Projeto Floram: estratégias e plano de ação

DOCUMENTOS: A PLATAFORMA DO PROJETO

Projeto FLORAM: estratégias e plano de ação

Antonio S. Rensi Coelho; Azis Ab 'Sáber; Geraldo Forbes; Jacques Marcovitch; James Wright; José Goldemberg; Leopold Rodés; Luiz G. Barrichelo; Mauro Antonio de Morais Victor; Nelson Barbosa; Werner Zulauf

Visando estabelecer critérios estratégicos de caráter geral para orientar as propostas relativas às atividades a serem eventualmente incluídas nos planos de ação do Projeto FLORAM, foram elaborados e discutidos critérios para os seguintes temas:

• Reversão do efeito estufa.

• Conservação dos ecossistemas regionais.

• Reflorestamento e uso do solo.

• Reflorestamento em nível de desenvolvimento industrial.

• Uso energético da madeira.

• Instituições, Empresas, Cooperativas.

A metodologia seguida e a subdivisão dos temas estratégicos, acima listados, foram inspiradas no documento Tropical Foresty Action Plan da FAO. Assim sendo, o delineamento dos critérios estratégicos recomendados constitui uma adaptação daqueles que constam no documento da FAO, visando as condições e peculiaridades florestais específicas do Brasil.

2. Estratégias diferenciadas por domínios e espaços regionais

Os critérios estratégicos de caráter geral, estabelecidos de acordo com a metodologia acima apontada, propiciaram diversos conjuntos de recomendações estratégicas diferenciadas, em decorrência da sua especificidade em relação a um ou mais de um dos espaços considerados.

Os conjuntos diferenciados de recomendações estratégicas são os seguintes:

3. Composição multidisciplinar das linhas de ação consideradas

O presente estado do delineamento para o Projeto FLORAM e seus objetivos permite antever uma série de prováveis desdobramentos em subprojetos de caráter essencialmente multidisciplinar e de cuja execução satisfatória dependerá, em grande parte, o sucesso e o nível de eficácia conseguida no atingimento dos objetivos maiores do projeto principal.

Sem pretender ser uma relação exaustiva, apresentamos a seguir as grandes avenidas abertas às providências executivas esperadas do Projeto FLORAM e sobre as quais apresentamos alguns comentários.

— Planejamento Estratégico. Deverá permitir elaborar uma visão abrangente do Projeto FLORAM como um todo, mediante a utilização e subseqüente integração das diversas percepções estratégicas com caráter e fundamentação regional, quando cruzadas com os planejamentos estratégicos elaborados pelos principais setores industriais envolvidos. O mecanismo integrador deverá também compatibilizar as estratégias de reflorestamento e industrialização dos produtos florestais com as de outros planejamentos paralelos, tais como das atividades agropecuárias e as do setor industrial considerado como um todo. Esta compatibilização refere-se principalemente às questões energéticas e outros insumos.

— Coordenação de P+D e Difusão das Informações. Pelo caráter pioneiro do Projeto FLORAM, existe um grande número de áreas demandando levantamentos dentro de um programa de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico. Destacam-se como temas prioritários os seguintes:

— Geomorfologia e geoecologia dos espaços regionais

— Condicionantes pedológicas e geoidrológicas superficiais

— Biotecnologia silvicultural

— Fisiologia vegetal da reprodução e crescimento

— Eficiência fotossintética

— Flutuações climáticas

— Sensoriamente remoto

— Alternativas de industrialização para os produtos da floresta

— Fornecimento de sementes/mudas e sua preparação

— Controle biológico

— Gerenciamento e manejo

No estabelecimento das prioridades executivas será necessário auscultar atentamente as demandas de P+D ligadas à execução de reflorestamentos e aos seus aspectos essencialmente regionais. Deverá também ser aperfeiçoada a metodologia de avaliação de riscos futuros (ecológicos e sociais), decorrentes de iniciativas humanas aparentemente inócuas.

A difusão das informações geradas mediante as atividaes de P+D deverá ser conseguida pelo acesso a terminais estrategicamente localizados e alimentados mediante uma rede informática conectada a bancos de dados continuamente atualizados.

