Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse: propriedades psicométricas e prevalência das afetividades

Depression, Anxiety, and Stress Scale: psychometric properties and affectivity prevalence

Bianca Gonzalez Martins Wanderson Roberto da Silva João Maroco Juliana Alvares Duarte Bonini Campos Sobre os autores

RESUMO

Objetivo:

Estimar as características psicométricas da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21) para universitários e comparar as prevalências de depressão, ansiedade e estresse segundo o sexo.

Métodos:

Avaliou-se o ajustamento da DASS-21 aos dados por análise confirmatória utilizando os índices razão de qui-quadrado pelos graus de liberdade (χ2/gl), Comparative Fit Index (CFI), Tucker-Lewis Index (TLI) e Root Mean Square Error of Approximation (RMSEA). As prevalências de depressão, ansiedade e estresse foram calculadas e comparadas segundo o sexo.

Resultados:

Participaram 1.042 estudantes [idades entre 18 e 35 anos, com média de 21,13 anos (desvio-padrão = 2,81), 65,7% mulheres]. O ajustamento da DASS-21 à amostra foi adequado (χ2/gl = 5,83; CFI = 0,96; TLI = 0,97; RMSEA = 0,07), contudo o item 2 apresentou baixo peso fatorial, sendo, portanto, excluído (χ2/gl = 6,05; CFI = 0,98; TLI = 0,97; RMSEA = 0,07). Em relação ao grau de acometimento dos estudantes pela depressão, ansiedade e estresse, verificou-se que 4,7%, 1,7% e 4,5% dos estudantes apresentaram, respectivamente, escores moderados a extremamente severos. Não houve diferença significativa entre as prevalências dos estados emocionais avaliados segundo o sexo.

Conclusão:

A DASS-21 apresentou adequada validade e confiabilidade para amostra. A prevalência de depressão, ansiedade e estresse foi semelhante entre homens e mulheres, apontando para a necessidade de um olhar igualitário na investigação desses estados emocionais.

Palavras-chave
Depressão; ansiedade; estresse psicológico; psicometria; estudantes

ABSTRACT

Objective:

To estimate psychometric properties of the Depression Anxiety and Stress Scale (DASS-21) among Brazilian university students and to compare the prevalence of depression, anxiety, and stress between men and women.

Methods:

The DASS-21's fit was evaluated by confirmatory factor analysis using the chi-square per degrees of freedom ratio (χ2/df), Comparative Fit Index (CFI), Tucker-Lewis Index (TLI) and Root Mean Square Error of Approximation (RMSEA). A second-order hierarchical model was tested (Negative Affectivity). The prevalence of depression, anxiety, and stress was calculated and compared by sex.

Results:

Participants comprised 1,042 university students [aged 18 to 35 years (mean = 21.13; standard deviation = 2.81 years) 65.7% women]. The DASS-21's goodness of fit was adequate (χ2/df = 5.83; CFI = 0.96; TLI = 0.97; RMSEA = 0.07). However, item 2 presented low factorial weight and was excluded (χ2/df = 6.05; CFI = 0.98; TLI = 0.97; RMSEA = 0.07). The study verified that 4.7%, 1.7%, and 4.5% of students presented moderate to extremely severe scores of depression, anxiety, and stress, respectively. There was no significant difference between men and women in the prevalence of the emotional aspects assessed.

Conclusion:

The DASS-21 demonstrated adequate validity and reliability in a sample of university students. The prevalence of depression, anxiety, and stress did not differ significantly between men and women, which points to the need for an egalitarian view in the investigation of these emotional states.

Keywords
Depression; anxiety; psychological stress; psychometrics; students

INTRODUÇÃO

A afetividade negativa representa a tendência individual em vivenciar experiências emocionais caracterizadas por estados aversivos como, por exemplo, angústia, tristeza, raiva, culpa, medo, desgosto, depressão, ansiedade e estresse11. Watson D, Clark LA. Negative Affectivity: the disposition to experience aversive emotional states. Psychol Bull. 1984;96(3):465-90.. Embora esse conceito possa ser composto por diversos aspectos tais como humor negativo, cognição distorcida e baixa autoestima, Watson e Clark11. Watson D, Clark LA. Negative Affectivity: the disposition to experience aversive emotional states. Psychol Bull. 1984;96(3):465-90. destacam que a estrutura conceitual geral é a afetividade negativa, a qual envolve, principalmente, estados emocionais como a depressão, a ansiedade e o estresse, os quais podem exercer papel prejudicial à saúde física e mental dos indivíduos22. Watson D, Pennebaker JW. Health complaints,stress, and distress: exploring the central role of Negative Affectivity. Psychol Rev. 1989;96(2):234-54..

