Resumo
O artigo analisa a participação brasileira nas exposições internacionais oitocentistas, verdadeiras vitrines do progresso do capitalismo industrial, depois que o Império passou a ser representado nestes eventos pelo Centro da Lavoura e do Comércio, entre os anos de 1880 e 1888. Por meio da análise dos principais diretores do Centro da Lavoura demonstra-se que frações da classe senhorial, ligadas à cafeicultura do Vale do Paraíba, utilizaram as exposições e o próprio aparelho do Estado para ampliarem seus negócios e conquistarem novos mercados. Tratou-se da última tentativa dos grandes proprietários e comerciantes da bacia do centro-sul para aumentar seus lucros durante a crise da segunda escravidão.
Palavras-chave:
Exposições internacionais; século XIX; crise da segunda escravidão; café; Brasil Império; Centro da Lavoura e do Comércio; clubes da lavoura
Abstract
The article analyzes the Brazilian participation in 19th-century international exhibitions, true showcases of industrial capitalism, after the Empire began to be represented in these events by the Center of Agriculture and Commerce, between 1880 and 1888. Through the analysis of its main directors, it is possible to demonstrate that fractions of the master class, linked to coffee production in the Paraíba Valley, used the exhibitions and the state apparatus itself to expand their businesses and conquer new markets. It was the great slave-owners and coffee traders’ last attempt to increase their profits during the crisis of the second slavery.
Keywords:
International exhibitions; XIXth century; crisis of slavery; coffee; Brazilian Empire; Center of Agriculture and Commerce; agricultural clubs
A partir da segunda metade do século XIX, as principais potências europeias e os Estados Unidos organizaram exibições de grandes proporções e convidaram diversos países a montarem seus estandes com produtos que representassem suas respectivas nações. A primeira exposição universal ocorreu em Londres em 1851 e obteve enorme sucesso, alcançando a marca de 13.397 expositores e mais de 6 milhões de visitantes, reunidos na impressionante estrutura do Palácio de Cristal, construída especialmente para o evento3. Desde então, as novas “festas da modernidade”, “exhibitiones universais da civilização burguesa” cresceram de importância e contribuíram fundamentalmente para a exaltação dos estados nacionais, da ideologia do progresso, da fetichização da mercadoria e do capitalismo industrial4.
Na segunda metade do século XIX, tais espetáculos se repetiram com grande magnitude em Londres (1862), Paris (1855, 1867, 1878, 1889, 1900), Viena (1873), Filadélfia (1876) e Chicago (1893), sempre encantando um público maior do que 5 milhões de pessoas por vez e contribuindo enormemente para a construção de um imaginário burguês, que exaltava os avanços da sociedade industrial. Tratava-se de grandes oportunidades de lazer, conhecimento científico e tecnológico, acordos políticos, investimentos econômicos e propaganda nacional, tudo reunido num só tempo e espaço.
Durante o Oitocentos, as exposições conviveram com uma heterogeneidade de formas, técnicas e ramos. O anúncio das diversas descobertas científicas (fotografia, máquina de costura, ferrovia, barco a vapor, telefone, eletricidade etc.) disputaram espaço com pavilhões que traziam a agricultura, a mineração e o artesanato em destaque. Os ecos da tradição também se fizeram presentes por meio de monarcas que usaram as exposições como vitrines de sua força política, a exemplo do príncipe Albert da Inglaterra, que se envolveu pessoalmente na organização do evento de 1851, e de Napoleão III, que se valeu da exibição francesa de 1855 para se reafirmar no trono, após dar o golpe de estado que implementou o Segundo Império5. O Brasil não ficou atrás. O próprio D. Pedro II viajou aos Estados Unidos, especialmente para o evento da Filadélfia, em 1876, que comemorava o centenário da independência da ex-colônia inglesa6. Recebeu elogios na imprensa, encontrou-se com o presidente americano Ulysses Grant, adquiriu a invenção de Graham Bell, e garantiu a continuidade das exportações do café brasileiro para seu maior mercado consumidor. Uma viagem um tanto proveitosa para consolidar sua imagem de monarca ilustrado, contudo insuficiente para evitar o desconforto de representar um império escravista numa república recém-saída de uma guerra civil, que resultara na abolição da escravidão.
