Resumo
O objetivo deste artigo foi analisar como o hibridismo das culturas brasileira e uruguaia se expressa na identidade cultural e no desenvolvimento de carreiras na Fronteira da Paz, local das cidades-gêmeas Sant’Ana do Livramento e Rivera. Realizamos uma pesquisa qualitativa com dez entrevistas narrativas e, de forma complementar, a observação direta, do trabalho de músicos e chefs gastronômicos que consideram a identidade cultural fronteiriça como característica da carreira. Como principal resultado elaboramos o conceito de carreiras fronteiriças como as trajetórias profissionais caracterizadas por repertórios de trabalho vinculados a uma identidade fronteiriça, isto é, cuja identidade cultural é formada por uma cultura fronteiriça que, por sua vez, se refere a um hibridismo entre culturas capaz de gerar algo novo. Nas carreiras fronteiriças as carreiras se constroem de forma indissociável com a identidade cultural de um entre-lugar, que não é fixo e está em constante transformação.
Palavras-chave:
hibridismo; identidade cultural; cultura fronteiriça; carreiras em contexto.
Abstract
This article analyzes how the hybridity of Brazilian and Uruguayan cultures is expressed in cultural identity and career development in the Peace Border, in the twin cities of Sant’Ana do Livramento and Rivera. We carried out qualitative research based on ten narrative interviews, complemented by direct observation of the work of musicians and chefs who consider border cultural identity as a defining feature of their careers. As a key outcome, we developed the concept of border careers to refer to professional trajectories characterized by work repertoires grounded in a border identity, that is, an identity shaped by a border culture understood as a hybridity between cultures capable of generating something new. In border careers, professional paths are constructed in an inseparable relationship with the cultural identity of an in-between space, which is neither fixed nor stable but continuously evolving.
Keywords:
hybridity; cultural identity; border culture; careers in context
Resumen
El objetivo de este artículo fue analizar cómo la hibridez de las culturas brasileña y uruguaya se expresa en la identidad cultural y en el desarrollo de las carreras en la Frontera de la Paz, en las ciudades gemelas de Sant’Ana do Livramento y Rivera. Realizamos una investigación cualitativa basada en diez entrevistas narrativas y, adicionalmente, en la observación directa del trabajo de músicos y chefs gastronómicos que consideran la identidad cultural fronteriza como una característica de sus carreras. Como resultado principal, elaboramos el concepto de carreras fronterizas como trayectorias profesionales caracterizadas por repertorios de trabajo vinculados a una identidad fronteriza, es decir, una identidad cultural formada por una cultura de frontera que, a su vez, remite a una hibridez cultural capaz de generar algo nuevo. En las carreras fronterizas, las trayectorias profesionales se construyen de manera indisociable de la identidad cultural de un entre-lugar, que no es fijo y se encuentra en constante transformación.
Palabras clave:
hibridez; identidad cultural; cultura fronteriza; carreras en contexto
INTRODUÇÃO
Carreiras são posições ocupadas ao longo da vida, influenciadas por relações sociais e contextuais, tais como o background do indivíduo, suas interações globais e a sociedade e cultura nas quais está inserido (Mayrhofer et al., 2007). As carreiras moldam a forma como os indivíduos se percebem e como são socialmente percebidos (Mayrhofer et al., 2023), razão pela qual diversos estudos sustentam que as carreiras são fundamentais para a construção da identidade e vice-versa (Calasans & Davel, 2020; Martin et al., 2024; Torbor et al., 2025). Hall (2020) explica que a identidade é moldada pela cultura e pelas interações sociais, sendo historicamente construída e mutável. O autor argumenta que as identidades culturais podem se tornar fragmentadas, uma vez que não são fixas; elas são construídas ao longo da história e podem mudar a qualquer momento.
Nesse cenário de fragmentação, a identidade cultural deixa de ser homogênea e passa a assumir características híbridas — resultantes do contato entre diferentes culturas, por exemplo, entre indivíduos que migram, carregando elementos de suas origens, como tradições, histórias e línguas (Hall, 2020). Canclini (2015) complementa essa perspectiva ao definir hibridação como a combinação de práticas socioculturais distintas que geram novas formas de expressão da vida e do trabalho — algo particularmente evidente em regiões geográficas de fronteira.
O Brasil é o único país que faz fronteira com a maioria dos países da América do Sul (Almeida & Dorfman, 2017), e uma dessas fronteiras — entre Sant’Ana do Livramento, no Brasil, e Rivera, no Uruguai — constitui o foco deste estudo. Essas cidades são classificadas como cidades-gêmeas, formando uma fronteira seca, dividida apenas por uma linha imaginária, com livre circulação diária entre ambos os lados (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2021). A região é conhecida como “Fronteira da Paz”, pois se caracteriza por uma dinâmica permeável e intensa interação social, o que favorece uma cultura binacional (Almeida & Dorfman, 2017) que conecta elementos comuns e distintos de ambos os países e dá origem a uma cultura fronteiriça singular. Essa identidade cultural de fronteira contém símbolos e elementos únicos de ambas as cidades, como a mistura de línguas, costumes e manifestações artísticas, representando um cruzamento de diversidades (Muller et al., 2010).
Nesse contexto, argumenta-se que Sant’Ana do Livramento e Rivera apresentam potencial para o desenvolvimento de carreiras vinculadas à identidade cultural de ambos os países, particularmente em expressões artísticas locais como a gastronomia e a música, que constituem nichos de carreira representativos — uma vez que a arte pode ser uma manifestação de identidade nas atividades profissionais (Caetano et al., 2017; Calasans & Davel, 2020; Canclini, 2015; Cleveland, 2013). Assim, o objetivo geral deste estudo é analisar como a hibridização das culturas brasileira e uruguaia se expressa na identidade cultural e no desenvolvimento de carreiras de músicos e chefs gastronômicos na “Fronteira da Paz”.
Diversos estudos têm examinado a cultura híbrida em regiões de fronteira. Caetano et al. (2017), por exemplo, destacam o potencial artístico e os elementos identitários presentes entre Ponta Porã (Brasil) e Pedro Juan Caballero (Paraguai). Almeida e Dorfman (2017) investigam a integração cultural entre Brasil e Uruguai, com foco na construção de acordos culturais binacionais. No campo das carreiras, Akkermans e Kubasch (2017) identificam, em uma revisão sistemática, a relação entre carreira e cultura como uma tendência emergente. No Brasil, Calasans e Davel (2020) discutem a gestão de carreiras criativas por meio da identidade cultural comunitária, analisando o caso de um músico no bairro de Itapuã, em Salvador, com base em elementos de imagem, cultura e visão atribuídos pela comunidade.
Embora existam estudos sobre a relação entre identidade e carreira, bem como sobre hibridização cultural, ainda são escassas as pesquisas que integrem esses temas. Este artigo propõe uma articulação dos conceitos de identidade cultural do sociólogo britânico-jamaicano Stuart Hall, de culturas híbridas do antropólogo argentino Néstor Canclini, e de carreiras à luz de autores contemporâneos dos estudos organizacionais, a fim de compreender o desenvolvimento de carreiras em uma região de fronteira. A proposta de examinar cidades-gêmeas do Brasil e do Uruguai oferece uma perspectiva latino-americana sobre o desenvolvimento de carreiras fronteiriças.
CARREIRAS EM CONTEXTO
Quando as carreiras são compreendidas a partir de uma perspectiva contextual, elas passam a ser vistas como situadas em processos históricos e dinâmicos, marcados por rupturas, continuidades e contingências (Akkermans & Kubasch, 2017; Mayrhofer et al., 2007, 2023; Van den Groenendaal et al., 2022). A discussão sobre carreiras em contexto é aprofundada por Mayrhofer et al. (2007), com base em quatro grandes dimensões de influência: trabalho, origem, global e sociedade/cultura. O contexto de trabalho envolve fatores econômicos, organizacionais e relacionais no mercado de trabalho; a origem refere-se à classe social, educação, trajetória familiar e condições de vida. O contexto global inclui interações internacionais nas relações profissionais. Sociedade e cultura englobam marcadores sociais como gênero, etnia, demografia e inserção comunitária, que moldam as possibilidades e restrições das trajetórias profissionais.
