Vivendo em Manguinhos: a trajetória de um grupo de cientistas no Instituto Oswaldo Cruz

Life in Manguinhos: the career trajectory of a group of scientists at the Instituto Oswaldo Cruz

Resumos

Este artigo analisa a trajetória de um grupo de cientistas biomédicos de Manguinhos, centrando-se no processo de construção de suas carreiras profissionais, entre as décadas de 1920 e 1950. Para tanto, detenho-me nos estudos de casos, procurando balizar as estratégias de recrutamento, os meios de sociabilidade e de consolidação, assim como os valores que moldaram a identidade do grupo no interior do Instituto Oswaldo Cruz, um dos principais loci da ciência biomédica no Brasil.

história; história da ciência; academias; institutos de pesquisa


This article aims to analyze the career trajectory of a group of biomedical scientists of Manguinhos and it focuses on the process of construction of their professional careers between the 20s and the 50s. It is centered on case studies, with a view to evaluating the sociability and consolidation means employed by the group, the recruiting strategies, as well as the values which shaped their identity in the daily life inside the Instituto Oswaldo Cruz, deemed to be one of the leading loci of biomedical sciences in Brazil.

history; history of science; academia; research institutes


Vivendo em Manguinhos: a trajetória de um grupo de cientistas no Instituto Oswaldo Cruz

Life in Manguinhos: the career trajectory of a group of scientists at the Instituto Oswaldo Cruz

Carlos Eduardo Calaça

Mestre em história social

Rua Lemos Cunha, 538/302 bl. A

24230-130 Niterói — RJ Brasil

calaca@urbi.com.br

CALAÇA, C. E.: 'Vivendo em Manguinhos: a trajetória de um grupo de cientistas no Instituto Oswaldo Cruz'. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. VII(3): 587-606, nov. 2000-fev. 2001.

Este artigo analisa a trajetória de um grupo de cientistas biomédicos de Manguinhos, centrando-se no processo de construção de suas carreiras profissionais, entre as décadas de 1920 e 1950. Para tanto, detenho-me nos estudos de casos, procurando balizar as estratégias de recrutamento, os meios de sociabilidade e de consolidação, assim como os valores que moldaram a identidade do grupo no interior do Instituto Oswaldo Cruz, um dos principais loci da ciência biomédica no Brasil.

PALAVRAS-CHAVE: história, história da ciência, academias, institutos de pesquisa.

CALAÇA, C. E.: 'Life in Manguinhos: the career trajectory of a group of scientists at the Instituto Oswaldo Cruz'. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. VII(3): 587-606, Nov. 2000-Feb. 2001.

This article aims to analyze the career trajectory of a group of biomedical scientists of Manguinhos and it focuses on the process of construction of their professional careers between the 20s and the 50s. It is centered on case studies, with a view to evaluating the sociability and consolidation means employed by the group, the recruiting strategies, as well as the values which shaped their identity in the daily life inside the Instituto Oswaldo Cruz, deemed to be one of the leading loci of biomedical sciences in Brazil.

KEYWORDS: history, history of science, academia [OR scientific academies?], research institutes.

11 A análise de suas trajetórias tem como objetivo a compreensão da montagem das respectivas carreiras, os valores inerentes ao grupo em relação aos outros grupos e à instituição propriamente dita, durante um período ainda pouco explorado pelos cientistas sociais. Trata-se de um grupo correspondente à geração seguinte aos discípulos diretos de Oswaldo Cruz, ingressados no instituto entre o final da década de 1920 e o da de 1930, durante o período final da gestão de Carlos Chagas (1917-34) e no decorrer da gestão de Antônio Cardoso Fontes (1934-42), na direção do IOC. Apesar de a maior parte ter permanecido nesta instituição até o denominado Massacre de Manguinhos (Lent, 1978; Hamilton, 1989), em 1970, quando foram compulsoriamente aposentados, através do Ato Institucional nº 5 (AI-5), considero que a consolidação do grupo se deu na década de 1940, período no qual iniciava a tentativa de reconversão dos seus interesses, tanto na esfera administrativa da instituição, quanto na comunidade científica em geral. Valendo-me do método onomástico, como proposto por Guinzburg (1989, pp. 169-78), Este grupo formou-se em torno das lideranças de Lauro Travassos, da Seção de Zoologia Médica, e de Miguel Osório de Almeida, da Seção de Fisiologia. Embora o grupo representasse um contingente maior, obtive dados dos seguintes indivíduos: Herman Lent, Hugo de Souza Lopes, Sebastião José de Oliveira, Domingos Machado, João Ferreira Teixeira de Freitas, César Pinto, Haity Moussatché e Mario Vianna Dias.

22 procuro seguir a trajetória de tais indivíduos, recorrendo a depoimentos prestados por 13 cientistas no projeto de História Oral, Memória de Manguinhos (Brito, 1991), realizado entre 1986 e 1989. A partir de tais testemunhos, avalio os seus discursos na formação e na consolidação da identidade do grupo e as suas "versões" em relação aos outros grupos e às normas institucionais. Carlo Guinzburg propõe a utilização do método onomástico, elaborando, a partir do nome, uma cadeia de acontecimentos e dados, reconstituindo as trajetórias e estratégias de determinado grupo, em vários setores da vida social.

33 Comple-mentando tais versões, selecionei dados específicos referentes às trajetórias a partir de informações provenientes de outras fontes, tais como os currículos e os livros de registros da instituição. Antes de adentrar na trajetória do grupo, convém uma análise sumária da bibliografia, que enfatiza aspectos relacionados ao IOC, no período proposto, e à carreira científica no ambiente brasileiro. A opção por uma abordagem que, em parte, prioriza a versão dos integrantes do grupo, deve ser relativizada para a compreensão dos aspectos mais genéricos da instituição. Nesse sentido, procuro situar o ponto de vista dos cientistas, nos seus processos de socialização e consolidação da identidade, tendo como contraponto os "outros grupos" por eles definidos como rivais ou aliados, no interior da instituição. O importante no uso metodológico que faço dos depoimentos, portanto, são exatamente as versões, que devidamente comparadas com o auxílio de outras fontes documentais, se por um lado confirmam esta identidade interna, por outro, devem ser relativizadas para as identidades confinadas aos outros grupos e à própria instituição, ainda à espera de estudos sistemáticos.

44 e da Universidade do Distrito Federal, além de pesquisador em Manguinhos. Nesse tempo, Sebastião já conhecia Manguinhos: tinha três primos que lá trabalhavam em ocupações subalternas. Vez por outra, freqüentava o instituto e seus primos foram elos importantes que o influenciaram a gostar daquele ambiente (idem, fita 4B), sem que, no entanto, pudessem intervir diretamente na abertura dos portais da instituição para o ingresso do jovem estudante. O interesse pela parasitologia fez com que Sebastião optasse por prestar o vestibular para a escola. Apesar de aprovado, a aproximação com Lauro Travassos, seu futuro recrutador, seria adiada: em 1937, com a lei de desacumulação, Travassos optara por permanecer no laboratório, em Manguinhos. A Escola Nacional de Veterinária resultou do desdobramento, em 1934, da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária. Corresponde à atual Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

55 Contudo, em seu lugar, entrariam Hugo de Souza Lopes e seu assistente, Domingos Machado. A relação com esses dois pesquisadores-professores seria de fundamental importância para a carreira de Sebastião (idem, fita 5A). Seu desempenho como aluno, na área de zoologia, fez com que o prof. Hugo de Souza Lopes se interessasse por ele. As boas notas e a "privilegiada paciência necessária a um pesquisador" incentivaram o substituto de Lauro Travassos a recrutar o rapaz. Em 1939, Sebastião já estaria trabalhando no laboratório do dr. Hugo de Souza Lopes, na veterinária. O dr. Hugo, por sua vez, apesar de professor da escola, era estagiário, não remunerado, no laboratório de Lauro Travassos, em Manguinhos. Em fins do mesmo ano, Sebastião começava a freqüentar o laboratório de Manguinhos, consolidando, assim, suas primeiras expectativas, ou seja, a aproximação de Lauro Travassos (idem, fita 5B). Nascido em 1909, Hugo de Souza Lopes, apesar de ter tido uma infância razoavelmente abastada, após a morte de seu pai, "um dentista bem-sucedido", passara a enfrentar dificuldades, tendo, inclusive, que parar de estudar por três anos. Apesar disso, conseguira completar o ginásio no Colégio São Bento. Sua primeira opção era cursar engenharia, pois tivera um "excelente professor de geometria" que o incentivara; no entanto, foi reprovado no vestibular para a Escola Politécnica. Decidiu-se, então, por ingressar no curso de odontologia, dando, assim, continuidade à profissão paterna, porém, Lauro Travassos possuía três empregos públicos, em todos admitido por concurso: além do IOC, lecionava na Universidade do Distrito Federal e na Escola Nacional de Veterinária.

66 Dividido em seis seções científicas — Bacteriologia e Imunidade, Micologia e Fitopatologia, Zoologia Médica, Anatomia Patológica, Hospitais e Química Aplicada —, o instituto permanecia, desde 1934, filiado ao Ministério da Educação e Saúde Pública. Sobre o momento de passagem da diretoria de Carlos Chagas para Antônio Cardoso Fontes, ver Benchimol (1990, pp. 68-70) e Chagas Filho (1993).

77 Contava ainda com as seções administrativas e auxiliares. Tal organização permaneceu até 1942. Sobre a transferência de Manguinhos do Departamento Nacional de Educação para o de Saúde, ver Benchimol (1990, p. 70); para algumas lideranças de cada um destes setores, ver Chagas Filho (1993, pp. 131-7).

88 Em 1937, Lauro Travassos, responsável pelo setor de Helmintologia, era o pesquisador do IOC em exercício com o maior número de publicações. Contava com um total de 208 artigos, em uma média de 8,66 a cada ano. A produção anual de alguns de seus discípulos seguia de perto o padrão do mestre: enquanto Herman Lent, com 23 artigos, mantinha uma média de 7,66, seu companheiro de laboratório, João Ferreira Teixeira de Freitas, com 31 publicações, mantinha uma média de 7,75 artigos anuais (Pinto, 1937, pp. 31-2). César Pinto, responsável por estas estimativas, era de uma geração anterior, tendo freqüentado o Curso de Aplicação de 1917, sendo contratado logo a seguir. Tempos depois, adquiriria o seu próprio laboratório no setor de Entomologia. Apesar disso, mantinha intensa ligação com Lauro Travassos e transitava entre os dois laboratórios, tornando-se uma das principais lideranças do grupo. Pinto havia publicado um total de 158 artigos, numa média de 8,31 anuais. Talvez a publicação desses dados, em 1937, comparando nome a nome a respectiva produtividade científica de cada "técnico" do instituto, representasse a incipiente divulgação de um grupo que se destacava pelo alto índice de publicações. A tentativa de aproximação por parte de Sebastião José de Oliveira, de Travassos, ao que tudo indica, não estava respaldada em critérios casuais. O pequeno e dinâmico laboratório de Helmintologia mantinha uma repercussão internacional na área de zoologia. Travassos, com 25 anos de atividade científica, em 1938 seria homenageado por seus discípulos e colegas com um livro jubilar comemorativo (Dias, 1990, p. xi). Neste livro, Hugo de Souza Lopes, retornando ao instituto ainda como estagiário, publicara dois artigos, totalizando 31, desde 1932 (Coura, 1981, pp. ix-xv). Porém, além do dinamismo do laboratório e da alta produtividade, reconhecida no artigo de César Pinto, Hugo de Souza Lopes, ao retornar ao IOC, mesmo sem vínculos ou remuneração, se respaldava em critérios que extrapolavam o mérito científico. Segundo ele (1991, fita 1B), "nossas afinidades eram muito grandes: eu, o Travassos, o Herman, o Teixeira de Freitas, o César Pinto, o Domingos e o Proença, que já estava lá; era uma coisa assim de irmãos. Não havia possibilidade de a gente pensar em se separar um do outro." Um ano depois, seria o próprio Hugo de Souza Lopes, e seu assistente na escola, Domingos Machado, que levariam Sebastião José de Oliveira para o laboratório. Ainda estudante, Sebastião não tinha o "mesmo gabarito" de seus professores, que, embora estagiários "tinham já um status de ser do instituto. Era como se fossem: recebiam correspondência, mandavam correspondência pelo instituto" (Oliveira, 1991, fita 11B). Hugo de Souza Lopes, Domingos Machado e Manoel Cavalcanti Proença eram "estagiários permanentes" no laboratório de Lauro Travassos. Junto a Herman Lent e Teixeira de Freitas, nesta época já contratados, constituíam, nas palavras de Sebastião José de Oliveira, "os cinco grandes do laboratório", sob a liderança de Lauro Travassos (idem, fita 12A). Sebastião se formara em 1941 e permanecera, junto aos outros três estagiários, nesta condição até 1950 (Oliveira, Curriculum vitae) quando seriam temporariamente contratados pela "verba 3". Para se manter, Sebastião dividira seu tempo entre Manguinhos e outras instituições. Em 1941, por indicação de Hugo de Souza Lopes, ingressara no Serviço Nacional de Malária, chefiado por Gilberto de Freitas, pesquisador do instituto. Em 1943, indicara Sebastião a César Pinto para um trabalho financiado pelo Departamento Nacional de Estradas e Rodagens (DNER), num projeto de controle da malária, nas grandes obras de modernização das rodovias (Oliveira, 1991, fita 5B). Dessa forma, Sebastião consolidava, parcialmente, sua expectativa de permanecer no laboratório, já que, segundo ele, "era uma relação muito boa, pois a gente trocava experiência. O ambiente do nosso laboratório era um ambiente aberto. E todo mundo trabalhava, todo mundo discutia o trabalho dos outros, todo mundo via o trabalho dos outros. Não havia esse negócio de 'segredinhos'" (idem, fita 12A). Muito próximo daquele ambiente familiar, aliás, no mesmo pavilhão, denominado Quinino (hoje Figueiredo Vasconcellos) e dividido por um hall apelidado "carinhosamente" de Praça Haemonchus, no laboratório liderado por Miguel Osório de Almeida, seção de Fisiologia, estagiavam Haity Moussatché e Mario Viana Dias (Machado Filho, 1981, p. v). Em um ambiente "de liberdade total", Haity Moussatché, estagiaria entre 1934 e 1937, ano em que conseguiria uma pequena remuneração através de verba extranumerária (Moussatché, 1991, fita 2A). Quando contratado, Haity Moussatché já teria incluído em seu currículo dez publicações, nove das quais con-juntas com Miguel Osório de Almeida. Em 1938, Haity Moussatché e Miguel Osório de Almeida incluiriam em seus artigos a colaboração de Mario Viana Dias, recentemente contratado como pesquisador assistente; os três publicariam cerca de 14 artigos naquele mesmo ano (Moussatché, Curriculum vitae). Ao que tudo indica, a proximidade dos pesquisadores e estagiários dos dois laboratórios não se reduzia ao espaço físico. Em primeiro lugar, recorde-se a antiga amizade de Haity Moussatché e Herman Lent, antes vizinhos em Niterói, depois colegas na Faculdade de Medicina. Talvez tenha prevalecido mais esta afinidade prévia dos jovens pesquisadores na conjunção dos dois laboratórios do que uma proximidade informal entre os dois principais recrutadores, Lauro Travassos e Miguel Osório de Almeida. É recorrente nos depoimentos a afirmação do "prestígio" dos pesquisadores e dos estagiários dos dois laboratórios, delineado em função da "quantidade e da qualidade das publicações" e, conseqüen-temente, do reconhecimento, "firmando o conceito de seu(s) autor(es)" (Lent, 1978, p. 20). Sobre a criação das divi-sões, substituindo as anti-gas seções e os problemas político-institucionais do período, ver Hamilton (1989, p. 9).

