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Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia

Print version ISSN 1809-9823On-line version ISSN 1981-2256

Rev. bras. geriatr. gerontol. vol.18 no.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2015

https://doi.org/10.1590/1809-9823.2015.13175 

Artigos Originais

Prevalência e fatores associados à constipação intestinal em idosos residentes em instituições de longa permanência

Jóice Herrmann Klaus1 

Vicente De Nardin2 

Juliana Paludo1 

Fernanda Scherer1 

Simone Morelo Dal Bosco1 

1Centro Universitário Univates, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Departamento de Nutrição. Lajeado, RS, Brasil.

2Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, Departamento de Medicina. Porto Alegre, RS, Brasil.


RESUMO

Objetivo

: Investigar a prevalência e fatores associados à constipação intestinal em idosos institucionalizados.

Método

: Trata-se de um estudo do tipo transversal. A amostra foi composta por 87 idosos e os dados coletados foram referentes à idade, sexo, ingestão diária de água e fibras, prática de atividade física, histórico familiar de constipação, além de dados referentes ao estado nutricional. O diagnóstico de constipação foi baseado nos critérios de Roma III. Para realização das análises estatísticas foi utilizado o softwareSPSS, versão 18.0, considerando o nível de significância de 5% (p≤0,05) e os testes estatísticos feitos foram:t Student, Mann-Whitney, Qui-quadrado de Pearson ou Exato de Fischer.

Resultados

: A amostra foi predominantemente do sexo feminino (80,5%), apresentando idade média de 79,4 (±9,6) anos. Observou-se que a prevalência de constipação intestinal foi de 42,52%, sendo mais frequente nas mulheres (89,2%), naqueles com idade igual ou superior a 80 anos (67,6%), nos que não praticavam atividade física (56,8%), nos que possuíam uma ingestão hídrica e consumo de fibras abaixo do recomendado, nos que possuíam histórico familiar de constipação, e também se mostrou mais prevalente naqueles que apresentaram diagnóstico nutricional de eutrofia (56,3%). Quando relacionadas à constipação, verificou-se que apenas a idade (p=0,049) e o baixo consumo de fibras (p=0,019) se associaram significativamente.

Conclusão

: Os resultados obtidos evidenciaram que a constipação intestinal é uma queixa digestiva de etiologia multifatorial, com a qual a idade avançada e o baixo consumo de fibras se associaram significativamente.

Palavras-Chave: Constipação Intestinal; Idoso; Hábitos Alimentares; Estilo de Vida

ABSTRACT

Objective

: Constipation is a frequent motility disorder and while a common complaint among the overall population, is particularly prevalent among the elderly. The increase of this population group is creating a growing demand for long term care institutions. The present study aims to investigate the prevalence of and factors associated with constipation in elderly residents of long stay care institutions.

Method

: The study involved 87 individuals. The data collected from each participant included gender, daily intake of water and fiber, physical activity, family history of constipation and nutritional status. The diagnosis of constipation was based on Roma III criteria. Statistical analysis was performed with the SPSS software program (version 18.0) with a level of significance of 5% (p≤0.05). The Student t, Mann-Whitney, Pearson's chi-square or Fischer's exact tests were employed.

Results

: The sample was predominantly female (80.5%), with a mean age of 79.4(±9.6) years. A 42.52% prevalence of constipation was observed. Among affected individuals, the condition was more frequent among women (89.2%), those aged over 80 years (67.6%), those who did not engage in physical activity (56.8%), those with below the recommended intake of water and fiber, those who had a family history of constipation, and those who were diagnosed with eutrophia (56.3%). Among the factors analyzed, only age (p=0.049) and low fiber intake (p=0.019) were significantly linked to constipation.

Conclusion

: The results show that constipation is a multifactorial disease that is significantly related to age and low fiber intake.

Key words: Constipation; Elderly; Food Habits; Life Style

INTRODUÇÃO

O processo de envelhecimento apresenta características peculiares, variando de pessoa para pessoa e de cultura para cultura.1O aumento da população idosa ocorrido inicialmente nos chamados países desenvolvidos tem atingido também os países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, mostrando que em todo o mundo esta é uma realidade. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice de envelhecimento aponta para mudanças na estrutura etária da população brasileira. Em 2008, para cada grupo de 100 crianças de 0 a 14 anos existiam 24,7 idosos de 65 anos ou mais. Em 2050, estima-se que o quadro mudará e para cada 100 crianças de 0 a 14 anos existirão 172,7 idosos.2

