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Ambiente Construído

versão impressa ISSN 1415-8876versão On-line ISSN 1678-8621

Ambient. constr. vol.17 no.2 Porto Alegre abr./jun. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/s1678-86212017000200149 

Artigos

Atributos ambientais desejáveis a uma unidade de alojamento conjunto Método Canguru a partir de uma experiência de projeto participativo

Desirable environmental attributes for a Kangaroo Mother Care unit based on a participatory project experience

Vera Helena Moro Bins Ely1 

Patrícia Biasi Cavalcanti2 

Juliana Tasca Tissot da Silveira3 

Marina Freitas Klein4 

Amarildo Soares Junior5 

1Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis - SC - Brasil

2Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis - SC - Brasil

3Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis - SC - Brasil

4Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis - SC - Brasil

5Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis - SC - Brasil

Resumo

Neste artigo aponta-se atributos ambientais desejáveis a unidades de alojamento conjunto centrados no ponto de vista de seus usuários. Os resultados são oriundos de uma experiência de projeto participativo realizada em uma unidade de alojamento conjunto do Método Canguru em Santa Catarina. Os métodos utilizados na pesquisa foram revisão de literatura, visitas exploratórias a duas unidades em funcionamento, brainstorming, poema dos desejos e seleção visual. Através deste estudo objetiva-se fornecer subsídios para orientar projetos de futuras unidades para que considerem os anseios de seus usuários.

Palavras-chaves: Humanização; Atributos ambientais; Método Canguru

Abstract

This paper indicates desirable environmental attributes for Kangaroo Mother Care units from the point of view of their users. The results derive from a participatory project experience carried out in a Kangaroo Mother Care unit in the state of Santa Catarina, Brazil. The research methods used were a literature review, exploratory visits to two units in operation, brainstorming, wish poems and visual selection. The aim of this study is to offer guidelines to help future units so that they are more responsive to the wishes of their users.

Keywords: Humanization; Environmental attributes; Kangaroo Mother care

Introdução

O Método Canguru foi criado em 1979 como uma alternativa ao cuidado neonatal convencional. Até então bebês recém-nascidos com saúde fragilizada eram encaminhados para a UTI neonatal e costumavam ter um contato muito limitado com as mães e os demais familiares. O método foi criado no intuito de maximizar o contato pele a pele entre o bebê recém-nascido de baixo peso e a mãe ou demais familiares, ao mesmo tempo em que proporciona uma estrutura física e recursos humanos necessários ao atendimento a sua saúde. Com o método, o contato pele a pele passou a ser estimulado tanto na UTI neonatal quanto em alojamento conjunto para mães e bebês.

Tendo em vista os comprovados benefícios para o desenvolvimento do bebê, o Método Canguru está se expandindo em diversos países e recentemente tem sido implementado também em hospitais e maternidades brasileiros.

Apesar do crescimento significativo no número dessas unidades hospitalares, há poucas informações disponíveis para orientar os profissionais envolvidos em seu planejamento. Isso possivelmente se deve ao fato de a expansão do método ser recente, já que, mesmo havendo diversas pesquisas sobre o tema na área da saúde, são poucas as avaliações sistemáticas de unidades em funcionamento no âmbito da arquitetura ou design.

Assim, este trabalho buscou definir atributos ambientais desejáveis para o planejamento de novas unidades de alojamento conjunto Método Canguru que sejam centrados em seus usuários. A pesquisa baseia-se em revisão de literatura, visitas exploratórias e em uma experiência de projeto participativo realizado ao longo de um ano, por meio de dois workshops em uma unidade de alojamento conjunto do Método Canguru de Santa Catarina, onde foram aplicados métodos de brainstorming, poema dos desejos e a técnica de seleção visual. Os dois primeiros métodos - revisão de literatura e visitas exploratórias - não fazem parte do processo participativo, mas foram incluídos na metodologia para auxiliar na compreensão do Método Canguru e em como as necessidades ambientais dos usuários se refletem em diferentes projetos.

O interesse pelo tema surgiu da solicitação de um projeto de reforma para uma unidade de alojamento conjunto Método Canguru. A partir disso, a equipe de pesquisadores propôs aos solicitantes que o processo fosse conduzido de modo participativo, visando refletir também sobre essa abordagem metodológica, que é ainda pouco usual no país. O desejo dos funcionários de saúde de realizar melhorias nos ambientes dessa unidade certamente foi uma importante motivação para sua ampla colaboração e participação durante a aplicação de todos os métodos. Seguindo as recomendações nacionais de ética em pesquisa com seres humanos, a pesquisa foi previamente aprovada na Plataforma Brasil.

Fundamentação teórica

O Método Canguru foi criado por Edgar Rey Sanabria e Hector Martinez, em 1979, no Instituto Materno Infantil de Bogotá, na Colômbia. A criação desse método teve por objetivo diminuir as altas taxas de mortalidade neonatal, infecções, desmame precoce e abandono materno, que afetavam o país naquele momento (VENÂNCIO; ALMEIDA, 2004).

No Brasil, os primeiros estabelecimentos de saúde que aplicaram o método foram o Hospital Guilherme Álvaro, em Santos (SP), em 1992, e o Instituto Materno-Infantil de Pernambuco (Imip), em 1993. O Método Canguru surge no país como parte da política pública de humanização dos cuidados com recém-nascidos de baixo peso (VENANCIO; ALMEIDA, 2004).