Todavia, para aqueles que compunham a classe dominante do império, durante muito tempo, pertencer ao “mundo civilizado” não significava prescindir da escravidão. Muito pelo contrário! O compromisso com a manutenção da ordem e a expansão da civilização, que reuniu os interesses de homens e mulheres da classe senhorial e embasou a construção do estado nacional brasileiro7, serviu de esteio para a ampliação de uma verdadeira segunda da escravidão8. O pilar dessa classe eram os grandes proprietários escravistas, especialmente aqueles da região da bacia do Paraíba9, que concentravam cerca de 70% do total da população cativa do centro-sul cafeeiro e podiam diversificar seus negócios por meio de investimentos em casas comissárias, bancos e ferrovias, tornando-se verdadeiros potentados. Mas essa classe senhorial não era constituída apenas em seu fazer econômico. Seu pertencimento esteve assentado num habitus dito civilizado, com forte inspiração das formas de comportamento da aristocracia europeia e dos ideais de consumo burgueses, muito embora convivesse com as práticas escravagistas nas esferas pública e privada10.
Com tal bagagem histórica, a opção levada a cabo pelo Estado Imperial foi ingressar nas “festas da modernidade” com o passaporte de terra de natureza exuberante, nação agrária vigorosa e potência mundial do café11. Não obstante, em fins dos anos de 1870, com uma crise econômica acentuada, a coroa desistiu de se manter à frente das exposições. A função foi assumida, uma única vez, pelo Clube da Lavoura de Campinas e, posteriormente, pelo Centro da Lavoura e do Comércio, durante praticamente toda a década de 1880.
Este artigo demonstra que frações da classe senhorial do império ligadas à cafeicultura do Vale do Paraíba, por meio de suas instituições associativas, utilizaram as exposições internacionais e o próprio aparelho do Estado para ampliar seus negócios e conquistar novos mercados. Tratou-se do último impulso dos grandes proprietários e comerciantes da bacia do centro-sul para aumentar seus lucros num grave momento de crise da mão de obra escrava, esteio fundamental de sua riqueza.
1. COM QUEM FICA O CONVITE PARA A FESTA
A estreia do Brasil numa exposição universal ocorreu em 1862, quando Londres sediou o evento pela segunda vez. Na ocasião, o Império era o maior exportador mundial de café, com uma produção/ano da ordem de 225 mil toneladas. Para escolher o que seria exibido no centro do capitalismo mundial, foi organizada a Primeira Exposição Nacional12, que ocorreu de 2 de dezembro de 1861 a 16 de janeiro de 1862, com a presença do imperador e de 437 expositores13. Apesar do sucesso de público, mais de 50 mil visitantes, as máquinas agrícolas selecionadas pelo júri não puderam seguir para Londres devido à exiguidade do espaço físico no estande brasileiro, sendo substituídas por fotografias. As dificuldades de infraestrutura e recursos se mantiveram nas exposições universais de 1867 e 1873, sendo intensificadas pela queda da economia gerada pela crise bancária de 1864 e pela Guerra do Paraguai (1864-1870) e, posteriormente, agravadas com a seca nas províncias do Norte em 1878. Buscando equilibrar gastos, o governo brasileiro cancelou sua participação na exposição universal de Paris de 1878.
Apesar da desistência oficial, não demorou muito para que um grupo de cafeicultores e negociantes de Campinas solicitassem a montagem de um estande próprio na exposição. A proposta foi apresentada por meio do Clube da Lavoura de Campinas, fundado em 11 de fevereiro de 1876. Tratava-se, sobretudo, de uma tentativa dos novos produtores do Oeste Paulista de ampliarem sua visibilidade econômica no mercado internacional14. Em agosto, o barão de Indaiatuba foi eleito para dirigir o comitê organizador e contatou Luis Rodrigues d’Oliveira, negociante em Paris, para viabilizar o projeto junto aos franceses, no que foi bem-sucedido. A Exposição de Paris ocorreu de 20 de maio a 10 de novembro de 1878, no Champ de Mars, e recebeu 16 milhões de pessoas15.
Contudo, o Clube da Lavoura de Campinas participaria com estande próprio somente da exibição de 1878. Logo foi substituído pelo Centro da Lavoura e do Comércio, com sede na corte, que tomou para si a prerrogativa de representação nacional e a manteve por quase toda a década16. Desde então, as amostras de café enviadas foram das quatro províncias do centro-sul e contaram com apoio logístico dos consulados brasileiros mais próximos aos locais de exibição. Percebe-se também o crescimento do volume dos investimentos em propaganda, infraestrutura e transporte, para que o café brasileiro pudesse ser conhecido além das grandes capitais17.
Em pouco tempo, o Centro da Lavoura e do Comércio chamou a atenção do público estrangeiro para a rubiácea brasileira, decorando luxuosamente os pavilhões, diplomando os plantadores dos melhores grãos, fazendo demonstrações de máquinas modernas, dentre outros recursos de valorização da imagem do café brasileiro no exterior. Além dos eventos nacionais preparatórios e das chamadas exposições universais, o centro promoveu o Brasil em várias outras exibições, sendo as de maior destaque: Exposição Continental de Buenos Aires (1882) (Figura 1), Exposição de Berlim (1882), Exposição de Viena e Trieste (1882), Exposição de Copenhagen (1883), Exposição Internacional de Colonização e Exportação de Amsterdam (1883) (Figura 2), Exposição Universal de São Petersburgo18 (1884), Exposição Universal de Beauvais (1885) e Exposição Universal de Anvers (Antuérpia, 1885)19,20.