Esse envelhecimento populacional acelerado também terá reflexos no aumento do número de idosos institucionalizados, os quais são considerados vulneráveis do ponto de vista nutricional por apresentarem alterações metabólicas, fisiológicas, anatômicas e psicossociais inerentes à idade.3

Junto a esse processo de envelhecimento estão presentes mudanças nas funções orgânicas, que podem ser causadas tanto por fatores intrínsecos relacionados ao avanço da idade, quanto por fatores extrínsecos, como dieta, hábito de fumar, prática de atividade física e composição corporal.4 Essas alterações causam mudanças funcionais no organismo do idoso, tendo em vista que que ocorrem em praticamente todas as partes do corpo, podendo levar à constipação intestinal.5 Essa, por sua vez, está associada a fatores como a idade avançada, nutrição inadequada, ingestão insuficiente de líquidos, sedentarismo, polifarmácia, além de estar relacionada à um histórico familiar de constipação.6,7

A constipação não é uma doença nem um sinal, mas um sintoma, e, como tal, pode ser originada de vários distúrbios intestinais ou extraintestinais.8 É a queixa digestiva mais comum na população geral, ocorrendo de maneira predominante no sexo feminino e acometendo todas as faixas etárias, embora seja mais comum em indivíduos com idade superior a 65 anos, nos quais a prevalência pode atingir 15% a 20% em geral, e podendo chegar a 50% em idosos institucionalizados.9,10 Na população idosa, a constipação constitui um problema sanitário importante,11 se tornando responsável por cerca de 2,5 milhões de visitas médicas, e, indiretamente, por 92 mil hospitalizações nos Estados Unidos a cada ano, mostrando-se como uma doença na qual a prevalência se torna maior que uma série de outras afecções crônicas comuns, como a hipertensão, obesidade e diabetes mellitus.12

Embora a constipação intestinal seja uma condição prevalente e de morbidade importante na população geriátrica, podendo provocar outras doenças por meio da cronicidade dos sintomas e da falta de orientação terapêutica adequada, ainda é abordada de forma simplista, o que pode interferir negativamente na qualidade de vida desses indivíduos. Diante do exposto, o presente estudo teve como objetivo investigar a prevalência e fatores associados à constipação intestinal em idosos residentes de instituições de longa permanência .

MÉTODO

Trata-se de um estudo do tipo transversal. A amostra foi composta por idosos residentes em sete instituições públicas de longa permanência localizadas no Vale do Taquari, o qual se localiza na região central do Rio Grande do Sul, com população formada principalmente pelas etnias alemã, italiana e açoriana, desfrutando de excelente qualidade de vida e longevidade. Todos os idosos (n=231) foram convidados a participar da pesquisa, e desses, 87 fizeram parte da amostra, atendendo aos critérios de inclusão: indivíduos lúcidos, conforme avaliação da pesquisadora principal e da equipe de enfermagem, residentes de uma das instituições participantes, que não fizessem uso de laxantes. Prontificaram-se a participar do estudo, por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário Univates, parecer nº 161.374/2012.

A coleta de dados ocorreu entre os meses de março e junho de 2013, quando foi aplicado um questionário estruturado com dados referentes à idade, gênero, ingestão hídrica diária, nível de atividade (acamado ou nível leve) e conhecimento sobre a presença de histórico familiar de constipação. Em relação ao consumo diário de fibras, a coleta foi realizada com o auxílio do cardápio elaborado pelo nutricionista de cada instituição. Foi aplicado o instrumento registro alimentar de três dias para verificar a ingestão alimentar. Para a análise dos dados referentes ao consumo alimentar, utilizou-se osoftware Dietwin versão profissional 2008, no qual a ingestão de fibras de cada um dos três dias foi calculada, realizando-se depois a média de consumo diário. A fibra consumida foi comparada com o padrão recomendado segundo a Dietary Reference Intakes (DRIs),13 traduzida como Ingestão Dietética de Referência (IDRs), mas utilizada como Ingestão Dietética Recomendada(Recommended Dietary Allowance - RDA), e quando não houve a informação pela RDA, foi usada a Ingestão Adequada (Adequate Intake -AI). Foram verificados os dados antropométricos peso (kg) e estatura (m) dos participantes. O idoso foi pesado no centro de uma balança digital da marca Plenna®, com capacidade para 150 kg, descalço e com roupas leves. A mensuração da estatura foi realizada utilizando-se uma fita métrica com total de 2 m. O idoso foi posicionado em pé, de costas para uma parede livre de rodapé, descalço, com o corpo erguido em extensão máxima e os braços estendidos ao longo do corpo. Para aqueles indivíduos dependentes de cadeira de rodas, tendo em vista a impossibilidade de aplicação deste método, a estimativa do estado nutricional foi realizada por meio do método de Chumlea et al.14 Para a classificação do estado nutricional segundo o índice de massa corporal (IMC), utilizou-se os pontos de corte específicos para idosos preconizados por Lipschitz.15