Mayrhofer et al. (2023) reforçam essas dimensões ao oferecer uma perspectiva renovada por meio de três lentes: ôntica, espacial e temporal. A perspectiva ôntica refere-se às condições específicas do indivíduo que vivencia a carreira, tais como gênero, idade, status profissional, necessidades psicológicas, expectativas, resiliência e identidades em transformação. Essa perspectiva evidencia a natureza subjetiva das carreiras, reconhecendo que são permeadas por atributos individuais, mas também por marcadores sociais que podem possibilitar ou restringir percursos profissionais. A perspectiva espacial sustenta que as carreiras se desenvolvem em espaços sociais e geográficos regulados por fronteiras institucionais, normas, políticas públicas e culturas organizacionais e nacionais. Esses espaços são habitados por múltiplos atores, como famílias, organizações, grupos profissionais e Estados-nação, que moldam possibilidades e trajetórias. A perspectiva temporal estrutura a trajetória profissional em etapas, transições e eventos. Comparações intergeracionais, mobilidade social, migração e os efeitos de crises e mudanças sociopolíticas ilustram como a temporalidade afeta as carreiras.
Essas dimensões e perspectivas não são isoladas; no contexto de uma carreira, haverá sempre interação entre elas (Mayrhofer et al., 2007, 2023). Nesta pesquisa, enfatizamos estudos recentes que analisam marcadores sociais e culturas incorporados aos contextos de trajetórias de carreira baseadas na identidade. Por exemplo, Torbor et al. (2025) demonstram como gênero, raça e área de atuação moldam a identidade de carreira em um estudo realizado com mulheres pesquisadoras em início de carreira de países em desenvolvimento, todas premiadas em uma iniciativa voltada a mulheres na ciência. Embora se trate de um grupo altamente qualificado na área de STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), indivíduos associados a essas posições são, em geral, presumidos como homens brancos, o que tende a obscurecer as identidades dessas pesquisadoras em favor das de grupos dominantes. Como resultado, elas engajam-se em negociações de autenticidade, ajustando a expressão de suas identidades para obter legitimidade em ambientes científicos masculinizado, o que frequentemente implica silenciar aspectos pessoais e culturais para se conformar às expectativas institucionais.
O estudo de Barros et al. (2021) evidencia como o gênero e uma cultura local centrada na música sertaneja moldam a identidade de carreira de músicos no estado de Minas Gerais, Brasil. Para esses artistas, a música é vivenciada como fonte de sentido e modo de vida, enquanto a sociedade os rotula como outsiders, impondo uma “identidade virtual” negativa que contrasta com a identidade real que constroem para si. Os músicos enfrentam tensões familiares, que variam entre apoio e pressão para abandonar a carreira, além de condições de trabalho precárias, marcadas pela informalidade, baixos rendimentos, competição e estigmatização que classifica sua atividade como lazer. As mulheres reconhecem que estão conquistando espaço em função do reconhecimento recente do sertanejo feminino, liderado por cantoras nacionais que desafiam normas historicamente sexistas desse campo, inclusive aquelas relacionadas aos papéis das mulheres nas letras das músicas, reposicionando seu lugar nas narrativas musicais e contribuindo para transformações identitárias no gênero.
Há estudos que relacionam carreiras à identidade cultural de um país, região ou comunidade. Calasans e Davel (2020) demonstram a influência da cultura comunitária na identidade de carreiras criativas. Com base no caso de um músico e gestor cultural em um bairro de Salvador, no estado da Bahia, a identidade pode ser observada na forma como o artista se relaciona com o lugar. Suas músicas contêm aspectos de sua trajetória permeados por heranças culturais associadas à ancestralidade, cultura popular e religiosidade. Esse aspecto cultural conforma uma imagem que constitui sua assinatura pública, já reconhecida por premiações nacionais, o que o aproxima do público local e reflete como ele deseja ser visto e reconhecido.
Há também estudos que enfatizam como a mescla de culturas nacionais influencia a identidade de carreira, como o estudo de Martin et al. (2024), que analisa como indivíduos de origem chinesa constroem suas carreiras vivendo na Austrália e na Nova Zelândia. O papel da família e a idade no momento da migração influenciam essas trajetórias, favorecendo autonomia e clareza profissional quando a experiência intercultural ocorre na infância. As percepções sobre identidade multicultural variam entre insegurança associada à discriminação, avaliações positivas e ambivalência. Para alguns, a estratégia consiste em alinhar-se a valores asiáticos; para outros, a valores ocidentais. As carreiras tornam-se, assim, uma forma de compensar incertezas associadas à origem imigrante, sugerindo um possível ciclo vicioso entre identidade multicultural e identidade profissional.
A partir do estudo de Prestes e Grisci (2025), observa-se que as culturas do país de origem e de destino geram movimentos de territorialização nas trajetórias de chefs imigrantes de diferentes países que atuam no Brasil. Ao se deslocarem, esses profissionais levam consigo saberes culinários, técnicas, estilos e vínculos culturais, influenciando diretamente a organização dos restaurantes, as cenas gastronômicas urbanas e as redes culinárias locais. A territorialização culinária, contudo, não ocorre sem um lastro de tradição: o trabalho do chef envolve tanto a apropriação e reelaboração de elementos de sua cultura de origem quanto a integração, interpretação e ressignificação da cultura do país de destino. Desse modo, chefs imigrantes tornam-se capazes de apreender preferências, hábitos e estilos de vida desconhecidos em seus contextos de origem e, a partir desse atravessamento, produzir algo novo.
Cabe destacar que estudos no campo da Administração que abordam identidade nacional em carreiras tendem a focar a mistura de culturas de dois ou mais países principalmente por meio de casos de expatriação, migração e refúgio (Akkermans & Kubasch, 2017; Prestes & Grisci, 2025; Rabenu & Baruch, 2025; Yao & McWha-Hermann, 2025). Contudo, esses estudos não utilizam a hibridização cultural como um conceito teórico derivado da antropologia e da sociologia. Também é importante observar que existem estudos sobre carreira e identidades múltiplas que utilizam o termo carreiras híbridas, porém estes se referem a trajetórias profissionais compostas por múltiplos vínculos, papéis e formas de trabalho (Gander, 2021), como artistas-acadêmicos (Lam, 2019); profissionais da saúde que combinam responsabilidades clínicas e gerenciais (Bresnen et al., 2018); e carreiras acadêmicas associadas a comportamentos empreendedores (Guo et al., 2019). Considerando que o contexto nacional e cultural de origem (Mayrhofer et al., 2007, 2023) é um contexto decisivo para a emergência e gestão de carreiras, argumenta-se que a noção de hibridização entre culturas, ao influenciar a identidade cultural de um indivíduo, pode ampliar as compreensões que situam o contexto das carreiras.
IDENTIDADE CULTURAL E CULTURAS HÍBRIDAS
A identidade nacional é representada pela combinação de língua, costumes e sistemas culturais. Esses não são aspectos com os quais as pessoas nascem, mas são influenciados por desigualdades étnicas, sociais, geográficas e históricas (Caetano et al., 2017; Hall, 2020). Para Hall (2020), a identidade é um posicionamento que se forma e se transforma por meio de representações culturais e de contextos históricos específicos; portanto, não é fixa, mas mutável e constantemente negociada.
Hall (2020) distingue a identidade cultural em sociedades tradicionais e modernas. Na sociedade tradicional, a identidade mantinha as tradições e simbolismos da época, enquanto, na sociedade moderna, a identidade está mais associada a reflexões sobre práticas sociais. O sujeito se adapta, podendo sofrer mudanças e desenvolver outras identidades.
Na mesma linha de pensamento, Canclini (2015) reflete sobre processos culturais que antes existiam separadamente e que podem ser modificados pela união de novas estruturas, objetos e práticas. Canclini (2015, p. 9) compreende essa mistura como hibridização: “processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas”. O colonialismo e a globalização são exemplos históricos de como forças políticas, econômicas, sociais e culturais buscaram impor e homogeneizar sociedades que já possuíam seus próprios posicionamentos identitários, produzindo, em última instância, a hibridização — isto é, novas estruturas e práticas socioculturais que permanecem em movimento e transformação. Essa ideia, compartilhada por Canclini (2015) e Hall (2020), demonstra que a hibridez revela relações de poder que não são apenas verticais e impositivas, mas que geram espaços de disputa e agência para a produção do novo, especialmente em diferentes tipos de manifestações culturais.