O Ministério da Saúde do Brasil (BRASIL, 2007) recomenda a aplicação do método em três etapas. Inicia-se na UTI neonatal, que recebe o bebê com restrições de saúde. Nessa primeira etapa são fundamentais o estímulo e a presença da mãe e do pai. Ao verificar uma melhora no estado fisiológico do bebê, e havendo disponibilidade da mãe, a díade é encaminhada para uma unidade de alojamento conjunto, a qual corresponde à segunda etapa do método. Nessa unidade busca-se prestar atendimentos médicos e de enfermagem necessários ao bebê, e ao mesmo tempo maximizar o contato com a mãe, o que comprovadamente contribui para a melhora de sua condição de saúde1. A terceira etapa corresponde ao atendimento ambulatorial. Nesse estágio já foi concedida a alta hospitalar, e a mãe e o bebê passam a realizar consultas rotineiras para acompanhamento da evolução de saúde deste. Essas consultas podem ocorrer no ambulatório do hospital ou em consultórios previstos no alojamento conjunto do Método Canguru.

A unidade de alojamento conjunto constitui-se, portanto, em uma espécie de internação que acomoda mães e bebês por períodos relativamente longos. Acolhe recém-nascidos que não se encontram em condições clínicas estáveis para receber alta hospitalar, mas que já receberam alta da UTI neonatal. Não são prestados atendimentos médicos e de enfermagem críticos; apenas se faz o acompanhamento contínuo do estado de saúde do bebê, proporcionando todos os cuidados necessários.

Tendo em vista a permanência prolongada no local, potencializa-se um vínculo consistente entre os usuários e o ambiente, razão pela qual esse deverá lhes proporcionar suporte às atividades cotidianas, além de acomodar as visitas dos demais familiares e amigos. A configuração ambiental da unidade deve se aproximar da estrutura de um ambiente residencial, pois servirá de moradia para as mães e os bebês, até ocorrer a alta hospitalar.

Embasados nos estudos de psicologia ambiental - que apontam a inter-relação entre usuários e ambiente - e nos trabalhos de ergonomia que consideram as atividades realizadas pelos usuários nos ambientes, apresentamos a seguir, de modo sucinto, a relação usuários X atividades X ambientes na unidade de alojamento conjunto - Método Canguru, objeto deste estudo. São brevemente descritos o perfil dos principais usuários dessas unidades, as atividades realizadas rotineiramente e a configuração ambiental de unidades em funcionamento. Os dados descritos a seguir se baseiam tanto na revisão de literatura como nos resultados obtidos nas visitas exploratórias.

Usuário

Os principais usuários dessas unidades são bebês, mães e pais. Mães e bebês ficam alojados no local, vivenciando-o por longos períodos, o qual só será interrompido se houver necessidade de a mãe realizar uma saída breve. Os pais não costumam pernoitar na unidade, mas sua presença é estimulada, tendo em vista a importância do apoio emocional às mães e aos bebês2.

Os bebês, devido ao estado de saúde fragilizado, necessitam permanecer internados no hospital. Entre as características prevalentes podemos citar baixo peso, dificuldade de sucção na amamentação, problemas na regulação da temperatura corporal, refluxo e dificuldades respiratórias (BRASIL, 2007).

As mães, em geral, não apresentam patologias, e sua presença no local visa dar suporte aos bebês. No entanto, cabe observar que muitas delas ainda estão se recuperando do parto ou da cesárea, e nesse sentido o ambiente e o mobiliário devem estar adequados às restrições de movimento e postura que possam apresentar. No que se refere ao perfil psicológico dessas mães, geralmente tendem a estar sensibilizadas emocionalmente, uma vez que seus filhos não estão em condições clínicas ideais. Também impacta em seu bem-estar o fato de que ficarão fora de suas residências por períodos prolongados, em um ambiente coletivo e nem sempre acolhedor, o que interrompe a rotina3.

Os demais usuários da unidade são os profissionais de saúde que atuam direta ou indiretamente atendendo as famílias. Permanecem continuamente na unidade técnicos de enfermagem e o enfermeiro plantonista. Os demais profissionais de saúde normalmente não são exclusivos do setor e atuam também na UTI e na maternidade. São eles: médicos, fonoaudiólogos, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais4.

Atividades

O principal cuidado na unidade canguru consiste em a mãe ficar com o bebê na posição vertical, contra o peito, semelhante aos marsupiais, o que explica a origem do nome dado ao método. É indicado que as mães fiquem em contato pele a pele com o bebê o maior tempo possível, pois assim há melhor controle da temperatura corporal da criança, com diversos benefícios fisiológicos, além de aumentar o vínculo afetivo entre mãe e filho (TAVARES, 2014; CARVALHO, 2014). Cabe observar que não apenas as mães, mas também os pais podem praticar o contato pele a pele com os bebês, razão pela qual sua presença no local tem sido amplamente estimulada.

Com referência à rotina, geralmente no período da manhã, logo após acordar, a mãe amamenta o bebê e faz a troca de fralda, pesando-a antes de descartá-la, para controlar a perda de peso. Após a mamada, e durante a maior parte do tempo de sua estadia, o bebê costuma repousar, seja na posição canguru, seja no berço aquecido. A indicação de que a mãe fique com o bebê na posição canguru durante o maior tempo possível deve ser observada pela equipe de enfermagem para que não haja desgaste psicológico e fisiológico da mãe5. A troca de fraldas e a amamentação costumam ser realizadas de três em três horas, enquanto o banho do bebê ocorre uma vez ao dia. São ainda atividades rotineiras exclusivas das mães tomar banho, comer, assistir a televisão, interagir com as demais mães da unidade e realizar trabalhos manuais.

