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A análise do discurso diante da crise do coronavírus: algumas reflexões

RESUMO

A análise do discurso, assim como o conjunto das ciências humanas e sociais, é desafiada pela pandemia de covid-19, o que produz efeitos significativos sobre seus conceitos e práticas. Os estudos do discurso são, de fato, um campo de pesquisa inscrito na história, e seus pesquisadores não podem ignorar as transformações do mundo onde exercem sua atividade. Neste artigo, examino alguns pontos que me parecem interessantes dessa perspectiva: de início, a pertinência das noções de momento discursivo e de vulgarização para descrever a produção suscitada pela epidemia; a seguir, o papel crucial dos números em sua representação. Finalmente, meu interesse é o modo como as enunciações que se querem terapêuticas elaboram as crises para responder à crise sanitária.

PALAVRAS-CHAVE:
Covid-19; Momento discursivo; Vulgarização; Números; Crise

ABSTRACT

Discourse studies are indeed a field of research firmly anchored in history and discourse analysts cannot ignore the transformations of the world in which they work. Like any social science, they are challenged by the covid-19 pandemic, which is likely to impact on its concepts and practices. In this article, I examine some points that seem interesting from this perspective: first, the relevance of the notions of “discursive moment” and popularisation to describe the production generated by the epidemics; second, the crucial role of figures in its representation. Finally, I study the way enunciations that claim to be therapeutic shape “endogenous” crises in their own text, in response to the health crisis.

KEYWORDS:
Covid-19; Discursive moment; Popularisation; Numbers; Crisis

Na crise aguda que atravessamos, as mídias dão a palavra a inúmeros especialistas vindos da biologia ou da medicina, mas também da filosofia e das ciências sociais: historiadores, sociólogos, psicólogos… No entanto, na França, pelo menos, os especialistas das ciências da linguagem não parecem estar preocupados com isso. A pandemia, porém, não é apenas uma realidade sanitária e uma realidade social que associa o biológico e o social, é também amplamente uma realidade discursiva. Este colocar de lado a questão da linguagem não é surpreendente; como Foucault (1995, p.55-56)1 1 FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. 4 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1995. sublinhou, é preciso grandes esforços para “se desfazerem os laços aparentemente tão fortes entre as palavras e as coisas”, para tratar os discursos “no nível do próprio discurso”, para não os tornar “elementos significantes que remetem a conteúdos ou a representações”. Desse ponto de vista, o discurso compartilha o estatuto paradoxal do coronavírus: presente em toda parte, mas invisível. Sem dúvida, nunca na história da humanidade uma epidemia suscitou tantas palavras, mas essas palavras raramente são consideradas como tais: elas se pretendem transparentes em relação às “coisas” de que tratam.

Os analistas do discurso, naturalmente, veem as coisas de outra forma. Eles não podem mais ignorar que a pandemia do covid-19 terá efeitos significativos sobre seus conceitos e suas práticas: a análise do discurso está inscrita na história e não pode ignorar as transformações do mundo onde ela intervém. Isso é particularmente evidente quando se trata de transformações que envolvem técnicas de comunicação; é então inevitável que o prodigioso desenvolvimento das tecnologias de comunicação digital modifique em profundidade os métodos dos analistas do discurso. Por outro lado, as coisas são muito menos evidentes quando se trata não de mutações técnicas, mas de acontecimentos como a pandemia de covid-19. Confrontada com esse fenômeno massivo e brutal, a análise do discurso pode responder com uma simples extensão de seu corpus, mas ela também pode se questionar sobre seus conceitos e suas práticas. Estender os corpora significa aplicar aos enunciados produzidos durante a pandemia e a propósito dela as ferramentas já elaboradas pela análise do discurso há mais de meio século. Revisitar seus conceitos e práticas é se perguntar como as enunciações que puderam ser produzidas na pandemia nos obrigam a refinar, corrigir, e até desqualificar nossas ferramentas de análise habituais. É sobretudo sobre essa última questão que vai se orientar minha reflexão.

1 Do momento discursivo à saturação discursiva

Por sua natureza extrema, a pandemia de covid-19 nos aproxima das condições de uma experiência de pensamento. Por “experiência de pensamento” entendemos uma maneira de resolver problemas utilizando a imaginação, quando as condições de uma experimentação não são realizáveis. É um procedimento familiar na física desde Galileu, mas também na filosofia, em particular na filosofia analítica: “O que aconteceria se...?” No caso da pandemia: O que aconteceria se as mídias do mundo falassem todas da mesma coisa durante o dia inteiro? O que aconteceria se a população inteira de um país ficasse confinada em casa? O que aconteceria se os homens não pudessem mais se comunicar por meio das técnicas de mídia?

