FATORES DE RISCO ASSOCIADOS À TROMBOSE DE ARTÉRIA HEPÁTICA: ANÁLISE DE 1050 TRANSPLANTES DE FÍGADO

Luis Eduardo Veras PINTO Gustavo Rego COELHO Madalena Maria Silva COUTINHO Orlando Jorge Martins TORRES Plinio Cunha LEAL Ciro Bezerra VIEIRA José Huygens Parente GARCIA Sobre os autores

ABSTRACT

Background:

Hepatic artery thrombosis is an important cause of graft loss and ischemic biliary complications. The risk factors have been related to technical aspects of arterial anastomosis and non-surgical ones.

Aim:

To evaluate the risk factors for the development of hepatic artery thrombosis.

Methods:

The sample consisted of 1050 cases of liver transplant. A retrospective and cross-sectional study was carried out, and the variables studied in both donor and recipient.

Results:

Univariate analysis indicated that the variables related to hepatic artery thrombosis are: MELD (p=0.04) and warm time ischemia (p=0.005). In the multivariate analysis MELD=14.5 and warm ischemia time =35 min were independent risk factors for hepatic artery thrombosis. In the prevalence ratio test for analysis of the anastomosis as a variable, it was observed that patients with continuous suture had an increase in thrombosis when compared to interrupted suture.

Conclusions:

Prolonged warm ischemia time, calculated MELD and recipient age were independent risk factors for hepatic artery thrombosis after liver transplantation in adults. Transplanted patients with continuous suture had an increase in thrombosis when compared to interrupted suture. Re-transplantation due to hepatic artery thrombosis was associated with higher recipient mortality.

HEADINGS:
Risk factors; Thrombosis; Hepatic artery; Transplant

RESUMO

Racional:

Trombose de artéria hepática é importante causa de falência de enxerto e complicações biliares. Fatores de risco para trombose estão relacionados aos aspectos técnicos da anastomose arterial e fatores não cirúrgicos.

Objetivo:

Avaliar os fatores de risco para o desenvolvimento de trombose de artéria hepática.

Métodos:

A amostra consta de 1050 casos de transplante hepático. Foi realizado estudo retrospectivo e transversal, e as variáveis foram avaliadas em doadores e receptores.

Resultados:

A análise univariada mostrou que as variáveis relacionadas a trombose de artéria hepática são: MELD e tempo de isquemia quente. Na análise multivariada, o MELD=14.5 e tempo de isquemia quente =35 min foram fatores de risco independentes para trombose de artéria hepática. No teste de prevalência para avaliação do tipo de anastomose como variável, foi observado que a sutura contínua tem maior risco de trombose quando comparada com aquela em pontos separados.

Conclusão:

Tempo de isquemia quente prolongado, MELD calculado e idade do recipiente foram fatores de risco independentes para trombose de artéria hepática após transplante de fígado em adultos. Pacientes submetidos à anastomose com sutura contínua apresentaram mais trombose quando comparados com a em pontos separados. Retransplante por trombose está associado com maior mortalidade.

DESCRITORES:
Trombose; Fatores de risco; Artéria hepática; Transplante

INTRODUÇÃO

A trombose da artéria hepática (TAH) é a complicação vascular mais frequente e grave do transplante de fígado, sendo a principal causa de disfunção primária e perda do enxerto. A incidência dessa doença varia de 2-9% em adultos11 Abou El-Ella K, Al Sebayel M, Ramirez C, et al. Outcome and risk factors of hepatic artery thrombosis after orthotopic liver transplantation in adults. Transplant Proc. 2001;33: 2712.,2525 Stange BJ, Glanemann M, Nuessler NC, et al. Hepatic Artery Thrombosis After Adult Liver Transplantation. Liver Transplantation. 2003;9(6):612-620. e pode chegar a 20% na literatura33 Bekker JM Ploem S, De Jong KP. Early hepatic artery thrombosis after liver transplantation: a systematic review of the incidence, outcome and risk factors. Am J Transplant.2009;9:746-57.,1212 Gunsar F, Rolando N, Pastacaldi S, et al. Late hepatic artery thrombosis after orthotopic liver transplantation. Liver transplantation. 2003;9(6):605-611.. As taxas de mortalidade variam de 11-35% em adultos e cerca de 50% em transplantes pediátricos2222 Sevmis S, Karakayali H, Tutar N, et al. Management of early hepatic arterial thrombosis after pediatric living-donor liver transplantation. Transplant Proc. 2011;43: 605-608..