Entre os profissionais de saúde são os técnicos de enfermagem e enfermeiros os que mais têm contato com a mãe e o bebê. Suas principais atividades incluem examinar o bebê para medir os sinais vitais (temperatura, pressão, peso, auscultar), auxiliar as mães nas trocas de fralda e banho, preencher os prontuários e preparar medicações6.

O médico faz visita cerca de uma vez ao dia, quando prescreve a medicação, verifica os sinais vitais do bebê e, se necessário, solicita ou realiza a coleta de sangue para exames. O psicólogo e o assistente social atuam juntos na unidade, cerca de uma vez por dia. O psicólogo atua diretamente com a mãe e o bebê, e o assistente social costuma fazer um trabalho que abrange toda a família, por exemplo verificando a periodicidade de suas visitas. O trabalho do fonoaudiólogo é assessorar a mãe durante as mamadas, de uma a três vezes ao dia. O fisioterapeuta atua realizando fisioterapia respiratória e muscular no bebê, quando esta for solicitada pelo médico7.

Ambiente

As unidades de alojamento conjunto Método Canguru têm como ambiente principal um quarto coletivo, local de maior permanência dos usuários (Figuras 1 e 2). Nesses ambientes, em geral, encontram-se leitos para as mães, local para a guarda de pertences pessoais, poltronas para amamentação e berços aquecidos para acomodar os bebês quando as mães precisam realizar outras atividades8. Como os bebês são muito pequenos e sensíveis, a troca de fraldas ocorre no próprio berço aquecido ou no leito da mãe.

Figura 1 Quarto de alojamento conjunto no Paraná 

Figura 2 Quarto de alojamento conjunto em Santa Catarina 

Além do quarto conjunto, essas unidades costumam dispor dos seguintes espaços: posto de enfermagem, copa, sala de estar e jantar, e banheiro.

O posto de enfermagem (Figuras 3 e 4) é equipado com cadeiras, bancada e computador, para que os técnicos possam realizar a observação dos usuários da unidade e preencher os prontuários. Nesse espaço há lavatório para higienização das mãos, balança, saída para oxigênio, vácuo e ar comprimido - estação esta que serve para socorrer bebê em caso de emergência -, e frigobar, para o armazenamento de leite materno e medicamentos.

Figura 3 Posto de enfermagem do alojamento conjunto do Paraná 

Figura 4 Posto de enfermagem do alojamento conjunto de Santa Catarina 

A copa possibilita às mães o preparo e armazenamento de lanches ou refeições e costuma ficar próximo à sala de jantar. Essa última, por ser um dos maiores ambientes da unidade e dispor de uma mesa, pode ser usada para outras atividades coletivas, como socializar ou realizar terapia ocupacional.

A sala de estar (Figuras 5 e 6) é um ambiente onde as mães podem circular com seus bebês, assistir a televisão e receber familiares e amigos.

Figura 5 Área de estar do alojamento conjunto do Paraná 

Figura 6 Área de estar do alojamento conjunto de Santa Catarina 

O banheiro geralmente é coletivo, devido à quantidade de mães que a unidade comporta. Muitas vezes o revezamento de uso do banheiro é feito de comum acordo entre as mães, sendo raramente motivo de conflito.

Como as unidades canguru visitadas receberam o mesmo padrão de acabamento do restante do hospital em que se inserem, observou-se que nem sempre eles apresentam uma ambientação próxima da residencial e tendem a ser locais pouco acolhedores e com uma imagem tipicamente institucional9.

Método

A pesquisa possui abordagem qualitativa, exploratória e multimétodos. Alguns dos métodos selecionados para a realização da pesquisa são característicos de processos de projeto participativo como brainstorming (OSBORN, 1953), poema dos desejos (SANOFF, 1991) e a técnica de seleção visual (SANOFF, 1991). Esses métodos e técnicas foram aplicados em dois workshops com usuários de uma única unidade em Santa Catarina, com o objetivo de maximizar a participação dos usuários e compreender suas percepções e necessidades relativas ao ambiente. Previamente à aplicação dos métodos de projeto participativo, foram realizadas ainda revisão bibliográfica e visitas exploratórias, com o objetivo de melhor fundamentar a pesquisa.

Com a revisão bibliográfica buscou-se aprofundar o que é o Método Canguru, o perfil de seus usuários, as atividades realizadas e a configuração ambiental. Baseou-se em leituras técnicas, de artigos científicos, da legislação vigente e em vídeos disponíveis na internet. Constatou-se que havia pouca bibliografia disponível sobre o tema, especialmente no que tange ao âmbito da arquitetura, e por esse motivo viu-se a necessidade de complementar os dados por meio de visitas exploratórias a unidades em funcionamento.

As visitas exploratórias (ORSTEIN; ROMÉRO, 1992) tiveram por objetivo a obtenção de dados relativos ao perfil dos usuários, rotinas de atividades e configuração ambiental das unidades. Foram realizadas visitas a três hospitais públicos com unidades canguru, um no estado do Paraná e dois em Santa Catarina. Dessas três unidades duas estavam em funcionamento, e a outra, embora estivesse configurada espacialmente como uma unidade canguru, estava provisoriamente sendo utilizada para atender a outras demandas do hospital. Cada visita durou em média quatro horas, e nelas foram feitas entrevistas não estruturadas com funcionários e mães, bem como observações diretas e assistemáticas do ambiente. Na unidade canguru desativada foram entrevistados os profissionais de saúde e feitas observações relacionadas ao ambiente, com a limitação de que este não estava sendo utilizado para o fim ao qual se destinava.