99 Tal critério, segundo, ainda, tais testemunhos, revertia-se na aproximação de "pesquisadores", muitas vezes estagiários, e os diferenciava daqueles que, mesmo contratados, "nunca publicaram uma linha sequer", e faziam de sua permanência na instituição a garantia de um emprego público como outro qualquer. Para Mario Viana Dias (1991, fita 10A), a conjunção dos dois laboratórios seria caracterizada como a expressão de "um mundo em crescimento". Tal definição se oporia ao que ele denomina de "mundo cristalizado", formado por pessoas com "uma maneira de fazer ciência arcaica"; pessoas estas que "já tinham estereotipadas seu tipo de trabalho e não aceitavam mudanças". O exame, ainda, de alguns depoimentos e publicações conjuntas, sugere-nos, para os critérios de configuração da identidade dos grupos em Manguinhos, que ser da mesma área científica não significava necessariamente a proximidade. Embora pertencesse à fisiologia, Antônio Augusto Xavier não tinha a "respeitabilidade científica", elo da conjunção entre a fisiologia de Miguel Osório e a zoologia médica de Lauro Travassos. Da mesma forma, Genésio Pacheco consolidava um grupo na Seção de Microbiologia, que se opunha ao de José Guilherme Lacorte, da mesma seção, resultando em uma ignorância mútua. É recorrente, nos depoimentos examinados, a análise em relação a al-guns grupos, como "os que não trabalhavam" ou os que "eram pouco respeitados cientificamente, por escreverem muito, mas nada que prestasse". A conjunção do critério de publicações e de "respeitabilidade científica"; a idéia de "mundo em crescimento", em oposição a "um mundo cristalizado" proposta por Mario Viana Dias, codificado na predisposição de Lauro Travassos e de Miguel Osório, na cooptação de discípulos e difusão de idéias; o "ambiente familiar", retificado por Domingos Machado, Hugo de Souza Lopes e Sebastião José de Oliveira; as afinidades entre os amigos que ingressariam em um e outro laboratório (Herman Lent, Haity Moussatché e Teixeira de Freitas); a ampliação destas afinidades, envolvendo os próprios recrutadores na elaboração de estratégias para a manutenção dos jovens estudantes no ambiente do laboratório; e, por fim, a proximidade dos dois laboratórios, destacada por Domingos Machado, possibilitando encontros, "quase casuais", para o cafezinho, no Pavilhão do Quinino parecem implicar a conforma-ção de um grupo que, relativamente, corresponderia ao que Zarur (1994, p. 85) denomina de "família reconstruída". Sob a liderança "honrosa" de Lauro Travassos, com a liberdade e o incentivo à pesquisa, proporcionados por Miguel Osório, este grupo, inicialmente de nove ou dez pesquisadores, reunidos no "laboratório do Travassos" ou "laboratório do Miguel Osório", reconstruiu suas famílias na aliança dos dois laboratórios, recriando, a partir do "modelo familístico", remanescente do espaço privado, as relações de sociabilidade no ambiente de trabalho. A inclusão nesta "nova família" não envolvia, pura e simplesmente, a filiação direta, o que, como vimos, não ocorre no grupo examinado, embora tenha sido prática na instituição, sem que isto tenha gerado profissionais desqualificados. Diz o autor, ao defender o grupo: "Se os trabalhos publicados são bons, valiosos, estará firmado o conceito de seu autor, mas se não representarem nada de valioso (ou se não existirem) também estará firmado o mau conceito do intitulado pesquisador, que dessa forma terá deixado o documento negativo que passará a caracterizar o seu curriculum vitae."

1010 O pertencimento a esta "família" incluía, a priori, a sintonia com padrões implicitamente reproduzidos no ambiente do laboratório. Este ambiente, respaldado em uma "disposição de fazer ciência", se diferenciava, em larga escala, do que era observado em outros ambientes de Manguinhos. A composição desta "família" era permeada por "uma espécie de acordo tácito" para este "mundo em crescimento", visando um auto-reconhecimento dos méritos, avaliados a partir da quantidade e da qualidade do que publicavam. Tal como no grupo da geofísica paraense, analisado por George Zarur, o padrão "familístico" de sociabilidade não eliminou a competência e o mérito na conformação deste grupo de biomédicos de Manguinhos. A partir do mapeamento e, conseqüentemente, da percepção do que aprovavam ou rejeitavam na instituição, onde "poucos faziam ciência", o grupo traçava os contornos conjuntos e definiam os "seus" laboratórios como locais "onde realmente se fazia ciência". Notoriamente, o grupo transformou o laboratório em "espaço familiar" e dali fomentava suas bases de sustentação, geradas pela conjunção das afinidades e do mérito. Complementando esse locus de afinidade, surgem determinados espaços da instituição, como um todo. Entre as formas de mapeamento do instituto e dos grupos rivais ou aliados, freqüentemente mencionadas, o exame dos depoimentos revela que a visualização e o reconhecimento das afinidades e divergências, em Manguinhos, eram reelaborados constantemente no microespaço do refeitório. Na hora da refeição, as divisões de mesas, a determinação do lugar para sentar e das companhias para as conversas informais, selecionavam critérios, respaldados em hierarquias verticais, em associações horizontais, bipolarizando diversas categorias, configuradas no tempo e decorrentes de divergências ocorridas no interior da instituição. O refeitório tornava-se um palco privilegiado de observação e reelaboração das divergências e afinidades do grupo. São necessários estudos específicos para alguns grupos, em especial, os liderados por Evandro Chagas e Walter Oswaldo Cruz, filhos, respectivamente, de Carlos Chagas e Oswaldo Cruz. Os depoimentos examinados revelam a importância dessas lideranças na instituição nas décadas examinadas. Por outro lado, Carlos Chagas Filho, também filho de Carlos Chagas, que se desligaria de Manguinhos em 1937, fundaria o Instituto de Biofísica e com extrema competência administraria sua reprodução no tempo, representando um elo entre o "familismo" direto e o mérito, sem que um excluísse o outro. Para a fundação e a reprodução do Instituto de Biofísica, ver Góes Filho (1997).

1111 Nesse sentido, laboratório(s) e refeitório surgem como dois 'espaços' distintos e complementares na sociabilidade do grupo; o primeiro representaria a recriação da família, com suas relações de afinidades, reciprocidades e códigos próprios; o segundo espaço, o do refeitório, representaria o mapeamento da instituição, onde se examinariam as alianças e as divergências em relação ao grupo ou a determinado indivíduo. Paradoxalmente, apesar do modelo de sociabilidade vigente, o espaço do(s) laboratório(s) surge nos discursos como espaço característico da interação dos agentes que reproduziam formas de fazer ciência "específicas" em relação a alguns outros ambientes (mesmo, outros laboratórios) da instituição, inclusive do Brasil. As referências de apoio a esta "especificidade" são sempre os padrões e normas da comunidade científica internacional, cujos elos de ligação eram os líderes (Lauro Travassos e Miguel Osório). Pairando sobre esses dois mundos opostos e complementares, o enaltecimento de Oswaldo Cruz era constantemente reiterado no tempo, por um lado, como discurso de apoio à vocação da instituição como campo privilegiado para as demandas do grupo em suas práticas científicas, A compreensão plena deste "espaço" só será possível mediante o estudo sistemático dos vários grupos e das diversas categorias que os situam nas relações internas e externas à instituição. A "composição" e a "disposição das mesas" seriam, simbolicamente, o resultado de um trabalho desta natureza.

1212 por outro lado, inconscientemente, reproduzindo a unicidade do Instituto Oswaldo Cruz. Este resgate mitológico poderia ser definido como um terceiro "espaço" analítico, ainda que sua compreensão mereça estudos sistemáticos. Para a compreensão da construção do mito de Oswaldo Cruz e das implicações ideológicas que esta mitificação representou em sua fase incipiente, ver Brito (1995).

313 Já no início da década de 1940, o grupo elaborava algumas estratégias para sua divulgação no meio científico. Em 1941, lançava mão de recursos adquiridos junto ao mecenas Guilherme Guinle e fundava seu próprio periódico: a Revista Brasileira de Biologia. Tendo como principais líderes Herman Lent e Mario Viana Dias, a revista aliava formalmente os laboratórios de Lauro Travassos e Miguel Osório de Almeida. Para registrar e legitimar o periódico, fundaram a Sociedade de Biologia do Brasil; agregaram participantes de várias outras sociedades regionais ou mesmo de grupos aliados, em Manguinhos. A criação da revista representava, por outro lado, a necessidade de especialização para a biologia brasileira, em sintonia com grupos internacionais com os quais mantinham contatos permanentes. Para o culto à memória de Oswaldo Cruz, criando e recriando o mito, no inconsciente coletivo da instituição, vale mencionar a abordagem antropológica de DaMatta (1997, p. 61) para a sociedade brasileira. No caso de Manguinhos, este mito funcionaria como o elemento ritualístico e agregador de conjuntos "separados e complementares de um mesmo sistema social". Seria "um mecanismo básico por meio do qual uma sociedade feita com espaços distintos pode tentar refazer sua unidade".

1414 Se, no período anterior, a revista Memórias — que representava a aglomeração das outras áreas "produtivas" de Manguinhos — seria arena de penosas esperas para publicações, na década de 1940, a Revista Brasileira de Biologia facilitaria a divulgação da vasta demanda do grupo e representaria a divulgação daquele "mundo em crescimento". No decorrer das décadas de 1940 e 1950, lideranças efetivas substituiriam as "lideranças honrosas"; ganhariam força, receberiam seus próprios laboratórios — recriariam suas próprias "famílias" —, associar-se-iam a outras lideranças e tentariam, a todo custo, intervir na orientação da instituição. O que representou esta sociedade, a rede entre seus fundadores e os pesquisadores de outras instituições (nacionais e internacionais), merece um estudo específico, tomando como ponto de partida o periódico, analisando questões relativas ao que representariam as transformações da pesquisa científica no campo da biologia no Brasil deste período.