Os sintomas na TAH podem ser agudos ou crônicos e podem ser pontuados como precoces (<4 semanas) ou tardios (>4 semanas). A manifestação aguda mais dramática é a necrose hepática isquêmica fulminante, na qual geralmente o paciente desenvolve rapidamente febre, sepse, estado mental, alteração do estado mental, hipotensão e coagulopatia2323 Shaked A, Mcdiarmid SV, Harrison RE, et al. Hepatic artery thrombosis resulting in gas gangrene of the transplanted liver . Surgery.1992;111:462-5..

Os fatores associados à ela podem ser não cirúrgicos e cirúrgicos. Entre os não cirúrgicos, encontram-se a idade do doador (=60 anos), estados de hipercoagulabilidade no receptor, casos de rejeição e infecção por citomegalovírus1414 Lisman T, Porte RJ. Hepatic artery thrombosis after liver transplantation: more than just a surgical complication? Transpl Int.2009;22:162-164.,1818 Oh CK, Pelletier SJ, Sawyer RG, et al. Uni- and multi-variate analysis of risk factors for early and late hepatic artery thrombosis after liver transplantation. Transplantation. 2001;71(6):767-772.. Dentre os principais fatores cirúrgicos, encontram-se dissecção da parede da artéria hepática e questões técnicas na anastomose11 Abou El-Ella K, Al Sebayel M, Ramirez C, et al. Outcome and risk factors of hepatic artery thrombosis after orthotopic liver transplantation in adults. Transplant Proc. 2001;33: 2712..

O diagnóstico dessa condição é realizado por meio da ultrassonografia Doppler como triagem pós-operatória e confirmado por angiografia celíaca ou angiotomografia1818 Oh CK, Pelletier SJ, Sawyer RG, et al. Uni- and multi-variate analysis of risk factors for early and late hepatic artery thrombosis after liver transplantation. Transplantation. 2001;71(6):767-772.. O tratamento é eminentemente cirúrgico, com a vasta maioria dos pacientes necessitando de re-transplante. Em pacientes assintomáticos, alternativas não cirúrgicas podem ser tentadas, como trombólise intra-arterial, com ou sem angioplastia, ou stents55 Boyvat F, Aytekin C, Harman A, et al. Endovascular stent placement in patients with hepatic artery stenoses or thromboses after liver transplant. Transplant Proc.2008;40:22-26.,2121 Reyes-Corona J, Gonzales-Huezo MS, Zea-Medina MV, et al. Paclitaxel coated-stent for early-onset thrombosis after liver transplantation. Ann Hepatol. 2007;6:272-275.,2424 Singhal A, Stokes K, Sebastian K, et al. Endovascular treatment of hepatic artery thrombosis following liver transplantation. Transpl Int. 2010;23:245-256..

A morbidade e mortalidade por TAH precoce, embora amplamente demonstrada na literatura internacional ao associar fatores não cirúrgicos causadores de TAH, não alterou efetivamente sua incidência. A necessidade de evitar essa condição torna necessário avaliar a possibilidade de fatores não cirúrgicos influenciarem essa estimativa.

Este estudo tem como objetivo analisar fatores de risco cirúrgicos e não cirúrgicos de doadores e receptores, associados à trombose da artéria hepática em 1050 transplantes de fígado em um único centro e a mortalidade após re-transplante.

MÉTODOS

Este trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Walter Cantídio da Universidade Federal do Ceará, HUWC-UFC processo no. 2.438.986.

Foi realizado um estudo retrospectivo e transversal, com base em uma revisão de prontuários de 1050 pacientes submetidos a transplante de fígado por doador falecido no Serviço de Transplante de Fígado do HUWC-UFC, de maio de 2002 a agosto 2014. Os critérios de inclusão foram todos os 1050 casos consecutivos de transplante de fígado, que foram realizados neste hospital. Nenhum paciente foi excluído da amostra.

As informações obtidas do doador foram: idade, gênero, tipo sanguíneo, causa da morte, grau de esteatose. Os dados do receptor foram: idade, gênero, tipo sanguíneo, causa da doença hepática, modelo para doença hepática terminal (MELD), Child, MELD calculado, MELD ajustado, tempo de isquemia quente (TIQ) e tempo de isquemia fria (TIF).