— Alternativas Institucionais. Ao redor das considerações apresentadas neste documento, caberá abrir um amplo diálogo visando identificar as vantagens e os inconvenientes de uma eventual continuidade institucional nas atividades iniciadas sob a denominação de Projeto FLORAM.

A engenharia organizacional deverá identificar alternativas para configurar uma estruturação leve, essencialmente orientadora e indutora de convergência nos esforços para uma correta implantação, respeitando os sucessivos desdobramentos em projetos multidisciplinares do objetivo maior.

De modo natural, visualiza-se o Instituto de Estudos Avançados da USP como ponto de encontro para fecundação e enriquecimento mútuo das disciplinas intervenientes e, assim sendo, visualiza-se uma participação ativa na continuidade de sua função de assessoramento institucional.

A estrutura institucional deverá atender às necessidades administrativas decorrentes da coordenação e compatibilização dos planejamentos estratégicos, tanto setoriais como regionais; à coordenação das prioridades nos levantamentos de P+D; à supervisão da eficiência operacional da rede de informática que deverá difundir os resultados e eventuais recomendações; à monitoração executiva dos reflorestamentos, mediante sensoriamento remoto, oferecendo uma transparência absoluta nas informações e avaliações geradas; e, finalmente, deverá atender os controles dos investimentos, incentivos, despesas operacionais e administrativas, contempladas em orçamentos aprovados e cuja elaboração seria uma das tarefas administrativas principais.

Os mentores do Projeto estão atentos para a circunstância da rotina administrativa altamente burocrática e entravante, que predomina nos mais diferentes níveis das máquinas de governo, em seus mais diferentes escalões. Não se fará concessões a indivíduos ou grupos inoperantes e mordômicos, fixados na inércia histórica de determinadas máquinas, eivadas de nepotismos e hábitos corruptos.

4. Considerações para uma abordagem institucional

O Projeto FLORAM, na medida em que trata de uma ação de megarreflorestamento, deverá contar com um suporte institucional que assegure a conservação dos objetivos colimados, levando na devida conta a flexibilidade operacional que um projeto nessa escala requer e, ao mesmo tempo, garanta que a ideologia básica do projeto, bem caracterizada neste primeiro documento, permeie as ações de plantio, conservação e manejo das florestas a serem executadas em todo o território nacional.

No nível de consolidação que os estudos atingiram ao final de 1989 (um ano depois da primeira manifestação pública sobre a conveniência do reflorestamento como instrumento de absorção de carbono da atmosfera, e oito meses desde a sua adoção pelo Instituto de Estudos Avançados), o projeto pode ser considerado como um embrião, ainda unicelular, mas dotado de todas as particularidades fisionômicas e estruturais do produto final a ser alcançado nos próximos anos não apenas no Brasil, mas necessariamente em uma escala de abrangência mundial, para que seja alcançado seu objetivo maior, o controle do "efeito estufa".

...o Projeto FLORAM terá que escolher a sua paternidade institucional, sob grande flexibilidade e bom senso, através de múltiplas combinações de participação.

No contexto do grande debate em curso entre estatização e privatização, também o Projeto FLORAM terá que escolher a sua paternidade institucional, sob grande flexibilidade e bom senso, através de múltiplas combinações de participação.

A grandiosidade do Projeto torna-lo-á, obrigatoriamente, instrumento de reversão da imagem ambientalmente dura que o Brasil possui no Exterior, não pelo que se diz e se escreve — as queimadas da Amazônia seriam as maiores responsáveis pelo "efeito estufa" (sic) —, mas pelos erros que realmente temos cometido ao permitir uma destruição da biodiversidade de ecossistemas inteiros e sinalizar para a desertificação ou savanização de extensa áreas de nosso território.

O Projeto FLORAM poderá vir a ser, portanto, um instrumento sério e denso para ajudar o Governo a compor o seu quadro de política internacional para as questões ambientais. Esse conteúdo de interesse para a diplomacia poderá favorecer a sua institucionalização governamental .A divulgação prévia dos objetivos do projeto já comprovou esta asserção.

Por outro lado, o nível de agilidade para captar e canalizar recursos financeiros em grande monta e a tendência mundial de se prestigiar as organizações não-governamentais (NGO) recomendam o caminho da privatização.