Espaços de hibridez cultural são comuns em expressões artísticas, como no estudo de Marzano (2024) sobre grupos carnavalescos em Luanda, Angola, na primeira metade do século XX, no qual práticas consideradas “tradicionais” e elementos associados à “modernidade” eram combinados dinamicamente em meio às tensões coloniais portuguesas. Embora a imprensa colonial insistisse em representar essas manifestações como expressões folclóricas fixas e como remanescentes de um passado em desaparecimento, os próprios foliões incorporavam inovações técnicas, estéticas e performáticas, revelando processos contínuos de apropriação cultural, negociação e reinvenção. Categorias coloniais rígidas, como indígena/assimilado/europeu e tradicional/moderno (nas quais “indígena” classificava africanos não assimilados à cultura europeia), não conseguiam captar a complexidade dessas práticas, uma vez que os grupos carnavalescos operavam precisamente nos espaços intersticiais, produzindo formas híbridas que desestabilizavam fronteiras simbólicas e ofereciam possibilidades alternativas de expressão identitária na cidade colonial.
A hibridez cultural também pode ser observada na literatura. A partir do caso de uma escritora nascida na China e criada nos Estados Unidos, Hu e Roberto (2019) evidenciam a presença de traços linguísticos e culturais chineses em sua escrita em inglês, o que se torna evidente em processos de imigração e, consequentemente, de bilinguismo. No contexto da hibridez linguística, a tradução enfrenta lacunas lexicais na língua de chegada, produzindo divergências e perdas de significado que exigem esforço por parte do tradutor.
Canclini (2015) argumenta que diferentes formas culturais - como culturas eruditas, populares e de massa - interagem e transformam o contexto contemporâneo. Isso leva as pessoas a criarem estratégias tanto para se adaptar a um mundo culturalmente complexo quanto para resistir aos seus efeitos. Segundo o autor, esse processo de hibridez é particularmente intenso na América Latina, em função da combinação de heranças indígenas, europeias e africanas, bem como da influência global da cultura de massa.
Um exemplo de resistência é apresentado no estudo de Rincón et al. (2024), que trata de um grupo indígena na Amazônia colombiana diante da modernização agrícola que provocou erosão cultural e perda de agrobiodiversidade. A comunidade, em parceria com agências governamentais, implementou ações para recuperar, produzir e conservar sementes nativas, que possuem funções nutricionais, medicinais e rituais, tornando-se o núcleo simbólico da identidade e da soberania alimentar. Mais do que recursos biológicos, essas sementes carregam memória e conhecimentos intergeracionais, sendo as mulheres as principais guardiãs desse patrimônio. A criação de redes locais de sementes e a recuperação de saberes ancestrais emergem como estratégias centrais para preservar cultura, território e identidade frente às pressões modernizantes.
Outro exemplo no qual a produção e o consumo de alimentos fortalecem a identidade cultural é o caso do governo argentino, apoiado pela população hispano-crioula, que utilizou a erva-mate (yerba mate, em espanhol) como estratégia de resistência às ambições europeias durante o período colonial. Munizaga et al. (2024) explicam que o comércio britânico buscava impor o consumo de chá como símbolo de civilização, enquanto a erva-mate passou a ser associada aos gaúchos (gauchos, em espanhol) e à barbárie. Contudo, a erva-mate foi exportada, comercializada e utilizada como demonstração da soberania econômica e cultural da Confederação Argentina, deixando de ser apenas uma planta consumida localmente para se tornar símbolo de uma cultura e de um ritual compartilhados entre diferentes províncias. O fortalecimento de vínculos econômicos com outras regiões do Rio da Prata (região platina) reforçou uma narrativa de autonomia e autoafirmação, passando a integrar a memória coletiva e a construção de um imaginário e de uma identidade nacional/regional.
A região platina corresponde à área da América do Sul que abrange a bacia do Rio da Prata, alcançando territórios do Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia. A nascente do Rio da Prata está no Brasil e seu estuário localiza-se entre Argentina e Uruguai, onde predomina o bioma pampa, com extensas planícies especialmente presentes nesses três países. Segundo Boff e Machado (2023), dessa região, durante o período colonial, emerge a figura do gaúcho/gaucho (grafias em português e espanhol), um tipo crioulo originado da mistura de ibéricos com povos indígenas e, em menor proporção, com africanos.
Entre os séculos XVI e XVIII, o gaúcho circulou livremente pela pampa, praticamente desconhecendo limites fronteiriços e com escassa e fluída identificação com os Reinos de Portugal e Espanha. Com o surgimento dos tratados coloniais, que buscavam traçar limites fronteiriços, o caráter errático do gaúcho começou a desaparecer. Isso se intensificou nas nações independentes, quando cada país tratou de adaptar essa figura aos projetos políticos dominantes. No Brasil, surgia o gaúcho brasileiro, cuja figura, inspirada na Revolução Farroupilha, foi moldada para se identificar com o republicanismo e o federalismo. Fomentou-se o mito do gaúcho herói, defensor das fronteiras, para diferenciá-lo do gaucho platino, tido como bárbaro. Foi sobretudo no Rio Grande do Sul que esses mitos da cultura gaúcha se institucionalizaram, principalmente através dos Centros de Tradição Gaúcha (CTGs) (Boff & Machado, 2023, p. 29).
Nesse sentido, torna-se evidente que a origem do gaúcho/gaucho é transfronteiriça (Boff & Machado, 2023) e sua figura foi construída como “valente, machista, bravateiro; um tipo que está sempre vestido a caráter e às voltas com o cavalo, o churrasco e o chimarrão” (Ramil, 2009, p. 11). Contudo, na atualidade, segundo Ramil (2009), apenas o gaúcho brasileiro ampliou seu significado para designar alguém nascido no estado do Rio Grande do Sul, diferentemente do Uruguai e da Argentina, onde o termo gaucho designa apenas um homem do campo, e não um gentílico da população. O autor observa ainda que precisamente aquilo que marca a identidade de todos os habitantes do Rio Grande do Sul, como tipo regional brasileiro, é também o que os torna estrangeiros, na medida em que os vincula a países vizinhos. De fato, a produção cultural em espanhol de Buenos Aires e Montevidéu, por vezes, torna-se uma referência mais forte do que aquela do Rio de Janeiro e de São Paulo para gaúchos do Rio Grande do Sul, especialmente aqueles que vivem fora dos grandes centros urbanos. Canções que narram histórias de costumes, vestimentas e culinária que outrora pertenciam a uma única cultura continuam a se encontrar em manifestações culturais, mesmo após o estabelecimento de fronteiras geopolíticas (Ramil, 2009).
Esse contexto ilustra a hibridez cultural presente no Brasil decorrente de sua histórica miscigenação e de sua vasta expansão territorial (Caetano et al., 2017). Em particular, as fronteiras entre Brasil, Uruguai e Argentina demonstram que as fronteiras não se limitam à divisão territorial, mas representam zonas de contato e troca entre diferentes grupos sociais, nas quais os limites são simbólicos e interdependentes (Alencar et al., 2017). Nesses espaços, o termo fronteiriço ganha destaque, pois está associado a uma identidade particular e ao privilégio de viver entre duas nações (Muller et al., 2010). No cotidiano, as regiões de fronteira testemunham o deslocamento de pessoas que cruzam de um país a outro para realizar diversas atividades, como trabalho, comércio e estudo. Aproveitam a diversidade na gastronomia, no empreendedorismo e a mistura de línguas, como o portuñol, o que contribui para a formação de uma terceira cultura: a cultura fronteiriça (Ferraro, 2020; Muller et al., 2010; Pimentel, 2021; Sturza, 2019).