Coloco então uma questão: “O que aconteceria se todas as mídias do mundo falassem todas a mesma coisa durante o dia inteiro?” Para designar esse tipo de situação, os analistas do discurso têm à sua disposição o conceito de “momento discursivo”, que Sophie Moirand define assim: “o surgimento, na mídia, de uma produção discursiva intensa e diversificada a propósito de um mesmo acontecimento (Maio 1968, Guerra do Kosovo, Intervenção russa na Chechênia, Copa do Mundo de futebol, Festival de Cannes, crise da vaca louca...)” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU (dir.), 2004, p.389)2 2 CHARAUDEAU, P.: MAINGUENEAU, D. Dicionário de análise do discurso. Coordenação da tradução Fabiana Komesu. São Paulo: Contexto, 2004, p.340. . A pandemia de covid-19 coloca em evidência duas características de um momento discursivo - a intensidade da produção e a diversidade dos gêneros de discurso relacionados -, mas em alguns aspectos ela excede também este quadro.
  1. Num momento discursivo habitual, a produção de enunciados pode ser “intensa”, mas não saturar a totalidade do espaço midiático durante meses, como faz o coronavírus. A epidemia funciona como um tipo de buraco negro midiático que absorve toda a informação.

  2. Como mostram os exemplos que S. Moirand dá entre parênteses em sua definição, um momento discursivo se apoia sobre um ponto de referência implícito: no seu caso, trata-se da França. De fato, um momento discursivo só interessa em princípio a uma parte, sempre reduzida, da humanidade, ou até apenas a um país. Os acontecimentos de Maio de 1968 ou a crise da vaca louca não se constituíram certamente de “momentos discursivos” na Indonésia ou no Equador. Por outro lado, no caso da covid-19, é todo o mundo que está preocupado. Podemos mesmo ir mais longe: não apenas todo o mundo fala dela, e em todo lugar, mas cada região do globo é obrigada a se inteirar do que se passa nas outras regiões porque isso incide sobre todos, diretamente ou indiretamente: precisamos proibir o acesso aos viajantes vindos de um determinado país? O foco da pandemia se desloca? Podemos prever a partir do exemplo de tal país a evolução no nosso? A política de nossos governantes é mais eficaz que aquela realizada em outro país? etc.

  3. No interior de um país, nem todo mundo se interessa pela Copa do Mundo de futebol ou pelo Festival de Cannes. No caso da covid-19, sucede de outra forma: o vírus ameaça cada indivíduo pela simples razão de ser um ser humano: cada um está obrigado a se perguntar o que deve fazer para evitar ficar doente. Se há debate, isso não se dá em torno da necessidade de combater a pandemia, mas apenas em torno dos meios mais eficazes para se chegar a um bom resultado no combate a ela.

  4. Os acontecimentos que suscitam momentos discursivos só preocupam à grande maioria das pessoas a título de informação. Mesmo que tenham monopolizado a atenção das mídias, os atentados do 11 de setembro em Nova York ou os massacres islamistas de 2015 em Paris modificaram o modo de vida apenas de uma pequena minoria de indivíduos. No caso da covid-19, é a totalidade da existência que está envolvida: para preservar sua saúde, é necessário se informar sobre a doença.

Nessas condições, seria mais preciso falar de “saturação discursiva” do que de “momento discursivo”. A saturação discursiva constitui a realização extrema do momento discursivo: o acontecimento invade as mídias, mas também o conjunto da existência dos indivíduos, então os menores gestos da vida cotidiana são objeto de comentários minuciosos nas mídias: devemos lavar os legumes? Podemos tocar os botões dos elevadores? Que distância devemos manter uns dos outros? Quanto tempo o vírus sobrevive sobre o papel? sobre o metal? etc. Claro, a saturação da existência é amplamente ligada ao fato de que as mídias estão saturadas pelos enunciados sobre o coronavírus, mas não podemos fazer como se no mundo contemporâneo a existência dos indivíduos pudesse ser pensada independentemente de sua conexão com os vetores de comunicação.

2 Indo além da vulgarização

Uma característica maior dos discursos suscitados por esta pandemia está, então, na proliferação de enunciados que têm uma visada de vulgarização: as mídias estão cheias de especialistas que são convidados a dar explicações aos leigos. Podemos, porém, nos perguntar se a noção de vulgarização não é muito fluida para dar conta dessa situação.

a. A urgência

A representação que se faz comumente da vulgarização é aquela de um mediador que se esforça por traduzir enunciados relevantes de um discurso “fechado” - isto é, produzido para um público que poderia produzir o mesmo gênero de textos - para torná-los inteligíveis a um destinatário exterior àquele domínio, desejoso de o compreender. Mas esta caracterização recobre apenas uma parte das situações efetivas. Nas mídias, de fato, vemos coexistirem duas formas de vulgarização: aquela que visa a difundir os conhecimentos, a explicar os avanços das ciências, e aquela que é imposta pela atualidade, em que a demanda de conhecimento está ligada às necessidades de todos ou de parte da população. Essa distinção é em si mesma bem sumária; pode-se ainda defini-la com mais precisão, distinguindo cinco categorias.
  1. Existe uma vulgarização cuja finalidade é, antes de tudo, enriquecer os conhecimentos de um público interessado pelos avanços nas pesquisas. Ela é reservada a revistas especializadas ou a emissões destinadas a um público restrito.

  2. Quando a vulgarização se dirige a um grande público e é feita por quem não é especializado (ou é pouco especializado), ela se preocupa em responder às preocupações dos destinatários: uma revista feminina publica um artigo sobre os antibióticos porque as mães de família se preocupam com a resistência aos antibióticos; uma revista destinada a executivos publica um artigo sobre a inteligência artificial porque os jornalistas pensam que esse tema interessa a seus leitores, que estão ansiosos por compreender as transformações do mundo econômico, etc.