No que diz respeito à afetividade negativa e aos conceitos de depressão, ansiedade e estresse, deve-se destacar que são características latentes, ou seja, não mensuráveis diretamente. Assim, para o rastreamento dessas condições, têm sido utilizados instrumentos psicométricos. Lovibond e Lovibond33. Lovibond SH, Lovibond PF. Manual for the Depression, Anxiety, Stress Scales Australia. 1995 [updated 10/11/2014]. Disponível em: http://www2.psy.unsw.edu.au/dass/. Acesso em: 2 mar. 2019.
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propuseram a Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS) com o objetivo de apresentar um instrumento adequado sob a ótica psicométrica e com a capacidade de mensurar simultaneamente e distinguir a depressão, a ansiedade e o estresse.

Em relação à depressão, a literatura33. Lovibond SH, Lovibond PF. Manual for the Depression, Anxiety, Stress Scales Australia. 1995 [updated 10/11/2014]. Disponível em: http://www2.psy.unsw.edu.au/dass/. Acesso em: 2 mar. 2019.
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66. Vignola RCB, Tucci AM. Adaptation and validation of the Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS) to Brazilian portuguese. J Affect Disord. 2014;155:104-9. aponta que se trata de uma psicopatologia com etiologia complexa e que envolve diversos sintomas, por exemplo, a diminuição da autoestima e a presença de anedonia, geralmente com perda do significado atribuído à vida77. American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Porto Alegre: Artmed; 2014.. A ansiedade, por sua vez, é caracterizada por antecipação, em longo prazo, de eventos negativos33. Lovibond SH, Lovibond PF. Manual for the Depression, Anxiety, Stress Scales Australia. 1995 [updated 10/11/2014]. Disponível em: http://www2.psy.unsw.edu.au/dass/. Acesso em: 2 mar. 2019.
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, que pode ocorrer quando o indivíduo enfrenta incertezas, ameaças existenciais ou perigos potenciais/reais55. Apóstolo JLA, Mendes AC, Azeredo ZA. Adaptação para a Língua Portuguesa da Depression, Anxiety And Stress Scale (DASS). Rev Lat Am Enfermagem. 2006;14(6).,77. American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Porto Alegre: Artmed; 2014.. A ansiedade pode ocorrer de maneira adaptativa ou como transtorno psicológico, e a severidade dessa condição e o tempo de permanência desse estado determinam a diferença entre essas ocorrências77. American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Porto Alegre: Artmed; 2014.. Embora haja clara distinção entre a ansiedade e a depressão, os sintomas apresentados pelos indivíduos nem sempre são característicos apenas da condição depressiva ou ansiosa, podendo ocorrer de maneira inespecífica e sobreposta44. Clark LA, Watson D. Tripartite model of anxiety and depression: psychometric evidence and taxonomic implication. J Abnorm Psychol. 1991;100(3):316-36..

Partindo da proximidade entre a depressão e ansiedade, Clark e Watson44. Clark LA, Watson D. Tripartite model of anxiety and depression: psychometric evidence and taxonomic implication. J Abnorm Psychol. 1991;100(3):316-36. propuseram um modelo tripartido para avaliação de dados referentes a essas condições. Esse modelo engloba os sintomas específicos da depressão e da ansiedade em fatores separados e agrupa num único fator os sintomas compartilhados em ambas as condições (sintomas inespecíficos). Esses autores44. Clark LA, Watson D. Tripartite model of anxiety and depression: psychometric evidence and taxonomic implication. J Abnorm Psychol. 1991;100(3):316-36. ressaltam a necessidade e a importância de identificar os casos em que a depressão e a ansiedade aparecem de maneira mista, a fim de contribuir para o desenvolvimento de um tratamento condizente com as duas condições psicofisiológicas. Assim, o modelo tripartido ficou composto por dois fatores específicos (depressão e ansiedade) e um fator de sobreposição (misto), denominado distress factor. O desenvolvimento da DASS33. Lovibond SH, Lovibond PF. Manual for the Depression, Anxiety, Stress Scales Australia. 1995 [updated 10/11/2014]. Disponível em: http://www2.psy.unsw.edu.au/dass/. Acesso em: 2 mar. 2019.
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seguiu a premissa teórica do modelo tripartido, uma vez que alguns itens que não representavam especificamente a depressão e a ansiedade foram alocados em outro fator, denominado “estresse”. Esse fator é considerado distinto dos demais, porém empiricamente relacionado33. Lovibond SH, Lovibond PF. Manual for the Depression, Anxiety, Stress Scales Australia. 1995 [updated 10/11/2014]. Disponível em: http://www2.psy.unsw.edu.au/dass/. Acesso em: 2 mar. 2019.
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, visto a proximidade conceitual existente entre a depressão, a ansiedade e o estresse.