O diagnóstico de constipação intestinal foi definido de acordo com os critérios de Roma III,16 o qual se baseia nos seguintes critérios específicos: esforço ao evacuar; fezes endurecidas ou fragmentadas; sensação de obstrução ou bloqueio anorretal, manobras manuais para facilitar as evacuações e menos de três evacuações por semana. A presença de dois ou mais critérios em pelo menos 25% das evacuações durante no mínimo três meses em um período de seis meses caracterizou a presença de constipação intestinal.16

Quanto à análise estatística, as variáveis quantitativas foram descritas por média e desvio-padrão ou mediana e amplitude interquartílica em conjunto com a amplitude de variação. As variáveis qualitativas foram descritas por frequências absolutas e relativas. Para comparar médias entre os grupos, o teste tStudent foi aplicado. Em caso de assimetria, o teste de Mann-Whitney foi utilizado. Para avaliar a associação entre as variáveis qualitativas, o teste Qui-quadrado de Pearson ou Exato de Fisher foram aplicados.

O nível de significância adotado foi de 5% (p≤0,05) e as análises foram realizadas por meio do software SPSS versão 18.0.

RESULTADOS

Entre os 87 idosos que fizeram parte da amostra, predominou o sexo feminino (80,5%), a idade média foi de 79,4(±9,6), sendo que a maioria (52,9%) apresentou idade igual ou superior a 80 anos. Em relação à prática de atividade física, 37 (42,5%) idosos foram enquadrados como tendo nível de atividade leve. O uso de medicamentos foi verificado em 100% dos participantes, e desses, 85 (97,7%) idosos faziam uso de um ou mais fármaco com efeitos colaterais possivelmente constipantes.

Quanto ao histórico familiar de constipação, 58 (66,7%) souberam responder se pai, mãe ou ambos eram portadores de constipação, sendo 31 (35,7%) com histórico e 27 (31,0%) sem histórico. Os dados referentes à caracterização geral da amostra encontram-se descritos na tabela 1.

Tabela 1. Caracterização geral da amostra (n=87). Vale do Taquari, RS, 2013.  

Variáveis n (%)
Sexo
Feminino 70 (80,5)
Masculino 17 (19,5)
Idade (anos) - média(±) [min-max] 79,4(±9,6) [60-101 anos]
Distribuição etária
60-69 anos 16 (18,4)
70-79 anos 25 (28,7)
≥80 anos 46 (52,9)
Atividade física
Sim* 37 (42,5)
Não 50 (57,5)
Pais constipados
Não lembra 29 (33,3)
Pai ou mãe (ambos com histórico) 31 (35,7)
Pai ou mãe (ambos sem histórico) 27 (31,0)

min= valor mínimo; max= valor máximo; *todos considerados nível de atividade leve.

Os dados descritos na tabela 2 mostram que a mediana da ingestão hídrica diária foi de 700 ml, sendo que apenas 25,2% consomem 1500-2000 mL diariamente, o que seria o ideal para essa população. O consumo de fibras médio foi de 22,6(±3,2) g/dia, também se mostrando abaixo do valor de ingestão recomendado.

Tabela 2. Caracterização de consumo alimentar e estado nutricional (n=87). Vale do Taquari, RS, 2013.  

Variáveis n (%)
Consumo alimentar
Ingestão hídrica (mL/dia) - md (P25-P75) [min-max] 700 (500-1500) [0-2500]
Classificação da ingestão hídrica
<500 mL 17 (19,5)
500-999 mL 33 (37,9)
1000-1499 mL 15 (17,2)
1500-2000 mL 21 (24,1)
>2000 mL 1 (1,1)
Consumo de fibras (g/dia) - média(±) [min-max] 22,6(±3,2) [13,3-27,7]
Estado nutricional
IMC (kg/m2) - média(±) [min-max] 25,4(±4,4) [14,7-34,3]
Classificação do IMC
Baixo peso 18 (20,7)
Eutrofia 49 (56,3)
Excesso de peso 20 (23,0)

min= valor mínimo; max= valor máximo; md= mediana; P25= percentil 25; P75= percentil 75.