À luz do exposto, torna-se evidente que a noção teórica de identidade cultural pode ser compreendida por meio da hibridização de culturas, como a cultura fronteiriça, a qual, por sua vez, pode influenciar significativamente a formação das carreiras dos indivíduos nessas regiões.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Realizamos uma pesquisa qualitativa exploratória utilizando entrevistas narrativas e observação direta. De acordo com Jovchelovitch e Bauer (2003), o objetivo da entrevista narrativa é coletar relatos por meio de histórias contadas durante as entrevistas. Os participantes recordam momentos e têm liberdade para relatar experiências de maneira espontânea e aberta. O pesquisador dispõe de um roteiro previamente estabelecido e pode segui-lo; contudo, isso não impede a realização de perguntas adicionais quando necessário, isto é, o afastamento do roteiro, uma vez que essa técnica é mais flexível e se molda conforme o andamento da entrevista. Pederson (2013, p. 415, tradução nossa) argumenta que, embora entrevistas narrativas possam iniciar com “conte-me sua história”, pode ser necessário utilizar “um estímulo inicial mais descritivo”, de modo que o participante compreenda o contexto e a importância da pesquisa. O nível de detalhamento utilizado no início da entrevista pode variar, mas é importante reconhecer que qualquer resposta é significativa, uma vez que a entrevista narrativa envolve acompanhar o desenvolvimento das próprias histórias dos participantes.
Seguindo essas recomendações e com base nas noções teóricas de identidade cultural, cultura híbrida e carreiras em contexto, elaboramos as seguintes questões para o roteiro de entrevista: (1) Conte-me como é viver nesta fronteira Brasil-Uruguai, incluindo elementos da sua trajetória de vida e familiar; (2) Conte-me sobre a sua trajetória de carreira, descrevendo sua rotina, principais atividades e a relação com a cultura fronteiriça Brasil-Uruguai; (3) Conte-me sobre os principais desafios e dificuldades da sua carreira; (4) O que significa ser fronteiriço e de que forma viver na fronteira Brasil-Uruguai molda o seu trabalho?
Foram realizadas dez entrevistas narrativas: cinco com profissionais do setor musical e cinco com chefs de gastronomia que vivem e trabalham na “Fronteira da Paz”. Todos os participantes residem no lado brasileiro, na cidade de Sant’Ana do Livramento, e se deslocam com frequência para a cidade de Rivera, no Uruguai, por motivos pessoais e profissionais. Eles compreendem a identidade cultural fronteiriça como uma característica de suas carreiras. Os participantes foram localizados por meio da rede de contatos de uma das pesquisadoras, que é natural dessa região de fronteira, utilizando a técnica de bola de neve, bem como por meio do Instagram, onde foram analisadas postagens de perfis para verificar se faziam referência à cultura fronteiriça. As entrevistas foram gravadas em arquivos de áudio em locais escolhidos pelos participantes, entre abril e maio de 2023, e tiveram duração média de uma hora.
Adicionalmente, foi realizada observação direta nos locais de trabalho de um músico e de dois chefs, durante eventos realizados na “Fronteira da Paz”. Para a observação do músico, uma das pesquisadoras participou de um evento em maio de 2023, realizado em um pub no centro de Sant’Ana do Livramento. No título do projeto musical divulgado no Instagram, o tema da fronteira era explícito: 1ª Peña Fronteira. Para a observação dos chefs, uma das pesquisadoras participou do Festival Binacional de Enogastronomia Fronte(i)ra, em agosto de 2023. A grafia da palavra fronte(i)ra evoca simultaneamente o português e o espanhol. Um dos chefs integrava a comissão organizadora e estava presente na praça de alimentação; o outro foi um dos principais assadores do churrasco de encerramento. O objetivo das observações foi complementar as entrevistas, analisando na prática as referências mencionadas, inclusive nas redes sociais, com base em anotações e registros fotográficos.
Para a análise dos dados, seguimos Jovchelovitch e Bauer (2003). Após a coleta das entrevistas, realizamos a transcrição das gravações tal como foram enunciadas. Nesta etapa, a atenção voltou-se não apenas ao contexto geral da entrevista, mas também a pausas, sons e entonação de voz, tornando a transcrição rica em detalhes. Para garantir maior inteligibilidade das falas dos participantes, os trechos utilizados tiveram o português corrigido, com a remoção de vícios de linguagem, mantendo, contudo, expressões idiomáticas regionais fronteiriças e o espanhol. Em seguida, foi realizada análise temática, que consistiu em uma redução gradual do texto em palavras-chave e paráfrases.
Ao fazer a leitura das transcrições, uma das pesquisadoras selecionou trechos de falas de todos os entrevistados que versavam sobre o hibridismo das culturas brasileira e uruguaia e atribuiu a eles uma palavra-chave. A autora agrupou os trechos de falas com a mesma palavra-chave. A outra pesquisadora revisou a seleção, as palavras-chave e o agrupamento e, em conjunto, as autoras interpretaram os trechos de falas selecionados, sintetizando-os por paráfrases e relacionando-os com a perspectiva de identidade cultural e carreiras em contexto. Na sequência, as autoras selecionaram o trecho de fala e um trecho de paráfrase mais significativo para representar os demais trechos e assim, nomear a narrativa temática. Esse processo resultou em 8 narrativas temáticas, contendo as palavras-chave: origem binacional, know-how pelo incentivo familiar, potuñol, indumentária gaúcha, festivais binacionais, gastronomia fronteiriça, música fronteiriça, desafios na carreira fronteiriça. O Quadro 1 apresenta um exemplo.
Organizamos a apresentação dos resultados delineando os perfis dos participantes, o contexto da Fronteira da Paz e as narrativas temáticas, iniciando pelas trajetórias de vida e família na fronteira e avançando para aspectos mais específicos das carreiras de chefs e músicos. Buscamos descrever as narrativas de forma próxima à linguagem dos próprios participantes. Em seguida, apresentamos a discussão dos resultados, que levou ao desenvolvimento do conceito de carreiras fronteiriças como uma identidade expressa por meio da hibridização cultural entre músicos e chefs de gastronomia.
PERFIL DOS ENTREVISTADOS
O perfil dos entrevistados é apresentado no Quadro 2. Para preservar suas identidades, os músicos foram identificados por nomes de gêneros musicais, e os chefs foram identificados por nomes de pratos típicos do Uruguai e do Rio Grande do Sul, estado brasileiro onde se localiza a cidade de Sant’Ana do Livramento. Durante a pesquisa, observamos que, ao se referirem à cultura brasileira, os entrevistados frequentemente mencionavam elementos regionais específicos da cultura gaúcha. Isso era esperado, uma vez que o Brasil, devido à sua vasta extensão territorial, abrange aspectos culturais distintos em cada estado.
Todos os participantes são gaúchos brasileiros, sendo nove naturais de Sant’Ana do Livramento e um originalmente de Horizontina, embora resida na fronteira há oito anos. Um dos entrevistados é doble chapa, possuindo dupla nacionalidade. As idades variam de 25 a 61 anos, com predominância masculina — apenas uma mulher foi entrevistada. Metade possui ensino superior completo; os demais concluíram o ensino fundamental ou médio. Apenas um dos chefs possui formação formal em gastronomia, e nenhum dos músicos possui formação acadêmica específica em música. No caso da música, as carreiras geralmente tiveram início precoce devido à influência familiar; na gastronomia, elas normalmente emergiram após outras experiências profissionais. A maioria dos participantes também atua em outras áreas além da música ou da culinária.
CONTEXTO DA “FRONTEIRA DA PAZ”: AS CIDADES-GÊMEAS DE SANT’ANA DO LIVRAMENTO E RIVERA
A cidade de Sant’Ana do Livramento, com 84.421 habitantes, está localizada no sudoeste do estado do Rio Grande do Sul, Brasil, enquanto a cidade de Rivera, com 84.775 habitantes, situa-se no nordeste do Departamento de Rivera, no Uruguai. Elas são consideradas cidades-gêmeas em razão de sua conurbação e da intensa circulação de pessoas e mercadorias, uma vez que não há rios, muros ou quaisquer barreiras migratórias entre elas. Existem, evidentemente, postos oficiais de imigração em cada lado, nos quais os indivíduos devem se apresentar caso desejem viajar além desses dois municípios, mas o deslocamento entre as cidades é irrestrito: basta atravessar, a pé ou por qualquer outro meio de transporte, a linha imaginária que separa os territórios. A longa história de relações políticas, comerciais, sociais, econômicas e culturais amistosas entre as duas cidades e seus respectivos países conferiu à região o apelido de “Fronteira da Paz”. O símbolo da divisão-integração entre as cidades é o Parque Internacional (Figura 1), onde a bandeira de cada país se encontra em seu respectivo território nacional, e o obelisco marca a linha divisória imaginária.