  3. A atualidade imediata provoca quase automaticamente atividades de vulgarização: durante a guerra do Iraque de 2003, os canais de televisão franceses promoviam uma ampla cobertura por parte de peritos militares, os furacões fazem com que os meteorologistas ocupem as telas de televisão, os assassinatos são especialidade para psiquiatras ou psicólogos... Mas essas explicações servem sobretudo para esclarecer acontecimentos, elas não têm ligação direta com a vida dos telespectadores.

  4. A vulgarização imposta pelos acontecimentos que interessam a um grande número de pessoas, mas que têm consequências imediatas e fortes apenas sobre uma parte muito reduzida da população. Poderíamos falar de vulgarização “de urgência”, como falamos de um “medicamento de urgência”. O furacão Katrina em 2005 afetou realmente a vida de uma parte mínima de americanos, mas ele causou emoções ao conjunto da população.

  5. Existe, enfim, uma vulgarização de urgência na medida da saturação discursiva: é o caso com a covid-19. A pressão pela vulgarização à qual as mídias se esforçam por responder se explica pelo fato de que toda a população é afetada em sua existência cotidiana. As propostas dos especialistas não são recebidas como simples explicações, mas como motivos para legitimar um comportamento. Se um professor de medicina vem à televisão numa hora de grande audiência afirmando que é inútil o uso de máscara, seu propósito, quer ele queira ou não, vai servir para legitimar decisões de atores do mundo sanitário ou do mundo político e vai influenciar o comportamento de uma parte da população. Se ele diz que os testes serológicos não são confiáveis ou que os anticorpos conferem apenas uma imunidade transitória, isso pode incitar os pais a levar ou não suas crianças à escola, a retomar ou não o trabalho, etc. Sintoma dessa preocupação, vemos se multiplicar na web “dicionários” que visam a esclarecer a significação da terminologia médica.

b. Uma interação assimétrica

O modelo tradicional da vulgarização é aquele de uma atividade que traduz uma palavra superior, uma palavra de autoridade, para ajustá-la à dos não especialistas, necessariamente colocados numa posição inferior. Mas este modelo é minado pelo desenvolvimento da comunicação digital, que toma um espaço crescente nos enunciados que circulam segundo outras modalidades que não aquelas das mídias dominantes e mantêm uma relação de desconfiança, até de contestação em relação a enunciados vindos “de cima”. É assim que, sobre as redes sociais e sobre os comentários dos artigos publicados pelos sites de informação, vemos circular massivamente os enunciados que colocam em dúvida a validade dos enunciados produzidos pelas autoridades científicas. Esse fenômeno não surgiu com o aparecimento da pandemia de covid-19, mas tomou um aspecto extremo nessa ocasião. De fato, faz um certo número de anos que os novos canais de difusão que oferecem as tecnologias digitais tornam possível uma contestação sistemática daquilo que poderíamos chamar de “Esfera autorizada” político-midiática, que afirma se submeter a normas: normas morais (recusa de discriminações, de injúrias, etc.), mas também normais intelectuais (verificação das fontes, conformidade com os protocolos científicos etc.). Essa contestação assimétrica se verifica nos próprios sites de informação, onde a superioridade da palavra do jornalista é constantemente questionada por sua associação com um número indefinido de “comentários” de origem indeterminada. Produz-se então um deslocamento do centro de gravidade: não é mais o artigo que importa, mas a relação entre o artigo e os comentários que suscita.

A pandemia de covid-19 tem oferecido um terreno de expressão privilegiado a enunciados que por uma parte se legitimam pelo fato de que não se originam da Esfera autorizada, acusada de mascarar a verdade; eles colocam em dúvida números oficiais, as explicações dadas sobre as causas reais da pandemia, promovem terapias alternativas àquelas recomendadas pelas autoridades sanitárias, etc. Esses dois modos de circulação dos enunciados - os produzidos no interior da Esfera autorizada e os outros - se nutrem um do outro. Os atores que pertencem à Esfera autorizada legitimam de fato seu estatuto e sua palavra denunciando incansavelmente as fake news ou as “teorias da conspiração”.

c. A impossível diferença temporal

No caso da covid-19, o enfraquecimento do modelo canônico da vulgarização foi acentuado pelo fato de que, no interior da própria Esfera autorizada, vimos se desgastar a autoridade daquela palavra superior da Ciência que as mídias deviam vulgarizar. Para uma boa parte, essa perda de legitimidade se explica por um desregulamento da temporalidade normal das publicações científicas.