Em relação ao estado nutricional, a média de IMC encontrada foi de 25,4(±4,4) Kg/m2, com a maior parte dos idosos (56,3%) apresentando diagnóstico de eutrofia.

Na tabela 3, observa-se que a prevalência de constipação intestinal foi de 42,5%, sendo mais frequente nas mulheres (89,2%), naqueles com idade igual ou superior a 80 anos (67,6%), que não praticavam atividade física (56,8%) e possuíam uma ingestão hídrica e consumo de fibras abaixo dos recomendados.

Tabela 3. Associação das variáveis com a constipação (n=87). Vale do Taquari, RS, 2013. 

Variáveis Constipados (n=37) n (%) Não constipados (n=50) n (%) p
Sexo 0,135
Feminino 33 (89,2) 37 (74,0)
Masculino 4 (10,8) 13 (26,0)
Idade (anos) - média(±) 81,8(±8,6) 77,7(±9,9) 0,049
Faixa etária 0,056
60-69 anos 4 (10,8) 12 (24,0)
70-79 anos 8 (21,6) 17 (34,0)
≥80 anos 25 (67,6) 21 (42,0)
Atividade física 1,000
Sim 16 (43,2) 21 (42,0)
Não 21 (56,8) 29 (58,0)
Pais constipados 0,076
Não lembra 11 (29,7) 18 (36,0)
Pai ou mãe (ambos com histórico) 18 (48,6) 13 (26,0)
Pai ou mãe (ambos sem histórico) 8 (21,6) 19 (38,0)
Ingestão hídrica (mL/dia) - md (P25-P75) 500 (500-1000) 775 (500-1500) 0,217
Classificação da ingestão hídrica 0,347
<500 mL 7 (18,9) 10 (20,0)
500-999 mL 17 (45,9) 16 (32,0)
1000-1499 mL 7 (18,9) 8 (16,0)
≥1500 mL 6 (16,2) 16 (32,0)
Consumo de fibras (g/dia) - média(±) 21,6(±3,7) 23,3(±2,7) 0,019
Classificação do IMC 0,736
Baixo peso 7 (18,9) 11 (22,0)
Eutrofia 20 (54,1) 29 (58,0)
Excesso de peso 10 (27,0) 10 (20,0)

P25= percentil 25; P75= percentil 75.

Em relação à associação da constipação com o estado nutricional, a maior prevalência se mostrou presente naqueles com diagnóstico de eutrofia, e, apesar de não significativo, vale ressaltar que idosos que têm pai ou mãe com histórico apresentaram maior proporção de constipação (p=0,076).

Quando relacionadas as variáveis com a constipação, verificou-se que a idade (p=0,049) e o consumo de fibras (p=0,019) se associaram significativamente.

DISCUSSÃO

A prevalência de constipação intestinal encontrada no presente estudo foi de 42,5%. Estudos feitos em diferentes populações mostram prevalências inferiores, variando de 22,5 a 40%.17-19 Essa variação pode ser justificada, entre outros fatos, pela utilização de diferentes critérios diagnósticos, populações de contextos socioculturais diversos e também a ampla faixa etária avaliada.19 Nesello et al.20 avaliaram idosos frequentadores de um Centro de Convivência, onde são desenvolvidas atividades culturais, físicas e recreativas, encontrando uma prevalência de constipação em 28,8% dos avaliados. Verifica-se, portanto, que a constipação é uma condição que acomete ainda mais os idosos institucionalizados, apoiando o que outros autores já haviam afirmado ao relatar que essa prevalência pode chegar até 50%.11,21

Outro fator que pode contribuir para o surgimento da constipação é a idade avançada.22 Os achados do presente estudo mostram que a maior prevalência esteve presente naqueles com idade igual ou superior a 80 anos. Outros estudos corroboram os resultados encontrados, apresentando uma tendência de crescimento da prevalência de constipação intestinal conforme o avanço da idade.7,19 A alta prevalência de constipação encontrada no sexo feminino é outro fato que merece atenção, fatores como a diferença da motilidade intestinal e percepção visceral entre os sexos estão associados a doenças gastrointestinais, como a constipação.23 Como no presente estudo, Collete et al.24 encontraram maior prevalência nas mulheres.

