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Padre Lebret, Frei Benevenuto e o movimento Economia e Humanismo em São Paulo (1947-1966)

Father Lebret, Friar Benevenuto and the Economy and Humanism movement in São Paulo (1947-1966)

RESUMO

Este artigo analisa os trabalhos do movimento Economia e Humanismo na cidade de São Paulo, entre 1947 e 1966, por intermédio das ações do padre francês Lebret e do frei brasileiro Benevenuto, duas figuras relevantes para a consolidação desse movimento na capital Paulista. O texto é inaugurado com o delineamento dos principais movimentos do catolicismo brasileiro entre as décadas de 1920 e 1950 - contexto relevante para compreender a trajetória desses religiosos -, a primeira viagem do dominicano francês ao Brasil, o curso que ele ministrou na Escola Livre de Sociologia Política e sua atuação na fundação da SAGMACS. Depois é traçado um paralelo entre a Economia e Humanismo no Brasil e na França, em 1948 e 1949, quando o dominicano brasileiro participou de um estágio na sede do movimento e viajou por países europeus. Em seguida, avalia-se a atuação deles na SAGMACS e na equipe paulista de Economia e Humanismo durante os anos 1950, assim como as pesquisas contratadas por órgãos públicos, o I Congresso Internacional de Economia Humana e outras atividades em São Paulo. E a parte final do artigo analisa a dissolução da SAGMACS após o Golpe Civil-Militar de 1964 e a amizade entre Frei Benevenuto e Padre Lebret.

Palavras-chave:
Padre Lebret; Frei Benevenuto; movimento Economia e Humanismo; SAGMACS; São Paulo

ABSTRACT

This article analyzes the work of the Economy and Humanism movement in the city of São Paulo between 1947 and 1966 through the actions of the French priest Lebret and the Brazilian Friar Benevenuto, two relevant figures for the consolidation of this movement in the capital of São Paulo. The text starts with the outline of the main movements of Brazilian Catholicism between the 1920s and 1950s - a relevant context to understand these religious trajectory -, the French Dominican first trip to Brazil, the course given by him at the Escola Livre de Sociologia e Política (Free School of Sociology and Politics) and his work in the SAGMACS foundation. Then, a parallel between Economy and Humanism in Brazil and France in 1948 and 1949 has been drawn, period in which the Brazilian Dominican participated in an internship at the movements’ headquarters and traveled through European countries. Next, their performance in SAGMACS and in the São Paulo Team of Economy and Humanism during the 1950s has been evaluated, as well as the research contracted by public agencies, the 1st International Congress of Economy and Humanism, and other activities in São Paulo. The article finishes evaluating the dissolution of SAGMACS after the 1964 Civil-Military Coup, and the friendship between Friar Benevenuto and Father Lebret.

Keywords:
Father Lebret; Friar Benevenuto; Economy and Humanism movement; SAGMACS; São Paulo

O movimento Economia e Humanismo ganhou terreno na cidade de São Paulo e em outras regiões do Brasil pela iniciativa do Padre Lebret e do Frei Benevenuto de Santa Cruz. O primeiro foi responsável por conceber o movimento na França, enquanto o segundo se tornou o grande divulgador da economia humana na capital paulista e em outras cidades brasileiras. Mas antes de analisar as trajetórias desses personagens, os paradigmas teóricos do movimento e seus respectivos papéis no planejamento urbano e no enfrentamento das desigualdades sociais por meio de iniciativas que influenciaram corações e mentes de jovens universitários católicos, industriais e políticos paulistas, é conveniente problematizar as principais correntes do catolicismo brasileiro entre os anos 1920 e 1950.

A influência da Igreja Católica no tecido social do país provocou novas dinâmicas políticas e culturais durante o século XX. Logo no início da República, o clero nacional ficou intimidado com o discurso e as práticas positivistas divulgadas por agentes públicos. Apesar de a maioria da população brasileira declarar-se católica, a racionalidade positivista intimidou a hierarquia eclesiástica e afastou-a dos primeiros governos republicanos. A reação do clero foi mais incisiva a partir de 1922, quando o arcebispo Dom Sebastião Leme (1882-1942) concebeu a Carta Pastoral, um projeto em defesa da sacralização e da restauração católica do país. O conteúdo dessa carta confrontava o ensino leigo com a defesa da implementação do ensino religioso, ao mesmo tempo que valorizava uma espiritualidade cristã superior aos valores materiais da vida mundana. Os argumentos expressos na carta de Dom Leme pautaram as ações da Igreja Católica no decorrer das décadas de 1920 e 1930, sobretudo porque sua pauta incentivou a atividade pastoral em diversas regiões do país.

Cristianizar, catolizar e romanizar a sociedade eram três verbos orientadores dos trabalhos do clero nesse período. Favoráveis a uma nação governada pelos princípios cristãos e apoiados nas diretivas da Cúria Romana, os bispos questionavam as ordenações protestantes, as outras religiões e as crenças populares. “A argumentação de Dom Leme era taxativa: sendo o Brasil um país de tradição católica, onde a maioria da população afirmava sua crença nessa fé, nada mais lógico do que a implantação de um Estado católico.” (AZZI; GRIJP, 2008AZZI, Riolando; GRIJP, Klaus Van der. História da Igreja no Brasil: ensaio de interpretação a partir do povo: tomo II/3-2: terceira época: 1930-1964. Petrópolis: Vozes, 2008., p. 16). Mas o êxito desse programa estava condicionado à difusão das ideias católicas ao grande público. Exposições orais realizadas em sermões, confissões, conferências e rádio, assim como as publicações impressas em memoriais, folhetos e revistas eram os meios pelos quais pretendiam atingir pessoas de diversas faixas etárias, etnias e camadas sociais.

Na primeira metade do século passado ocuparam-se especialmente do operariado e da classe média, razão pela qual investiram na recristianização dos trabalhadores e na educação católica das camadas médias urbanas. Com relação ao operariado, o clero nacional demonstrou desconhecer as famílias operárias brasileiras pelo fato de elas já compartilharem dos “[...] padrões morais e religiosos inoculados pela tradição católica, enquanto algumas passavam a aderir ao espiritismo ou às denominações protestantes. A tônica anticlerical era assumida apenas por um grupo mais aguerrido de operários [...] vinculados ao anarcossindicalismo” (AZZI; GRIJP, 2008AZZI, Riolando; GRIJP, Klaus Van der. História da Igreja no Brasil: ensaio de interpretação a partir do povo: tomo II/3-2: terceira época: 1930-1964. Petrópolis: Vozes, 2008., p. 102). Apesar disso, o episcopado nacional procurou atenuar as dificuldades do operariado com medidas recreativas e assistenciais. Nos anos 1950, Frei Benevenuto, Padre Lebret e outros religiosos brasileiros e estrangeiros encorajaram a formação de círculos operários e associações católicas para incutir a doutrina social da Igreja na sociedade, propagando a dignidade humana e socioeconômica.

No que diz respeito à educação, o episcopado nacional levou adiante o projeto de Dom Leme durante o primeiro governo de Getúlio Vargas. Se é verdade que advogam em prol do ensino religioso na educação pública e privada do país, não é menos verdade que havia o interesse econômico em jogo. Houve o crescimento expressivo das escolas públicas na era Vargas, assim como a hierarquia eclesiástica investiu, edificou e multiplicou o número de escolas católicas até os anos 1950. Embora esses colégios fossem voltados para as classes médias e altas das grandes e médias cidades, algumas ordenações cristãs também fundaram escolas profissionalizantes para os setores populares.

Nessa linha de considerações, o projeto da nova cristandade não apenas desenvolveu o ensino religioso, os meios de comunicação e as ações voltadas para o operariado, mas também atacou o protestantismo, o liberalismo e o comunismo. Entre as décadas de 1920 e 1940, a literatura produzida pela Igreja engradecia os preceitos cristãos originários da sociedade medieval e das cruzadas como uma forma de combater seus inimigos e de preservar a hegemonia católica no país. Embora tenha ocorrido o fortalecimento de um Estado laico, republicano e progressivamente moderno, a hierarquia eclesiástica aproveitou a ascensão de Vargas para estabelecer acordos políticos com seu governo e implementarem o programa de Dom Leme. Esse relacionamento ficou evidente logo no início do governo, sobretudo com a promulgação do decreto de 30 de abril de 1931, cujo mote previa o ensino religioso facultativo nas escolas públicas (AZZI; GRIJP, 2008AZZI, Riolando; GRIJP, Klaus Van der. História da Igreja no Brasil: ensaio de interpretação a partir do povo: tomo II/3-2: terceira época: 1930-1964. Petrópolis: Vozes, 2008.). A lei não atendeu ao desejo da Igreja em obrigar o ensino católico na rede pública federal, mas ao menos sinalizou a disposição do governo para atender alguns interesses do clero.

Ainda que a sacralização do Estado não tenha atingido todos os objetivos traçados por Dom Leme, a sua liderança instigou um potente catolicismo militante e a fundação de instituições formadoras de intelectuais católicos leigos (SILVA, 2008SILVA, Wellington Teodoro da. Catolicismo militante na primeira metade do século XX brasileiro. História Revista, Goiânia, v. 13, n. 2, p. 541-563, jul./dez. 2008.). Jackson de Figueiredo (1891-1928) e Alceu Amoroso Lima (1893-1983) foram duas figuras do laicato católico que se projetaram como representantes seculares da Igreja e difusores do catolicismo. O primeiro foi influenciado pelo cardeal Leme e pelos preceitos expressos em sua Carta Pastoral, enquanto o segundo foi formado pelas ideias e pela liderança de Leme e Jackson, com a particularidade de ter mudado suas ações e reflexões nos anos 1940. Alceu rompeu com o conservadorismo eclesiástico para defender a democracia e contribuir para elaboração do pensamento cristão progressista do país.

Jackson de Figueiredo fundou a revista A Ordem em 1921, e o Centro Dom Vital em 1922, ano inaugural da ofensiva da Igreja Católica na defesa da nova cristandade. Enquanto dirigiu a revista, os textos manifestavam o conservadorismo político e religioso. De um lado, suas edições confrontavam comunistas, protestantes e liberais, e de outro preservavam as diretivas do tradicionalismo de Dom Leme. Com efeito, o periódico era um canal difusor das discussões entabuladas no Centro, local que se tornou um espaço de sociabilidade para as lideranças leigas católicas do Rio de Janeiro e depois fundou filiais em diversas cidades brasileiras, acolhendo figuras de destaque no cenário político e social do país (AZZI; GRIJP, 2008AZZI, Riolando; GRIJP, Klaus Van der. História da Igreja no Brasil: ensaio de interpretação a partir do povo: tomo II/3-2: terceira época: 1930-1964. Petrópolis: Vozes, 2008.).

Alceu Amoroso Lima foi uma dessas personalidades. Filho de ateus e formado em Ciências Jurídicas e Sociais na capital fluminense, ele assumiu os negócios da família. Ainda na juventude, aos 26 anos de idade iniciou a carreira de crítico literário com o pseudônimo Tristão de Athayde. Com a morte de Jackson, Alceu assumiu a fé católica e a direção da revista e do Centro. Tornou-se um influente leigo católico tanto no âmbito político quanto cultural. Mas foi na seara intelectual que ele militou com afinco e contribuiu para a difusão de um catolicismo progressista: “[...] leu e divulgou no Brasil pensadores como Maritain, Congar e Lebret. [...]. Ao contrário de Jackson de Figueiredo, não tinha o perfil do polemista, mas do conciliador. Jackson era marcado pela intuição; Alceu, pela erudição” (SILVA, 2008SILVA, Wellington Teodoro da. Catolicismo militante na primeira metade do século XX brasileiro. História Revista, Goiânia, v. 13, n. 2, p. 541-563, jul./dez. 2008., p. 559). Sua liderança intelectual iniciou quando ele fundou a Ação Universitária Católica (AUC)1 1 Desde sua criação até finais dos anos 1930, a maioria de seus integrantes participavam do integralismo brasileiro. Depois o movimento se unificou à Ação Católica Brasileira fundada em 1935, e posteriormente ampliou os horizontes ideológicos para defender a democracia e o pensamento progressista, transformando-se em Juventude Universitária Católica (JUC) nos anos 1940. , em 1929, para irradiar o catolicismo no meio acadêmico.

De estirpe conservadora entre 1928 e 1938, Alceu defendeu governos democráticos no período em que passou a conviver e se corresponder com Padre Lebret, Frei Benevenuto e outros religiosos progressistas da França e do Brasil. Foi durante essa fase de transição que ele leu os livros do filósofo cristão Jacques Maritain (1882-1973) e dos teólogos dominicanos Humbert Clérrisac (1864-1914), Pierre Bernadot (1883-1941) e Yves-Marie-Joseph Congar (1904-1995). Os livros desses pensadores iluminaram as reflexões de um dos maiores intelectuais católicos brasileiros do século XX, o que é uma evidência da circulação das ideias formuladas pelos dominicanos franceses na construção da Ordem Dominicana e do laicato católico nacional.

Alceu projetou-se no meio político e intelectual nacional após a revolução de 1930. Sob a presidência de Getúlio houve um conjunto de reformas que alteraram a legislação social e as tratativas políticas. As novas leis ampararam os trabalhadores urbanos e outros setores vulneráveis, enquanto as questões políticas passaram a tratar de temas nacionais. A despeito do nefasto Estado Novo e das numerosas contradições da Era Vargas, a integração do país promovida em seu governo nutriu o sentimento dos modernistas propagado em 1922. Foi nessa conjuntura que escritores, artistas, intelectuais, professores e estudantes se envolveram com mais intensidade na vida política, religiosa e sociocultural brasileira. Antonio Candido (1984CANDIDO, Antônio. A revolução de 1930 e a cultura. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, v. 2, n. 4, p. 27-36, abr. 1984., p. 31) pondera que “[...] naquela altura o catolicismo se tornou uma fé renovada, um estado de espírito e uma dimensão estética. ‘Deus está na moda’, disse com razão André Gide em relação ao que ocorria na França e era verdade também para o Brasil”. Esse movimento em direção ao laicato católico deu origem às ideias de Jackson de Figueiredo, da revista e do Centro, elementos cruciais para a ascensão de Alceu Amoroso Lima e da Ação Católica como mecanismos de militância do laicato.

O espiritualismo católico desse período reuniu numerosos escritores e políticos para o integralismo e para as ideias de direita durante os anos 1930 e 1940. Mas a industrialização promovida no decorrer dos governos Vargas, a burguesia formada com o desenvolvimento dos centros urbanos e o aumento do protestantismo foram elementos que desmistificaram a força simbólica dos sacerdotes católicos. Com o tecido social progressivamente urbano e aburguesado, os padres perderam devotos e viram decrescer seu prestígio nas grandes e médias cidades, sobretudo a partir da década 1950, quando os leigos católicos assumiram atividades geralmente cumpridas pelos padres. Aliás, o envolvimento dos leigos nas atividades da Igreja e a renovação da vida clerical fizeram parte da estratégia da hierarquia eclesiástica para estancar a perda de fiéis (AZZI; GRIJP, 2008AZZI, Riolando; GRIJP, Klaus Van der. História da Igreja no Brasil: ensaio de interpretação a partir do povo: tomo II/3-2: terceira época: 1930-1964. Petrópolis: Vozes, 2008.). As novas práticas abarcavam desde congressos de estudos religiosos à publicações de revistas teológicas, como foi o caso da Revista Eclesiástica Brasileira (REB), lançada, em 1941, pela Ordem Franciscana.

A Ação Católica foi outra iniciativa a representar as mudanças que ocorriam na Igreja Católica. Fundada em 1935 por Dom Leme, o movimento tinha a meta de encorajar a participação dos jovens no movimento litúrgico e em ações sociais. Depois criaram organizações de juventude católica nos anos posteriores para consolidar a presença da Ação Católica no laicato nacional, especialmente entre os universitários. Instituições como o Centro Dom Vital e a Associação Universitária Católica foram erigidas para organizar e formar os jovens leigos católicos.

