Os efeitos da pandemia da Covid-19 sobre o agronegócio e a alimentação

Sergio Schneider Abel Cassol Alex Leonardi Marisson de M. Marinho Sobre os autores

resumo

Estima-se que a pandemia do coronavírus (Sars-Covid-19) deverá repercutir de diversas maneiras e intensidades sobre a produção, a distribuição e a oferta de alimentos. Neste artigo discutimos o alcance e a profundidade da crise decorrente do Covid-19 sobre a agricultura e o agronegócio do Brasil e analisamos as repercussões potenciais e os efeitos da sobre a agricultura familiar, o setor de processamento de carnes e a distribuição de alimentos. A metodologia foi baseada na escolha de um conjunto de indicadores e variáveis sobre a agricultura e o agronegócio tomando como referência o contexto nacional e o cenário global. Buscamos informações da imprensa e revisamos uma ampla quantidade de materiais e dados de conjuntura publicados por diversos organismos nacionais e internacionais, assim como agentes privados. As conclusões da análise apontam que a pandemia poderá ter efeitos benéficos e aumentar a oferta da produção e a inserção internacional do agronegócio do Brasil. A demanda por alimentos está aumentando e é possível que o acirramento da disputa comercial Estados Unidos da América versus China amplie as exportações. A análise também indica problemas potenciais no abastecimento do mercado interno e eventuais aumentos de preços, assim como inflação de alimentos, que decorre tanto do aumento da demanda como dos custos de produção em razão da desvalorização cambial, que representa estímulo à exportação. Os efeitos da pandemia da Covid-19 sobre a agricultura familiar e o abastecimento dos mercados locais foi mais forte no início da pandemia quando houve restrições ao comércio e a circulação de produtos. As políticas públicas e o papel do Estado não se demonstram eficazes na crise, especialmente no que concerne aos problemas de contaminação nos frigoríficos e abatedouros. Encerramos sugerindo para a necessidade de reposicionar o sistema alimentar tornando-o mais resiliente e sustentável.

palavras-chave:
Agronegócio; Pandemia; Alimentação; Agricultura

abstract

It is estimated that the Coronavirus pandemic (Covid-19) will affect food production, distribution and supply in different ways and intensities. In this article, we discuss the scope and depth of the crisis arising from Covid-19 on agriculture and agribusiness in Brazil, and analyze its potential repercussions and effects on family farming, the meat processing sector and food distribution. The methodology was based on a set of indicators and variables on agriculture and agribusiness using both the national context and the global scenario as reference. We sought information from the press and reviewed a wide range of materials and economic data published by various national and international organizations, as well as by private agents. The conclusions of the analysis point out that the pandemic could have beneficial effects and increase the production supply and the international insertion of Brazilian agribusiness. Demand for food is increasing and it is possible that the United States versus China trade dispute will increase exports. The analysis also indicates potential problems in supplying the domestic market and possible price increases, as well as food price inflation, resulting from both increased demand and production costs due to exchange rate devaluation, which represents a stimulus for exports. The effects of the Covid-19 pandemic on family farming and on the supply of local markets were strongest at the beginning of the pandemic, when there were restrictions on trade and the circulation of products. Public policies and the role of the State were not effective along the crisis, especially with regard to problems of contamination in slaughterhouses. We conclude by suggesting the need to reposition the food system by making it more resilient and sustainable.

keywords:
Agribusiness; Pandemic; Food; Agriculture

Introdução

A pandemia do Coronavírus (Sars-Covid19) está causando não apenas um colapso de grande preocupação no sistema de saúde, mas afetando sobremaneira a economia nacional e global (Preiss et al., 2020PREISS, P. Challenges facing the Covid-19 pandemic in Brazil: lessons from short food supply systems. Agric Hum Values, Agriculture, Food & Covid-19, May 2020.a). Na verdade, segundo Mazzucato (2020), estamos assistindo a uma crise de saúde induzida por uma pandemia que desencadeou rapidamente uma crise econômica com consequências ainda desconhecidas para a estabilidade financeira dos países, em um contexto de crise climática.

Até o momento em que estamos escrevendo este artigo, não se verifica escassez de oferta de alimentos no Brasil. À primeira vista, poder-se-ia dizer que a pandemia não está afetando o setor alimentar. Não obstante, já foram registrados problemas de distribuição, escoamento da produção, logística de acesso e contaminações em unidades de processamento. E não são poucos os agricultores que deixaram de colher sua safra porque não havia para quem vender, uma vez que muitos dos compradores suspenderam as compras ou até mesmo o acesso aos espaços usuais de venda (feiras livres e outros) foram proibidos. Houve (e ainda há) problemas de contaminação dos trabalhadores de frigoríficos de abate e processamento de carnes.

Embora nossa reflexão sobre a pandemia da Covid-19 privilegie o olhar para a oferta de alimentos, assim como para o setor agrícola e o agronegócio de forma mais geral, não há como deixar de analisar as condições e possibilidades da demanda por alimentos. E, nesse caso em particular, a queda dos rendimentos dos trabalhadores, assim como o aumento dos preços e a inflação sobre os alimentos apresentam-se como problemas emergentes que estão alarmando a população. Combinado ao comportamento da oferta e da demanda doméstica, as variações cambiais assim como a demanda externa poderão se somar e formar um quadro preocupante para a situação da alimentação no contexto da pandemia.

De modo geral, ainda é cedo para afirmações mais contundentes, mas analistas de todas as áreas, consultores e especialistas estimam que a situação de pandemia causada pela Covid-19 deverá repercutir de diversas maneiras e intensidades sobre a produção, a distribuição e a oferta de alimentos. Nesse sentido, alertamos para a necessidade de uma avaliação cuidadosa dos cenários atuais e vindouros. Com base nos estudos e materiais consultados para redação deste ensaio, não pretendemos fazer previsões, mas sugerir precaução acerca dos potenciais efeitos sistêmicos e disruptivos imprevisíveis que poderão afetar o sistema alimentar em diferentes níveis e intensidades (Gralak et al., 2020GRALAK, S et al. COVID-19 and the future of food systems at the UNFCCC (UN Framework Convention on Climate Change). v.4, n. 8, E309-E311, August 01, 2020.; Salazar et al., 2020SALAZAR, L. et al. Retos para la agricultura familiar en el contexto del Covid-19: Evidencia de Productores en ALC. Banco Interamericano de Desarrollo. 2020.).

O objetivo deste artigo consiste, portanto, em apresentar informações sobre o potencial alcance e a profundidade que a crise de saúde pública decorrente da Covid-19 poderá trazer para a agricultura e o agronegócio de um modo geral. Não obstante, em face de eventos, crises e disrupções de que tomamos conhecimento ao acompanhar os noticiários, achamos importante fazer uma análise particular pormenorizada das repercussões e efeitos da pandemia sobre a agricultura familiar, o setor de processamento de carnes e a distribuição de alimentos.

A estrutura do artigo está segmentada em várias partes, mas há basicamente três grandes blocos de questões a partir do qual ele foi pensado. As duas primeiras seções procuram apresentar o cenário, tanto o global quanto o nacional. Procuramos analisar as informações disponíveis sobre o quadro geral e tentar entender como o agronegócio brasileiro se insere nesse contexto e quais repercussões potenciais poderiam afetá-lo. Na terceira seção analisamos de forma mais aprofundada os efeitos diretos da Covid-19 sobre o agronegócio, com destaque para inserção internacional e suas repercussões em nível nacional. As quarta, quinta e sexta seções são dedicadas à análise dos efeitos da pandemia em três setores específicos em que a crise de saúde assumiu proporções particularmente graves, que são a contaminação dos trabalhadores dos frigoríficos e abatedouros, a agricultura familiar e os mercados locais e feiras, respectivamente. A sétima seção é dedicada à análise de uma novidade da pandemia, que se refere ao aumento das compras de alimentos através do recurso às tecnologias digitais, especialmente a internet, e a última seção são as conclusões.