1515 Haity Moussatché e Herman Lent, os dois filhos de imigrantes, sem relações de parentesco com cientistas ou burocratas no ambiente brasileiro, que, em inícios da década de 1930, estagiavam em Manguinhos, já entre 1942 e 1949, estariam erguendo suas bandeiras contra a "centralização excessiva" de Henrique de Aragão, na direção do IOC, que, ao tentar implantar "um controle rígido sobre os pesquisadores", invadia terrível e imperdoavelmente o sagrado espaço da "família". Ao utilizar a categoria analítica de "família reconstruída", não pressuponho a inexistência de conflitos no seu interior. Se, no período de sua formação, o grupo tendeu a permanecer estável e consensual, a projeção de determinados indivíduos e o jogo de relações com outros indivíduos e grupos rivais ou aliados parecem ter rompido o espaço harmônico laboratorial. A conseqüência disto foi a substituição de seus líderes primordiais, "honrosos" por lideranças efetivas — um rompimento com o pseudopai, o que, em alguns casos, parece ter gerado sérios problemas afetivos, psicológicos e institucionais e que os depoentes, em geral, evitam mencionar — ou na fundação de novas famílias, estendendo, assim o clã primordial — nesse caso, assumido como uma "conseqüência natural" e recorrentemente mencionado nas entrevistas.

1616As associações recriadas no ambiente e a comparação com outras esferas da instituição principiavam a construção de uma identidade entre os freqüentadores do laboratório, proporcionando, assim, uma motivação mútua, intensi-ficando a reprodução das afinidades e da disposição de "fazer ciência", sem que um aspecto excluísse necessariamente o outro. A criação dessa identidade propiciava, por outro lado, a constatação do que negavam na instituição. Apesar de lutarem por permanecer nela, era, em parte, constituída por "clãs" rivais da família reconstruída. O instituto, parcialmente apropriado como locus de reconstrução da família, também era espaço de rivalidades e ameaças, visualizadas em ambientes "opostos e complementares": o laboratório — espaço onde se delimitavam as características e estratégias particulares do grupo — e o refeitório — espaço onde se reelaboravam desenhos harmônicos e desarmônicos em relação aos interesses do grupo. Apesar de algumas características comuns com o grupo da geofísica paraense analisado por George Zarur, seja na correlação entre afinidades e o padrão meritocrático de recrutamento, seja na existência das lideranças e, ainda, na luta pela legitimação da biologia, enquanto pesquisa básica, relacionada à orientação científica da instituição, um dos fatores que os diferencia é que, no caso da geofísica, os agentes compartilhavam, em seus discursos primordiais, uma ideologia política, nacionalista e regionalista. Esse conteúdo pouco aparece no discurso do grupo analisado. O que se destaca na ideologia primordial do grupo são reflexões relacionadas ao espaço institucional. Em primeiro lugar, a identificação com um estilo de fazer ciência, divergente do praticado pelos grupos rivais: trata-se do embate entre os que defendiam a vocação do instituto para a pesquisa básica e aqueles que defendiam a vocação para a pesquisa aplicada. Em segundo lugar, a visão do instituto como espaço de produção e prática científica, o que propiciava o confronto com alguns outros grupos, vistos como meros apropriadores do espaço institucional, sem interesse ou vocação para tais atividades. Se os espaços institucionais do laboratório e do refeitório refletiam, para o grupo, oposição e complementaridade na instituição, arrisco concluir essa análise com um terceiro espaço, que apesar de apropriado em seus discursos, como apoio para implementação de um saber e de uma prática científica, fundamenta algo maior que pode ter composto os discursos de diversos grupos. As conversas dos pseudopais com os pseudofilhos, no laboratório, de aliados e rivais no refeitório, a visão arquitetônica da fachada do Castelo no horizonte de Manguinhos e os rituais de enaltecimento em níveis nacional e internacional revitalizavam uma identidade maior, estabelecida pelo "prestígio de pertencer a Man-guinhos" e retificada na mitificação ao patriarca-mor, Oswaldo Cruz. Nesse sentido, o artigo de Lívia Barbosa (1984) confirma a hipótese da recriação da "família" e, obviamente, das suas nuanças, em um espaço notoriamente público. Segundo a antropóloga, sábados e domingos seriam tempos que, nas concepções de mundo do brasileiro, estariam ligados muito mais aos aspectos internos da casa e da família, ao passo que os "dias comuns da semana" são vividos como tempos externos, marcados pelo trabalho.

Este artigo é centrado na trajetória de um grupo de pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), vinculados à ciência biomédica, entre 1925 e 1950.
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    A análise de suas trajetórias tem como objetivo a compreensão da montagem das respectivas carreiras, os valores inerentes ao grupo em relação aos outros grupos e à instituição propriamente dita, durante um período ainda pouco explorado pelos cientistas sociais. Trata-se de um grupo correspondente à geração seguinte aos discípulos diretos de Oswaldo Cruz, ingressados no instituto entre o final da década de 1920 e o da de 1930, durante o período final da gestão de Carlos Chagas (1917-34) e no decorrer da gestão de Antônio Cardoso Fontes (1934-42), na direção do IOC.
    Apesar de a maior parte ter permanecido nesta instituição até o denominado Massacre de Manguinhos (Lent, 1978; Hamilton, 1989), em 1970, quando foram compulsoriamente aposentados, através do Ato Institucional nº 5 (AI-5), considero que a consolidação do grupo se deu na década de 1940, período no qual iniciava a tentativa de reconversão dos seus interesses, tanto na esfera administrativa da instituição, quanto na comunidade científica em geral.
    Valendo-me do método onomástico, como proposto por Guinzburg (1989, pp. 169-78),
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    procuro seguir a trajetória de tais indivíduos, recorrendo a depoimentos prestados por 13 cientistas no projeto de História Oral,
    Memória de Manguinhos (Brito, 1991), realizado entre 1986 e 1989. A partir de tais testemunhos, avalio os seus discursos na formação e na consolidação da identidade do grupo e as suas "versões" em relação aos outros grupos e às normas institucionais.
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    Comple-mentando tais versões, selecionei dados específicos referentes às trajetórias a partir de informações provenientes de outras fontes, tais como os currículos e os livros de registros da instituição.
    Antes de adentrar na trajetória do grupo, convém uma análise sumária da bibliografia, que enfatiza aspectos relacionados ao IOC, no período proposto, e à carreira científica no ambiente brasileiro.
  • A instituição

    Para Schwartzman (1979, p. 227), na década de 1930, em destaque 1934, com a fundação da Universidade de São Paulo (USP), e 1945, do Laboratório de Biofísica da Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, criou-se "um novo modelo de cientista", cujo grupo de referência deixou de ser a comunidade científica local para ser a internacional. Concomitantemente a isto, ocorreu um progressivo movimento de valorização da universidade, não apenas para a formação de pesquisadores como também da prática científica.

    A tentativa de implantação de um novo modelo para a ciência se expressaria, também, na criação do Instituto Biológico de São Paulo, em 1927. Seguindo as premissas implementadas por Oswaldo Cruz, nos anos iniciais de Manguinhos, Arthur Neiva e Henrique Rocha Lima administraram o instituto com o duplo caráter de pesquisa e de aplicação de ciência, imbuídos, porém, de um "espírito universitário" (idem, ibidem, pp. 230-3).

    Estas modificações, verificadas nas universidades, e a orientação, concretizada no Instituto Biológico de São Paulo, sedimentavam um novo modelo para a carreira científica, que, segundo Schwartzman (op. cit., pp. 227, 238-9), "veio a ter um peso extremamente importante no processo de institucionalização da ciência brasileira". Tal processo não seria acompanhado por Manguinhos. Caracterizada pela endogenia, verificava-se em tal instituição intensa dificuldade para a renovação dos seus quadros e para a adoção de novas linhas de trabalho. Seu contingente de pesquisadores, "formado por grupos estanques", estava constantemente mobilizado por intermináveis conflitos internos.

    Benchimol (1990, pp. 70-5), ressaltando as iniciativas centralistas e autoritárias que nortearam as diretrizes governamentais durante o Estado Novo, enfatiza, como conseqüência, o fim da autonomia e os problemas de ordem financeira enfrentados pelo IOC, a partir da década de 1930. O modelo, legitimado em 1907, com a reforma e o saneamento da capital federal, reiterado no período de Carlos Chagas, com as reformas sanitárias, entre 1919 e 1920, mostrava-se frágil diante das orientações políticas intervencionistas governamentais. Entre tais medidas destacaram-se:

    1) A proibição das vendas da vacina da manqueira, em 1938, provocando o fim de um período de relativa autonomia orçamentária para Manguinhos.

    2) A lei de desacumulação, de 1937, fazendo com que diversos cientistas optassem pela carreira universitária.

    3) A obrigatoriedade dos concursos públicos, decretada pelo Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), dificultando o ingresso de novos pesquisadores no instituto.

    Por outro lado, no campo científico, a racionalidade, orientada por uma reduzida divisão e especialização do trabalho, mostrava-se obsoleta em relação ao paradigma norte-americano, que a Fundação Rockefeller implementava nos estudos sobre a febre amarela, no Brasil. O modelo de Manguinhos, apoiado na tradição européia, enfatizando o gênio individual dos descobridores, se revelaria como fator imprescindível para a perda de sua competitividade, "tanto na comunidade internacional, cada vez mais dominada por organizações e equipes interdependentes, como em relação à demanda nacional de terapêuticos, que requeria a lógica das grandes plantas industriais" (idem, ibidem, p. 72).

    A convergência de problemas enfrentados pela instituição se agravariam nos anos subseqüentes. Disputas internas, que interferiam nos projetos de maior alcance, constantes conflitos entre os setores de pesquisa e de produção e a vinculação do instituto ao Ministério da Saúde em 1951, alocando recursos prioritariamente para a produção de vacinas, criavam sérios problemas para os pesquisadores que insistissem em uma carreira científica dentro do IOC.

    Tanto Schwartzman quanto Benchimol enfatizam as dificuldades enfrentadas pelo instituto após o período getulista, resultando em uma ruptura para Manguinhos, antes principal centro da ciência brasileira, frente às novas orientações surgidas. A mola mestra de tal ruptura seriam os fatores relacionados à redução de sua autonomia financeira, a intervenção política, ou, mesmo, a orientação científica que moldava a prática científica de seus pesquisadores.

    Porém, tais considerações acabaram por ofuscar mais de meio século de sobrevivência da instituição, que contou, no período delimitado, com pesquisadores que se projetaram em nível nacional e internacional. Nesse sentido, o exame da documentação sugere-nos a continuidade de setores, ou melhor, de grupos, determinados em fazer "um tipo de ciência", apesar das pressupostas adversidades políticas e institucionais enfrentadas.

    A carreira científica no Brasil

    Ao analisar a comunidade científica brasileira, Schwartzman (1979, pp. 249-50) enfatiza três aspectos relevantes na trajetória inicial das carreiras dos que nela ingressavam: o primeiro aspecto se relacionaria a uma iniciação prematura, proporcionada por um ambiente familiar propício, onde já houvesse ascendentes precursores, ou por algum tipo de relação direta com professores, projetados no âmbito da incipiente ciência nacional; o segundo seria o acesso a uma instituição de boa qualidade; o terceiro, a possibilidade de treinamento no exterior, tendo, assim, contato com diferentes condições de trabalho e com valores e motivações de um outro ambiente.

    Os dois últimos aspectos estariam intrinsecamente relacionados com o primeiro. As linhagens familiares, principalmente na biologia, teriam sido freqüentes na montagem e na reprodução dos grupos, possibilitando aos pretendentes a incorporação às poucas instituições disponíveis. Por outro lado, as influências exercidas pelos ascendentes, engajados nas comunidades internacionais, facilitariam a receptividade para os recém-ingressados.

    Seguindo, em parte, a orientação de Schwartzman, Araújo e Oliveira (1985, pp. 116-7) ressalta a predominância de relações de reciprocidade, na viabilidade da carreira científica, no contexto brasileiro. Tal critério de recrutamento e de reprodução seria incompatível com as bases meritocráticas, resultando em entraves para o desenvolvimento da ciência, entre nós.

    Em sua visão, o maior problema residiria no embrionário grau de institucionalização da carreira científica, influindo negativamente no processo de socialização, que orientaria a reprodução da comunidade científica, no Brasil. A gerência de lideranças carismáticas, comparti-lhando relações mais de ordem pessoal do que contratual, corromperia a socialização do indivíduo. Diante disso, os critérios seletivos passariam prioritariamente pelas preferências do "padrinho" e pelo grau de proteção do "apadrinhado", mais que pelas regras verificadas em contextos com maior grau de institucionalização, onde prevaleceria o mérito, moldando os diversos níveis das relações entre o "mentor" e o "orientando".

    Zarur (1994, p. 63) contrapõe tal perspectiva: a visão de que o problema estaria vinculado às deficiências do processo de institucio-nalização da ciência se mostra excessivamente internalista e, portanto, limitada. Para ele, o problema se originaria na interferência da cultura brasileira, operando no contexto científico e "não consiste tão-somente na existência de uma ciência pouco institucionalizada, mas na baixa institucionalização do país de quase todos os setores 'modernos', a começar pelo próprio Estado e por sua organização política".

