Uso de substantivos e verbos por pré-escolares com alteração específica de linguagem

Marianne Querido Verreschi Ana Manhani Cáceres-Assenço Debora Maria Befi-Lopes Sobre os autores

RESUMO

Objetivos

Comparar o uso funcional de verbos e substantivos por crianças com alterações específicas de linguagem (AEL) falantes do Português Brasileiro e investigar se o uso destes tipos de palavras difere das crianças em desenvolvimento típico de linguagem (DTL). Além disso, comparar a utilização de cada tipo de verbo entre os grupos.

Método

Participaram do estudo 80 pré-escolares, 20 com AEL e 60 com DTL. A faixa etária dos sujeitos com AEL variou entre 3 e 6 anos, e do grupo com DTL variou entre 2 e 4 anos. O pareamento dos sujeitos foi baseado na idade linguística expressiva. A amostra de fala foi eliciada por meio de interação lúdica, e dessa amostra foram selecionados os substantivos e verbos produzidos.

Resultados

Os pré-escolares com AEL utilizaram mais verbos do que substantivos em fala espontânea. O uso de substantivos não diferiu entre os grupos, mas nos verbos o subgrupo de 3 anos com AEL os utilizou com mais frequência que seus pares. Os tipos de verbos mais utilizados por sujeitos com AEL foram de ligação, intransitivo e transitivo direto. A comparação entre os grupos neste aspecto diferiu pontualmente para os verbos transitivo direto, bitransitivo e de ligação; apenas o verbo transitivo circunstancial foi mais utilizado pelos sujeitos em DTL para todas as idades.

Conclusão

O uso de substantivos e verbos em crianças com AEL respeita o padrão do desenvolvimento típico, mas ocorre de forma mais lenta. O uso de verbos com menos complementos é predominante nesta população.

Descritores:
Linguagem Infantil; Transtornos da Linguagem; Vocabulário; Fonoaudiologia; Desenvolvimento da Linguagem

ABSTRACT

Purpose

To compare the functional use of verbs and nouns by Brazilian Portuguese-speaking children with language impairment (LI) and to verify whether their use of these word classes is different from that of children with typical language development (TLD). This study also aimed to compare the use of each verb type between groups.

Methods

Participants were 80 preschool children, 20 of them diagnosed with LI and 60 with TLD. The age ranges of participants were 3 to 6 years for children with LI and 2 to 4 years for children with TLD. Individuals were paired based on their expressive language age. Ludic interaction was used to elicit the speech sample from which nouns and verbs were selected from spontaneous speech. All nouns and verbs were tabulated and verbs were classified.

Results

Preschoolers with LI use verbs more often than nouns in their production of spontaneous speech. The use of nouns presented no difference between the groups, but verb use frequency was higher in children with LI for the 3-year-old subgroup. The verbs most frequently used by children with LI were copula, intransitive, and transitive direct. Comparison between the groups revealed few differences regarding the use of transitive direct, bitransitive, and copular verbs. Only transitive circumstantial verbs were more often used by children with TLD at all ages.

Conclusion

The use of nouns and verbs by children with LI complies with the typical development standard, but it occurs more slowly. The use of verbs with fewer complements is predominant in these children.

Keywords:
Child Language; Language Disorders; Vocabulary; Speech, Language and Hearing Sciences; Language Development

INTRODUÇÃO

A aquisição de linguagem se dá a partir da interação da criança com o ambiente que a cerca. Através da convivência familiar e dos estímulos a ela destinados, a criança utiliza suas habilidades cognitivas e sociais para categorizar, esquematizar e combinar tudo o que aprende separadamente. A produção das primeiras palavras pela criança é observada por volta dos 12 meses de vida(11 Gândara JP. Aquisição lexical no desenvolvimento normal e alterado de linguagem: um estudo experimental. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2008.).

O aprendizado de uma palavra é um processo multifatorial e tem início quando ocorre associação entre um input fonético e uma ação ou objeto correspondente no ambiente. Essa primeira associação é chamada de fast mapping, que envolve uma representação incompleta da palavra. A exposição contínua a essa palavra é que cria uma associação robusta, que ocorre na fase slow mapping(22 Alt M, Suddarth R. Learning novel words: detail and vulnerability of initial representations for children with specific language impairment and typically developing peers. J Commun Disord. 2012;45(2):84-97. http://dx.doi.org/10.1016/j.jcomdis.2011.12.003. PMid:22225571.
http://dx.doi.org/10.1016/j.jcomdis.2011...
).