O cenário global

Uma das razões pelas quais a Covid-19 alcançou de forma tão rápida e impactante as populações dos diversos continentes deve-se ao fato de que o mundo está globalizado. Em face disso, os efeitos e impactos da pandemia tiveram um alcance de escala global de forma muito rápida após terem sido diagnosticados os primeiros casos em Wuhan, província de Hubei, na China. Assim, para compreender os potenciais efeitos e repercussões da pandemia sobre a agricultura e o setor alimentar do Brasil, é preciso tomar como referência o alcance global e sistêmico do problema.

As projeções do Banco Mundial (2020) indicam que os impactos da pandemia da Covid-19 vão reduzir em 5,2% o crescimento econômico global em 2020. Para as economias avançadas a projeção é de queda de 6,1% para os Estados Unidos da América, 9,1% para a Zona do Euro, e 6,1% para o Japão. Entre as economias emergentes a projeção é de retração de 6% para a Rússia e crescimento de 1% para a China. Para a América Latina como um todo o Banco Mundial projeta queda de 7,2%. Com relação ao comércio internacional, a Cepal (2020) estima queda de 17% no acumulado entre janeiro e maio de 2020, em relação ao mesmo período de 2019, e projeta para o ano de 2020 queda de 23% nas exportações da América Latina e Caribe, no valor comercializado. Essa redução reflete a queda das exportações para os Estados Unidos em 22,2%, para a União Europeia, em 14,3%, e para a própria região, em 23,9%.

As análises da Cepal-Opas (2020) indicam que a recessão nos países da América Latina e Caribe virá acompanhada de um aumento no desemprego, que poderá atingir 13,5%. A nota técnica da OIT (2020) alerta que a redução na taxa de ocupação aumentaria o número de pessoas que procuram emprego de 26 milhões para 41 milhões de pessoas, acompanhada da deterioração na qualidade do emprego e da queda na renda.

O informe Cepal-Opas (2020) considera que sem medidas de mitigação dos impactos da pandemia haverá aumento da taxa de pobreza de 30,2% para 37,3% da população e da pobreza extrema de 11% para 15,5%, o que levaria à 231 milhões de pessoas à condição de pobreza e 96 milhões na condição de pobreza extrema, além do aumento na desigualdade medido por um aumento médio no índice de Gini de 4,9 pontos percentuais. O relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2020” (FAO, 2020) mostra que a América Latina e Caribe ainda enfrenta grandes desafios, pois em 2019 a fome já afetou 47,7 milhões de pessoas, sendo esse o quinto ano consecutivo de aumento.

Em síntese, os estudos e avaliações prospectivas das várias organizações internacionais sugerem um cenário recessivo na economia global, decorrente tanto da retração do crescimento do PIB como do acesso a renda do trabalho. Se considerarmos que o Brasil e a América Latina como um todo já estavam em um processo de desaceleração das suas economias antes mesmo da pandemia, o cenário torna-se alarmante.

O quadro se complica pela expectativa de que haverá uma forte volatilidade dos preços dos alimentos na América Latina e Caribe. Os dados do informe da Cepal-FAO (2020) indicam que entre janeiro e maio de 2020 (base 100 em dezembro de 2019) o componente alimentar do índice de preços ao consumidor aumentou em 4,6%, enquanto o aumento do índice geral de preços foi de 1,2%. O mais grave é que os preços dos alimentos e a inflação correspondente deverão ser mais altos justamente nos itens que compõem a cesta básica, o que afetará em cheio as populações mais vulneráveis, que são aquelas afetadas pelo desemprego e a perda de renda.

A posição do Brasil: projeções e estimativas

O cenário global de crise e desaceleração da economia terá efeitos sobre o Brasil. As projeções momentâneas do Banco Mundial (2020) indicam uma queda de 8% no PIB brasileiro em 2020. Castro (2020) afirma que o Fundo Monetário Internacional tem uma previsão pessimista e estima a queda em 9,1% do PIB do Brasil. As estimativas do PIB divulgadas pelo IBGE (2020) em setembro já apontam queda de 5,9% no primeiro semestre em relação ao mesmo período de 2019.

A crise econômica também deverá refletir sobre o nível de ocupação e, consequentemente, sobre a renda da população, sobretudo no Nordeste (Aquino; Nascimento, 2020AQUINO, J. R.; NASCIMENTO, C. A. Efeitos da crise da Covid-19 sobre o mercado de trabalho do Nordeste. Cadernos de Ciências Sociais Aplicadas, UESB Vitória da Conquista/BA, ano XVII, v.17 n.30, p.184-94, jul./dez. 2020; Souza Jr. et al., 2020). Em divulgação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios para o período da Covid-19 para a última semana de julho, o IBGE (2020) estimou que a população desocupada no Brasil estava em 12,9 milhões de pessoas, deixando a taxa de desocupação em 13,7%, o que representa uma alta significativa em relação aos 10,5% encontrados na primeira semana de maio de 2020. A estimativa é de que 55,3% da população participava da força de trabalho, mas 76 milhões de pessoas estavam desocupados (nem trabalhando nem procurando trabalho), dos quais 28 milhões disseram que gostariam de trabalhar e, desses, 18,5 milhões de pessoas não procuraram trabalho por causa da pandemia ou por não encontrarem uma ocupação na localidade em que moravam. A pesquisa do IBGE (2020) identificou ainda que no mês de junho de 2020 35,9% das pessoas ocupadas tiveram rendimento menor do que o normalmente recebido, e que 43% dos domicílios brasileiros receberam o auxílio emergencial de R$ 881,00 em média.

Segundo relatório da Cepal-Opas (2020), essa situação de precariedade do mercado de trabalho se refletirá na queda da renda e, como consequência, poderá levar ao aumento da taxa de pobreza de 19,2% para 26,9%, e da pobreza extrema, de 5,5% para 9,8% da população do Brasil. E a perda de emprego e a redução na renda também se refletirão na perda do poder de compra. Somado a isso, analistas estão percebendo que os preços dos alimentos da cesta básica estão subindo acima da média. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo IBGE (2020), acumulou entre janeiro e agosto de 2020 um aumento de 4,91% para o grupo alimentos e bebidas, enquanto que o Índice Geral foi de 0,70%, no mesmo período. As razões que explicam essa pressão inflacionária ainda são desconhecidas, mas há fatores cíclicos relacionados à seca e a perda de safra no sul do Brasil, assim como ao aumento da demanda por produtos como arroz e feijão que cresceu devido às famílias permaneceram em casa e passarem a cozinhar. No momento em que estamos concluindo este artigo, há um grande debate na imprensa sobre a subida preços dos alimentos da cesta básica, especialmente feijão e arroz (no dia 9.9.2020 o governo decidiu zerar a alíquota do imposto de importação para o arroz até o final do ano).

