Open-access Mais do Mesmo?: uma década depois, um debate ampliado

Há pouco mais de uma década, CSP publicou um editorial cujo título era Mais do Mesmo?1. Naquele momento, dedicamos o artigo ao uso quase obrigatório dos mesmos métodos e modelos na área de epidemiologia. No cenário atual, ao retomarmos esse debate, reconhecemos que o problema é mais amplo e está presente nas três áreas que compõem o campo da Saúde Coletiva.

Embora o avanço científico dependa da confirmação independente de achados e do compromisso com a reprodutibilidade para a construção de evidências sólidas 2, o fenômeno do mais do mesmo opera em uma lógica distinta 2. Ele não fortalece o conhecimento, apenas replica o que já é consensual, sem oferecer o aporte original ou a densidade analítica indispensável para o progresso do campo. São artigos que nada aportam de novo ao que já é consagrado e, por esta razão, tendem a ser rapidamente esquecidos. Em última análise, o mais do mesmo abdica do esforço de propor novas perguntas, tensionar interpretações ou explorar caminhos metodológicos originais, resultando em uma ciência que eventualmente pode preencher lacunas de informação, mas falha em gerar novos sentidos para a Saúde Coletiva. Mais do mesmo é, fundamentalmente, uma inércia intelectual.

Em grande medida, o problema se manifesta na aplicação mecânica de métodos e técnicas, independentemente da pergunta de pesquisa. Observamos uma profusão de artigos que reproduzem estruturas metodológicas padronizadas, aplicadas sucessivamente a diferentes temas ou bancos de dados. É o reflexo da máxima: “para quem só tem martelo, parafuso vira prego”. Nesses casos, a técnica deixa de ser uma escolha fundamentada para se tornar um automatismo que limita a capacidade do pesquisador de enxergar a singularidade e a complexidade do seu próprio objeto de estudo.

Não se trata da existência de erros técnicos, mas da repetição de estruturas exaustivamente conhecidas, como se o desenvolvimento e a criatividade metodológicos estivessem estagnados. Se na epidemiologia o mais do mesmo se expressa na adoção de modelos estatísticos automatizados, na área de política, planejamento e gestão ele se manifesta na descrição de normas e fluxos organizacionais que abdicam da análise crítica do contexto e dos processos decisórios. Da mesma forma, nas ciências sociais, o excesso de relatos de percepções sem densidade interpretativa acaba por comprometer o pensamento crítico e problematizador que a área sempre ofereceu à Saúde Coletiva.

Essa estagnação se reflete também na estrutura narrativa dos manuscritos. Assistimos a uma padronização excessiva, em que a seção de resultados e a discussão tornam-se previsíveis. Frequentemente, a discussão se limita a uma comparação protocolar de achados com a literatura (“meu dado corrobora o autor X, mas diverge do autor Y”), abdicando da ousadia de propor novas sínteses. Nos estudos qualitativos e de análise de políticas, isso é particularmente preocupante, pois a riqueza do contexto e a profundidade analítica são muitas vezes sacrificadas em prol de uma objetividade excessiva, na mimesis de um modelo epistêmico que sequer é coerente ao campo disciplinar de referência.

Para além do ato da publicação, o desafio reside na capacidade do manuscrito de responder efetivamente a uma indagação científica original. Relevância, nesse contexto, não exige necessariamente grandes rupturas. Ela pode residir em inovações incrementais, desde que genuínas, por exemplo, estudos com populações pouco investigadas. Mas é preciso cautela: muitas vezes, a diferença é apenas quanto ao local do estudo e não quanto às especificidades da população que tensionam aquilo que já se conhece.

Entre 2000 e 2025, estão indexados no PubMed 829.358 artigos contendo o termo “public health” nos descritores. Somente revisões somam 87.916 manuscritos. Nesse imenso volume publicado, poucos são de fato inovadores. Sem pretensões, mesmo em temas que já foram objetos de revisões, um artigo científico deve trazer alguma novidade. Não se trata de evitar repetição por si só; abordar populações pouco estudadas, explorar novos settings e territórios ou produzir evidências para questões ainda em aberto é uma contribuição legítima e necessária.