    Esta influência da cultura brasileira no ambiente científico seria responsável pela reprodução de um modelo "familístico" no interior da comunidade científica. Mesmo nos ambientes com perspectivas modernizadoras, como a USP, por exemplo, Zarur (op. cit., pp. 65, 70) aponta, em determinado momento histórico, a "patrimonialização" exercida pelos grupos precursores ou por seus discípulos diretos. Com o reconhecimento das lideranças e com o estabelecimento das relações interindividuais, iniciava-se a reprodução do modelo. Tal "patrimonia-lização" estendia-se ao próprio conhecimento, já que cada pesquisador se tornava senhor de um assunto original no âmbito da instituição. Porém, tais recursos não eliminam, segundo Zarur, e aí está sua grande contribuição, a compatibilização com a competência. Para este autor, o modelo "familístico" não elimina o mérito nas condições de recrutamento e de reprodução da comunidade científica brasileira, já que "o modelo familístico faz com que de pai para filho se passem desde cedo certos conhecimentos que no modelo americano só após o término dos estudos secundários. Isto cria um certo nível de especialização fundamental para a boa qualidade de algumas áreas da ciência."

    Ao estudar o grupo da geofísica paraense, Zarur (op. cit., p. 85) observa que, embora não vigore o "familismo direto", as relações estabelecidas pelo grupo consubstanciavam uma nova família, o que ele chama de "família reconstruída", ou seja, ao comparar com os pa-drões norte-americanos, predominantemente contratuais, vigoraria, no grupo, um peso maior para as relações afetivas, que recriariam no ambiente de trabalho relações próximas às da família direta. Tais valores, porém, não eliminaram a competência do grupo, sua reprodução e desenvolvimento, em padrões notoriamente internacionais.

    Cabe agora confrontarmos alguns destes quadros explicativos para o caso a que se refere o presente estudo, assim como visualizar a trajetória profissional e o ponto de vista do grupo nas suas relações perante a instituição.

    A caminho de Manguinhos

    Sebastião José de Oliveira, filho de Onofre José de Oliveira, maquinista da Estrada de Ferro Central do Brasil (Oliveira, 1991, fita 1A), e de Jesuína Fonseca Oliveira, neta de uma escrava do barão de Taquara (idem, fita 2B), passara seus primeiros anos de vida em Cascadura, subúrbio do Rio de Janeiro. Devido a problemas financeiros enfrentados por sua família, Sebastião, assim como seus sete irmãos, tiveram inúmeras dificuldades para iniciar e complementar seus estudos (idem, fita 1A).

    Após o falecimento de um de seus irmãos, que "gostava de estudar e lutava por isso", Sebastião herdou alguns livros que o auxiliaram no Ginásio Arte e Instrução, localizado no bairro onde nasceu. Seu pai, com muita luta, conseguira patrocinar seus estudos, concluídos em 1934, no mesmo ginásio (idem, fita 4A). Segundo Sebastião, sua relação com a "história natural" se iniciou em casa: sua avó, filha da escrava, o ensinara a entender o que ele chama de "linguagem da natureza". No ginásio, o professor de física Hernani Xavier de Brito — que, na sua opinião, deveria ser biólogo nas horas vagas —, "costumava levar os alunos para passear, recolher plantas e estudá-las". Tudo isso reforçara este gosto prematuro (idem, fita 1 A-B).

    Por volta de 1936, Sebastião ingressou no Curso Complementar de Agronomia, na Praia Vermelha; um curso público, visando, principal-mente, a preparação para os futuros vestibulandos, pretendentes a áreas vinculadas à história natural. Nesse curso, optou pela veterinária, em vez de agronomia. Já ouvia falar de Lauro Travassos que, na época, era professor da Escola Nacional de Veterinária
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    e da Universidade do Distrito Federal, além de pesquisador em Manguinhos. Nesse tempo, Sebastião já conhecia Manguinhos: tinha três primos que lá trabalhavam em ocupações subalternas. Vez por outra, freqüentava o instituto e seus primos foram elos importantes que o influenciaram a gostar daquele ambiente (idem, fita 4B), sem que, no entanto, pudessem intervir diretamente na abertura dos portais da instituição para o ingresso do jovem estudante. O interesse pela parasitologia fez com que Sebastião optasse por prestar o vestibular para a escola. Apesar de aprovado, a aproximação com Lauro Travassos, seu futuro recrutador, seria adiada: em 1937, com a lei de desacumulação, Travassos optara por permanecer no laboratório, em Manguinhos.
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    Contudo, em seu lugar, entrariam Hugo de Souza Lopes e seu assistente, Domingos Machado. A relação com esses dois pesquisadores-professores seria de fundamental importância para a carreira de Sebastião (idem, fita 5A).
    Seu desempenho como aluno, na área de zoologia, fez com que o prof. Hugo de Souza Lopes se interessasse por ele. As boas notas e a "privilegiada paciência necessária a um pesquisador" incentivaram o substituto de Lauro Travassos a recrutar o rapaz. Em 1939, Sebastião já estaria trabalhando no laboratório do dr. Hugo de Souza Lopes, na veterinária. O dr. Hugo, por sua vez, apesar de professor da escola, era estagiário, não remunerado, no laboratório de Lauro Travassos, em Manguinhos. Em fins do mesmo ano, Sebastião começava a freqüentar o laboratório de Manguinhos, consolidando, assim, suas primeiras expectativas, ou seja, a aproximação de Lauro Travassos (idem, fita 5B).
    Nascido em 1909, Hugo de Souza Lopes, apesar de ter tido uma infância razoavelmente abastada, após a morte de seu pai, "um dentista bem-sucedido", passara a enfrentar dificuldades, tendo, inclusive, que parar de estudar por três anos. Apesar disso, conseguira completar o ginásio no Colégio São Bento. Sua primeira opção era cursar engenharia, pois tivera um "excelente professor de geometria" que o incentivara; no entanto, foi reprovado no vestibular para a Escola Politécnica. Decidiu-se, então, por ingressar no curso de odontologia, dando, assim, continuidade à profissão paterna, porém,
  • encontrei um antigo colega chamado Artidônio Pamplona, filho de outro Artidônio Pamplona, que era um clínico muito famoso. E o Artidônio me convenceu a me inscrever na Escola de Veterinária, já que o seu pai era diretor e não precisávamos fazer vestibular. Como passei para odontologia, optei por permanecer nos dois cursos paralelos, o de odontologia e o de veterinária (Lopes, 1991, fita 1A).

    O contato com Lauro Travassos e Miguel Osório de Almeida, "professores excepcionais", entusiasmou Hugo de Souza Lopes a investir no curso de veterinária. Em 1932, havia-se aproximado de Lauro Travassos e auxiliava-o, sem receber remuneração. Em 1933, já formado, Travassos o indicaria como professor assistente na Escola de Veterinária. Desde 1932, Hugo de Souza Lopes já freqüentava Manguinhos, onde realizava trabalhos no laboratório do helmintologista (idem, fita 1B).

    Tal como Hugo de Souza Lopes e Sebastião José de Oliveira, Haity Moussatché não tinha relações familiares diretas com nenhum pesquisador engajado na incipiente comunidade científica brasileira. Seu pai, judeu sefardita que viera emigrado da Turquia, era comerciante e lecionava hebraico para complementar o orçamento familiar. Após concluir o ginásio, Haity Moussatché freqüentara o Curso Superior Preparatório, visando o vestibular para a Faculdade de Medicina. Porém, desde novo, sentia-se atraído pela área de história natural. As aulas do prof. César Sales, ministradas no Curso Preparatório, reforçariam o gosto pela zoologia (Moussatché, 1991, fita 1A).

    Já aprovado na Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil(atual Universidade Federal do Rio de Janeiro—UFRJ), fora atraído, em primeira instância, pelos trabalhos realizados em parasitologia. Este prematuro interesse se confirmaria em um curso de biologia, ministrado pelo prof. Pacheco Leão. Sua dedicação e o bom desempenho no curso abriram-lhe as portas para que estabelecesse relações com um grupo de estudiosos que freqüentava periodicamente o IOC, realizando trabalhos práticos. Antônio Francisco Rodrigues de Albuquerque, um dos participantes, convidara Haity Moussatché para conhecer o instituto; deslumbrado, o rapaz passaria a freqüentar Manguinhos aos domingos, onde realizava trabalhos práticos de parasitologia, junto ao colega (idem, ibidem).

    Um ano depois, as aulas ministradas por Álvaro Osório de Almeida seduziriam o jovem estudante para a fisiologia. Seu interesse por esta área e a forma com que Álvaro Osório conduzia o curso aumentaram seu desinteresse diante do "modelo arcaico", predominante na faculdade. Segundo ele, "nunca fui às aulas de alguns professores, só ia às aulas do prof. Álvaro Osório". Para Haity Moussatché, desde os primeiros anos da faculdade e os primeiros contatos com Manguinhos, seu objetivo parecia delineado: "o Instituto Oswaldo Cruz continuava sendo a institui-ção de pesquisa por excelência, para onde eu achava que deveria ir".

    Apesar do grupo de estudo e dos primeiros contatos com os irmãos Osório, Haity Moussatché iniciaria sua trajetória em Manguinhos de maneira peculiar. Sem nenhuma indicação, "procurei o velho Carlos Chagas na sua casa; procurei o Evandro Chagas, no seu consultório, e disse que queria trabalhar no instituto. Eu já estava no terceiro ano. E eles aceitaram que eu viesse trabalhar aqui, no laboratório fazendo análise dos doentes que atendiam pela manhã" (idem, fita 1B).

    Em 1930, Haity Moussatché iniciava seu estágio, não remunerado, em Manguinhos. Conseguira residência temporária no Hospital Oswaldo Cruz, onde fazia análise de doentes, atendidos, em geral, pela manhã. Tal aprendizado eliminava definitivamente seu interesse em freqüentar a "obsoleta" faculdade. Em Manguinhos, Haity Moussatché encontrava o ambiente propício e a motivação necessária para, mais tarde, consolidar sua expectativa de "fazer ciência". Este ambiente e esta motivação incentivaram Moussatché a compartilhar seus projetos com um amigo de juventude, Herman Lent, que, um ano depois, também ingressaria na Faculdade de Medicina. Vizinhos em Niterói, Haity Moussatché e Herman Lent, ambos filhos de imigrantes, antes de concluírem a faculdade, já estariam freqüentando o tradicional Curso de Aplicação de Manguinhos (Lent, 1994, fita 1A-B).

    Em sua maior parte provenientes de famílias de classe média urbana, os integrantes deste grupo não possuíam ascendentes vinculados à carreira científica. Receberam o estímulo para a vocação científica através de determinado professor, no curso ginasial. A partir de então, o caminho natural era o ingresso na faculdade, seja na de veterinária ou na de medi-cina. Após o mapeamento da instituição e a percepção dos problemas inerentes, iniciava-se, então, a aproximação dos professores-pesquisadores eleitos, seja pelo carisma, seja pela forma que conduziam suas aulas ou, mesmo, pela orientação científica ligada a estudos práticos de laboratório. São recorrentes as avaliações positivas com relação aos dois principais recrutadores do grupo: Miguel Osório de Almeida e Lauro Travassos.

    Para tais casos, esta aproximação não envolvia, simplesmente, a conquista de amizades, ou de pseudoamizades, visando futuras trocas clientelistas ou de reciprocidade. Os depoentes, recorrentemente, reforçam a capacidade de mobilização para a atividade científica, exercida sobre eles pelos futuros recrutadores. Se, por um lado, é comum o enaltecimento do carisma, principalmente de Lauro Travassos, por outro, há, também, a exaltação dos seus méritos, seja nos métodos de trabalho, no incentivo à pesquisa, ou mesmo na capacidade de ambos (incluindo Miguel Osório) aglutinarem pessoas "interessadas em fazer ciência". Segundo Hugo de Souza Lopes (1991, fita 6A), "o dr. Miguel Osório era até engraçado, pois para ele o sábado, por exemplo, não era sábado inglês, era sábado português: nós ficávamos sábado até tarde porque lá no laboratório do dr. Miguel tinha uma porção de pessoas que trabalhavam em outros lugares e que freqüentavam o laboratório".

    Por outro lado, para que tal "aproximação" se consolidasse, peça fundamental de articulação era o interesse do estudante, no decorrer do curso ou nas atividades práticas, realizadas nos laboratórios, e, conseqüentemente, seu desempenho profissional. A falta de interesse ou de articulação com os companheiros, incluindo o recrutador, no ambiente do laboratório, poderia resultar "em uma espécie de vazio em torno da pessoa" e no afastamento quase que naturalmente do incipiente grupo (Lent, 1994, fita 3B).

    A ligação com a universidade até 1937, a abrangência de seu conhecimento e o seu estilo de praticar a pesquisa científica — talvez diretamente ligado à sua vivência no ambiente europeu — estimulavam Lauro Travassos a cooptar discípulos no meio acadêmico predispostos à atividade científica. Esta forma de cooptação não eliminou, em alguns casos, o tradicional Curso de Aplicação, de grande prestígio em toda América Latina.

