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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão impressa ISSN 1414-3283

Interface (Botucatu) vol.14 no.33 Botucatu abr./jun. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832010000200015 

ESPAÇO ABERTO

 

O processo de pesquisa como espaço e processo de empoderamento*

 

The research process as a space and an empowerment process

 

El proceso de investigación como espacio y proceso de apoderamiento

 

 

Maria Elisabeth KlebaI; Águeda Lenita Pereira WendhausenII

IPrograma de Mestrado em Políticas Sociais e Dinâmicas Regionais, Universidade Comunitária da Região de Chapecó. Rua Senador Atílio Fontana, 591 E, Bairro Efapi, Chapecó, SC, Brasil. 89.809-000. lkleba@unochapeco.edu.br
IIPrograma de Mestrado em Saúde e Gestão do Trabalho, Universidade do Vale do Itajaí

 

 


RESUMO

Considerando a pesquisa componente da emancipação, este relato apresenta uma experiência em que atores se tornam autores. A partir de um estudo que congregou professores e estudantes de variadas áreas e níveis de formação, visando avaliar o empoderamento e o impacto gerado em conselhos gestores de dois municípios catarinenses, analisamos a experiência de fazer pesquisa como processo de empoderamento. O tema escolhido e o uso de metodologias construtivistas possibilitaram à equipe de pesquisadores experienciar: a capacidade de tomar decisões e partilhar responsabilidades; a troca de recursos e aquisição de novas habilidades; a abertura à comunicação e o respeito às diferenças; o sentimento de pertencimento e a valorização pessoal. Isto propiciou, por um lado, maior envolvimento e apropriação do processo de pesquisa pelos envolvidos e, por outro lado, favoreceu a aproximação entre os autores do projeto e os sujeitos envolvidos na pesquisa.

Palavras-chave: Pesquisa. Poder. Triangulação de métodos.


ABSTRACT

Considering research as a component of emancipation, this report presents an experience in which the players become authors. Based on a study that included teachers and students of various subject areas and training levels, and with the aim of evaluating empowerment and its impact on administrative boards in two municipalities in the State of Santa Catarina, Brazil, we analyzed the experience of conducting research as an empowerment process. The topic selected and the use of constructivist methodologies enabled the research team to experience the capacity to make decisions and share responsibilities; exchange of resources and acquisition of new skills; openness to communication and respect for differences; and a sense of belonging and personal fulfillment. This led, on the one hand, to greater involvement and appropriation of the research process by those involved, and on the other, it promoted closeness between the project authors and the subjects involved in the research.

Keywords: Research. Power. Triangulation of methods.


RESUMEN

Considerando la investigación componente de la emancipación, este relato presenta una experiencia en que los actores se convierten en autores. A partir de un estudio que congregó a profesores y estudiantes de variadas áreas y niveles de formación, tratando de evaluar el apoderamiento y el impacto producido en consejos gestores de dos municipios del estado brasileño de Santa Catarina, analizamos la experiencia de hacer investigación como proceso de apoderamiento. El tema escogido y el uso de metodologías constructivistas posibilitaron al equipo de investigadores experiencias: la capacidad de tomar decisiones y compartir responsabilidades; cambio de recursos y adquisición de nuevas habilidades; la apertura a la comunicación y el respeto a las diferencias; el sentimiento de pertenencia y la valorización personal. Esto proporcinó, por un lado, mayor envolvimiento y apropiación del proceso de investigación por los participantes y, por otro lado, favoreció la aproximación entre los autores del proyecto y los sujetos involucrados en la investigación.

Palabras clave: Investigación. Poder. Triangulación de métodos.


 

 

Introdução

Com diferentes trajetórias em seu processo de fazer e ensinar pesquisa, nosso encontro se deu quando socializávamos estudos sobre processos de empoderamento nos espaços de participação social em saúde. Interessava-nos compreender em que medida estes espaços, especialmente aqueles institucionalizados para deliberação sobre políticas públicas no Brasil, constituem-se espaços de aprendizado e de fortalecimento do poder, individual e coletivo.

Logo no início do trabalho, sentimo-nos compelidos a lidar de maneira diferente com o processo de pesquisa. Pesquisar constitui, normalmente, uma atividade solitária, restrita a pessoas capacitadas tecnicamente e, de preferência, "neutras politicamente". Demo (2002) considera uma fuga defender a neutralidade científica, como se fosse possível ao cientista assumir o papel daquele que sabe, estuda, analisa, mas não intervém, não muda, não questiona.