No que se refere ao estresse especificamente, esse tem sido descrito33. Lovibond SH, Lovibond PF. Manual for the Depression, Anxiety, Stress Scales Australia. 1995 [updated 10/11/2014]. Disponível em: http://www2.psy.unsw.edu.au/dass/. Acesso em: 2 mar. 2019.
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,55. Apóstolo JLA, Mendes AC, Azeredo ZA. Adaptação para a Língua Portuguesa da Depression, Anxiety And Stress Scale (DASS). Rev Lat Am Enfermagem. 2006;14(6).,66. Vignola RCB, Tucci AM. Adaptation and validation of the Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS) to Brazilian portuguese. J Affect Disord. 2014;155:104-9.,88. Pais-Ribeiro JL, Honrado A, Leal I. Contribuição para o estudo da adaptação portuguesa das escalas de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS) de 21 itens de Lovibond e Lovibond. Psicol Saúde Doenças. 2004;5(1):229-39. como um estado de excitação/tensão excessiva, crônica, não específica, resultante da ineficácia ou esgotamento das estratégias de enfrentamento. Essa condição, geralmente, conduz o indivíduo a apresentar baixa tolerância às frustrações e desilusões88. Pais-Ribeiro JL, Honrado A, Leal I. Contribuição para o estudo da adaptação portuguesa das escalas de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS) de 21 itens de Lovibond e Lovibond. Psicol Saúde Doenças. 2004;5(1):229-39..

Deve-se mencionar ainda que a ansiedade e o estresse são avaliados, em geral, considerando a permanência e a severidade de suas ocorrências77. American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Porto Alegre: Artmed; 2014.,99. Faro A, Pereira ME. Estresse, atribuição de causalidade e valência emocional: revisão da literatura. Arq Bras Psicol. 2012;64(2):76-92.. De acordo com esses parâmetros, tanto a ansiedade quanto o estresse podem apresentar valência positiva, quando ocorrem de maneira adaptativa, ou seja, como uma resposta fisiológica a algum evento estressor, ou podem se configurar como transtornos psicológicos (de valência negativa), quando a duração e a intensidade superam os níveis adaptativos, em situações em que as estratégias psíquicas de enfrentamento não são efetivas. O efeito dos afetos negativos99. Faro A, Pereira ME. Estresse, atribuição de causalidade e valência emocional: revisão da literatura. Arq Bras Psicol. 2012;64(2):76-92. sobre a percepção de eventos estressores também deve ser considerado, uma vez que indivíduos com maior tendência em vivenciar experiências emocionais negativas, em geral, superestimam o potencial estressor desses eventos, o que pode culminar em maior estresse e ansiedade. Nesse sentido, investigar a afetividade negativa torna-se relevante.

Como relatado anteriormente, a DASS permite rastrear essas afetividades, o que pode fornecer indícios para auxiliar o planejamento de estratégias de prevenção e/ou futuras intervenções.