As palavras de classe aberta (adjetivos, advérbios, substantivos, verbos, interjeições) possuem referenciais mais concretos que as palavras de classe fechada (artigos, conjunções, numerais, preposições, pronomes) e, por isso, são as primeiras a serem adquiridas durante o desenvolvimento da linguagem. Isto ocorre especialmente com os substantivos, cuja aprendizagem é relativamente fácil para as crianças e abre caminho para a aprendizagem de palavras de relações menos transparentes, ou que tenham estruturas morfológicas mais complexas. Os verbos, por sua vez, são adquiridos posteriormente devido à dificuldade inicial da criança em detectar seus componentes conceituais e semânticos, ou compreender como eles se combinam(33 Gentner D. Why verbs are hard to learn. In: Hirsh-Pasek K, Golinkoff R, editores. Action meets word: how children learn verbs. Oxford: Oxford University Press; 2006. p. 544-64. http://dx.doi.org/10.1093/acprof:oso/9780195170009.003.0022.
http://dx.doi.org/10.1093/acprof:oso/978...
).

Os verbos funcionam como elementos organizadores da estrutura sintática e do uso correto de outras classes de palavras(44 Araujo K. Desempenho gramatical de criança em desenvolvimento normal e com distúrbio específico de linguagem. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2007.). Existem vários tipos de pistas envolvendo a linguagem – como as pistas morfológicas e sintáticas – que podem ajudar na identificação de uma palavra como sendo um verbo. As pistas morfológicas auxiliam na definição da parte do discurso que é desconhecida à criança (por exemplo, a terminação verbal). As pistas sintáticas mostram que ao redor de um verbo se estrutura uma sentença, através de regras pré-determinadas(55 Johnson VE, Villiers JG. Syntactic frames in fast mapping verbs: effect of age, dialect, and clinical status. J Speech Lang Hear Res. 2009;52(3):610-22. http://dx.doi.org/10.1044/1092-4388(2008/07-0135). PMid:19474395.
http://dx.doi.org/10.1044/1092-4388(2008...
).

No Português Brasileiro, as crianças em desenvolvimento típico iniciam sua aquisição de linguagem pelos substantivos, mas já a partir do segundo ano de vida apresentam uma quantidade ligeiramente maior de verbos do que de substantivos, o que pode ser observado até o final da fase pré-escolar. Na aquisição dos verbos, ocorre inicialmente o predomínio de verbos intransitivos, seguidos por verbos de ligação, transitivos diretos, transitivos circunstanciais e transitivos indiretos(66 Befi-Lopes DM, Cáceres AM, Araújo K. Aquisição de verbos em pré-escolares falantes do português brasileiro. Revista CEFAC. 2007;9(4):444-52. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462007000400003.
http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462007...
).

Algumas crianças, entretanto, podem enfrentar dificuldades no desenvolvimento da linguagem, que resultam em diferenças no modo como adquirem e utilizam diferentes classes de palavras. Esse é o caso de crianças com alterações específicas de linguagem (AEL), caracterizadas por dificuldades específicas em aspectos linguísticos, na ausência de fatores como déficits auditivos, alterações neurológicas e no desenvolvimento cognitivo, distúrbios emocionais, ou privação ambiental(77 Bishop DV. What causes specific language impairment in children? Curr Dir Psychol Sci. 2006;15(5):217-21. http://dx.doi.org/10.1111/j.1467-8721.2006.00439.x. PMid:19009045.
http://dx.doi.org/10.1111/j.1467-8721.20...
,88 Bishop DV. Ten questions about terminology for children with unexplained language problems. Int J Lang Commun Disord. 2014;49(4):381-415. http://dx.doi.org/10.1111/1460-6984.12101. PMid:25142090.
http://dx.doi.org/10.1111/1460-6984.1210...
).

As AEL compreendem dois grandes quadros de linguagem: o retardo e o distúrbio específico de linguagem (DEL). O primeiro refere-se a um atraso generalizado na aquisição ou expressão da linguagem, mas que segue a mesma sequência do desenvolvimento típico ao longo do desenvolvimento. O DEL, por sua vez, refere-se ao desenvolvimento atípico das habilidades de linguagem decorrente de dificuldades específicas em duas ou mais áreas da linguagem(99 Befi-Lopes D. Avaliação diagnóstica e aspectos terapêuticos nos distúrbios específicos de linguagem. In: Fernandes F, Mendes B, Navas A, editores. Tratado de Fonoaudiologia. 2. ed. São Paulo: Roca; 2011. p. 314-22.).

Em decorrência da faixa etária estudada utilizaremos o termo geral AEL, uma vez que a diferenciação do quadro em retardo de linguagem ou DEL pela manutenção dos déficits linguísticos após a intervenção terapêutica só poderia ser utilizada após os cinco anos para todos os sujeitos.

As crianças com AEL apresentam capacidade limitada de processamento linguístico que interfere na aquisição e no processamento de linguagem em tempo real. Logo, operações linguísticas complexas podem sobrecarregar sua capacidade, resultando em competição por recursos entre os diferentes estágios de processamento da linguagem, de forma que seus estágios iniciais são beneficiados(1010 Pizzioli F, Schelstraete MA. The argument-structure complexity effect in children with specific language impairment: evidence from the use of grammatical morphemes in French. J Speech Lang Hear Res. 2008;51(3):706-21. http://dx.doi.org/10.1044/1092-4388(2008/050). PMid:18506045.
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).