NARRATIVAS TEMÁTICAS
“Atravessando a linha divisória [imaginária]”: famílias híbridas e a origem binacional fronteiriça
Na Fronteira da Paz, a mistura de origens familiares brasileira e uruguaia, o que podemos chamar de famílias híbridas, são comuns na região. O hibridismo, que pode ocorrer na geração dos pais, avós ou até mais gerações, leva à dinâmica de atravessar a fronteira para visitar familiares, de um lado ou de outro. Quando pai e mãe são de nacionalidades diferentes, brasileiro e uruguaio, ou vice-versa, o filho é chamado de doble chapa. Muitos ficam com este título apenas culturalmente, outros como o caso de Chacarera, tem o registro oficial de dupla cidadania: “se tu abrir a minha carteira ali, eu tenho o RG (brasileiro) e tenho a cédula uruguaia”.
“Por eu ter a família materna uruguaia e a família paterna brasileira, sempre convivi 24 horas por dia com esse intercâmbio de cultura de território, que na verdade é uma coisa imaginária, né? A minha avó nasceu no interior do Uruguai e mora no Uruguai, né? Eu me criei da minha casa, pra casa da minha avó. Atravessando a linha divisória e, consequentemente, convivendo com todo esse intercâmbio de culturas que existe aqui na nossa fronteira, que é algo muito único e que eu, desde muito pequena, sempre aprendi a admirar” (Chacarera).
“Minha família é de origem brasileira, tanto pai quanto mãe, mas tive uma avó que era castelhana [...] Nossas famílias, querendo ou não são muito entrelaçadas né, esse doble chapa eu acho que ele incorpora a nossa identidade fronteiriça” (Chamamé).
Independentemente do registro, as travessias pela linha divisória imaginária, literais e culturais entre os países, conforme os entrevistados, começa pela origem familiar binacional que eles se orgulham e reconhecem como uma identidade fronteiriça.
“Eu cresci nesse meio”: o know-how laboral adquirido pelo incentivo familiar e convívio com a cultura fronteiriça
Refletir sobre o know-how das carreiras de chef e músico, levaram os entrevistados às lembranças da infância. O primeiro contato com diferentes tipos de instrumentos musicais e com o manuseio de utensílios de cozinha típicos da região fronteiriça ocorreu com a convivência cotidiana com familiares:
“Tive influência da família... Eu era guri de 10 anos, eles já tocavam e cantavam. Quando eu tive 12 anos, minha mãe já me deu uma gaita de botão e entrei pra aula. Depois já tava tocando em duas invernadas [grupos de dança gaúcha]. Com 17 anos comecei a tocar em festival e não parei mais” (Vanera).
“Meu pai fazia a preparação das refeições em fogo de chão, em cima de uma trempe, era bem rústico, mas era a comida mais saborosa que eu comi até hoje. Nunca mais consegui comer uma comida igual, mesmo fazendo em casa, não tem aquele gosto, aquele tempero que tinha da culinária que meu pai fazia” (Carreteiro).
“A própria criação familiar foi dentro de CTG [Centro de Tradições Gaúchas], né? Então, a partir daí eu comecei a desenvolver o gosto pela música e pela arte. Participava das invernadas de dança artística, concursos de canto. E peguei o gosto pela música, passei a fazer aula de violão, e aprender um pouco sobre a música e a cultura do Rio Grande do Sul. Com o tempo passei a ter mais desenvoltura com o instrumento e nasceu o gosto pela composição” (Candombe).
Muitas outras narrativas reforçam que a relação com a arte musical e a comida atravessam a temporalidade da vida e da carreira marcada pelo apoio e presença da família e de pessoas próximas, através de gestos demonstrados e incentivo pela descoberta: (i) “Durante a infância, eu ia para a fazenda do meu avô e ficava observando ele preparar o churrasco de domingo e assim aprendi...eu cresci nesse meio” (Churrasco); (ii) “Sempre gostei e tive desenvoltura para culinária. Ajudava meus pais desde novo com a lida em casa, então tinha que me virar. Comecei a tomar gosto pela cozinha e ter o meu jeito de fazer, mas habilidades a gente só tem dentro de uma cozinha mesmo, depois de adquirir muita experiência” (Pancho); (iii) “Quando eu tinha mais ou menos uns 7 anos de idade, foi quando eu comecei de fato, incentivada por uma madrinha. Na época, era algo muito despretensioso, então comecei a fazer aula de música e cantava as músicas que eu gostava” (Chacarera) e; (iv) “Lá pelos meus 8 anos conheci a parte cultural através da poesia e comecei a declamar. Com 13 anos, iniciei na música nos festivais nativistas e fui um dos primeiros cantores daqui de Livramento a ter conquistado o primeiro lugar num festival nativista tão jovem, eu estava com 16 anos na época” (Chamamé).
“Aqui na fronteira se fala um portuñol”: o hibridismo idiomático presente na música e gastronomia
O portuñol é perceptível na oralidade de todos os entrevistados. Cabe lembrar que todos são brasileiros, tiveram a escolarização em português, mas durante as entrevistas, as narrativas foram tomadas por palavras e expressões em espanhol, misturando os dois idiomas. É um dos elementos culturais que faz parte do modo fronteiriço de se comunicar: “A gente está na fronteira e não tem como fugir do espanhol, né? Embora não se fale um espanhol aqui na fronteira, se fale um portuñol” (Vanera). Esse hibridismo idiomático que é um modo de falar cotidiano acaba sendo utilizado também nos modos artísticos de se expressar:
“A gente tem sotaque, carrega em palavras, em dialetos e aí mistura também, né? Misturança dentro das letras que os compositores aqui já escrevem em portuñol” (Milonga).
“A gente sempre carrega nos discos que a gente grava, tem uma ou duas composições em espanhol e as músicas que são em português, trazem um pouco do portuñol também, né? Isso é uma característica que a gente traz desde sempre. Isso já tá na própria formação da gente, no sotaque da fronteira” (Candombe).
“Ao chegar no pub, encontrei o Candombe e o Chamamé. Observo que Chamamé se comunica com o público utilizando palavras e expressões em portuñol: Buenas amigos; vamos parar de charlar e cantar; nosotros aqui; entonces gurizada. Além dos nomes das composições e repertório em portuñol” (Diário de campo).
O portuñol, mais que um jeito de falar do fronteiriço, é um jeito de ser que origina letras de músicas, nomes de pratos e nomes de festivais, trazendo aproximação com o público local, diferenciação e identidade fronteiriça aos chefs e músicos.
“A pilcha é figurino para o show mas também uso no dia a dia”: vestimenta do gaúcho riograndense e uruguaio
O estado do Rio Grande do Sul tem como um dos seus símbolos as vestimentas usadas em Centros de Tradição Gaúcha, indumentária próxima ao que homens e mulheres utilizavam no período colonial. No Uruguai os mesmos tipos de vestimentas são encontrados com pequenas variações. A vestimenta dos homens é composta por bombacha, camisa, lenço, bota de couro ou alpargata. Já das mulheres é o vestido de prenda; camisa e saia longa, ou; camisa, bombacha e bota ou alpargata. Por mais que este tipo de indumentária esteja mais relacionada ao uso em festivais tradicionais, também é possível avista-la no uso diário nas ruas da fronteira, pois em ambos os lados este tipo de vestimenta está relacionada a vida no campo. Quando os músicos realizam apresentações ou até mesmo no cotidiano, tem como hábito cultural estar com roupas tradicionalistas, também conhecido como pilcha gaúcha: “A pilcha é figurino para o show mas também uso no dia a dia” (Vanera).
E da cultura do Rio Grande do Sul, acho que dê tudo um pouco, né? A minha vestimenta, que é também importada da vestimenta argentina e uruguaia, é uma mistura de tudo” (Chacarera).