A DASS foi, originalmente, desenvolvida em língua inglesa com 42 itens distribuídos em três fatores. Contudo, considerando a ocorrência de situações em que uma versão mais curta do instrumento é desejável, os autores33. Lovibond SH, Lovibond PF. Manual for the Depression, Anxiety, Stress Scales Australia. 1995 [updated 10/11/2014]. Disponível em: http://www2.psy.unsw.edu.au/dass/. Acesso em: 2 mar. 2019.
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apresentaram uma versão reduzida da DASS com 21 itens, denominada DASS-21. Essa versão do instrumento tem sido aplicada em diferentes países66. Vignola RCB, Tucci AM. Adaptation and validation of the Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS) to Brazilian portuguese. J Affect Disord. 2014;155:104-9.,88. Pais-Ribeiro JL, Honrado A, Leal I. Contribuição para o estudo da adaptação portuguesa das escalas de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS) de 21 itens de Lovibond e Lovibond. Psicol Saúde Doenças. 2004;5(1):229-39.,1010. Camacho A, Cordero ED, Perkins T. Psychometric properties of the DASS-21 among latina/o college students by the US-Mexico border. J Immigr Minor Health. 2016;18:1017-23.2020. Lu S, Hu S, Guan Y, Xiao J, Cai D, Gao Z, et al. Measurement Invariance of the Depression Anxiety Stress Scales-21 across gender in a sample of Chinese university students. Front Psychol. 2018;9(2064)., incluindo o contexto luso-brasileiro55. Apóstolo JLA, Mendes AC, Azeredo ZA. Adaptação para a Língua Portuguesa da Depression, Anxiety And Stress Scale (DASS). Rev Lat Am Enfermagem. 2006;14(6).,66. Vignola RCB, Tucci AM. Adaptation and validation of the Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS) to Brazilian portuguese. J Affect Disord. 2014;155:104-9.,88. Pais-Ribeiro JL, Honrado A, Leal I. Contribuição para o estudo da adaptação portuguesa das escalas de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS) de 21 itens de Lovibond e Lovibond. Psicol Saúde Doenças. 2004;5(1):229-39.,1414. Patias ND, Machado WL, Bandeira DR, Dell’Agio DD. Depression Anxiety and Stress Scale (DASS-21) – short form: adaptação e validação para adolescentes brasileiros. Psico-USF. 2016;21(3):459-69.,1919. Vasconcelos-Raposo J, Fernandes HM, Teixeira CM. Factor structure and reliability of the Depression, Anxiety and Stress scales in a large portuguese community sample. Span J Psychol. 2013;16(10):1-10.. No Brasil, Vignola e Tucci66. Vignola RCB, Tucci AM. Adaptation and validation of the Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS) to Brazilian portuguese. J Affect Disord. 2014;155:104-9. e Patias et al.1414. Patias ND, Machado WL, Bandeira DR, Dell’Agio DD. Depression Anxiety and Stress Scale (DASS-21) – short form: adaptação e validação para adolescentes brasileiros. Psico-USF. 2016;21(3):459-69. aplicaram a DASS-21 em indivíduos adultos, idosos e adolescentes, respectivamente, no intuito de investigar as medidas de validade e confiabilidade desse instrumento. Os autores verificaram a adequação do modelo de três fatores às amostras66. Vignola RCB, Tucci AM. Adaptation and validation of the Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS) to Brazilian portuguese. J Affect Disord. 2014;155:104-9.. Na comparação dos escores de depressão, ansiedade e estresse segundo o sexo, Patias et al.1414. Patias ND, Machado WL, Bandeira DR, Dell’Agio DD. Depression Anxiety and Stress Scale (DASS-21) – short form: adaptação e validação para adolescentes brasileiros. Psico-USF. 2016;21(3):459-69. verificaram que adolescentes do sexo feminino apresentaram maiores médias para os três estados emocionais. Em Portugal, Pais-Ribeiro et al.88. Pais-Ribeiro JL, Honrado A, Leal I. Contribuição para o estudo da adaptação portuguesa das escalas de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS) de 21 itens de Lovibond e Lovibond. Psicol Saúde Doenças. 2004;5(1):229-39., Apóstolo et al.55. Apóstolo JLA, Mendes AC, Azeredo ZA. Adaptação para a Língua Portuguesa da Depression, Anxiety And Stress Scale (DASS). Rev Lat Am Enfermagem. 2006;14(6). e Vasconcelos-Raposo et al.1919. Vasconcelos-Raposo J, Fernandes HM, Teixeira CM. Factor structure and reliability of the Depression, Anxiety and Stress scales in a large portuguese community sample. Span J Psychol. 2013;16(10):1-10. avaliaram e atestaram as propriedades psicométricas da DASS-21 após adaptação cultural do instrumento para o contexto português55. Apóstolo JLA, Mendes AC, Azeredo ZA. Adaptação para a Língua Portuguesa da Depression, Anxiety And Stress Scale (DASS). Rev Lat Am Enfermagem. 2006;14(6).,88. Pais-Ribeiro JL, Honrado A, Leal I. Contribuição para o estudo da adaptação portuguesa das escalas de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS) de 21 itens de Lovibond e Lovibond. Psicol Saúde Doenças. 2004;5(1):229-39.. Nesses estudos não foram investigadas prevalências ou realizadas comparações entre médias.