Dentre as inúmeras dificuldades linguísticas que podem se manifestar nesse grupo, o prejuízo no uso de verbos é comumente apontado como característico(1111 Windfuhr KL, Faragher B, Conti-Ramsden G. Lexical learning skills in young children with specific language impairment (SLI). Int J Lang Commun Disord. 2002;37(4):415-32. http://dx.doi.org/10.1080/1368282021000007758. PMid:12396842.
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). O desenvolvimento da morfologia gramatical nessa população costuma estar aquém do observado em crianças com desenvolvimento típico. Esta dificuldade é evidenciada pela aquisição tardia de morfemas gramaticais e pela manutenção do uso de estruturas gramaticais primitivas(1212 Verhoeven L, Steenge J, van Balkom H. Verb morphology as clinical marker of specific language impairment: evidence from first and second language learners. Res Dev Disabil. 2011;32(3):1186-93. http://dx.doi.org/10.1016/j.ridd.2011.01.001. PMid:21333487.
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), que podem ocorrer por possíveis déficits no processamento de palavras, devido ao comprometimento fonológico ou na memória de trabalho(1313 Conti-Ramsden G, Windfuhr K. Productivity with word order and morphology: a comparative look at children with SLI and children with normal language abilities. Int J Lang Commun Disord. 2002;37(1):17-30. http://dx.doi.org/10.1080/13682820110089380. PMid:11852456.
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).

As crianças com AEL são mais dependentes da frequência da estimulação e de informações léxico-semânticas(1414 Pizzioli F, Schelstraete MA. Lexico-semantic processing in children with specific language impairment: the overactivation hypothesis. J Commun Disord. 2011;44(1):75-90. http://dx.doi.org/10.1016/j.jcomdis.2010.07.004. PMid:20739027.
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) e menos capazes de reter novos verbos do que crianças mais jovens em desenvolvimento típico de linguagem(1515 Riches NG, Tomasello M, Conti-Ramsden G. Verb learning in children with SLI: frequency and spacing effects. J Speech Lang Hear Res. 2005;48(6):1397-411. http://dx.doi.org/10.1044/1092-4388(2005/097). PMid:16478379.
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). Logo, elas precisam de maior variedade de verbos armazenados em seu léxico para conseguir abstrair as regras morfológicas de sua língua e assim desenvolver um conhecimento mais generalizado dos verbos(1111 Windfuhr KL, Faragher B, Conti-Ramsden G. Lexical learning skills in young children with specific language impairment (SLI). Int J Lang Commun Disord. 2002;37(4):415-32. http://dx.doi.org/10.1080/1368282021000007758. PMid:12396842.
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), além de apresentarem menos propensão a variar nas escolhas de seus verbos, equiparando-se a crianças mais jovens pareadas por vocabulário(1616 Owen Van Horne AJ, Lin S. Cognitive state verbs and complement clauses in children with SLI and their typically developing peers. Clin Linguist Phon. 2011;25(10):881-98. http://dx.doi.org/10.3109/02699206.2011.582226. PMid:21728829.
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).

Todavia, a língua interfere na natureza das dificuldades que o falante com AEL irá enfrentar ao utilizar os verbos. No Inglês, observa-se que essa dificuldade se apresenta com relação à sua diversidade e ao uso correto da morfologia, que se mantém inclusive durante a fase da escolarização(1717 Ebbels SH, van der Lely HK, Dockrell JE. Intervention for verb argument structure in children with persistent SLI: a randomized control trial. J Speech Lang Hear Res. 2007;50(5):1330-49. http://dx.doi.org/10.1044/1092-4388(2007/093). PMid:17905915.
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), e pode ser considerada como uma de suas marcas clínicas(33 Gentner D. Why verbs are hard to learn. In: Hirsh-Pasek K, Golinkoff R, editores. Action meets word: how children learn verbs. Oxford: Oxford University Press; 2006. p. 544-64. http://dx.doi.org/10.1093/acprof:oso/9780195170009.003.0022.
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).