Assim, diante de um tema cujo cerne seria a possibilidade de construir práticas mais próximas da democracia participativa, não poderíamos ficar inertes. Começamos a pensar em uma construção de pesquisa que fosse, no mínimo, participativa para a equipe de pesquisadores: professores de duas universidades parceiras e estudantes de graduação e mestrado.

Entendemos, como Demo (2002), que a abertura a outros sujeitos provoca instabilidade e perda de controle sobre o processo, requerendo tempo adicional aos diálogos e consensos necessários, mas, por outro lado, pode ser um instrumental para emancipação, o que nos interessava de perto. Como pensar em fortalecimento dos participantes dos conselhos gestores, se não entendermos como se dá este processo em nós mesmos?

Assim, assumimos o desafio de realizar a pesquisa, de modo que os pesquisadores participassem o máximo possível de todo o processo. A trajetória do estudo revelou experiências significativas de empoderamento evidenciadas em gestos, falas, posturas e práticas relacionais do grupo, que mostram quanto a pesquisa pode favorecer não apenas a apropriação e produção de conhecimento sobre objetos estudados, mas especialmente o reconhecimento de si mesmo como protagonista dessa produção. Por isso entendemos ser profícuo socializar com outros pesquisadores nossa experiência de fazer e aprender a fazer pesquisa em grupo, o que relatamos neste escrito.

O desafio que assumimos tinha múltiplas facetas.

Primeiro desafio, o de superar as diferenças no modo de pensar e de fazer pesquisa em nossos espaços microinstitucionais. Convidávamos todos a serem mais que atores – que interpretam com habilidade o texto proposto – e partilharem conosco a experiência da autoria, texto e contexto configurados e vivenciados em coletivos. Essa participação supõe uma relação em que todos os envolvidos fazem valer seus interesses, aspirações e valores, construindo suas identidades como cidadãos ativos, capazes de interagir e influenciar na construção de um projeto coletivo.

Nesse sentido, a pesquisa torna-se alicerce do ensino acadêmico, à medida que estudantes se apropriam, produzem e compartilham conhecimentos, mas se constitui também num processo de aprendizagem, quando permite reconhecer outras perspectivas, outras formas de conceber, perceber e explicar a realidade, a partir das quais diferentes alternativas de intervenção podem ser formuladas e experimentadas.

Segundo desafio, o de entrelaçar disciplinas e campos do conhecimento na temática definida como foco de estudo, fazendo da problematização da política e da forma de organizar e fazer políticas públicas no Brasil um processo de pensar sobre contradições reveladas no discurso sobre democracia, justiça social e qualidade de vida. Aí percebemos que o desafio da intersetorialidade não reside apenas no campo das práticas e da organização dos serviços, mas reside no interior da universidade, exigindo rupturas nos guetos e redomas que circundam e protegem grupos em cursos e departamentos. Nosso esforço de constituir uma equipe exigiu-nos rever e aproximar conceitos e concepções, métodos e técnicas de produzir conhecimento e, acima de tudo, abertura para compreender e acolher a perspectiva do outro, a forma de olhar, perceber e explicar a realidade, como possibilidade de ampliar a própria visão sobre a realidade a partir dos múltiplos prismas socializados.

Terceiro desafio, o de aprender a planejar e vivenciar processos em territórios distantes geograficamente, afastados por condições objetivas dos atores/autores envolvidos, mas superados pela postura, de cada um e de todo o grupo, de tolerância, diálogo, persistência, solidariedade e compromisso. Aqui, incluem-se também as dificuldades impostas pelos processos engessados das instituições de apoio, uma vez que não atribuem status de parceria real quando há mais de uma instituição envolvida, sobrecarregando a gestão da que assume a coordenação do projeto, única reconhecida como "executora". Da mesma forma, apesar dos discursos de incentivo a experiências interinstitucionais, essas ficam ainda por conta da criatividade, ousadia e teimosia dos pesquisadores, sem um apoio mais efetivo das instituições de origem.

Conscientes, apesar desses desafios, reunimo-nos – atores/autores de duas universidades brasileiras – para desenvolver um estudo sobre o empoderamento e o impacto gerado por conselhos gestores em dois municípios catarinenses. Esse relato apresenta a trajetória destes atores/autores no processo de aprender e fazer pesquisa.

