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CoDAS

On-line version ISSN 2317-1782

CoDAS vol.25 no.2 São Paulo  2013

http://dx.doi.org/10.1590/S2317-17822013000200008 

ARTIGO ORIGINAL ORIGINAL ARTICLE

 

Adesão das professoras disfônicas ao tratamento fonoterápico

 

 

Lívia Rodrigues SantosI; Letícia AlmeidaI; Letícia Caldas TeixeiraII; Iara BassiIII; Ada Ávila AssunçãoIV; Ana Cristina Côrtes GamaII

ICurso de Fonoaudiologia, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Belo Horizonte (MG), Brasil
IIDepartamento de Fonoaudiologia, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Belo Horizonte (MG), Brasil
IIIPrograma de Pós-Graduação (Doutorado) em Saúde Pública, Departamento de Medicina Preventiva e Social, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Belo Horizonte (MG), Brasil
IVDepartamento de Medicina Preventiva e Social, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Belo Horizonte (MG), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Estudar os possíveis fatores associados à adesão ao tratamento fonoaudiológico para a disfonia, em mulheres professoras da Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte.
MÉTODOS: Trata-se de um estudo retrospectivo, no qual foram analisados 251 prontuários de professores atendidos no Ambulatório de Voz do Serviço de Fonoaudiologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (AV-UFMG) no período de 2007 a 2009. Foram coletados os seguintes dados: idade, número de sessões programadas, número de faltas, número de filhos, tipo de disfonia, grau da disfonia, renda mensal familiar e escolaridade. Calculou-se a distância, em quilômetros, da residência ao local do tratamento e do local de trabalho ao local do tratamento fonoaudiológico. Analisou-se também o Índice de Vulnerabilidade Social do local de trabalho.
RESULTADOS: Dos 251 prontuários analisados, 135 preencheram os critérios de inclusão. Destes 89 (65,93%) correspondem ao grupo que recebeu alta e 46 (34,07%) ao grupo que abandonou o tratamento. Das variáveis estudadas, apenas o número de faltas e o tipo de disfonia apresentaram relação com a adesão à terapia de voz.
CONCLUSÃO: O número de ausências às sessões, fator relacionado ao tratamento, e a disfonia do tipo organofuncional, aspecto referente ao quadro clínico, mostraram-se associados ao abandono da terapia de voz.

Descritores: Voz; Docentes; Fonoterapia; Adesão do paciente; Disfonia; Fonoaudiologia


 

 

INTRODUÇÃO

Disfonia é qualquer alteração da voz decorrente de um distúrbio funcional e/ou orgânico da laringe e/ou do trato vocal. Pode estar associada a inúmeros sintomas, como cansaço ou esforço ao falar, rouquidão, afonia, intermitência na sonoridade, falta de projeção vocal, entre outros(1).

Os professores, considerados profissionais da voz, fazem parte de um grupo de risco para o desenvolvimento de tais alterações, como mostram os dados de licenças médicas, afastamentos e readaptações funcionais(2,3). As implicações das disfonias para o desempenho do exercício profissional encontram-se bem documentadas(4). Porém, sabe-se que o impacto das disfonias em professores não se restringe à esfera individual, uma vez que as repercussões laborais citadas se manifestam em escala social, econômica e profissional, tendo em vista o ofício desses docentes(5).

As disfonias podem ser tratadas por meio da fonoterapia cujo foco é a mudança comportamental e, por essa razão, depende da participação ativa do paciente em todo o processo. Assim, é crucial que o paciente se aproprie do plano terapêutico(6,7).

Mesmo em vigência de sintomas vocais e de suas consequências negativas sobre a qualidade de vida(8), reconhece-se que a adesão à fonoterapia não é imediata(7), não sendo raro o abandono do tratamento. A fraca adesão aos tratamentos de longa duração é um fenômeno mundial, como se vê nos casos de doenças crônicas(9). Diversos fatores estão imbricados no comportamento de adesão e dizem respeito às características do profissional, ao tipo e à gravidade dos sintomas, à complexidade do tratamento, aos aspectos psicológicos, culturais e socioeconômicos dos pacientes(10,11).

A adesão é um processo dinâmico, influenciado por uma série de fatores que predispõem ou não à continuidade do tratamento, incitando a estratégia de monitoramento contínuo(12). Estudos sobre a adesão à terapia de voz apontam que a maioria dos pacientes não concluem a fonoterapia apesar da reconhecida efetividade dos recursos terapêuticos atuais(13,14).