Outro aspecto que pode ser destacado no tocante à utilização da DASS, é sua aplicação em estudantes universitários88. Pais-Ribeiro JL, Honrado A, Leal I. Contribuição para o estudo da adaptação portuguesa das escalas de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS) de 21 itens de Lovibond e Lovibond. Psicol Saúde Doenças. 2004;5(1):229-39.,1111. Fawzy M, Hamed SA. Prevalence of psychological stress, depression and anxiety among medical students in Egypt. Psychiatry Res. 2017;255:186-94.1313. Moutinho ILM, Maddalena NCP, Roland RK, Lucchetti ALG, Tibiriçá SHC, Ezequiel OS, et al. Depression, stress and anxiety in medical students: A cross--sectional comparison between students from different semesters. Rev Assoc Med Bras. 2017;63(1):21-8.,1515. Shamsuddin K, Fadzil F, Ismail WSW, Shah SA, Omar K, Muhammad NA, et al. Correlates of depression, anxiety and stress among Malaysian university students. Asian J Psychiatr. 2013;6:318-23.,2020. Lu S, Hu S, Guan Y, Xiao J, Cai D, Gao Z, et al. Measurement Invariance of the Depression Anxiety Stress Scales-21 across gender in a sample of Chinese university students. Front Psychol. 2018;9(2064).,2121. Hamaideh SH. Alexithymia among Jordanian university students: Its prevalence and correlates with depression, anxiety, stress and demographics. Perspect Psychiatr Care. 2017;0(0):1-7.. Essa pode ser justificada pelo fato dessa população ser apontada1313. Moutinho ILM, Maddalena NCP, Roland RK, Lucchetti ALG, Tibiriçá SHC, Ezequiel OS, et al. Depression, stress and anxiety in medical students: A cross--sectional comparison between students from different semesters. Rev Assoc Med Bras. 2017;63(1):21-8.,1515. Shamsuddin K, Fadzil F, Ismail WSW, Shah SA, Omar K, Muhammad NA, et al. Correlates of depression, anxiety and stress among Malaysian university students. Asian J Psychiatr. 2013;6:318-23. como suscetível a estados emocionais aversivos. Essa suscetibilidade pode ocorrer devido ao aumento da exposição desses indivíduos a estressores, já que o ingresso à universidade é marcado por alterações marcantes na vida dos estudantes, os quais devem se adaptar às crescentes demandas pessoais, sociais e acadêmicas enquanto se preparam para suas futuras carreiras profissionais1515. Shamsuddin K, Fadzil F, Ismail WSW, Shah SA, Omar K, Muhammad NA, et al. Correlates of depression, anxiety and stress among Malaysian university students. Asian J Psychiatr. 2013;6:318-23.. Em geral, o ingresso à universidade coincide com o período de adultez emergente (18 a 25 anos)2222. Monteiro S, Tavares J, Pereira A. Adultez emergente: na fronteira entre a adolescência e a adultez. Ambiente e Educação. 2009;2(1):129-37.,2323. Nelson MC, Story M, Larson NI, Neumark-Sztainer D, Lytle LA. Emerging adulthood and college-aged youth: an overlooked age for weight-related behavior change. Obesity (Silver Spring). 2008;16:2205-11., no qual os indivíduos enfrentam diversos desafios, tanto no campo pessoal quanto profissional. Apesar de o adulto emergente nem sempre vivenciar a saída da residência familiar durante sua graduação é, geralmente, nesse período que o indivíduo começa a desenvolver autonomia2222. Monteiro S, Tavares J, Pereira A. Adultez emergente: na fronteira entre a adolescência e a adultez. Ambiente e Educação. 2009;2(1):129-37., apresentando experiências de maior independência em relação à família. Nesse contexto, essa é marcada pela expressão da individualidade2222. Monteiro S, Tavares J, Pereira A. Adultez emergente: na fronteira entre a adolescência e a adultez. Ambiente e Educação. 2009;2(1):129-37., com maior exposição a demandas em diferentes âmbitos da vida. O enfrentamento negativo dessas demandas pode resultar no desenvolvimento de condições afetivas negativas. Visto que essa etapa da vida pode ser considerada uma etapa de transição, investigar o estado emocional vivenciado por essa população pode fornecer informações relevantes que podem ser utilizadas na elaboração de estratégias educativas e preventivas para evitar o desenvolvimento de comportamentos prejudiciais no futuro.

É importante enfatizar, no entanto, que a maioria dos estudos que buscam investigar a depressão, a ansiedade e o estresse em universitários está voltada para os estudantes de medicina1111. Fawzy M, Hamed SA. Prevalence of psychological stress, depression and anxiety among medical students in Egypt. Psychiatry Res. 2017;255:186-94.1313. Moutinho ILM, Maddalena NCP, Roland RK, Lucchetti ALG, Tibiriçá SHC, Ezequiel OS, et al. Depression, stress and anxiety in medical students: A cross--sectional comparison between students from different semesters. Rev Assoc Med Bras. 2017;63(1):21-8., sendo escassos os trabalhos que envolvem os alunos das demais áreas da Saúde e das Ciências Humanas e Exatas. Apesar de haver uma cobrança diferenciada em relação ao curso de Medicina, não se deve desconsiderar os estudantes de outros cursos de graduação. Em vista disso, uma investigação da afetividade negativa focada nos estados de depressão, ansiedade e estresse em universitários de todas as áreas do conhecimento torna-se relevante.