Analistas sugerem que a situação de crise e a deterioração da economia nacional dificilmente serão compensadas pelo desempenho do setor externo, através das exportações. O Ministério da Economia do Brasil (2020) divulgou dados relativos às estatísticas de comércio exterior que mostram que o acumulado entre janeiro e julho de 2020 foi de queda de 6,7% nas exportações em relação ao mesmo período de 2019 (graças à queda de 10,5% nas importações, o resultado final foi um aumento de 6,8% no saldo do comércio exterior). As exportações do Brasil aumentaram em 17,3% no setor agropecuário, 1,5% na indústria extrativa, e diminuíram em 12% na indústria de transformação, e em 2,2% na soma dos outros setores.

Em relação aos produtos do agronegócio brasileiro mais exportados, os dados do Ministério da Economia (2020) apresentam crescimento das exportações de algodão em bruto em 43,6%, a carne suína em 51,7%, e gorduras e óleos vegetais em 32,6%, na comparação do acumulado entre janeiro e julho de 2020 com o mesmo período do ano anterior. Por outro lado, produtos como celulose (-27,4%), carnes de frango e miudezas (-11,2%), milho (-51,2%), sucos (-19,2%), tabaco (-31,3%) e frutas (-10,6%), que estão entre os principais produtos de exportação do agronegócio, tiveram queda acentuada.

A China comprou 34,1% do total exportado pelo Brasil entre janeiro e julho de 2020, seguida dos Estados Unidos, que compraram 9,7%, os Países Baixos 3,9% e a Argentina, 3,6%, totalizando 51,5% do total das exportações (Ministério da Economia, 2020). Se comparado com o mesmo período de 2019, a China aumentou suas importações do Brasil em 15,4%, enquanto os Estados Unidos reduziram em 32,7%. Os dados recentes alertam para a dependência crescente das importações da China, considerando que o país asiático compra 72,6% de soja, 60% dos óleos brutos de petróleo, 66,4% do minério de ferro e seus concentrados, 53,1% das carnes bovinas, 45,5% da celulose, e 23,6% das carnes de aves e suas miudezas.

Com relação ao resultado das exportações brasileiras nesse período, verifica-se que o aumento nas exportações se concentra na soja, nos derivados da cana-de-açúcar, carnes bovina e suína, algodão, e gorduras e óleos vegetais. Os demais produtos e derivados da agropecuária, da mesma forma que os manufaturados em geral, estão com suas vendas para o exterior em queda.

Com base nesses dados, a posição do Brasil tende a oscilar no contexto da pandemia da Covid-19, assim como seus efeitos poderão ser distintos. De um lado, em nível nacional, as quedas no emprego e da ocupação deverão impactar o dinamismo da economia e se refletir sobre o poder de compra da população, assim como pressionar os preços e influenciar a inflação, ocasionando aumento na pobreza e na vulnerabilidade. Por outro lado, no que concerne ao setor externo, as exportações de alimentos e matérias-primas, especialmente do agronegócio, tendem a aumentar de forma seletiva, especialmente no que concerne aos grãos, carnes e seus derivados.

Efeitos potenciais da pandemia da Covid-19 sobre o agronegócio

Não obstante o cenário de crise e retração da economia, quando se analisa isoladamente o desempenho da agricultura e do agronegócio do Brasil os dados mostram uma performance de crescimento, tanto no que se refere ao aumento da produção total quanto ao do PIB setorial (Kreter; Souza Jr., 2020KRETER, A. C.; SOUZA JUNIOR, J. R. de C. Economia Agrícola. Carta de Conjuntura número 48, Terceiro Trimestre de 2020. IPEA. Disponível em: <https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/conjuntura/200825_cc_48_economia_agricola.pdf> Acesso em: 25 ago. 2020.
https://www.ipea.gov.br/portal/images/st...
). Segundo um documento do Ministério da Economia (2020), “a crise econômica provocada pelo coronavírus teve pouco efeito nas exportações brasileiras por causa do desempenho do agronegócio”.

Essa afirmação corrobora com a percepção de que o Brasil possui um agronegócio competitivo que funciona como instrumento de inserção comercial e ingresso de divisas externas (Bastos, 2020). Na opinião de diversos analistas (Sayad, 1996SAYAD, J. Observações sobre o Plano Real. Revista de Estudos Econômicos / Instituto de Pesquisas Econômicas, Universidade de São Paulo, v.24, n. espec., p.7-24, 1995/1996.; Melo, 1996MELO, F. H. de. O Primeiro Ano-Agrícola após o Plano Real. Revista de Estudos Econômicos / Instituto de Pesquisas Econômicas, Universidade de São Paulo, v.24, n. espec., p.25-34, 1995/1996.; Ianoni, 2009IANONI, M. Políticas Públicas e Estado: o Plano Real. Lua Nova Revista de Cultura e Política, n. 78, 2009. Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64452009000300009&lng=pt&tlng=pt>.
https://www.scielo.br/scielo.php?script=...
; Arante; Lopreato, 2017ARANTE, F.; LOPREATO, F. L. C. O novo consenso em macroeconomia no Brasil: A política fiscal do Plano Real ao segundo governo Lula. Revista de Economia Contemporânea, Instituto de Economia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, v.21, n. 3. 2017.), muitos dos quais engajados na defesa do setor, a competitividade do agronegócio prospera independente dos governos e mesmo no cenário da pandemia deverá se manter como importante catalisador da economia brasileira (Mattei, 2020MATTEI, L. A política econômica brasileira diante da Covid-19. Cadernos de Ciências Sociais Aplicadas, UESB Vitória da Conquista/BA, ano XVII, v.17, n.30, p.172-83, jul./dez. 2020.).

Há vários fatores que podem ser destacados para essa avaliação. O primeiro aspecto refere-se ao câmbio, sobretudo em face da forte desvalorização da moeda real perante o dólar, que vem ocorrendo desde o início de 2020 (31,2% conforme o Banco Central do Brasil-BCB), mas se acentuou desde a explosão da pandemia da Covid-19. O câmbio se tornou altamente favorável e potencializou as exportações a partir da comercialização da safra 2019/2020, que coincidiu com os maiores valores já alcançados pela moeda americana. O preço médio do dólar no mês de maio de 2020 foi de R$ 5,654 (a maior cotação alcançou R$ 5,936 em 14.5.2020).1 1 Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/historicocotacoes>. Acesso em: 2 ago. 2020. Nesse mesmo mês registraram-se recorde de embarques pelo quarto mês consecutivo. O aumento foi de 27,6% no total, e as exportações de soja em grão e farelo tiveram alta de 40,2% e 94,3% nos carregamentos de açúcar. 2 2 Disponível em: <https://revistagloborural.globo.com/Colunas/caminhos-da-safra/noticia/2020/06/porto-de-santos-fecha-maio-com-o-quarto-recorde-seguido-de-movimentacao-de-cargas.html>. Acesso em: 2 ago. 2020.

O BCB3 3 Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/publicacoes/focus>. Acesso em: 10 ago. 2020. estima que a moeda americana deverá manter a tendência de alta e fechar o ano de 2020 em torno de R$ 5,00. Se assim for, esse fator seguirá influenciando positivamente as exportações. Não obstante, poderá haver reflexo negativo na safra 2020/2021, pois grande parte das máquinas e equipamentos, mas sobretudo os insumos (adubos químicos e agrotóxicos) são importados e também estão indexados à moeda americana.