No espanhol, há relatos de diferença no padrão de movimentos oculares para verbos com quantidade diferente de argumentos, com maior dificuldade no reconhecimento daqueles com três argumentos(1818 Andreu L, Sanz-Torrent M, Guàrdia-Olmos J. Auditory word recognition of nouns and verbs in children with Specific Language Impairment (SLI). J Commun Disord. 2012;45(1):20-34. http://dx.doi.org/10.1016/j.jcomdis.2011.09.003. PMid:22055614.
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). O uso frequente de formas verbais no infinitivo é relatado para falantes do catalão e do espanhol(1919 Sanz-Torrent M, Serrat E, Andreu L, Serra M. Verb morphology in Catalan and Spanish in children with specific language impairment: a developmental study. Clin Linguist Phon. 2008;22(6):459-74. http://dx.doi.org/10.1080/02699200801892959. PMid:18484285.
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), e também do inglês(2020 Arndt KB, Schuele CM. Production of infinitival complements by children with specific language impairment. Clin Linguist Phon. 2012;26(1):1-17. http://dx.doi.org/10.3109/02699206.2011.584137. PMid:21728831.
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). Tal fato é justificado por este modo não necessitar de variação na concordância gramatical, o que reduz a demanda de processamento linguístico(1919 Sanz-Torrent M, Serrat E, Andreu L, Serra M. Verb morphology in Catalan and Spanish in children with specific language impairment: a developmental study. Clin Linguist Phon. 2008;22(6):459-74. http://dx.doi.org/10.1080/02699200801892959. PMid:18484285.
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).

No Português Brasileiro, há apenas achados que apontam uma dificuldade ligada à identificação de quantos e quais complementos são requeridos por um verbo para que seu sentido esteja completo e para que ele seja compreendido(44 Araujo K. Desempenho gramatical de criança em desenvolvimento normal e com distúrbio específico de linguagem. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2007.).

Considerando a escassez de informações a respeito da aquisição e do uso de verbos em crianças com AEL falantes do Português Brasileiro, este estudo se propôs a comparar o uso funcional de verbos e substantivos por crianças com alterações específicas de linguagem (AEL) falantes do Português Brasileiro e investigar se o uso destes tipos de palavras difere das crianças em desenvolvimento típico de linguagem (DTL). Além disso, comparar a utilização de cada tipo de verbo entre os grupos.

MÉTODO

Este estudo foi aprovado pela Comissão de Ética em Pesquisa da Instituição sob número 1159/09. Todos os sujeitos tiveram seus Termos de Consentimento Livre e Esclarecido assinados por seus pais ou responsáveis.

Participantes

O grupo com AEL foi composto por 20 pré-escolares em atendimento fonoaudiológico semanal no Laboratório de Investigação Fonoaudiológica em Desenvolvimento da Linguagem e suas Alterações do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da USP. A idade dos sujeitos variou entre 3 anos e meses e 6 anos e 10 meses (Tabela 1).

Tabela 1
Distribuição dos sujeitos de acordo com a faixa etária e o gênero

Os critérios de exclusão utilizados foram aqueles estabelecidos em literatura internacional(77 Bishop DV. What causes specific language impairment in children? Curr Dir Psychol Sci. 2006;15(5):217-21. http://dx.doi.org/10.1111/j.1467-8721.2006.00439.x. PMid:19009045.
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) e o critério para inclusão dos sujeitos neste grupo compreendeu desempenho em linguagem expressiva abaixo do esperado em pelo menos dois testes padronizados: vocabulário(2121 Befi-Lopes DM. Vocabulário. In: Andrade CRF, Befi-Lopes DM, Fernandes FDM, Wertzner HF, editores. ABFW: teste de linguagem infantil nas areas de fonologia, vocabulário, fluência e pragmática. 2. ed. Barueri: Pró-Fono; 2004. p. 33-50.), fonologia(2222 Wertzner HF. Fonologia. In: Andrade CRF, Befi-Lopes DM, Fernandes FDM, Wertzner HF, editores. ABFW: teste de linguagem infantil nas áreas de fonologia, vocabulário, fluência e pragmática. 2. ed. Barueri: Pró-Fono; 2004. p. 5-32.) ou extensão média do enunciado (EME)(44 Araujo K. Desempenho gramatical de criança em desenvolvimento normal e com distúrbio específico de linguagem. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2007.); além de apresentar idade linguística (receptiva e/ou expressiva) abaixo da idade cronológica com base no Test of Early Language Development (TELD-3)(2323 Hresko W, Reid D, Hammill D. Test of Early Language Developmental (TELD). 3. ed. Austin: PRO-ED; 1999.) adaptado para o Português Brasileiro(2424 Giusti E, Befi-Lopes DM. Performance of Brazilian Portuguese and English speaking subjects on the test of early language development. Pro Fono. 2008;20(1):13-8. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-56872008000100003. PMid:18408858.
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).

Cabe destacar que, em decorrência da faixa etária, não foi possível realizar o teste de inteligência não verbal (QI não verbal), sendo assim não foram incluídas crianças com histórico de desenvolvimento neuropsicomotor alterado (atraso superior a seis meses em relação ao esperado no desenvolvimento típico para firmar a cabeça, sentar, andar e controlar esfíncteres). Entretanto, é possível mencionar que, como essas crianças estavam em acompanhamento fonoaudiológico ao completarem idade suficiente, todas realizaram avaliação para verificar seu rendimento intelectual e em todos os casos foi confirmado que não havia qualquer comprometimento.