Assim, foi utilizada toda a sorte de publicidade para fechar bons negócios e garantir novos mercados. Na capital argentina, foi montado um quiosque para distribuição gratuita do café. Em Amsterdam, totalizam-se 1003 tipos de grãos e 64 prêmios, com destaque para o Centro da Lavoura e do Comércio pela variedade de tipos de café e para o Brasil pelo lugar de maior produtor mundial do gênero. Em São Petersburgo, distribuem-se 500 garrafas de licor, 8 mil libras de café em grãos e 700 exemplares do catálogo brasileiro, sendo construído um jardim de inverno para degustação dos melhores tipos. Os esforços foram recompensados com a visita do Czar Alexandre III e da família imperial russa, amplamente divulgada na imprensa. Em Anvers, os 550 m2 do pavilhão brasileiro receberam adornos e fotografias de paisagens nacionais, de estabelecimentos agrícolas, e das nossas vias férreas, sem contar as mil xícaras e pacotes de café oferecidos aos visitantes. Além disso, o público pôde vislumbrar uma série de imagens do fotógrafo Marc Ferrez das fazendas e dos cafeeiros, por meio do sistema Alfred Molteni, conhecido como Lanterna Mágica21. Encantado com o que vira na Rússia, José Maria da Silva Paranhos Jr., comissário brasileiro no evento, elogiou: “esta e a de Amsterdam - também organizada pelo Centro da Lavoura e do Comércio - foram, sem dúvida, as maiores e mais completas exposições de café realizadas até hoje no exterior pelo Brasil”22.
2. OS CONVIDADOS DE HONRA E ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O ASSOCIATIVISMO SENHORIAL
Mas quem eram os dirigentes e sócios do Centro da Lavoura e do Comércio, instituição que ficou à frente das exposições internacionais mais importantes da década de 1880? Para responder a essa pergunta, vamos retornar à primeira forma de associativismo de proprietários de terras e escravos do centro-sul, além dos setores comercial e financeiro ligados ao café, ainda na década de 1870: o chamado Clube da Lavoura e do Comércio central23.
O Clube da Lavoura e do Comércio, com sede na Corte, foi fundado com 600 sócios inscritos, em 16 junho de 1871, em um suntuoso casarão na rua do Passeio, pouco mais de um mês depois que o gabinete conservador do visconde do Rio Branco apresentou no parlamento o projeto que libertava o ventre da mulher escrava. A situação era complexa, dividia opiniões e impulsionou muitos senhores do centro-sul a se organizarem enquanto classe proprietária em diversos municípios.
Desde o início dos anos 1860, a defesa da escravidão foi se escasseando entre as nações europeias, fato que repercutia diretamente nas colônias e países independentes das Américas que ainda mantinham a mão de obra servil24. Em 1865, com o fim da guerra civil e da escravidão nos Estados Unidos, D. Pedro II encomendou ao conservador Pimenta Bueno, Visconde de São Vicente, um projeto de libertação dos nascituros. Seu objetivo era se precaver de futuros problemas tendo em vista o sangrento exemplo do vizinho do norte.
O projeto de São Vicente só foi apresentado ao Conselho de Estado em abril de 1867, na vigência do terceiro gabinete liberal de Zacarias de Góes. Contudo, naquele momento, a discussão foi posta de lado, pois a conjuntura da Guerra do Paraguai já demandava esforços e negociações políticas bastante desgastantes. Terminada a guerra e iniciado o decênio conservador (1868-1878), o imperador instou o Visconde de Itaboraí, então presidente do Conselho de Ministros, e, posteriormente, seu substituto, o Visconde de São Vicente, a negociarem a proposta. Sem sucesso, a incumbência ficou para o Visconde do Rio Branco, José Maria da Silva Paranhos, que acabara de voltar do Paraguai e havia se oposto ao projeto em 1867. Todavia, no novo contexto, tendo a derrota dos confederados escravistas na Guerra Civil Americana, a Guerra do Paraguai e Lei Moret espanhola25 na bagagem, o projeto de libertação do ventre foi aprovado, com algumas adaptações, em 28 de setembro de 1871.
