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Análise dos fatores relacionados a 60 casos de distocia em ovelhas no Agreste e Sertão de Pernambuco

Analysis of factors related to 60 dystocia cases in ewes in the Agreste and semiarid region of Pernambuco, Northeastern Brazil

Resumos

O presente trabalho objetiva relatar os principais tipos de distocias em ovelhas, no Agreste e Sertão de Pernambuco, e avaliar alguns fatores relacionados com sua ocorrência, bem como determinar a eficiência dos tratamentos utilizados. A maior incidência de partos distócicos ocorreu na estação chuvosa, com 61,7% dos casos. Os resultados mostraram predominância de distocias de origem materna (71,6%) sobre a fetal (29,4%), com maior incidência em ovelhas primíparas da raça Santa Inês, com gestações gemelares. A principal distocia materna foi a ausência ou dilatação cervical insuficiente, e fetal, a má disposição na apresentação anterior. A taxa de sobrevivência das mães correspondeu a 100 e 88,6%, enquanto das crias alcançou 41,2 e 46,7%, após manobra obstétrica e cesariana, respectivamente, com predominância de cordeiros inviáveis em ambos os procedimentos. As manobras obstétricas e a cesariana pelo flanco esquerdo permanecem opções seguras para o tratamento de distocias em ovelhas, sendo ainda importantes coadjuvantes, minimizando o impacto econômico causado por essa enfermidade em Pernambuco.

causas de distocia; mortalidade de cordeiros; mortalidade de ovelhas; manobra obstétrica; ovinocultura


The aim of the present study was to report the main dystocia causes in sheep in Agreste and semiarid region of Pernambuco and to evaluate some factors related to their occurrence, besides of determining the efficiency of the treatment choices. The higher incidence of dystocia occurred in rainy season corresponding to 61.7%. Results showed a major predominance of maternal dystocia (71.6%) over fetal dystocia (29.4%) with higher incidence in primiparous and gemelar pregnant Santa Inês ewes. The main maternal dystocia was ringwomb while fetal dystocia was maldisposition in anterior presentation. Maternal survival rate correspond to 100% and 88.6%, while lambs achieved 41.2% and 46.7% after obstetrical maneuver and caesarean section, respectively, with predominance of unviable lambs in both procedures. Obstetrical maneuver and left flank cesarean section remain as safe options for the treatment of sheep dystocia and are also important coadjutants in minimizing the economical impact that this disease causes in Pernambuco.

dystocia causes; ewe mortality; lamb mortality; obstetrical maneuver; sheep production


ARTIGOS CIENTÍFICOS

CLÍNICA E CIRURGIA

Análise dos fatores relacionados a 60 casos de distocia em ovelhas no Agreste e Sertão de Pernambuco

Analysis of factors related to 60 dystocia cases in ewes in the Agreste and semiarid region of Pernambuco, Northeastern Brazil

Antônio Carlos Lopes CâmaraI,1 1 Autor para correspondência. ; José Augusto Bastos AfonsoII; Alexandre Cruz DantasII; Janaina Azevedo GuimarãesII; Nivaldo de Azevêdo CostaII; Maria Isabel de SouzaII; Carla Lopes de MendonçaII

IHospital Veterinário, Setor de Grandes Animais, Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), BR 110, Km 47, Costa e Silva, 50625-900, Mossoró, RN, Brasil. E-mail: aclcamara@yahoo.com.br

IIClínica de Bovinos, Campus Garanhuns, Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Garanhuns, PE, Brasil

RESUMO

O presente trabalho objetiva relatar os principais tipos de distocias em ovelhas, no Agreste e Sertão de Pernambuco, e avaliar alguns fatores relacionados com sua ocorrência, bem como determinar a eficiência dos tratamentos utilizados. A maior incidência de partos distócicos ocorreu na estação chuvosa, com 61,7% dos casos. Os resultados mostraram predominância de distocias de origem materna (71,6%) sobre a fetal (29,4%), com maior incidência em ovelhas primíparas da raça Santa Inês, com gestações gemelares. A principal distocia materna foi a ausência ou dilatação cervical insuficiente, e fetal, a má disposição na apresentação anterior. A taxa de sobrevivência das mães correspondeu a 100 e 88,6%, enquanto das crias alcançou 41,2 e 46,7%, após manobra obstétrica e cesariana, respectivamente, com predominância de cordeiros inviáveis em ambos os procedimentos. As manobras obstétricas e a cesariana pelo flanco esquerdo permanecem opções seguras para o tratamento de distocias em ovelhas, sendo ainda importantes coadjuvantes, minimizando o impacto econômico causado por essa enfermidade em Pernambuco.