Sob esse prisma, assumem relevância os projetos investigativos que buscam identificar e compreender as mediações que concorrem para a adesão ao tratamento fonoaudiológico das disfonias. Compreender os fatores associados à adesão à fonoterapia pelos professores pode auxiliar na criação/ adoção de estratégias capazes de otimizar o tratamento e, consequentemente, de reduzir os prejuízos laborais decorrentes da disfonia. Dessa forma, a presente pesquisa teve o objetivo de estudar os possíveis fatores associados à adesão ao tratamento fonoaudiológico para a disfonia, em professoras da Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte (RME-BH).

 

MÉTODOS

Trata-se de uma pesquisa retrospectiva, observacional e analítica. Foram analisados os prontuários de 251 professores disfônicos da RME-BH, que se submeteram à terapia fonoaudiológica no Ambulatório de Voz do Serviço de Fonoaudiologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (AV-UFMG). Os professores da RME-BH são periodicamente submetidos a uma avaliação pelas fonoaudiólogas da Gerência de Saúde e Perícia Médica (GSPM). Diante da necessidade de tratamento ou de esclarecimento sobre a fisiologia da produção vocal e cuidados com a voz, eles são encaminhados ao ambulatório de voz da instituição. Ressalta-se que o total de prontuários analisados foi determinado pelo número de pacientes atendidos no ambulatório de voz da instituição no período de agosto/2007 a dezembro/2009.

Foram adotados os seguintes critérios de inclusão: ser professor, do gênero feminino, com disfonia; ter recebido encaminhamento da GSPM da Prefeitura de Belo Horizonte; e possuir documentação clínica completa, incluindo a avaliação fonoaudiológica e otorrinolaringológica. Como critérios de exclusão, foram adotados: apresentar queixa fonoaudiológica não relacionada à voz; ter comparecido apenas à avaliação fonoaudiológica ou às oficinas de orientação vocal (três encontros cuja finalidade é abordar temas relativos à produção vocal e fornecer orientações sobre o comportamento vocal na prática profissional). Optou-se por excluir professores do gênero masculino devido ao reduzido número de homens na docência.

Considerou-se como variável resposta, ou seja, a variável de maior interesse da pesquisa, o status de "alta" ou "abandono" da terapia fonoaudiológica. Os critérios de alta fonoaudiológica utilizados no ambulatório de voz da instituição são os seguintes: ausência de queixa de fadiga vocal, qualidade vocal adaptada às condições anatomofuncionais da laringe (avaliada de forma perceptivo-auditiva e por meio de exames otorrinolaringológicos) e/ou adequação da resistência vocal à demanda social e profissional do paciente. Considera-se situação de abandono do tratamento: três faltas consecutivas não justificadas, comunicação da impossibilidade de comparecimento ou opção declarada pela interrupção do tratamento.

Do conjunto de 251 prontuários selecionados previamente para o estudo, 135 (53,78%) foram incluídos e 116 (46,22%) excluídos (Figura 1). Os prontuários excluídos representavam: 14 (5,58%) homens; 74 (29,48%) casos devido à incompletude dos dados de prontuário, dos quais 38 (15,14%) eram pertencentes ao grupo que recebeu alta e 36 (14,34%) eram pertencentes ao grupo que abandonou o tratamento; 11 (4,38%) professoras que participaram apenas das oficinas de orientação vocal, sem indicação de tratamento fonoaudiológico; e 17 (6,77%) professoras que não compareceram à sessão seguinte à avaliação.

Os seguintes dados foram coletados dos prontuários: idade, número de sessões programadas, número de faltas (categorizado pela mediana), número de filhos, tipo de disfonia(15), grau da disfonia(16) (indicado pelo parâmetro G da escala GRBASI), renda mensal familiar e escolaridade.

Calculou-se a distância, em quilômetros, da residência da professora ao local do tratamento e do local de trabalho ao local do tratamento fonoaudiológico. Analisou-se também o Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) da escola de inserção da professora, a fim de apreender elementos do contexto. No conjunto, esses dados foram considerados variáveis explicativas na análise.

Para a análise estatística utilizou-se o programa SPSS (Statistical Package for the Social Sciences), versão 18.0. O procedimento de análise incluiu a descritiva dos dados por meio de medidas de tendência central, dispersão, medidas absolutas e porcentagens. Posteriormente para a análise dos fatores associados à variável alta e abandono foi utilizada a Regressão Logística Binária. A magnitude da associação de cada fator com o abandono da terapia foi aferida pelo Odds Ratio e a significância estatística pelo intervalo de confiança (IC) de 95%.Todos os fatores associados ao nível de p<0,20 na análise univariada foram incluídos no modelo multivariado por meio de deleção sequencial de variáveis. O modelo final multivariado contemplou as variáveis associadas ao nível de p<0,05.