Após a revisão bibliográfica e visitas exploratórias deu-se início ao processo de projeto participativo, realizado na unidade que estava desativada, com o objetivo de desenvolver uma proposta de reforma. Ao adotar essa abordagem, o projeto centra-se, consequentemente, nos usuários e em suas atividades, e permite a eles participar do processo e avaliar o desenvolvimento da proposta em diferentes etapas, o que favorece seu ajuste e adequação (IIDA, 2005). Inserir os usuários na tomada de decisão projetual favorece o aprofundamento na compreensão de suas necessidades, que, muitas vezes, não são plenamente atendidas pelos projetistas.

O projeto participativo foi realizado por meio de dois workshops no local da própria unidade a ser reformada, dos quais participaram mães, fonoaudiólogos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicólogo e assistente social. No primeiro workshop foram aplicados os métodos brainstorming e poema dos desejos com doze participantes. Essa amostra representa a grande maioria das mães e funcionários da unidade que tinha disponibilidade de participar naquele momento, já que sua capacidade de atendimento é de até seis leitos.

O brainstorming, ou tempestade cerebral, é uma técnica desenvolvida para a geração de ideias sem um julgamento inicial. Foi criado por Alex Osborn em 1930 pela necessidade de estimular a geração de novas propostas, em que uma solução pode despertar novas sugestões e explorar a potencialidade criativa de um grupo. Essa técnica se divide em quatro regras básicas:

  1. as ideias iniciais não são acompanhadas de críticas;

  2. busca-se atingir uma grande quantidade de ideias, sem discussão e julgamentos;

  3. s ideias iniciais servem de estímulo para a geração de novas propostas, encorajando os participantes a refletir e a propor novas soluções; e

  4. a combinação e a distorção das ideias ajudam a manter o fluxo da discussão (KOWALTOWSKI; BIANCHI; PETRECHE, 2011)

Nesse sentido, solicitou-se a todos os participantes que elencassem conceitos gerais que consideravam importantes para o planejamento de uma futura unidade canguru. Cada participante recebeu pedaços de papel colorido e neles poderia escrever uma palavra ou expressão relativa a atributos ambientais desejáveis para o local. As palavras foram fixadas em um grande painel coletivo, visível para todos. Em seguida os participantes discutiram e selecionaram, por meio de argumentação e consenso, quatro conceitos mais significativos em suas percepções. Durante os workshops evitou-se a realização de votação, de forma a estimular o diálogo entre todos os participantes e a tomada de consciência de que suas necessidades poderiam ser diferentes em relação às necessidades dos demais.

Em seguida foi aplicado o método poema dos desejos. Desenvolvido por Henry Sanoff para fins de aplicação em projetos participativos, esse método se centra em um instrumento não estruturado, de livre expressão, que incentiva a espontaneidade das respostas pelos usuários. Sua aplicação é rápida e simples, com resultados representativos das demandas e expectativas atuais e futuras dos usuários (RHEINGANTZ et al., 2009). Assim, foi entregue aos participantes um formulário com a seguinte pergunta: "Como eu gostaria que o ambiente da unidade canguru fosse ou estivesse?". Os participantes foram solicitados a desenhar ou a descrever, de modo específico e detalhado, como deveria ser ou o que deveria ter no ambiente da unidade. Assim, o método permitiu aos participantes descrever soluções e alternativas projetuais, além de identificar aspectos desejáveis ao projeto por meio de textos. O tempo de duração desse primeiro workshop foi de três horas, e os resultados textuais foram tratados por meio de análise de conteúdo.

Com base nos resultados obtidos no primeiro workshop, e considerando as restrições econômicas, condicionantes técnicas e normativas, a equipe de pesquisadores desenvolveu quatro estudos de configurações ambientais possíveis para a reforma da unidade. Após amplo debate entre os próprios pesquisadores, duas propostas distintas foram escolhidas para ser discutidas e ajustadas posteriormente com a participação dos usuários da unidade.

No segundo workshop, com um total de sete participantes - um fonoaudiólogos, dois enfermeiros, dois técnicos de enfermagem, um psicólogo e uma assistente social - utilizou-se a técnica de seleção visual. Desenvolvida por Henry Sanoff também para fins de aplicação em projetos participativos, essa técnica possibilita identificar valores, significados e referências agregados ao conjunto de ambientes em análise. Permite ainda compreender o imaginário das pessoas, considerando os impactos causados por determinadas tipologias arquitetônicas e organizações espaciais (RHEINGANTZ et al., 2009).

A seleção visual foi realizada em duas etapas, a primeira com imagens pré-selecionadas de ambientes com diversas possibilidade de cores, formas e elementos que pudessem ser inseridos no projeto. Já a segunda etapa consistiu na apresentação pelos pesquisadores de duas propostas projetuais com diferentes possibilidades de configuração ambiental, para a escolha e ajuste de uma delas pelos usuários. Assim, o método permitiu aprofundar a compreensão dos anseios e necessidades dos usuários já evidenciados nos métodos anteriormente aplicados. O tempo de duração desse segundo workshop foi de três horas.

Resultados do processo participativo

Encontra-se a seguir uma descrição sucinta dos principais resultados obtidos nos dois workshops. Optou-se por não se apresentarem aqui os resultados das visitas exploratórias, por não estarem relacionadas ao processo de projeto participativo, embora tenham sido utilizadas para complementar a fundamentação teórica e o embasamento deste trabalho.