 

Percursos metodológicos

O projeto de pesquisa congregou vinte pessoas procedentes dos municípios envolvidos na pesquisa: professores e estudantes de mestrado, pós-graduação e graduação, em sua maioria da área de saúde - enfermeiros, psicólogos, fonoaudiólogos, assistentes sociais e educadores físicos. Contamos ainda com um cientista político e com um estatístico. Considerando que tínhamos como objeto de estudo o empoderamento, adotamos a metodologia dialógica no desenvolvimento da pesquisa, privilegiando atividades compartilhadas tanto entre pesquisadores como com os sujeitos da pesquisa.

Por outro lado, a reunião de pesquisadores com diferentes perspectivas levou-nos a adotar diferentes abordagens, buscando superar a dicotomia entre quantitativo e qualitativo. Concordamos com Minayo (2005), quando defende a inseparabilidade e a interdependência dos dados subjetivos (significados, intencionalidade, interação, participação) e objetivos (indicadores, distribuição de frequência e outros) na compreensão da realidade. A composição de nossa equipe de trabalho favoreceu esse encaminhamento, pois reunimos profissionais de diferentes áreas, abertos e dispostos a trabalharem de forma cooperativa. Na análise de Minayo (2005), a triangulação de métodos em propostas de avaliação depende "de pessoas dispostas emocional e mentalmente ao diálogo e a experimentar a possibilidade de complementação entre diferentes métodos e disciplinas, realizando um movimento intelectual específico em direção a um objeto empírico" (p.32).

O "objeto" do estudo foram os conselhos gestores municipais da assistência social, dos direitos da criança e do adolescente, dos direitos do idoso e da saúde, somando oito conselhos e cento e quarenta conselheiros titulares (mesmo número de suplentes), dos municípios de Chapecó e Itajaí. Esses municípios localizam-se no estado de Santa Catarina, distantes aproximadamente 550 km, apresentando características diversas em relação à sua constituição histórica, cultural e econômica, mas com semelhanças em relação ao papel político institucional que assumem em sua região de inserção. Itajaí, localizada na Região do Vale do Itajaí, litoral catarinense, a 94 km da capital do estado, destaca-se como centro portuário do estado; Chapecó, maior município da região oeste de Santa Catarina, localiza-se a 580 km da capital do estado, tendo sua economia vinculada à agroindústria. Ambos têm uma população aproximada de cento e sessenta mil habitantes, predominantemente urbana, e são considerados município polo em sua microrregião.

Na coleta de dados, aplicamos questionários, realizamos observações sistemáticas e entrevistas, além da leitura de documentos, como a legislação e atas de reuniões dos conselhos. Para a análise dos dados, adotamos a triangulação de métodos, com ênfase na abordagem qualitativa, não apenas pela maior identidade do grupo com essas metodologias, mas também pelo objetivo do estudo, que tinha como foco a trajetória dos sujeitos, a dinâmica das reuniões e as concepções e as práticas sobre promoção da saúde e intersetorialidade.

A metodologia adotada para o trabalho do grupo se constituiu de encontros sistemáticos entre os pesquisadores. Ao longo de dois anos, acompanhando o desenvolvimento da pesquisa, realizamos quatro seminários envolvendo pesquisadores e bolsistas de ambos os municípios, além dos encontros entre os pesquisadores em cada cidade. Nesses encontros, utilizamos metodologias construtivistas, buscando aprofundar temas centrais e correlatos e definir aspectos metodológicos de coleta e análise dos dados, promovendo sua apropriação entre os envolvidos. Os trabalhos em pequenos grupos para definir estratégias e técnicas de coleta e análise de dados - posteriormente discutidas e decididas pela plenária - foram um ponto alto na integração e no fortalecimento dos vários níveis de competência dos envolvidos.

Ao longo desses dois anos, realizamos ainda dois seminários envolvendo os sujeitos da pesquisa em cada município, objetivando socializar os resultados parciais e finais da investigação. Nestes momentos, além de relatar os resultados, promovemos oficinas de interlocução com os pesquisandos, de modo que refletissem e discutissem conosco os achados, momentos por nós considerados tanto de formação para os conselheiros como de validação dos dados.