Entre 1935 e 1945, a Ação Católica brasileira era centralizadora, aplaudia regimes autoritários, difundia um pensamento conservador oriundo do Vaticano e declarava-se favorável a uma sociedade hierarquizada. Pouco a pouco, a ala conservadora perdeu espaço para os jovens que manifestavam suas ideias progressistas nas atividades do movimento, o que gerou debates calorosos com as fileiras reacionárias. A juventude católica progressista endossava as ideias de Jacques Maritain e sua contestação à Guerra Civil Espanhola, ao franquismo, ao fascismo, ao nazismo e a qualquer modelo de governança autoritária (AZZI; GRIJP, 2008AZZI, Riolando; GRIJP, Klaus Van der. História da Igreja no Brasil: ensaio de interpretação a partir do povo: tomo II/3-2: terceira época: 1930-1964. Petrópolis: Vozes, 2008.). As obras do filósofo francês influenciaram jovens leigos como Alceu Amoroso Lima, que atacou o franquismo e o fim da ditadura varguista. O pensamento de Maritain confrontava os princípios romanizados da Santa Sé e inauguram uma nova etapa para a Ação Católica e outras instituições cristãs.

A Ordem Dominicana acompanhou os novos ares que oxigenavam a eclesia brasileira. Ainda que os dominicanos brasileiros integrassem a retrógada Província de Toulouse durante as décadas de 1930 e 1940, foi nesse período que iniciou a renovação do catolicismo social francês. Dominicanos como Yves Congar, Marie-Dominique Chenu (1895-1990) e Louis-Joseph Lebret (1897-1966) foram figuras centrais dessa nova fase. Por mais que os jovens frades brasileiros estudassem na província conservadora, todos eram influenciados pelas ideias do catolicismo social fecundado na Província de Paris. Quando regressavam ao Brasil, divulgavam as obras dos filósofos e teólogos progressistas (PIC, 2014PIC, Claire. Les dominicains de Toulouse au Brésil (1881-1952): de la mission a l’apostolat intellectuel. 2014. 338 f. Thèse (Doctorat en Histoire) - École doctorale TESC, Université Toulouse II - Le Mirail, Toulouse, 2014.). Foi assim que a missão dominicana brasileira passou a ser considerada a mais renovadora das ordenações religiosas atuantes em território nacional.

As conexões estabelecidas entre dominicanos brasileiros e franceses extrapolavam a formação religiosa. Havia intensa circulação de ideias formuladas pelos pensadores cristãos franceses e assimiladas por sacerdotes e leigos brasileiros que apreciavam a perspectiva progressista da teologia e filosofia católica (PIC, 2014PIC, Claire. Les dominicains de Toulouse au Brésil (1881-1952): de la mission a l’apostolat intellectuel. 2014. 338 f. Thèse (Doctorat en Histoire) - École doctorale TESC, Université Toulouse II - Le Mirail, Toulouse, 2014.). A partir dos anos 1940, os frades dominicanos estabeleceram-se nas grandes e médias cidades para trabalharem como mensageiros desse pensamento renovado. Começaram a praticar um apostolado intelectual que os fizeram conquistar notoriedade nos círculos católicos, aproximarem do clero nacional e colaborarem para o fortalecimento do catolicismo no país. Foi por esse motivo que a atuação dos dominicanos contribuiu para o trabalho da Igreja Católica nas cidades, inserindo-as na dinâmica de um país que flertava com a democracia liberal após 1945. Nesse contexto, Padre Lebret e Frei Benevenuto foram dois dominicanos que galvanizaram a Ação Católica e os preceitos progressistas do catolicismo no tecido social, urbano e político brasileiro.

As origens de Padre Lebret e Frei Benevenuto

Louis-Joseph Lebret (1897-1966) nasceu em Le Minihic-sur-Rance, comuna francesa situada na região da Bretanha. Descendente de uma família campesina, marinheira e católica, Lebret foi aluno da escola naval de Saint Brieuc. Ele tornou-se piloto e tenente antes de assumir o posto de oficial da Marinha Nacional francesa durante a Primeira Guerra Mundial, o que o levou a receber o galardão da Legião da Honra pelo trabalho realizado como oficial. Mas a honraria não foi o único legado do tempo de guerra, a sua sabedoria marinheira propiciou-lhe o traquejo com o cálculo, a capacidade de resiliência diante das intempéries do mar e das injustiças sociais (BOSI, 2012BOSI, Alfredo. Economia e humanismo. Estudos Avançados, vol. 26, n. 75, p. 249-266, 2012.). A despeito de conseguir estabilidade profissional com a carreira naval, Lebret abdicou do posto militar aos 26 anos de idade e ingressou na Ordem Dominicana em 1923, ordenando-se sacerdote em 1928. Foi na condição de padre que ele realizou a sua primeira pesquisa e ação; “[...] em 1929, na costa da Bretanha, [...] quando a mecanização das atividades pesqueiras e a repercussão da crise mundial desorganizaram o mercado internacional e influenciaram negativamente a economia local” (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p., p. 310). Essa experiência o levou a promover diversas pesquisas em torno dos mecanismos de funcionamento do mercado litorâneo francês, europeu e internacional, estimulando-o a aprofundar seus estudos nas áreas de sociologia, economia e teologia.

As múltiplas referências teóricas do padre Lebret abarcavam desde o movimento neotomista de renovação católica, defendido pelo padre Antonin-Gilbert Sertillange, passando pelo filósofo cristão Emmanuel Mounier e por certas concepções de Émile Durkheim (GODOY, 2020GODOY, José Henrique Artigas de. Dom Helder Câmara e Louis-Joseph Lebret: Desenvolvimentismo e Práxis Progressista Católica nas Décadas de 1950 e 1960. DADOS, Rio de Janeiro, v. 63, n. 1, e20170188, 2020. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.1590/001152582020198 . Acesso em: 15 jul. 2020.
https://doi.org/10.1590/001152582020198...
). Incluíam o pensamento dos engenheiros Thomas Suavet, Jean Queneau e Paul Verney, dos sociólogos Paul-Henry Chomart de Lauwe, Henri Desroches e Frédéric Le Play; da sociologia e filosofia religiosa de Jacques Maritain e Abbée Henri de Tourville; do economista François Perroux; do geógrafo Pierre George; do urbanista Gaston Bardet; e do intuicionismo de Bergson, assim como dos estudos comunitários de Ferdinand Tönnies e do anarquista Kropotkin. Ele também se municiava da teoria marxista, em particular dos postulados sobre a exploração do trabalho e a condenação do capitalismo liberal. Esses pensadores indicam dois elementos vitais das investigações levadas a cabo pelo dominicano francês: o substrato religioso progressista e a interdisciplinaridade. Com relação ao primeiro, ele foi persuadido pelos “[...] círculos católicos progressistas que tentaram articular um movimento pela ‘democracia cristã’ nos anos 1950, cuja característica principal era trazer para o centro do debate a questão social” (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p., p. 71). Paralelamente, suas pesquisas empregavam teorias e metodologias que dialogavam com diferentes áreas do conhecimento e criavam mecanismos para alterar as desigualdades e contribuir para o aprimoramento de uma civilização em que a economia estivesse a serviço dos valores humanos.

Lebret fundou a Economia e Humanismo no ano de 1941, em Marseille. No ano seguinte publicou o primeiro número do periódico Économie et Humanisme e lançou o manifesto homônimo ao movimento. Em 1943, o sociólogo Henri Desroches (então dominicano) se somou à equipe e edificaram um centro de Economia e Humanismo, em Lyon. Fundaram, em 1945, a Société d’Application Généralisée des Méthodes d’Analyse (SAGMA), entidade cuja finalidade era realizar investigações sobre os problemas sociais e urbanísticos, a exemplo dos estudos sobre o problema habitacional nas grandes cidades francesas. Enquanto realizava seus trabalhos, Lebret publicou o Principes pour l’action e Guide du Militant, em 1946, ano em que o movimento também construiu a livraria e editora Économie et Humanisme, em Paris.

Foi no ano seguinte que o padre francês fez sua primeira viagem à América do Sul e conheceu José Petronilo de Santa Cruz (1918-1997). Nascido, em 1918, num engenho localizado em São Luís do Quitunde, interior do Estado de Alagoas, ele passou a adolescência na capital pernambucana e foi o único de sua família a seguir a vida monástica. Ao ingressar na Ordem dos Dominicanos e iniciar seu percurso religioso a partir de 1938, escolheu o nome religioso de Frei Benevenuto e mudou-se para França com o propósito de estudar Filosofia e Teologia no Convento de Saint-Maximin. Em razão da Segunda Guerra Mundial, o governo brasileiro repatriou o frade e seus colegas sacerdotes em 1942 (MEMÓRIA DOMINICANA, 1980-2013aMEMÓRIA DOMINICANA. Implantação da Ordem dos Frades Pregadores no Brasil, 1878-1952: pela Província de Toulouse (França). Juiz de Fora: Ordem dos Dominicanos, 1980-2013a, n. 20. Semestral., n. 20). Deste ano até 6 de janeiro de 1945, o jovem religioso dedicou-se aos estudos para concluir sua ordenação religiosa e rezar a sua primeira missa como padre no Convento Santo Alberto Magno (também chamado de convento das Perdizes), localizado no bairro de Perdizes, em São Paulo, onde passou a residir. Por indicação de Lebret, a partir de 1947 ele se tornou a principal referência do movimento Economia e Humanismo (doravante EH) no Brasil. Ao edificar sua rede de relacionamento com setores progressistas da Igreja Católica brasileira e francesa, Frei Benevenuto se embrenhou nas ações do movimento e no mundo do livro2 2 Durante o período do doutorado investiguei a trajetória pessoal e profissional de José Petronilo de Santa Cruz, sobretudo como livreiro-editor da Livraria Duas Cidades, entre 1954 e 1997. Mas sua experiência no mundo dos livros iniciou em 1947, quando ele conheceu o Padre Lebret e estruturou um Centro de Difusão de Revistas Dominicanas. No início dos anos 1950, Frei Benevenuto publicou livros por meio das Edições SAL (QUINTA, 2021, p. 134-159), cuja primeira obra foi Princípios Para a Ação, de Lebret, lançada em 1952. Apesar disso, os livros do religioso francês ganharam projeção no catálogo do selo Livraria Duas Cidades. Dos 15 primeiros títulos com o maior número de tiragens na história desta casa, 3 foram de Lebret: Manifesto Por Uma Civilização Solidária (1961-1963, 4 edições); O Drama do Século XX (1963-1966, 3 edições) e Suicídio ou Sobrevivência do Ocidente (1960-1964, 4 edições). Lebret publicou seis livros pela editora dirigida por Frei Benevenuto e tornou-se o terceiro maior autor da casa, com 84.840 exemplares impressos (QUINTA, 2021, p. 285). Suas obras atraíram a ala progressista de religiosos e leigos católicos brasileiros e latino-americanos. .

Aos 50 anos de idade, Lebret fez sua primeira viagem ao Brasil e a outros países sul-americanos. Essa jornada ocorreu devido à aproximação de Lebret com um padre brasileiro que residia na França e cursava seus estudos em Teologia. O acervo3 3 Convém destacar que os distintos materiais abrigados em acervos pessoais muitas vezes encobrem rejeições, predileções e intenções tanto das instituições de guarda como dos familiares e demais envolvidos na organização, manutenção, doção ou venda do arquivo. Este artigo utiliza um conjunto de fontes abrigadas em arquivos pessoais e institucionais do Brasil e da França levando em consideração as diversas intromissões que ocorrem nesses acervos desde sua constituição até o instante em que são abertos para consulta pública. Diversos pesquisadores como Heymann (2014), Gomes (1998), Lacerda (2014) e Camargo (2009) tratam dessa temática enfatizando a necessidade de analisar os documentos e as imagens abrigadas em um arquivo não como uma acumulação de verdades absolutas ou como um repositório que decorreu da ação consciente de indivíduos que guardaram vestígios para posteridade. É por esse motivo que as fontes mencionadas neste artigo foram analisadas criticamente, tendo em conta o contexto histórico em que foram produzidas. de Louis-Joseph Lebret, localizado nos Archives Nationales (Fundo Lebret 45ASArchives Nationales - Pierrefitte-sur-Seine, Paris, França - Fundo R. P. Lebret (45 AS)., cota 19860461/101) de Pierrefitte-sur-Seine, na França, abriga a correspondência datilografada que frei Romeu Dale (1911-2007) trocou com o religioso francês desde 1941 até 1952, período em que compartilharam percepções sobre EH e a realidade brasileira. Nas duas primeiras cartas (a primeira de 17 de janeiro e a segunda de 3 de maio de 1941) que Lebret dirigiu a Dale, ele agradeceu o contato do frade e mencionou que gostaria de conhecê-lo pessoalmente. O remetente acrescentou que queria viajar para América do Sul com o propósito de se familiarizar com a realidade do continente, depois convidou o destinatário para participar das reuniões do movimento e pediu que o sacerdote lhe enviasse artigos e textos sobre os problemas brasileiros.

É curioso constatar que a correspondência entre frei Romeu Dale e Padre Lebret tenha mencionado o nome de Frei Benevenuto apenas a partir de 1947. Durante as etapas iniciais da pesquisa havia a hipótese de que Frei Benevenuto teria conhecido Padre Lebret durante os anos de seus estudos na França. Embora essa possibilidade não deva ser descartada, é possível assegurar que não houve proximidade entre eles até a primeira vinda de Lebret ao Brasil (QUINTA, 2021QUINTA, Hugo de Carvalho. A trajetória de Santa Cruz e da Livraria Duas Cidades: o livreiro-editor de religiosos, universitários e intelectuais na cidade de São Paulo (1954-2006). 2021. 693 f. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2021. Disponível em: Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/214351 . Acesso em: 2 nov. 2021.
https://repositorio.unesp.br/handle/1144...
). Após a primeira passagem do padre francês pelo país, Frei Benevenuto não apenas começou a ser mencionado nas missivas que Lebret enviava a Dale, como também passou a trocar cartas4 4 No fundo Lebret abrigado nos Archives Nationales (cotas 19860461/101 e 19860461/117) foram encontradas 47 cartas datadas entre 1950 e 1966, sendo que 23 eram de Frei Benevenuto para o Padre Lebret, ao passo que 24 eram do francês para o brasileiro. Já o arquivo pessoal de José Petronilo contém 38 missivas enviadas de Lebret para Benevenuto, entre 1954 e 1964, o que é uma evidência de que o religioso não tinha o hábito de guardar uma cópia das epístolas que ele endereçou ao religioso francês. Parte significativa dessas cartas eram dedicadas aos trabalhos da SAGMACS, mas com o passar dos anos elas também tratam de aspectos da relação de amizade entre eles. Este artigo analisa algumas dessas correspondências considerando que as cartas são objetos e fontes de pesquisa que devem ser utilizadas de acordo com a metodologia epistolar. Alguns dos critérios metodológicos para a análise das cartas foram explorados neste artigo, como a conjuntura sociocultural e política em que foram produzidas; as diversas subjetividades da redação; o modo como estão assinadas e datadas; e o idioma em que estão escritas (FERRARI, 2017; PAGES, 2017). com o líder de EH depois dessa viagem.

As missivas consultadas no acervo do padre francês demonstram que eles se conheceram no Brasil por intermédio de frei Romeu, que morava no convento das Perdizes e foi um dos responsáveis por viabilizar o curso que o religioso francês proferiu na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo (ELSP), em 1947. Ainda que Frei Benevenuto não tenha conhecido Lebret até esse ano, supõe-se que ele teria entrado em contato com as ideias e os livros escritos pelo bretão antes de ser tornar um dos participantes das lições de Lebret na capital paulista.

Curso do Padre Lebret na ELSP e fundação da SAGMACS

As aulas do religioso foram oportunas para ele divulgar suas ideias para jovens universitários e demais setores da sociedade interessados a encarar os desafios sociais do país seguindo os preceitos da economia humana. O auditório da ELSP5 5 Fundada, em 1933, por empresários paulistanos, a Escola foi erigida com o objetivo de formar uma elite dirigente para o munícipio e o estado de São Paulo sob o paradigma das ciências sociais norte-americanas. Desde meados dos anos 1950, a instituição passou a se chamar Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). foi o palco de suas lições entre os dias 14 de abril e 05 de junho de 1947, onde ocorreu o curso “Introdução Geral à Economia Humana”6 6 A ELSP publicou o curso em dois volumes. As versões impressas fazem parte do fundo Lebret 45AS, cota 19860461/144, Archives Nationales, sob o título Introduction Générale a L’Économie Humaine. , composto por 36 aulas que transcorreram de segunda a sexta-feira, todas voltadas para a pós-graduação em Economia Social dessa faculdade. Na bibliografia do curso, Lebret incluiu obras e textos de economia e política, além de estudos sobre habitação, população e urbanismo, indicando os livros de Henri Desroches, Maurice Halbwachs, Paul Descamps, entre outros nomes que faziam parte do grupo francês de EH.