Palavras-chave: causas de distocia, mortalidade de cordeiros, mortalidade de ovelhas, manobra obstétrica, ovinocultura.

ABSTRACT

The aim of the present study was to report the main dystocia causes in sheep in Agreste and semiarid region of Pernambuco and to evaluate some factors related to their occurrence, besides of determining the efficiency of the treatment choices. The higher incidence of dystocia occurred in rainy season corresponding to 61.7%. Results showed a major predominance of maternal dystocia (71.6%) over fetal dystocia (29.4%) with higher incidence in primiparous and gemelar pregnant Santa Inês ewes. The main maternal dystocia was ringwomb while fetal dystocia was maldisposition in anterior presentation. Maternal survival rate correspond to 100% and 88.6%, while lambs achieved 41.2% and 46.7% after obstetrical maneuver and caesarean section, respectively, with predominance of unviable lambs in both procedures. Obstetrical maneuver and left flank cesarean section remain as safe options for the treatment of sheep dystocia and are also important coadjutants in minimizing the economical impact that this disease causes in Pernambuco.

Key words: dystocia causes, ewe mortality, lamb mortality, obstetrical maneuver, sheep production.

INTRODUÇÃO

A região Nordeste possui grande tradição na ovinocultura, com aproximadamente 56% do rebanho brasileiro, constituindo cerca de 9,11 milhões de animais (MAPA, 2006), com marcante presença de raças de dupla aptidão para produção de carne e couro (Santa Inês, Morada Nova, Somalis Brasileira, Dorper, Cariri e Rabo Largo). Entretanto, o maior contingente é composto por animais Sem Raça Definida (MORAIS, 2000). O Estado de Pernambuco possui em torno de 1,06 milhões de ovinos (MAPA, 2006), sendo observado o crescente interesse em rebanhos de elite para melhoramento genético de algumas raças, principalmente a Santa Inês (MORAIS, 2000).

A mortalidade perinatal é considerada uma das principais causas de redução de produtividade na ovinocultura (RIET-CORREA, 2007). Vários são os fatores envolvidos, atuando individualmente ou relacionados entre si, incluindo microorganismos causadores de mortalidade fetal e abortos; idade da mãe; comportamento materno e da cria; defeitos congênitos; animais predadores; infecções neonatais; concentração de imunoglobulinas séricas e deficiências nutricionais (complexo inanição/hipotermia); condições ambientais adversas, que causam a morte como consequência da falta de adaptação do recém-nascido às novas condições de vida, e as distocias (BINNS et al., 2002; CHRISTLEY et al., 2003; NÓBREGA JR et al., 2005; RIET-CORREA, 2007).

A distocia tem sido relatada como o principal fator envolvido na morte de ovelhas e cordeiros no período periparturiente, podendo aumentar a taxa de mortalidade perinatal de cordeiros, alcançando 60% (SCOTT & GESSERT, 1996). Segundo ROBERTS (1971), as causas básicas de distocia podem ser de ordem: hereditária, nutricional, manejo, infecciosa, traumática ou causas combinadas. Tradicionalmente, as distocias são divididas naquelas que primariamente são de origem fetal e/ou materna. Frequentemente, a distinção não é muito evidente e um problema pode dar origem ao outro (NOAKES et al., 2002). Dentre as principais distocias que acometem ovelhas, destacam-se a má disposição fetal, a obstrução do canal do parto, a desproporção feto-pélvica, os monstros e/ou as anormalidades fetais (JACKSON, 2006), existindo ainda relatos de hidroalantoide (MAJEED et al., 1993) e ruptura do tendão pré-púbico (SCOTT, 1989).