O problema descrito é, em grande medida, fruto de um modelo de avaliação acadêmica que por décadas privilegiou a quantidade de artigos publicados em detrimento da profundidade analítica, tema já discutido em editoriais anteriores 3. Essa proliferação de manuscritos gera ruído informacional, onde a “música” da descoberta científica é abafada pelo “barulho” das métricas de produtividade. Diante desse imenso volume e do escasso tempo disponível, as estratégias de seleção para leitura acabam por se ancorar no prestígio do autor ou na reputação da instituição. Esses critérios, aparentemente razoáveis, bloqueiam novos atores e instituições situadas fora dos grandes eixos de produção científica. Mesmo em domínios onde predominam temas de interesse do Sul global, o modelo de exclusão se repete: autores já consagrados detêm maior credibilidade, enquanto universidades e centros de pesquisa emergentes enfrentam barreiras para romper a “bolha” da relevância acadêmica. Consolida-se, assim, um ciclo vicioso de concentração de capital científico, um sistema que entrega mais visibilidade a quem já a possui.

Em 2025, recebemos em CSP 2.781 submissões, das quais, 2.182 foram recusadas sem passar por revisão por pares e 191 aceitas para publicação. A justificativa padrão da recusa enviada aos autores ressalta que a decisão considera “a pertinência do artigo ao escopo da revista, a originalidade, o rigor metodológico e a qualidade geral do manuscrito, respeitando a diversidade de abordagens, objetos e métodos de distintas perspectivas disciplinares que caracterizam o campo da Saúde Coletiva/Saúde Pública”. Originalidade! Evidentemente necessária à produção científica, mas muito difícil de ser mensurada objetivamente 4. Mesmo assim, a análise de cerca de 50 manuscritos por semana torna a repetição evidente. Nesse processo, contamos com a expertise de cerca de 45 editores associados de CSP, fundamentais para identificar o que de fato é inovador em seus campos e subáreas específicas.

É função dos programas de pós-graduação, dos orientadores e dos órgãos de fomento e avaliação retomar o olhar sobre a inovação, indissociável da qualidade metodológica, como um produto central da ciência 5. Produção de grande volume de artigos, seja como pesquisador individual, grupo de pesquisa ou programa de pós-graduação, causa danos à produção de conhecimento.

Este editorial é o primeiro de uma sequência em que procuraremos detalhar o mais e o mesmo em cada área do nosso campo. Esperamos que eles incentivem autoras e autores a investir na enorme potência da investigação científica em formular perguntas que nos permitam não apenas descrever, mas sobretudo compreender e transformar a complexa realidade da saúde pública, com criatividade e ousadia.

Referências bibliográficas

  • 1 Carvalho MS, Travassos C, Coeli CM. More of the same epidemiology? Cad Saúde Pública 2013; 29:2142.
  • 2 Reality check on reproducibility. Nature 2016; 533:437.
  • 3 Coeli CM, Carvalho MS, Lima LD. Innovation, quality and quantity: choose two. Cad Saúde Pública 2016; 32:eED010116.
  • 4 Shibayama S, Wang J. Measuring originality in science. Scientometrics 2020; 122:409-27.
  • 5 Hicks D, Wouters P, Waltman L, Rijcke S, Rafols I. Bibliometrics: the Leiden Manifesto for research metrics. Nature 2015; 520:429-31.
  • Editora-chefe
    Coordenadoras da avaliação: Marilia Sá Carvalho (0000-0002-9566-0284)
  • Editora-chefe
    Luciana Dias de Lima (0000-0002-0640-8387)
  • Editora-chefe
    Luciana Correia Alves (0000-0002-8598-4875)

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    09 Jun 2026
  • Aceito
    11 Jun 2026
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