Como resultado, ocorreu o que Ricardo Salles chamou de “disjunção” entre as percepções de fazendeiros e estadistas sobre o contexto sociopolítico vigente26. De um lado, havia o imperador e uma parte ponderável dos dirigentes imperiais, com a percepção de que o império estava isolado no cenário internacional como país escravista e, portanto, era preciso conduzir o abandono gradual e controlado do elemento servil. Não que a Coroa houvesse se tornado antiescravista, mas vislumbrava que, para conservar o sistema, era preciso fazer concessões. Do outro, estavam importantes setores da classe dominante da bacia do Paraíba ligados à agroexportação e à exploração maciça da mão de obra escrava. Estes compreendiam a situação política e econômica como estável e buscaram manter o status quo mediante representações no congresso27. Do ponto de vista do imperador e dos estadistas que o apoiavam, o ventre livre era uma concessão necessária para manter o poder senhorial e do estado, e evitar desdobramentos mais negativos no futuro. Para os senhores, tratava-se de um grave rompimento de contrato por parte da coroa.
Voltando ao Clube da Lavoura e do Comércio, afirmo que sua criação foi uma reação direta dos escravistas ao projeto de libertação dos nascituros recolocado em pauta em 1871. No congresso, eram representados pela ala do partido conservador hostil à proposta do gabinete Rio Branco28. Vislumbrando a gravidade da situação, os grandes senhores locais buscaram diversificar as formas de luta e fundaram uma associação central em defesa dos interesses agrários do centro-sul, pautando-a como de interesse nacional. Como discursou o sócio Antônio de Carvalho em nome do Clube:
Não é só o lavrador que tem que defender sua propriedade ameaçada, não é só o comerciante que compartilha a sorte do lavrador, é também o proprietário, o possuidor de apólices, o possuidor de títulos bancários, todos estes acompanharão a sorte da lavoura, se ela for próspera, todas as classes o serão, se for arruinada, todas se apresentarão arruinadas.29
Para demonstrar sua força política, a cerimônia inaugural foi presidida por ninguém menos que o comendador José de Souza Breves, dono de um poderoso complexo cafeeiro escravista montado quando atuava no tráfico ilegal de escravos30. Ao seu lado na mesa, tomaram assento Caetano Furquim de Almeida, Augusto Soares de Miranda Jordão, Joaquim da Costa Ramalho Ortigão, Joaquim de Almeida Ramos (futuro barão de Almeida Ramos), o barão da Paraíba, personagens poderosos da classe senhorial ligada à bacia do Paraíba. Tal “comissão de frente” estava ali para impressionar, para mostrar à coroa o que ela tinha a perder e apontar que a luta seria boa, caso o projeto se mantivesse a sua revelia. Em discurso que arrancou aplausos da plateia, o Sr. Furquim de Almeida, capitalista e comissário de café de Vassouras, afirmava:
Desde o momento em que o governo apresentou seu projeto de emancipação na Câmara, […] lavradores, comerciantes, proprietários, todos sentiram-se assustados por verem-se ameaçados em seus direitos, em sua propriedade, em tudo quanto tinham de mais caro. […] Neste sentido reuniram-se as duas diretorias, a dos lavradores com a dos comerciantes, e combinaram em convocar esta reunião de ambas as classes e de todos aqueles que quiserem tomar parte na defesa de nossos direitos, para de comum acordo fundarmos uma associação, cujo fim é […] defendermos os interesses da lavoura e todos aqueles os que com eles se acham ligados. […] Queremos que respeitem nossa propriedade e que não ponham em risco nossa segurança, nossa vida e de nossas famílias.31
As palavras de Caetano Furquim na primeira sessão do Clube da Lavoura central, bem como a dos deputados que defenderam os interesses escravocratas no parlamento32, deixavam claro que, naquele momento, a defesa da propriedade era uma espécie de hino para os membros da classe senhorial (que, aliás, duraria até o 13 de maio). Na percepção deste grupo, “estava em jogo a manutenção do controle senhorial - atual e futuro - sobre a sua mão de obra”33. Era preciso reagir ao projeto do governo, considerado “detonador de desordem”, “perigoso” e “subversivo”34.
Durante a sessão, o Sr. Ramanho Ortigão aprovou o estatuto da nova associação, que incluía, dentre outras coisas, a contribuição de 100 mil réis dos sócios, e colocou em votação os cargos da primeira diretoria para um mandato anual35. Elegeram-se: o conde de Bonfim (presidente), o barão do Rio Negro (1o vice-presidente), o barão da Paraíba (2o vice-presidente), Pedro Luiz Pereira de Souza (1o secretário, depois que Ramalho Ortigão declinou da posição alegando falta de tempo), José Feliciano de Moraes Costa (2o secretário) e o barão de São Clemente (tesoureiro). Para consultores foram escolhidos: Dr. Caetano Furquim de Almeida, o comendador Jeronimo José de Mesquita, José de Sousa Breves, o barão de Ipiabas, o comendador José Pereira de Faro, barão de Prados, barão de Três Barras, comendador Manoel de Aguiar Vallim, Antonio Carlos Teixeira Leite e o barão de Tremembé.