    O laboratório de Lauro Travassos representaria, assim, a confluência destas duas formas de recrutamento. Enquanto Hugo de Souza Lopes, o primeiro a ser recrutado, havia sido aluno na veterinária, Herman Lent e João Ferreira Teixeira de Freitas, recrutados logo a seguir, foram freqüentadores do Curso de Aplicação de 1931. O curso daquele ano, concluído em 1932, teria aglutinado o maior número de participantes, desde seu início, em 1908. Dos 35 inscritos, cinco seriam posteriormente contratados pelo instituto, o que representa um percentual de 14,5%. Desta turma, além de Herman Lent e João Ferreira Teixeira de Freitas, seriam contratados Fabio Leoni Werneck, Emmanuel Dias e Walter Oswaldo Cruz (Pinto, 1937, pp. 29-32).

    Herman Lent faria sua primeira tentativa de ingresso em Manguinhos, seguindo os passos do amigo Haity Moussatché; porém, não obteve o êxito esperado. Munido de leituras e de um interesse prematuro na área de diagnóstico da doença de Chagas — também sob influência de Haity Moussatché —, Herman Lent iria até Carlos Chagas, que, apesar de o receber muito bem, com muita diplomacia, recusaria ao jovem o estágio. Esta recusa, comentada anos depois pelo próprio cientista, estaria ligada ao fato de que Emmanuel Dias, filho de Ezequiel Dias, amigo e da geração de Chagas, já vinha desenvolvendo trabalho similar no laboratório do próprio diretor (Lent, 1994, fita 1B).

    Porém, Lent e outro amigo da faculdade, João Ferreira Teixeira de Freitas, já teriam definidas as suas pretensões de fazer parte dos quadros de Manguinhos. Após a aprovação na prova eliminatória do curso, um cunhado forneceu-lhe o seu microscópio, condição imprescindível para os pretendentes ao ingresso. Herman Lent e o amigo Teixeira de Freitas encantaram-se pela pessoa e pelo curso ministrado por Lauro Travassos, na área de helmintologia. Segundo Lent (idem, fita 2B):

    era um curso muito bom, muito claro, muito material para demonstração. Lauro Travassos já era reconhecido interna-cionalmente, citado em livros e textos estrangeiros. Por outro lado, era uma pessoa muito simpática, muito chegada a todos os outros, bom conversador, gostava de ter uma conversa livre, com piadas. Quer dizer, eu lhe confesso que não foi o assunto que nos atraiu foi a pessoa do professor.

    Após concluírem o curso, os amigos Herman Lent e Teixeira de Freitas iriam até Lauro Travassos, na tentativa de cristalizar recente e almejada aproximação do mestre. Travassos, por sua vez, tendo avaliado o desempenho dos pretendentes, não hesitaria em aceitá-los como estagiários. Porém, exporia as dificuldades para conseguir contratações, visto "não estar muito bem com a direção". Tal obstáculo não desanimaria os jovens pesquisadores, que permaneceriam, por um ano, sem nenhum tipo de remuneração.

    No grupo examinado, as perspectivas econômicas para os "recém-ingressos", não contratados, em Manguinhos, não pareciam promissoras. Iniciando suas pesquisas como estagiários não remunerados, permaneceram nestas condições por vários anos, sem que surgissem oportunidades para contratação ou mesmo para estágios remunerados. Porém, em articulação com seus recrutadores, elaboravam estratégias para permanecerem na instituição. Entre tais estratégias, verificam-se casos de recém-formados que buscavam o ingresso em universidades, como professores assistentes, ou estágio em outros institutos ou clínicas, que proporcionassem renda mínima para sobrevivência.

    Algumas vezes, o próprio recrutador lançava mão de seu prestígio e influência, indicando o jovem para o exercício de tais atividades. Hugo de Souza Lopes (1991, fita 1B), apesar de permanecer no IOC, entre 1931 e 1933, ao surgir uma oportunidade, assumira um cargo no Instituto de Biologia Vegetal, dividindo seu tempo com a Escola de Veterinária. No entanto, em períodos disponíveis, freqüentava o laboratório do recrutador para realizar trabalhos práticos, em suas áreas de interesse. Embora tenha se mantido na escola, em 1938 retornara a Manguinhos definitivamente, onde permanecera, sem remuneração, até 1949.

    Estagiando no laboratório de Lauro Travassos, Herman Lent mantinha-se sustentado por seus pais. Em 1935, com a fundação da Universidade do Distrito Federal (UDF), Travassos fora convidado por Anísio Teixeira para o cargo de professor de zoologia na Faculdade de Ciências. Logo, Travassos convidara Lent para seu assistente; seria seu primeiro emprego remunerado. Um ano depois, conseguira em Manguinhos uma pequena remuneração, decorrente da verba proporcionada pela vacina da manqueira. Com a lei de desacumulação, em 1937, Lauro Travassos e Herman Lent optaram por permanecer em Manguinhos (Lent, 1994, fita 2A).

    A característica fundamental do recrutamento deste grupo é a predominância de relações que não incluem heranças curriculares, previamente constituídas por parentes diretos. A maior parte dos jovens estudantes do grupo selecionado, oriundos da classe média urbana, elaboraram estratégias de aproximação dos prováveis recrutadores, seja na faculdade ou no Curso de Aplicação. A eleição de um orientador transitava em uma fronteira tênue, incluindo não só o carisma pessoal do professor, mas também a avaliação de seus méritos e sua capacidade de mobilização para a atividade científica.

    Por sua vez, os recrutadores, previamente dispostos a cooptar alunos, avaliavam o desempenho e o interesse dos pretendentes, nos cursos ministrados em Manguinhos ou mesmo nas faculdades, quando ainda professores. Dessa forma, a relação passava por uma via de mão dupla, que incluía, em primeira instância, o interesse do estudante, conseqüen-temente, a procura pelo mestre, o bom desempenho curricular e, em segunda instância, a receptividade do orientador para cooptação e divisão de seus conhecimentos com os futuros discípulos.

    Após recrutados os jovens, a dificuldade era estabelecer condições mínimas para que permanecessem nos laboratórios de Manguinhos, mesmo que em regime parcial. Tais dificuldades eram superadas à medida que recrutador e recrutado desenvolvessem relações de afinidades suficientes, engajando o primeiro a manejar suas influências, indicando o recrutado para outras instituições. Porém, o prestígio de Manguinhos e o interesse em permanecer vinculado ao recrutador motivavam os recrutados à divisão do tempo entre os laboratórios do instituto e as outras atividades.