O segundo fator que poderá influenciar o cenário paralelo da Covid-19 no agronegócio brasileiro refere-se à retomada da assim chamada “Guerra Fria 2.0”, entre Estados Unidos e China (Pereira, 2020). A China tem rechaçado inclusive o uso do termo, afirmando que está disposta a negociar diplomaticamente.4 4 “Em entrevista à agência de notícias Xinhua no dia 5.8.2020, o ministro de Relações Exteriores da China, Wang Yi, rejeitou a ideia de uma Guerra Fria 2.0 com os Estados Unidos. “A China de hoje não é a antiga União Soviética”. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/08/china-rejeita-guerra-fria-20-e-diz-que-esta-pronta-para-negociar-com-os-eua.shtml>. Acesso em: 5 ago. 2020. Contudo, a tensão entre os dois países alcançou patamares inéditos no passado recente, com ações e reações diplomáticas que remetem aos tempos das disputas dos Estados Unidos com a extinta União Soviética. Os Estados Unidos, sabidamente, utilizam-se de seu potencial econômico e comercial como moeda política e, não por acaso, o atual tensionamento com a China surge às vésperas da eleição presidencial naquele país (Pereira, 2020).

Caso o conflito comercial se amplie após as eleições norte-americanas, as exportações de produtos agrícolas tendem a vir para o centro da disputa. Em 6 de agosto de 2020, o Ministério do Comércio da China anunciou que empresas do país suspenderam a compra de produtos agrícolas dos Estados Unidos (Távora, 2020TÁVORA, F. L. Impactos do Novo Coronavírus (Covid-19) no Agronegócio Brasileiro. In: Texto para discussão n.274. Núcleo de Estudos e Pesquisas/CONLEG/Senado. Disponível em: <www.senado.leg.br/estudos>. Brasília, DF, 2020.
www.senado.leg.br/estudos...
). A medida foi uma resposta ao anúncio do presidente americano, sobre novas taxas a importações chinesas.5 5 “China suspende compra de produtos agrícolas dos EUA”. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2019-08/china-suspende-compra-de-produtos-agricolas-dos-estados-unidos>. Acesso em: 7 ago. 2020. Caso não se avance em negociações para uma saída diplomática, o país asiático irá procurar novos players internacionais para abastecer suas necessidades por commodities agrícolas, o que torna o Brasil um forte candidato a atender esse mercado. Analistas acreditam que a Argentina possa vir a ocupar um papel nesse espaço, mas o país platino está enfrentando graves problemas econômicos, que podem afetar suas exportações (Guimarães, 2019GUIMARÃES, M. Novo governo aumenta imposto de exportações agrícolas na Argentina. Globo Rural - Economia. 2019. Disponível em: <https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Economia/noticia/2019/12/novo-governo-aumenta-imposto-de-exportacoes-agricolas-na-argentina.html>. Acesso em: 10 ago. 2020.
https://revistagloborural.globo.com/Noti...
; Tuon, 2020; Molina, 2020).6 6 O governo argentino restringiu as exportações para resguardar o abastecimento interno, estatizou a maior empresa produtora de soja do país, além de taxar as exportações “Cronologia da crise econômica que levou a Argentina à moratória”. Disponível em: <https://economia.uol.com.br/noticias/afp/2020/05/22/cronologia-da-crise-economica-que-levou-a-argentina-a-moratoria.htm>. Acesso em: 10 ago. 2020.

Por fim, o último fator desse cenário paralelo à Covid-19 é a Peste Suína Africana (PSA) que atingiu a China no final de 2019 e dizimou o rebanho daquele país.7 7 “Peste suína leva criadores chineses ao desespero”. Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2019/10/03/peste-suina-leva-criadores-chineses-ao-desespero.ghtml>. Acesso em: 11 ago. 2020. Em recente entrevista, o diretor executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), estimou que 25% da oferta chinesa de carne suína foram impactados pela PSA. Isso representa uma possível demanda de 13 milhões de toneladas de carne suína, que poderá ser suprida pelo agronegócio brasileiro. Considerando que todo o comércio internacional desse produto representa 9 milhões de toneladas, mesmo que todo o comércio mundial fosse direcionado para a China, não seria suficiente para preencher a lacuna de produção daquele país, provocada pela PSA. Na avaliação do diretor da ABPA, esse cenário impactou diretamente no mercado de aves e levou a China a ser o principal destino da carne de frango do Brasil, ultrapassando a Arábia Saudita. Em receita, as vendas de frango para aquele país aumentaram 45% quando comparadas ao mesmo período do ano anterior, com incremento do preço do mix de produtos de 13,3%. Um efeito potencial desse cenário poderá ser a redução da oferta de proteína animal para o mercado interno, ou provocar aumento de preços do produto, o que alguns noticiários já estão anunciando.

É importante ressaltar essas questões macroeconômicas e da geopolítica mundial uma vez que elas concorrem como fatores decisivos a influenciar o cenário pós-pandemia, se é que haverá um contexto livre do vírus, como acreditam os esperançosos na vacina. Seja como for, o fato é que o agronegócio do Brasil se situa no “global food trade game” como um importante player em face de seu tamanho e potencial de oferta.

Já não restam dúvidas de que a pandemia impactará todos os setores da economia mundial (Djanian; Ferreira, 2020). No entanto, a depender da forma como cada setor específico se posicionar nesse cenário e dos arranjos econômicos que vier a estabelecer, alguns fatores poderão se tornar concorrentes ou convergentes (Miguel; Pellicer, 2020). Dessa forma, pode-se afirmar que os principais setores do agronegócio brasileiro voltados para os mercados externos estão diante de um cenário aparentemente favorável.

Nesse contexto, a Conab (2020) prevê que a safra brasileira de 2019/2020 será de 253,7 milhões de toneladas, o que representa 4,8% a mais em relação à safra passada. Esse é um indicador importante, pois somado à tomada de crédito e a desvalorização do real, a remuneração dos produtores rurais indica um significativo aporte financeiro para a safra 2020/2021. Na tomada de crédito para custeio agrícola8 8 As informações estão disponíveis em: <https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/reportmicrrural/?path=conteudo%2FMDCR%2FReports%2FqvcRegiao.rdl&nome=Quantidade%20e%20Valor%20dos%20Contratos%20por%20Regi%C3%A3o%20e%20Brasil&exibeparametros=true&botoesExportar=true>. Acesso em: 13 ago. 2020. da próxima safra (que já ocorreu entre maio a julho de 2020), os analistas identificaram um aumento no número de contratos (46,2 mil a mais que no ano anterior) e nos valores dos mesmos (R$ 9,88 bilhões a mais). Isso indica que mesmo no incerto cenário de pandemia há expectativa dos agentes e otimismo dos agricultores, o que representa uma resposta que poderá refletir no aumento da produção para o próximo ano, mesmo em um contexto adverso.

Não obstante, esse cenário produtivo e comercial positivo do agronegócio contrasta com problemas importantes na cadeia agroindustrial, especialmente no setor de processamento de proteína animal.

A saúde do sistema alimentar em xeque: o caso dos frigoríficos

O caso dos frigoríficos é exemplar da fragilidade do sistema alimentar em enfrentar de modo sustentável as crises as quais está exposto, especialmente no que concerne a ineficiência e os riscos de saúde pública gerados pelo modelo industrial de produção e consumo de alimentos.

Mesmo antes do surto pandêmico da Covid-19 a produção em larga escala de proteína animal e leite já vinha sendo contestada por representar em torno de 15% das emissões de gases de efeito estufa (FAIRR, 2020) e ser intensiva no uso de antibióticos, resultando em efeitos nocivos à saúde humana (ONU, 2017).9 9 De acordo com relatório da ONU (2017), cerca de 70% dos antibióticos produzidos no mundo têm como destino o tratamento de doenças de animais confinados para consumo humano.