Alceu Amoroso Lima, assinando sob o pseudônimo Tristão de Athayde, publicou dois ensaios no carioca Diário de Notícias (Fundo Lebret 45ASArchives Nationales - Pierrefitte-sur-Seine, Paris, França - Fundo R. P. Lebret (45 AS)., cota 19860461/155, Archives Nationales), ambos publicados em 1947 - o primeiro no dia 20 de julho e o segundo no dia 10 de agosto. Esses textos sinalizam como as ideias de Lebret e de seu movimento começaram a circular nos círculos católicos, intelectuais e empresariais durante a passagem do religioso por São Paulo e Rio de Janeiro, cidade onde ele proferiu duas conferências patrocinadas pela Ação Social Arquidiocesana. Nesses escritos, Alceu teceu um breve relato biográfico do padre e descreveu o impacto que a obra do conferencista causou em sua formação intelectual e cristã, realçando que o espírito comunitário irradiado por EH começava a ser espraiado pela América do Sul, tendo em vista que Lebret estava a realizar um périplo por Brasil, Argentina, Uruguai e Chile. O intelectual católico afirmou que a experiência prática orientava o apostolado do padre francês, que procurava enfrentar as desigualdades sociais estudando os indicadores socioeconômicos e propondo novas formas de planejamento urbano e regional que promovessem mudanças estruturais nas localidades pesquisadas.

Outros jornais (Archives Nationales, Fundo Lebret 45ASArchives Nationales - Pierrefitte-sur-Seine, Paris, França - Fundo R. P. Lebret (45 AS)., cota 19860461/155) reportaram a passagem do padre francês por terras brasileiras. O Diário de S. Paulo do dia 15 de junho de 1947 cobriu as novidades ofertadas pela ELSP a partir da manchete: “Elementos de expressão mundial das ciências econômicas e social realizam cursos na Escola de Sociologia e Política”. Segundo a reportagem, a Escola tornou-se um centro de estudos a promover aulas ministradas por estrangeiros, o que era um sinal “[...] de que há em São Paulo um grupo de pessoas suficientemente interessadas e habilitadas a seguirem um curso dessa natureza”. Já o Jornal Debates publicou, em 8 de agosto de 1947, a reportagem assinada por Mattos Pimenta. Sob o título “Visão Genial de Marx?”, o autor falou sobre a conferência do padre realizada na Associação Brasileira de Imprensa, cuja temática foi “Marxismo. Crítica do capitalismo”. Pimenta afirmou que o auditório estava abarrotado de gente, motivo pelo qual ele assistiu, em pé, a palestra transcorrida durante uma hora e 40 minutos. O jornalista criticou o evidente paradoxo entre o assunto explanado pelo padre e o público, “[...] em sua esmagadora maioria, da mais genuína burguesia [...], entre os quais não divisei um só operário”. Diante dessa constatação, o jornalista concluiu que o religioso estava a difundir suas ideias para uma das burguesias “[...] mais empedernidas do mundo”.

Essas matérias demonstram que sua estada não passou despercebida nos círculos religiosos e intelectuais, assim como sinalizam o interesse de Lebret em irradiar o movimento para outros países da América Latina7 7 Sobre a atuação do padre francês na América Latina, ver: PONTUAL, Virgínia. Louis-Joseph Lebret na América Latina: um exitoso laboratório de experiências em planejamento humanista. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2016. . Embora o líder de EH não tenha se autocensurado ao expor temáticas que eram demonizadas8 8 Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, então Arcebispo de São Paulo, foi um dos cardeais que teceu duras críticas à passagem de Lebret pelo Brasil. Embora as conferências e os cursos tenham abordado obras marxistas, a gota d’água foi a fala de Lebret contrária à dissolução arbitrária do Partido Comunista Brasileiro, em maio de 1947. Essa atitude foi duramente criticada pelas autoridades eclesiásticas do país, que informaram o papado sobre o ocorrido. O episódio fez com que EH fosse criticado e vigiado pela Cúria Romana nos anos 1950. (PIC, 2014, p. 274-275) pela hierarquia eclesiástica, suas alusões ao marxismo provocaram desavenças com o clero brasileiro, o qual lhe permitiu retornar ao Brasil apenas em 1952.

Mas foi durante sua primeira estada no país, sobretudo em São Paulo, que ele estabeleceu relações com religiosos e dirigentes ligados à política, indústria, economia, intelectualidade e universidade. Boa parte dessas pessoas fundaram a Sociedade para Análise Gráfica e Mecanográfica Aplicada aos Complexos Sociais (SAGMACS) e foram responsáveis pela contratação de estudos e projetos realizados durante os anos 1950 e 1960. A viagem de 1947 ampliou seu campo de ação para além da Europa, colocando em prática seu pensamento em um país considerado subdesenvolvido. Ainda que suas análises progressistas tenham soado ultrajante para o clero brasileiro conservador, Padre Lebret não era comunista nem capitalista, razão pela qual havia uma simpatia dos diferentes grupos que o receberam no país, pessoas que estavam ávidas por um desenvolvimento socioeconômico distinto do que era oferecido por norte-americanos e soviéticos. O público participante do curso era formado por universitários cristãos e dirigentes da elite industrial, “[...] representada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) - a financiadora da estada de Lebret no Brasil” (ANGELO, 2010ANGELO, Michelly Ramos de. Les Développeurs: Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS na formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. 2010. 231 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) - Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2010., p. 69-70). O padre estava motivado em conquistar a juventude universitária paulistana. Muitos dessa geração ingressaram no movimento e depois foram deputados, governadores e ministros de Estado.

Entre esses estavam os membros da diretoria que assinaram o estatuto da SAGMACS em 26 de julho de 1947, entidade criada nos moldes da SAGMA francesa e com sede na cidade de São Paulo. A meta da Sociedade era conduzir pesquisas e meios de investigação que possibilitassem aos membros associados estudar as particularidades urbanas, sociais e econômicas presentes no território nacional. Esses estudos seriam expressos por meio de gráficos, diagramas monográficos e relatos de pesquisa que descrevessem minuciosamente as localidades estudadas. Os contratos firmados entre a Sociedade e os organismos públicos ou privados garantiriam a realização de estudos com vistas a oferecer um diagnóstico dos problemas identificados e a orientação de políticas públicas ou privadas dos órgãos contratantes. O estatuto regulamentou as questões financeiras e patrimoniais sobre o funcionamento da Sociedade, e a diretoria foi composta por Luiz Cintra do Prado (diretor-presidente), Luciano Vasconcelos de Carvalho (diretor-gerente), Olga Soares Pinheiro, José Maria de Freitas, André Franco Montoro e Lucas Nogueira Garcez (diretores-adjuntos) - os dois últimos tornaram-se políticos e governadores do Estado de São Paulo na segunda metade do século passado.

Para além desses membros, no “Relatório sobre os trabalhos desenvolvidos por Economia e Humanismo no Brasil”9 9 Trecho extraído do “Relatório sobre os trabalhos desenvolvidos por Economia e Humanismo no Brasil”, documento (sem data) abrigado no arquivo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz. Diferente da data prevista no estatuto, o relatório menciona que a entidade foi fundada em 27 de julho de 1947. Sobre o acervo de José Petronilo de Santa Cruz, consultar: Quinta e Silva, 2020. aparece o nome do leigo católico francês Jean Le Duigou como diretor-técnico da Sociedade. Esse documento mencionou algumas das pessoas que participaram do curso de Lebret na ELSP e envolveram-se na criação do grupo brasileiro de EH e da SAGMACS: “A reunião de fundação foi precedida de uma tarde de formação espiritual pregada pelo Pe. Lebret no Convento dos Dominicanos. A SAGMACS foi fundada [...] em reunião realizada na Sociedade Paulista de Medicina com a presença do Pe. Lebret”. Depois o documento listou os nomes dos 34 sócios que aderiram à Sociedade, dentre os quais estavam figuras proeminentes da indústria de São Paulo, como Severo Gomes e Carlos Pinto Alves, e posteriormente mencionou que “[...] por sugestão do Pe. Lebret e aprovação do então Vigário-Provincial da Ordem Dominicana, frei E. Dupuy, a parte doutrinária e espiritual do movimento ficou a cargo de Frei Benevenuto de Santa Cruz, que desde o início vinha acompanhando todos os trabalhos preparatórios”. Havia reuniões regulares desde a fundação da SAGMACS, algumas acompanhadas de aulas e palestras dos freis Benevenuto, Romeu Dale e João Baptista Pereira dos Santos. Durante sua passagem por São Paulo, Padre Lebret sugeriu que Frei Benevenuto passasse um ano na França para realizar um estágio na sede do grupo EH.

A liderança assumida pelo religioso brasileiro pode estar relacionada a algumas hipóteses que não foram abordadas pelas(os) pesquisadoras(es)10 10 No Brasil, destacamos as pesquisas de Michelly Ramos de Angelo (2010, 2013), de Lucas R. Cestaro (2015), de Virgínia Pontual (2011, 2016), e na França chamamos a atenção para os trabalhos de Denis Pelletier (1996) e Mathilde Le Tourneur Breuil (2006). que estudaram a SAGMACS, o padre Lebret e o movimento Economia e Humanismo. Mediante a análise das fontes pesquisadas, é possível considerar duas razões principais para Frei Benevenuto ter sido prestigiado com o estágio na França: a transferência de frei Romeu Dale para o convento do Rio de Janeiro, em 1948, e a articulação de Carlos Pinto Alves atuando nos bastidores do grupo brasileiro de EH (PIC, 2014PIC, Claire. Les dominicains de Toulouse au Brésil (1881-1952): de la mission a l’apostolat intellectuel. 2014. 338 f. Thèse (Doctorat en Histoire) - École doctorale TESC, Université Toulouse II - Le Mirail, Toulouse, 2014.). Carlos foi amigo íntimo de Frei Benevenuto e acreditava na força do movimento (QUINTA, 2021QUINTA, Hugo de Carvalho. A trajetória de Santa Cruz e da Livraria Duas Cidades: o livreiro-editor de religiosos, universitários e intelectuais na cidade de São Paulo (1954-2006). 2021. 693 f. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2021. Disponível em: Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/214351 . Acesso em: 2 nov. 2021.
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). Além disso, o frade estava alinhado ao pensamento lebretiano, dominava a língua francesa e fazia parte do grupo de religiosos progressistas residentes do convento das Perdizes.

Mas as críticas da hierarquia eclesiástica ao teor das conferências e dos pronunciamentos de Lebret estenderam-se aos dominicanos brasileiros ligados ao movimento. Apesar disso, e antes de partir para o estágio em La Tourette, Frei Benevenuto assentou as bases do grupo brasileiro de EH, diluiu as resistências da Ordem e estreitou as relações com a intelectualidade, a juventude e a elite do laicato católico, ao mesmo tempo que importava revistas dominicanas francesas para o Brasil. Ele planejava ir para a França em janeiro 1948, porém adiou seu plano para recepcionar Jean Le Duigou, que ficou responsável por coordenar as ações da equipe durante a ausência do dominicano. Frei Benevenuto não assumiu nenhum posto na SAGMACS de imediato, mas aos poucos se tornou o eixo do movimento no país, como é possível constatar nas cartas11 11 No arquivo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz há uma série de correspondências de Frei Benevenuto com os religiosos, muitas das quais eram trocadas com padres brasileiros e franceses, e tratavam de questões relacionadas aos dominicanos, ao grupo brasileiro de EH e ao relacionamento que ele tinha com alguns industriais brasileiro. que ele trocou com diversos padres.

Essas correspondências são evidências das habilidades desenvolvidas pelo religioso em diversas frentes. Liderava o grupo brasileiro de EH, desempenhava seus afazeres de padre, trabalhava na biblioteca do convento, estruturava um Centro de Difusão de Revistas Dominicanas (QUINTA, 2021QUINTA, Hugo de Carvalho. A trajetória de Santa Cruz e da Livraria Duas Cidades: o livreiro-editor de religiosos, universitários e intelectuais na cidade de São Paulo (1954-2006). 2021. 693 f. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2021. Disponível em: Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/214351 . Acesso em: 2 nov. 2021.
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, pp. 134-159) e proferia palestras, como a “Conferência preparatória da Páscoa universitária”, publicada na Folha da Manhã, em 26 de maio de 1948CONFERÊNCIA PREPARATÓRIA DA PÁSCOA UNIVERSITÁRIA. Folha da Manhã, São Paulo, 27 mai. 1948. , e ocorrida na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, onde ele foi apresentado “[...] ao numeroso auditório pelo bacharelando Paulo de Tarso Santos [...]. Na gravura, vê-se Frei Benevenuto de Santa Cruz OP, quando pronunciava a sua palestra ladeado pelos srs. Paulo Geraldo Bourroul e pe. Lionel Corbeil, presidente e assistente da [Juventude Universitária Católica]”. Essa notícia é um indício de que o frade se envolveu com a JUC paulistana, seja nas reuniões do grupo EH, seja em palestras voltadas a universitários mundanos ou cristãos (SOUZA, 1984SOUZA, Luiz Alberto Gómez de. A JUC: os estudantes católicos e a política. Petrópolis: Vozes, 1984.).

Economia e Humanismo na França e no Brasil entre 1948 e 1949

Foi nessa toada que Frei Benevenuto conduziu suas atividades religiosas e terrenas antes de partir para o estágio. Ainda que não se tenha evidências, é bem provável que ele tenha orientado o trabalho de Jean Le Duigou entre fevereiro e setembro de 1948, quando partiu para La Tourette com a finalidade de conhecer os projetos do movimento em países europeus e se tornar um quadro tecnicamente apto a manejar as ferramentas teóricas e metodológicas que eram utilizadas pelos membros da sede de EH. Por intermédio das fontes disponíveis no acervo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz (Frei Benevenuto) e no fundo Lebret é possível reconstituir as atividades do frade no exterior e o intercâmbio das ideias do movimento entre Brasil e França durante os meses de estágio.

Em Paris, Frei Benevenuto reencontrou Padre Lebret, conheceu padres de diferentes ordenações religiosas e a livraria Économie et Humanisme. Depois ele partiu para outras cidades francesas, participou de ações que envolviam comunidades populares, trabalhadores marítimos e juventudes universitárias e operárias católicas. No seu diário de viagem (QUINTA, 2021QUINTA, Hugo de Carvalho. A trajetória de Santa Cruz e da Livraria Duas Cidades: o livreiro-editor de religiosos, universitários e intelectuais na cidade de São Paulo (1954-2006). 2021. 693 f. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2021. Disponível em: Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/214351 . Acesso em: 2 nov. 2021.
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), o dominicano brasileiro citou os nomes dos sacerdotes vinculados ao operariado católico francês com os quais conversou sobre questões trabalhistas, educacionais e políticas. Também mencionou que, em janeiro de 1949, teve a oportunidade de almoçar na casa de um importante intelectual católico, o filósofo Emmanuel Mounier (1905-1950). Nesse mês, ele participou de reuniões que debateram temas ligados ao Vaticano, ao sindicalismo na França e à participação da juventude na Igreja. Nos meses seguintes, o religioso visitou outras cidades, congregações religiosas e experiências de ações do movimento EH em Luxemburgo, na Bélgica, na Suíça e em diversas cidades francesas.

Nas últimas páginas de seu diário, Frei Benevenuto teceu considerações sobre as dificuldades que o esperavam no Brasil. Talvez ele se referia às cartas que Jean Le Duigou lhe enviava de São Paulo. Nessas, o técnico francês discorria sobre os trabalhos realizados ou em curso, relatava os numerosos percalços que estavam a ser enfrentados pelo grupo de EH e pela SAGMACS, a exemplo dos atritos que ocorriam entre a hierarquia eclesiástica e a equipe brasileira de EH. Nas correspondências, ele alertava Frei Benevenuto para a necessidade de aproximar as juventudes católicas dos princípios teóricos do movimento e a urgência de multiplicar a documentação de EH publicada em língua portuguesa. Além disso, essas correspondências demonstram a disparidade entre as equipes francesa e brasileira. Jean Le Duigou não teve habilidade para resolver os problemas no Brasil e solicitou o retorno para seu país natal antes do período previsto.