Consideramos o nível de significância de p<0,20 porque esta etapa da análise univariada serve como critério de seleção das variáveis que entrarão em um modelo final da pesquisa. Como se trata de uma etapa inicial e não definitiva da análise de dados, podemos ser menos rigorosos e adotar níveis de significância maiores que o usual (por exemplo, 0,15 ou 0,20), para não correr o risco de desprezar variáveis importantes. O teste de ajuste do modelo Hosmer-Lemeshow foi utilizado para a verificação do modelo final.

A coleta de dados se deu no AV-UFMG. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da mesma instituição, sob o parecer ETIC 482/08. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS

Procedeu-se à categorização dos sujeitos incluídos em dois grupos, alta ou abandono, 89 (65,93%) e 46 (34,07%), respectivamente. As variáveis contínuas utilizadas na pesquisa foram descritas por meio de medidas centrais e de dispersão (Tabela 1). A média de idade foi de 41,74 anos para o grupo abandono (DP 7,63) e 40,16 para o grupo alta (DP 8,83). Quanto ao número de filhos e o número de sessões programadas, maiores médias foram obtidas pelo grupo abandono. O grupo alta apresentou maior média para a distância entre a residência e o local de terapia. Já a distância entre o local de trabalho e o local de terapia teve média semelhante nos dois grupos.

 

 

Na análise univariada, a associação das variáveis descritas acima com o grupo alta/abandono não foi significativa ao nível de p<0,20, a saber: idade (p=0,302), número de filhos (p=0,610), número de sessões programadas (p=0,250), distância residência-terapia (p=0,228) e distância trabalho-terapia (p=0,405).

Foram obtidas, ainda, as proporções das variáveis categóricas (Tabela 2). O grupo abandono foi caracterizado por apresentar 65,2% dos participantes com três ou mais faltas ao tratamento fonoaudiológico, grau de disfonia leve, tipo de disfonia organofuncional e renda familiar entre R$ 1600,00 e R$ 2400,00. Os participantes do grupo abandono possuem formação acadêmica até o nível superior e a maioria dos pacientes trabalhava em um local cujo IVS foi acima de 0,63 ou IVS entre 0,5 e 0,63.

 

 

Na análise univariada, as associações das variáveis referentes à escolaridade, grau de disfonia, renda familiar e IVS com o grupo alta/abandono não foram significativas ao nível de p<0,20, a saber: escolaridade (p=0,370), grau de disfonia leve (p=0,775) grau de disfonia moderado/severo (p=0,493), renda familiar R$ 1.600,00–2.400,00 (p=0,375), renda familiar R$ 960,00–1.600,00 (p=0,644), IVS 0,5-0,63 (p=0,999), IVS 0,4-0,5 (p=0,999), IVS 0,28-0,4 (p=0,999) e IVS até 0,28 (p=0,999). As associações das variáveis "faltas" e "tipo de disfonia" com o grupo alta/abandono foram significativas ao nível de p<0,20, a saber: faltas (p<0,000) e tipo de disfonia (p=0,013).

Foi apresentado o modelo final multivariado com as variáveis que foram estatisticamente associadas ao grupo alta/abandono ao nível de significância p<0,05 (Tabela 3). Apresentou-se a estatística odds ratio (OR) ou a probabilidade de ocorrência do evento. As variáveis referentes ao número de faltas e ao tipo de disfonia foram associadas ao abandono da terapia. Pacientes com três ou mais faltas tiveram 3,67 mais chances de abandonar o tratamento. O tipo de disfonia também foi associado positivamente com o abandono da terapia, sendo que pacientes com disfonia organofuncional tiveram 2,34 mais chances de abandonarem o tratamento. O modelo apresentou boa qualidade de ajuste avaliada pelo teste de Hosmer-Lemeshow (p=0,399).

 

 

DISCUSSÃO

A baixa adesão a tratamentos é um problema de ordem mundial. Nos países desenvolvidos, a adesão aos tratamentos de longa duração, na população geral, é em torno de 50%, valores superiores os observados em países em desenvolvimento(9).