O grupo com DTL foi composto por 60 pré-escolares com idade entre 2 e 4 anos (Tabela 1). A coleta de dados ocorreu em instituição de ensino infantil pública na cidade de São Paulo. O pareamento dos sujeitos ocorreu pela idade linguística expressiva, por exemplo, uma criança com AEL com idade linguística expressiva equivalente a 4 anos foi pareada a uma criança do grupo controle de 4 anos. No total 2 sujeitos tiveram idade linguística expressiva equivalente a 2 anos, 7 sujeitos tiveram idade linguística expressiva equivalente a 3 anos e 11 sujeitos tiveram idade linguística expressiva equivalente a 4 anos.

Materiais e procedimentos

Para a coleta dos dados, uma sala foi previamente preparada com uma filmadora em um tripé, com alguns brinquedos dispostos sobre um tapete. Durante a coleta, a criança foi encorajada a interagir com a fonoaudióloga por um período de 30 minutos. A fonoaudióloga avaliadora realizou perguntas abertas com o objetivo de propiciar a melhor situação de iniciativa comunicativa da criança.

Considerando as faixas etárias que foram estudadas e a necessidade de obtenção de fala espontânea, as amostras de fala foram coletadas em ambos os grupos a partir de situação de interação lúdica com os seguintes brinquedos: fazendinha com animais, meios de transporte, alimentos, utensílios de cozinha e dois bonecos. Além dos brinquedos, foi utilizada filmadora digital para registro da interação.

Vale ressaltar que, no caso das crianças com AEL, a interação ocorreu com a fonoaudióloga que acompanhava a criança, pois assim foi garantida uma situação de interação familiar. Já no grupo controle, a mesma pesquisadora interagiu com todas as crianças em ambiente educacional, porém, antes da coleta de dados, tal pesquisadora já havia interagido com todos os sujeitos e, portanto, já lhes era familiar(66 Befi-Lopes DM, Cáceres AM, Araújo K. Aquisição de verbos em pré-escolares falantes do português brasileiro. Revista CEFAC. 2007;9(4):444-52. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462007000400003.
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). Todos os fonoaudiólogos receberam o mesmo treinamento e foram supervisionados por uma das autoras para a coleta das amostras de fala.

Dos dados coletados, foram transcritos 100 segmentos do período de maior interação comunicativa estabelecida pelos sujeitos, dentre os 30 minutos registrados, conforme proposto por Brown(2525 Brown R. A first language: the Early Stages. Cambridge: Harvard University Press; 1973. http://dx.doi.org/10.4159/harvard.9780674732469.
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). Depois da transcrição, todos os substantivos e verbos presentes na amostra de fala selecionada foram tabulados. Todos os verbos presentes foram classificados, de acordo com a classificação de Lima(2626 Lima R. Gramática normativa da Língua Portuguesa. 22. ed: José Olympio; 1982.), em intransitivos, transitivos diretos, transitivos indiretos, transitivos relativos, transitivos circunstanciais e bitransitivos.

É importante ressaltar que a classificação dos verbos se deu de acordo com o uso determinado por cada falante. Assim, mesmo que um verbo tivesse classificação de transitivo direto, se ele fosse utilizado sem nenhum complemento verbal, seria classificado como intransitivo. Do mesmo modo, um verbo transitivo indireto utilizado com um complemento verbal sem preposição seria classificado como transitivo direto.

Análise dos dados

Os dados devidamente tabulados foram encaminhados para tratamento estatístico no software SPSS 18 (tipo de distribuição, análise descritiva e inferencial). A distribuição dos dados respeitou a normalidade apenas no grupo com AEL, portanto, para as comparações intragrupo entre o número de substantivos e verbos, foi utilizado o teste t pareado e, para as análises entre os grupos, foi utilizado o teste de Mann-Whitney. O nível de significância adotado foi de 5% e os resultados significantes foram assinalados com asterisco.

RESULTADOS

Uso de substantivos e verbos

Os pré-escolares com AEL utilizaram mais verbos do que substantivos em suas produções (Gráfico 1). A comparação entre o desempenho dos sujeitos com AEL e com DTL revelou que o uso de substantivos não se distingue nestes grupos independentemente da idade linguística expressiva. Já para o uso de verbos, não houve distinção nos subgrupos de 2 e 4 anos, mas os sujeitos de 3 anos com AEL produziram mais verbos do que seus pares (Tabela 2).

Gráfico 1
Comparação do uso de substantivos e verbos no grupo com AEL
Tabela 2
Comparação do uso de cada tipo de palavra entre os grupos pareados por idade linguística expressiva

Tipos de verbos usados

Os tipos de verbos mais utilizados pelos pré-escolares com AEL foram: intransitivo, de ligação e transitivo direto (Gráfico 2).