Na ata de fundação, a primeira diretoria deixava claro que defenderia os interesses de seus membros por meio da “imprensa, do exercício do direito de petição e da criação de associações locais”36. E, realmente, o fez. Até a aprovação final da Lei Rio Branco, em 28 de setembro de 1871, foram enviadas 33 representações à Câmara e onze ao Senado.37 Muitas delas foram publicadas em jornais da corte e das províncias buscando ampliar o apoio senhorial. Mandaram petições, além do Clube da Lavoura com sede na corte, os clubes municipais de: Vassouras, Valença, Bananal, Paraíba do Sul (assinada pelo barão das Três Barras), Rio Bonito (assinada pelo barão de Almeida Rosa), São Tomé das Letras, Resende, Piraí, Barra Mansa, Conservatória, Campinas, Cantagalo, Juiz de Fora e Campos38. A estratégia reivindicatória empregada espelhava a estrutura organizacional da nova associação senhorial, que tinha sua base de sustentação nos Clubes da Lavoura municipais39, presididos por grandes proprietários, que utilizavam dos poderes e polícias locais para manterem a ordem escravista40.
A discussão da lei Rio Branco foi dura no parlamento e “lançou região contra região”41. Enquanto as províncias produtoras de café resistiram veementemente, as outras com menor concentração de escravos e que viam decrescer significativamente seu número desde o fim do tráfico concordaram com a lei, a exemplo das do Norte. A reforma pretendida desencadeou debates acalorados que ocuparam a imprensa, teatros, reuniões públicas, além da Câmara e do Senado. Apesar da rápida e pesada mobilização dos escravagistas, a Lei do Ventre Livre foi aprovada por 61 votos a favor e 35 contra42 e significou uma quebra do princípio legal do partus sequitur ventrem, segundo o qual o estatuto da criança seguia o da mãe cativa, alterando na essência as relações senhores-escravos. Além disso, representou uma ampliação de direitos dos escravos ao pecúlio e à compra da liberdade, uma vez que o direito costumeiro foi registrado. Contudo, nos anos que se sucederam à aprovação da lei, o discurso abolicionista, que começara a ganhar corpo na segunda metade da década de 1860, arrefeceu. Seu retorno vigoroso se deu no início dos anos de 1880, agora como um movimento social organizado em torno da bandeira do fim imediato e incondicional de todo o regime servil43.
Os anos de gabinetes liberais que se seguiram coincidiram com grandes avanços do movimento abolicionista e dos diferentes projetos abolicionistas em cena44. Com o início da década de 1880, “todos os anos, foram criadas pelo menos três novas associações abolicionistas”, com destaque para a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, fundada em 7 de setembro de 188045. A sociedade reunia José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, André Rebouças e outros intelectuais e políticos, em sua maioria ligados à ala mais radical do Partido Liberal. O movimento ganhou mais fôlego com as “conferências emancipadoras”, que aconteciam no Teatro São Vicente. Nelas discursaram diferentes palestrantes, muitos deles homens negros egressos ou não do cativeiro que participavam ativamente do debate, que recebia a cobertura da Gazeta da Tarde, ampliando ainda mais a difusão e circulação de suas ideias46. Naquele momento, não havia como negar, o partido abolicionista estava nas ruas47!
Na década de 1880, a ideia da escravidão como uma instituição ultrapassada, desumana e arcaica, já há muito em vigor internacionalmente, não tardou a virar convicção para uma parte importante da opinião pública brasileira. Eram jornalistas, advogados, médicos, engenheiros e tantos outros profissionais liberais; mas também carroceiros, jangadeiros, cocheiros, vendedores e trabalhadores, egressos do cativeiro ou nascidos livres48, que por diferentes razões defendiam o fim da “nefanda instituição”. Parte dos escravagistas, por sua vez, se apegava à Lei do Ventre Livre (antes tão combatida pelos mesmos) como tábua de salvação, afirmando que ela já era suficiente para garantir o fim da escravidão num “futuro próximo”, não sendo necessário avançar mais. Outros proprietários, contudo, tentavam conciliar diante da inegável conjuntura político-social desfavorável e incluíam a mão de obra imigrante em seus horizontes, todavia sem abdicar do discurso indenizatório. O enfrentamento de ideias e pessoas tomava as ruas da corte e agitava os ânimos. Nos municípios, os fazendeiros escravagistas se arregimentavam através dos Clubes da Lavoura locais, utilizando milícias e a própria polícia para perseguirem abolicionistas, escravos fugidos e quilombolas49.