No relatório técnico (Fundo Lebret 45ASArchives Nationales - Pierrefitte-sur-Seine, Paris, França - Fundo R. P. Lebret (45 AS)., cota 19860461/96) escrito por Jean Le Duigou em 1949 e apresentado na Assembleia Geral da SAGMACS, constata-se as suas dificuldades para lidar com as particularidades brasileiras. Na primeira página do relatório, o técnico mencionou que redigia o relato a bordo do barco que o levava para a França, e por esse motivo pedia que um membro da Sociedade lesse o documento na próxima reunião da organização. Em linhas gerais, ele abordou seu trabalho à frente da entidade e enumerou os obstáculos a serem ultrapassados.

Ao chegar em São Paulo, o representante francês de EH procurou cumprir as tarefas definidas no estatuto da Sociedade e trabalhar com vistas a realizar pesquisas sociais que pudessem ser contratadas por órgãos públicos ou privados. Já nos primeiros meses, Le Duigou notou que as escassas receitas impediam a utilização dos meios mecanográficos modernos e reduziam as atividades e a estrutura da equipe. Ele discorreu sobre as pesquisas e os trabalhos que se envolveu com mais afinco durante sua estada na capital paulista, enumerando-os na seguinte ordem: o problema social dos menores abandonados; as condições de vida da classe trabalhadora em São Paulo; o problema social das empregadas domésticas; o Congresso Interamericano de Ação Social; o pensamento social dos estudantes; e a situação dos funcionários do Jockey Club. Essas investigações levantaram uma série de diagnósticos sociais das localidades pesquisadas da cidade e foram uma excelente oportunidade para treinar as pessoas envolvidas nesses trabalhos. Elas também expuseram a urgência de realizar cursos de formação dos membros técnicos da SAGMACS, envolvendo-os no grupo de EH. A pedido da diretoria da Sociedade, o último trabalho do técnico foi a elaboração de um manifesto brasileiro de EH, cujo foco seria difundir os princípios de EH para atrair mais simpatizantes para as fileiras do movimento.

Os temas discutidos e apresentados no relatório aproximam-se das três correspondências que Le Duigou enviou a Frei Benevenuto, todas abrigadas no acervo pessoal de José Petronilo e redigidas no primeiro semestre de 1949. Por meio delas compreende-se o que foi feito pelo grupo brasileiro de EH em 1948 e 1949, e quais foram os atores envolvidos, as ações realizadas e os obstáculos enfrentados. Na primeira carta de Duigou para Benevenuto, enviada em 21 de fevereiro de 1949, o técnico reverbera sua preocupação com os problemas que vinham ocorrendo com a SAGMACS e o grupo brasileiro de EH. E destacou quatro pontos: o primeiro tratou da pesquisa em torno dos trabalhadores do Jockey Club; o segundo discorreu sobre os envolvidos na pesquisa “Pensamento Social dos Universitários”; o terceiro abordou a ausência de reuniões na SAGMACS e a tentativa de realizarem trabalhos na periferia de São Paulo; e o último ponto tratou da intenção de frei João Baptista Pereira dos Santos em construir, no bairro Vila Conceição, uma fábrica operária nos moldes do que era feito pela EH francesa (o que aconteceu em 1954, como será tratado mais adiante). O técnico concluiu a carta dizendo que organizou uma reunião de estudos com integrantes das juventudes católicas.

Em 15 de maio de 1949, Le Duigou enviou a segunda carta a Frei Benevenuto. Abriu-a dizendo que o Jockey Club deixou de apoiar a pesquisa por desconfiança da instituição com os resultados apresentados no estudo. Depois informou ao destinatário que os valores adquiridos com as assinaturas da revista Économie et Humanisme eram insuficientes para aperfeiçoarem as instalações da SAGMACS. Um pouco mais adiante, mencionou a investigação sobre os menores abandonados, a qual estava prestes a ser publicada, declarando que 25 exemplares desse estudo foram entregues a jornais e personalidades do poder público e privado. Sobre a pesquisa acerca do pensamento social dos universitários, ele ponderou que esse estudo demonstrou a relevância de envolver os estudantes do ensino superior tanto na Sociedade quanto no grupo Economia e Humanismo.

Le Duigou também citou a criação de um grupo político de estudo, ideia lançada por Franco Montoro e acompanhada por outros membros de EH. Mas nem todos da diretoria aprovaram a ideia. O técnico dissuadiu o grupo ao relatar os perigos que poderiam representar para o movimento no Brasil se houvesse qualquer tipo de ligação direta com a política partidária. Após reuniões com os dirigentes da JUC, da Juventude Estudantil Católica (JEC) e da Juventude Operária Católica (JOC), Duigou estabeleceu um cronograma de conferências para debater as objeções da JOC em relação ao marxismo. Se a inciativa fosse bem-sucedida, poderiam atrair mais jovens católicos para o grupo paulista de EH. Nessa altura da carta, ele sugeriu que Frei Benevenuto estruturasse uma poderosa equipe paulista, e talvez uma ou duas equipes em outras cidades brasileiras. Mais adiante, discorreu sobre o curso organizado por Franco Montoro e lecionado por ele na Faculdade de Direito da Universidade Católica de São Paulo, ocasião em que se sentiu frustrado por não ter conseguido cumprir o plano do curso em razão das deficiências dos alunos e da universidade brasileira.

Antes de seu retorno à França, Le Duigou acreditava que era preciso formular um manifesto brasileiro de EH que estivesse compatível com as especificidades do país, evitando que o movimento se transformasse em uma plataforma de grupo político partidário. Com essa constatação, e depois de mencionar as tarefas que pretendia cumprir até regressar ao velho continente, ele terminou a carta pedindo para Frei Benevenuto dizer a Padre Lebret que lamentava estar desiludido com o andamento dos trabalhos em São Paulo.

Na terceira carta, de 21 de junho de 1949, Le Duigou deu-lhe notícias ainda mais aterradoras sobre os trabalhos da SAGMACS e do grupo EH. Iniciou expondo que a Liga das Senhoras Católicas se opôs ao relatório sobre os menores abandonados pelo fato dessa entidade ter sido citada no estudo. O impasse resultou na contundente crítica do cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, que deu razão à Liga, dizendo que a publicação desse estudo serviria aos comunistas. O técnico relatou que ele e outros membros de EH tiveram uma audiência de duras horas com o cardeal, ocasião em que ele notou a ignorância e a intransigência do superior eclesiástico. Na sua percepção, as dificuldades eram superiores à reação da Liga, principalmente pelo fato de o cardeal desconhecer o que é a economia humana e manifestar o interesse em controlar o crescimento do movimento em São Paulo. Em seguida, defendeu o retorno imediato de Frei Benevenuto e fez três sugestões ao religioso: transformar a SAGMACS num departamento de pesquisa dedicado a atender órgãos públicos; as equipes brasileiras de EH deveriam manter sua laicidade e independência em relação à hierarquia eclesiástica; e a equipe paulista deveria ampliar a documentação de divulgação do movimento em língua portuguesa.

As particularidades expressas nas cartas e no relatório de Le Duigou são evidências das peias a serem transpostas pelo grupo brasileiro de EH. Para uma análise ainda mais acurada desse momento, outra fonte textual apresenta a situação da equipe brasileira e traça um paralelo com a equipe francesa. Foi na Assembleia Geral (fundo Lebret 45ASArchives Nationales - Pierrefitte-sur-Seine, Paris, França - Fundo R. P. Lebret (45 AS)., cota 19860461/36, Archives Nationales), ocorrida na sede de EH, em La Tourette, no dia 3 de julho de 1949, que Padre Lebret, Henri Desroches, Frei Benevenuto e outros participantes discutiram os rumos de movimento. A reunião tratou de diversos temas. Desde a inserção de EH no meio universitário francês, passando pela transferência da gestão das edições de EH para as Éditions Ouvrières12 12 Ainda que resumidamente, na tese “[...] tracei um paralelo entre as editoras católicas da França e do Brasil (em particular da Livraria Duas Cidades) durante os anos 1950 e 1960” (QUINTA, 2021, p. 244-316). , pela censura da arquidiocese parisiense com Signification du Marxisme (1948) - escrito por Desroches - pelo estreitamento das relações de EH com outros movimentos sociais, além de discutirem sobre o aprofundamento da doutrina marxista, o aprimoramento dos métodos de pesquisa social, as revistas editadas por EH e a influência de Lebret em nível internacional.

Dentre os temas debatidos na assembleia, aqui é relevante trazer à baila as discussões que tratam da inserção de EH no ambiente universitário e e dos trabalhos realizados pela equipe brasileira. Entre os pontos levantados pelo Padre Lebret, diretor executivo de EH, destaca-se sua preocupação com as notícias recebidas do Brasil, mais precisamente sobre a enquete dos menores abandonados, conduzida por Le Duigou e submetida ao cardeal, que solicitou a retirada das páginas mais relevantes da pesquisa. Ainda sobre esse tema, o diretor reforçou que a equipe cometeu o grave erro de publicar os nomes das instituições investigadas. Lebret enfatizou que a tarefa do grupo brasileiro era ampliar a penetração no meio universitário, espaço que representava a maioria dos membros do grupo e seriam fundamentais para trabalharem nas pesquisas a serem realizadas pela SAGMACS. Apesar dos desafios, o padre estava seguro de que o movimento ainda cumpria seu papel de vanguarda em território nacional.

O trecho da ata da assembleia correspondente à equipe brasileira relatou que não existia um grupo de EH no país, mas um centro semelhante à SAGMA francesa, a SAGMACS, entidade que acolhia os entusiastas e admiradores da economia humana. No documento consta as atividades que estavam a ser desenvolvidas pela Sociedade brasileira, comentaram a respeito de sua constituição comercial - o que dificultava a contração de seus serviços - e mencionaram que muitos se aproximavam da SAGMACS e do grupo de EH por diletantismo. Pontuou-se que a Ação Católica havia começado a pouquíssimo tempo no Brasil, mas com uma perspectiva mais conservadora e clerical do que a Ação Católica na França, que nessa época tinha independência para defender uma perspectiva progressista. Mencionaram que a responsabilidade de Frei Benevenuto seria transpor a resistência do clero e do episcopado brasileiro. No documento há outras informações sobre o avanço do movimento no país, como um pequeno grupo de EH localizado em Recife, o qual era formado por médicos, anarquistas, engenheiros, universitários e assistentes sociais, embora sua atuação fosse tímida para não se indisporem como o clero da capital pernambucana.

Partindo dessa documentação é possível aquilatar as angústias de Frei Benevenuto com a urgência de seu retorno a São Paulo. Quando se compara o documento da assembleia geral sucedida em La Tourette com as cartas e o relatório de Le Duigou, nota-se como os acontecimentos o desafiava a superar as responsabilidades que ele iria assumir liderando o movimento em seu país. Por meio desses documentos verifica-se algumas contradições entre a percepção de Le Duigou e de Padre Lebret. Enquanto o primeiro era favorável à secularização do grupo de EH e da SAGMACS, o segundo achava que Frei Benevenuto deveria conquistar a confiança da hierarquia eclesiástica. Concordavam, porém, com a relevância dos estudantes universitários para a consolidação do movimento no país e a dificuldade em diferenciar a SAGMACS do grupo de EH.

Frei Benevenuto, Padre Lebret e a SAGMACS entre 1949 e 1952

O diário de viagem, os documentos consultados no fundo Lebret e a correspondência com Le Duigou demonstram que Frei Benevenuto se aproximou da equipe central de EH enquanto esteve na França. O jovem frade cursou seu estágio de formação, agiu para auxiliar na resolução das dificuldades financeiras do grupo francês e contribuiu para distribuição dos livros de EH para o Brasil. Os caminhos percorridos pelo religioso na França e em outros países europeus demonstram que os meses no exterior foram relevantes para sua formação pessoal e clerical, proporcionando-lhe maturidade para dirigir a SAGMACS e o grupo brasileiro de EH durante as décadas de 1950 e 1960. Assim que se tornou próximo do Padre Lebret, ele pôde conhecer países, autoridades católicas e políticas, assim como intelectuais, universitários, religiosos e leigos cristãos ligados ao universo da cultura e dos projetos excetuados pela SGMA na França.

As pressões sofridas pelo Padre Lebret durante sua estada no Brasil tinham relação com seu pensamento progressista, motivo pelo qual ele esteve proibido de retornar ao país até 1952. Durante a ausência do líder de EH, Frei Benevenuto planejou as bases do movimento em São Paulo e procurou organizar uma equipe em torno da SAGMACS. O processo de formação de quadros preparado pelo Padre Lebret e pelos membros de EH abarcava desde a preparação da pessoa que seria assistente técnica das pesquisas desenvolvidas até a capacitação daqueles que trabalhariam nos projetos voltados para os órgãos governamentais, os quais deveriam ser executados, incorporados ou modificados de acordo com os interesses públicos (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p.). Com o passar dos anos, o diretor-executivo de EH se deu conta da carência de profissionais preparados para atuarem nos organismos públicos, prejudicando o desenvolvimento das nações terceiro-mundistas. Foi por essa razão que Padre Lebret fundou o IRFED (Institut de Recherche et de Formation en vue du Développement), em 1958, como a finalidade de formar profissionais que iriam trabalhar na assistência técnica desses órgãos. Antes de criar o Instituto, Padre Lebret capacitava pesquisadores e diretores de pesquisa, função que foi exercida por Frei Benevenuto após o estágio na França.

Já no Brasil, as décadas de 1950 e 1960 representaram uma ascensão progressista da Ação Católica e de suas respectivas juventudes organizadas, quando passaram a pensar sobre os problemas sociais do país. Alguns leigos católicos dessas organizações lutaram para participar da vida política nacional, como podemos notar nas diretrizes aprovadas durante a Sétima Semana Nacional da Ação Católica de 1961. “[...] A disputa por maior liberdade de ação na esfera política era sobretudo uma exigência da JUC. Alguns católicos já haviam fundado um partido democrata cristão para participarem mais ativamente da vida pública do país” (AZZI; GRIJP, 2008AZZI, Riolando; GRIJP, Klaus Van der. História da Igreja no Brasil: ensaio de interpretação a partir do povo: tomo II/3-2: terceira época: 1930-1964. Petrópolis: Vozes, 2008., p. 256). Assim, a Ação Católica era organizada pelo laicato católico e pela ala progressista da hierarquia eclesiástica, que estimulava o crescimento dessa entidade desde que estivesse sob a supervisão do clero nacional e se orientasse pelas diretivas da Cúria Romana. Esses setores promoviam uma Igreja Católica aberta e renovadora nessa quadra histórica, a exemplo dos debates que ocorreram antes, durante e depois do Concílio Vaticano II (1962-1965) liderado pelo papa João XXIII.13 13 Entre 1958 e 1963 transcorreu o papado do franciscano João XXIII, que foi responsável por publicar oito encíclicas com temas a abonar uma doutrina católica gregária e expansiva, como foi o caso de Mater et Magistra (Mãe e Mestra), em 1961, e Pacem in Terris (Paz na Terra), em 1963. O papa pretendia revigorar o catolicismo, motivo pelo qual advogou em prol do ecumenismo e da liberdade religiosa durante o Concílio Vaticano II. Padre Lebret e outras figuras da vanguarda do pensamento católico progressista formularam as encíclicas renovadoras encabeçadas pelo papa João XXIII. Os meios eclesiásticos ainda hoje dizem que esse concílio foi um ponto de inflexão para o catolicismo, o que realça a importância do evento para a história da Igreja Católica, em particular durante a segunda metade do século XX.