    Vivendo em Manguinhos

    Ao chegar a Manguinhos, em 1939, Sebastião José de Oliveira encontraria o instituto sob a direção de Antônio Cardoso Fontes, sucessor de Carlos Chagas, falecido em 1934.
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    Dividido em seis seções científicas — Bacteriologia e Imunidade, Micologia e Fitopatologia, Zoologia Médica, Anatomia Patológica, Hospitais e Química Aplicada —, o instituto permanecia, desde 1934, filiado ao Ministério da Educação e Saúde Pública.
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    Contava ainda com as seções administrativas e auxiliares. Tal organização permaneceu até 1942.
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    Em 1937, Lauro Travassos, responsável pelo setor de Helmintologia, era o pesquisador do IOC em exercício com o maior número de publicações. Contava com um total de 208 artigos, em uma média de 8,66 a cada ano. A produção anual de alguns de seus discípulos seguia de perto o padrão do mestre: enquanto Herman Lent, com 23 artigos, mantinha uma média de 7,66, seu companheiro de laboratório, João Ferreira Teixeira de Freitas, com 31 publicações, mantinha uma média de 7,75 artigos anuais (Pinto, 1937, pp. 31-2).
    César Pinto, responsável por estas estimativas, era de uma geração anterior, tendo freqüentado o Curso de Aplicação de 1917, sendo contratado logo a seguir. Tempos depois, adquiriria o seu próprio laboratório no setor de Entomologia. Apesar disso, mantinha intensa ligação com Lauro Travassos e transitava entre os dois laboratórios, tornando-se uma das principais lideranças do grupo. Pinto havia publicado um total de 158 artigos, numa média de 8,31 anuais. Talvez a publicação desses dados, em 1937, comparando nome a nome a respectiva produtividade científica de cada "técnico" do instituto, representasse a incipiente divulgação de um grupo que se destacava pelo alto índice de publicações.
    A tentativa de aproximação por parte de Sebastião José de Oliveira, de Travassos, ao que tudo indica, não estava respaldada em critérios casuais. O pequeno e dinâmico laboratório de Helmintologia mantinha uma repercussão internacional na área de zoologia. Travassos, com 25 anos de atividade científica, em 1938 seria homenageado por seus discípulos e colegas com um livro jubilar comemorativo (Dias, 1990, p. xi). Neste livro, Hugo de Souza Lopes, retornando ao instituto ainda como estagiário, publicara dois artigos, totalizando 31, desde 1932 (Coura, 1981, pp. ix-xv). Porém, além do dinamismo do laboratório e da alta produtividade, reconhecida no artigo de César Pinto, Hugo de Souza Lopes, ao retornar ao IOC, mesmo sem vínculos ou remuneração, se respaldava em critérios que extrapolavam o mérito científico. Segundo ele (1991, fita 1B), "nossas afinidades eram muito grandes: eu, o Travassos, o Herman, o Teixeira de Freitas, o César Pinto, o Domingos e o Proença, que já estava lá; era uma coisa assim de irmãos. Não havia possibilidade de a gente pensar em se separar um do outro."
    Um ano depois, seria o próprio Hugo de Souza Lopes, e seu assistente na escola, Domingos Machado, que levariam Sebastião José de Oliveira para o laboratório. Ainda estudante, Sebastião não tinha o "mesmo gabarito" de seus professores, que, embora estagiários "tinham já um status de ser do instituto. Era como se fossem: recebiam correspondência, mandavam correspondência pelo instituto" (Oliveira, 1991, fita 11B).
    Hugo de Souza Lopes, Domingos Machado e Manoel Cavalcanti Proença eram "estagiários permanentes" no laboratório de Lauro Travassos. Junto a Herman Lent e Teixeira de Freitas, nesta época já contratados, constituíam, nas palavras de Sebastião José de Oliveira, "os cinco grandes do laboratório", sob a liderança de Lauro Travassos (idem, fita 12A). Sebastião se formara em 1941 e permanecera, junto aos outros três estagiários, nesta condição até 1950 (Oliveira,
    Curriculum vitae) quando seriam temporariamente contratados pela "verba 3".
    Para se manter, Sebastião dividira seu tempo entre Manguinhos e outras instituições. Em 1941, por indicação de Hugo de Souza Lopes, ingressara no Serviço Nacional de Malária, chefiado por Gilberto de Freitas, pesquisador do instituto. Em 1943, indicara Sebastião a César Pinto para um trabalho financiado pelo Departamento Nacional de Estradas e Rodagens (DNER), num projeto de controle da malária, nas grandes obras de modernização das rodovias (Oliveira, 1991, fita 5B). Dessa forma, Sebastião consolidava, parcialmente, sua expectativa de permanecer no laboratório, já que, segundo ele, "era uma relação muito boa, pois a gente trocava experiência. O ambiente do nosso laboratório era um ambiente aberto. E todo mundo trabalhava, todo mundo discutia o trabalho dos outros, todo mundo via o trabalho dos outros. Não havia esse negócio de 'segredinhos'" (idem, fita 12A).
    Muito próximo daquele ambiente familiar, aliás, no mesmo pavilhão, denominado Quinino (hoje Figueiredo Vasconcellos) e dividido por um
    hall apelidado "carinhosamente" de Praça Haemonchus, no laboratório liderado por Miguel Osório de Almeida, seção de Fisiologia, estagiavam Haity Moussatché e Mario Viana Dias (Machado Filho, 1981, p. v). Em um ambiente "de liberdade total", Haity Moussatché, estagiaria entre 1934 e 1937, ano em que conseguiria uma pequena remuneração através de verba extranumerária (Moussatché, 1991, fita 2A). Quando contratado, Haity Moussatché já teria incluído em seu currículo dez publicações, nove das quais con-juntas com Miguel Osório de Almeida. Em 1938, Haity Moussatché e Miguel Osório de Almeida incluiriam em seus artigos a colaboração de Mario Viana Dias, recentemente contratado como pesquisador assistente; os três publicariam cerca de 14 artigos naquele mesmo ano (Moussatché,
    Curriculum vitae).
    Ao que tudo indica, a proximidade dos pesquisadores e estagiários dos dois laboratórios não se reduzia ao espaço físico. Em primeiro lugar, recorde-se a antiga amizade de Haity Moussatché e Herman Lent, antes vizinhos em Niterói, depois colegas na Faculdade de Medicina. Talvez tenha prevalecido mais esta afinidade prévia dos jovens pesquisadores na conjunção dos dois laboratórios do que uma proximidade informal entre os dois principais recrutadores, Lauro Travassos e Miguel Osório de Almeida.
    É recorrente nos depoimentos a afirmação do "prestígio" dos pesquisadores e dos estagiários dos dois laboratórios, delineado em função da "quantidade e da qualidade das publicações" e, conseqüen-temente, do reconhecimento, "firmando o conceito de seu(s) autor(es)" (Lent, 1978, p. 20).
  • 9
    Tal critério, segundo, ainda, tais testemunhos, revertia-se na aproximação de "pesquisadores", muitas vezes estagiários, e os diferenciava daqueles que, mesmo contratados, "nunca publicaram uma linha sequer", e faziam de sua permanência na instituição a garantia de um emprego público como outro qualquer.
    Para Mario Viana Dias (1991, fita 10A), a conjunção dos dois laboratórios seria caracterizada como a expressão de "um mundo em crescimento". Tal definição se oporia ao que ele denomina de "mundo cristalizado", formado por pessoas com "uma maneira de fazer ciência arcaica"; pessoas estas que "já tinham estereotipadas seu tipo de trabalho e não aceitavam mudanças".
    O exame, ainda, de alguns depoimentos e publicações conjuntas, sugere-nos, para os critérios de configuração da identidade dos grupos em Manguinhos, que ser da mesma área científica não significava necessariamente a proximidade. Embora pertencesse à fisiologia, Antônio Augusto Xavier não tinha a "respeitabilidade científica", elo da conjunção entre a fisiologia de Miguel Osório e a zoologia médica de Lauro Travassos. Da mesma forma, Genésio Pacheco consolidava um grupo na Seção de Microbiologia, que se opunha ao de José Guilherme Lacorte, da mesma seção, resultando em uma ignorância mútua. É recorrente, nos depoimentos examinados, a análise em relação a al-guns grupos, como "os que não trabalhavam" ou os que "eram pouco respeitados cientificamente, por escreverem muito, mas nada que prestasse".
    A conjunção do critério de publicações e de "respeitabilidade científica"; a idéia de "mundo em crescimento", em oposição a "um mundo cristalizado" proposta por Mario Viana Dias, codificado na predisposição de Lauro Travassos e de Miguel Osório, na cooptação de discípulos e difusão de idéias; o "ambiente familiar", retificado por Domingos Machado, Hugo de Souza Lopes e Sebastião José de Oliveira; as afinidades entre os amigos que ingressariam em um e outro laboratório (Herman Lent, Haity Moussatché e Teixeira de Freitas); a ampliação destas afinidades, envolvendo os próprios recrutadores na elaboração de estratégias para a manutenção dos jovens estudantes no ambiente do laboratório; e, por fim, a proximidade dos dois laboratórios, destacada por Domingos Machado, possibilitando encontros, "quase casuais", para o cafezinho, no Pavilhão do Quinino parecem implicar a conforma-ção de um grupo que, relativamente, corresponderia ao que Zarur (1994, p. 85) denomina de "família reconstruída".
    Sob a liderança "honrosa" de Lauro Travassos, com a liberdade e o incentivo à pesquisa, proporcionados por Miguel Osório, este grupo, inicialmente de nove ou dez pesquisadores, reunidos no "laboratório do Travassos" ou "laboratório do Miguel Osório", reconstruiu suas famílias na aliança dos dois laboratórios, recriando, a partir do "modelo familístico", remanescente do espaço privado, as relações de sociabilidade no ambiente de trabalho.
    A inclusão nesta "nova família" não envolvia, pura e simplesmente, a filiação direta, o que, como vimos, não ocorre no grupo examinado, embora tenha sido prática na instituição, sem que isto tenha gerado profissionais desqualificados.
  • 10
    O pertencimento a esta "família" incluía,
    a priori, a sintonia com padrões implicitamente reproduzidos no ambiente do laboratório. Este ambiente, respaldado em uma "disposição de fazer ciência", se diferenciava, em larga escala, do que era observado em outros ambientes de Manguinhos. A composição desta "família" era permeada por "uma espécie de acordo tácito" para este "mundo em crescimento", visando um auto-reconhecimento dos méritos, avaliados a partir da quantidade e da qualidade do que publicavam. Tal como no grupo da geofísica paraense, analisado por George Zarur, o padrão "familístico" de sociabilidade não eliminou a competência e o mérito na conformação deste grupo de biomédicos de Manguinhos.
    A partir do mapeamento e, conseqüentemente, da percepção do que aprovavam ou rejeitavam na instituição, onde "poucos faziam ciência", o grupo traçava os contornos conjuntos e definiam os "seus" laboratórios como locais "onde realmente se fazia ciência". Notoriamente, o grupo transformou o laboratório em "espaço familiar" e dali fomentava suas bases de sustentação, geradas pela conjunção das afinidades e do mérito.
    Complementando esse
    locus de afinidade, surgem determinados espaços da instituição, como um todo. Entre as formas de mapeamento do instituto e dos grupos rivais ou aliados, freqüentemente mencionadas, o exame dos depoimentos revela que a visualização e o reconhecimento das afinidades e divergências, em Manguinhos, eram reelaborados constantemente no microespaço do refeitório. Na hora da refeição, as divisões de mesas, a determinação do lugar para sentar e das companhias para as conversas informais, selecionavam critérios, respaldados em hierarquias verticais, em associações horizontais, bipolarizando diversas categorias, configuradas no tempo e decorrentes de divergências ocorridas no interior da instituição. O refeitório tornava-se um palco privilegiado de observação e reelaboração das divergências e afinidades do grupo.
  • 11
    Nesse sentido, laboratório(s) e refeitório surgem como dois 'espaços' distintos e complementares na sociabilidade do grupo; o primeiro representaria a recriação da família, com suas relações de afinidades, reciprocidades e códigos próprios; o segundo espaço, o do refeitório, representaria o mapeamento da instituição, onde se examinariam as alianças e as divergências em relação ao grupo ou a determinado indivíduo. Paradoxalmente, apesar do modelo de sociabilidade vigente, o espaço do(s) laboratório(s) surge nos discursos como espaço característico da interação dos agentes que reproduziam formas de fazer ciência "específicas" em relação a alguns outros ambientes (mesmo, outros laboratórios) da instituição, inclusive do Brasil. As referências de apoio a esta "especificidade" são sempre os padrões e normas da comunidade científica internacional, cujos elos de ligação eram os líderes (Lauro Travassos e Miguel Osório). Pairando sobre esses dois mundos opostos e complementares, o enaltecimento de Oswaldo Cruz era constantemente reiterado no tempo, por um lado, como discurso de apoio à vocação da instituição como campo privilegiado para as demandas do grupo em suas práticas científicas,
  • 12
    por outro lado, inconscientemente, reproduzindo a unicidade do Instituto Oswaldo Cruz. Este resgate mitológico poderia ser definido como um terceiro "espaço" analítico, ainda que sua compreensão mereça estudos sistemáticos.
  • 13
    Já no início da década de 1940, o grupo elaborava algumas estratégias para sua divulgação no meio científico. Em 1941, lançava mão de recursos adquiridos junto ao mecenas Guilherme Guinle e fundava seu próprio periódico: a
    Revista Brasileira de Biologia. Tendo como principais líderes Herman Lent e Mario Viana Dias, a revista aliava formalmente os laboratórios de Lauro Travassos e Miguel Osório de Almeida. Para registrar e legitimar o periódico, fundaram a Sociedade de Biologia do Brasil; agregaram participantes de várias outras sociedades regionais ou mesmo de grupos aliados, em Manguinhos. A criação da revista representava, por outro lado, a necessidade de especialização para a biologia brasileira, em sintonia com grupos internacionais com os quais mantinham contatos permanentes.
  • 14
    Se, no período anterior, a revista
    Memórias — que representava a aglomeração das outras áreas "produtivas" de Manguinhos — seria arena de penosas esperas para publicações, na década de 1940, a
    Revista Brasileira de Biologia facilitaria a divulgação da vasta demanda do grupo e representaria a divulgação daquele "mundo em crescimento".
    No decorrer das décadas de 1940 e 1950, lideranças efetivas substituiriam as "lideranças honrosas"; ganhariam força, receberiam seus próprios laboratórios — recriariam suas próprias "famílias" —, associar-se-iam a outras lideranças e tentariam, a todo custo, intervir na orientação da instituição.
  • 15
    Haity Moussatché e Herman Lent, os dois filhos de imigrantes, sem relações de parentesco com cientistas ou burocratas no ambiente brasileiro, que, em inícios da década de 1930, estagiavam em Manguinhos, já entre 1942 e 1949, estariam erguendo suas bandeiras contra a "centralização excessiva" de Henrique de Aragão, na direção do IOC, que, ao tentar implantar "um controle rígido sobre os pesquisadores", invadia terrível e imperdoavelmente o sagrado espaço da "família".
  • Considerações finais

    Este artigo teve como objetivo delimitar a configuração de um grupo de pesquisadores do IOC, entre as décadas de 1920 e de 1950, período que considerei como de sua formação e consolidação. Creio que um estudo centrado na instituição deva partir da análise dos vários indivíduos e grupos que a compunham neste período, assim como de suas trajetórias profissionais, de suas organizações e de suas identidades, para que se avalie o caráter de 'ruptura' ressaltado pela historiografia. Sem tais análises prévias torna-se difícil a compreensão da complexidade e da permanência do IOC no tempo. É elucidativa a análise feita por Haity Moussatché (1991, fita 2A), nesse sentido (tendo como eixo discursivo, obviamente, os parâmetros do grupo analisado):

    Não sei por que eles chamam de decadência de Manguinhos. Porque não se descobriu uma nova doença de Chagas? Ou porque havia pesquisadores de qualidade inferior à de Chagas? Carlos Chagas foi um homem que fez uma descoberta muito importante, e, portanto, merece o nome de um pesquisador que fez uma descoberta muito importante. Como também Gaspar Viana, o Aragão com o ciclo do halterídio. Enfim, havia um grupo de pesquisadores que criava coisas interessantes, numa época que chamo "heróica". Mas não sei do ponto de vista estritamente intelectual, e não por suas projeções no campo da saúde pública, se a descoberta da doença de Chagas é muito mais importante do que a observação do Miguel Osório sobre a rã sem pele e suas conseqüências — alguma coisa que se chamou tônus nervoso ou atividade nervosa e as conseqüências que a gente tem que tirar sobre o que significa atividade nervosa; até hoje é uma incógnita levantada por gente que está pensando em problemas dessa ordem.

    As suas carreiras envolveram, em primeira instância, a constituição de currículos: tratava-se de indivíduos que não tinham, em suas bagagens sociais, a herança de seus pais, seja vinculada à área biomédica ou científica, ou mesmo a setores administrativos, que pudessem implicar, de alguma forma, a reconversão em uma carreira previamente constituída. Para tal grupo, as escolhas iniciais envolveram formas complexas de sociabilidade. Se foram estabelecidas a partir de critérios tais como "a personalidade do recrutador" ou a "amizade" com um estudante que freqüentava o seu laboratório, envolveram, também, uma análise crítica dos méritos do provável recrutador.

    Por parte do recrutador, há, a priori, uma iniciativa de formar discípulos, de recrutar gente e de manter constantemente seu laboratório aberto para os que se dispusessem a dar continuidade às pesquisas. Porém, para que o recrutamento ocorresse, o jovem tendia a passar por uma espécie de exame in continuum, iniciado nos cursos, comple-mentado e intensificado, já no ambiente do laboratório. Nessa segunda fase, a avaliação da motivação e da capacidade profissional do estudante para a atividade científica se respaldava no mérito, mas também nas afinidades e nas relações pessoais estabelecidas no interior do laboratório. Dessa forma, o laboratório constituía um espaço privilegiado de organização, onde se recriava a "família". Caso devidamente cativado, profissional e afetivamente, pelo discípulo, o mestre mobilizava-se na sua manutenção no ambiente, mesmo que em regime parcial, apesar das "adversidades institucionais".