O fator predominante na composição dessas tendências (de onde emergirá o modelo institucional do Projeto FLORAM) deverá ser aquele que se acentua em todo o mundo, inclusive no Leste Europeu, de permitir que a agilidade e a produtividade das instituições privadas comandem um número crescente de ações nos diversos campos da atividade humana.

Diante de tais tendências, convém considerar uma Fundação não instituída pelo poder público, ou outra forma organizacional de cunho privado, como unidade central para o desenvolvimento dos projetos técnicos e estudos ambientais e econômicos, bem como para motivar a implementação das práticas de florestamento e reflorestamento preconizadas, e gerenciar financiamentos de instituições nacionais e internacionais destinados ao projeto.

Além dos colegiados destinados à administração exigidos pela legislação, deverá ser criado um Conselho Orientador, constituído de personagens de notório saber, onde estará representada a instituição que gerou o Projeto, o Instituto de Estudos Avançados da USP.

Integrando a diretoria executiva da Instituição, deverá ser estabelecida uma sólida unidade de captação de recursos para a implementação do projeto. Num primeiro momento e objetivando fundamentalmente a implantação das florestas com finalidades predominantemente econômicas, deverão ser estimulados os investimentos pelos próprios setores usuários das matérias-primas geradas. Estes setores deverão também financiar a estruturação inicial do órgão de gerenciamento e os primeiros projetos detalhados das ações que compõem o Projeto FLORAM.

Já que todos os reflorestamentos satisfazem o objetivo ambiental maior, que é a fixação de carbono visando a reversão do efeito estufa, deverão ser buscados recursos em bancos internacionais de desenvolvimento (BIRD, BID, entre outros), para as florestas com mais forte vocação ecológica clássica.

A dimensão mega do Projeto FLORAM deverá exigir o aporte de recursos vultuosos, não apenas para atender aos interesses brasileiros do Projeto, mas certamente para atender a demanda internacional, caso o projeto venha a atingir o tamanho imaginado pelos seus criadores e chegue a funcionar como reservatório para reter o excesso de carbono acumulado na atmosfera.

Para essa dimensão de demanda de recursos não existe previsão de fundos no concerto da ordem econômica internacional, como também não existem para os investimentos destinados à revolução tecnológica decorrente da transformação dos atuais geradores de energia, à base de combustíveis fósseis, para geradores isentos de carbono, como a energia solar acoplada à tecnologia do hidrogênio (Anexo).

Para ser criado um fundo que possa dar suporte a todas essas demandas, basta um movimento mundial, fomentado e administrado pela ONU, que proponha e viabilize uma taxa de cerca de um dólar por barril de petróleo, ou equivalente, no caso de carvão mineral e do gás natural. A dificuldade toda está na motivação para um empreendimento dessa magnitude, não por falta de elementos de comunicação, já que as perspectivas apocalípticas os fornecem em quantidade suficiente, mas por falta de um elemento aglutinador das angustias dispersas.

O Projeto FLORAM pretende ser o núcleo desse processo convergente, pois somente conseguirá atingir seu objetivo maior se provocar o início das reações em cadeia que deverão levar à reversão do " efeito estufa", reforçando o caminho e as intenções tão bem caracterizadas na Convenção de Viena e no Protocolo de Montreal, cujos compromissos entraram em vigor recentemente, visando a outro objetivo global: o controle da redução da camada de ozônio estratosférico.

Ao nível técnico, a Fundação deverá compor uma eficiente e multidisciplinar equipe profissional, onde a qualidade dos recursos humanos deverá se impor sobre a quantidade. Os projetos técnicos, as pesquisas e as ações florestais deverão ser, sempre que possível, contratadas com empresas especializadas do setor privado.

As idéias aqui expostas nada têm de definitivo. Trata-se, apenas, de enunciar alguns caminhos, sobre os quais ainda não existe total consenso. E, por essa razão mesma, são meras sugestões preliminares a serem melhoradas, ou, na pior das hipóteses, totalmente modificadas.

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Anexo

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Mar 2006
  • Data do Fascículo
    Ago 1990
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