Contudo, o advento da pandemia da Covid-19 expôs outros problemas da indústria da carne, até então menos visíveis. Esses problemas têm colocado em xeque a eficiência e os métodos rigorosos de controle produtivo, principais fortalezas do modelo industrial de produção animal (Abramovay, 2020ABRAMOVAY, R. O sistema alimentar mundial está doente e a culpa não é da Covid-19. Uol, 2020. Disponível em: <https://tab.uol.com.br/colunas/ricardo-abramovay/2020/05/22/o-sistema-alimentar-mundial-esta-doente-e-a-culpa-nao-e-da-covid-19.htm>. Acesso: 23 maio 2020.
https://tab.uol.com.br/colunas/ricardo-a...
).

Em primeiro lugar, a pandemia trouxe ao debate a questão das condições de produção. Cada vez mais realizada através da aglomeração e confinamento dos animais em pequenos espaços, como forma de garantir a eficiência e o controle da cadeia, seus efeitos para o bem-estar animal e a saúde pública são alvos de críticas. Pesquisas convergem em apontar a suscetibilidade desse tipo de produção densamente concentrada e seu potencial risco sanitário como vetor de doenças (Wallace, 2016WALLACE, R. Big farms make big flu: dispatches on Infectious disease, agribusiness, and the nature of science. New York: Monthly Review Press, 2016.; Paim; Alonso, 2020PAIM, C.; ALONSO, W. Pandemia, saúde global e escolhas pessoais. Alfenas: Cria Editora, 2020.). Além disso, o modelo just in time de produção, com períodos de tempo estritamente delimitados para cada uma das etapas da cadeia até o consumo, aumenta o grau de desperdício alimentar (Poore; Nemeek, 2018POORE, J.; NEMEEK, T. Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers. Science, v.360, p.987-92, 2018.). É o que tem ocorrido em algumas regiões do mundo, nas quais os problemas logísticos gerados pela pandemia impuseram alto grau de desperdício de alimentos, especialmente os de origem animal (Perez; Shanker, 2020PEREZ, M.; SHANKER, M. Caos em cadeias de suprimentos provoca desperdício de alimentos. Bloombreg, 2020. Disponível em: <https://www.bol.uol.com.br/noticias/2020/05/18/caos-em-cadeias-de-suprimentos-provoca-desperdicio-de-alimentos.htm>. Acesso em: 30 maio 2020.
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).

Em segundo lugar, a indústria da carne é um setor extremamente concentrado, o que reveste seu eficiente sistema de uma rigidez demasiada que dificulta a resposta a crises como a que estamos enfrentando. Essa característica impede processos diversificados de inovação, especialmente aqueles baseados no conhecimento, na inteligência e na informação, potencializando os efeitos das crises podendo levar todo o sistema ao colapso (Abramovay, 2020ABRAMOVAY, R. O sistema alimentar mundial está doente e a culpa não é da Covid-19. Uol, 2020. Disponível em: <https://tab.uol.com.br/colunas/ricardo-abramovay/2020/05/22/o-sistema-alimentar-mundial-esta-doente-e-a-culpa-nao-e-da-covid-19.htm>. Acesso: 23 maio 2020.
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).

Em terceiro lugar, a pandemia expôs ao mundo as condições precárias de trabalho no interior dos frigoríficos. Para garantir os baixos custos das proteínas animais aos consumidores e aumentar seus lucros, as empresas necessitam manter um alto ritmo na linha de produção dos frigoríficos como forma de garantir a produtividade do setor. Esse sistema, além de necessitar número elevado de trabalhadores, exige que eles estejam próximos uns dos outros. Também, o fato de serem ambientes frios e com pouca capacidade de renovação do ar tornou os frigoríficos focos de disseminação da Covid-19 em vários países, expondo trabalhadores e familiares do setor a altos riscos de contágio (Heck et al., 2020HECK, F.; JÚNIOR, L.; RUIZ, R.; MENEGON, F. Os territórios da degradação do trabalho na região Sul e o arranjo organizado a partir da Covid-19: a centralidade dos frigoríficos na difusão espacial da doença. Metodologias e Aprendizado, v.3, 2020.). Nos países do norte, a origem imigrante da força de trabalho é outra das fragilidades do setor expostas pela pandemia.

Finalmente, outro fator de impacto desse modelo de produção na saúde pública: o aumento expressivo da obesidade da população mundial (Popkin; Reardon, 2018POPKIN, B.; REARDON, T. Obesity and the food system transformation in Latin America. Obesity Reviews, v.19, p.1028-64, August 2018. doi: 10.1111/obr.12694.
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; Popkin et al., 2019). Grande parte da produção animal gerada pelas indústrias tem como destino a composição de alimentos baratos, com baixo valor nutricional e ricos em gorduras e açúcares. Apenas para citar o caso brasileiro, dados recentes apontam 56% da população em situação de sobrepeso e obesidade (Preiss et al, 2020PREISS, P. Challenges facing the Covid-19 pandemic in Brazil: lessons from short food supply systems. Agric Hum Values, Agriculture, Food & Covid-19, May 2020.a). Além dos problemas de saúde normalmente associados a essa doença (cardiopatias; diabetes; colesterol), pesquisas atuais a relacionam como a principal causa da morte de jovens em decorrência da Covid-19 (Alvim, 2020ALVIM, M. Coronavírus: como obesidade pode estar impulsionando gravidade e morte de jovens por covid-19. BBC News, 2020. Disponível em: <https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/bbc/2020/08/11/como-obesidade-pode-estar-impulsionando-gravidade-e-morte-de-jovens-por-covid-19.htm>. Acesso em: 24 ago. 2020.
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).

Os fatores acima expõem três riscos principais do modelo industrial de produção alimentar - dos quais os frigoríficos são elementos-chave - para a saúde pública: a) o risco sanitário de propagação da Covid-19 e de outras doenças decorrentes do modo como os animais são armazenados, transportados e abatidos; b) o risco econômico de um setor concentrado e a ponto de colapsar; c) o risco nutricional relacionado ao consumo exagerado de proteínas de origem animal e de alimentos ultraprocessados.

Agricultura familiar no contexto da Covid-19

Há consenso de que a retração geral da demanda por alimentos, decorrente da perda do poder de compra dos consumidores, do desemprego crescente no país e da suspensão e fechamento de mercados tradicionalmente acessados, terá efeitos particularmente impactantes sobre os agricultores familiares. Esse grupo de produtores depende das cadeias curtas e dos mercados locais de abastecimento para comercialização de sua produção (Favareto; Cavalcanti Filho, 2020).

Evidências recentes apontam para diferentes efeitos da pandemia nos distintos estratos da agricultura familiar. Produtores integrados em cadeias agroindustriais e aqueles conectados a cadeias curtas de abastecimento, têm tido menores perdas de renda (FAO, 2020). Já os agricultores mais pobres estão entre os mais afetados economicamente pelos efeitos da Covid-19. Setores da agricultura familiar associados a cadeias de suprimento intensivas em mão de obra têm sido especialmente afetados (Schmidhuber; Qiao, 2020SCHMIDHUBER, J.; QIAO, B. Comparing Crises: Great Lockdown versus Great Recession. Rome: FAO, 2020.). Salazar et al. (2020SALAZAR, L. et al. Retos para la agricultura familiar en el contexto del Covid-19: Evidencia de Productores en ALC. Banco Interamericano de Desarrollo. 2020.) afirmam que 40% dos entrevistados relataram dificuldades em contratar trabalhadores, sendo o principal motivo a dificuldade de transporte.