A pesquisa como processo de empoderamento: a experiência vivenciada na apropriação e na produção do conhecimento

Demo (2002) apresenta dois componentes fundamentais para discussão sobre finalidades e potenciais da pesquisa:

Primeiro, a pesquisa como princípio científico e educativo, integrante de todo processo emancipatório, constrói o sujeito crítico e autocrítico, participante, que não se sujeita a ser objeto, nem cultiva o outro como objeto. Para Demo (2002), desmistificar a pesquisa implica superar as condições atuais de reprodução do discípulo, incapaz ou incapacitado de ter ideias e projetos próprios. O novo mestre é aquele que souber manejar sua emancipação, não permanecendo na condição de objeto de condições alheias. O caminho da emancipação deve ser construção própria, conquista que emerge do interior e utiliza-se de instrumentos de apoio, como: professor, tecnologias, material didático, informação.

Segundo, a pesquisa como diálogo, parte do cotidiano, produto e motivo de interesses sociais em confronto, base do aprender que supera a reprodução. Demo (2002) reflete que diálogo é comunicação, incluindo riscos e desafios; não é expressão de consensos, e sim confronto, à medida que exige comunicar criticamente o próprio ponto de vista e receber criticamente o ponto de vista do outro. Por outro lado, a pesquisa impõe respeito entre os sujeitos que se defrontam; requer cuidado em termos de procedimentos relacionais, possibilitando desencontro e colaboração.

Pesquisar é sempre dialogar, à medida que se produz conhecimento do outro para si e de si para o outro. Somente pessoas emancipadas podem dialogar, pois têm com o que contribuir, o que propor e contrapor. Não entram no diálogo somente para escutar e seguir, mas para demarcar o próprio espaço, a partir do qual compreendem o do outro e com ele se compõem ou se confrontam (Demo, 2002).

Minayo (2005), ao discorrer sobre o uso da triangulação, ressalta a importância da participação da equipe em todas as fases da investigação, num esforço dialógico, aprimorando sua capacidade de discutir, diferenciar e relacionar teorias, conceitos, noções e métodos. As reflexões com base nos fragmentos teóricos em torno de um objeto podem, dessa forma, reconstruir seu significado em suas múltiplas dimensões. Desse esforço, resulta a "substituição da hierarquia, a priori¸ dos campos científicos por uma visão cooperativa entre eles e o mundo da vida" (Habermas apud Minayo, 2005, p.32).

O primeiro seminário de pesquisa: aprofundando conceitos e delineando o estudo

A iniciativa de escrever o projeto de pesquisa e apresentá-lo aos órgãos financiadores partiu de suas coordenadoras, que conseguiram trocar ideias e obter a adesão de um grupo de professores com os quais interagiam em atividades de ensino, extensão e/ou pesquisa em suas instituições. Transcorrido um ano entre a origem do projeto, sua aprovação e a liberação dos recursos, o grupo conquista condições objetivas e subjetivas necessárias para iniciar sua trajetória.

Em abril de 2006, os pesquisadores se encontram, conhecendo-se e reconhecendo-se pela primeira vez como equipe. O local - uma sala de aula da Univali -, espaço de trabalho e de estudo para alguns participantes, facilitou a disponibilidade de infraestrutura, mas não contávamos ainda com o envolvimento total do grupo, o que dificultou a permanência de todos nas atividades desenvolvidas nos três dias de encontro.

A apresentação do projeto e de nossos objetivos é acolhida com interesse, mas não provoca ainda debate, pois requer de todos uma maior apropriação. A proposta desse seminário foi aprofundar conceitos eleitos como chave para o desenvolvimento do estudo e delinear mais claramente o desenho da pesquisa, definindo questões metodológicas operacionais, como: a demarcação do período a ser analisado, responsabilidades dos pesquisadores e alguns encaminhamentos institucionais para viabilizar a pesquisa.

Nesse encontro, dois conceitos foram aprofundados, com base na exposição de professores em interação com o grupo: democracia e empoderamento. No debate, precedido pela confecção de um mapa conceitual, outros subconceitos foram abordados, como: representatividade, processo decisório político, impacto na gestão, competências e promoção da saúde.

Para Demo (2002), a pesquisa teórica implica conhecer quadros de referência, atualizar-se, sem modismos, visando definir conceitos com maior precisão. A teoria é fundamento como instrumentação interpretativa da realidade, mas constitui também condição de criatividade, promovendo a consciência crítica, que encontra nela alternativas explicativas. A teoria faz parte de qualquer projeto que procura captar a realidade, começando pela definição do que seja "real". Todo dado empírico fala por meio de uma teoria; dependendo do quadro teórico de referência para a coleta e análise, o mesmo dado pode evidenciar conclusões diferentes.