As complicações obstétricas causam significativas perdas econômicas na espécie ovina (MAJEED & TAHA, 1995) e bovina (MEE, 2008), decorrentes da mortalidade de matrizes e neonatos. No Brasil, estudos realizados nos Estados do Rio Grande do Sul e São Paulo consideraram a distocia a segunda maior causa de mortalidade de cordeiros, variando entre 10 e 22% (MÉNDEZ et al., 1982; RIET-CORREA, 2007). Na região Nordeste, as distocias estão associadas à falha no manejo reprodutivo decorrente da inexistência de estação de monta, com a presença do macho junto das fêmeas durante todo o ano. Isso impede a concentração das parições e dificulta a supervisão do parto, além de permitir a cobertura de fêmeas que não atingiram a maturidade reprodutiva, o que compromete o desenvolvimento da pelve, predispondo aos partos distócicos (RIET-CORREA, 2007).

A literatura nacional é escassa com relação às informações sobre a prevalência da distocia em ovinos. Todavia, a casuística na Clínica de Bovinos, Campus Garanhuns da Universidade Federal Rural de Pernambuco, mostra a importância dessa complicação obstétrica, já que das 607 ovelhas atendidas entre os anos de 2000 e 2007, 60 fêmeas (9,88%) apresentaram distocia. Dessa forma, este estudo foi realizado com os objetivos de relatar os tipos de distocias em ovelhas, no Agreste e Sertão de Pernambuco, e alguns fatores relacionados com sua ocorrência, bem como determinar a eficiência dos tratamentos.

MATERIAL E MÉTODOS

As informações foram obtidas a partir das fichas de acompanhamento clínico de 60 fêmeas ovinas com histórico de complicações obstétricas oriundas de Municípios do Agreste e Sertão de Pernambuco e atendidas na Clínica de Bovinos, Campus Garanhuns da Universidade Federal Rural de Pernambuco (CBG-UFRPE), no período de janeiro de 2000 a dezembro de 2007.

Os animais foram examinados clinicamente segundo DIFFAY et al. (2005). Os casos foram classificados como distocia de origem materna ou fetal e, naqueles em que não foi possível a resolução por meio da manobra obstétrica, optou-se pela cesariana pelo flanco esquerdo de acordo com TIBARY & VAN METRE (2004).

Nos casos solucionados por meio de manobras obstétricas, os animais receberam alta clínica concomitante e cobertura antibiótica na propriedade (oxitetraciclina LAa; 20mg kg-1; via intramuscular [IM]; 72/72 horas; duas doses). Os casos cirúrgicos permaneceram internos para acompanhamento pós-operatório com instituição de terapia composta por antibiótico (oxitetraciclina LA; 20mg kg-1; IM; 72/72 horas; três doses) e anti-inflamatório não esteroidal (fenilbutazonab; 4mg kg-1; via intravenosa [IV]; 24/24 horas; duas doses). Nas fêmeas portando fetos enfisematosos ou em autólise, foram empregados no trans e no pós-operatório: enrofloxacinac (2,5mg kg-1; IM; 24/24 horas; sete doses), flunixim meglumined (2,2mg kg-1; IV; 24/24 horas; cinco doses) e correção do desequilíbrio hídrico-eletrolítico. Após o procedimento cirúrgico, nas ovelhas com ausência de dilatação cervical, foi também administrado cipionato de estradiole (2mg; IM) e, 12 horas após o uso desse medicamento, institui-se terapia com prostaglandinas sintéticasf (cloprostenol sódico; 100mcg; IM; 72/72 horas; duas doses). A resposta ao tratamento hormonal foi considerada boa, quando os animais não apresentaram complicações, como anorexia, febre e endotoxemia. Durante o tempo de internamento, a alimentação era à base de forragem de qualidade (capim elefante cortado em fibras de 10cm de comprimento e Tifton), 200g de concentrado comercial por ovelha e água ad libitum. Em alguns animais (n=16), foi realizado o exame parasitológico de fezes, utilizando o método de flutuação, segundo descrição de ZAJAC (2006).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os principais tipos de distocia são apresentados na tabela 1. Do total de 60 ovelhas, foi verificado que 43 casos representavam distocias de origem materna, enquanto 17 ovelhas apresentavam distocias fetais. As principais causas de distocias maternas foram a ausência ou dilatação cervical insuficiente (ADCI), ausência de dilatação cervical associada ao prolapso vaginal e a inércia uterina, correspondendo a 36, quatro e três casos, respectivamente. Todas as distocias de origem fetal foram decorrentes de alterações de apresentação e atitude, sendo observada a maior frequência de casos com desvio lateral de cabeça e pescoço (n=6); seguida pela flexão de carpo e/ou ombro (n=4); flexão de tarso (n=3); apresentação simultânea (n=3) e flexão esternal de cabeça (n=1). Os achados discordam da literatura que afirma a maior ocorrência de distocias fetais sobre as maternas (TAHA et al., 1987; THOMAS, 1990; MAJEED et al., 1993; MAJEED & TAHA, 1995; JACKSON, 2006).