Alguns pesquisadores1010. Camacho A, Cordero ED, Perkins T. Psychometric properties of the DASS-21 among latina/o college students by the US-Mexico border. J Immigr Minor Health. 2016;18:1017-23.,1212. Iqbal S, Gupta S, Venkatarao E. Stress, anxiety & depression among medical undergraduate students & their socio-demographic correlates. Indian J Med Res. 2015;141:354-7.,1313. Moutinho ILM, Maddalena NCP, Roland RK, Lucchetti ALG, Tibiriçá SHC, Ezequiel OS, et al. Depression, stress and anxiety in medical students: A cross--sectional comparison between students from different semesters. Rev Assoc Med Bras. 2017;63(1):21-8.,1515. Shamsuddin K, Fadzil F, Ismail WSW, Shah SA, Omar K, Muhammad NA, et al. Correlates of depression, anxiety and stress among Malaysian university students. Asian J Psychiatr. 2013;6:318-23. relatam, ainda, maior prevalência1010. Camacho A, Cordero ED, Perkins T. Psychometric properties of the DASS-21 among latina/o college students by the US-Mexico border. J Immigr Minor Health. 2016;18:1017-23. e escores médios1212. Iqbal S, Gupta S, Venkatarao E. Stress, anxiety & depression among medical undergraduate students & their socio-demographic correlates. Indian J Med Res. 2015;141:354-7.,1313. Moutinho ILM, Maddalena NCP, Roland RK, Lucchetti ALG, Tibiriçá SHC, Ezequiel OS, et al. Depression, stress and anxiety in medical students: A cross--sectional comparison between students from different semesters. Rev Assoc Med Bras. 2017;63(1):21-8.,1515. Shamsuddin K, Fadzil F, Ismail WSW, Shah SA, Omar K, Muhammad NA, et al. Correlates of depression, anxiety and stress among Malaysian university students. Asian J Psychiatr. 2013;6:318-23. de depressão, ansiedade e estresse entre as mulheres, o que pode ser atribuído a fatores sociais, biológicos ou psicológicos1515. Shamsuddin K, Fadzil F, Ismail WSW, Shah SA, Omar K, Muhammad NA, et al. Correlates of depression, anxiety and stress among Malaysian university students. Asian J Psychiatr. 2013;6:318-23. e ao fato de as mulheres exprimirem suas emoções mais facilmente do que os homens1212. Iqbal S, Gupta S, Venkatarao E. Stress, anxiety & depression among medical undergraduate students & their socio-demographic correlates. Indian J Med Res. 2015;141:354-7.. Dessa forma, a avaliação e a comparação da prevalência de depressão, ansiedade e estresse entre homens e mulheres pode ser relevante para direcionar o planejamento de estratégias visando ao cuidado com a saúde mental.

Assim, o objetivo deste estudo foi estimar as características psicométricas da DASS-21 quando aplicada em uma amostra de estudantes universitários brasileiros e comparar a prevalência de depressão, ansiedade e estresse observada entre homens e mulheres.

MÉTODOS

Desenho de estudo e delineamento amostral

Trata-se de estudo observacional transversal com delineamento amostral não probabilístico por conveniência. Foram convidados a participar os estudantes matriculados nos cursos de graduação da Faculdade de Ciências e Letras (Pedagogia, Administração, Ciências Econômicas, Ciências Sociais e Letras) e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (Farmácia-Bioquímica e Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia) da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) – campus de Araraquara.

Foram incluídos no estudo apenas os estudantes com idade entre 18 e 35 anos, que responderam a todos os itens da DASS-21.

O tamanho amostral mínimo foi calculado com base na recomendação de Hair Jr et al.2424. Hair Jr JF, Anderson RE, Tatham RL, Black WC. Multivariate data analysis. 6th ed. New Jersey: Prentice Hall; 2005. 928p. de 10 indivíduos por parâmetro do modelo a ser estimado. No presente estudo, foi testado o modelo da DASS-21, que possui 45 parâmetros, resultando num tamanho amostral mínimo de 450 participantes. Considerando uma taxa de perda de 20%, o tamanho amostral necessário foi corrigido para 563 participantes.

Foram coletadas informações como sexo, idade, ano, área e período do curso de graduação, presença de atividade laboral e estrato econômico para caracterização da amostra. Para estimar o estrato econômico, utilizou-se o Critério de Classificação Econômica Brasil2525. Associação Brasileira de Empresas De Pesquisa – ABEP. Brazilian Economic Classification Criteria (Brazilian Criteria). 2018. Disponível em: http://www.abep.org/criterio-brasil. Acesso em: 2 mar. 2019.
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.

Como variáveis de estudo, foram investigados a depressão, a ansiedade e o estresse utilizando a DASS-21.