O abandono do tratamento pode atingir cerca de 65% dos pacientes(13). Entretanto, no presente estudo, de acordo com os dados dos prontuários, encontrou-se maior proporção de pacientes que receberam alta quando comparados aos pacientes que abandonaram o tratamento. Não seria imprudente supor que a menor proporção de abandono tenha relação com o perfil dos pacientes estudados, uma vez que eles dependem da voz para exercer suas atividades profissionais. Sabe-se que a disfonia pode acarretar prejuízos na carreira(2,4), levando a crer que a maior adesão das professoras ao tratamento esteja relacionada aos riscos de prejuízos profissionais.

A faixa etária encontrada foi compatível com a média de 42 anos (DP=8) descrita em um artigo anterior, no qual também não se verificou associação entre a idade e a adesão ao tratamento fonoaudiológico(2). O número de filhos interfere em vários eventos e situações de saúde no grupo das mulheres(17), mas não se encontrou associação com a adesão ao tratamento fonoaudiológico. Na literatura investigada, não foram identificados estudos que permitissem comparação quanto a esse efeito.

Quanto ao número de sessões programadas, a média de 15 sessões para ambos os grupos (Tabela 1) diverge de um estudo(13) que descreveu uma duração média de 5 a 5,6 sessões para a terapia de voz. Tratando-se de um hospital escola, com períodos de descontinuidade no acompanhamento ambulatorial é possível haver prolongamento do tratamento, incluindo um número superior de sessões. Ademais, o tratamento fonoterápico difere de um serviço a outro, podendo abarcar diferentes procedimentos e número de sessões. Contudo, vale mencionar a ausência de associação entre o número de sessões da fonoterapia e a adesão ao tratamento, conforme citado na literatura(13).

As distâncias entre a residência e o local de trabalho e entre a residência e o serviço fonoaudiológico não foram associadas ao abandono (p=0,228 e p=0,405 respectivamente). Apesar da dificuldade de acesso ser mencionada entre os entraves à continuidade da terapia fonoaudiológica(10), não foram encontrados outros estudos que focalizassem tal problemática.

No que se refere ao número de ausências às sessões, os resultados indicaram que pacientes com três ou mais faltas apresentaram 3,67 mais chances de abandonar o tratamento (p<0,000) (Tabela 3). A literatura não confirma a relação direta entre o número de ausências e a adesão ao tratamento fonoaudiológico. Entretanto, aponta que o número de sessões realizadas consiste no mais forte preditor para a conclusão da terapia de voz(13). Cada nova sessão realizada (após a avaliação vocal) resultou em uma probabilidade 1,6 vezes maior de completar o tratamento vocal. Ao se considerar que o não comparecimento às sessões pode estar associado a fatores individuais, tais como o nível de motivação do paciente para com a terapia, torna-se razoável inferir sobre o seu papel na adesão. Um estudo evidencia que indivíduos que se dizem motivados para o tratamento apresentam 3,06 vezes mais chance de adesão ao tratamento não farmacológico para diabetes mellitus(18).

Quanto ao grau de disfonia, obtido por meio da avaliação perceptivo-auditiva, os resultados são concordantes com a literatura. Não se observou associação entre o grau da disfonia e a adesão à terapia vocal(14). Portanto, o grau do desvio vocal não parece influenciar a motivação do paciente em dar continuidade à terapia e, consequentemente, concluir o tratamento fonoaudiológico.

O tipo de disfonia também foi associado positivamente ao abandono da terapia (Tabela 3), sendo que os pacientes com disfonia organofuncional tiveram 2,34 mais chances de abandonar o tratamento. Considerando-se que a disfonia organofuncional corresponde à evolução clínica da disfonia funcional(15), pode-se supor que as professoras com esse tipo de disfonia levaram mais tempo para procurar por ajuda profissional. A literatura aponta que a autoavaliação vocal de professores evidencia a satisfação da maioria dos deles quanto à própria voz, o que alude para a dificuldade desses profissionais em autoavaliar sua voz e em perceber alterações vocais(19). É consenso que os fatores centrados na própria doença, tais como percepção do paciente acerca de seu problema de saúde e estratégias para lidar com a doença e seus sintomas e impacto na qualidade de vida são capazes de influenciar não apenas a procura por atendimento, mas também o processo de adesão ao tratamento proposto(12,20). Dessa forma, tal resultado pode estar associado à dificuldade de percepção do problema vocal e ao comportamento de resistência em admitir a disfonia ou em procurar por ajuda especializada.