No funcionamento ideal da produção científica, um primeiro processo, sempre muito lento, leva à submissão de um texto até sua publicação através de uma série de revisões requeridas pelos “pareceristas/revisores”. Pode então haver uma segunda etapa, aquela da discussão dos resultados por outras publicações, elas mesmas submetidas a “pareceristas/revisores”. Uma vez que um resultado é estabilizado, seja porque há um consenso entre os especialistas, seja porque a hipótese é considerada confiável por uma parte significativa da comunidade em questão, o resultado pode ser objeto de uma vulgarização que dá ao leitor o sentimento de que a Ciência falou. Mas, com a urgência criada pela covid-19, esses dispositivos de filtragem podem não funcionar: milhares de artigos são “publicados” na web sem outro controle que não aquele de seus autores. Além disso - algo também importante -, esses textos são imediatamente lidos por atores ligados aos profissionais das mídias, de modo a serem difundidos massivamente fora do mundo científico. Essa difusão suscita inevitavelmente controvérsias entre cientistas, amplificadas pelas redes sociais. Para tomar um exemplo particularmente expressivo, o debate sobre a hidroxicloroquina misturou as fronteiras usuais entre opinião comum, ciência e política.

3 Os números

a. Uma proliferação

Os números exercem um papel essencial em nossas sociedades. Basta pensar na economia: flutuações da Bolsa, taxas de inflação, taxas de desemprego, taxas de crescimento, produto interno bruto, etc. Mas a Covid-19 ampliou essa preocupação a níveis até então insuspeitáveis.

O mundo dos números se apresenta como aquele da objetividade e da universalidade: universalidade garantida por um sistema de signos que se querem transculturais e, portanto, sob medida para uma pandemia que é por definição mundial: graças a eles, esta pandemia pode se representar de maneira homogênea de um lado a outro do planeta. Enquanto uma pequena minoria de pessoas consulta regularmente os números da economia, todo o mundo ou quase todos perscrutam a cada dia com inquietude os números da covid-19. E nunca as mídias os forneceram em tal quantidade, sob modos os mais diversos: mapas geográficos, curvas, histogramas, quadros... Incessantemente, são revelados números meticulosos: em escala mundial, do continente, do país, da região, do departamento, até de cada cidade: número de pessoas contaminadas, de novas contaminações em 24 horas, número de pacientes hospitalizados, de pacientes em reanimação, de pacientes curados, número de testes efetuados, número de testes positivos, etc. A esses números se juntam outros, colaterais: número de novos desempregados, em período total ou parcial, proporção de trens em circulação, número de agências de correio abertas, horas nas quais é permitido praticar esportes, distância de deslocamento legal em relação ao domicílio, etc.

A covid-19 suscita, a esse respeito, uma grande criatividade. Às “representações numéricas” tradicionais (curvas, quadros, histogramas...) produzidas por organismos especializados acrescentam-se também as múltiplas representações fabricadas pelos jornalistas, que rivalizam de imaginação para produzir, com a ajuda de softwares burocráticos, representações que sejam possíveis de ser transmitidas. As novas tecnologias permitem até produzir esquemas encadeados: se clicarmos, por exemplo, em um mapa de um país, sobre uma região, obtemos estatísticas próprias daquela região, e assim por diante.

Os números - e todas as representações numéricas que eles tornam possíveis - exercem um papel muito importante porque são um remédio essencial contra a angústia: eles transformam o irrepresentável em alguma coisa representável, que podemos medir e dividir/distribuir em casos unívocos. O vírus se vê num microscópio eletrônico, mas a pandemia enquanto pandemia só existe em função dos números. A partir do lugar que ocupam, os indivíduos não podem representar sua propagação; e isso na medida em que um grande número de pessoas infectadas não apresenta sintomas: ninguém está seguro de não estar contaminado, ninguém sabe se os indivíduos que encontramos estão infectados. Os números são a única maneira de inverter a relação de forças: por eles, podemos dominar o mal que nos domina.

Habitualmente, as mídias dão os números oriundos de organismos oficiais sem discutir sistematicamente sua validade: eles servem apenas de pontos de apoio para as argumentações. Com o coronavírus, a situação é diferente. Considerado o papel crucial que jogam esses números, uma multidão de controvérsias se desenvolve sobre a confiabilidade de suas fontes e as possíveis manipulações que sofreram, paralelamente aos debates clássicos sobre a eficácia da política sanitária dos governantes. Uma multidão de artigos contesta os números oficiais ou, de maneira mais técnica, analisam os procedimentos que permitiram construi-los; vemos mesmo se multiplicarem os comentários de ordem técnica sobre as vantagens e inconvenientes de tal representação numérica.

b. Uma questão para a análise do discurso

Os analistas do discurso não podem se contentar em constatar o papel crucial que exercem os números e explicá-los por considerações de ordem antropológica. Eles também são obrigados a se questionar sobre sua relação com esse tipo de dados.

É necessário reconhecer que, em geral, a análise do discurso se interessa pouco pelos números. Certamente, estudamos o uso que faz das estatísticas tal político num debate televisivo, mas muito raramente o percurso discursivo que seguiram essas estatísticas para chegar até as mídias. Essa reticência dos analistas do discurso pode se explicar de duas maneiras. Em primeiro lugar, os números e as representações numéricas não são enunciados em língua natural; seu estudo é espontaneamente confiado a outras disciplinas. Em segundo lugar, os números são produzidos através de práticas cuja interpretação em termos de posicionamento ideológico é difícil. Os analistas do discurso, e isso se compreende, nutrem uma predileção pelos textos, e em particular pelos textos que podem estar relacionados a um campo em que se enfrentam posicionamentos. Mas quando um funcionário toma os números dos casos indicados por um software, depois envia este arquivo a um outro funcionário, que vai ele mesmo introduzir esses dados em tabelas Excel, depois transformar em uma curva gerada por um software, estamos longe de pesquisas sobre os partidos políticos, os gêneros escolares, as interações entre medicamentos e pacientes, os processos no tribunal... As práticas burocráticas tendem então a serem abandonadas a enfoques do tipo etnológico ou antropológico.