No início dos anos 1950 houve um otimismo modernizador impulsionado pelo crescimento do Brasil. A cidade e o Estado de São Paulo acompanharam esse momento, motivo pelo qual houve o interesse das autoridades públicas e privadas no investimento do planejamento urbano e regional. Foi nesse período “[...] que houve um salto quantitativo na inserção de urbanistas no campo da assistência técnica, os quais passaram a atuar junto às várias prefeituras de todas as regiões do país e nas instituições criadas” (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p., p. 145)14 14 Angelo (2013) menciona as seguintes organizações: Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM); Centro de Estudos e Pesquisas Urbanísticas (CPEU), fundado e liderado por Anahia Mello na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP; Centro de Pesquisas em Planejamento Urbano e Regional (CPEUR), erigido por Antônio Bezerra Baltar, em 1962, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Recife. . O retorno do país à democracia a partir de 1945 fomentou a fundação de organizações autônomas de planejamento urbano. Fatores como crescimento econômico, processo de expansão das cidades, nacionalismo, reforma agrária e êxodo rural favoreceram à criação dessas instituições. Nesse contexto, a novidade da SAGMACS estava na utilização de instrumentos teórico-metodológicos que desenvolviam estudos e pesquisas que formavam assistentes técnicos, militantes e defensores de progresso social humanista.

“Sondagem preliminar a um estudo sobre a habitação em São Paulo” foi a primeira pesquisa dirigida por Lebret no Brasil, entre abril e julho de 1947. O estudo foi publicado, em 1951, na Revista do Arquivo n. 139, periódico que fazia parte do departamento de cultura do Estado de São Paulo. Esse trabalho não contou com a participação de Frei Benevenuto, mas é admissível supor que ele tenha intermediado a publicação da pesquisa nessa revista, cuja versão publicada foi traduzida do francês para o português. E a suposição tem a ver com o fato de ele estar cada vez mais articulado aos órgãos públicos do Estado de São Paulo no decorrer dos anos 1950.

Foi nesse cenário que as ações de Frei Benevenuto e do grupo brasileiro de EH giraram em torno de suas vivências acumuladas durante o estágio e de sua inserção no campo sociocultural brasileiro. Mas essas iniciativas também foram exitosas graças à orientação do Padre Lebret durante o período em que ele ficou impedido de vir ao Brasil até 1952, momento em que eles aprofundaram suas relações pessoais e profissionais através das correspondências trocadas nesses anos. A primeira carta de Lebret para Benevenuto foi enviada em 16 de fevereiro de 1950. Para além de demonstrar preocupação com a saúde do frade, o diretor-executivo de EH comentou sobre a recepção que fizeram a Le Duigou, que parecia atordoado com o trabalho realizado no Brasil. Entre outros assuntos tratados na missiva, o remetente disse que gostaria de voltar à pátria do destinatário o mais breve possível, porém o Mestre-Geral da Ordem Dominicana somente permitiria o retorno sob a condição de ele não proferir palestras, conferências ou cursos, o que em sua visão seria uma boa oportunidade para focar em angariar trabalhos para a SAGMACS.

O estreitamento desse vínculo consta na carta manuscrita que o religioso brasileiro enviou ao padre francês, em 8 de janeiro de 1952. De saída, o remetente expressou que o destinatário talvez não tenha recebido sua última carta, na qual o informava que conversara com o governador Garcez sobre o regresso do padre ao Brasil, como também dialogou com o superior da Ordem, que se mostrou favorável à viagem. Entre idas e vindas sobre o tema da autorização, Frei Benevenuto afirmou que o governador precisava de Lebret para coordenar o estudo que pretendia encomendar da SAGMACS, acrescentando que o dinheiro disponibilizado para o projeto seria maior do que era arrecadado pela equipe da França. No dia 20 de fevereiro de 1952, Lebret teceu uma breve resposta a Frei Benevenuto. Iniciou a carta com uma advertência áspera, ao escrever que desconhecia a maneira como o frade estava trabalhando no tema da viagem, mas que ainda não tinha obtido a autorização para voltar ao Brasil. Comentou, em seguida, que precisaria obter a aprovação dos cardeais do Rio e de São Paulo para que o padre Suarez (Mestre-Geral dos dominicanos) autorizasse o périplo. Posteriormente, Lebret expôs que os superiores provavelmente autorizariam a viagem por se tratar de uma jornada de estudos, e encerrou afirmando que tinha enviado cartas aos priores da Ordem, a Garcez e a Josué de Castro, esperando que essas iniciativas lhe permitissem, por fim, regressar ao Brasil.

“Meu querido padre, meu, meu querido padre, não é que eu tenha trabalhado mal, é que as coisas são talvez mais difíceis aqui do que em outros lugares. Às vezes me pergunto se todas as minhas cartas chegam a você, porque o vejo muito ansioso com a viagem ao Brasil”15 15 No original: “Mon très cher Père, mon, mon très cher Père, ce n’est pas que j’aie mal travaillé, c’est que les choses vont peut-être plus difficiles par ici qu’ailleurs. Je me demande parfois si mes lettres vous arrivent toutes, car je vois très angoissé au sujet du voyage au Brésil”. (Fundo Lebret 45 AS, cota 19860461/117, Archives Nationales, tradução nossa). ; assim Frei Benevenuto começou a carta manuscrita e endereçada ao Padre Lebret, em 6 de março de 1952. O religioso afirmou estar descontente com o fato de o padre ter colocado a culpa desses atrasos por suas possíveis negligências ou incursões no campo da arte, embora ele tenha se preocupado em deixar o destinatário a par de todas as decisões que vinha tomando. Disse que pressionou Garcez para conversar pessoalmente com o cardeal de São Paulo, que aprovou a rota e o trabalho de Lebret. O remetente também mencionou outros assuntos de ordem burocrática, comentando que Garcez gostaria de enviá-lo para o México, em abril, como representante de São Paulo no Congresso Social da União Pan-Americana, afirmando que não poderia recusar o convite16 16 Não conseguimos nenhum vestígio sobre a participação do religioso nesse evento. e perguntando se o destinatário tinha contatos com colegas de EH nesse país. Ao final discorreu sobre o governador do Paraná, que entrou em contato com o frade para solicitar a presença de Lebret em Curitiba.

A secretária de Lebret enviou uma carta a Frei Benevenuto, em 22 de abril de 1952, por meio da qual declarava que o padre tinha conseguido a autorização para a viagem. Posteriormente, disse que Lebret elaborou um cronograma de trabalho para ser informado a Frei Benevenuto: durante todo o mês de junho estariam em São Paulo, sendo que no dia 2 teriam uma reunião com o governador Garcez, nos dias 3 e 4 iriam examinar o dossiê previamente escrito pela equipe, entre os dias 5 e 13 fariam uma viagem de exploração aos territórios interioranos da região, do dia 14 ao 20 elaborariam as ferramentas de pesquisa e entre os dias 21 e 30 realizariam o treinamento de pesquisadores. Depois Padre Lebret previa ir ao Rio de Janeiro para trabalhar com Josué de Castro e a Comissão de Assistência Social, e logo realizaria um tratamento de saúde nas águas termais de Poços de Caldas, do dia 15 de julho a 6 de agosto, retornando a São Paulo no dia 16 e dedicando-se a analisar os resultados das pesquisas até 30 de agosto.

Os contatos (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p.) de Lebret com frei Romeu Dale, Alceu Amoroso Lima, Dom Helder Câmara, Josué de Castro e Lucas Nogueira Garcez, somado à intermediação de Frei Benevenuto, permitiram-lhe regressar ao Brasil, em 31 de maio de 1952, com o objetivo de promover um estudo em torno das condições de vida do operariado e dos trabalhadores rurais do estado de São Paulo. Enquanto Amoroso Lima e Garcez apresentavam Lebret aos militantes católicos e às elites dirigentes e industriais de São Paulo e do Rio de Janeiro, Josué de Castro o colocava em contato com membros do governo federal então presidio por Getúlio Vargas e com funcionários da FAO (órgão da ONU para Alimentação e Agricultura), instituição que Josué presidia desde 1951. Já Dale o inseria nos coletivos da JUC, Dom Helder Câmara (GODOY, 2020GODOY, José Henrique Artigas de. Dom Helder Câmara e Louis-Joseph Lebret: Desenvolvimentismo e Práxis Progressista Católica nas Décadas de 1950 e 1960. DADOS, Rio de Janeiro, v. 63, n. 1, e20170188, 2020. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.1590/001152582020198 . Acesso em: 15 jul. 2020.
https://doi.org/10.1590/001152582020198...
, p. 17-41) promovia ações conjuntas com Lebret durante os anos 1950 e Frei Benevenuto trabalhava na retaguarda de todas as atividades que eram levadas a cabo pelo precursor do movimento Economia e Humanismo.

A pesquisa para a CIBPU, o I Congresso Internacional de Economia Humana, a Unilabor e o estudo para prefeitura de São Paulo

Foi a partir de 1952 que “a estruturação da SAGMACS como órgão de assessoria técnica se efetivou por meio da contratação de trabalhos de desenvolvimento regional pela CIBPU” (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p., p. 147), a Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai fundada em 1951. Durante a Conferência dos Governadores dos Estados que faziam parte da bacia do rio Paraná (São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina, Paraná e, posteriormente, Rio Grande do Sul), houve uma reunião entre autoridades desses Estados para discutirem os problemas das regiões ligadas à bacia. É importante ressaltar que São Paulo presidiu todas as administrações da CIBPU por possuir a maior receita tributária entre os estados membros da comissão e que o estudo preliminar que o órgão contratou da SAGMACS foi resultado do “[...] relatório realizado entre 01 de junho e 31 de agosto de 1952 por Benevenuto e Lebret, intitulado Conclusions provisoires du Voyage d’étude [...], ‘documento estritamente confidencial’ contendo 64 páginas” (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p., p. 163).

Os responsáveis por essas “Conclusões provisórias da Viagem de Estudo” colocaram em prática uma extensa pesquisa de campo que incluía entrevistas a habitantes da região e levantamento de dados territoriais e socioeconômicos durante as viagens realizadas às principais cidades de São Paulo e dos outros Estados anteriormente mencionados. Após esse estudo inicial, Garcez, em nome da CIBPU, assinou um convênio com a SAGMACS para ampliar a pesquisa realizada, a qual envolveu grande número de assistentes técnicos e exigiu de Lebret o cuidado de formar profissionais que fariam parte da equipe. Essa investigação resultou no livro Problemas de desenvolvimento, necessidades e possibilidades para o Estado de São Paulo (1952-1954)17 17 Há um exemplar desse estudo disponível no acervo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz. , publicado pela SAGMACS (1954), em dois volumes - o primeiro com textos e análises de planejamento urbano e de dados socioeconômicos e o segundo com quadros, cartas cartográficas e gráficos. Entre os autores principais constam os nomes de Antonio Bezerra Baltar, Frei Benevenuto de Santa Cruz, Darcy Passos, Eduardo Passos, Louis-Joseph Lebret e Raymond Delprat, além de outros colaboradores, pesquisadores e desenhistas. Em 1957, a SAGMACS elaborou e publicou o estudo Problemas de desenvolvimento, necessidades e possibilidades dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná (1955-1957).

As duas pesquisas trabalhavam as “[...] noções de valorização, organização e aproveitamento do território” (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p., p. 164). A partir delas, a SAGMACS recebeu o convite para trabalhos em Pernambuco sob a coordenação de Lebret, o que nos conduz à constatação de que os contratos da CIBPU franquearam outros projetos para a Sociedade e legitimaram o pensamento e a ação do padre francês. “A posição política de Garcez - antigo fundador e participante da SAGMCS e agora novo governador de São Paulo e presidente de uma Comissão Interestadual - trazia Lebret para cena do planejamento urbano no Brasil.” (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p., p. 166). Os cursos de formação da equipe técnica que foram lecionados pelo religioso apresentavam uma série de instrumentos metodológicos para a realização da pesquisa urbana, muitos dos quais poderiam ser encontrados no livro Manuel de l’enquêteur, escrito por Lebret e publicado, em 1952, pela Presses Universitaires de France (PUF)18 18 Dentre os livros publicados por Lebret na PUF, chamamos a atenção para L’enquête en vue de l’aménagement régional, de 1958. Este foi escrito por Lebret, Albertini, Caillot, Célestin e Delprat, contando com a contribuição de Eduardo Bastos (participante dos trabalhos encomendados pela CIBPU), André Chomel e Benevenuto de Santa Cruz. “Lebret afirma que para este volume teve a contribuição das experiências dos trabalhos realizados no Brasil (nos estados de São Paulo, de Pernambuco e, posteriormente, nos três estados do Sul do país), na Colômbia e na França”. (ANGELO, 2013, p. 173). . “Esse aspecto de formador de quadros acompanhava Lebret desde a sua atuação na França, anterior a sua primeira vinda ao Brasil, sendo que aqui ele se inseriu numa Escola com esse mesmo perfil - de formação de elites governamentais.” (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p., p. 175).

Foi em 1952 que o escritório da equipe saiu da rua sete de abril para o 13º andar do edifício localizado na Praça da Bandeira, nº 40, no centro de São Paulo. Duas salas do proprietário da Tecelagem Paraíba, Olívio Gomes (pai de Severo Gomes), foram emprestadas para o funcionamento da SAGMACS e do movimento EH. O trabalho de formação dos membros começou nesse ano e foi aprofundado nos anos seguintes. Não sabemos ao certo como avançou as atividades da SAGMACS em 1953, mas Lebret e Delprat estiveram no Brasil para auxiliar a equipe de São Paulo nos estudos encomendados pelo governador Garcez através da CIBPU (CHIQUITO, 2011CHIQUITO, Elisângela de Almeida. A comissão interestadual da Bacia Paraná-Uruguai: do planejamento de vale aos polos de desenvolvimento. 2011. 265 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo). Instituto de Arquitetura e Urbanismo de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2011. )19 19 Sobre a CIBPU, os trabalhos Lebret e Frei Benevenuto e a participação deste como representante do governo de São Paulo na comissão, consultar a tese de Elisângela de Almeida Chiquito (2011). . A presença deles no país orientava os quadros técnicos e era mais uma oportunidade para Lebret realizar uma articulação política e institucional. Esse suporte também desafogava Frei Benevenuto, como podemos notar na fotografia despojada e descontraída dos três personagens provavelmente realizando uma pesquisa em campo (ver Figura 1), o que de certo modo comprova uma empatia entre eles. Os esforços levados a cabo em 1952 e 1953 corroboraram o período virtuoso que a SAGMACS vivenciou até 1958 (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p., p. 176-189), período em que aumentou o número de técnicos na organização, houve numerosos projetos contratados em diversas localidades brasileiras (interior do estado de São Paulo, Belo Horizonte, Recife e em cidades do Sul do país). Nesse meio-tempo, criaram a equipe do Rio de Janeiro, os boletins “Equipes de Economia Humana” e o primeiro evento internacional do movimento.

Figura 1.
Da esquerda para direita: Padre Lebret, Raymond Delprat e Frei Benevenuto durante uma pesquisa de campo contratada pela CIBPU.

No dia 19 de fevereiro de 1954 (Fundo Lebret 45 ASArchives Nationales - Pierrefitte-sur-Seine, Paris, França - Fundo R. P. Lebret (45 AS)., cota 19860461/180, Archives Nationales), Frei Benevenuto de Santa Cruz enviou uma carta a Louis-Joseph Lebret pedindo desculpas pelo atraso no envio do programa previsto para o I Congresso Internacional de Economia Humana. O remetente informou que os recursos estavam garantidos para a realização do evento, permitindo que a comissão organizadora, presidida por Frei Benevenuto, estabelecesse o programa e a data do congresso entre os dias 18 e 25 de agosto de 1954 (ver Figura 2). O religioso discorreu sobre o cerimonial do evento e declarou que a comissão sugeriu ao Padre Lebret realizar uma palestra com o tema “Economia Humana, Política e Civilização”. Frei Benevenuto comunicou que a comissão organizadora iria fornecer o resumo ou o texto completo das palestras aos participantes, pedindo que Lebret enviasse sua comunicação à secretária do congresso.

Figura 2.
Folder do I Congresso Internacional de Economia Humana.

“O fator da necessidade na orientação da economia” foi o tema oficial do congresso. Todas as apresentações giraram em torno dos pressupostos de EH, enquanto a palestra do Padre Lebret tocou em vários assuntos que eram caros ao modelo hegemônico de desenvolvimento vigente naquela época, como o crescimento acelerado e desordenado da população e as condições necessárias para fomentar um progresso humano da sociedade. A sua fala abordou três eixos. O primeiro tratou da situação global, o segundo do esforço de humanizar a economia e o terceiro da economia humana (postulados, método, teoria do desenvolvimento harmonizado e prática), e concluiu falando sobre os dilemas da civilização mundial.