Gráfico 2
Média do uso de cada tipo de verbo no grupo com AEL

A comparação entre os sujeitos com AEL e com DTL para o uso dos tipos de verbos não indicou diferença nos intransitivos, transitivos indiretos, transitivos relativos e transobjetivos produzidos para nenhuma idade. Mas os sujeitos com AEL utilizaram mais o verbo transitivo direto que seus pares aos 2 e 3 anos; o bitransitivo aos 3 e 4 anos; e o verbo de ligação aos 4 anos. Por fim, os sujeitos com DTL utilizaram mais o verbo transitivo circunstancial que seus pares em todas as idades (Tabela 3).

Tabela 3
Comparação do uso de cada tipo de verbo entre os grupos pareados por idade linguística expressiva

DISCUSSÃO

O objetivo principal deste estudo foi comparar o uso de substantivos e verbos utilizados por pré-escolares com alterações específicas de linguagem, além de comparar seu desempenho ao de seus pares em desenvolvimento típico.

Com relação à comparação quantitativa entre substantivos e verbos utilizados pelos sujeitos com AEL, os resultados demonstram que os pré-escolares com alteração de linguagem utilizaram mais verbos do que substantivos em suas produções (Gráfico 1). Esse achado difere dos resultados obtidos em estudos internacionais, uma vez que os sujeitos com alteração de linguagem falantes do Inglês apresentaram melhor desempenho no uso de nomes do que de verbos(55 Johnson VE, Villiers JG. Syntactic frames in fast mapping verbs: effect of age, dialect, and clinical status. J Speech Lang Hear Res. 2009;52(3):610-22. http://dx.doi.org/10.1044/1092-4388(2008/07-0135). PMid:19474395.
http://dx.doi.org/10.1044/1092-4388(2008...
,1313 Conti-Ramsden G, Windfuhr K. Productivity with word order and morphology: a comparative look at children with SLI and children with normal language abilities. Int J Lang Commun Disord. 2002;37(1):17-30. http://dx.doi.org/10.1080/13682820110089380. PMid:11852456.
http://dx.doi.org/10.1080/13682820110089...
,1818 Andreu L, Sanz-Torrent M, Guàrdia-Olmos J. Auditory word recognition of nouns and verbs in children with Specific Language Impairment (SLI). J Commun Disord. 2012;45(1):20-34. http://dx.doi.org/10.1016/j.jcomdis.2011.09.003. PMid:22055614.
http://dx.doi.org/10.1016/j.jcomdis.2011...
,2727 Kambanaros M. Does verb type affect action naming in specific language impairment (SLI)? Evidence from instrumentality and name relation. J Neurolinguist. 2012;26(1):160-77. http://dx.doi.org/10.1016/j.jneuroling.2012.07.003.
http://dx.doi.org/10.1016/j.jneuroling.2...
).

As crianças com AEL falantes do Inglês possuem aprendizado mais lento para os verbos(1313 Conti-Ramsden G, Windfuhr K. Productivity with word order and morphology: a comparative look at children with SLI and children with normal language abilities. Int J Lang Commun Disord. 2002;37(1):17-30. http://dx.doi.org/10.1080/13682820110089380. PMid:11852456.
http://dx.doi.org/10.1080/13682820110089...
), além de dificuldade no seu mapeamento rápido(55 Johnson VE, Villiers JG. Syntactic frames in fast mapping verbs: effect of age, dialect, and clinical status. J Speech Lang Hear Res. 2009;52(3):610-22. http://dx.doi.org/10.1044/1092-4388(2008/07-0135). PMid:19474395.
http://dx.doi.org/10.1044/1092-4388(2008...
) e processamento linguístico(1818 Andreu L, Sanz-Torrent M, Guàrdia-Olmos J. Auditory word recognition of nouns and verbs in children with Specific Language Impairment (SLI). J Commun Disord. 2012;45(1):20-34. http://dx.doi.org/10.1016/j.jcomdis.2011.09.003. PMid:22055614.
http://dx.doi.org/10.1016/j.jcomdis.2011...
). Contudo, essas diferenças podem ser decorrentes da língua falada, já que nossos achados reproduzem o que foi observado em pré-escolares brasileiros em desenvolvimento típico(66 Befi-Lopes DM, Cáceres AM, Araújo K. Aquisição de verbos em pré-escolares falantes do português brasileiro. Revista CEFAC. 2007;9(4):444-52. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462007000400003.
http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462007...
).

Comparando os sujeitos com AEL e seus pares por idade linguística expressiva quanto ao uso de substantivos, é interessante notar que não foram encontradas diferenças (Tabela 2). Isso demonstra que o grupo com AEL utiliza os substantivos da mesma forma que seus pares, embora de maneira mais lentificada, como é característico dessa alteração de linguagem(44 Araujo K. Desempenho gramatical de criança em desenvolvimento normal e com distúrbio específico de linguagem. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2007.). Nesse sentido, é importante acentuar que os sujeitos do grupo com AEL tinham maior idade cronológica que seus pares, o que comprova esse atraso.