Juntando os fatos, pode-se afirmar que, no início da década de 1880, quando a organização dos estandes brasileiros nas exposições internacionais foi assumida pelo Centro da Lavoura e do Comércio, estava em curso um forte desgaste da imagem das associações senhoriais, cada vez mais ligadas à violência e à manutenção da escravidão. Tal imagem prejudicava muito os novos negócios que se prospectavam nas exposições. A fundação de uma nova instituição era estratégica. Dar-se-ia continuidade ao projeto de incrementar as exportações brasileiras, contudo por meio de uma outra instituição não associada aos clubes da lavoura e ao “cancro roedor do Império”50.
A análise das diretorias e dos sócios fundadores do Clube da Lavoura Central e do Centro da Lavoura e do Comércio demonstra que a similaridade dos nomes das associações não era mera coincidência. A base social e política de ambas era a mesma: os grandes proprietários de terras e escravos, os políticos e homens de negócios ligados à bacia do Paraíba. Não obstante, não era mais possível para esses membros da classe senhorial do centro-sul apoiarem inadvertidamente a escravidão. Nos idos de 1880, eram poucos aqueles que não acreditavam ser a escravidão o “freio da civilização” e a abolição uma ação necessária e inevitável. Todavia, dessa certeza não decorria obrigatoriamente a defesa do fim total e imediato do uso do “elemento servil”. Muito pelo contrário, no discurso senhorial, a abolição deveria ser feita aos poucos, lentamente, estabelecendo-se um estatuto intermediário entre liberdade e escravidão, por meio da prestação de serviços e da tutela senhorial51. Ela também deveria ser concedida pelo poder senhorial e não “arrancada” pelo estado, como reclamavam os senhores. Não por acaso, essa foi exatamente a bandeira do Centro da Lavoura e do Comércio: o emancipacionismo lento e gradual, que prolongaria a escravidão para além da virada do século XX52.
Assim, em 1880, quando reunidos no sobrado do barão de São Clemente, no bairro do Flamengo, para a fundação do Centro da Lavoura e do Comércio53, intencionava-se dar uma nova roupagem, um “verniz civilizatório”, aos velhos donos do poder54. O propósito do centro era anunciado:
resistir a esta anarquia que se levanta, determinar exatamente o curso mais útil à economia nacional, fundar em bases sólidas a sua indústria, alargar o círculo das relações comerciais, concitar a estima de outros países, afirmando-a nas conveniências da permuta, constituir enfim um estado rico, próspero e respeitado tal é a aspiração e o empenho primordial de nossa associação.55
O discurso apresentado não disfarçava um aspecto importante da ideologia e do modus operandi dos representantes da classe dominante do império em relação à política: a tentativa de conversão dos seus interesses privados em causas nacionais. Seus integrantes concebiam o estado como instrumento de seus interesses corporativos e atuavam dentro de tal lógica e espaço56. Portanto, para aqueles homens fundadores do Centro da Lavoura e do Comércio, ampliar as negociações e exportações do café no mercado internacional equivalia a zelar pelo bem da nação e não somente de sua classe. As permanências entre o Clube da Lavoura, que liderou petições senhoriais contra o Ventre Livre, e o Centro da Lavoura e do Comércio ficam mais evidentes quando comparamos suas diretorias e sócios fundadores (Quadro 1)
Os dados coletados demonstram que, dentre os doze membros da primeira diretoria do Centro da Lavoura e do Comércio, 75% (oito indivíduos) eram os mesmos ou tinham relações familiares e/ou negócios com os sócios fundadores do Clube da Lavoura, de 1871. Conforme foi verificado na pesquisa, os criadores do centro pertenciam a importantes famílias cafeicultoras da bacia do Paraíba ou eram sócios de casas comissárias a elas conectadas59. Tal estrutura social era bastante semelhante à do Clube da Lavoura. Todavia, o centro, apesar de permanecer endógeno à classe senhorial, apresentava uma composição mais variada em termos de atividades econômicas, incluindo personagens com interesses que ultrapassavam a produção, negócios e comércio de café, como as áreas bancárias, de transporte, de seguros, mineração e imigração.
Além disso, como pode ser conferido no Quadro 2, alguns membros se tornaram acionistas ou diretores das mesmas empresas, a exemplo da Cia. E. F. Príncipe do Grão-Pará e da Cia. de Minas de Assuruá, e ocuparam cargos em companhias do governo. Tal aspecto demonstra que as redes sociais e de negócios dessas famílias se espraiavam por outros espaços e associações para além de suas empresas originais, do Clube ou do Centro da Lavoura. O Real Gabinete Português de Leitura, por exemplo, foi a instituição social preferida dos três únicos portugueses do Centro.