Um congresso internacional e integrado às comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo foi uma excelente ocasião para atrair personalidades de diversas nacionalidades, incluindo membros das equipes brasileira, francesa, chilena e uruguaia de EH. Eduardo Bastos e Frei Benevenuto faziam parte do grupo brasileiro; Jean Marius Gatheron, George Célestin, G. C. Sebregondi, Alexandre Dubois e Padre Lebret representavam a equipe francesa; Aníbal Pinto pertencia ao grupo chileno; Carlos Tosar e Juan Pablo Terra faziam parte do grupo uruguaio. Não foi por acaso que o congresso ocorreu durante as comemorações do quarto centenário da cidade. A festividade representou um marco para a capital paulista, que durante os anos 1950 vivenciou uma fase de crescimento da cultura e da economia. Nessa época houve uma série de sentimentos e ressentimentos que trafegavam entre o passado, o presente e o futuro, os quais mitificavam uma parte da história de São Paulo e ao mesmo tempo apontavam para as mudanças deflagradas no tecido social, urbano e cultural da cidade (ARRUDA, 2015ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Metrópole e cultura: São Paulo no Meio Século XX. 2. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2015. ). Em certa medida, as falas de Lebret e dos expositores do evento dialogavam com essas mudanças, sobretudo no quesito de planejamento do desenvolvimento urbano.

As comunicações eram apenas uma parte da programação do congresso. A outra parte era composta por uma recepção na casa do cônsul geral da França no dia 19 de agosto; no dia 21 estava prevista uma visita ao Instituto Agronômico de Campinas e à fazenda Holambra; no dia 22 conheceriam uma fazenda no Vale da Paraíba; e no dia 23 o Parque do Ibirapuera, inaugurado no bojo das comemorações do IV Centenário da cidade. Ao fim e ao cabo, os organizadores produziram um documento com as conclusões do congresso, elencando três marcos e três caminhos para o futuro de EH. O primeiro marco era formar numerosos quadros técnico-militantes, o segundo era produzir um boletim ou uma revista internacional do movimento e o terceiro era promover a continuidade do intercâmbio entre a América Latina e a Europa. Os três caminhos definidos foram, em primeiro lugar, desenvolver a doutrina de EH para países pouco desenvolvidos; em segundo lugar, conhecer, acompanhar e mudar a realidade latino-americana por meio das ferramentas de EH; e, em terceiro lugar, validar a participação política nos sindicatos ou nos partidos como compatíveis com os princípios do movimento. Encerraram o documento informando que promoveriam a formação de quadros políticos e técnicos capazes de interpretar e enfrentar as peculiaridades de seus países.

O vento parecia ser favorável à SAGMACS e à equipe brasileira de EH após o encerramento do congresso. Porém, as divergências de Frei Benevenuto com o arcebispo de São Paulo acentuaram-se nos meses finais de 1954. Por determinação de Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, o religioso foi obrigado a residir no convento do Rio de Janeiro. O episódio chegou à França e esteve entre os temas discutidos na assembleia geral de EH, ocorrida em 12 de dezembro de 1954 (Fundo Lebret 45 ASArchives Nationales - Pierrefitte-sur-Seine, Paris, França - Fundo R. P. Lebret (45 AS)., cota 19860461/38, Archives Nationales), que também abordou a ação do movimento em outros países, o congresso internacional e a equipe brasileira. Embora tenha se queixado da falta de coesão dos participantes, Lebret ressaltou o sucesso do evento, enfatizando o êxito da cobertura oficial realizada pela Universidade de São Paulo, instituição que reuniu o maior número de participantes do congresso. O padre avaliou que a equipe brasileira estava com dificuldades em razão da transferência de Frei Benevenuto para a capital fluminense e da impossibilidade de Antonio Bezerra Baltar assumir a equipe de São Paulo, motivo pelo qual Lebret esperava que Recife fosse um centro de ação de EH no Brasil até a regularização da situação de Frei Benevenuto.

O leigo Alexandre Dubois (Fundo Lebret, 45 ASArchives Nationales - Pierrefitte-sur-Seine, Paris, França - Fundo R. P. Lebret (45 AS)., cota 19860461/173, Archives Nationales), então presidente da Associação Internacional de EH, enviou, 12 dias após a assembleia, uma longa carta ao Padre Lebret, expressando suas preocupações com o que viu no congresso e com a condição de Frei Benevenuto à frente da equipe brasileira. Sobre esses assuntos, ele disse que, apesar de estar ciente da pouca abertura do cardeal de São Paulo à economia humana, a mudança do religioso para o Rio de Janeiro sinalizava que as responsabilidades do movimento perante a Igreja aumentariam nos próximos anos. A decisão do cardeal reforçou os receios que Dubois sentiu durante sua estada na capital paulista. Ele expressou esse sentimento em São Paulo e não foi ouvido, da mesma forma que enviou uma carta a Frei Benevenuto manifestando suas inquietações e ainda não tinha recebido uma resposta do frade. Alarmado diante da situação, ele indagou ao destinatário se a influência de EH na Ordem Dominicana iria provocar o aumento do número de padres e religiosos progressistas. Se ele estava ciente da existência de outros movimentos católicos que provocavam as estruturas conservadoras da Igreja, ele também sabia que a responsabilidade do movimento seria cada vez maior. Dubois expôs que ficou perplexo com a ausência de chefes de empresas e executivos no congresso e com a atitude dos operários, que sempre chegavam atrasados às palestras.

Apesar desses impasses, foi nesse ambiente que os militantes formados nos pressupostos de EH colaboravam com os trabalhos de frei João Baptista Pereira dos Santos. Esse foi o grande responsável por fundar, na rua Vergueiro, em São Paulo, a capela Cristo-Operário e a Unilabor, organização formada por operários e gerida por frei João Baptista. Essa comunidade de trabalho promoveu um conjunto de ações religiosas, políticas, educativas e culturais que desaguaram na constituição de uma fábrica construtora de móveis modernos. Durante seus 13 anos de funcionamento, entre 1954 e 1967, os princípios que orientaram a Unilabor foram extraídos das experiências vivenciadas pelo movimento Economia e Humanismo na Europa, onde existiram diversas comunidades de trabalho orientadas pela autogestão (CLARO, 2012CLARO, Mauro. Dissolução da Unilabor: crise e falência de uma autogestão operária - São Paulo, 1963-1967. 2012. 197 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.).

O religioso também fundou a Unilabor inspirado em sua experiência de estágio na França (DOS SANTOS, 1962DOS SANTOS, João Baptista Pereira. Unilabor: uma revolução na estrutura da empresa. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1962. 160 p.). Mas frei João Baptista ultrapassou a produção de móveis e promoveu ciclos de debate e palestras com artistas, políticos e operários. Essa colaboração foi iniciada em 1950, quando Frei Benevenuto encorajou “[...] a cooperação dos muitos artistas plásticos que foram convidados a decorar a capela [Cristo Operário]: Alfredo Volpi, Bruno Giorgi, Yolanda Mohalyi, Moussia Pinto Alves, entre outros” (CLARO, 2012CLARO, Mauro. Dissolução da Unilabor: crise e falência de uma autogestão operária - São Paulo, 1963-1967. 2012. 197 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012., p. 22). Além disso, Frei Benevenuto convocou esses artistas modernos para decorarem a capela, assim como lançou, em 1962, Unilabor: uma revolução na estrutura da empresa, de frei João Baptista, publicado pela Livraria Duas Cidades.

O crescimento urbano alavancado pelas atividades econômicas desencadeava a horizontalização da cidade nos anos 1950, gerando problemas que não eram solucionados pelas administrações públicas da cidade. Wladimir de Toledo Piza, prefeito de São Paulo entre 1956 e 1957, tentou encarar o impasse ao solicitar um planejamento urbano para a capital. O prefeito contratou a SAGMACS, no primeiro ano de mandato, para desenvolver o projeto “Estrutura Urbana da Aglomeração Paulistana”, o qual foi entregue em 1958, na administração de Adhemar de Barros, que dificultou o estudo e quase o inviabilizou por completo (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p., p. 180-184). Embora essa pesquisa jamais tenha sido aplicada pela prefeitura de São Paulo, ela foi uma oportunidade de formar pesquisadores e trouxe uma novidade em relação aos trabalhos anteriores: colocou em prática uma interpretação sociológica dos levantamentos urbanísticos e um estudo interdisciplinar e humanista que considerava todo o território paulistano, da periferia ao centro da cidade.

O fim da SAGAMCS e a amizade entre Frei Benevenuto e o homem universal

A morada no convento do Rio de Janeiro foi um período conturbado na trajetória religiosa de Frei Benevenuto, na medida em que a solicitação de sua mudança decorreu das desavenças com os superiores da Igreja Católica de São Paulo. Não sabemos quais foram as razões do ponto de ruptura e por quantos anos ele residiu na capital carioca. Apesar disso, por meio dos documentos pesquisados é possível identificar que as incursões do religioso no campo da cultura, da sociedade e dos projetos de EH incomodavam a ala conservadora do clero. A carta que ele enviou ao padre provincial Sébastien Tauzin, em 28 de dezembro de 1954 (Arquivo frei Bartolomeu de Las CasasArquivo Frei Bartolomeu de Las Casas - Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.. Pasta Livraria Duas Cidades. Correspondências), trata do episódio da transferência conventual. Enviada do Rio de Janeiro, Frei Benevenuto iniciou agradecendo o apoio, a bondade e a compreensão do provincial em relação às desavenças com o cardeal de São Paulo. Prosseguiu declarando que deixou o trabalho organizado, inclusive o que dizia respeito aos serviços de EH, os quais foram ordenados “[...] de modo a poderem funcionar sob minha direção, mesmo com um mínimo de presença em São Paulo. Devo acrescentar que em tudo segui a orientação que me foi deixada em setembro pelo P. Lebret e [...] das últimas conversas que tive, a esse respeito, com o Sr.”. O religioso considerou outros aspectos ligados à fundação da Livraria Duas Cidades (QUINTA, 2021QUINTA, Hugo de Carvalho. A trajetória de Santa Cruz e da Livraria Duas Cidades: o livreiro-editor de religiosos, universitários e intelectuais na cidade de São Paulo (1954-2006). 2021. 693 f. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2021. Disponível em: Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/214351 . Acesso em: 2 nov. 2021.
https://repositorio.unesp.br/handle/1144...
, p. 200-316), mas aqui interessa realçar que ele contou com o apoio do padre provincial e manteve-se na direção de EH.

A título de suposição, e apesar de Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta ter sido arcebispo até 1964, admite-se a hipótese de Frei Benevenuto ter voltado a residir na capital paulista entre finais dos anos 1950 e início dos anos 1960, quando frei Mateus Rocha era provincial e frei Bernardo Catão tornou-se prior de São Paulo (MEMÓRIA DOMINICANA, 1952-1965bMEMÓRIA DOMINICANA. Implantação da Ordem dos Frades Pregadores no Brasil, 1952- 1965: pela Província Dominicana Brasileira São Tomás de Aquino. Juiz de Fora: Ordem dos Dominicanos, 1980-2013b, n. 21. Semestral., n. 21, p. 71-77), dois padres progressistas que publicaram obras pela Livraria Duas Cidades e possivelmente intermediaram o retorno de Frei Benevenuto para o convento de Perdizes. Um indício que reforça a hipótese é a informação de que ele participou, em 1963, sob a condição de sócio do prior de São Paulo (categoria que o vinculava ao claustro das Perdizes), da eleição de frei Alexandre Oscar Lustosa para provincial.

Nesse meio-tempo, a contratação do estudo pelo governador de São Paulo provocou demandas de novos projetos para Lebret nos continentes latino-americano, asiático e africano, mas foi a partir do Brasil que o nome do padre ganhou projeção internacional (LÖWY, 2000 apudANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p., p. 176). Sob sua coordenação20 20 Além dos trabalhos que já mencionamos, o padre francês foi responsável por coordenar as seguintes pesquisas elaboradas pela SAGMACS: “[...] Problemas de desenvolvimento, necessidades e possibilidades dos Estados do Rio Grande do sul, Santa Catarina e Paraná (1955-57); Estrutura Urbana da Aglomeração Paulistana: estruturas atuais e estruturas racionais (1957-58); Estrutura Urbana de Belo Horizonte (1958-59); Estudo para elaboração do Plano Diretor de Ourinhos (1954); Aspectos Humanos da Favela Carioca (1957-59); [...] Juntos, esses trabalhos mobilizaram cerca de 212 profissionais brasileiros”. (ANGELO, 2013, p. 177) geral, nesses anos surgiu o escritório da SAGMACS no Rio de Janeiro, comandado pelo sociólogo José Arthur Rios, ao passo que o escritório de São Paulo continuou sendo dirigido por Frei Benevenuto - cujo organograma era composto por uma série técnicos21 21 Francisco Whitaker Ferreira, Chiara Ambrosis, Clementina Ambrosis, Celso Monteiro Lamparelli, Antonio Cláudio Moreira, Eduardo Bastos, Darcy Passos, Mário Laranjeira Mendonça, Domingos Theodoro Sampaio, entre outros. Angelo (2013, p. 321-333) colheu o depoimento de diversos participantes da SAGMACS, e no apêndice 2 de seu livro consta os nomes e as funções das pessoas que participaram dos projetos executados por essa instituição. formados nos desígnios de EH - e no Recife havia a liderança de Antônio Bezerra Baltar (PONTUAL, 2011PONTUAL, Virgínia. O engenheiro Antônio Bezerra Baltar: práticas urbanísticas, CEPUR e SAGMACS. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 13, n. 1, p. 151-169, maio 2011.).

Em que pese as frustrações do religioso com as resistências do clero, ele continuou a dirigir a SAGMACS procurando formar pessoas que pudessem colaborar com os projetos que estavam a ser desenvolvidos. A formação desses profissionais eram coordenadas pelo Padre Lebret e assessoradas por Frei Benevenuto, que era o membro da Sociedade com maior experiência nas teorias e metodologias de EH, a pessoa que esteve dedicada em quase todos os estudos realizados pela entidade, e era o diretor do movimento no Brasil. É interessante notar que a formação dos quadros tinha a dupla função de formar técnicos para atuarem nas pesquisas e de preparar profissionais e lideranças políticas aptas a desempenharem funções em órgãos estatais. Dentre os brasileiros que participaram de um curso proferido por Lebret ou trabalharam com o padre francês, destacamos aqueles que exerceram carreira política, como Paulo de Tarso, Plínio de Arruda Sampaio, Hélio Bicudo, Lucas Nogueira Garcez e Franco Montoro (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p.). Eles eram jovens quando conheceram o líder de EH, foram influenciados pelas ideias lebretianas, ocuparam cargos no Estado por meio de cooperação técnica e tornaram-se deputados, governadores e ministros de Estado.

O início dessas trajetórias ocorreu entre 1959 e 1964, período que Lebret esteve no Brasil em três breves ocasiões (1960, 1961 e 1965). Nesses anos, parte da equipe da SAGMACS trabalhou no Plano de Ação do Governo do Estado (PAGE) de São Paulo, durante a gestão do governador Carvalho Pinto (1959-1962), que nomeou Plínio de Arruda Sampaio como coordenador do plano. Embora a equipe paulista tenha ficado desfalcada, ela adquiriu maior autonomia a partir de 1959, tendo em visa que Lebret se dedicou à consolidação IRFED e colaborou com a SAGMACS mais no sentido de garantir o fechamento de contratos do que na orientação dos trabalhos (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p.).

Mas o afastamento de Lebret do Brasil não o impediu de manter uma ligação profunda com o país que lhe abriu a oportunidade de desenvolver uma série de projetos nos países latino-americanos e projetar-se internacionalmente. O padre recebeu um galardão pelos serviços prestados em território nacional. Seu fiel escudeiro lhe enviou uma carta (Fundo Lebret 45ASArchives Nationales - Pierrefitte-sur-Seine, Paris, França - Fundo R. P. Lebret (45 AS)., cota19860461/117, Archives Nationales) em 6 janeiro de 1960, contando a boa-nova de que USP nomeou Padre Lebret como Doutor Honoris Causa. Frei Benevenuto prosseguiu discorrendo sobre outros assuntos, incluindo os projetos da SAGMACS e os impasses entre as equipes paulista e carioca de EH.