Resultados do primeiro workshop

Brainstorming

O brainstorming, método utilizado no primeiro workshop, permitiu a compreensão de conceitos gerais a serem considerados no planejamento de uma futura unidade canguru. Num primeiro momento cada um dos participantes listou individualmente alguns conceitos, os quais foram fixados em um painel coletivo e agrupados por similaridade (Figura 7). Os resultados obtidos incluíram silêncio, higiene, ergonomia, controle de ruído, funcionalidade, lazer, claridade, temperatura adequada, boa ventilação, espaço recreativo, espaço para acompanhante, cadeiras para amamentação, praticidade, ambiente organizacional, segurança, harmonia, presença dos pais, convivência, aconchego e conforto.

Figura 7 Pesquisadoras diante do painel onde foram colados os conceitos resultantes do brainstorming 

Tendo em vista que em projetos participativos busca-se atingir o consenso entre os usuários e evitar a votação, foi solicitado a todo o grupo que discutisse os conceitos e elencasse aqueles que fossem mais significativos na percepção de todos. Assim, foram selecionados quatro conceitos: aconchego, privacidade, ergonomia e segurança.

O conceito de aconchego foi escolhido como oposição ao caráter institucional que prevalece na maioria dos ambientes hospitalares e que também caracteriza a atual unidade canguru na percepção de seus usuários. O desejo por um ambiente mais acolhedor deve-se à permanência prolongada dos bebês e familiares no local.

Outro conceito destacado foi privacidade. Como o alojamento das mães é atualmente um quarto coletivo sem divisórias, seus territórios são constantemente invadidos, não só pela presença física de outras pessoas, como também de forma visual, sonora e olfativa. Foi destacada a importância de se dispor de boxes privativos para os leitos e de poder controlar o acesso de outros a esses boxes, para permitir momentos íntimos na relação mãe-bebê, como a amamentação.

Ergonomia foi o terceiro conceito elencado pelos participantes devido à necessidade de que os equipamentos e mobiliários sejam confortáveis, seguros e adequados aos usuários e suas tarefas. Os participantes destacaram ainda a importância de dispor de poltronas para a amamentação, por ser uma atividade frequente, prolongada e de fundamental importância para os bebês.

O quarto conceito, segurança, reflete a expectativa das mães e familiares em relação a um ambiente que dê suporte à saúde e foi associado a aspectos como a eficiência e a rapidez no atendimento médico e de enfermagem. Foi bastante mencionado que o ambiente deve facilitar o contato físico e visual entre as mães e os profissionais de saúde, o que pode se dar através do posicionamento estratégico do posto de enfermagem no quarto coletivo. Também foi sugerido dispor de uma campainha para chamar os profissionais de saúde em situações de emergência.

Poema dos desejos

O poema dos desejos (Figuras 8 e 9), segundo método aplicado no primeiro workshop, permitiu obter uma descrição mais detalhada e específica do que seria desejável para os ambientes da unidade do que os conceitos gerais levantados no brainstorming. As respostas textuais obtidas com esse método foram tratadas por meio de análise de conteúdo e resultaram em cinco categorias, das quais se destacaram três: humanização, conforto ambiental, e equipamentos e mobiliário.

Figura 8 Poema dos desejos preenchido pelos participantes 

Figura 9 Poema dos desejos preenchido pelos participantes 

A categoria mais citada foi equipamentos e mobiliário, 56 vezes. Destacaram-se respostas relativas à necessidade de mais cadeiras de amamentação, as quais deveriam ser ergonômicas. Equipamentos utilitários foram também citados com grande frequência e dizem respeito à rotina das mães na unidade, como fogão elétrico, geladeira, micro-ondas, lava-louças e varal. Foram ainda citados móveis relacionados aos ambientes de estar e recebimento de visitas, como cadeiras, bancos e sofás, brinquedos para crianças e televisor.

A segunda categoria com mais menções, 21, foi humanização. Os usuários citaram aspectos relativos à ambiência, como o fato de que a unidade deveria ser acolhedora e ter cores suaves. Destacam-se ainda menções às distrações positivas desejáveis para o local, como imagens adesivadas nas paredes e presença de vegetação.

A categoria privacidade foi a terceira mais citada, com 8 menções. A maior incidência de respostas relaciona-se à necessidade de cortinas entre os boxes do quarto coletivo, de forma a proporcionar melhores condições de privacidade visual, demarcando o território dos usuários. As mães também ressaltam a importância de receber visitas e amamentar com maior intimidade.

A categoria de conforto ambiental recebeu 7 menções, referentes a regular a entrada da iluminação natural, dispor de proteção contra a radiação solar direta e criar mecanismos para o controle de ruídos.

Resultados do segundo workshop

Seleção visual

No segundo workshop, duas etapas foram realizadas. A primeira refere-se à seleção de imagens (Figura 10) para identificar as preferências dos usuários em relação às cores, formas, texturas e demais elementos relativos ao ambiente para o qual estava sendo realizada a proposta de reforma.

Figura 10 Método da seleção visual realizado com os participantes 

Como resultado dessa primeira etapa os usuários tiveram suas preferências voltadas, em sua grande maioria, à primeira opção da lista, composta de cores azuis e tons terrosos. A justificativa da escolha é que os tons escolhidos transmitem a sensação de tranquilidade e que as cores possuem harmonia entre si.

Na segunda etapa foram apresentadas as duas propostas de projeto elaboradas pela equipe de pesquisadores, com base nos resultados e nas soluções projetuais fornecidas pelos usuários no primeiro workshop. Nesse momento solicitou-se aos usuários que identificassem qual era a proposta mais responsiva a seus anseios, que argumentassem sobre seus critérios de escolha da proposta e sugerissem alterações necessárias para o projeto selecionado.