Os dados demonstram que o pensamento conservador e escravagista fazia parte do éthos e do habitus daqueles que, em 1880, propagandeavam a qualidade dos produtos agrícolas brasileiros nas “festas da modernidade”, sob a batuta do Centro da Lavoura e do Comércio. Tratava-se praticamente das mesmas pessoas, do mesmo núcleo dirigente, ligados aos proprietários do Vale do Paraíba, com uma nova roupagem. Se as continuidades são evidentes no que compete aos intelectuais que davam direção à nova instituição, as mudanças se manifestaram nos investimentos, principalmente no que compete às companhias colonizadoras e de imigração que proliferaram. O fim da mão de obra escrava já estava no horizonte desses homens quando da fundação do centro, a briga era sobre em que circunstâncias se daria. Assim, o investimento em imigração era uma tentativa de alguns senhores de ganhar dos dois lados: com a indenização do governo (proposta defendida até o 13 maio de 1888) e com a exploração da mão de obra imigrante, inclusive sobre contratos de deslocamento e trabalho.
De início, pode-se dizer que a estratégia de mudança de nome para apagar os vínculos pessoais funcionou. No exterior, o Centro da Lavoura e do Comércio representava o Brasil com toda a pompa, sendo agraciado com diversos diplomas de honra e premiações de mérito, chamando atenção dos investidores. Seus esforços rendiam artigos positivos nos jornais internacionais. Nacionalmente, a situação era bem mais complicada. Grande parte da imprensa elogiava o Centro por promover o café e a imagem do Brasil no exterior. Porém, logo surgiram aqueles que apontavam os “descompassos” de um país escravista nas “festas da modernidade”. Na segunda exposição nacional, a Gazeta de Notícias trazia a provocação:
Está inaugurada a segunda exposição de café promovida pelo Centro da Lavoura e do Comércio. […] Nas diversas salas que percorremos vimos ao menos, além de alguns quadros representando fazendas de café, vários exemplares de instrumentos da lavoura e do trabalho agrícola. Apenas faltava ali um escravo para o quadro ser completo […]. Não é ele também um instrumento da lavoura?61
Angelo Agostini, foi outro que não se furtou de fazer piada da situação (Figura 3).
Congresso Internacional
- Queira perdoar-me, mas… com aquele negrinho não pode entrar.
- Mas é que não posso separar-me dele: é quem me veste, quem me dá de comer, quem… quem me serve em tudo afinal!
É que… Enfim, em atenção às ilustres qualidades pessoais de tão sábio, soberano, creio que as nações civilizadas não duvidarão em admiti-lo.63
Entre os abolicionistas, no princípio, a “nova roupagem” de “verniz civilizatório” do Centro da Lavoura e do Comércio proporcionou uma trégua. O próprio José do Patrocínio buscou o diálogo por intermédio do senador liberal José Inácio Silveira da Motta e de Ramalho Ortigão. Talvez acreditasse que poderia convencê-los da abolição incondicional64. Contudo, a partir de 1883, com a fundação da Confederação Abolicionista, a abolição no Ceará e no Amazonas, e a apresentação do projeto do liberal Souza Dantas na Câmara (1884), que pautava a libertação sem indenização dos sexagenários, as possibilidades de diálogo se extinguiram65. O “verniz civilizatório” desbotou. Para aqueles senhores, tudo estava indo rápido demais.
O Centro da Lavoura e do Comércio contra-atacou. Utilizou do Diário do Brazil66, periódico favorável à causa senhorial, para convocar um congresso em julho de 1884 com o claro objetivo de frear o movimento abolicionista67. A conexão com os senhores da bacia do Paraíba era clara e, na mesma edição, os fazendeiros de Paraíba do Sul, Juiz de Fora e São João Nepomeceno se propunham a mandar representantes:
Se o Centro do Comércio e Lavoura entender que uma reunião é conveniente e oportuna, se dirigirá aos lavradores e comerciantes dos diversos municípios das referidas províncias, para que estes nomeiem delegados, que formarão com o Centro do Comércio e Lavoura um congresso que estude, discuta e proponha ao governo meios que melhor lhes pareçam afim de opor uma barreira aos desmandos dos pseudos-abolicionistas, cujas doutrinas subversivas, são uma ameaça não só a nossa propriedade como também as nossas famílias.68
No Congresso de 1884, foi escolhido um comitê central responsável por combater o movimento abolicionista e promover as articulações necessárias para a defesa dos interesses da agricultura69. Ao todo, compareceram ao evento 49 representações de clubes da lavoura municipais, sendo 34 do Vale do Paraíba e da Zona da Mata e o restante do oeste paulista.70
Como resposta, o jornal abolicionista Gazeta da Tarde subiu o tom e se referiu ao centro como “fazendeiros e comissários do café, interessados em manter o braço escravo, a grande propriedade, a lavoura hipotecada”71. Assim, denunciou a articulação direta do centro com os clubes da lavoura municipais, extremamente violentos na luta contra o abolicionismo72. O que se pretendia escondido, na verdade, já era sabido.