O sistema MELD é baseado em pontuação que prediz gravidade e mortalidade relacionada à doença hepática terminal. Ele utiliza valores séricos de bilirrubina total, creatinina e RNI (Relação Internacional Normatizada). MELD sódio é um escore modificado que adiciona o valor da natremia no cálculo da predição de mortalidade1010 Freitas ACT, Rampim AT, Nunes CP, Coelho JCU. Impact of MELD sodium on liver transplantation waiting list. ABCD ArqBrasCirDig. 2019;32(3):e1460.. A classificação Child-Turcotte-Pugh foi criada para, por meio da avaliação de elementos clínicos e laboratoriais, estabelecer um escore que avalie as funções primárias do fígado1616 Wiklund, R.A. Preoperative preparation of patients with advanced liver disease. Crit Care Med. 32:106-15. 2004.. MELD calculado é o valor absoluto obtido pela equação matemática. MELD ajustado é o valor atribuído ao MELD de pacientes com situação especial. Começa com 20 pontos, após três meses, 24 pontos e seis meses depois, 29 pontos. A situação especial foi concedida aos pacientes de acordo com a Portaria 2.600 publicada em 21 de outubro de 2009 pelo Ministério da Saúde do Brasil.

O ponto de corte para diferenciar a técnica de anastomose da artéria hepática começou do transplante número 105; todos os transplantes anteriores a este foram realizados com sutura contínua com polipropileno 7-0. Após esse número, os transplantes foram realizados com sutura interrompida com lupa de ampliação de 2,5x e sutura com polipropileno 7-0. O transplante hepático foi realizado de maneira universalmente aceita dividida em quatro etapas: cirurgia do doador, cirurgia de banco ou backtable, hepatectomia do receptor e implante do enxerto hepático66 Calne RY. Williams R. Liver transplantation in man. I. Observations on technique and organization in five cases. Br Med J. 1968;4:535-540.. Não usamos aspirina ou heparina de qualquer tipo para profilaxias pós-transplante.

FIGURA 1
Preparação da anastomose arterial: passagem das suturas de reparo para anastomose em pontos separados

A ultrassonografia abdominal com Doppler foi realizada no 1º e no 3º dias de pós-operatório. Nos casos de alterações no Doppler ou dúvida diagnóstica, era realizada angiotomografia dos vasos hepáticos.

Análise estatística

Os dados foram avaliados pelo software IBM SPSS Statistics 20 (2011). A diferença de médias dessas mesmas variáveis numéricas foi avaliada pelo teste paramétrico T student independente em relação à presença ou ausência de trombose no grupo receptor. Posteriormente, a associação dos escores de pontuação em relação ao grupo dos doadores foi avaliada pelo teste do qui-quadrado de independência. O mesmo foi aplicado em relação ao grupo dos receptores (houve ou não trombose). Para avaliar os fatores de risco, foi utilizado como referência o artigo das Diretrizes da Associação Médica Brasileira77 Castro MCR, Bernardo WM, Wrochawski ER, et al. Doadores Limítrofes no Transplante de Fígado. Projeto Diretrizes. Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina; 2008., que estabelece os seguintes fatores de risco para doadores de fígado: idade >55 anos; nível de esteatose >30% e tempo de isquemia fria >12 h. Nas demais variáveis numéricas que não possuíam valor de referência, a análise da curva ROC (Receiving Operating Characteristic) foi utilizada para definir alguns pontos de corte para uso posterior na análise de regressão logística multivariada. Para avaliar os fatores de risco para as variáveis dependentes (fatores de risco para trombose nos receptores), foi aplicada regressão logística multivariada. Foi utilizado o método backward stepwise conditional. Valor de p<0,05 foi considerado estatisticamente significativo.

RESULTADOS

A amostra foi composta por 1050 casos de transplante hepático no período de maio de 2002 a dezembro de 2014. Os pacientes submetidos ao re-transplante também foram incluídos na amostra. Do total de pacientes, 30 apresentaram trombose da artéria hepática, representando 2,8% da trombose nesta amostra.