As duas propostas arquitetônicas apresentadas possuíam similaridades, como o isolamento da área destinada ao atendimento ambulatorial - dois consultórios e a sala de espera que compõem a terceira etapa do Método Canguru. Esses ambientes atualmente estão integrados ao alojamento conjunto do Método Canguru através de uma porta, porém eles se destinem a atender mães e bebês que não estão mais hospitalizados. Assim, em ambas as propostas também foram previstas entradas independentes para o alojamento conjunto e o atendimento ambulatorial, com uma separação física evidente entre elas, para assegurar melhores condições de privacidade para as mães e bebês hospitalizados, redução do fluxo de pessoas no local, maior controle dos acessos e segurança no uso do espaço. As duas propostas também apresentavam boxes individuais para cada leito no quarto coletivo.

Na proposta "A" (Figura 11), um dos acessos a unidade canguru, restrito a funcionários e mães alojadas, ocorre por meio de uma sala de estar íntimo. O outro acesso, direcionado aos visitantes em geral, se dá por meio de uma sala de estar menos privativa, a qual se comunica com o alojamento conjunto, e também com o solário e lavanderia. Essa proposta implicaria menor alteração da configuração atual da unidade do que a proposta "B", a qual é descrita a seguir.

Figura 11 Proposta "A" para a Ala CanguruNota: Legenda: Acessos Unidade de Alojamento Conjunto – Método Canguru (terceira etapa) 01 Sala de estar02 Consultório03 Consultório Unidade de Alojamento Conjunto – Método Canguru (segunda etapa) 04 Sala de estar e copa para mães05 Banheiro06 Banheiro adaptado07 Posto de enfermagem08 Quarto conjunto09 Sala de estar para visitas10 Lavanderia11 Solário 

Na proposta "B" (Figura 12), assim como na anterior, criam-se duas salas de estar, uma de uso exclusivo das mães alojadas na unidade e outra destinada a receber as visitas. Diferentemente da proposta "A", essas salas estão lado a lado, fazendo a transição para o quarto coletivo. O acesso ao solário e à lavanderia também se dá através da sala de visitas.

Figura 12 Proposta "B" para a Ala CanguruNota: Legenda: Acessos Unidade de Alojamento Conjunto – Método Canguru (terceira etapa) 01 Sala de estar02 Consultório03 Consultório Unidade de Alojamento Conjunto – Método Canguru (segunda etapa) 04 Sala de estar e copa para mães05 Banheiro06 Banheiro adaptado07 Posto de enfermagem08 Quarto conjunto09 Sala de estar para visitas10 Lavanderia11 Solário 

Entre os aspectos destacados pelos usuários como positivos em ambas as propostas estão o isolamento entre o alojamento conjunto e o atendimento ambulatorial, que confere mais privacidade e controle dos acessos à unidade; a requalificação do atual terraço para funcionamento como solário, de forma a contribuir para a humanização do local; a privacidade visual, assegurada pelos boxes individuais; e a previsão de uma sala exclusiva para receber visitas, o que também contribui para a privacidade dos usuários do quarto coletivo.

A proposta "A" teve mais aceitação por parte dos usuários e implica menor custo para execução e menos intervenções na configuração atual da unidade. Como justificativa para sua escolha foi destacada a importância de um acesso mais próximo entre o quarto coletivo e a unidade intensiva neonatal, o que facilita o atendimento dos bebês pela equipe de saúde, reforçando o atributo segurança, que já havia sido mencionado. Foram ainda sugeridos ajustes na proposta, como a retirada de um dos consultórios para ampliar a sala de espera da área ambulatorial para acomodar área com brinquedos, citado no método poema dos desejos, e o fechamento do acesso ao estar íntimo, a fim de garantir maior segurança e controle.

A proposta "B" incluía diversas alterações na configuração original da unidade. Os usuários apontaram que, como nesta proposta o acesso do quarto coletivo ficou mais distante da unidade neonatal, isso dificultaria a atuação dos profissionais de saúde que trabalham nos dois setores. Também foi avaliada negativamente nesta proposta a posição do posto de enfermagem em relação ao quarto coletivo, a qual não é centralizada e potencialmente dificultaria o controle visual por parte dos profissionais de saúde. Esses dois aspectos relacionam-se ao que foi denominado como segurança pelos usuários e se referem a um ambiente que favoreça a eficiência, a qualidade e a rapidez no atendimento.

Chegou-se ao consenso, portanto, de que a proposta "A" atendia melhor aos anseios e expectativas dos usuários, sendo escolhida como proposta final para o desenvolvimento do anteprojeto arquitetônico e, futuramente, a execução do projeto de reforma da unidade.

Discussão dos resultados

A análise comparativa dos resultados obtidos com três dos métodos aplicados nos workshops permitiu identificar seis categorias principais de atributos ambientais desejáveis a projetos futuros em geral, a partir da percepção de seus usuários. Quatro categorias se repetiram nos resultados dos três métodos. Outras duas categorias destacaram-se em apenas um dos métodos, porém foram mencionadas no decorrer da implementação dos demais. Por exemplo, conforto ambiental e controle dos acessos não estão entre os atributos que mais se destacaram no brainstorming, mas haviam sido mencionados por seus participantes. Por esse motivo não foram verificadas contradições entre os resultados proporcionados pelos distintos métodos, os quais se complementam por apresentarem enfoques distintos sobre o ambiente. O Quadro 1 apresenta uma síntese dos principais atributos ambientais evidenciados neste estudo.