Instrumento de medida

Foi utilizada a versão reduzida da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21)33. Lovibond SH, Lovibond PF. Manual for the Depression, Anxiety, Stress Scales Australia. 1995 [updated 10/11/2014]. Disponível em: http://www2.psy.unsw.edu.au/dass/. Acesso em: 2 mar. 2019.
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, cujos itens encontram-se divididos em três fatores (Itens Depressão: 3, 5, 10, 13, 16, 17, 21; Ansiedade: 2, 4, 7, 9, 15, 19, 20; Estresse: 1, 6, 8, 11, 12, 14, 18). A escala de resposta aos itens é do tipo Likert de quatro pontos variando de 0 (não se aplicou de maneira alguma) a 3 (aplicou-se muito ou na maioria do tempo). No presente estudo, utilizou-se a versão em português da DASS-21 proposta em 2014 por Vignola e Tucci66. Vignola RCB, Tucci AM. Adaptation and validation of the Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS) to Brazilian portuguese. J Affect Disord. 2014;155:104-9..

Antes da avaliação das características psicométricas, foi conduzida uma validação de face/conteúdo do instrumento a fim de avaliar a adequação cultural da escala. A DASS-21 está apresentada na literatura nas versões original33. Lovibond SH, Lovibond PF. Manual for the Depression, Anxiety, Stress Scales Australia. 1995 [updated 10/11/2014]. Disponível em: http://www2.psy.unsw.edu.au/dass/. Acesso em: 2 mar. 2019.
http://www2.psy.unsw.edu.au/dass/...
, portuguesa55. Apóstolo JLA, Mendes AC, Azeredo ZA. Adaptação para a Língua Portuguesa da Depression, Anxiety And Stress Scale (DASS). Rev Lat Am Enfermagem. 2006;14(6).,88. Pais-Ribeiro JL, Honrado A, Leal I. Contribuição para o estudo da adaptação portuguesa das escalas de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS) de 21 itens de Lovibond e Lovibond. Psicol Saúde Doenças. 2004;5(1):229-39. e brasileira66. Vignola RCB, Tucci AM. Adaptation and validation of the Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS) to Brazilian portuguese. J Affect Disord. 2014;155:104-9.. Assim, essas versões foram consideradas com o intuito de utilizar um instrumento unificado em português. Destaca-se, ainda, que esse instrumento foi analisado também em consonância com o acordo ortográfico estabelecido em 2009 entre os países de língua portuguesa, buscando possibilitar sua utilização em diferentes contextos de língua portuguesa, aumentando, assim, sua abrangência. Foram convidados para participar desse processo quatro especialistas (dois portugueses e dois brasileiros) nas áreas de Psicometria e Saúde. Esses especialistas verificaram a adequação cultural e auxiliaram no processo de uniformização da linguagem para possibilitar o entendimento da DASS-21 em diferentes contextos culturais. Desse modo, a versão conciliada do instrumento refere-se à proposta de Vignola e Tucci66. Vignola RCB, Tucci AM. Adaptation and validation of the Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS) to Brazilian portuguese. J Affect Disord. 2014;155:104-9. com pequenas adaptações culturais. Apresenta-se na tabela 1 a versão proposta por Vignola e Tucci e a versão conciliada em português da DASS-21.

Tabela 1
Versões em português da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse considerando a proposta de Vignola* e a versão conciliada no presente estudo

Características psicométricas do instrumento

Ao fim da etapa de validação de face/conteúdo, as características psicométricas da DASS-21 (validade de construto – fatorial, convergente, discriminante, invariância fatorial e confiabilidade) foram avaliadas.

A validade fatorial foi estimada utilizando análise confirmatória (AFC) com o método de estimação robusto de mínimos quadrados ponderados ajustados para média e variância (WLSMV). Avaliou-se a qualidade do ajustamento do modelo aos dados utilizando os índices razão de qui-quadrado pelos graus de liberdade (χ2/gl), Comparative Fit Index (CFI), Tucker-Lewis Index (TLI) e Root Mean Square Error of Approximation (RMSEA) com intervalo de confiança de 90%. O ajustamento foi considerado adequado quando χ2/gl ≤ 2,0, CFI e TLI ≥ 0,90 e RMSEA ≤ 0,102626. Kline RB. Principles and practice of structural equation modeling. New York: The Guilford Press; 2005. 354p.,2727. Marôco J. Análise de equações estruturais. 2ᵃ ed. Lisboa: ReportNumber; 2014. 389p.. Os pesos fatoriais (λ) dos itens da DASS-21 foram avaliados e considerados adequados se λ ≥ 0,50. Os índices de modificação maiores que 11 (p < 0,001)2727. Marôco J. Análise de equações estruturais. 2ᵃ ed. Lisboa: ReportNumber; 2014. 389p. calculados a partir do método dos Multiplicadores de Lagrange (ML) foram inspecionados. Após ajustamento do modelo aos dados, foi testado também um modelo hierárquico de segunda ordem (MHSO), que propõe um fator geral denominado “Afetividade Negativa”.