O anúncio de Frei Benevenuto sobre a concessão do título e as outras informações transcritas na carta reforçam a dimensão da amizade para além das ações da SAGMACS. O prêmio foi concedido a Lebret em 14 de dezembro de 1959, que recebeu a honraria no dia 29 de julho de 1960, provando o reconhecimento da universidade pelos trabalhos que ele vinha desenvolvendo na capital paulista e no Brasil desde 1947. “[...] A proposta para o título não partiu da área onde Lebret mais atuava, a sociologia urbana, mas sim da Escola Politécnica da USP, da qual Garcez compunha o quadro de professores” (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p., p. 195). Como foi mencionado a pouco, o estado de São Paulo foi o maior cliente da SAGMACS durante o mandato do governador Lucas Nogueira Garcez.

Nas cartas trocadas entre Frei Benevenuto e Padre Lebret é possível constatar o progressivo afastamento do padre francês dos trabalhos no Brasil e a gradual independência adquirida pela SAGMACS. Em 31 de agosto de 1962, Benevenuto enviou uma carta a Lebret contando um pouco das mudanças que estavam a ocorrer no escritório de São Paulo, do pleno crescimento das edições da Livraria Duas Cidades e da ponte que ele tentava estabelecer entre a Universidade de Brasília (UNB) e o IRFED, com o apoio de frei Mateus Rocha, o que poderia implicar na vinda do padre ao Brasil. O religioso também falou sobre a temerária situação política e econômica do país, discorrendo sobre o crescimento da radicalização de todas as correntes políticas.

Se as tentativas de realizar a palestra de Lebret na UNB fracassaram, o padre francês encaminhou uma carta para Frei Benevenuto em 23 de setembro de 1963 abordando outros assuntos. Nessa missiva ele discorreu sobre seus problemas de saúde, de sua recuperação na Bretanha, do árduo trabalho no Líbano e de sua esperança de ir a América Latina no outono de 1964. Falou, em seguida, que não sabia como Frei Benevenuto daria conta de desafios que se impunham, mas ele estava contente em notar o esforço do religioso em organizar e ministrar um curso de formação de técnicos. Prosseguiu pedindo para o destinatário lhe informar qual tipo de trabalho ele poderia realizar no Brasil caso o médico o autorizasse a viajar no próximo ano e finalizou expressando que estava satisfeito com o sucesso de vendas de seus livros no Brasil.

Mesmo sem o apoio do Padre Lebret, a SAMACS tinha muitos contratos em execução ou próximos a serem assinados em 1964, quando a Sociedade entrou em fase de extinção. “[...] Duas visões não excludentes sobressaem quanto ao fechamento da SAGMACS. A primeira é de que foi o golpe que inviabilizou a continuidade da instituição. A outra é que nenhum dos participantes da cooperativa que se formara tinha características empresariais [...].” (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p., p. 207). A despeito dessas perspectivas, o ano de 1964 para a Sociedade também pode ser avaliado por meio das cartas trocadas entre Lebret e Benevenuto. No dia 10 de julho, o religioso brasileiro contou que seria necessário páginas e páginas para relatar a situação de seu país, argumentando que o destinatário entenderia os motivos pelos quais ele estava impedido de escrever uma descrição detalhada. Ato contínuo, o frade mostrou-se preocupado com a situação de muitos amigos dele e dos membros da SAGMACS. De um lado, salientou que a cooperativa estava finalizando os contratos firmados no início do ano e tudo indicava que não teriam novos trabalhos; e de outro argumentou que muitos de seus amigos estavam desempregados ou encrencados com o desabrochar do novo regime. Em tom irônico, Frei Benevenuto disse que a família Gomes estava bem, comunicando que Severo estava ainda melhor por ter assumido a diretoria de Crédito Agrícola do Banco do Brasil, sendo um dos que foram fervorosamente contrários à reforma agrária. Por fim, Frei Benevenuto expôs que se a SAGMACS fechasse, ele ao menos poderia se dedicar à Livraria Duas Cidades e aos estudos cooperativos.

No dia 8 de setembro de 1964, Padre Lebret escreveu uma carta pedindo desculpas pela demora na resposta ocorrida por causa de sua estada na Venezuela. Ainda sobre o continente latino-americano, Lebret comentou sobre a vitória de Eduardo Frei22 22 Filiado ao Partido Democrata Cristão (PDC), governou o Chile entre 1964 e 1970. Foi grande defensor do movimento EH em seu país. na eleição presidencial do Chile e o quanto esse triunfo abriria novas perspectivas para o movimento. O padre prosseguiu discorrendo sobre sua viagem por diversos países africanos e europeus, assim como pediu a Frei Benevenuto que encontrasse trabalho para os ex-membros da SAGMACS. Lebret lamentou sobre o posicionamento de Severo Gomes diante da situação política do país e declarou que ainda não tinha previsão de ir ao Brasil. Após discorrer sobre o Concílio Vaticano II e outros assuntos, ele encerrou a carta tecendo as seguintes considerações a Frei Benevenuto:

[...] Se a SAGMACS acaba, como você diz, é claro que desenvolver as edições é importante, bem como o engajamento em seus estudos cooperativos, mas acho que é tempo de sintetizar, em um livro bem escrito, suas conclusões de 15 anos de trabalho, envolvendo tanto pesquisa quanto ação. [...] Eu tenho certeza que você tem tudo o que precisa para fazer uma excelente obra verdadeiramente necessária.23 23 No original: “[...] Si la SAGMACS entre en chômage, comme tu le dis, il est clair que développer les éditions est important, comme aussi d’engager davantage tes études coopératives, mais je crois qu’il serait temps que tu fasses la synthèse, en un livre bien écrit, de tes conclusions de 15 ans de travail, comportant à la fois recherche et action. […] Je suis sûr tu as tout ce qu’il faut pour faire un excellent ouvrage vraiment nécessaire” (Fundo Lebret 45AS, cota19860461/117, Archives Nationales, tradução nossa).

O frade dominicano respondeu à carta de Lebret somente em 15 de outubro daquele ano. Para além dos assuntos relacionados à SAGMACS de São Paulo, o remetente informou ao padre que Antonio Bezerra Baltar foi demitido compulsoriamente da Universidade do Recife e iria para Santiago do Chile trabalhar na Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (CEPAL). Continuou discorrendo sobre o quadro instável e inseguro que vivia o Brasil, com o custo de vida subindo abruptamente. E encerrou a epístola contando que Antonio Candido (o crítico literário era amigo de Lebret e Frei Benevenuto)24 24 Sobre a relação entre Antonio Candido e Frei Benevenuto, consultar: Quinta (2021, p. 387-417) estava prestes a viajar para Paris com a tarefa de lecionar um curso de Literatura Brasileira na Sorbonne, durante um ano e meio, e por esse motivo compartilhava o endereço da morada francesa de Candido para o padre contatá-lo.

Nas correspondências que eles trocaram no decorrer do ano de 1964 constata-se o quanto o Golpe Civil-Militar impactou nas atividades da SAGMACS e dos profissionais que trabalharam na cooperativa, ao mesmo tempo que provocou a demissão compulsória de Baltar e destroçou as possibilidades de a organização continuar realizando suas atividades. Para além desses fatores, nas linhas e entrelinhas dessas correspondências conseguimos notar o carinho e o cuidado que um tinha com o outro, um afeto construído ao longo de quase duas décadas de trabalhos em torno de EH, ocasião em que Frei Benevenuto se tornou o maior representante de Lebret no Brasil.

As teias que unem Padre Lebret, Economia e Humanismo e Frei Benevenuto repercutiram nas edições das obras do padre que foram publicadas pela Livraria Duas Cidades. Embora o religioso brasileiro não tenha escrito o livro sugerido pelo francês, ele mostrou-se solidário e amigo de Lebret enquanto o padre agonizava por problemas de saúde, como consta nas três cartas de Frei Benevenuto a frei Alexandre Oscar Lustosa - enviadas nos meses de junho e julho de 1965 (Arquivo Frei Bartolomeu de Las CasasArquivo Frei Bartolomeu de Las Casas - Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.. Pasta Frei Benevenuto de Santa Cruz), quando estava em Paris para promover trabalhos voltados para Duas Cidades. Nessas missivas, o remetente falou sobre a saúde e as cirurgias do padre, também enfatizou a relação de amizade que havia entre eles e os pedidos de Lebret para Benevenuto estender mais alguns dias na capital francesa.

Louis-Josepht Lebret faleceu em 20 de julho de 1966. Antes da morte, ele retribuiu a amizade por meio de uma declaração redigida em Paris, no dia 27 de abril de 1966 (Fundo Lebret 45ASArchives Nationales - Pierrefitte-sur-Seine, Paris, França - Fundo R. P. Lebret (45 AS)., cota cota19860461/117, Archives Nationales). Esse documento lista os trabalhos que Frei Benevenuto de Santa Cruz materializou durante os anos que trabalhou com o Padre Lebret, comprovando que o religioso foi seu assistente e principal colaborador nas seguintes atividades: 1) enquete sobre as necessidades e possibilidades do Estado de São Paulo (1952-1954), encomendada pela CIBPU e dizendo que Frei Benevenuto foi o principal redator do relatório final do documento; 2) o mesmo trabalho para os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (1955- 1957); 3) o estudo sobre Estrutura Urbana da Aglomeração Paulistana (1957-1958); 4) a viagem de estudo que fizeram para a África, Frei Benevenuto como assistente de Lebret, quando analisaram os desafios e as possibilidades da passagem de uma economia de subsistência para uma economia de mercado. E nos itens 5 e 6, Lebret afirmou que o religioso brasileiro era membro da Associação Internacional de Economia Humana e correspondente do IRFED no Brasil.

No suplemento especial “Grande São Paulo”, publicado pela Folha de S. Paulo entre os dias 17 e 23 setembro de 1967, há um caderno exclusivamente dedicado ao Padre Lebret. Frei Benevenuto e outros amigos e profissionais escreveram textos sobre o religioso e os trabalhos que ele desenvolveu mundo afora. “O homem e a obra”, escrito por Roger Géraud, da Agência France-Presse; “Porque contratei o Padre Lebret”, redigido pelo ex-prefeito de São Paulo, Wladimir de Toledo Piza; e “Planejamento urbano exige estruturação de poderes”, de Flávio Vilaça, arquiteto que trabalhou na SAGMACS. Frei Benevenuto de Santa Cruz prestou sua deferência ao “velho marinheiro” assinando o artigo “L. J. Lebret, um homem universal” (SANTA CRUZ, 1967SANTA CRUZ, Frei Benevenuto de. L. J. Lebret, um homem universal. Folha de S. Paulo, São Paulo, suplemento especial Grande São Paulo, p. 368-369, 17 a 23 set. 1967.), no qual descreveu o legado do padre para o mundo, exemplificou e problematizou os trabalhos que ele desenvolveu na França, no Brasil e em outros países onde o dominicano se esforçou para colocar em prática suas ideias de desenvolvimento econômico com o foco no progresso humano.

Considerações finais

O movimento Economia e Humanismo provavelmente não teria tido êxito no Brasil, sobretudo em São Paulo, se não fosse as atividades levadas a cabo por Padre Lebret e Frei Benevenuto. Durante os 19 anos que trabalharam juntos, eles irradiaram as ideias do movimento e se relacionaram com a elite política, cultural e industrial da capital paulista, relações que permitiram formar equipes técnicas aptas a trabalharem nas pesquisas de projetos de planejamento urbano, territorial e social. Essas inciativas demandaram estudos em outras cidades do país. A interlocução do padre com a elite paulista e com os órgãos públicos financiadores desses projetos que consideravam a dimensão humana do desenvolvimento econômico possibilitaram a circulação transnacional das ações, dos princípios e das técnicas do movimento da França para o Brasil.

Enquanto os trabalhos realizados em São Paulo foram uma oportunidade para Lebret ampliar a influência do movimento em outras partes do mundo, as vivências de Frei Benevenuto desde o estágio na França e sua posterior direção da SAGMACS, da Livraria Duas Cidades, assim como sua interlocução com religiosos, políticos, industriais e agentes culturais, foram experiências cruciais para ele firmar sua vocação pessoal, clerical e profissional em São Paulo, durante os anos 1950 e 1960. Nem mesmo a resistência do clero impediu o crescimento da Sociedade e dos projetos que ambos angariavam para a instituição.

O projeto contratado pelo então prefeito Wladimir de Toledo Piza é uma das contribuições da SAGMACS que não foi devidamente aproveitada pela administração pública da capital. O estudo foi liderado pelo Padre Lebret e ficou na gaveta da prefeitura sem ser analisado ou executado. A cidade crescia no âmbito cultural, econômico, industrial e comercial sem que os agentes públicos e privados promovessem um crescimento planejado e sustentável. Os projetos da SAGMACS procuravam oferecer meios de desenvolvimento urbano e regional de uma localidade que recebia um expressivo fluxo imigratório, de pessoas que saiam de seus lugares de origem com o propósito de terem um futuro melhor em São Paulo. Não por acaso, as autoridades públicas paulistanas demonstram deferência ao francês quando batizaram a Avenida Padre Lebret, localizada no bairro Morumbi.

A ventura entre Padre Lebret, Frei Benevenuto e o movimento Economia e Humanismo em São Paulo também está presente na homenagem que o grande discípulo brasileiro do “homem universal” publicou na Folha de S. Paulo. Nesse texto, Frei Benevenuto apresentou o legado deixado por Lebret em diversos países, mencionando os lugares onde o padre desenvolveu pesquisas e estabeleceu contatos com diversas pessoas, sempre com o foco de propor projetos contra as iniquidades sociais. “Um homem universal” é um título revelador das frentes de trabalho de Lebret pelo mundo, título que também sugere a íntima convivência entre o autor do texto e o homenageado. Conviveram entre 1947 e 1965, período em que Frei Benevenuto foi formado nos pressupostos de EH, esteve na França, na África e em outros países na companhia do Padre Lebret. Juntos, conceberam projetos de grande envergadura, os quais lhe possibilitaram conhecer personalidades políticas, intelectuais e culturais de São Paulo e de outras cidades brasileiras e francesas. O envolvimento de Frei Benevenuto com o padre e seu movimento foi a causa principal para o religioso se enveredar pelo mundo do livro e pautar seu trabalho de livreiro-editor sob a influência dos pressupostos civilizatórios de Economia e Humanismo. Mas isso é outra história.

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  • QUINTA, Hugo de Carvalho. A trajetória de Santa Cruz e da Livraria Duas Cidades: o livreiro-editor de religiosos, universitários e intelectuais na cidade de São Paulo (1954-2006). 2021. 693 f. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2021. Disponível em: Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/214351 Acesso em: 2 nov. 2021.
    » https://repositorio.unesp.br/handle/11449/214351
  • SANTA CRUZ, Frei Benevenuto de. L. J. Lebret, um homem universal. Folha de S. Paulo, São Paulo, suplemento especial Grande São Paulo, p. 368-369, 17 a 23 set. 1967.
  • SILVA, Wellington Teodoro da. Catolicismo militante na primeira metade do século XX brasileiro. História Revista, Goiânia, v. 13, n. 2, p. 541-563, jul./dez. 2008.
  • SOUZA, Luiz Alberto Gómez de. A JUC: os estudantes católicos e a política. Petrópolis: Vozes, 1984.

Arquivos consultados

  • Archives Nationales - Pierrefitte-sur-Seine, Paris, França - Fundo R. P. Lebret (45 AS).
  • Archives Nationales - Pierrefitte-sur-Seine, Paris, França - Fundo Raymond Delprat (87 AS).
  • Arquivo Frei Bartolomeu de Las Casas - Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.
  • Arquivo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz - São Paulo, Brasil.
  • Declaração de financiamento

    A pesquisa que resultou neste artigo contou com financiamento da FAPESP (Processo 2017/14191-3).