Nesse sentido, estudos sobre a agricultura familiar realizados no período recente apontam efeitos da pandemia em três dimensões principais e interligadas: a) dificuldades de manutenção da dinâmica produtiva e comercial; b) impactos nos volumes de produção; c) efeitos nos preços recebidos e queda na renda dos agricultores familiares nos últimos meses (IICA, 2020; Salazar et al., 2020SALAZAR, L. et al. Retos para la agricultura familiar en el contexto del Covid-19: Evidencia de Productores en ALC. Banco Interamericano de Desarrollo. 2020.; BID, 2020).

A produção tem sido afetada pela falta de protocolos de segurança e proteção sanitária que permitam aos agricultores trabalharem com tranquilidade, interagindo com a comunidade; dificuldades de logística, transporte, distribuição e comercialização dos alimentos; e restrições de acesso ao capital financeiro decorrentes dos efeitos da pandemia nas economias nacionais. Há ainda problemas relacionados ao acesso a insumos, e dificuldades de armazenamento da produção (IICA, 2020).

Contudo, não há evidências concretas de diminuição imediata da produção na América Latina como um todo, indicando que esse possa ser um efeito de longo prazo, especialmente se as restrições à demanda e a falta de acesso financeiro às famílias rurais se mantiverem, impactando as safras futuras (BID, 2020; Salazar et al., 2020SALAZAR, L. et al. Retos para la agricultura familiar en el contexto del Covid-19: Evidencia de Productores en ALC. Banco Interamericano de Desarrollo. 2020.).

Finalmente, há efeitos no valor pago pelos insumos, nos preços recebidos pelos agricultores familiares e nas rendas obtidas com suas atividades. Salazar et al. (2020SALAZAR, L. et al. Retos para la agricultura familiar en el contexto del Covid-19: Evidencia de Productores en ALC. Banco Interamericano de Desarrollo. 2020.) apontam que 56% dos entrevistados relataram aumento no preço dos insumos causados pela pandemia, dificultando o planejamento futuro da produção. Em relação aos preços pagos aos produtos, estudo do BID mostra que 67% dos agricultores familiares consultados afirmaram terem comercializado seus produtos por preços menores que o esperado (BID, 2020).

Outrossim, os impactos na renda são significativos. Segundo estudo do IICA (2020), na América Latina e Caribe 70% dos agricultores familiares entrevistados relataram diminuição das receitas decorrentes da retração econômica gerada pela suspensão de diversas atividades comerciais ligadas ao setor alimentar. A pesquisa também verificou que 70% dos agricultores familiares tiveram de vender ativos, fazer uso de reservas de poupança ou solicitar empréstimos para enfrentar o atual cenário (BID, 2020).

No caso brasileiro não é diferente. Segundo Del Grossi (2020), para o mês de julho/2020, metade dos agricultores familiares do país (51%) relatou diminuição de receita, com uma perda média de 35% da renda bruta familiar mensal habitualmente auferida. Em nível estadual, as quedas mais expressivas ocorreram no Amapá, em São Paulo, no Distrito Federal, no Rio Grande do Sul e em Roraima, estados nos quais houve uma diminuição de mais de 40% na renda bruta das famílias no referido período. Essa diminuição significativa evidencia as vulnerabilidades a que está submetida a agricultura familiar do país e expõe a dimensão do impacto imediato causado pela Covid-19.

Essas evidências apontam que no longo prazo poderá haver falta de capital para investimento nas lavouras, com a possibilidade de os agricultores familiares aumentarem a venda de seus ativos, se não houver apoio dos governos a partir de crédito para produção (Salazar et al., 2020SALAZAR, L. et al. Retos para la agricultura familiar en el contexto del Covid-19: Evidencia de Productores en ALC. Banco Interamericano de Desarrollo. 2020.). Verifica-se igualmente a necessidade de fortalecimento das capacidades organizativas, através de cooperativas, centrais de associações produtivas e redes de comercialização da agricultura familiar. Sem esse apoio e suporte os efeitos gerados pela pandemia podem implicar a incapacidade reprodutiva das famílias rurais e, no longo prazo, o desalento e o abandono do meio rural através da migração para as cidades.

Os efeitos da pandemia nos mercados locais: mudanças no abastecimento

Equivocadamente, no início da pandemia diversos mercados e feiras locais foram suspensos ou tiveram seu funcionamento restringido por autoridade locais e sanitárias. Esses espaços, geralmente caracterizados por comercialização direta, têm como principal oferta alimentos frescos, sazonais e, portanto, com maior qualidade nutricional, importantes ao combate do novo coronavírus. Ademais, evidências recentes atestam que os mercados locais estão sendo menos afetados pela pandemia, tornando inócuo o efeito das restrições as feiras e mercados locais (FAO, 2020).

No caso brasileiro, dentre as primeiras iniciativas para combater a propagação doméstica do vírus optou-se pela proibição de funcionamento de diversas feiras e mercados locais de venda direta (Preiss, 2020PREISS, P. Challenges facing the Covid-19 pandemic in Brazil: lessons from short food supply systems. Agric Hum Values, Agriculture, Food & Covid-19, May 2020.). Conjuntamente, as restrições impostas ao comércio, que fecharam estabelecimentos voltados à alimentação, afetaram a distribuição e acesso aos alimentos (Valadares et al., 2020VALADARES, A. et al. Agricultura familiar e abastecimento alimentar no contexto do covid-19: uma abordagem das ações públicas emergenciais. IPEA. Nota Técnica n.69. Diretoria de Estudos e Políticas Sociais, abril 2020.).

A suspensão imediata das aulas acabou desestruturando as compras do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), repercutindo negativamente sobre os sistemas de abastecimento alimentares locais e sobre a agricultura familiar. Tal situação foi amenizada pela publicação, ainda em abril, da Resolução n.02/2020 do Ministério da Educação (MEC), que autoriza, em caráter excepcional, a distribuição de gêneros alimentícios adquiridos via PNAE às famílias dos alunos. Contudo, muitos estados e municípios optaram por utilizar essa resolução para adquirir alimentos de grandes redes de varejo ou para criar um “auxílio-merenda”, destinando valores em espécie para que as próprias famílias adquiram seus alimentos.10 10 Auxílio-merenda e cestas básicas: veja como prefeituras e estados estão compensando ausência de alimentação nas escolas. G1, 2020. Disponível em: <http://g1.globo.com/educacao/noticia/2020/04/13/auxilio-merenda-e-cestas-basicas-veja-como-prefeituras-e-estados-estao-compensando-ausencia-de-alimentacao-nas-escolas.ghtml>. Acesso em: 13 abril 2020.

Isso tem gerado diminuição do acesso a alimentos diversificados e saudáveis aos alunos e suas famílias e deixado potenciais agricultores fora desse mercado, impactando nas rendas da agricultura familiar (Preiss et al., 2020PREISS, P. Challenges facing the Covid-19 pandemic in Brazil: lessons from short food supply systems. Agric Hum Values, Agriculture, Food & Covid-19, May 2020.b; Valadares et al., 2020VALADARES, A. et al. Agricultura familiar e abastecimento alimentar no contexto do covid-19: uma abordagem das ações públicas emergenciais. IPEA. Nota Técnica n.69. Diretoria de Estudos e Políticas Sociais, abril 2020.).