Já quando essa comparação considerou os verbos não houve distinção nos subgrupos de 2 e 4 anos, mas, no de 3 anos, os sujeitos com AEL produziram mais verbos do que seus pares (Tabela 2). Os sujeitos com AEL possuem um gap entre suas idades cronológica e linguística, de modo que, embora pareados pela linguagem expressiva, possuem maior vivência de exposição à língua, e por isso podem ter utilizado mais verbos que seus pares linguísticos. Além disso, considerando sua idade cronológica avançada, é possível que eles tenham tido menos uniformidade em seu desenvolvimento linguístico, de modo que diferenças pontuais como estas seriam compreensíveis.

Estes achados podem divergir de resultados da língua inglesa, pois seus verbos são estanques, sofrendo poucas variações com relação à pessoa, tempo e modo verbal. Já os verbos do Português Brasileiro, e das línguas romanas em geral, apresentam, por outro lado, muitas variações de tempo, modo, número e pessoa(1919 Sanz-Torrent M, Serrat E, Andreu L, Serra M. Verb morphology in Catalan and Spanish in children with specific language impairment: a developmental study. Clin Linguist Phon. 2008;22(6):459-74. http://dx.doi.org/10.1080/02699200801892959. PMid:18484285.
http://dx.doi.org/10.1080/02699200801892...
). Tais variações permitem que um mesmo verbo seja exposto de diferentes formas aos falantes, e quanto maior a frequência de um verbo no estímulo, mais e com maior flexibilidade ele pode aparecer na fala da criança, beneficiando seu aprendizado(66 Befi-Lopes DM, Cáceres AM, Araújo K. Aquisição de verbos em pré-escolares falantes do português brasileiro. Revista CEFAC. 2007;9(4):444-52. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462007000400003.
http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462007...
).

Com relação à classificação dos tipos de verbos produzidos pelos pré-escolares com AEL, foi possível observar que os verbos mais utilizados foram o intransitivo, o de ligação e o transitivo direto (Gráfico 2). Nossos resultados concordam com achados internacionais do Inglês sobre a dificuldade relacionada ao uso de argumentos verbais por sujeitos com AEL(1010 Pizzioli F, Schelstraete MA. The argument-structure complexity effect in children with specific language impairment: evidence from the use of grammatical morphemes in French. J Speech Lang Hear Res. 2008;51(3):706-21. http://dx.doi.org/10.1044/1092-4388(2008/050). PMid:18506045.
http://dx.doi.org/10.1044/1092-4388(2008...
,1919 Sanz-Torrent M, Serrat E, Andreu L, Serra M. Verb morphology in Catalan and Spanish in children with specific language impairment: a developmental study. Clin Linguist Phon. 2008;22(6):459-74. http://dx.doi.org/10.1080/02699200801892959. PMid:18484285.
http://dx.doi.org/10.1080/02699200801892...
,2020 Arndt KB, Schuele CM. Production of infinitival complements by children with specific language impairment. Clin Linguist Phon. 2012;26(1):1-17. http://dx.doi.org/10.3109/02699206.2011.584137. PMid:21728831.
http://dx.doi.org/10.3109/02699206.2011....
,2828 Skipp A, Windfuhr KL, Conti-Ramsden G. Children’s grammatical categories of verb and noun: a comparative look at children with specific language impairment (SLI) and normal language (NL). Int J Lang Commun Disord. 2002;37(3):253-71. http://dx.doi.org/10.1080/13682820110119214. PMid:12201977.
http://dx.doi.org/10.1080/13682820110119...
). As crianças com AEL utilizam verbos omitindo seus argumentos, pois sua aprendizagem é difícil e está relacionada à complexidade verbal(2828 Skipp A, Windfuhr KL, Conti-Ramsden G. Children’s grammatical categories of verb and noun: a comparative look at children with specific language impairment (SLI) and normal language (NL). Int J Lang Commun Disord. 2002;37(3):253-71. http://dx.doi.org/10.1080/13682820110119214. PMid:12201977.
http://dx.doi.org/10.1080/13682820110119...
,2929 Grela BG. The omission of subject arguments in children with specific language impairment. Clin Linguist Phon. 2003;17(2):153-69. http://dx.doi.org/10.1080/0269920031000061812. PMid:12762209.
http://dx.doi.org/10.1080/02699200310000...
).

Comparando-se os sujeitos com AEL com seus pares por idade linguística expressiva, observamos diferenças pontuais: maior uso do verbo transitivo direto aos 2 e 3 anos, do bitransitivo aos 3 e 4 anos, e do verbo de ligação aos 4 anos por sujeitos com AEL (Tabela 3). Novamente o gap entre suas idades cronológica e linguística pode ter contribuído para essas diferenças, especialmente no caso do verbo de ligação, é possível que os sujeitos com idade linguística de quatro anos já tenham percebido que este tipo de verbo é de uso simples, e por isso o utilizem com mais frequência.