Quanto às características dos doadores, a maioria era de homens (68,3%); com idade entre 35,8±16,1 anos; tipo sanguíneo (ABO), tipos O (52,8%) e A (35,0%); grau de esteatose <30% de esteatose (74,5%); e a causa da morte do doador estava mais relacionada a lesão cerebral traumática (57,3%) e acidente vascular cerebral (33,5%, Tabela 1)

TABELA 1
Distribuição de frequência das variáveis classificatórias dos doadores de fígado

Na avaliação dos receptores, houve também maior representação masculina (70,4%), com idade entre 48,8±14,6 anos, com maior concentração variando de 50-59 anos (34,4%), e as doenças hepáticas mais prevalentes foram cirrose por hepatite C (30,1%) e cirrose hepática alcoólica (21,2%, Tabela 2)

Quanto ao escore Child-Turcotte-Pugh, 48,6% dos receptores eram Child B, 31,3% C e 9,5% A; os valores MELD calculados e MELD ajustados foram, respectivamente, 19,6±7,0 e 21,5±8,1; e os tempos de isquemia fria e de isquemia quente nos receptores foram 343,1±113,6 min e 36,9±11,5 min. Foi encontrada diferença significativa (p<0,05) nas médias das variáveis MELD e TIQ calculadas em relação ao grupo de receptores (com e sem trombose, Tabela 3).

No presente estudo, observou-se que apenas a variável TIQ apresentou curva ROC com boa área (65,9%), muito próxima do ideal (>= 70%) e significativa (p<0,05), indicando que possui bons valores para discriminar quando a trombose do doador pode ou não estar presente. Nas demais variáveis, a área da curva ROC foi muito baixa, embora o MELD calculado tenha apresentado significância (p<0,05). Esses valores foram utilizados para definir pontos de corte para análise posterior.

Após o estabelecimento dos pontos de corte, as variáveis foram submetidas à análise univariada (Tabela 4) e multivariada (Tabela 5).

TABELA 2
Distribuição de frequência das variáveis classificatórias dos receptores de fígado

TABELA 3
Pontos de cortes (cuttoff) das variáveis independentes

TABELA 4
Teste T de student independente das variáveis numéricas em relação aos receptores que trombosaram ou não

FIGURA 2
Curva ROC demonstrando os pontos de corte das variáveis independentes (MELD calculado, MELD ajustado e tempo de isquemia quente)

Após 17 etapas de seleção pelo método condicional reverso, apenas as variáveis de tempo de isquemia quente (=35), MELD calculado (=14,5) e idade do receptor (=42 anos) foram significativas para trombose em receptores hepáticos - todos eles fatores de risco para trombose (OR>1).

TABELA 5
Regressão logística multivariada da trombose do receptor

A prevalência de trombose em pacientes com sutura contínua foi de 6,7%; ao mudar para sutura interrompida, essa prevalência caiu para 2,5%. A sutura interrompida reduziu significativamente a probabilidade de trombose (Tabela 3). Pacientes com sutura contínua apresentaram aumento na trombose quando comparados à sutura interrompida. Quando o teste da razão de prevalência foi realizado, observou-se que em receptores de transplantes com trombose houve maior taxa de mortalidade.

TABELA 6
Associação do tipo de anastomose e a trombose nos receptores de transplantes de fígado

DISCUSSÃO

Apesar de sua baixa incidência, a trombose da artéria hepática geralmente é questão devastadora que requer re-transplante e está associada à significativa morbidade e mortalidade2525 Stange BJ, Glanemann M, Nuessler NC, et al. Hepatic Artery Thrombosis After Adult Liver Transplantation. Liver Transplantation. 2003;9(6):612-620.. Neste estudo, o TIQ prolongado, o MELD calculado e a idade do receptor foram fatores de risco independentes para a TAH após o transplante de fígado em adultos.

Piscaglia et al.19 em estudo com 255 pacientes, apresentaram via regressão logística a idade >60 como fator de risco para TAH (OR para idade >60 anos; p=0,017). Além disso, Marudanayagan et al.15 também mostraram que MELD=23 e idade=55 anos estão associados ao melhor resultado após o transplante de fígado.

Apesar da escassa literatura que mostra a idade do receptor como fator de risco, este estudo revelou influência da idade >42 anos como fator de risco independente para trombose. Sugere-se que esse fato esteja provavelmente associado ao maior risco de doença arterial sistêmica (aterosclerose) e aumento de comorbidades que são mais comuns em pacientes com maior idade.

MELD é variável altamente avaliada, mas não está diretamente ligada ao risco de TAH e geralmente está relacionada à perda do enxerto e aumento da morbidade e mortalidade dos pacientes. Gratet al.11 mostraram em um estudo com 786 receptores que o MELD alto é fator de risco independente para menor sobrevida do enxerto e pode contribuir indiretamente para TAH tardia. Dudek et al.9 também mostraram menor sobrevida do enxerto em pacientes com MELD elevado.