Duas questões provocaram a construção do mapa conceitual sobre empoderamento, cujo desenho pode ser base da análise de nossa própria trajetória. A primeira questão – o que sabemos sobre empoderamento? – enfatizou-o como processo em construção, que requer confiança e participação. Como processo permanente, o exercício do poder exige capacitação, ou seja, aprender a tomar decisões, aprender a compartilhar visando ao fortalecimento da capacidade individual e coletiva na tomada de decisões, estabelecendo relações de solidariedade. Como processo social, que busca a transformação da realidade, incluindo condições e relações sociais, o empoderamento requer o envolvimento de sujeitos em redes. Apesar de enfatizar a autonomia como finalidade, ou seja, o fortalecimento da capacidade de tomar a vida com as próprias mãos, o exercício do poder é transitivo, exige relação, interação, solidariedade.

A segunda questão – o que precisamos saber sobre empoderamento para desenvolver a pesquisa? – enfatizou aspectos teóricos e práticos. Identificamos a necessidade de compreender melhor conceitos inter-relacionados e dimensões do empoderamento, elegendo o conceito de poder como central para aprofundamento. Por outro lado, como profissionais (atuais ou futuros) com potencial de promover e fortalecer processos de empoderamento, identificamos como relevante nos apropriarmos de metodologias coerentes, reconhecendo ou construindo estratégias para sua efetivação. Nesse sentido, precisávamos conhecer fatores que interferem, negativa ou positivamente, sobre processos de empoderamento. Além disso, consideramos relevante conhecer formas de avaliar o processo, identificando parâmetros e indicadores que evidenciem sua concretização.

Nesse primeiro encontro, evidenciamos recursos pessoais e interpessoais favoráveis ao processo de empoderamento do grupo, relacionados tanto à percepção de si como sujeito do processo – sentimento de autovalorização, crença na validade dos objetivos e valores pessoais de vida –; quanto no reconhecimento do outro como parceiro da trajetória – sensibilidade e abertura na comunicação frente a expectativas, desejos e interesses dos outros; capacidade de construir e manter laços de amizade e confiança; respeito em relação aos outros (Herriger, 2006).

Para Stark (2002), o empoderamento é fortalecido por meio de espaços e situações que promovam a autoestima e o sentimento de identidade, favorecendo a mediação de contatos sociais entre pessoas com experiências semelhantes e promovendo o sentimento de pertencimento social. Esses espaços e situações proporcionam experiências de liderança e tomada de decisão compartilhada, ações de comunicação e apoio eficazes, distribuição de papéis e responsabilidades, segundo a capacidade de cada um, troca de informações e recursos, favorecendo a gestão adequada em função do crescimento e desenvolvimento do grupo (Silva, Martínez, 2004).

Conforme Minayo (2005), a primeira etapa da pesquisa é o momento de definir cronograma, divisões do trabalho, coordenações, espaços, ritmos e abordagens. Todas as definições ao longo do processo foram documentadas, não apenas para rememorar em caso de dúvidas, mas também para evitar discordâncias ou mudanças indesejadas, especialmente por termos tarefas semelhantes e complementares sendo realizadas por atores e em territórios diferentes. Para Minayo (2005), essa é uma primeira estratégia de triangulação, pois contempla vários pontos de vista, sem perder de foco o objeto comum de pesquisa.

O segundo seminário de pesquisa: definindo agendas, instrumentos e estratégias para a coleta de dados

Em julho de 2006, o grupo encontra-se em Chapecó. O lugar afastado da cidade, mas acolhedor, mobiliza os participantes à concentração. São novamente três dias de encontro, iniciando com a revisão dos objetivos e dos prazos contratuais com as instituições financiadoras.

Além de retomarmos o estudo dos conceitos, nesse encontro priorizamos a definição dos instrumentos de coleta de dados. Teoria e prática constituem um todo, detendo a mesma relevância científica. "Não se pode realizar prática criativa sem retorno constante à teoria, bem como não se pode fecundar a teoria sem confronto com a prática" (Demo, 2002, p.27). Para Demo (2002), teoria discute concepções de realidade, método discute concepções de ciência. Método é instrumento, caminho, procedimento; por isso requer, primeiramente, uma teoria. Para captar algo, é necessário ter ideia do que captar. A despreocupação metodológica resulta em baixo nível acadêmico, gerando expectativas ingênuas de evidências prévias.

