O que será da Educação Matemática depois do Coronavírus?

Roger Miarka Marcus Vinicius Maltempi Sobre os autores

Vivemos tempos difíceis. Pela primeira vez, desde a Segunda Guerra Mundial, o mundo inteiro está voltado para um mesmo problema: como lidar com o Coronavírus. Diversas estratégias foram adotadas por diferentes países, a maioria envolvendo algum tipo de isolamento social, seja vertical ou horizontal. No primeiro, há o isolamento de apenas pessoas em grupos de risco, enquanto no segundo não há a seleção de grupos específicos, sendo recomendado que todos fiquem em casa. Seja qual for a estratégia adotada, algo é certo: a situação, que se inicia como uma questão de saúde, rapidamente mostra seus desdobramentos econômicos, políticos, sociais, educacionais etc.

No Brasil, a maior parte dos estados adotou a estratégia de isolamento horizontal, o que afeta diretamente os sistemas educacionais, uma vez que a maior parte das instituições de ensino brasileiras tem suas atividades pautadas em um ensino presencial, em que se concentram pessoas e, por conseguinte, ou tem suas atividades de ensino descontinuadas ou, então, assumem atividades remotas sem necessariamente estarem preparadas para essa transição. A situação se complica ainda mais se pensarmos que grande parte das salas de aula do ensino público brasileiro estão abarrotadas, seja na Educação Básica ou no Ensino Superior, de maneira que o retorno às atividades presenciais pós-isolamento, possivelmente, se dará de maneira escalonada.

No início de junho de 2020, o Brasil, após três meses desde a divulgação de seu primeiro caso no fim de fevereiro, figura em segundo lugar no ranking de número de contagiados no mundo, em uma curva de contágio ainda crescente e com a ocupação dos leitos em muitos de seus hospitais atingindo o limite máximo. Essa situação se torna ainda mais delicada na medida em que o discurso do presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, é contrário às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e ao da maioria dos governadores dos estados, defensores do isolamento social. Nesse ínterim, dois ministros da saúde, ambos também defensores do isolamento, são exonerados do cargo, e no dia 9 de junho, dia em que este editorial é escrito, o Brasil, apesar das dificuldades que passa junto à pandemia, está há quase um mês sem Ministro da Saúde.

Na Educação, para lidar com a pandemia, o Ministério da Educação (MEC) tomou diversas medidas, tais como a flexibilização do número de dias letivos na Educação Básica e nas instituições de Ensino Superior, que poderão distribuir a carga horária em um período diferente dos duzentos dias letivos previstos em lei; a aprovação de um documento com diretrizes do Conselho Nacional de Educação (CNE), em que autoriza os diferentes sistemas de ensino a utilizarem atividades remotas, computando-as para o cumprimento da carga horária; a criação do Comitê Operativo de Emergência (COE), para definir as principais diretrizes para a rede de ensino do país, que inclui o próprio Ministério da Educação (MEC), o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), o Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica (Conif) e a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) (BRASIL, 2020BRASIL. Ministério da Educação. Coronavírus: saiba quais medidas o MEC já realizou ou estão em andamento. Brasília: MEC, 2020. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/component/content/article?id=86791. Acesso em: 9 jun. 2020.
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No que se refere à pesquisa e à pós-graduação, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) tem trabalhado na direção de garantir a manutenção das atividades dos programas de pós-graduação, com medidas como a suspensão de defesas presenciais de mestrado e de doutorado, sugerindo que passem a ser realizadas por meio virtual; a prorrogação de prazos para o Coleta; a permissão de extensão da concessão de bolsas em até três meses e a expansão do Portal de Periódicos da CAPES, que passou a incluir diversas editoras internacionais (CAPES, 2020CAPES. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Confira as ações adotadas pela CAPES durante a pandemia. Brasília: CAPES, 2020. Disponível em: https://www.capes.gov.br/36-noticias/10245-confira-as-acoes-adotadas-pela-capes-durante-a-pandemia. Acesso em: 9 jun. 2020.
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Os efeitos de tudo isso nos estudantes, professores e pesquisadores, têm sido os mais diversos. Para alguns, o isolamento parece ter facilitado uma reflexão sobre o ritmo de trabalho nas instituições de ensino e de pesquisa e sobre o que tem sido produzido. Para outros, acarretou a produção frenética de ações para enfrentar os desafios de uma mudança repentina, como, por exemplo, para administradores de escolas e universidades, para famílias com crianças pequenas confinadas em casa, para professores pressionados para a produção de atividades remotas sem dispositivos ou formação adequados, para doentes e pessoas cuidando de doentes, para empresários do setor terciário, para pessoas que sofrem com a perda de empregos etc.

Nesse panorama complexo, podemos nos questionar o que será da Educação? Haverá um retorno ao que uma vez já foi? Em especial, o que a Educação Matemática passará a produzir? O que isso produz em Educação Matemática? Quais são os desafios impostos à Educação Matemática? Quais serão as preocupações dessa área a partir de agora? Observamos que, nesses primeiros meses de isolamento, o número de submissões de manuscritos ao Bolema aumentou, mas tratam-se de relatos de pesquisas desenvolvidas em um período anterior à pandemia. Considerando que boa parte das pesquisas publicadas no Bolema se apoiam na Pesquisa Qualitativa e trazem dados empíricos, produzidos na interação com alunos e/ou professores, podemos nos questionar sobre os caminhos alternativos construídos pelos pesquisadores. Adaptarão para o ambiente virtual, assim como o ensino? Quais os desafios metodológicos desse processo?

O Bolema e sua equipe, atentos e solidários a tudo isso, esperam contribuir com essas questões, continuando com a divulgação dos resultados científicos de uma área – a Educação Matemática – em meio a um contexto que se transforma.

Referências

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Ago 2020
  • Data do Fascículo
    Ago 2020
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