3. SOBRE A DINÂMICA POLÍTICA IMPERIAL: A TÍTULO DE CONCLUSÃO
Em 16 de novembro de 1884, proferindo um discurso em Madalena, Pernambuco, Joaquim Nabuco conectou os dirigentes do Centro da Lavoura ao “navio apodrecido da escravidão” e afirmou: “não está no espírito da lavoura escravista auxiliar coisa alguma”. A artilharia era pesada e não se referia somente à resistência inflamada ao projeto Sousa Dantas apresentado no parlamento. Nabuco lançou fogo sobre o custeio das exposições nacionais e internacionais:
Os lavradores e comissários do sul gabavam-se de ter feito na Europa esplêndidas exposições de café. Todos acreditávamos que era à custa deles, mas no Rio de Janeiro tive ocasião de descobrir o segredo desse primeiro cometimento de uma classe entorpecida pela escravidão e incapaz de esforço mesmo em proveito próprio. As célebres exposições de café do Centro da Lavoura e do Comércio eram feitas pelo Ministério da Agricultura sem que o Parlamento tivesse votado fundos para esse fim. Eram pretextos para títulos e condecorações, custosamente elaboradas à custa da subvenção secreta. Assim, sim; mas fora dos dinheiros públicos a agricultura como classe não realizou ainda coisa alguma, nem em benefício de seus produtos, nem em benefício do território que possui ou comunhão a que pertence.73
As palavras de Nabuco apontam um elemento importante do funcionamento da política imperial: a íntima relação dos proprietários, negociantes e financistas que compunham a classe senhorial, principalmente do centro-sul, com a coroa. Muito embora os estadistas tivessem autonomia em relação aos fazendeiros, defendiam um projeto de nação construído em função dos interesses senhoriais e o executavam como interesses nacionais74. Ao apoiar o Brasil nas exposições internacionais, o Centro da Lavoura e do Comércio estava representando os negócios de seus próprios dirigentes, sócios e integrantes. Queriam uma saída para a crise do café e da segunda escravidão por meio do aumento das exportações para novos mercados e, para tanto, receberam ajuda da Coroa, que dependia política e economicamente de seu apoio.
Esse exemplo é emblemático para fazermos uma crítica ao conceito de “dialética da ambiguidade” colocado por José Murilo de Carvalho75, pois demonstra que não havia um descompasso de propósitos entre a “elite política imperial” (definida pelo autor como antiescravista) e a classe proprietária rural. Mesmo quando o governo central anunciou que o Brasil não participaria das próximas exposições internacionais, entregou a incumbência àqueles que não desvirtuariam do caminho traçado: as frações da classe senhorial lotadas na bacia do Paraíba. Podia fazê-lo porque seus propósitos eram congruentes, não havendo perigo de mudança de direção. E, como acusou Nabuco corretamente, tal transferência de responsabilidade foi custeada com recursos públicos e sem a obrigatoriedade de aprovação da Câmara, através do Ministério da Agricultura, mas propagandeada como investimento privado76.
Ao ocupar os espaços antes destinados ao Estado, os grandes senhores de terras e escravos os usavam a seu favor. De uma forma ou de outra, perpetuava-se o entrelaçamento das esferas pública e privada, fortalecia-se o poder senhorial e, por consequência, os negócios do café. A coroa não saía perdendo nesse processo, já que mais de 70% de suas receitas advinham de impostos diretos ou indiretos gerados pela rubiácea. O caso das exposições internacionais é uma excelente lente para observar esse dispositivo da política imperial. Por meio delas, os integrantes da classe senhorial se valeram do estado para projetar suas transações no exterior, receberem títulos de nobreza e cargos no governo (todos os quatro diretores do Centro da Lavoura e do Comércio titulados foram condecorados na década de 1880), além de construírem uma prestigiosa imagem pública de beneméritos até mesmo num momento em que o mundo senhorial tendia a ruir devido à crise da segunda escravidão77.
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Fonte: Arquivo Nacional (foto Samuel Boote).
Fonte: Biblioteca Nacional.
Fontes: Coffee factorage and the emergence of a Brazilian capital market, 1850-1888 (Joseph. E. Sweigart)
*Participaram do Clube da Lavoura e do Centro da Lavoura e do Comércio. Mantinham vínculos parentais ou de negócios. Fonte: Coffee factorage and the emergence of a Brazilian capital market, 1850-1888 (Joseph. E. Sweigart)
Fonte: Revista Ilustrada, 1883