NOTAS

  • 1
    Desde sua criação até finais dos anos 1930, a maioria de seus integrantes participavam do integralismo brasileiro. Depois o movimento se unificou à Ação Católica Brasileira fundada em 1935, e posteriormente ampliou os horizontes ideológicos para defender a democracia e o pensamento progressista, transformando-se em Juventude Universitária Católica (JUC) nos anos 1940.
  • 2
    Durante o período do doutorado investiguei a trajetória pessoal e profissional de José Petronilo de Santa Cruz, sobretudo como livreiro-editor da Livraria Duas Cidades, entre 1954 e 1997. Mas sua experiência no mundo dos livros iniciou em 1947, quando ele conheceu o Padre Lebret e estruturou um Centro de Difusão de Revistas Dominicanas. No início dos anos 1950, Frei Benevenuto publicou livros por meio das Edições SAL (QUINTA, 2021QUINTA, Hugo de Carvalho. A trajetória de Santa Cruz e da Livraria Duas Cidades: o livreiro-editor de religiosos, universitários e intelectuais na cidade de São Paulo (1954-2006). 2021. 693 f. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2021. Disponível em: Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/214351 . Acesso em: 2 nov. 2021.
    https://repositorio.unesp.br/handle/1144...
    , p. 134-159), cuja primeira obra foi Princípios Para a Ação, de Lebret, lançada em 1952. Apesar disso, os livros do religioso francês ganharam projeção no catálogo do selo Livraria Duas Cidades. Dos 15 primeiros títulos com o maior número de tiragens na história desta casa, 3 foram de Lebret: Manifesto Por Uma Civilização Solidária (1961-1963, 4 edições); O Drama do Século XX (1963-1966, 3 edições) e Suicídio ou Sobrevivência do Ocidente (1960-1964, 4 edições). Lebret publicou seis livros pela editora dirigida por Frei Benevenuto e tornou-se o terceiro maior autor da casa, com 84.840 exemplares impressos (QUINTA, 2021QUINTA, Hugo de Carvalho. A trajetória de Santa Cruz e da Livraria Duas Cidades: o livreiro-editor de religiosos, universitários e intelectuais na cidade de São Paulo (1954-2006). 2021. 693 f. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2021. Disponível em: Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/214351 . Acesso em: 2 nov. 2021.
    https://repositorio.unesp.br/handle/1144...
    , p. 285). Suas obras atraíram a ala progressista de religiosos e leigos católicos brasileiros e latino-americanos.
  • 3
    Convém destacar que os distintos materiais abrigados em acervos pessoais muitas vezes encobrem rejeições, predileções e intenções tanto das instituições de guarda como dos familiares e demais envolvidos na organização, manutenção, doção ou venda do arquivo. Este artigo utiliza um conjunto de fontes abrigadas em arquivos pessoais e institucionais do Brasil e da França levando em consideração as diversas intromissões que ocorrem nesses acervos desde sua constituição até o instante em que são abertos para consulta pública. Diversos pesquisadores como Heymann (2014HEYMANN, Luciana. Arquivos pessoais em perspectiva etnográfica. In: TRAVANCAS, Isabel; ROUCHOU, Joelle; HEYMANN, Luciana (org.). Arquivos pessoais: reflexões multidisciplinares e experiências de pesquisa. Rio de Janeiro: FGV, 2014. p. 67-76. Edição digital. ), Gomes (1998GOMES, Angela de Castro. Nas malhas do feitiço: o historiador e os encantos dos arquivos privados. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 11, n. 21, p. 121-127, 1998.), Lacerda (2014LACERDA, Aline Lopes de. A imagem nos arquivos. In: TRAVANCAS, Isabel; ROUCHOU, Joelle; HEYMANN, Luciana (org.). Arquivos Pessoais: reflexões multidisciplinares e experiências de pesquisa. Rio de Janeiro: FGV, 2014. p. 63-64. Edição digital.) e Camargo (2009CAMARGO, Ana Maria de Almeida. Arquivos pessoais são arquivos. Revista do Arquivo Público Mineiro, v. 45, n. 2, p. 27-39, jul./dez. 2009.) tratam dessa temática enfatizando a necessidade de analisar os documentos e as imagens abrigadas em um arquivo não como uma acumulação de verdades absolutas ou como um repositório que decorreu da ação consciente de indivíduos que guardaram vestígios para posteridade. É por esse motivo que as fontes mencionadas neste artigo foram analisadas criticamente, tendo em conta o contexto histórico em que foram produzidas.
  • 4
    No fundo Lebret abrigado nos Archives Nationales (cotas 19860461/101 e 19860461/117) foram encontradas 47 cartas datadas entre 1950 e 1966, sendo que 23 eram de Frei Benevenuto para o Padre Lebret, ao passo que 24 eram do francês para o brasileiro. Já o arquivo pessoal de José Petronilo contém 38 missivas enviadas de Lebret para Benevenuto, entre 1954 e 1964, o que é uma evidência de que o religioso não tinha o hábito de guardar uma cópia das epístolas que ele endereçou ao religioso francês. Parte significativa dessas cartas eram dedicadas aos trabalhos da SAGMACS, mas com o passar dos anos elas também tratam de aspectos da relação de amizade entre eles. Este artigo analisa algumas dessas correspondências considerando que as cartas são objetos e fontes de pesquisa que devem ser utilizadas de acordo com a metodologia epistolar. Alguns dos critérios metodológicos para a análise das cartas foram explorados neste artigo, como a conjuntura sociocultural e política em que foram produzidas; as diversas subjetividades da redação; o modo como estão assinadas e datadas; e o idioma em que estão escritas (FERRARI, 2017FERRARI, Márcio. Metodologia epistolar: projeto franco-brasileiro estabelece critérios para a publicação de correspondência intelectual. Revista Pesquisa Fapesp, n. 262, p. 52-55, dez. 2017. Disponível em: Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2017/12/052-055_epistolografia_262.pdf . Acesso em: 19 jan. 2021.
    https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-con...
    ; PAGES, 2017PAGES, Alain. A materialidade epistolar. O que nos dizem os manuscritos autógrafos. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 67, p. 106-123, ago. 2017. Disponível em: Disponível em: https://www.revistas.usp.br/rieb/article/view/137569/133197 . Acesso em: 19 jan. 2021.
    https://www.revistas.usp.br/rieb/article...
    ).
  • 5
    Fundada, em 1933, por empresários paulistanos, a Escola foi erigida com o objetivo de formar uma elite dirigente para o munícipio e o estado de São Paulo sob o paradigma das ciências sociais norte-americanas. Desde meados dos anos 1950, a instituição passou a se chamar Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).
  • 6
    A ELSP publicou o curso em dois volumes. As versões impressas fazem parte do fundo Lebret 45ASArchives Nationales - Pierrefitte-sur-Seine, Paris, França - Fundo R. P. Lebret (45 AS)., cota 19860461/144, Archives Nationales, sob o título Introduction Générale a L’Économie Humaine.
  • 7
    Sobre a atuação do padre francês na América Latina, ver: PONTUAL, Virgínia. Louis-Joseph Lebret na América Latina: um exitoso laboratório de experiências em planejamento humanista. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2016.
  • 8
    Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, então Arcebispo de São Paulo, foi um dos cardeais que teceu duras críticas à passagem de Lebret pelo Brasil. Embora as conferências e os cursos tenham abordado obras marxistas, a gota d’água foi a fala de Lebret contrária à dissolução arbitrária do Partido Comunista Brasileiro, em maio de 1947. Essa atitude foi duramente criticada pelas autoridades eclesiásticas do país, que informaram o papado sobre o ocorrido. O episódio fez com que EH fosse criticado e vigiado pela Cúria Romana nos anos 1950. (PIC, 2014PIC, Claire. Les dominicains de Toulouse au Brésil (1881-1952): de la mission a l’apostolat intellectuel. 2014. 338 f. Thèse (Doctorat en Histoire) - École doctorale TESC, Université Toulouse II - Le Mirail, Toulouse, 2014., p. 274-275)
  • 9
    Trecho extraído do “Relatório sobre os trabalhos desenvolvidos por Economia e Humanismo no Brasil”, documento (sem data) abrigado no arquivo pessoal de José Petronilo de Santa CruzArquivo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz - São Paulo, Brasil.. Diferente da data prevista no estatuto, o relatório menciona que a entidade foi fundada em 27 de julho de 1947. Sobre o acervo de José Petronilo de Santa Cruz, consultar: Quinta e Silva, 2020QUINTA, Hugo; SILVA, Wilton Carlos Lima da. O arquivo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz: o livreiro-editor da Livraria Duas Cidades. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, v. 1, n. 76, p. 241-264, ago. 2020. .
  • 10
    No Brasil, destacamos as pesquisas de Michelly Ramos de Angelo (2010ANGELO, Michelly Ramos de. Les Développeurs: Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS na formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. 2010. 231 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) - Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2010., 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p.), de Lucas R. Cestaro (2015CESTARO, Lucas Ricardo. A atuação de Lebret e da SAGMACS no Brasil (1947-1964): ideias, planos e contribuições. 2015. 376 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) - Instituto de Arquitetura e Urbanismo de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2015.), de Virgínia Pontual (2011PONTUAL, Virgínia. O engenheiro Antônio Bezerra Baltar: práticas urbanísticas, CEPUR e SAGMACS. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 13, n. 1, p. 151-169, maio 2011., 2016PONTUAL, Virgínia. Louis-Joseph Lebret na América Latina: um exitoso laboratório de experiências em planejamento humanista. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2016.), e na França chamamos a atenção para os trabalhos de Denis Pelletier (1996PELLETIER, Denis. Économie et Humanisme: de l’utopie communautaire au combat pour le tiers monde (1941-1966). Paris: Éditions du Cerf, 1996. 529 p.) e Mathilde Le Tourneur Breuil (2006BREUIL, Mathilde Le Tourneur. Le père Lebret et la construction d’une pensée chrétienne sur Le développement: dans le sillage de modèles politiques et intellectuels émergents au Brésil, 1947-1966. Paris: École des Hautes Études en Sciences Sociales, 2006.).
  • 11
    No arquivo pessoal de José Petronilo de Santa CruzArquivo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz - São Paulo, Brasil. há uma série de correspondências de Frei Benevenuto com os religiosos, muitas das quais eram trocadas com padres brasileiros e franceses, e tratavam de questões relacionadas aos dominicanos, ao grupo brasileiro de EH e ao relacionamento que ele tinha com alguns industriais brasileiro.
  • 12
    Ainda que resumidamente, na tese “[...] tracei um paralelo entre as editoras católicas da França e do Brasil (em particular da Livraria Duas Cidades) durante os anos 1950 e 1960” (QUINTA, 2021QUINTA, Hugo de Carvalho. A trajetória de Santa Cruz e da Livraria Duas Cidades: o livreiro-editor de religiosos, universitários e intelectuais na cidade de São Paulo (1954-2006). 2021. 693 f. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2021. Disponível em: Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/214351 . Acesso em: 2 nov. 2021.
    https://repositorio.unesp.br/handle/1144...
    , p. 244-316).
  • 13
    Entre 1958 e 1963 transcorreu o papado do franciscano João XXIII, que foi responsável por publicar oito encíclicas com temas a abonar uma doutrina católica gregária e expansiva, como foi o caso de Mater et Magistra (Mãe e Mestra), em 1961, e Pacem in Terris (Paz na Terra), em 1963. O papa pretendia revigorar o catolicismo, motivo pelo qual advogou em prol do ecumenismo e da liberdade religiosa durante o Concílio Vaticano II. Padre Lebret e outras figuras da vanguarda do pensamento católico progressista formularam as encíclicas renovadoras encabeçadas pelo papa João XXIII. Os meios eclesiásticos ainda hoje dizem que esse concílio foi um ponto de inflexão para o catolicismo, o que realça a importância do evento para a história da Igreja Católica, em particular durante a segunda metade do século XX.
  • 14
    Angelo (2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p.) menciona as seguintes organizações: Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM); Centro de Estudos e Pesquisas Urbanísticas (CPEU), fundado e liderado por Anahia Mello na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP; Centro de Pesquisas em Planejamento Urbano e Regional (CPEUR), erigido por Antônio Bezerra Baltar, em 1962, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Recife.
  • 15
    No original: “Mon très cher Père, mon, mon très cher Père, ce n’est pas que j’aie mal travaillé, c’est que les choses vont peut-être plus difficiles par ici qu’ailleurs. Je me demande parfois si mes lettres vous arrivent toutes, car je vois très angoissé au sujet du voyage au Brésil”. (Fundo Lebret 45 ASArchives Nationales - Pierrefitte-sur-Seine, Paris, França - Fundo R. P. Lebret (45 AS)., cota 19860461/117, Archives Nationales, tradução nossa).
  • 16
    Não conseguimos nenhum vestígio sobre a participação do religioso nesse evento.
  • 17
    Há um exemplar desse estudo disponível no acervo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz.
  • 18
    Dentre os livros publicados por Lebret na PUF, chamamos a atenção para L’enquête en vue de l’aménagement régional, de 1958. Este foi escrito por Lebret, Albertini, Caillot, Célestin e Delprat, contando com a contribuição de Eduardo Bastos (participante dos trabalhos encomendados pela CIBPU), André Chomel e Benevenuto de Santa Cruz. “Lebret afirma que para este volume teve a contribuição das experiências dos trabalhos realizados no Brasil (nos estados de São Paulo, de Pernambuco e, posteriormente, nos três estados do Sul do país), na Colômbia e na França”. (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p., p. 173).
  • 19
    Sobre a CIBPU, os trabalhos Lebret e Frei Benevenuto e a participação deste como representante do governo de São Paulo na comissão, consultar a tese de Elisângela de Almeida Chiquito (2011CHIQUITO, Elisângela de Almeida. A comissão interestadual da Bacia Paraná-Uruguai: do planejamento de vale aos polos de desenvolvimento. 2011. 265 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo). Instituto de Arquitetura e Urbanismo de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2011. ).
  • 20
    Além dos trabalhos que já mencionamos, o padre francês foi responsável por coordenar as seguintes pesquisas elaboradas pela SAGMACS: “[...] Problemas de desenvolvimento, necessidades e possibilidades dos Estados do Rio Grande do sul, Santa Catarina e Paraná (1955-57); Estrutura Urbana da Aglomeração Paulistana: estruturas atuais e estruturas racionais (1957-58); Estrutura Urbana de Belo Horizonte (1958-59); Estudo para elaboração do Plano Diretor de Ourinhos (1954); Aspectos Humanos da Favela Carioca (1957-59); [...] Juntos, esses trabalhos mobilizaram cerca de 212 profissionais brasileiros”. (ANGELO, 2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p., p. 177)
  • 21
    Francisco Whitaker Ferreira, Chiara Ambrosis, Clementina Ambrosis, Celso Monteiro Lamparelli, Antonio Cláudio Moreira, Eduardo Bastos, Darcy Passos, Mário Laranjeira Mendonça, Domingos Theodoro Sampaio, entre outros. Angelo (2013ANGELO, Michelly Ramos de. Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS: a formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Paulo: Almedina, 2013. 338 p., p. 321-333) colheu o depoimento de diversos participantes da SAGMACS, e no apêndice 2 de seu livro consta os nomes e as funções das pessoas que participaram dos projetos executados por essa instituição.
  • 22
    Filiado ao Partido Democrata Cristão (PDC), governou o Chile entre 1964 e 1970. Foi grande defensor do movimento EH em seu país.
  • 23
    No original: “[...] Si la SAGMACS entre en chômage, comme tu le dis, il est clair que développer les éditions est important, comme aussi d’engager davantage tes études coopératives, mais je crois qu’il serait temps que tu fasses la synthèse, en un livre bien écrit, de tes conclusions de 15 ans de travail, comportant à la fois recherche et action. […] Je suis sûr tu as tout ce qu’il faut pour faire un excellent ouvrage vraiment nécessaire” (Fundo Lebret 45ASArchives Nationales - Pierrefitte-sur-Seine, Paris, França - Fundo R. P. Lebret (45 AS)., cota19860461/117, Archives Nationales, tradução nossa).
  • 24
    Sobre a relação entre Antonio Candido e Frei Benevenuto, consultar: Quinta (2021QUINTA, Hugo de Carvalho. A trajetória de Santa Cruz e da Livraria Duas Cidades: o livreiro-editor de religiosos, universitários e intelectuais na cidade de São Paulo (1954-2006). 2021. 693 f. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2021. Disponível em: Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/214351 . Acesso em: 2 nov. 2021.
    https://repositorio.unesp.br/handle/1144...
    , p. 387-417)

Editado por

Editores:

Karina Anhezini e Eduardo Romero de Oliveira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Maio 2023
  • Data do Fascículo
    2023

Histórico

  • Recebido
    07 Dez 2021
  • Aceito
    02 Maio 2022
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