Porém, para o verbo transitivo circunstancial, o padrão oposto foi observado em todas as idades, ou seja, o grupo sem alteração de linguagem utilizou mais este tipo de verbo do que as crianças com AEL (Tabela 3). Como este tipo de verbo requer um complemento que pode ser ou não preposicional, seu uso exige mais habilidade linguística na estruturação gramatical por parte do falante, o que pode justificar o menor uso pelos sujeitos com AEL(2626 Lima R. Gramática normativa da Língua Portuguesa. 22. ed: José Olympio; 1982.).

Em síntese, observamos a omissão de complementos verbais com frequência, fator responsável pelo grande número de verbos intransitivos por falante. Isto pode nos dar mostras da dificuldade na estruturação gramatical vivenciada pelo sujeitos com AEL. Sendo o verbo uma classe de palavras com valor sintático e semântico significativo, nossos sujeitos podem ter reduzido suas sentenças ao seu uso, que em si já expressa significado, mas que requer menos refinamento linguístico. Assim, eles podem ter optado pelos verbos cuja utilização seja mais simples, considerando que os intransitivos não necessitam de argumento verbal; que os transitivos diretos, apesar de necessitarem de argumento, não requerem a utilização de preposições - uma classe de palavras que em si já denota dificuldade aos sujeitos com AEL por ser pouco concreta(3030 Puglisi ML, Befi-Lopes DM, Takiuchi N. Utilização e compreensão de preposições por crianças com distúrbio específico de linguagem. Pró-Fono. 2005;17(3):331-44. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-56872005000300007. PMid:16389790.
http://dx.doi.org/10.1590/S0104-56872005...
); e os verbos de ligação, por sua vez, possuem apenas a função de relacionar o predicado com o sujeito.

É importante ressaltar que alguns fatores podem ter limitado os resultados de nosso estudo. A tarefa composta por fala espontânea permitiu verificar o uso funcional da linguagem e das classes gramaticais de substantivos e verbos por sujeitos com AEL, demonstrando suas habilidades línguísticas e comunicativas reais. Entretanto, também contribuiu para questionamentos envolvendo o contexto, como possível influenciador das omissões de argumentos verbais. Desse modo, replicar o estudo com uma tarefa mais direcionada à complementação verbal pode ser útil e esclarecedor aos nossos propósitos, apesar de a fala espontânea ser, em si, uma mostra importante sobre o uso efetivo da linguagem, e de grande valor, do ponto de vista de sua avaliação e reabilitação.

Além disso, nosso estudo contou com um número restrito de sujeitos com AEL, que, quando subdividido pela idade da linguagem expressiva, transformou-se em amostras ainda menores. Cientes desse fator, salientamos que, embora nossos resultados estatísticos sejam fidedignos, uma amostra maior poderia nos dar indícios mais robustos para o estudo do desenvolvimento de linguagem, aquisição e uso de verbos por crianças com AEL.

Entretanto, ressaltamos a validade de nossos achados à prática clínica fonoaudiológica, pois esta análise nos fornece de maneira clara e objetiva indícios importantes sobre o uso funcional da linguagem, e permite quantificações precisas acerca desses diferentes tipos de palavras no encadeamento da fala espontânea. Do mesmo modo, torna-se possível traçar estratégias terapêuticas voltadas à morfossintaxe baseando-se na idade linguística expressiva de cada sujeito, e seguindo o padrão esperado ao desenvolvimento típico nesse mesmo estágio.

Por fim, afim de investigar mais a fundo a produção e o uso gramatical de verbos, sugerimos estudos futuros com análises a respeito da variabilidade da produção verbal por sujeitos com AEL. Acreditamos que assim será possível inferir com mais propriedade a respeito da interferência do tempo de vivência linguística no uso de verbos, bem como se a quantidade de verbos produzidos por sujeito pode ser indicativa de maior ou menor maturidade linguística.

CONCLUSÃO

Os pré-escolares com alterações específicas de linguagem falantes do Português Brasileiro utilizaram mais verbos do que substantivos em atividade de fala espontânea. O uso de substantivos não diferiu entre o grupo com AEL e seus pares em desenvolvimento típico, porém o uso de verbos aos 3 anos foi maior no grupo com AEL.

Com relação aos tipos de verbos, os sujeitos com AEL utilizaram com maior frequência os verbos de ligação, intransitivo e transitivo direto. A comparação entre os grupos, neste aspecto, indicou diferenças pontuais para os verbos transitivo direto, bitransitivo e de ligação; apenas o verbo transitivo circunstancial foi mais utilizado pelos sujeitos em DTL para todas as idades.

  • Trabalho realizado no Laboratório de Investigação Fonoaudiológica em Desenvolvimento da Linguagem e suas Alterações do Curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – USP - São Paulo (SP), Brasil.
  • Fonte de financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) - processo No. 2013/07032-5.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Ago 2016

Histórico

  • Recebido
    24 Mar 2015
  • Aceito
    29 Out 2015
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