Quadro 1 Síntese dos principais resultados obtidos 

Brainstorming Poema dos desejos Seleção visual
Aconchego – ambiência humanizada e acolhedora Humanização – ambiência acolhedora Humanização – por meio de contato com a natureza (solário) e espaços de suporte social
Privacidade – boxes privativos para mães e bebês no quarto coletivo Privacidade – boxes privativos para mães e bebês no quarto coletivo Privacidade – boxes privativos, separação entre alojamento conjunto e consultórios e previsão de uma sala de estar coletiva e outra íntima
Ergonomia – equipamentos e mobiliário adequados aos usuários e tarefas Equipamentos e mobiliário – em quantidade suficiente e ergonômicos, seguros e confortáveis ---
Segurança – ambiente que facilite o contato visual e o atendimento à saúde --- Segurança – proximidade à UTI neonatal e posto de enfermagem posicionado com acesso visual a todos os leitos
--- Conforto ambiental – controle da iluminação natural, radiação solar e ruídos ---
--- --- Controle dos acessos – com a redução do número de entradas na unidade e com seu posicionamento estratégico (próximo a UTI neonatal)

A humanização foi um dos atributos ambientais confirmados nos três métodos como desejável ao planejamento de futuras unidades. Observa-se ser fundamental que o projeto do ambiente proporcione aconchego e acolhimento, tendo em vista a longa permanência de mães, bebês e familiares no local. A hospitalização pode se estender por semanas, e durante todo o período as mães são solicitadas a dedicar-se intensamente aos cuidados com os bebês. Assim, além de apresentar uma imagem e ambientação acolhedora, é desejável que todos os ambientes da unidade assegurem a realização das atividades rotineiras das mães. Pelo mesmo motivo parece ser desejável que a unidade tenha uma configuração relativamente próxima da residencial no que se refere a seu programa de necessidades, incluindo ambientes como salas de estar, copa, solário/jardim, sanitários e lavanderia.

A privacidade também se confirmou como um atributo ambiental relevante para a unidade por meio dos três métodos adotados. Pelo que se pode verificar na bibliografia e nas visitas exploratórias, é usual que a configuração da unidade de alojamento conjunto se centre em um quarto coletivo para mães e bebês, sem nenhum tipo de compartimentação entre os leitos. Assim, torna-se difícil para seus usuários exercer qualquer controle sobre o acesso a si, como a exposição visual das mães que realizam a amamentação, ou exercer algum controle sobre o ambiente, como regular a iluminação. Desse modo, se houver bebês dormindo, a tendência é a de se escurecer o quarto, e mesmo aqueles que estiverem acordados acabarão tendo que se adaptar a essa condição de iluminação. A disponibilidade de divisórias fixas ou retráteis entre os leitos contribui para a privacidade, além de adicionalmente favorecer o controle ambiental. Outro aspecto que se mostrou significativo nesta pesquisa é a possibilidade de prever duas salas de estar, sendo uma mais direcionada a receber visitas e outra de uso mais privativo das mães e bebês. Desse modo, tornar-se-ia possível melhor acomodar usuários e atividades distintas, além de reduzir a necessidade de acesso dos visitantes ao quarto coletivo.

A ergonomia destacou-se nos dois primeiros métodos adotados no sentido de se preverem equipamentos e mobiliário em quantidade suficiente para as atividades rotineiras, bem como que proporcionem conforto e segurança no uso. A ergonomia não foi evidenciada no método de seleção visual, possivelmente porque a discussão das alternativas projetuais apresentadas centrava-se, sobretudo, na configuração geral da unidade e em sua ambiência, e não nas especificidades do mobiliário e equipamentos.

A segurança foi um dos atributos destacados pelos usuários no brainstorming que se confirmou também na seleção visual. Ao contrário do que o termo normalmente sugere - minimização de riscos, acidentes e furtos -, nesse caso foi empregado no sentido de um ambiente que disponha de tecnologia adequada e que assegure as condições ideais de atendimento à saúde. Destacou-se a importância do posicionamento estratégico do posto de enfermagem, centralizado no quarto coletivo, para favorecer o controle visual dos profissionais em relação às mães e bebês. Observa-se, portanto, que as mães estão dispostas a fazer concessões no que se refere a sua privacidade visual em prol de melhores condições de atenção à saúde. Outro aspecto que configura o atributo segurança é que a unidade seja localizada o mais próximo possível a UTI neonatal.

A importância do conforto ambiental destacou-se na aplicação do poema dos desejos e já havia sido mencionada por diversos participantes do brainstorming. Ter boas condições de iluminação natural, controle da radiação solar e de ruído foi apontado pelos participantes em ambos os métodos. Tais aspectos são realmente significativos, especialmente considerando-se que os bebês necessitam repousar a maior parte do tempo e que, para tanto, é desejável dispor de silêncio e poder regular os níveis luminosos.

O controle dos acessos ao local foi um dos critérios mais determinantes da escolha das propostas na seleção visual. A alternativa escolhida é a que assegura dois acessos à unidade, um direcionado às mães, familiares e bebês, localizado em uma sala de estar para visitantes, e outro exclusivo de funcionários, por meio da sala administrativa e do posto de enfermagem. A organização dos fluxos na unidade possibilita condições mais favoráveis à privacidade de todos, o que evita a passagem de grande quantidade de pessoas pelo quarto coletivo ou outros ambientes íntimos. O controle dos acessos não havia sido destacado no brainstorming e no poema dos desejos, mas mostrou-se fundamental na escolha dos participantes em relação às duas alternativas propostas. Isso evidencia a importância da abordagem multimétodos, no sentido de que um instrumento utilizado permita sanar dúvidas ou compensar limitações dos demais.

