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Labirinto de espelhos: formação da auto-estima na infância e adolescência

RESENHAS BOOK REVIEWS

Rosa Maria de Araújo Mitre

Instituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil

LABIRINTO DE ESPELHOS: FORMAÇÃO DA AUTO-ESTIMA NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA. Simone Gonçalves de Assis & Joviana Quintes Avanci. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2004. 207 pp.

ISBN: 85-7541-041-5

A formação da auto-estima tem sido um tema bastante discutido nos estudos das ciências humanas, em especial nas áreas de psicologia e educação, mas pouco focado como uma questão de saúde pública. As autoras procuram construir neste livro, que é fruto de uma extensa pesquisa quanti-qualitativa, por que a formação da auto-estima deve ser considerada pela perspectiva da saúde pública.

O livro tem como tema central investigar a perspectiva de adolescentes sobre suas competências, valores e sentimentos, tanto em relação ao núcleo familiar, quanto social. Procura discutir também possíveis correlações entre a vivência de situações de violência doméstica ou social e a construção da auto-estima. Como leitores, somos levados a ir montando um grande caleidoscópio de como a auto-estima se forma a partir de olhares, do outro e de nós mesmos, e das experiências vividas.

No primeiro capítulo, encontramos os fundamentos teórico-conceituais que envolvem o conceito de auto-estima, os fatores que contribuem para a sua formação na infância e adolescência, as implicações que a auto-estima tem na construção da personalidade e seus reflexos na relação do indivíduo com o mundo. A auto-estima é tratada não apenas como principal indicador de saúde mental, mas também como importante indicador social. Tudo isto é feito com base em uma discussão cuidadosa dos principais conceitos e autores da área, onde são abordadas as diferentes perspectivas e concepções.

No livro são apresentadas de forma detalhada as bases metodológicas da pesquisa que entrevistou estudantes de escolas públicas e privadas de um município do Estado do Rio de Janeiro. O foco principal é sobre o papel que a escola e a família, enquanto instituições socializadoras, exercem no desenvolvimento da auto-estima. A reflexão crítica destes papéis serve de base para inserir a questão da violência contra a criança e o adolescente nestes espaços.

A partir dos resultados da pesquisa, discute-se a visão que os adolescentes têm de si, correlacionando-a com o nível de auto-estima, aferido baseando-se em uma escala de dez itens. Discute-se a ligação entre a auto-estima e diversas questões como o conhecimento e a valorização de si que estes jovens apresentam; a confiança que têm em sua força pessoal; a capacidade de almejar algo e de superar dificuldades. Seguindo esta linha de pensamento, é introduzido o conceito de resiliência, o qual irá permear a reflexão envolvendo violência e auto-estima.

O impacto que a convivência familiar produz na construção da auto-estima, bem como o modo como o jovem percebe e é percebido por seus familiares, são abordados por diversos ângulos. Desta maneira, consegue-se ter uma visão ampliada de como o relacionamento familiar e suas diversas nuances influenciam na construção da auto-estima. A obra traz de modo afirmativo, o quanto o envolvimento positivo da criança e do adolescente com seus cuidadores é considerado fundamental para esta construção. O desafeto e o desequilíbrio destas relações podem comprometer tanto o bem-estar geral quanto a saúde mental.

A relação entre os jovens, seus amigos e a escola também mereceu atenção. Não podemos esquecer que independente do papel fundamental que a família exerce, a escola na sociedade atual significa um espaço não só de aprendizagem, mas também um local onde o jovem encontra, ou não, o pertencimento a determinado grupo social. Grupo este que vai permitir que ocorram trocas, formação de opiniões e competências sociais, de modo formal e informal. Assim como a dinâmica do relacionamento familiar, as experiências escolares produzem forte impacto no desenvolvimento da criança e do adolescente.

Outro ponto presente na discussão é a questão da violência e como ela atravessa a vida dos jovens. Segundo as autoras, vários entrevistados passaram por agressões físicas e/ou psicológicas perpetradas por familiares e mais da metade já havia sofrido violência na escola. Sendo que, os jovens com baixa auto-estima, tinham sido mais humilhados, agredidos e ameaçados do que os outros no ambiente escolar.

O que estas experiências vão gerar nestes jovens não podemos afirmar, mas com certeza podemos dizer que implicaram um fator de risco para sua saúde, física e psíquica. A maneira como cada um estrutura sua personalidade e responde a situações de risco depende da capacidade de resiliência, que por sua vez está associada com a auto-estima. No entanto, como é ressaltado no texto, ainda é necessária uma maior compreensão para avaliar a complexa relação entre resiliência e auto-estima.

Apesar de não pretender inferir causalidade, mas sim promover associações entre os diversos fatores que contribuem para a formação da auto-estima, a obra conclui o quanto a baixa auto-estima gera sofrimento e atrapalha o posicionamento do jovem no mundo. Estes jovens tornam-se vulneráveis, demonstrando com freqüência, sentimentos de inferioridade e insegurança, com tendência ao isolamento. Com isto, tendem a doenças emocionais e comportamentos de risco, inclusive de vida, o que segundo as autoras, justifica não apenas um olhar, mas ações efetivas de saúde pública.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Mar 2005
  • Data do Fascículo
    Abr 2005
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