A maior casuística de distocias maternas pode ser decorrente da apresentação simultânea de mais de um feto, alterando a distribuição e pressão na cérvix e provavelmente influenciando sua dilatação (THOMAS, 1990), já que 76,7% dos casos devido à ADCI apresentavam gestações gemelares. O presente estudo corrobora relatos anteriores que citam a ADCI como a causa mais importante de cirurgia obstétrica em ovinos (TAHA et al., 1987; SCOTT, 1989; THOMAS, 1990; MAJEED et al., 1993; MAJEED & TAHA, 1995; JACKSON, 2006). A dilatação cervical insuficiente, associada ao prolapso de vagina, apresentou prevalência similar às observadas por THOMAS (1990) e MAJEED et al. (1993), em que a condição física precária, as contrações excessivas na parição de fetos gêmeos e os possíveis desequilíbrios hormonais ou de cálcio e magnésio são fatores que influenciam a ocorrência dessa afecção. A inércia uterina primária foi um achado pouco frequente e é considerada relativamente incomum em ovelhas, podendo ser decorrente da hipocalcemia, de casos graves de toxemia da prenhez e/ou da exaustão da parturiente (JACKSON, 2006).

A má disposição fetal contribuiu com 100% da casuística de distocias fetais, confirmando a maior incidência dessa distocia na apresentação longitudinal anterior (TAHA et al., 1987; THOMAS, 1990; MAJEED & TAHA, 1995; JACKSON, 2006), com exceção da flexão esternal de cabeça que não é reportada em nenhum dos trabalhos revisados. SCOTT (1989) observou a desproporção feto-pélvica como a principal distocia fetal ocasionando cesarianas, fato não evidenciado neste trabalho. Acredita-se que, em ovelhas, assim como ocorre na espécie caprina, a alta incidência de partos múltiplos desfavorece a adequada estática fetal, ocasionando distocias (RIET-CORREA, 2007).

Alguns dados epidemiológicos, sexo fetal e resultados do exame parasitológico de fezes são apresentados na tabela 2. Foi observado que toda a casuística é oriunda da microrregião Agreste e Sertão, sendo esta a área de maior abrangência da CBG-UFRPE devido à relativa proximidade da entidade com as propriedades dessas regiões fisiográficas. O maior número de distocias ocorreu em ovinos da raça Santa Inês, com 39 casos, seguidos por fêmeas mestiças e da raça Dorper, com 20 e um caso, respectivamente, fato justificado pela predominância da raça na região e pelo aumento da criação de ovinos Santa Inês com alto valor zootécnico para melhoramento genético dos rebanhos no país (MORAIS, 2000). As ovelhas apresentaram maior risco de distocia durante a estação chuvosa (março a meados de setembro), em comparação com a estação seca (meados de setembro a fevereiro). Esses resultados mostram a ocorrência de partos durante todo o ano, comprovando o comportamento poliéstrico dessa espécie nos trópicos (HAFEZ & HAFEZ, 2004). Entretanto, a maior incidência de distocias na estação chuvosa é consequência da maior concentração de partos nessa época para melhor aproveitamento da oferta de forragem. Outro fator importante foi a alta contagem de ovos por gramas de fezes (OPG), sendo os nematoides gastrintestinais pertencentes às famílias Strongyloidea e Strongyloides os de maior relevância, com média de 4043 (100 a 14200) OPG entre os 16 casos analisados. Esse dado confirma que o parasitismo por nematoides gastrintestinais permanece como um dos fatores limitantes da ovinocaprinocultura mundial (ZAJAC, 2006). Esse resultado, associado ao fato de que todas as ovelhas submetidas ao exame parasitológico de fezes são pertencentes ao grupo de animais com escore corporal I (caquética) e II (magra), permite sugerir a correlação positiva entre alta infestação parasitária, baixo escore corporal e aumento do risco de complicações obstétricas. Entretanto, estudos estatísticos aprofundados são necessários a fim de comprovar tal hipótese.

