achados empíricos da psicologia do desenvolvimento à prática profissional dos educadores. Por fim, destaca-se que a ênfase a aspectos mais reflexivos, em detrimento aos psicoeducativos, mostrou-se importante nesse contexto, respeitando os educadores como os principais atores da sua prática e os responsáveis por mudanças nesta quando necessárias para favorecer o processo de desenvolvimento infantil.

Referências

Cortázar, A. (2015). Long-term effects of public early childhood education on academic achievement in Chile. Early Childhood Research Quarterly, 32, 13-22. [ Links ]

Dennis, M.; Spiegler, B. J.; Juranek, J. J.; Bigler, E. D.; Snead, O. C.; & Fletcher, J. M. (2013). Age, plasticity, and homeostasis in childhood brain disorders. Neuroscience Biobehavioral Reviews, In press. [ Links ]

Gulliford, H.; Deans, J.; Frydenberg, E.; & Liang, R. (2015). Teaching coping skills in the context of positive parenting within a preschool setting. Australian Psychologist, 50(3), 219-231. [ Links ]

Hook, J. L. & Wolfe, C. M. (2013). Parental involvement and work schedules: Time with children in the United States, Germany, Norway and the United Kingdom.European Sociological Review, 29(3), 411-425. [ Links ]

Marques, D. V. A. & Müller, F. (2012). Experiências com blog na pesquisa e na formação inicial de professoras de educação infantil. Educação Temática Digital, 14(1), 43-61. [ Links ]

Observatório do Plano Nacional da Educação {PNE} (2014). Educação infantil. Recuperado: 15 nov. 2015: Disponível: Disponível: http://www.observatoriodopne.org.br/metas-pne/1-educacao-infantil/indicadoresLinks ]

Pasinato, L. & Mosmann, C. P. (2015). Coparentalidade em genitores de bebês com indicativos de dificuldades de inserção escolar.Psicologia Escolar e Educacional , 19(1), 31-40 [ Links ]

Santos, C. M. O. & Haddad, L. (2010). A especificidade da profissão das professoras de creche. Em Anais do V Encontro de Pesquisa em Educação de Alagoas. Maceió, Alagoas: UFAL. [ Links ]

1A primeira etapa da Educação Básica no Brasil consiste na Educação Infantil, que compreende creches para crianças de 0 a 3 anos de idade, e pré-escolas para crianças de 4 a 5 anos de idade (PNE, 2014).

2Os educadores estavam vinculados a 42 escolas municipais de educação infantil, bem como a 45 instituições de educação infantil conveniadas.

Recebido: 28 de Janeiro de 2016; Aceito: 08 de Setembro de 2016

Sobre os autores - Tatiele Jacques Bossi (tatielejbossi@gmail.com), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFRGS.

Beatriz Schmidt (psi.beatriz@gmail.com) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestra (UFSC) e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFRGS.

Marcela Bortolini (bortolini.marcela@gmail.com) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestra e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFRGS

Mônia Aparecida Silva (moniapsi@yahoo.com.br) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestra (UFSJ) e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFRGS

Denise Ruschel Bandeira (deniserbandeira@gmail.com) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, doutora (UFRGS), professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFRGS

Cesar Augusto Piccinini (piccinini@portoweb.com.br) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, doutor (University of London), professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFRGS.

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