A opção pela triangulação de métodos implicou maior debate, visando integrar diferentes concepções teórico-metodológicas, sem perder a riqueza de suas especificidades. A junção das especificidades metodológicas não resulta em sua dissolução, mas continua a existir no trato de questões que exigem uma ou outra abordagem (Minayo, 2005). A adoção pela triangulação requer dos pesquisadores uma aproximação com os princípios da complexidade, reconhecendo o dinamismo da realidade, bem como o papel do observador na interação com o objeto e a associação entre conceitos e noções complementares e concorrentes em "diferentes níveis de desenvolvimento teórico e prático no interior das áreas disciplinares" (Minayo, 2005, p.34).

Fomos conduzidos ao debate sobre transcendência, algo que nos atravessa como seres humanos. O re-conhecimento do todo dinâmico e da realidade complexa pode ser favorecido pelo exercício de inter e transdisciplinariedade. Reconhecemo-nos como parte e partícipes da realidade que estudamos, interagindo por meio da linguagem, dos sentidos e das práticas sociais, protagonizando, como coautores, a história.

A partir da explanação do estado da pesquisa, o trabalho nos grupos foi intenso, no sentido de analisar, discutir, estudar e formular proposições sobre encaminhamentos metodológicos. Para Demo (2002), a pesquisa prática coloca realidade na teoria, obriga a teoria a se adequar, se rever, mudar, ou, mesmo, se superar. O critério mais pertinente da cientificidade é a discutibilidade: somente o que é discutível, na teoria e na prática, pode ser aceito como científico. Este momento foi muito rico, pois privilegiamos a composição dos grupos pesquisadores com diferentes níveis de formação, possibilitando maior troca de conhecimentos e, ao mesmo tempo, valorizando opiniões e impressões de todos os participantes.

Para Minayo (2005), é necessário analisar a implementação em diferentes etapas do processo, permitindo a readequação das estratégias e instrumentos de acordo com possíveis mudanças ocorridas tanto nos espaços quanto nos atores envolvidos. Esses momentos eram essenciais para a equipe, possibilitando o reconhecimento da trajetória dos outros, de suas iniciativas e criatividade em superar desafios e interagir de forma mais produtiva com o objeto do estudo, retomando metas estabelecidas e salientando sempre os objetivos traçados.

Acordamos a agenda para coletar os dados, ressaltando a necessidade de vivenciar, na pesquisa, o processo de aprendizagem. Como refere Demo (2002), pesquisar não é apenas produzir conhecimento, é aprender em sentido criativo, submetendo-se à dúvida, ao desafio, superando a reprodução. O diálogo deve ser permanente, provocado por ruídos de nossas desigualdades e especificidades, os quais têm o potencial de perturbar e desconstruir, movimento necessário para possibilitar a reconstrução, a ressignificação e a criação do novo.

Ao final do seminário, na fala de cada componente do grupo, transpareceu a satisfação com o encontro, pela oportunidade de participar e pelo envolvimento de todos, além do prazer de ter compartilhado sua experiência e de aprender com a experiência do outro, construindo juntos formas de operacionalizar a pesquisa.

Para Stark (2002), a condição básica do processo de empoderamento é o acesso aos recursos interindividuais e a possibilidade de utilizá-los. Isto requer a disponibilização de informações, ideias e concepções sobre como solucionar problemas, bem como a organização de troca de experiências e pensamentos. Na interação vivenciada no encontro, identificamos situações e posturas favoráveis ao empoderamento do grupo, reveladas também na fala dos participantes, como as dinâmicas participativas de decisão na plenária, consolidando o que foi produzido nos pequenos grupos. Estes cuidados reduzem o conflito de papéis e melhoram a satisfação entre os membros do grupo. Outro aspecto favorável observado foi o desenvolvimento de competências entre os participantes, pois o processo possibilitou transmitir habilidades pessoais e apreender novas habilidades por meio do trabalho conjunto, promovendo o reconhecimento e o emprego de competências próprias.

O terceiro seminário de pesquisa: conhecendo resultados e ferramentas para sua análise e interpretação

De 31 de janeiro a 2 de fevereiro de 2007, realizamos nosso terceiro encontro em Itajaí, em espaço distante da cidade, buscando garantir condições para o trabalho de equipe requerido nessa etapa. Inicialmente, revimos o projeto, resgatando conceitos-chave e socializando informações sobre seu andamento. Nesse encontro, o foco principal foram as abordagens teórico-metodológicas para a análise dos resultados.