Do total de 38 fichas clínicas que constavam o número de parto, 21 consistiram de primíparas e 17 eram ovelhas multíparas, enquanto os demais proprietários e tratadores não souberam informar tal dado. Pelo fato dos registros reprodutivos, como data de cobertura e número de partos, serem comumente ignorados em diversos criatórios nordestinos, a ausência dessas informações em 22 casos poderia influenciar a distribuição dos casos nas categorias supracitadas (primíparas e multíparas). Assim, os dados disponíveis confirmam achados anteriores que também observaram a maior incidência de distocias em fêmeas primíparas (SCOTT, 1989; MAJEED et al., 1993; MAJEED & TAHA, 1995). Acredita-se que tal fato decorra da cobertura de fêmeas que não atingiram a maturidade reprodutiva, o que compromete o desenvolvimento da pelve, predispondo os partos distócicos (RIET-CORREA, 2007). Outro aspecto relevante é a existência de correlação positiva entre os diâmetros pélvicos e o número de partos em bovinos (OKUDA et al., 1994) e bubalinos (OLIVEIRA et al., 2001), enquanto não foi evidenciada tal correlação em ovinos (CLOETE et al., 1998).

No tocante à prolificidade, ocorreram 27 partos simples, 32 gemelares e um triplo, resultando no total de 94 cordeiros (43 machos e 51 fêmeas). Apesar de relatos sobre a maior incidência de distocia em ovelhas portando um feto macho de grandes proporções (MAJEED et al., 1993; MAJEED & TAHA, 1995), acredita-se que a casuística no Agreste e Sertão de Pernambuco decorra principalmente da considerável prevalência de partos múltiplos, predispondo a estática fetal inadequada (RIET-CORREA, 2007), e possivelmente associada a desequilíbrios hormonais ou minerais predispondo à ADCI (THOMAS, 1990; MAJEED et al., 1993).

A manobra obstétrica foi responsável pela obtenção de 34 cordeiros, enquanto os procedimentos cirúrgicos resultaram em 60 crias. Entretanto, observou-se viabilidade fetal de 42 cordeiros, enquanto os demais consistiram de natimortos, fetos enfisematosos ou em autólise, e abortos (Tabela 3). O índice de sobrevivência alcançou 41,2 e 46,7% após manobra obstétrica e cesariana, respectivamente. A alta taxa de mortalidade observada (34 fetos natimortos e oito enfisematosos/autólíticos) pode ser decorrente da conduta inapropriada e até mesmo danosa do proprietário, além da demora entre o início do trabalho de parto e a procura por atendimento clínico adequado (MAJEED et al., 1993; NOAKES et al., 2002). As causas de abortos não foram diagnosticadas. Entretanto, supõe-se que o precário manejo sanitário e nutricional instituído em algumas propriedades possua papel importante na etiologia dos abortos em ovelhas.