A pilcha gaúcha portanto, fala de um gaúcho riograndense, mas também do gaucho dos pampas uruguaio e argentino. Por outro lado, há artistas que não consideram necessário o uso desses trajes para representar a sua identidade fronteiriça: “Independente de eu estar hoje de calça jeans e eu não tenha por costume vestir uma pilcha, tenho orgulho imenso de ser dessa terra, de ser fronteiriço e levar isso seja na sua hospitalidade, usos e costumes” (Chamamé). Na observação realizada no Festival de Gastronomia evidenciamos que “Parrillada não estava vestido com roupas tradicionalistas, diferentemente dos outros colegas” (Diário de campo).
“Trabalho desde o primeiro Festival [Binacional]”: Infraestrutura cultural que proporciona trabalho e encontro entre os dois países
Uma das estratégias de carreira desses profissionais é participar de eventos binacionais que ocorrem na Fronteira da Paz, pois são momentos que marcam a união do Brasil-Uruguai e valorizam a comida e a música típica regional. Os festivais musicais, por exemplo, se configuram como a porta de entrada para o ingresso na carreira dos músicos, como o caso de Candombe.
“Eu e um grupo de amigos formamos o grupo Charla de Fronteira. Eu tinha 16 anos, era o mais novo do grupo. A gente começou a fazer apresentações, abertura de feiras, de shows. A gente fez a abertura do show do Luiz Marenco [cantor nativista de projeção estadual]” (Candombe).
Choripan foi um dos idealizadores de um evento gastronômico que valoriza uma iguaria fronteiriça e que ocorre na linha divisória entre os países:
“Eu inventei o ChoriCeva [nome do evento que utiliza a junção dos termos choripan e cerveja], e também trabalho desde o primeiro Festival [Binacional]de Enogastronomia” (Choripan).
Os eventos gastronômicos citados são realizados periodicamente, e tem como sede um dos marcos de divisão (e de união) das cidades, o Parque Internacional, uma praça pública com uma área verde, que conta com um obelisco, a bandeira do Brasil de um lado e a do Uruguai do outro. Neste local, cuja gestão administrativa é realizada por uma comissão mista dos dois países, se reúnem comerciantes, entidades, empresários, população local e turistas que prestigiam os eventos e costumam tirar foto entre as bandeiras. Os eventos mencionados pelos entrevistados, por vezes tem a música como protagonista, por vezes tem a gastronomia. Mas em ambos os tipos, tanto a gastronomia, quanto a música estão presentes, um complementando o outro. Cabe ainda salientar que essa infraestrutura cultural prioriza a cultura fronteiriça, sendo uma das vitrines e formas de legitimação do trabalho dos chefs e dos músicos perante à comunidade.
“Tem outro país ali do lado, né? [...] pratos, insumos, temperos que tu não consegue achar aqui e tu acha ali”: referências dos chefs para a sua gastronomia
Tendo em vista que a Fronteira da Paz é uma fronteira seca, na qual os moradores dos dois países têm livre acesso para estar do outro lado, para a área gastronômica isso se torna um ponto de suma importância por ter disponibilidade e experiências para reposição ou para adquirir insumos, e variar os sabores: “Pra parte da gastronomia é excelente, tu tem outro país ali do lado, né? Tu tem outra cultura, tanto em pratos, em insumos, em temperos, em mercadorias que tu não consegue achar e tu acha ali” (Carreteiro).
O estilo da gastronomia é a comida campeira que, de acordo com os entrevistados, é a culinária simples, baseada na criação de gado e ovelha, típica do bioma pampa. Ao elencar sobre os elementos da fronteira, Carreteiro sempre tenta fazer pratos que descrevam a região:
“A parte de culinária a gente tenta colocar alguma coisa, tipo o choripan e a parrilla que sai muito” (Carreteiro).
“Eu gosto de pegar os ingredientes daqui, né? Valorizar o produtor primeiro e aí pegar esses produtos daqui o ovino, nozes, mel, azeite, vinho e os queijos que têm, e com isso fazer uma comida mais elaborada” (Choripan).
Essa mistura de culturas do Brasil-Uruguai dentro da área gastronômica faz com que sejam criados novos produtos através das referências culturais da fronteira. Identifica-se esse fato, quando Parrillada consegue usar elementos uruguaios, sem perder o toque da culinária brasileira, originando-se um novo produto com essa mescla de culturas: “O hambúrguer picanha ele é inspirado no pimentão vermelho assado, enfim, coisas que a gente encontra em algumas parrilladas no Uruguai. Então tem coisas que eu vou puxando, algumas tendências ou características da culinária da fronteira dos uruguaios” (Parrillada).
“A gente é reconhecido por essa fronteira, que não tem divisão, onde se mescla o próprio idioma, os ritmos da música e do bioma pampa”: referências dos músicos para suas apresentações artísticas
Todos os músicos entrevistados, são cantores, instrumentistas e compositores. Em suas narrativas reconhecem alguns ritmos como pertencentes a países vizinhos: “o chamamé que é mais forte na Argentina, o Uruguai aqui com a milonga e o candombe” (Candombe). Mas eles observam a semelhança entre os ritmos da cultura do Rio Grande do Sul (Brasil), Uruguai e ainda Argentina, e o quanto essa característica cultural é representada na identidade do artista fronteiriço:
“Quando eu vou pras festas no interior do Uruguai, pros festivais de folclore, pras peñas, pras criollas, eu vejo muita semelhança com a nossa cultura aqui, com o que a gente vive, né? E musicalmente falando, eu acho que eu consigo ter no meu trabalho uma mescla das duas vertentes. A música uruguaia tem muito essa questão de ter grandes violonistas, solos de violão, as milongas. Da Argentina, a chacarera que é um ritmo que eu gosto muito de cantar, que faz parte do meu repertório em várias músicas” (Chacarera).
“E sigo também com meu show que une a música gaúcha, com folclore uruguaio e argentino no repertório” (Chacarera).
“O nome da composição Encandilado (Encantado), já é em espanhol, né? Porque ela é em português, mas ela tem alguns termos, assim que são doble chapa. É Carniceria de Frontera (Açougue de Fronteira), também é um chamamé que a gente compôs, que retrata a questão das carnicerias da linha (divisória entre os países) ali que a gente sempre costuma recorrer no final de semana para comprar uma carne” (Candombe).
Nas composições, os artistas escrevem sobre a vida na fronteira, o que evidencia que a sua identidade enquanto músico, não é só brasileira, nem só uruguaia, é uma mescla, é “doble chapa”, nas palavras de Camdombe. Portanto é algo novo pelo qual eles querem o reconhecimento, a identidade fronteiriça nas suas carreiras: “Em qualquer lugar que a gente vai, a gente é reconhecido por essa fronteira, que não tem divisão. Onde se mescla o próprio idioma, os ritmos da música e do bioma pampa, tanto do Brasil, quanto do Uruguai vão se mesclando” (Candombe).
“É uma luta em todos os sentidos, sabe? [...] Eu canto folclore, o meu show é esse aqui”: desafios atravessados pelos marcadores sociais de gênero, origem e geração
Chacarera, a única mulher que faz parte deste grupo de entrevistados, destacou os desafios de gênero que enfrenta, concomitante a sua situação de artista autônoma. A cantora comenta que sente o sexismo em vários momentos:
“Principalmente sendo artista independente, estando num nicho bastante limitado, que não tem tantas oportunidades. Eu sendo mulher num gênero musical que é majoritariamente masculino, extremamente machista, excludente e tudo mais. É uma luta em todos os sentidos, sabe? Uma luta por espaço, por representatividade, por parecer que a gente precisa estar sempre provando nosso valor, provando o que é capaz de fazer. Muitas vezes parece que não importa o que eu faça, não importa o quanto eu seja competente no meu trabalho, o quanto eu conquiste coisas, prêmios, programas. Parece que eu nunca vou ser boa o suficiente pra esse nicho, simplesmente pelo fato de que eu sou mulher” (Chacarera).
Para os artistas que levam em sua carreira a identidade da sua origem, da cultura e do folclore regional - como os ritmos musicais milonga, chamamé, chacarera, candombe e vanera - o público tende a ser mais local, não atinge um público de massa e isto costuma ser um dilema que pode levar a perder oportunidades de trabalho:
“Eu recebi mais ou menos três propostas de show em eventos grandes aqui da cidade que queriam que eu cantasse outras coisas, que não folclore, não música regional. Porque, enfim, não gostam ou não queriam. Óbvio que eu canto qualquer coisa, porque eu sou, além de ser um artista regional, eu sou cantora. Mas tu acaba muitas vezes ter que dizer: olha, o meu trabalho é esse, o que eu faço é isso, eu canto folclore, o meu show é esse aqui. Se vocês quiserem levar esse show pra um evento, eu acredito que vai agregar muito. Se vocês não quiserem, infelizmente eu não consigo criar um show do zero com outra proposta, até mesmo porque não é isso que eu quero passar pras pessoas” (Chacarera).