Os analistas do discurso se encontram aqui diante de uma alternativa. Ou eles decidem que o discurso “verdadeiro” se constitui, antes de tudo, das interações orais e dos textos institucionais, ou eles consideram que é preciso apreendê-los em toda a diversidade de suas manifestações e, nesse caso, em vista do papel crucial que exercem os números no conjunto da sociedade, é necessário levar em conta as práticas que os tornam possíveis, mesmo quando elas não produzem textos no sentido usual do termo.

Colocar em números é, inicialmente, traduzir em signos matemáticos dados percebidos e arrumá-los em categorias pré-estabelecidas: os doentes que consultam um médico, máscaras guardadas em um depósito, garrafas de gel hidroalcoólico, etc. Mas é também integrar esses números em documentos previstos para eles. Chegamos assim aos quadros, que podem se transformar em esquemas, curvas..., que vão ser integrados num gênero de texto destinado a circular num espaço determinado: relatórios, notas, orçamentos memoriais..., todos eles uma produção obscura sobre a qual repousa uma rede de instituições (institutos de estudos, gabinetes ministeriais, sindicatos, ONG, organismos internacionais...) para os quais eles foram elaborados.

Quando esses números são integrados nos textos produzidos pelas mídias, oscilam entre dois modelos. No primeiro, a representação numérica constitui o essencial do artigo, que apenas a comenta. No segundo, mais frequente, os números figuram no interior de um texto. Em 23 de junho de 2020, por exemplo, pudemos ler no site do jornal Le Figaro este artigo bem representativo, que insere os números ao longo do texto.

INFORME DA SITUAÇÃO - Novos balanços, novas medidas, fatos marcantes: Le Figaro faz o balanço sobre os últimos desenvolvimentos da pandemia Covid-19.

Mais de 9 milhões de casos no planeta

Mais da metade dos casos declarados no mundo se encontram na Europa e nos Estados Unidos, segundo uma contagem realizada pela AFP a partir de fontes oficiais. Às 21h de segunda-feira, 9.017.016 casos de infecção estavam reportados com 469.060 óbitos. Com 425 mortes suplementares devidas ao coronavírus em 24 horas na segunda-feira, os Estados Unidos lamentam mais de 120.000 mortes ligadas à pandemia. Em seguida vêm o Brasil (50.617 mortes), o Reino Unido (42.647), a Itália (34.657) e a França (29.663) (...)3 3 LE POINT SUR LA SITUATION - Nouveaux bilans, nouvelles mesures, faits marquants: Le Figaro fait le point sur les dernières évolutions de la pandémie de Covid-19. Plus de 9 millions de cas sur la planète. Plus de la moitié des cas déclarés dans le monde se trouvent en Europe et aux États-Unis, selon un comptage réalisé par l'AFP à partir de sources officielles. À 21H lundi soir, quelque 9.017.016 cas d'infection étaient recensés dont 469.060 décès. Avec 425 décès supplémentaires dus au coronavirus en 24 heures lundi, les États-Unis déplorent désormais plus de 120.000 morts liées à la pandémie. Viennent ensuite le Brésil (50.617 décès), le Royaume-Uni (42.647), l'Italie (34.657) et la France (29.663). https://www.lefigaro.fr/sciences/coronavirus-plus-de-9-millions-de-cas-sur-la-planete-enquete-sur-83-clusters-en-france-20200623; consultado em 24-06-2020. .

Este artigo se autocategoriza como “informe/balanço” (“o balanço da situação”). Na França, este termo ecoa o Point presse [Balanço da imprensa], a emissão televisiva cotidiana em que, no período mais intenso da epidemia, o Diretor Geral da Saúde dava as estatísticas cotidianas da epidemia. Esse emprego do substantivo “point” é uma metáfora emprestada ao domínio da navegação: quando em alto mar, “faire le point” [dar as coordenadas] é utilizar um instrumento para determinar sua posição graças aos astros: esta posição se representa em números. Como o mar, a pandemia nos cerca por todos os lados, mas temos a possibilidade de dominá-la por meio dos números, com a condição de dispor de instrumentos adaptados e de uma sólida cadeia de referências.

4 Entre crise e depois da crise

Quando evocamos a pandemia de covid-19, o termo que vem à nossa mente com mais regularidade é “crise”. Esse substantivo pode parecer impreciso, mas ele não é vazio de sentido. A Encyclopédie philosophique universelle define-o da seguinte forma.

Estrutura de descontinuidade, da ordem do acontecimento e do momento (no sentido de “momento crítico”), afetando o desenvolvimento progressivo regular de um processo cujo sentido se vê, por isso mesmo, alterado, comprometido e sob risco, de modo decisivo e significativo (AUROUX (Dir.), 1990, p.511)4 4 Structure de discontinuité, de l’ordre de l’événement et du moment (au sens de “moment critique”), affectant le développement régulièrement progressif d’un processus dont le sens se voit par là même altéré, compromis et risqué de façon décisive et significative (AUROUX (Dir.), 1990, p.511). .