Após dividir os 40 casos que necessitaram de intervenção cirúrgica (todas distocias de origem materna), é obtido um primeiro grupo composto por 35 ovelhas que apresentaram fetos vivos ou recentemente morto e um segundo grupo formado por cinco animais que portavam fetos enfisematosos ou em autólise. O total de ovelhas que receberam alta clínica no primeiro grupo foi de 31 animais, com redução para duas fêmeas no segundo grupo, alcançando índices de sobrevivência de 88,6 e 40%, respectivamente. Os resultados são inferiores aos obtidos por SCOTT (1989) e MAJEED et al. (1993), que relataram taxas de sobrevivência variando de 95 a 97,8%, enquanto esta decrescia para 57,1% quando presentes fetos em moderado ou avançado estado de autólise (SCOTT, 1989). A diferença acentuada entre as taxas de sobrevivência pode ser justificada pela possível drenagem por meio da linha de sutura, devido ao retardo da involução uterina, causada por dano tóxico ao miométrio, resultando em peritonite aguda ou crônica (SCOTT, 1989), além do precário estado corporal e quadro endotóxico apresentado por algumas ovelhas. Todas as 33 ovelhas receberam alta clínica no 8o dia pós-operatório, depois de retirada da sutura. O tratamento hormonal utilizado nas fêmeas com ADCI, com o intuito de promover a dilatação cervical e as subsequentes contrações uterinas para expulsão dos anexos fetais remanescentes, apresentou boa eficácia, pois os únicos casos que apresentaram anorexia, febre e/ou endotoxemia foram as ovelhas que portavam fetos enfisematosos ou em autólise (n=5). Outros autores citam índices de sucesso de 67,5 e 91,6% no tratamento da retenção de placenta, utilizando o benzoato de estradiol (2mg; IM) associado à ocitocina (20UI; IM) e prostaglandina F2α(10mg; IM), respectivamente, em doses únicas (MAJEED & TAHA, 1995).

As manobras obstétricas foram realizadas em 20 casos (17 de origem fetal e três maternas), com 100% de sobrevivência das mães, confirmando que a maioria das distocias ovinas envolvendo anormalidades de apresentação ou atitude fetal pode ser corrigida com manipulação cuidadosa (SCOTT & GESSERT, 1996). A fetotomia parcial foi requerida em apenas um caso, no qual o feto mal disposto estava morto e não era passível de movimentação, fato também observado por JACKSON (2006), que descreve a utilização dessa técnica na mesma circunstância ou quando há monstros fetais.

Foi verificado que, durante o período estudado, 9,88% da casuística da clínica médica de ovinos na CBG-UFRPE foram atribuídos à distocia. Considerando-se a população ovina em Pernambuco de aproximadamente 1,06 milhões de cabeças (MAPA, 2006), das quais, hipoteticamente, 50% correspondem a fêmeas, obtem-se então o montante de 503 mil ovelhas, das quais 49,6 mil são acometidas em cada estação de parição pela distocia. Considerando ainda o índice de mortalidade de 11,6% obtido no presente estudo (7/60), é estimada a perda de aproximadamente 5.750 matrizes/estação de parição. A partir desses dados, pode-se concluir que a distocia é um importante fator de perda econômica no Estado, resultando em prejuízo anual aproximado de 1,2 milhões de reais (considerando duas estações de parição por ano e um valor médio de R$ 105,00 por ovelha, equivalente a uma fêmea adulta de 35kg vendida a R$ 3,00 o quilo de peso vivo). Outro aspecto relevante é a importância da distocia em animais de alto valor zootécnico e nos índices de mortalidade perinatal, que alcançam até 22% de mortalidade de cordeiros em alguns Estados brasileiros (MÉNDEZ et al., 1982; NÓBREGA JR et al., 2005; RIET-CORREA, 2007).

CONCLUSÕES

A ausência ou dilatação cervical insuficiente apresentou-se como a principal causa de distocia materna e cirurgia obstétrica nas ovelhas analisadas, enquanto todas as distocias de origem fetal puderam ser corrigidas por meio de manobras obstétricas. As manobras obstétricas e a cesariana pelo flanco esquerdo permanecem como métodos seguros para o tratamento de distocias em ovelhas, além de também serem importantes coadjuvantes, minimizando o impacto econômico causado por essa enfermidade em Pernambuco.

FONTES DE AQUISIÇÃO

a-Terramicina LA - Pfizer - Guarulhos - SP.

b-Equipalazone - Marcolab - Duque de Caxias - RJ.

c-Iflox 10% - Hipra - Amer - Espanha.

d-Banamine - Schering-Plough Coopers - Cotia - SP.

e-ECP - Pfizer - Guarulhos - SP.

f-Ciosin - Schering-Plough-Coppers - Cotia - SP.

Recebido para publicação 28.11.08

Aprovado em 19.07.09

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    Autor para correspondência.
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      09 Out 2009
    • Data do Fascículo
      Nov 2009

    Histórico

    • Recebido
      28 Nov 2008
    • Aceito
      19 Jul 2009
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