Manter a tradição do que é a música folclórica, também chamada de nativista, não significa dizer que suas características não vão mudar ao passar do tempo. Gerações de artistas anteriores influenciam a geração presente, mas também ganham novos contornos da contemporaneidade que podem gerar críticas.
“A minha geração também bebeu nessa fonte (de artistas riograndenses e uruguaios), bebe até hoje. Muitos dos que eu trabalho hoje, tenho parcerias junto, foram os que me inspiraram no início da minha carreira e o cenário nativista propicia isso. Em 2007, era uma identidade da música nativista que já não era bem diferente da vertente que o Lelé, que o Adair de Freitas, que o Luiz Cardoso beberam. E isso mudou, já era um gênero mais romântico, não era tão campeiro. E aí a minha geração, ela misturou, fez uma grande mistura e por muitas vezes eu já fui criticado por isso” (Chamamé).
Por mais que as carreiras dos chefs e músicos sejam valorizadas pelas suas vivências de ser fronteiriço, suas narrativas são marcadas por tensões associadas a gênero, origem e geração que moldam suas trajetórias e identidade, envolvendo negociação constante entre tradição e inovação.
CARREIRAS FRONTEIRIÇAS ENQUANTO IDENTIDADE PELA EXPRESSÃO DO HIBRIDISMO CULTURAL PARA MÚSICOS E CHEFS GASTRONÔMICOS: DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
“Pra mim aqui não tem fronteira. A fronteira é pros de fora que chegam e falam: aqui é Brasil, aqui é Uruguai. Porque fronteiriço é ser brasileiro e uruguaio misturado. Essa mistura é o que é bonito aqui. Daqui um pouco o brasileiro tá falando com o uruguaio em espanhol, o uruguaio falando em português com brasileiro” (Choripan).
A narrativa acima de Choripan sintetiza as demais narrativas apresentadas e representa o contexto singular da Fronteira da Paz. Esta fronteira entre Brasil e Uruguai não opera como limite, mas como espaço de convivência contínua entre códigos culturais, linguísticos e simbólicos, conformando o que Hall (2020) denomina identidade como posicionamento, sempre relacional, negociada e em transformação. As narrativas descrevem uma (con)vivência de famílias híbridas que circulam entre dois países vizinhos, mas cujas distinções nacionais perdem rigidez no cotidiano, dando lugar a práticas híbridas que exemplificam os processos de hibridação discutidos por Canclini (2015), nos quais elementos antes separados se combinam para gerar formas culturais novas, neste caso, a cultura fronteiriça, já evidenciada em outros estudos (Ferraro, 2020; Muller et al., 2010; Pimentel, 2021; Sturza, 2019).
Ao afirmar que “fronteiriço é ser brasileiro e uruguaio misturado” e atribuir beleza a essa mistura, Choripan expressa orgulho por essa identidade que não se ancora em pertenças fixas, mas em uma experiência compartilhada de entre-lugar, marcada pela permeabilidade territorial e sociocultural. Esse modo de ser traduz a identidade fronteiriça como uma construção ativa, produzida no encontro constante entre culturas, e que redefine o próprio significado de fronteira - em muitos lugares do mundo associada a divisão, separação, muro, migração, controle - ao transformá-la de linha divisória em espaço de hibridismo cotidiano, levando até mesmo o adjetivo “paz” em seu apelido.
A cultura fronteiriça, aprendida e vivenciada ao longo da vida, se expressa na convivência com familiares doble chapa, na oralidade do portuñol, na pilcha gaúcha, nos festivais culturais, nas práticas culinárias compartilhadas e nos repertórios musicais nativistas, operando simultaneamente como recurso simbólico e estrutural, e moldando estratégias de atuação no mercado de trabalho regional. As carreiras artísticas de chefs e músicos emergem dessa identidade fronteiriça marcada por matrizes culturais nacionais híbridas, confirmando o argumento de que trajetórias profissionais são indissociáveis das dimensões espaciais, ontológicas e temporais (Mayrhofer et al., 2023) que configuram seus contextos de trabalho, origem, global, sociedade e cultura (Mayrhofer et al., 2007).
Os exemplos de cultura trazidos nas narrativas, sobretudo relativos a gastronomia e música do Rio Grande do Sul (Brasil) não é totalmente distinta da do Uruguai. Elas são próximas, possuem inclusive pares simbólicos com nomes distintos em português e espanhol — por exemplo, chimarrão e mate, linguiça e chorizo, churrasco e asado, churrasqueira e parrilla - ou até o mesmo nome nos dois países - por exemplo, pilcha, bombacha, milonga, chamamé — revelando a partilha de um mesmo modo de vida campeiro que atravessa quem mora no vasto bioma pampa.
Esse repertório comum remete à figura histórica do gaúcho cisplatino, descendente da miscigenação entre colonizadores portugueses e espanhóis e o povo indígena (mais tarde também o negro), que no período colonial circulava livremente pelas planícies da Região do Prata (que abrange principalmente Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina), cuidando do gado e cultivando hábitos do campo (Boff & Machado, 2023; Munizaga et al., 2024; Ramil, 2009). É instigante perceber que aquilo que hoje chamamos de cultura fronteiriça, marcada pela interação entre culturas de dois países distintos, tem a mesma origem. A origem do campo, pois o modo de vida do gaúcho cisplatino que é presente até os dias de hoje nesta região é anterior às divisões geopolíticas e aos limites estatais que viriam a configurar Brasil e Uruguai. Assim, a cultura fronteiriça nasce desse passado compartilhado e a reinscreve no presente traduzido em dois países, em especial, por meio da arte (Cleveland, 2013), como nas carreiras de chefs e músicos.
Os achados dialogam com estudos sobre hibridismo cultural, como o de Marzano (2024) que mostra a criação de um entre-lugar artístico em festivais criados pelos povos originários Angolanos pressionados pela assimilação cultural europeia no período colonial. Por outro lado, avança em relação a estudos em que o hibridismo aparece como tensão tradutória, lacunas lexicais e perdas de significado do idioma (Hu & Roberto, 2019), já que o portuñol não é vivido como problema, ruído ou dificuldade de tradução, mas como marcador positivo de pertencimento. Ele não precisa ser corrigido ou mediado, é valorizado como estética musical, como estilo comunicativo e até como estratégia de diferenciação nas carreiras. Na Fronteira da Paz, o portuñol emerge como recurso identitário e profissional, incorporado espontaneamente e celebrado nas performances de chefs e músicos. Também avança em relação a estudos que o hibridismo aparece em um contexto de erosão e ameaça direta à sobrevivência de práticas tradicionais como o cultivo de sementes envolvendo ações de resistência (Rincón et al., 2024). Na fronteira Brasil-Uruguai em análise, o hibridismo cultural não é vivido como algo que coloca um país ou outro em risco, mas como resultado histórico celebrado pelos chefs e músicos, incluindo suas formas tradicionais de cultivar alimentos, que se convertem em diferencial estético e profissional.
Os achados também dialogam com estudos que demonstram como carreiras são influenciadas pelo contexto (Akkermans & Kubasch, 2017; Mayrhofer et al., 2007; 2023; Van den Groenendaal et al., 2022) e que o território não é apenas cenário, mas fonte de identidade cultural, legitimação e rentabilização, como ocorre em carreiras artísticas vinculadas a identidade cultural regional (Barros et al., 2021; Calasans & Davel, 2020) e em carreiras vinculadas a mais de uma identidade cultural nacional, geralmente associadas à imigração (Martin et al., 2024; Prestes & Grisci, 2025; Rabenu & Baruch, 2025). Com o caso dos chefs e músicos desta pesquisa, é possível avançar nesta literatura ao mostrar que, nesta zona fronteiriça, a identidade cultural se constitui desde a infância pelo hibridismo cotidiano de culturas nacionais diferentes (mas que tem mesma origem histórica), sem mobilidade migratória formal, mas com uma mobilidade pendular. E é isso que se transforma em música e gastronomia fronteiriça, enquanto trabalho, e permite compreender o que chamamos de carreira fronteiriça.