Do mesmo modo, há o impacto dos sucessivos cortes orçamentários dos últimos anos nas políticas de compras públicas, ampliados pela Covid-19. Em pesquisa realizada em maio, Grisa et al. (2020GRISA, C.; ÁVILA, M.; CABRAL, R. Iniciativas dos governos estaduais na aquisição de produtos da agricultura familiar em atendimento às demandas públicas. Red Politicas Publicas y Desarrollo Rural em America Latina y el Caribe (Red PP-AL). 2020.) identificaram apenas doze estados da federação com iniciativas próprias ligadas ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), e em alguns deles as legislações estabelecidas não foram implantadas.

Ante esse cenário, por meio da Medida Provisória n.957, o governo federal anunciou a liberação emergencial de R$ 500 milhões para o PAA, com vistas às compras de alimentos da agricultura familiar. Apesar dessa iniciativa, verifica-se uma perda de oportunidade em reestruturar de modo efetivo uma política de abastecimento existente e eficiente, o que contribuiria para diminuir os impactos causados pela Covid-19 (Valadares et al., 2020VALADARES, A. et al. Agricultura familiar e abastecimento alimentar no contexto do covid-19: uma abordagem das ações públicas emergenciais. IPEA. Nota Técnica n.69. Diretoria de Estudos e Políticas Sociais, abril 2020.).11 11 Outras iniciativas federais ao setor são a antecipação de R$ 73 milhões do Garantia Safra; oferta de crédito na ordem de R$ 65 milhões para cooperativas e extensão do prazo de financiamento do Pronaf e Pronamp para os mais afetados pela pandemia.

Após os meses iniciais da pandemia e à medida que os conhecimentos acerca das dinâmicas de propagação do vírus tornavam-se divulgados, boa parte dos mercados e feiras retomou seu funcionamento, agora vistos como ambientes seguros por realizarem-se ao ar livre. Assim, vários municípios impuseram um conjunto de práticas que estabeleceram novas dinâmicas de interação entre produtores e consumidores, visando à garantia da segurança de ambos e a manutenção desses mercados.12 12 De modo geral, adotaram-se maior distanciamento entre as bancas, atendimento individualizado, uso de máscaras e álcool em gel, embalagem de produtos e higienização frequente dos locais (Mapa, 2020; FAO, 2020).

Destacam-se também a criação de diversos comitês de emergência levados a cabo pelos Conselhos Municipais de Segurança Alimentar e Nutricional (Comseas) que têm articulado redes de solidariedade para doações de alimentos da agricultura familiar às populações vulneráveis.

Tais ações pontuais têm amenizado a situação crítica pela qual passam os agricultores familiares e as populações vulneráveis nas cidades. Contudo, é necessário destacar que o impacto dessas ações seria maior se os agricultores familiares tivessem sido contemplados com acesso a renda básica, que chegou aser aprovada na Câmara dos Deputados (PL n.735/20), porém vetada pelo presidente da República.

Essa falta de atenção à agricultura familiar gera uma dupla pressão sobre a oferta dos alimentos produzidos por esse setor. Por um lado, a diminuição da renda dos consumidores afeta diretamente a oferta de alimentos, e por outro, a falta de incentivos para a produção e/ou de um auxílio emergencial/assistencial à categoria fragiliza sua situação ante a pandemia.

Por fim, soma-se a isso o fato de que a reabertura dos mercados locais não foi acompanhada da retomada do número de consumidores. Por diferentes razões, a população tem evitado deslocar-se para esses mercados, o que tem levado os agricultores a readequar os volumes de produção e a adotar novas dinâmicas de comercialização por meio de plataformas digitais e do uso de redes sociais, gerando um aumento expressivo nas compras virtuais.

Novas dinâmicas de comercialização - a digitalização do abastecimento

Sem dúvidas, a principal transformação decorrente da pandemia em relação à comercialização de alimentos está no aumento das compras virtuais.13 13 Estudo realizado pela Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo atesta aumento do volume de compras online, e 46% dos consumidores relatam aumento superior a 50% do habitualmente comprado, especialmente com alimentos e bebidas. Disponível em: <https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/05/18/habito-de-consumo-adquirido-na-pandemia-deve-permanecer-apos-covid-19.htm>. Seja por meio de aplicativos comumente utilizados para contatos pessoais e privados (WhatsApp), seja por novos aplicativos ou através de plataformas de compras online e “Feiras Virtuais”, o fato é que têm crescido o comércio de alimentos mediado por tecnologias da informação (Preiss, 2020PREISS, P. Challenges facing the Covid-19 pandemic in Brazil: lessons from short food supply systems. Agric Hum Values, Agriculture, Food & Covid-19, May 2020.).

Essas novas dinâmicas de comercialização têm transformado as práticas de entregas e os modos como os agricultores ofertam seus produtos, assim como tem amenizado os efeitos disruptivos da pandemia nos sistemas alimentares locais (FAO, 2020).

A criação de cestas com preços fixados, a disponibilização de listas de produtos ou kits que congregam conjuntos específicos de alimentos (frutas, grãos ou legumes, por exemplo) têm sido ofertadas aos consumidores permitindo-lhes diversificarem suas dietas. Esses produtos são entregues individualmente nas casas dos consumidores ou em pontos de entregas preestabelecidos, como as próprias feiras e mercados locais que retomaram seu funcionamento. A demanda por alimentos nesse formato, especialmente orgânicos e agroecológicos, tem experimentado aumento expressivo.

É relevante notar que os agricultores já inseridos em sistemas alimentares locais, em associações e em redes de comercialização direta relatam menores dificuldades em “migrar” para os modelos digitais de comercialização. Conforme diversos estudos apontam, o contato direto entre produtor e consumidor, geralmente, é baseado em relações de confiança decorrentes das relações pessoais estabelecidas entre eles (Cassol; Schneider, 2017CASSOL, A; SCHNEIDER, S. Construindo a confiança nas cadeias curtas: interações sociais, valores e qualidade na Feira do Pequeno Produtor de Passo Fundo/RS. In: GAZOLLA, M.; SCHNEIDER, S. (Org.) Cadeias curtas e redes agroalimentares alternativas. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2017.). Essa confiança é agora utilizada para criar espaços virtuais de comercialização.

Outro aspecto interessante é o aumento da digitalização dos produtores orgânicos gerado pela pandemia. Anteriormente avessos às redes sociais, muitos produtores têm investido na melhoria da apresentação visual e estética dos seus produtos nesses espaços como chamariz a novos consumidores (Da Costa, 2020).

Finalmente, há duas questões ligadas às novas dinâmicas de consumo alimentar geradas pelo aumento do tempo das pessoas em suas casas e que têm impactado diretamente nas compras virtuais da agricultura familiar: o primeiro refere-se à possibilidade de cocção dos alimentos, gerando aumento da procura por produtos menos processados e frescos; o segundo fator diz respeito a questões de praticidade e conveniência, que reforçam escolhas por entregas de alimentos em casa, levando os consumidores a optarem por trabalhadores inseridos nesses sistemas.

Dados de pesquisas recentes referendam tais constatações. Verifica-se aumento geral no consumo de alimentos saudáveis, especialmente frutas, legumes e verduras (Opinion Box, 2020; Jornal da USP, 2020). Esse consumo cresce dentre as classes mais abastadas, para as quais a saúde é a principal justificativa. Contrariamente, entre os menos escolarizados e com rendas mais baixas, houve aumento do consumo de ultraprocessados (Jornal da USP, 2020).14 14 Cresce o consumo de alimentos não saudáveis entre os menos escolarizados. Jornal da USP, 2020. Disponível em: <http://jornal.usp.br/ciencias/alimentacao-nao-saudavel-cresce-entre-os-menos-escolarizados-do-norte-e-nordeste>. Acesso em: 13 ago. 2020. Esse aumento, provavelmente, é resultado da perda de renda dessa população, que é mais significativa entre as famílias com menores rendimentos (Unicef, 2020). Ademais, verifica-se que 58% dos domicílios com crianças e adolescentes modificaram seus hábitos de consumo, sendo que para 31% desses essa mudança refere-se ao aumento do consumo de alimentos industrializados (Unicef, 2020).