Neste estudo, o MELD calculado foi um fator de risco independente para trombose da artéria hepática e, embora não estivesse diretamente associado à TAH, algumas publicações parecem confirmar os achados. Bonney et al.4 mostraram em 1090 transplantes realizados que o MELD >30 associado a alto índice de risco do doador (IRD) aumentou duas vezes o risco de complicações vasculares quando comparado aos doadores de baixo IRD. Essa provável relação identificada no estudo pode estar relacionada com maior gravidade da cirrose do receptor, uma vez que MELD maior está diretamente associado ao grau de agravamento da condição clínica do receptor, portanto com maior risco de disfunção do enxerto, aumento da resistência arterial e trombose da artéria hepática secundária.

Nesta série, o tempo de isquemia fria não mostrou relação com a TAH; por outro lado, o tempo de isquemia quente foi fator de risco para trombose na análise univariada e confirmada na análise multivariada. A literatura já mostrou que o aumento do tempo cirúrgico, o tempo prolongado de isquemia fria e a isquemia quente prolongada aumentam o risco de TAH precoce.

Embora frequentemente citado, o tempo de isquemia quente não é extensivamente avaliado e, até onde sabemos, não há publicações mostrando o TIQ como fator de risco. A média do TIQ apresentada neste estudo é de 36,5 min, o que pode estar associado às intercorrências que aumentam esse tempo no intraoperatório, como trombose de veia porta não identificada anteriormente ou necessidade de hemostasia do sangramento da anastomose da cava, ambas condições que podem aumentar o TIQ.

Neste estudo, fatores cirúrgicos relacionados a TAH também foram avaliados. Os primeiros transplantes realizados, mais especificamente de 1 a 105, foram realizados com sutura contínua com fio de polipropileno 7-0 ou 8-0. Esse tipo de anastomose apresentou prevalência de 6,5% de trombose da artéria hepática. Zhao et al.2929 Zhao JC, Lu SC, Yan LN, et al. Incidence and treatment of hepatic artery complications after orthotopic liver transplantation. World J Gastroenterol. 2003;9:2853-2855., em 72 casos consecutivos de transplante de fígado com técnica de cirurgia microvascular, com sutura arterial interrompida e com lupa 3,5x, apresentaram apenas 1,4% de TAH. Do transplante número 106 a 1050, optamos por modificação técnica na anastomose arterial. A sutura interrompida foi realizada com fio cirúrgico de polipropileno 7-0 ou 8-0, com lupas entre 2,5x e 4,0x, com base na preferência do cirurgião principal e do primeiro assistente.

Starzl et al. 26 inferiram em sua publicação - há mais de 25 anos - a importância da reconstrução arterial meticulosa e o uso de técnicas microcirúrgicas. Mori et al. 17 introduziram o conceito de microcirurgia para reconstrução da anastomose da artéria hepática; sua publicação enfatiza o uso da técnica microvascular com o advento de microscópios ou lupas e o uso de sutura interrompida mostrando superioridade sobre a técnica convencional.

As anastomoses arteriais neste serviço são realizadas preferencialmente após o alargamento da extremidade da artéria para aumentar seu diâmetro. O preparo da anastomose arterial é meticuloso, evitando o pinçamento direto da parede arterial, manipulando-a delicadamente. A anastomose é mantida o mais retificada possível, a fim de evitar torções (Figura 3).

A importância de aumentar o diâmetro das artérias e o uso de lupas foi demonstrada no estudo de Li et al.1313 Li PC, Jeng LB, Yang HR, et al. Hepatic Artery Reconstruction in Living Donor Liver Transplantation: Running Suture Under Surgical Loupes by Cardiovascular Surgeons in 180 Recipients. Transplantation Proceedings. 2012;44:448-450., com amostra de 187 receptores em transplantes interventriculares, aumentando o diâmetro das artérias, que eram em média 2,5 mm, o dobro do tamanho seccionando-os obliquamente; também mostraram que o uso de lupa com ampliação de 4,5x apresenta resultados semelhantes ao uso do microscópio.

Nesta amostra, quando comparados os tipos de anastomose, observou-se incidência de trombose de 2,5% nos pacientes com sutura interrompida. Concluiu-se que os receptores que têm anastomose em sutura contínua apresentaram 263% mais trombose quando comparados à sutura interrompida.