As carreiras fronteiriças se constituem não apenas pela mescla entre a cultura de dois países, mas pelo trabalho que é resultado de um entre-lugar permanente, da sua identidade cultural híbrida. Além disso, a circulação livre entre as cidades-gêmeas amplia o repertório de recursos materiais e simbólicos disponíveis — como idioma, insumos, festivais binacionais e público fronteiriço — configurando um espaço profissional que escapa às categorias tradicionais de carreira local/nacional/global propostas por Mayrhofer et al. (2007). Este cenário das carreiras fronteiriças conecta a perspectiva teórica de carreiras em contexto (Mayrhofer et al., 2007; 2023) ao de hibridismo cultural (Canclini, 2015), e ao de (uma nova) identidade cultural (Hall, 2020).
As tensões apresentadas pelas carreiras fronteiriças dos chefs e músicos foram atravessadas por marcadores sociais (Akkermans & Kubasch, 2017; Mayrhofer et al., 2007; 2023), especialmente gênero, origem e geração. A única mulher entre os músicos enfrenta dificuldades de legitimação em um campo marcado por masculinidade hegemônica, já bastante observada em estudos de carreira (Barros et al., 2021; Torbor et al., 2025). Cabe ressaltar que o campo musical nativista (assim como a gastronomia fronteiriça) é moldado por uma identidade gaúcha historicamente associada à masculinidade rígida — “valente, machista, bravateiro”, como descreve Ramil (2009) — e por uma tradição cultural que, segundo Boff e Machado (2023), foi politicamente construída para exaltar o gaúcho como herói masculino, defensor das fronteiras. Esse imaginário estruturante, historicamente fortalecido pelos Centros de Tradição Gaúcha (Ferraro, 2020), configura um ambiente simbólico que naturaliza a centralidade masculina e reforça a exclusão das mulheres, limitando a legitimação feminina nas carreiras vinculadas ao folclore e ao repertório tradicional.
Em relação a origem, a tensão não é pelo cenário multicultural, como ocorre em Martin et al. (2024), não é sobre a cultura brasileira ou uruguaia, mas sim sobre a cultura rural (do campo) e a cultura da cidade (de massas). Os artistas fronteiriços atuam em nichos culturais frequentemente marginalizados por demandas de mercado de massas, o que exige negociações contínuas entre autenticidade e adaptabilidade. Em relação a geração vemos um cenário semelhante, quando um dos músicos fala que sua geração começou a fazer canções mais românticas e não tão campeiras, mostrando que o hibridismo de referências culturais de diferentes épocas também vai renovando a música fronteiriça, fragmentando a identidade, conforme Hall (2020), o que por um lado vai se aproximar da cultura de massa mas por outro, pode perder o público mais conservador da cultura.
Em síntese, este estudo contribui ao (1) demonstrar empiricamente como o hibridismo de culturas nacionais vizinhas - cultura fronteiriça - opera como lógica estruturante e performativa na identidade cultural - identidade fronteiriça - das carreiras de músicos e chefs em uma fronteira sul-americana e ao nominar este cenário como carreiras fronteiriças. (2) evidenciar as especificidades do caso da Fronteira da Paz que o diferenciam de outros contextos como o caráter histórico da formação platina, que gerou a figura do gaúcho no bioma pampa do período colonial, ressignificada por cada país após as divisões geopolíticas; (3) evidenciar que identidades multiculturais não decorrem apenas de migrações formais, mas podem emergir da convivência histórica entre culturas vizinhas que praticam mobilidade pendular; e (4) mostrar como preconceitos referentes a marcadores sociais, especialmente gênero, são fruto da constituição histórica e cultural local, que perpetuam tensões específicas de legitimidade e reconhecimento na carreira de mulheres.
IMPLICAÇÕES TEÓRICAS
Como implicações teóricas, o estudo contribui ao (1) associar o conceito de hibridismo cultural ao de cultura fronteiriça; (2) associar o conceito de identidade cultural ao de identidade fronteiriça; e (3) ampliar o entendimento de carreiras em contexto ao associá-lo ao de hibridismo cultural (cultura fronteiriça) e de identidade cultural (identidade fronteiriça) resultando na apresentação do conceito de carreira fronteiriça. Entendemos por carreiras fronteiriças as trajetórias profissionais caracterizadas por repertórios de trabalho vinculados a uma identidade fronteiriça, isto é, cuja identidade cultural é formada por uma cultura fronteiriça que, por sua vez, se refere a um hibridismo entre culturas capaz de gerar algo novo. Nas carreiras fronteiriças, as carreiras se constroem de forma indissociável com a identidade cultural de um entre-lugar, que não é fixo e está em constante transformação.
IMPLICAÇÕES PRÁTICAS
Como implicações práticas, esse estudo traz contribuições para que profissionais de políticas públicas olhem para os profissionais de carreiras fronteiriças associando-os a agentes de valorização da cultura e identidade fronteiriça e como possibilidade do seu trabalho fomentar o mercado de trabalho e turístico da região. Este estudo também pode servir como evidência para profissionais de carreiras fronteiriças, sobretudo para aqueles do contexto analisado, a Fronteira da Paz, que desejam concorrer a chamadas públicas que financiem seus trabalhos, algo recorrente neste tipo de carreira. O estudo também pode contribuir para a reflexão das novas gerações de artistas de carreira fronteiriça, ao destacar que a cultura fronteiriça que tem o gaúcho como figura simbólica, tem raízes indígenas e também negras, mesmo que em menor proporção, muitas vezes apagada pelo discurso da colonização espanhola e portuguesa na América Latina.
LIMITAÇÕES E ESTUDOS FUTUROS
Esta pesquisa teve como limitação entrevistar apenas indivíduos que residem no lado brasileiro da fronteira que falam predominantemente português, devido a acessibilidade das pesquisadoras. Destacamos ainda que as pesquisadoras são brasileiras, o que traz um olhar específico da sua origem para abordar sobre o hibridismo do seu país com o país vizinho. Seria importante em estudos futuros comparar os resultados desta pesquisa com chefs e músicos que residem no lado uruguaio e tem o espanhol como primeira língua. Por fim, destacamos as menções ao país da Argentina durante as entrevistas, que apesar de não fazer fronteira diretamente, o país fica próximo à Fronteira da Paz. Isso evidencia a forte relação com a figura histórica do gaúcho cisplatino e, assim, como sugestão para estudos futuros, propomos identificar, conjuntamente, os elementos da figura do gaúcho das culturas brasileira, uruguaia e argentina. Ainda, sugere-se o aprofundamento na temática das dificuldades e desafios enfrentados nas carreiras de músicos e chefs gastronômicos de mulheres fronteiriças e a ampliação do campo de estudo para carreiras fronteiriças não necessariamente vinculadas às profissões artísticas.
AGRADECIMENTOS
As autoras agradecem aos pareceristas anônimos pelos comentários e sugestões que contribuíram para o aprimoramento do manuscrito.
Referências bibliográficas
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DISPONIBILIDADE DE DADOS DA PESQUISA
O conjunto de dados que sustenta os achados deste estudo não está disponível publicamente.
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USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
A ferramenta de inteligência artificial ChatGPT foi utilizada para traduzir o manuscrito do português para o inglês e revisão do inglês para o português, bem como para auxiliar na revisão técnica e gramatical do texto e na padronização das referências.
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FINANCIAMENTO
Este trabalho conta com o apoio da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS), processo 23/2551-0000814-9.
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PARECERISTAS
Marcelo Afonso Ribeiro, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0396-7693
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PARECERISTAS
Um revisor não autorizou a divulgação de sua identidade.
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RELATÓRIO DE REVISÃO POR PARES
O relatório da revisão por pares está disponível em https://periodicos.fgv.br/rap/article/view/97420
Editado por
O conjunto de dados que sustenta os achados deste estudo não está disponível publicamente.




Fonte: Elaborada pelas autoras.
Fonte: Elaborada pelas autoras.
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