Inatividade física, hábito alimentar, ingestão hídrica e polifarmácia são outros fatores que podem ser considerados agravadores da constipação. Do total da amostra do estudo em questão, a maior parte dos entrevistados foi tida como sedentária. Corroborando esses achados, estudo realizado em três instituições de longa permanência para idosos localizadas no município de Rio Claro-SP, mostrou que o índice de prática de atividade física foi baixo tanto para os homens quanto para as mulheres.25 Tal fato pode ser explicado pela idade avançada como também pela incapacidade funcional.5 Embora no presente estudo essa alta prevalência de sedentarismo não tenha sido relacionada significativamente com a constipação (p=1,000), e outro estudo21 tenha encontrado os mesmos achados, a prática regular de atividade física deve ser realizada, sendo recomendada pela Organização Mundial de Gastroenteorologia26 como manejo da constipação intestinal.

Quanto aos aspectos dietéticos, tanto o consumo de fibras quanto a ingestão hídrica mostraram-se insuficientes. Na terceira idade, a ingestão de água necessária é de pelo menos dois litros por dia, sendo esta um elemento importante para o funcionamento do intestino, manter a boca úmida e o corpo hidratado.27 O baixo consumo de água pela pessoa idosa pode provocar também mais facilmente o ressecamento das fezes, podendo essas se tornarem petrificadas e muito grandes, prejudicando sua eliminação. Estudo21 realizado com idosos em que a constipação intestinal foi avaliada verificou que a ingestão hídrica estava abaixo do recomendado, apresentando resultados semelhantes ao presente estudo. Markland et al.,28 em trabalho realizado por meio da análise de dados do National Health and Nutrition Examination Surveys (NHANES), verificaram que o baixo consumo de água se mostrou como um fator preditor para a constipação entre homens e mulheres. A hipotrofia hipotalâmica fisiológica, onde se localiza o centro da sede, é um dos fatos que pode explicar essa diminuição de ingestão hídrica nesse grupo populacional.3

No que se refere ao consumo de fibras, a média encontrada tanto para os indivíduos constipados quanto para os não constipados mostrou-se inferior ao recomendado. Corroborando esses achados, Salcedo & Kitahara29 também encontraram uma ingestão de fibras diminuída ao avaliarem 48 idosos institucionalizados em São Paulo, com o consumo médio ficando em 12,45 g/dia. No presente estudo, o consumo de fibras foi uma variável que demonstrou relação significativa com a constipação (p=0,019), mostrando que, apesar de todos os idosos avaliados terem apresentado uma média de ingestão abaixo do recomendado, naqueles considerados constipados a média de ingestão de fibras mostrou-se ainda menor em comparação aos não constipados.

Em relação aos achados, constata-se a necessidade do consumo de uma dieta acrescida de fibras, devendo esta atingir 25 g/dia,30 evitando dessa forma o surgimento ou agravamento dos sintomas relacionados a constipação

Ao avaliar o estado nutricional dos idosos, o valor médio de IMC, 25,4kg/m2, corroborou os achados de outros estudos que fizeram a mesma avaliação em idosos institucionalizados.31,32Assim como na presente investigação, Collete et al.24 também não encontraram associação estatisticamente significativa entre IMC e sintomas gastrointestinais.

Dentre as limitações do estudo, destaca-se o fato de o questionário utilizado para a coleta de dados, apesar de estruturado, não ser validado. Outro ponto importante é o caráter transversal do estudo, que não permite a realização de associações do tipo causa e efeito. Outra limitação consiste em um possível viés de memória relacionado aos dados informados, visto que grande parte foi referido pelos idosos.

CONCLUSÃO

A prevalência de constipação intestinal no grupo populacional estudado foi de 42,5%, mostrando-se superior àquela encontrada em estudos realizados com idosos não institucionalizados e confirmando o que outros autores já haviam relatado sobre essa condição ser muito prevalente em idosos. A constipação demonstrou ser uma queixa digestiva multifatorial, estando a idade avançada e o baixo consumo de fibras associados a ela significativamente. Vale ainda ressaltar que, embora não existam muitos trabalhos abordando a relação entre a constipação intestinal e fatores hereditários, este é um achado que, apesar de no presente estudo não ter apresentado relação significativa, demonstrou que existe uma prevalência maior de constipação naqueles que relataram ter pai, mãe ou ambos constipados.

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Recebido: 11 de Setembro de 2013; Revisado: 17 de Julho de 2015; Aceito: 12 de Agosto de 2015

Correspondência / CorrespondenceSimone Morelo Dal Bosco E-mail: simonebosco@gmail.com

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