FIGURA 3
Aspecto final da anastomose da artéria hepática com sutura interrompida

Embora outras variáveis cirúrgicas não tenham sido abordadas no presente estudo, fatores locais e técnicos na anastomose exercem grande influência nos resultados. Tzeng, Hsieh, et Chen27 publicaram um pequeno estudo que mostra benefícios da sutura interrompida nos casos de dissecção da parede arterial, aumentando o tempo cirúrgico em apenas 20 min quando comparado à sutura contínua. Zheng et al.3030 Zheng SS, Yu ZY, Liang TB, et al. Prevention and treatment of hepatic artery thrombosis after liver transplantation. Hepatobiliary Pancreat Dis Int. 2004;3:21-25., em uma publicação com 198 pacientes, compararam a sutura interrompida com a contínua, mostrando incidência de TAH em 1% e 6,3%, respectivamente. Rela et al. 20 em modificação técnica publicada semelhante à utilizada neste serviço, apresentaram incidência de apenas 1,3%. Em nosso estudo, mesmo nos casos de variação anatômica com reconstrução arterial e enxertos vasculares, foi realizada anastomose com coto arterial do enxerto aorto-hepático em pontos separados, sem considerar esses fatores.

Também analisamos a taxa de re-transplante para trombose e a mortalidade nos casos de re-transplante. Em relação à taxa de re-transplante para trombose, todos as TAH, precoces ou tardias, foram tratadas no re-transplante. Dos pacientes re-transplantados por TAH, 40% morreram, mostrando que em transplantados com trombose houve taxa mais alta, com um aumento de 559% na mortalidade. O transplante de fígado também está associado ao surgimento de obesidade sarcopênica; no entanto, à semelhança do estudo de Anastácio et al.22 Anastácio LR, Ferreira LG, Ribeiro HS, et al. Sarcopenia, obesity and sarcopenic obesity in liver transplantation: a body composition prospective study. ArqBrasCirDig. 2019;32(2):e1434., essa relação não foi observada em nosso estudo.

Como já relatado por Stange et al. 25 e Oh et al.1818 Oh CK, Pelletier SJ, Sawyer RG, et al. Uni- and multi-variate analysis of risk factors for early and late hepatic artery thrombosis after liver transplantation. Transplantation. 2001;71(6):767-772., independentemente das medidas realizadas para prevenir a trombose da artéria hepática com o uso de anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários, a literatura mostra mortalidade por TAH precoce em torno de 11-56%, e a taxa de re-transplante pode chegar a 83%. Pode-se justificar que nossa alta taxa de re-transplante se deva à baixa acessibilidade e experiência da equipe de radiologia intervencionista/cirurgia vascular em procedimentos endovasculares, o que poderia beneficiar pacientes com TAH não cirúrgico. Fatores de risco não cirúrgicos sugerem melhor prevenção ou triagem para tentar diminuir o risco de trombose em pacientes com as variáveis encontradas.

Assim, a sutura interrompida parece ser superior do ponto de vista técnico, pois reduz o risco de complicações locais, há maior precisão em cada sutura e, com o uso de técnicas de microcirurgia, há cuidado maior com o manuseio da artéria causando menos lesão e dissecção da parede arterial. No entanto, a literatura mostra que outras variáveis técnicas, como número de anastomoses, variação anatômica e reconstruções complexas, são fatores de risco para TAH, exigindo estudos técnicos e randomizados, a fim de comparar a influência da técnica cirúrgica no desenvolvimento de TAH.

CONCLUSÃO

Tempo prolongado de isquemia quente, MELD calculado e idade do receptor foram fatores de risco independentes para TAH após transplante de fígado em adultos. A sutura interrompida reduziu significativamente a probabilidade de trombose. Pacientes transplantados com sutura contínua apresentaram aumento na trombose quando comparados à sutura interrompida. O re-transplante devido à trombose da artéria hepática foi associado com maior mortalidade dos receptores.

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  • Financiamento:

    não há
  • Mensagem central

    O tempo de isquemia quente prolongado, MELD calculado e a idade do receptor foram fatores de risco independentes para trombose da artéria hepática em adultos e a sutura em pontos separados reduziu significativamente a probabilidade de trombose.
  • Perspectivas

    Este estudo destaca importantes fatores de risco cirúrgicos e não cirúrgicos associados à trombose da artéria hepática após o transplante de fígado. Esses achados podem contribuir para um melhor manejo pré-operatório e adequação da técnica cirúrgica, a fim de reduzir a ocorrência dessa complicação grave.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Jan 2021
  • Data do Fascículo
    2020

Histórico

  • Recebido
    29 Jun 2020
  • Aceito
    03 Out 2020
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