A realidade não depende de interpretação para existir, mas a realidade conhecida é aquela interpretada. "A hermenêutica é a arte de descobrir a entrelinha para além das linhas, o contexto para além do texto, a significação para além da palavra" (Demo, 2002, p.22). Minayo (2007) salienta três cuidados que os pesquisadores devem ter na análise dos dados coletados: primeiro, o de não cair na ingenuidade de interpretar espontânea e literalmente os dados como expressão pura da realidade. Segundo, o de não sucumbir aos métodos e técnicas, descontextualizando o objeto de suas relações sociais, vivas e dinâmicas. Terceiro, o de não apresentar resultados obtidos no campo desvinculados da teoria.

Para análise dos resultados, apoiamo-nos na triangulação de métodos, compreendida por Denzin (2006) como a combinação e o cruzamento de múltiplos pontos de vista de pesquisadores com formação diferenciada, a visão de vários informantes e o emprego de variadas técnicas de coleta de dados.

Investimos um tempo significativo no estudo de ferramentas quantitativas e qualitativas para a análise dos dados. A análise multivariada, com o emprego da estatística e a demonstração dos dados em tabelas e gráficos, revelou-nos possibilidades de observar e socializar de forma mais sistemática informações relacionadas a categorias analíticas, seguindo a classificação de Minayo (2007), como: faixa etária, gênero, participação política e relação com a entidade, colhidas junto aos conselheiros por meio de formulários. Para essa autora, essas categorias retêm relações sociais fundamentais e servem de guia teórico para se conhecerem aspectos gerais de um objeto.

Por outro lado, as categoriais operacionais nos permitiram o trabalho de campo, com o emprego de roteiros de observação sistemática e entrevistas semiestruturadas. Para Minayo (2007), essas categorias são construídas a partir de cada projeto de pesquisa, devendo ser claras, bem definidas, favorecendo sua aplicação. Nesse caso, entraram em pauta categorias definidas pelo grupo para análise da dinâmica da participação nos conselhos e de concepções e práticas sobre promoção da saúde e sobre intersetorialidade, que demandaram reuniões extras entre os pesquisadores para discussão e consenso.

Na avaliação desse seminário, algumas falas revelam sentimento de pertencimento, solidariedade e reciprocidade, essenciais à promoção do empoderamento: "é muito especial, ver as pessoas crescendo junto, se sentindo importantes, valorizando a participação coletiva. Todos nos sentimos mais presentes, mais valorizados [...]. Saio do seminário muito fortalecida. Esse grupo é o máximo, é coisa de sonho"; "O empenho de todos foi muito rico"; "É fascinante como somos valorizados por menor que seja nossa contribuição"; "Estou tendo mudança na visão e perspectiva de melhor entendimento também na graduação, isso a pesquisa nos proporciona"; "Estou saindo mais empoderado; é uma experiência gratificante para mim. [...] Aqui a receptividade é muito grande! Estou extremamente satisfeito e com a ideia do que é a dimensão desse projeto, envolvendo as equipes do litoral ao extremo oeste, é uma coragem muito grande!"; "Já estou sentindo falta, porque o processo já está chegando ao fim!".

O quarto seminário de pesquisa: definindo agendas e estratégias para a socialização dos resultados

O reencontro após um ano de distanciamento, em fevereiro de 2008, provoca emoções ambíguas: nos últimos passos dessa trajetória, alegria e tristeza, próprios na finalização de um projeto comum. O espaço de encontro no Município de Lages, facilitando aos dois grupos o acesso, propiciou um clima de concentração e de acolhimento entre os participantes.

Estávamos ali comprometidos com a produção coletiva, conscientes da responsabilidade de fazer pesquisa como processo de descoberta e de criação. A pesquisa, questionando o saber vigente, propõe novas relações, gerando novo conhecimento; questionando a situação vigente, sugere, força o surgimento de novas alternativas (Demo, 2002). A história requer mais que a lógica da descoberta, a lógica da criação. "A sociedade vê no cientista e na universidade não somente próceres e lugares da descoberta de relações dadas e necessárias, mas principalmente a geração incansável e sempre renovada da criatividade histórica". Pesquisa é processo social que "perpassa toda vida acadêmica e penetra na medula do professor e do aluno". Sem ela, não se pode atribuir o nome de universidade. Na ciência, o primeiro princípio é a pesquisa (Demo, 2002, p.36).