Essa definição subentende uma oposição axiológica: o processo regular, pela própria irrupção dessa descontinuidade, revela retrospectivamente harmonia, equilíbrio de ameaças ou perdas. A metáfora médica se impõe, então: a oposição entre saúde e doença, vida e morte, se encontra no pano de fundo. De modo que, de certa forma, a noção de crise sanitária parece redundante: toda crise afeta a saúde de uma entidade.

Entre as crises, podemos distinguir um subconjunto restrito, aquele das catástrofes: um acontecimento inesperado e brutal que afeta o conjunto de uma comunidade. Podemos aí distinguir dois tipos, que podem se combinar: as catástrofes materiais (incêndios, furacões, tsunamis etc.) e as catástrofes morais, aquelas que colocam em perigo os valores da comunidade, provocam uma perda momentânea de suas referências. O massacre islamista em New York em 11 de setembro de 2001 constitui um bom exemplo de catástrofe moral. Para a crise da covid-19, como para as crises sanitárias graves, a distinção entre catástrofe material e moral se mistura: numa crise sanitária dessa amplitude, não é só a vida das pessoas que está em causa, mas também os valores fundamentais, como o testemunham os debates que ocorrem: devemos preferir a economia à saúde? Podemos privar os moribundos da presença de sua família? É democrático vigiar a população? Podemos proibir os cultos religiosos? etc.

Cada tipo de catástrofe espera como resposta algumas manifestações que podemos considerar “salientes” do ponto de vista terapêutico. Por exemplo, quando se produziu o massacre islamista em Paris, em 13 de novembro de 2015, foram as respostas de ordem política e de compaixão que prevaleceram. De um lado, o Estado interveio imediatamente para denunciar os inimigos, fazer investigações policiais, mobilizar o exército, numa palavra, para restabelecer sua autoridade: de outro, vimos espalhar-se nas redes sociais as manifestações de compaixão dirigidas a Paris. Esses dois tipos de respostas podem ser ilustrados pelas imagens que seguem.

A primeira mostra o presidente da República fazendo uma declaração solene na televisão em 14 de novembro de 2015, no Palácio Elisée, algumas horas depois dos atentados5 5 Arquivo pessoal do autor. . O lugar escolhido, a decoração e a atitude do locutor destinam-se a reforçar a autoridade de sua palavra.

A outra imagem evoca o papel muito importante que exercem as aforizações (em particular “Je suis Paris” [Eu sou Paris] e “Pray for Paris” [Rezem por Paris]) na expressão da compaixão. Elas foram massivamente difundidas na web e provocaram agrupamentos silenciosos de manifestantes que mostravam a aforização sobre uma pequena placa negra e branca.

No caso do coronavírus, não é nem a compaixão nem a afirmação da autoridade política que são as manifestações discursivas salientes do ponto de vista terapêutico, mas a intervenção dos especialistas nas mídias e a proliferação de informações cujo foco são os números: duas maneiras de assegurar, de conjurar a angústia num momento em que a população busca referências.

A pandemia da covid-19, como os atentados islamistas de 2015, os incêndios na Austrália em 2019, ou o tsumani de dezembro de 2004, são crises que podemos considerar “exógenas” (MAINGUENEAU, 2019MAINGUENEAU, D. Catastrophe et énonciation remédiante. In: GROSSE, S., SCHLAAK, C., WEILAND V. (Dir.). Contrôle et escalades verbales. Politique et régulation au moyen de la langue. Heidelberg: Universitätsverlag Winter, 2019, p.31-42.): acontecimentos perturbadores que se impõem massiva e brutalmente a todos. Mas, ao lado dessas crises, há outras que podemos considerar “endógenas”; nesse caso, a crise em questão é invisível ou pouco visível: é no seu enunciado que o locutor delimita e caracteriza, elabora uma crise, e ele a apresenta de tal modo que pode pretender saná-la por sua própria enunciação. Essas crises endógenas estão presentes sobretudo nos discursos político, religioso, filosófico, estético. O enunciador deve se apresentar como um membro da comunidade para se mostrar profundamente afetado pela crise que a afeta; mas ele deve também mostrar que sabe tomar distância para poder enunciar uma palavra terapêutica lúcida e eficaz.

Um bom exemplo de crise endógena em filosofia é oferecido pela obra póstuma de E. Husserl, Die Krisis der europaischen Wissenschaften und die transzendentale Phänomenologie [A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental] (1954HUSSERL, E. Die Krisis der europäischen Wissenschaften und die transzendentale Phänomenologie. Eine Einleitung in die phänomenologische Philosophie. La Haye: Martinus Nijhoff, 1954.)6 6 HUSSERL, E. A crise da humanidade europeia e a filosofia. 4. ed. Introdução e tradução de Urbano Zilles. Porto Alegre: EduPUCRS, 2012. . Como seu título indica, a obra se assenta sobre o diagnóstico de uma crise: o projeto grego de uma “humanidade oriunda da razão”, com fonte nas matemáticas e na filosofia, estaria perdido com a autonomia progressiva das ciências. Mas essa crise é colocada como preliminar à enunciação e, na realidade, construída pela enunciação; e é assim que ela funda a necessidade da fenomenologia, que a entende e para a qual tem a cura.