Conclusão: o porvir em um quadro de incerteza

Dado o quadro cambiante, instável e imprevisível, seria por demais pretensioso estabelecer conclusões sobre o porvir ou “o novo normal” do agronegócio e do sistema alimentar no cenário pós-pandemia da Covid-19.

No que concerne especificamente ao sistema agroalimentar e ao agronegócio brasileiro em especial, existem inúmeros ensaios e esforços sendo levados a termo. Procuramos trazer uma parcela significativa das conclusões e análises do material que conseguimos acessar e revisar para este ensaio, alinhando-as aos nossos próprios entendimentos. Encerramos com mais perguntas do que respostas.

Do ponto de vista econômico e comercial, é possível afirmar que a pandemia promoverá uma exposição internacional ainda maior do agronegócio do Brasil. A demanda por alimentos está aumentando e é possível que em um contexto de acirramento da disputa comercial (Estados Unidos versus China) abra-se ainda mais espaço para as exportações de produtos agrícolas. Mas o que aparenta ser uma fortaleza também poderá se converter em vulnerabilidade, tal como a questão do controle sanitário e da rastreabilidade da produção. É preciso ficar atento ao uso de mecanismos sanitários como biombo para guerra comercial, como foi caso da notícia sobre a presença do coronavírus na carne de frango exportada para China.

A pandemia da Covid-19 vem afetando a saúde e a economia global de uma forma inaudita, somente comparável a momentos de grande inflexão na história da humanidade, como a gripe espanhola e a recessão de 1929. Ainda que raras, as crises sempre existiram e provavelmente continuem a existir. O que nos falta é planejamento e resiliência para fazer frente a estes eventos, como nos lembram Burneth e Owen (2020).

O sistema alimentar que construímos e tal como o conhecemos atualmente é falho e vulnerável. Ele não é eficiente e sustentável pelo lado da oferta, pois muitos trabalhadores do setor de processamento foram infectados em seu ambiente de trabalho e muitos pequenos agricultores familiares não puderam vender seus produtos e manter os meios de vida de suas famílias. Pelo lado da demanda, o sistema também mostra falhas, especialmente pelo fato de fazer chegar a comida quase que exclusivamente àqueles que podem pagar por ela. É preciso que os supermercados e as lojas de abastecimento tenham produtos para ofertar, mas acima de tudo é preciso não se esquecer de que aqueles cidadãos que não têm dispensa em casa não deixem de ter a garantia de acesso à alimentação.

A pandemia da Covid-19 certamente deixará muitos legados, provavelmente mais negativos do que positivos. Mas é preciso não perder a oportunidade de refletir seriamente sobre o modo como produzimos, processamos e distribuímos os alimentos. A crise atual expôs nossas fragilidades e vulnerabilidades. No século XXI já temos suficiente tecnologia e conhecimento acumulado para que nenhum ser humano passe fome ou fique em insegurança alimentar.

Referências

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Notas

  • 1
    Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/historicocotacoes>. Acesso em: 2 ago. 2020.
  • 2
    Disponível em: <https://revistagloborural.globo.com/Colunas/caminhos-da-safra/noticia/2020/06/porto-de-santos-fecha-maio-com-o-quarto-recorde-seguido-de-movimentacao-de-cargas.html>. Acesso em: 2 ago. 2020.
  • 3
    Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/publicacoes/focus>. Acesso em: 10 ago. 2020.
  • 4
    “Em entrevista à agência de notícias Xinhua no dia 5.8.2020, o ministro de Relações Exteriores da China, Wang Yi, rejeitou a ideia de uma Guerra Fria 2.0 com os Estados Unidos. “A China de hoje não é a antiga União Soviética”. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/08/china-rejeita-guerra-fria-20-e-diz-que-esta-pronta-para-negociar-com-os-eua.shtml>. Acesso em: 5 ago. 2020.
  • 5
    “China suspende compra de produtos agrícolas dos EUA”. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2019-08/china-suspende-compra-de-produtos-agricolas-dos-estados-unidos>. Acesso em: 7 ago. 2020.
  • 6
    O governo argentino restringiu as exportações para resguardar o abastecimento interno, estatizou a maior empresa produtora de soja do país, além de taxar as exportações “Cronologia da crise econômica que levou a Argentina à moratória”. Disponível em: <https://economia.uol.com.br/noticias/afp/2020/05/22/cronologia-da-crise-economica-que-levou-a-argentina-a-moratoria.htm>. Acesso em: 10 ago. 2020.
  • 7
    “Peste suína leva criadores chineses ao desespero”. Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2019/10/03/peste-suina-leva-criadores-chineses-ao-desespero.ghtml>. Acesso em: 11 ago. 2020.
  • 8
    As informações estão disponíveis em: <https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/reportmicrrural/?path=conteudo%2FMDCR%2FReports%2FqvcRegiao.rdl&nome=Quantidade%20e%20Valor%20dos%20Contratos%20por%20Regi%C3%A3o%20e%20Brasil&exibeparametros=true&botoesExportar=true>. Acesso em: 13 ago. 2020.
  • 9
    De acordo com relatório da ONU (2017), cerca de 70% dos antibióticos produzidos no mundo têm como destino o tratamento de doenças de animais confinados para consumo humano.
  • 10
    Auxílio-merenda e cestas básicas: veja como prefeituras e estados estão compensando ausência de alimentação nas escolas. G1, 2020. Disponível em: <http://g1.globo.com/educacao/noticia/2020/04/13/auxilio-merenda-e-cestas-basicas-veja-como-prefeituras-e-estados-estao-compensando-ausencia-de-alimentacao-nas-escolas.ghtml>. Acesso em: 13 abril 2020.
  • 11
    Outras iniciativas federais ao setor são a antecipação de R$ 73 milhões do Garantia Safra; oferta de crédito na ordem de R$ 65 milhões para cooperativas e extensão do prazo de financiamento do Pronaf e Pronamp para os mais afetados pela pandemia.
  • 12
    De modo geral, adotaram-se maior distanciamento entre as bancas, atendimento individualizado, uso de máscaras e álcool em gel, embalagem de produtos e higienização frequente dos locais (Mapa, 2020; FAO, 2020).
  • 13
    Estudo realizado pela Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo atesta aumento do volume de compras online, e 46% dos consumidores relatam aumento superior a 50% do habitualmente comprado, especialmente com alimentos e bebidas. Disponível em: <https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/05/18/habito-de-consumo-adquirido-na-pandemia-deve-permanecer-apos-covid-19.htm>.
  • 14
    Cresce o consumo de alimentos não saudáveis entre os menos escolarizados. Jornal da USP, 2020. Disponível em: <http://jornal.usp.br/ciencias/alimentacao-nao-saudavel-cresce-entre-os-menos-escolarizados-do-norte-e-nordeste>. Acesso em: 13 ago. 2020.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Nov 2020
  • Data do Fascículo
    Sep-Dec 2020

Histórico

  • Recebido
    08 Set 2020
  • Aceito
    28 Set 2020
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