    Com o passar dos anos, o laboratório do recrutador passa a ser freqüentado inclusive aos sábados e domingos, e o recrutado divide o tempo entre sua família original e a reconstruída.
  • 16
    As associações recriadas no ambiente e a comparação com outras esferas da instituição principiavam a construção de uma identidade entre os freqüentadores do laboratório, proporcionando, assim, uma motivação mútua, intensi-ficando a reprodução das afinidades e da disposição de "fazer ciência", sem que um aspecto excluísse necessariamente o outro.
    A criação dessa identidade propiciava, por outro lado, a constatação do que negavam na instituição. Apesar de lutarem por permanecer nela, era, em parte, constituída por "clãs" rivais da família reconstruída. O instituto, parcialmente apropriado como
    locus de reconstrução da família, também era espaço de rivalidades e ameaças, visualizadas em ambientes "opostos e complementares": o laboratório — espaço onde se delimitavam as características e estratégias particulares do grupo — e o refeitório — espaço onde se reelaboravam desenhos harmônicos e desarmônicos em relação aos interesses do grupo.
    Apesar de algumas características comuns com o grupo da geofísica paraense analisado por George Zarur, seja na correlação entre afinidades e o padrão meritocrático de recrutamento, seja na existência das lideranças e, ainda, na luta pela legitimação da biologia, enquanto pesquisa básica, relacionada à orientação científica da instituição, um dos fatores que os diferencia é que, no caso da geofísica, os agentes compartilhavam, em seus discursos primordiais, uma ideologia política, nacionalista e regionalista. Esse conteúdo pouco aparece no discurso do grupo analisado. O que se destaca na ideologia primordial do grupo são reflexões relacionadas ao espaço institucional. Em primeiro lugar, a identificação com um estilo de fazer ciência, divergente do praticado pelos grupos rivais: trata-se do embate entre os que defendiam a vocação do instituto para a pesquisa básica e aqueles que defendiam a vocação para a pesquisa aplicada. Em segundo lugar, a visão do instituto como espaço de produção e prática científica, o que propiciava o confronto com alguns outros grupos, vistos como meros apropriadores do espaço institucional, sem interesse ou vocação para tais atividades.
    Se os espaços institucionais do laboratório e do refeitório refletiam, para o grupo, oposição e complementaridade na instituição, arrisco concluir essa análise com um terceiro espaço, que apesar de apropriado em seus discursos, como apoio para implementação de um saber e de uma prática científica, fundamenta algo maior que pode ter composto os discursos de diversos grupos. As conversas dos pseudopais com os pseudofilhos, no laboratório, de aliados e rivais no refeitório, a visão arquitetônica da fachada do Castelo no horizonte de Manguinhos e os rituais de enaltecimento em níveis nacional e internacional revitalizavam uma identidade maior, estabelecida pelo "prestígio de pertencer a Man-guinhos" e retificada na mitificação ao patriarca-mor, Oswaldo Cruz.
  • FONTES

    DEPOIMENTOS

    DEPOIMENTOS ESPECÍFICOS

    Cavalcanti, Tito 1991 Tito Cavalcanti (depoimento, 1986). Rio de Janeiro, Fiocruz/COC. Programa de História Oral.

    Dias, Mario Viana 1991 Mario Viana Dias (depoimento, 1987). Rio de Janeiro, Fiocruz/COC. Programa de História Oral.

    Lent, Herman 1994 Herman Lent (depoimento, 1994). Rio de Janeiro, Fiocruz/COC.

    Lopes, Hugo de Souza 1991 Hugo de Souza Lopes (depoimento, 1986). Rio de Janeiro, Fiocruz/COC. Programa de História Oral.

    Moussatché, Haity 1991 Haity Moussatché (depoimento, 1985, 1986). Rio de Janeiro, Fiocruz/COC. Programa de História Oral.

    Oliveira, Sebastião José de 1991 Sebastião José de Oliveira (depoimento, 1986, 1987). Rio de Janeiro, Fiocruz/COC. Programa de História Oral.

    DEPOIMENTOS AUXILIARES

    Cunha, José Fonseca da 1991 José Fonseca da Cunha (depoimento, 1987, 1988). Rio de Janeiro, Fiocruz/COC. Programa de História Oral.

    Chagas Filho, Carlos 1991 Carlos Chagas Filho (depoimento, 1987). Rio de Janeiro, Fiocruz/COC. Programa de História Oral.

    Ubatuba, Fernando Braga Fernando Braga Ubatuba (depoimento, 1986). Rio de Janeiro, Fiocruz/COC. Programa de História Oral. 1991

    Martins, Amilcar Vianna 1991 Amilcar Vianna Martins (depoimento, 1987). Rio de Janeiro, Fiocruz/COC. Programa de História Oral.

    Goto, Massao 1991 Massao Goto (depoimento, 1986). Rio de Janeiro, Fiocruz/COC. 1991 Programa de História Oral.

    Andrade, Moacyr Vaz 1991 Moacyr Vaz de Andrade (depoimento, 1987, 1988). Rio de Janeiro, Fiocruz/COC. Programa de História Oral.

    Paraense, Wladimir Lobato 1991 Wladimir Lobato Paraense (depoimento, 1987, 1988). Rio de Janeiro, Fiocruz/COC. Programa de História Oral.

    CURRÍCULOS

    Curriculum vitae de Haity Moussatché, no acervo da COC/Fiocruz.

    Curriculum vitae de Sebastião José de Oliveira, no acervo da COC/Fiocruz.

    Curriculum vitae de Domingos Arthur Machado Filho, no acervo da COC/Fiocruz.

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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    Recebido para publicação em janeiro de 1999.

    Aprovado para publicação em dezembro de 1999.