Considerações finais

Os atributos elencados nesta pesquisa são resultado de um processo de projeto que contou com a participação de diversos usuários de unidades de alojamento conjunto, classificando-o assim como um processo de projeto participativo. Teve-se por objetivo principal envolvê-los em diferentes etapas do processo projetual: definição do partido, definição de diretrizes e soluções projetuais, escolha de uma proposta baseada nos resultados anteriores, e ajuste fino da proposta. Neste artigo discutiram-se os atributos ambientais mais significativos na percepção dos usuários que favorecem a compreensão de seus anseios e necessidades e que podem orientar futuramente a tomada de decisão projetual de outros arquitetos e designers.

Esse processo foi conduzido como pesquisa científica, pois se buscava não apenas identificar os atributos ambientais desejáveis, como também avaliar essa abordagem metodológica, suas potencialidades e limitações. No presente artigo, no entanto, buscou-se não focar na discussão do produto desenvolvido - o anteprojeto arquitetônico - ou na abordagem metodológica em si, mas sim nos atributos ambientais desejáveis a propostas futuras, por entender-se que tais resultados são passíveis de generalização.

Embora a maioria dos métodos utilizados neste trabalho tenha sido originalmente criada com o propósito de aplicação em experiências de projeto participativo, eles têm sido mais comumente utilizados para outros fins e linhas de pesquisa, como avaliação pós-ocupação. No entanto, no trabalho em questão não se utilizaram esses métodos para avaliar o ambiente existente, mas sim para envolver os usuários em diferentes momentos do processo projetual de reforma da unidade.

Um dos pontos positivos dessa abordagem é que em projetos participativos a aplicação desses métodos é realizada em workshops e seus resultados originam-se não apenas do ponto de vista de cada um dos participantes, mas sim da grande argumentação entre eles. Nesse sentido, ficam evidentes as mudanças na percepção individual ao longo do processo, estimuladas pela interação com o restante do grupo. Assim, o processo participativo favorece uma tomada de consciência coletiva, em que cada usuário deixa de focar prioritariamente em suas necessidades, anseios e expectativas para compreender melhor as demandas da coletividade. Com isso, tende a haver níveis mais elevados de satisfação em relação aos projetos desenvolvidos de modo participativo, visto que se tornam mais claros para todos os critérios que embasaram as decisões projetuais, ainda que interesses individuais possam não ter sido plenamente atendidos.

Ao final do trabalho foi possível identificar alguns dos principais atributos ambientais desejáveis ao planejamento de unidades de alojamento conjunto do Método Canguru. Foi destacada a importância de que o ambiente seja humanizado, assegure a privacidade de seus usuários, tenha móveis e equipamentos ergonômicos e em quantidade suficiente, favoreça o atendimento à saúde dos pacientes e possibilite o controle das condições de conforto ambiental e controle de acesso.

Além da definição desses atributos ambientais, outro produto deste trabalho é proporcionar uma descrição do perfil de usuários, atividades e configuração ambiental dessas unidades, visto que há pouca bibliografia sobre o tema no âmbito da arquitetura. Como o Método Canguru é recente, a fundamentação teórica foi complementada por visitas exploratórias a unidades em funcionamento. Imagina-se que tais informações sejam fundamentais para a compreensão do tema e planejamento de futuras unidades.

Como limitação deste trabalho destaca-se o fato de que, por tratar-se de um projeto participativo, esses métodos foram aplicados com usuários de uma única unidade de alojamento conjunto que estava desativada no momento. É possível que os participantes tenham sido influenciados pelas características da configuração atual do ambiente ao descrever o que seria desejável para projetos futuros. Outra limitação é o fato de unidades de alojamento conjunto apresentarem um número restrito de funcionários e de mães hospitalizadas. Assim, nos workshops, embora se tenha contado com a participação da maior parte das mães e funcionários da unidade estudada, trata-se ainda de uma amostra pequena. Por esses dois motivos, recomenda-se a realização de estudos em uma maior variedade de unidades, para a confirmação dos resultados obtidos.

1Fantástico vídeo sobre o Método Mãe Canguru em UTI neonatal. Revista Crescer, 2011. Disponível em: <http://prematuridade.com/mae-canguru/video-fantastico-video-sobre-o-metodo-mae-canguru-na-uti-neonatal.html>. Acesso em: 26 mar. 2014.

2Os dados referentes aos usuários das unidades foram obtidos através de observações assistemáticas em unidades de alojamento conjunto em dois hospitais adeptos ao Método Canguru, um no estado de Santa Catarina e outro no estado do Paraná.

3Dados obtidos através de visitas exploratórias em duas unidades adeptas ao Método Canguru, uma no estado do Paraná e outra no estado de Santa Catarina.

4KLOCK, P. Entrevista I. Florianópolis, 2014. Entrevista concedida aos autores, 2014.

5KLOCK, P. Entrevista I. Florianópolis, 2014. Entrevista concedida aos autores, 2014.

6KLOCK, P. Entrevista I. Florianópolis, 2014. Entrevista concedida aos autores, 2014.

7Dados obtidos através de visitas exploratórias em duas unidades adeptas ao Método Canguru, sendo uma no estado do Paraná e outra no estado de Santa Catarina.

8Dados obtidos através de visitas exploratórias em duas unidades adeptas ao Método Canguru, uma no estado do Paraná e outra no estado de Santa Catarina.

9Dados obtidos através de visitas exploratórias em duas unidades adeptas ao Método Canguru, sendo uma no estado do Paraná e outra no estado de Santa Catarina.

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Recebido: 16 de Agosto de 2015; Aceito: 26 de Outubro de 2016

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