Um dos interesses dessa crise da covid-19 é que ela é acompanhada, na França pelo menos, de um discurso multiforme sobre o “depois da crise”, que implica a delimitação de uma crise endógena. Dois discursos se entrelaçam. O primeiro, previsível, é aquele sobre as causas da pandemia, sua natureza e os remédios que podemos utilizar para combatê-la. O segundo, menos esperado, transfere a crise para um outro nível: no lugar de focalizar o retorno à normalidade, o período anterior da crise, avança inúmeras intervenções que se esforçam por identificar, para além da crise, uma outra crise que já havia e que a covid-19 teria permitido revelar. Esse esquema argumentativo, que consiste em passar de uma crise a outra, considerada mais profunda, é comumente utilizado no discurso político. Encontramos um bom exemplo na França no texto fundador do partido de extrema esquerda Novo Partido Anticapitalista Francês7 7 Texto encontrado no site do NPA https://nouveaupartianticapitaliste.org/principes-fondateurs; consultado em 10-07-2020. (NPA), adotado num congresso em 8 de fevereiro de 2009. Seus signatários afirmam querer enunciar uma “resposta à crise globalizada do capitalismo” promovendo “um socialismo do século XXI, democrático, ecológico e feminista”8 8 No original: “réponse à la crise globalisée du capitalisme [...] un socialisme du 21e siècle, démocratique, écologique et féministe”. . Se Husserl buscava remediar uma crise que levava sua assinatura (nem todos os filósofos estão de acordo a respeito dessa crise do pensamento, que só existe se adotamos o ponto de vista da fenomenologia husserliana), o NPA se apoia sobre uma crise econômica exógena da qual todos sentem os efeitos: de 01/01/2008 a 24/10/2008, as ações cotadas na Bolsa de Paris perderam não menos que 43,11% de seu valor. A fundação do NPA se inscreve assim numa conjuntura em que por todo lado nas mídias circula a fórmula “a crise”, associada ao artigo definido singular. O problema de seus dirigentes é, então, retrabalhar essa crise nos termos de uma certa interpretação da doutrina marxista, de modo a fazer parecer adiante dela uma outra crise, muito mais importante: é isso que resulta desde o início da primeira seção do texto intitulado “Le capitalisme met l’humanité et la planète en danger” [O capitalismo coloca a humanidade e o planeta em perigo]9 9 Principes fondateurs du Nouveau Parti Anticapitaliste [Princípios fundadores do Novo Partido Anticapitalista]: https://nouveaupartianticapitaliste.org/principes-fondateurs Consultado em 10-07-2020. :

O sistema capitalista gera crises que se conjugam: crises alimentares, econômicas, energéticas, financeiras, sanitárias, sociais, tensões internacionais e guerras, cujas consequência são sempre dramáticas.

A mundialização marcada por uma ofensiva das classes dominantes contra os trabalhadores e as pessoas para aumentar os lucros dá origem a uma crise profunda e estrutural do próprio modo de produção capitalista (itálicos meus)10 10 No original: “Le système capitaliste génère des crises qui se conjuguent : crises alimentaires, économiques, écologiques, énergétiques, financières, sanitaires, sociales, tensions internationales et guerres, dont les conséquences sont toujours dramatiques. “La mondialisation marquée par une offensive des classes dominantes contre les travailleurs et les peuples pour augmenter les profits aboutit à une crise profonde et structurelle du mode de production capitaliste lui-même (c’est moi qui souligne).”

Passamos do plural “crises” a “uma crise” que subsume todas as outras, “uma crise profunda e estrutural do próprio modo de produção capitalista”. Isso leva a uma “crítica radical” desse sistema econômico. A enunciação constrói a crise e clama por sua existência apoiando-se sobre o mal-estar que provoca “a crise atual” na comunidade destinatária, categorizada como “população explorada”. A crise de que o texto trata não é então um simples tema: ela é, ao mesmo tempo, a condição e o produto de uma enunciação que se apoia sobre ela para justificar seu direito à palavra.

Reencontramos esse esquema com a covid-19: da mesma maneira que a crise econômica de 2008, a crise da pandemia é interpretada como reveladora de uma outra crise, mais profunda e com efeitos múltiplos, que cada um, em função de seu posicionamento ideológico, desenha à sua maneira: crise engendrada pelo capitalismo, pelo neoliberalismo, pelo consumismo, o produtivismo, a modernidade, o racionalismo, o Ocidente, a mundialização, o individualismo, etc. A multidão de enunciados produzidos para desenhar o mundo que deve vir depois da crise da covid-19 não deve iludir: sem a construção de uma pré-crise anterior à crise sanitária não é possível curar os males da sociedade, definir um “pós-crise”.