Foi inesperado o resultado que indica ausência de associação com a renda familiar, haja vista os relatos dos pacientes sobre a influência das condições financeiras sobre o abandono da terapia fonoaudiológica(21). Tal resultado é díspar ao de um estudo(18) em que se analisaram pacientes com diagnóstico de diabetes mellitus. Seriam profícuas futuras pesquisas visando esclarecer as relações entre renda e adesão.

A escolaridade também não se mostrou associada ao abandono à terapia de voz (p=0,370). A literatura aponta para resultados divergentes no tocante à relação escolaridade-adesão. Em estudo anterior, o nível universitário foi associado à adesão a dietas alimentares saudáveis(22). Por outro lado, em outro trabalho não houve associação entre nível de escolaridade e adesão ao tratamento com terapia antirretroviral(23).

O IVS visa dimensionar o acesso da população a cinco "Dimensões da Cidadania", consideradas como essenciais para se alcançá-la: ambiental, cultural, econômica, jurídica e segurança de sobrevivência(24). As "Dimensões da Cidadania" são compostas por variáveis, que por sua vez compõem-se de indicadores, ou seja, dados numéricos a partir dos quais se calcula o IVS. O cálculo é elaborado por meio de sucessivas agregações feitas por meio de médias aritméticas ponderadas e seu valor final varia entre zero e um. Como o IVS expressa um atributo negativo, a vulnerabilidade social de uma população será maior quanto maior for seu valor, ou seja, quanto maior for o valor do IVS, mais vulnerável à exclusão social uma população estará sujeita(24). Em suma, tem-se que o IVS combina diferentes variáveis em um indicador cuja finalidade é sintetizar informações relevantes que traduzem as desigualdades intraurbanas e áreas de risco social(18). A maioria dos sujeitos pesquisados apresentou valores de IVS entre 0,5 a 0,63 (39,1%) ou acima de 0,63 (34,8%) (Tabela 2), porém, não se verificou associação entre o IVS (da região da escola onde a paciente trabalhava) e o desfecho pesquisado. Tal resultado diverge dos achados de um estudo(18), no qual moradores de áreas de elevado risco social apresentam maior chance de não adesão ao tratamento focalizado.

A adesão ao tratamento constitui um fenômeno complexo e multifatorial. Pesquisas futuras poderão contribuir na elucidação do papel de diferentes fatores e dimensões a fim de fortalecer estratégias estimuladoras da adesão ao tratamento fonoaudiológico para a disfonia em professoras.

A terapia vocal abrangente é eficaz para aprimorar o desempenho vocal em adultos com disfonia. Diante dos achados, suscita-se o interesse em desenvolver estratégias que influenciem positivamente no quadro vocal dos docentes, entre elas melhorar as condições de trabalho e favorecer a qualidade de vida destes profissionais. Os resultados obtidos viabilizaram a reflexão sobre os fatores passíveis de influenciar processo dinâmico que caracteriza a adesão ao tratamento fonoaudiológico. Espera-se ter agregado conhecimentos para o delineamento de futuros estudos e ter contribuído para melhor abordagem dos pacientes durante o tratamento.

 

CONCLUSÃO

A análise de 135 prontuários de professoras atendidas no AV-UFMG em que o estudo foi realizado, no período de agosto de 2007 a dezembro de 2009 revelou que a maioria dos pacientes aderiu ao tratamento fonoaudiológico para disfonia. O número de ausências às sessões, fator relacionado ao tratamento, e a disfonia do tipo organofuncional, aspecto referente ao quadro clínico, mostraram-se associados ao abandono da terapia de voz.

 

AGRADECIMENTOS

À Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de Minas Gerais – FAPEMIG (01474-10) pelos recursos financiados para a execução da pesquisa.

 

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Endereço para correspondência:
Lívia Rodrigues Santos
Av. Alfredo Balena, 190/275, Santa Efigênia
Belo Horizonte (MG), Brasil, CEP: 30130-100
E-mail: livia4_fono@hotmail.com

Recebido em: 18/1/2012
Aceito em: 16/8/2012

 

 

Trabalho realizado no Curso de Fonoaudiologia, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Belo Horizonte (MG), Brasil.
Conflito de interesse: nada a declarar.
* LRS, LA, LCT, IB, AAA e ACCG participaram da elaboração deste estudo. Todos ajudaram a construir e desenvolver a pesquisa, desde a revisão de literatura, análise dos resultados, discussão e conclusões. LRS e LA colaboraram com a coleta dos dados.

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