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    1 A análise de suas trajetórias tem como objetivo a compreensão da montagem das respectivas carreiras, os valores inerentes ao grupo em relação aos outros grupos e à instituição propriamente dita, durante um período ainda pouco explorado pelos cientistas sociais. Trata-se de um grupo correspondente à geração seguinte aos discípulos diretos de Oswaldo Cruz, ingressados no instituto entre o final da década de 1920 e o da de 1930, durante o período final da gestão de Carlos Chagas (1917-34) e no decorrer da gestão de Antônio Cardoso Fontes (1934-42), na direção do IOC. Apesar de a maior parte ter permanecido nesta instituição até o denominado Massacre de Manguinhos (Lent, 1978; Hamilton, 1989), em 1970, quando foram compulsoriamente aposentados, através do Ato Institucional nº 5 (AI-5), considero que a consolidação do grupo se deu na década de 1940, período no qual iniciava a tentativa de reconversão dos seus interesses, tanto na esfera administrativa da instituição, quanto na comunidade científica em geral. Valendo-me do método onomástico, como proposto por Guinzburg (1989, pp. 169-78),2 procuro seguir a trajetória de tais indivíduos, recorrendo a depoimentos prestados por 13 cientistas no projeto de História Oral, Memória de Manguinhos (Brito, 1991), realizado entre 1986 e 1989. A partir de tais testemunhos, avalio os seus discursos na formação e na consolidação da identidade do grupo e as suas "versões" em relação aos outros grupos e às normas institucionais.3 Comple-mentando tais versões, selecionei dados específicos referentes às trajetórias a partir de informações provenientes de outras fontes, tais como os currículos e os livros de registros da instituição. Antes de adentrar na trajetória do grupo, convém uma análise sumária da bibliografia, que enfatiza aspectos relacionados ao IOC, no período proposto, e à carreira científica no ambiente brasileiro. 4 e da Universidade do Distrito Federal, além de pesquisador em Manguinhos. Nesse tempo, Sebastião já conhecia Manguinhos: tinha três primos que lá trabalhavam em ocupações subalternas. Vez por outra, freqüentava o instituto e seus primos foram elos importantes que o influenciaram a gostar daquele ambiente (idem, fita 4B), sem que, no entanto, pudessem intervir diretamente na abertura dos portais da instituição para o ingresso do jovem estudante. O interesse pela parasitologia fez com que Sebastião optasse por prestar o vestibular para a escola. Apesar de aprovado, a aproximação com Lauro Travassos, seu futuro recrutador, seria adiada: em 1937, com a lei de desacumulação, Travassos optara por permanecer no laboratório, em Manguinhos.5 Contudo, em seu lugar, entrariam Hugo de Souza Lopes e seu assistente, Domingos Machado. A relação com esses dois pesquisadores-professores seria de fundamental importância para a carreira de Sebastião (idem, fita 5A). Seu desempenho como aluno, na área de zoologia, fez com que o prof. Hugo de Souza Lopes se interessasse por ele. As boas notas e a "privilegiada paciência necessária a um pesquisador" incentivaram o substituto de Lauro Travassos a recrutar o rapaz. Em 1939, Sebastião já estaria trabalhando no laboratório do dr. Hugo de Souza Lopes, na veterinária. O dr. Hugo, por sua vez, apesar de professor da escola, era estagiário, não remunerado, no laboratório de Lauro Travassos, em Manguinhos. Em fins do mesmo ano, Sebastião começava a freqüentar o laboratório de Manguinhos, consolidando, assim, suas primeiras expectativas, ou seja, a aproximação de Lauro Travassos (idem, fita 5B). Nascido em 1909, Hugo de Souza Lopes, apesar de ter tido uma infância razoavelmente abastada, após a morte de seu pai, "um dentista bem-sucedido", passara a enfrentar dificuldades, tendo, inclusive, que parar de estudar por três anos. Apesar disso, conseguira completar o ginásio no Colégio São Bento. Sua primeira opção era cursar engenharia, pois tivera um "excelente professor de geometria" que o incentivara; no entanto, foi reprovado no vestibular para a Escola Politécnica. Decidiu-se, então, por ingressar no curso de odontologia, dando, assim, continuidade à profissão paterna, porém, 6 Dividido em seis seções científicas — Bacteriologia e Imunidade, Micologia e Fitopatologia, Zoologia Médica, Anatomia Patológica, Hospitais e Química Aplicada —, o instituto permanecia, desde 1934, filiado ao Ministério da Educação e Saúde Pública.7 Contava ainda com as seções administrativas e auxiliares. Tal organização permaneceu até 1942.8 Em 1937, Lauro Travassos, responsável pelo setor de Helmintologia, era o pesquisador do IOC em exercício com o maior número de publicações. Contava com um total de 208 artigos, em uma média de 8,66 a cada ano. A produção anual de alguns de seus discípulos seguia de perto o padrão do mestre: enquanto Herman Lent, com 23 artigos, mantinha uma média de 7,66, seu companheiro de laboratório, João Ferreira Teixeira de Freitas, com 31 publicações, mantinha uma média de 7,75 artigos anuais (Pinto, 1937, pp. 31-2). César Pinto, responsável por estas estimativas, era de uma geração anterior, tendo freqüentado o Curso de Aplicação de 1917, sendo contratado logo a seguir. Tempos depois, adquiriria o seu próprio laboratório no setor de Entomologia. Apesar disso, mantinha intensa ligação com Lauro Travassos e transitava entre os dois laboratórios, tornando-se uma das principais lideranças do grupo. Pinto havia publicado um total de 158 artigos, numa média de 8,31 anuais. Talvez a publicação desses dados, em 1937, comparando nome a nome a respectiva produtividade científica de cada "técnico" do instituto, representasse a incipiente divulgação de um grupo que se destacava pelo alto índice de publicações. A tentativa de aproximação por parte de Sebastião José de Oliveira, de Travassos, ao que tudo indica, não estava respaldada em critérios casuais. O pequeno e dinâmico laboratório de Helmintologia mantinha uma repercussão internacional na área de zoologia. Travassos, com 25 anos de atividade científica, em 1938 seria homenageado por seus discípulos e colegas com um livro jubilar comemorativo (Dias, 1990, p. xi). Neste livro, Hugo de Souza Lopes, retornando ao instituto ainda como estagiário, publicara dois artigos, totalizando 31, desde 1932 (Coura, 1981, pp. ix-xv). Porém, além do dinamismo do laboratório e da alta produtividade, reconhecida no artigo de César Pinto, Hugo de Souza Lopes, ao retornar ao IOC, mesmo sem vínculos ou remuneração, se respaldava em critérios que extrapolavam o mérito científico. Segundo ele (1991, fita 1B), "nossas afinidades eram muito grandes: eu, o Travassos, o Herman, o Teixeira de Freitas, o César Pinto, o Domingos e o Proença, que já estava lá; era uma coisa assim de irmãos. Não havia possibilidade de a gente pensar em se separar um do outro." Um ano depois, seria o próprio Hugo de Souza Lopes, e seu assistente na escola, Domingos Machado, que levariam Sebastião José de Oliveira para o laboratório. Ainda estudante, Sebastião não tinha o "mesmo gabarito" de seus professores, que, embora estagiários "tinham já um status de ser do instituto. Era como se fossem: recebiam correspondência, mandavam correspondência pelo instituto" (Oliveira, 1991, fita 11B). Hugo de Souza Lopes, Domingos Machado e Manoel Cavalcanti Proença eram "estagiários permanentes" no laboratório de Lauro Travassos. Junto a Herman Lent e Teixeira de Freitas, nesta época já contratados, constituíam, nas palavras de Sebastião José de Oliveira, "os cinco grandes do laboratório", sob a liderança de Lauro Travassos (idem, fita 12A). Sebastião se formara em 1941 e permanecera, junto aos outros três estagiários, nesta condição até 1950 (Oliveira, Curriculum vitae) quando seriam temporariamente contratados pela "verba 3". Para se manter, Sebastião dividira seu tempo entre Manguinhos e outras instituições. Em 1941, por indicação de Hugo de Souza Lopes, ingressara no Serviço Nacional de Malária, chefiado por Gilberto de Freitas, pesquisador do instituto. Em 1943, indicara Sebastião a César Pinto para um trabalho financiado pelo Departamento Nacional de Estradas e Rodagens (DNER), num projeto de controle da malária, nas grandes obras de modernização das rodovias (Oliveira, 1991, fita 5B). Dessa forma, Sebastião consolidava, parcialmente, sua expectativa de permanecer no laboratório, já que, segundo ele, "era uma relação muito boa, pois a gente trocava experiência. O ambiente do nosso laboratório era um ambiente aberto. E todo mundo trabalhava, todo mundo discutia o trabalho dos outros, todo mundo via o trabalho dos outros. Não havia esse negócio de 'segredinhos'" (idem, fita 12A). Muito próximo daquele ambiente familiar, aliás, no mesmo pavilhão, denominado Quinino (hoje Figueiredo Vasconcellos) e dividido por um hall apelidado "carinhosamente" de Praça Haemonchus, no laboratório liderado por Miguel Osório de Almeida, seção de Fisiologia, estagiavam Haity Moussatché e Mario Viana Dias (Machado Filho, 1981, p. v). Em um ambiente "de liberdade total", Haity Moussatché, estagiaria entre 1934 e 1937, ano em que conseguiria uma pequena remuneração através de verba extranumerária (Moussatché, 1991, fita 2A). Quando contratado, Haity Moussatché já teria incluído em seu currículo dez publicações, nove das quais con-juntas com Miguel Osório de Almeida. Em 1938, Haity Moussatché e Miguel Osório de Almeida incluiriam em seus artigos a colaboração de Mario Viana Dias, recentemente contratado como pesquisador assistente; os três publicariam cerca de 14 artigos naquele mesmo ano (Moussatché, Curriculum vitae). Ao que tudo indica, a proximidade dos pesquisadores e estagiários dos dois laboratórios não se reduzia ao espaço físico. Em primeiro lugar, recorde-se a antiga amizade de Haity Moussatché e Herman Lent, antes vizinhos em Niterói, depois colegas na Faculdade de Medicina. Talvez tenha prevalecido mais esta afinidade prévia dos jovens pesquisadores na conjunção dos dois laboratórios do que uma proximidade informal entre os dois principais recrutadores, Lauro Travassos e Miguel Osório de Almeida. É recorrente nos depoimentos a afirmação do "prestígio" dos pesquisadores e dos estagiários dos dois laboratórios, delineado em função da "quantidade e da qualidade das publicações" e, conseqüen-temente, do reconhecimento, "firmando o conceito de seu(s) autor(es)" (Lent, 1978, p. 20).9 Tal critério, segundo, ainda, tais testemunhos, revertia-se na aproximação de "pesquisadores", muitas vezes estagiários, e os diferenciava daqueles que, mesmo contratados, "nunca publicaram uma linha sequer", e faziam de sua permanência na instituição a garantia de um emprego público como outro qualquer. Para Mario Viana Dias (1991, fita 10A), a conjunção dos dois laboratórios seria caracterizada como a expressão de "um mundo em crescimento". Tal definição se oporia ao que ele denomina de "mundo cristalizado", formado por pessoas com "uma maneira de fazer ciência arcaica"; pessoas estas que "já tinham estereotipadas seu tipo de trabalho e não aceitavam mudanças". O exame, ainda, de alguns depoimentos e publicações conjuntas, sugere-nos, para os critérios de configuração da identidade dos grupos em Manguinhos, que ser da mesma área científica não significava necessariamente a proximidade. Embora pertencesse à fisiologia, Antônio Augusto Xavier não tinha a "respeitabilidade científica", elo da conjunção entre a fisiologia de Miguel Osório e a zoologia médica de Lauro Travassos. Da mesma forma, Genésio Pacheco consolidava um grupo na Seção de Microbiologia, que se opunha ao de José Guilherme Lacorte, da mesma seção, resultando em uma ignorância mútua. É recorrente, nos depoimentos examinados, a análise em relação a al-guns grupos, como "os que não trabalhavam" ou os que "eram pouco respeitados cientificamente, por escreverem muito, mas nada que prestasse". A conjunção do critério de publicações e de "respeitabilidade científica"; a idéia de "mundo em crescimento", em oposição a "um mundo cristalizado" proposta por Mario Viana Dias, codificado na predisposição de Lauro Travassos e de Miguel Osório, na cooptação de discípulos e difusão de idéias; o "ambiente familiar", retificado por Domingos Machado, Hugo de Souza Lopes e Sebastião José de Oliveira; as afinidades entre os amigos que ingressariam em um e outro laboratório (Herman Lent, Haity Moussatché e Teixeira de Freitas); a ampliação destas afinidades, envolvendo os próprios recrutadores na elaboração de estratégias para a manutenção dos jovens estudantes no ambiente do laboratório; e, por fim, a proximidade dos dois laboratórios, destacada por Domingos Machado, possibilitando encontros, "quase casuais", para o cafezinho, no Pavilhão do Quinino parecem implicar a conforma-ção de um grupo que, relativamente, corresponderia ao que Zarur (1994, p. 85) denomina de "família reconstruída". Sob a liderança "honrosa" de Lauro Travassos, com a liberdade e o incentivo à pesquisa, proporcionados por Miguel Osório, este grupo, inicialmente de nove ou dez pesquisadores, reunidos no "laboratório do Travassos" ou "laboratório do Miguel Osório", reconstruiu suas famílias na aliança dos dois laboratórios, recriando, a partir do "modelo familístico", remanescente do espaço privado, as relações de sociabilidade no ambiente de trabalho. A inclusão nesta "nova família" não envolvia, pura e simplesmente, a filiação direta, o que, como vimos, não ocorre no grupo examinado, embora tenha sido prática na instituição, sem que isto tenha gerado profissionais desqualificados.10 O pertencimento a esta "família" incluía, a priori, a sintonia com padrões implicitamente reproduzidos no ambiente do laboratório. Este ambiente, respaldado em uma "disposição de fazer ciência", se diferenciava, em larga escala, do que era observado em outros ambientes de Manguinhos. A composição desta "família" era permeada por "uma espécie de acordo tácito" para este "mundo em crescimento", visando um auto-reconhecimento dos méritos, avaliados a partir da quantidade e da qualidade do que publicavam. Tal como no grupo da geofísica paraense, analisado por George Zarur, o padrão "familístico" de sociabilidade não eliminou a competência e o mérito na conformação deste grupo de biomédicos de Manguinhos. A partir do mapeamento e, conseqüentemente, da percepção do que aprovavam ou rejeitavam na instituição, onde "poucos faziam ciência", o grupo traçava os contornos conjuntos e definiam os "seus" laboratórios como locais "onde realmente se fazia ciência". Notoriamente, o grupo transformou o laboratório em "espaço familiar" e dali fomentava suas bases de sustentação, geradas pela conjunção das afinidades e do mérito. Complementando esse locus de afinidade, surgem determinados espaços da instituição, como um todo. Entre as formas de mapeamento do instituto e dos grupos rivais ou aliados, freqüentemente mencionadas, o exame dos depoimentos revela que a visualização e o reconhecimento das afinidades e divergências, em Manguinhos, eram reelaborados constantemente no microespaço do refeitório. Na hora da refeição, as divisões de mesas, a determinação do lugar para sentar e das companhias para as conversas informais, selecionavam critérios, respaldados em hierarquias verticais, em associações horizontais, bipolarizando diversas categorias, configuradas no tempo e decorrentes de divergências ocorridas no interior da instituição. O refeitório tornava-se um palco privilegiado de observação e reelaboração das divergências e afinidades do grupo.11 Nesse sentido, laboratório(s) e refeitório surgem como dois 'espaços' distintos e complementares na sociabilidade do grupo; o primeiro representaria a recriação da família, com suas relações de afinidades, reciprocidades e códigos próprios; o segundo espaço, o do refeitório, representaria o mapeamento da instituição, onde se examinariam as alianças e as divergências em relação ao grupo ou a determinado indivíduo. Paradoxalmente, apesar do modelo de sociabilidade vigente, o espaço do(s) laboratório(s) surge nos discursos como espaço característico da interação dos agentes que reproduziam formas de fazer ciência "específicas" em relação a alguns outros ambientes (mesmo, outros laboratórios) da instituição, inclusive do Brasil. As referências de apoio a esta "especificidade" são sempre os padrões e normas da comunidade científica internacional, cujos elos de ligação eram os líderes (Lauro Travassos e Miguel Osório). Pairando sobre esses dois mundos opostos e complementares, o enaltecimento de Oswaldo Cruz era constantemente reiterado no tempo, por um lado, como discurso de apoio à vocação da instituição como campo privilegiado para as demandas do grupo em suas práticas científicas,12 por outro lado, inconscientemente, reproduzindo a unicidade do Instituto Oswaldo Cruz. Este resgate mitológico poderia ser definido como um terceiro "espaço" analítico, ainda que sua compreensão mereça estudos sistemáticos.13 Já no início da década de 1940, o grupo elaborava algumas estratégias para sua divulgação no meio científico. Em 1941, lançava mão de recursos adquiridos junto ao mecenas Guilherme Guinle e fundava seu próprio periódico: a Revista Brasileira de Biologia. Tendo como principais líderes Herman Lent e Mario Viana Dias, a revista aliava formalmente os laboratórios de Lauro Travassos e Miguel Osório de Almeida. Para registrar e legitimar o periódico, fundaram a Sociedade de Biologia do Brasil; agregaram participantes de várias outras sociedades regionais ou mesmo de grupos aliados, em Manguinhos. A criação da revista representava, por outro lado, a necessidade de especialização para a biologia brasileira, em sintonia com grupos internacionais com os quais mantinham contatos permanentes.14 Se, no período anterior, a revista Memórias — que representava a aglomeração das outras áreas "produtivas" de Manguinhos — seria arena de penosas esperas para publicações, na década de 1940, a Revista Brasileira de Biologia facilitaria a divulgação da vasta demanda do grupo e representaria a divulgação daquele "mundo em crescimento". No decorrer das décadas de 1940 e 1950, lideranças efetivas substituiriam as "lideranças honrosas"; ganhariam força, receberiam seus próprios laboratórios — recriariam suas próprias "famílias" —, associar-se-iam a outras lideranças e tentariam, a todo custo, intervir na orientação da instituição.15 Haity Moussatché e Herman Lent, os dois filhos de imigrantes, sem relações de parentesco com cientistas ou burocratas no ambiente brasileiro, que, em inícios da década de 1930, estagiavam em Manguinhos, já entre 1942 e 1949, estariam erguendo suas bandeiras contra a "centralização excessiva" de Henrique de Aragão, na direção do IOC, que, ao tentar implantar "um controle rígido sobre os pesquisadores", invadia terrível e imperdoavelmente o sagrado espaço da "família".16As associações recriadas no ambiente e a comparação com outras esferas da instituição principiavam a construção de uma identidade entre os freqüentadores do laboratório, proporcionando, assim, uma motivação mútua, intensi-ficando a reprodução das afinidades e da disposição de "fazer ciência", sem que um aspecto excluísse necessariamente o outro. A criação dessa identidade propiciava, por outro lado, a constatação do que negavam na instituição. Apesar de lutarem por permanecer nela, era, em parte, constituída por "clãs" rivais da família reconstruída. O instituto, parcialmente apropriado como locus de reconstrução da família, também era espaço de rivalidades e ameaças, visualizadas em ambientes "opostos e complementares": o laboratório — espaço onde se delimitavam as características e estratégias particulares do grupo — e o refeitório — espaço onde se reelaboravam desenhos harmônicos e desarmônicos em relação aos interesses do grupo. Apesar de algumas características comuns com o grupo da geofísica paraense analisado por George Zarur, seja na correlação entre afinidades e o padrão meritocrático de recrutamento, seja na existência das lideranças e, ainda, na luta pela legitimação da biologia, enquanto pesquisa básica, relacionada à orientação científica da instituição, um dos fatores que os diferencia é que, no caso da geofísica, os agentes compartilhavam, em seus discursos primordiais, uma ideologia política, nacionalista e regionalista. Esse conteúdo pouco aparece no discurso do grupo analisado. O que se destaca na ideologia primordial do grupo são reflexões relacionadas ao espaço institucional. Em primeiro lugar, a identificação com um estilo de fazer ciência, divergente do praticado pelos grupos rivais: trata-se do embate entre os que defendiam a vocação do instituto para a pesquisa básica e aqueles que defendiam a vocação para a pesquisa aplicada. Em segundo lugar, a visão do instituto como espaço de produção e prática científica, o que propiciava o confronto com alguns outros grupos, vistos como meros apropriadores do espaço institucional, sem interesse ou vocação para tais atividades. Se os espaços institucionais do laboratório e do refeitório refletiam, para o grupo, oposição e complementaridade na instituição, arrisco concluir essa análise com um terceiro espaço, que apesar de apropriado em seus discursos, como apoio para implementação de um saber e de uma prática científica, fundamenta algo maior que pode ter composto os discursos de diversos grupos. As conversas dos pseudopais com os pseudofilhos, no laboratório, de aliados e rivais no refeitório, a visão arquitetônica da fachada do Castelo no horizonte de Manguinhos e os rituais de enaltecimento em níveis nacional e internacional revitalizavam uma identidade maior, estabelecida pelo "prestígio de pertencer a Man-guinhos" e retificada na mitificação ao patriarca-mor, Oswaldo Cruz.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      19 Maio 2006
    • Data do Fascículo
      Fev 2001

    Histórico

    • Recebido
      Jan 1999
    • Aceito
      Dez 1999
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