Conclusão

Isso que acabo de afirmar sobre crises pode se aplicar à própria análise do discurso quando confrontada à pandemia de covid-19. Os analistas do discurso podem decidir ou não reajustar algumas de suas categorias ou de seus procedimentos para mensurar os efeitos da crise sanitária: mas não é, entretanto, necessário absorver esses reajustes numa crise endógena, que seria uma crise da própria análise do discurso que a epidemia teria permitido revelar. Essa possibilidade não pode, porém, ser excluída; tudo depende da maneira como a situação vai evoluir. Uma coisa é certa, contudo: esta crise, como toda crise que afeta em profundidade a sociedade, provoca uma proliferação de discursos que se querem terapêuticos, que se alimentam das falhas que se abrem no mundo ao qual estamos habituados. Esse corpus tem o interesse de nos lembrar de uma dimensão da linguagem que temos a tendência de esquecer em tempos de normalidade: a palavra não serve apenas para informar. Em período de crise grave, não há mais palavra neutra: não se trata de questão de saúde ou doença, de vida ou morte: as mídias não se contentam em falar da crise sanitária, seus discursos contribuem também para dar segurança ou preocupar, para curar ou adoecer. E é em função desse critério simples e brutal que tudo que é dito é constantemente avaliado pelos mais diferentes atores.

  • 1
    FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. 4 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1995.
  • 2
    CHARAUDEAU, P.: MAINGUENEAU, D. Dicionário de análise do discurso. Coordenação da tradução Fabiana Komesu. São Paulo: Contexto, 2004, p.340.
  • 3
    LE POINT SUR LA SITUATION - Nouveaux bilans, nouvelles mesures, faits marquants: Le Figaro fait le point sur les dernières évolutions de la pandémie de Covid-19. Plus de 9 millions de cas sur la planète. Plus de la moitié des cas déclarés dans le monde se trouvent en Europe et aux États-Unis, selon un comptage réalisé par l'AFP à partir de sources officielles. À 21H lundi soir, quelque 9.017.016 cas d'infection étaient recensés dont 469.060 décès. Avec 425 décès supplémentaires dus au coronavirus en 24 heures lundi, les États-Unis déplorent désormais plus de 120.000 morts liées à la pandémie. Viennent ensuite le Brésil (50.617 décès), le Royaume-Uni (42.647), l'Italie (34.657) et la France (29.663). https://www.lefigaro.fr/sciences/coronavirus-plus-de-9-millions-de-cas-sur-la-planete-enquete-sur-83-clusters-en-france-20200623; consultado em 24-06-2020.
  • 4
    Structure de discontinuité, de l’ordre de l’événement et du moment (au sens de “moment critique”), affectant le développement régulièrement progressif d’un processus dont le sens se voit par là même altéré, compromis et risqué de façon décisive et significative (AUROUX (Dir.), 1990, p.511).
  • 5
    Arquivo pessoal do autor.
  • 6
    HUSSERL, E. A crise da humanidade europeia e a filosofia. 4. ed. Introdução e tradução de Urbano Zilles. Porto Alegre: EduPUCRS, 2012.
  • 7
    Texto encontrado no site do NPA https://nouveaupartianticapitaliste.org/principes-fondateurs; consultado em 10-07-2020.
  • 8
    No original: “réponse à la crise globalisée du capitalisme [...] un socialisme du 21e siècle, démocratique, écologique et féministe”.
  • 9
    Principes fondateurs du Nouveau Parti Anticapitaliste [Princípios fundadores do Novo Partido Anticapitalista]: https://nouveaupartianticapitaliste.org/principes-fondateurs Consultado em 10-07-2020.
  • 10
    No original: “Le système capitaliste génère des crises qui se conjuguent : crises alimentaires, économiques, écologiques, énergétiques, financières, sanitaires, sociales, tensions internationales et guerres, dont les conséquences sont toujours dramatiques.
    “La mondialisation marquée par une offensive des classes dominantes contre les travailleurs et les peuples pour augmenter les profits aboutit à une crise profonde et structurelle du mode de production capitaliste lui-même (c’est moi qui souligne).”
  • Tradução de Maria Helena Cruz Pistori - mhcpist@gmail.com; https://orcid.org/0000-0003-0751-3178

REFERÊNCIAS

  • AUROUX, S. (Dir.). Les notions philosophiques. Tome 1. Encyclopédie philosophique universelle Paris: PUF, 1998.
  • CHARAUDEAU, P., MAINGUENEAU, D. Dictionnaire d’analyse du discours Paris: Seuil, 2002.
  • FOUCAULT, M. L’archéologie du savoir Paris: Gallimard,1969.
  • HUSSERL, E. Die Krisis der europäischen Wissenschaften und die transzendentale Phänomenologie. Eine Einleitung in die phänomenologische Philosophie. La Haye: Martinus Nijhoff, 1954.
  • MAINGUENEAU, D. Catastrophe et énonciation remédiante. In: GROSSE, S., SCHLAAK, C., WEILAND V. (Dir.). Contrôle et escalades verbales. Politique et régulation au moyen de la langue. Heidelberg: Universitätsverlag Winter, 2019, p.31-42.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Nov 2021
  • Data do Fascículo
    Oct/Dec 2021

Histórico

  • Recebido
    19 Jul 2020
  • Aceito
    06 Jul 2021
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