Entre os desafios que confrontamos, ressaltamos o de produzir nosso relatório final, bem como outras formas de publicizar nossos achados. Foram momentos de tomar decisões e assumir compromissos; momentos de socialização de saberes e práticas, de ouvir, falar, refletir, perceber, deixar-se tocar, interagir, emocionar-se e sonhar junto. Novamente percebemos práticas, posturas e situações favoráveis ao empoderamento: sentimento de pertencimento, práticas solidárias, respeito recíproco e apoio mútuo; um know-how prático e orgulho partilhado por todos acerca do "nosso projeto"; alcance de objetivos pessoais e coletivos. Aprendemos muito sobre fazer pesquisa, mas especialmente sobre ser e conviver e sobre desafios de ser pesquisador em momentos solitários e momentos solidários.

Socializando e validando a pesquisa com os sujeitos do estudo

Segundo Minayo (2007, 2005), a triangulação de métodos se fundamenta nos princípios da teoria comunicativa de Habermas, pois envolve os responsáveis pela implementação das ações, possibilitando que esses se apropriem dos dados gerados pelo trabalho como subsídios para promover mudanças necessárias e significativas. Nesse sentido, realizamos oficinas de socialização e validação de resultados da pesquisa: uma devolutiva parcial nos meses de maio e junho de 2007, e dos resultados finais em maio e agosto de 2008, em cada cidade onde o estudo se desenvolveu, visando facilitar a participação dos conselheiros e outros atores interessados.

As oficinas realizadas tiveram ainda como objetivos promover a reflexão em torno dos achados, além de possibilitar a troca de experiências entre os conselhos pesquisados, na perspectiva da intersetorialidade. A adesão dos conselheiros em algumas oficinas foi pouco expressiva, apesar de estes reivindicarem continuamente espaços de capacitação. Mesmo assim, consideramos os encontros válidos e produtivos, pois a devolutiva dos dados possibilitou aos conselheiros que refletissem e discutissem com os pesquisadores os resultados, trazendo aspectos não contemplados, incorporados às discussões dos resultados.

Outro resultado dos seminários foi o reconhecimento dos inúmeros potenciais do grupo e a formulação de estratégias para fortalecer sua atuação. Ao final de uma das oficinas, os participantes propuseram elaborar um boletim informativo dos conselhos gestores do município, como canal de comunicação entre os mesmos e entre os conselhos e a sociedade. A avaliação geral é a de que os resultados tocaram os conselheiros, suscitando pensar sobre suas práticas.

Reconhecemos os conselhos como espaço de empoderamento pessoal, grupal e estrutural, pois promovem o sentimento de pertencimento, desencadeiam sensibilização para recursos existentes, utilização de oportunidades de apoio externo, mediação de capacidades associativas, motivação com ideias e visões ou com iniciativas e projetos que promovem ações conjuntas. Além disso, promovem inserção nos projetos sociais e políticos, criação e conquista de espaços de participação na perspectiva da cidadania.

 

Algumas considerações finais

Os processos de empoderamento ocorrem em arenas conflitivas, em que se expressam relações de poder, as quais devem ser encaradas não como algo estanque, determinado, mas plástico, flexível, portanto modificável pela ação-reflexão-ação humana, à medida que os indivíduos compreendam sua inserção histórica passada, presente e futura e sintam-se capazes e motivados para intervir em sua realidade. Em nossa trajetória, aprendemos que fazer pesquisa é espaço e processo de empoderamento pessoal, grupal e estrutural, pois novos conhecimentos podem fomentar propostas de mudança social, subsidiando pessoas, grupos e sociedades em sua atuação.

O processo de pesquisa que vivenciamos constituiu-se espaço de empoderamento, à medida que fortaleceu a capacidade de tomar decisões e a distribuição de responsabilidades compartilhadas; promoveu a troca de informações e recursos, a aquisição de novas habilidades; favoreceu a abertura à comunicação e o respeito às diferenças; fomentou o sentimento de pertencimento e de valorização pessoal; e possibilitou a articulação com outros grupos e organizações sociais.

Para finalizar, retomando a compreensão do grupo sobre o processo de empoderamento, apesar de enfatizar a autonomia como finalidade, ou seja, o fortalecimento da capacidade de tomar a vida com as próprias mãos, o exercício do poder de cada um e de todos na equipe foi transitivo, exercido como relação de respeito e apoio, vivenciado como interação, constituindo-se como prática de reciprocidade e solidariedade.

 

Referências

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Recebido em 04/09/08. Aprovado em 22/01/09.

 

 

*Projeto de pesquisa financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico/Brasil e pela Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica do Estado de Santa Catarina.

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