Para investigar a invariância fatorial dos modelos entre amostras independentes, realizou-se análise multigrupos aplicando o teste da diferença de CFI (ΔCFI). Nessa etapa, a amostra foi dividida de maneira aleatória em duas subamostras2828. Kaplan RM, Saccuzzo DP. Psychological testing: principles, applications and issues. Wadsworth: Cengage Learning; 2012., denominadas “Teste” (n = 525) e “Validação” (n = 523). Além disso, também foi investigada a invariância fatorial segundo o sexo (homens: n = 357 e mulheres: n = 685). Foram considerados os valores de CFI dos modelos configuracional, métrico e escalar, respectivamente. Para que o modelo seja considerado invariante, a redução do CFI deve ser inferior a 0,01.

A validade convergente foi investigada no intuito de avaliar se os itens que compõem cada fator do instrumento realmente convergem para esse fator. Essa análise foi realizada a partir do cálculo da variância extraída média (VEM), que foi considerada adequada se ≥ 0,502929. Fornell C, Larcker DF. Evaluating structural equation models with unobservable variables and measurement error. J Mark Res. 1981;18(1):39-50.. Já a validade de construto discriminante procura verificar se os itens que convergem para um determinado fator não se correlacionam com outros fatores. Essa avaliação foi realizada a partir de análise correlacional entre fatores, sendo classificada como adequada se VEMi e VEMj ≥ rij22. Watson D, Pennebaker JW. Health complaints,stress, and distress: exploring the central role of Negative Affectivity. Psychol Rev. 1989;96(2):234-54.,2929. Fornell C, Larcker DF. Evaluating structural equation models with unobservable variables and measurement error. J Mark Res. 1981;18(1):39-50..

A confiabilidade do instrumento foi analisada para verificar a consistência das informações obtidas com a DASS-21 e foi estimada a partir da Confiabilidade Composta (CC)2929. Fornell C, Larcker DF. Evaluating structural equation models with unobservable variables and measurement error. J Mark Res. 1981;18(1):39-50. e do coeficiente alfa ordinal (α). Valores de CC e α ≥ 0,70 foram indicativos de adequada confiabilidade. Para cômputo do coeficiente alfa, ordinal utilizou-se o programa R (R Core Team, 2016) com os pacotes “lavaan”3030. Rossel Y. lavaan: An R Package for Structural Equation Modeling. J Stat Softw. 2012;48(2):1-36. e “semTools”3131. Jorgensen TD, Pornprasertmanit S, Schoemann AM, Rosseel Y. semTools: Useful tools for structural equation modeling. 2018. Disponível em: https://CRAN.R-project.org/package=semTools. Acesso em: 2 mar. 2019.
https://CRAN.R-project.org/package=semTo...
.

Para a realização das análises fatoriais, utilizou-se o programa MPLUS 7.2 (Muthén e Muthén, Los Angeles, CA).

Prevalências

Após atestada a validade e a confiabilidade do modelo da DASS-21 para a amostra, os escores médios de depressão, ansiedade e estresse foram calculados. Baseados nesses escores, os indivíduos foram agrupados, considerando a severidade de depressão, ansiedade e estresse, utilizando pontos de corte propostos pelo autor da escala original33. Lovibond SH, Lovibond PF. Manual for the Depression, Anxiety, Stress Scales Australia. 1995 [updated 10/11/2014]. Disponível em: http://www2.psy.unsw.edu.au/dass/. Acesso em: 2 mar. 2019.
http://www2.psy.unsw.edu.au/dass/...
para cômputo da prevalência dessas condições na amostra. As prevalências foram calculadas por ponto e por intervalo de confiança de 95% (IC 95%) e comparadas segundo o sexo. Esses pontos de corte foram obtidos a partir dos percentis da escala de resposta aos itens da DASS-21 e estão apresentados na tabela 2.

Tabela 2
Pontos de corte (escore médio) obtidos a partir dos percentis da escala de resposta aos itens da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21), propostos por Lovibond e Lovibond

Procedimentos e aspectos éticos

Os estudantes foram convidados a participar do estudo em sala de aula, em horários habituais de atividades. O docente responsável pela disciplina autorizou a coleta de dados em sala de aula. O objetivo da pesquisa e o fato de a participação ser voluntária e anônima foram informados aos indivíduos, antes do preenchimento dos instrumentos. Os alunos que concordaram em participar preencheram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, um questionário para caracterização demográfica e a DASS-21.

A condução do presente estudo foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp – campus de Araraquara (CAAE: 63553516.4.0000.5426).

RESULTADOS

Caracterização da amostra

Dos estudantes convidados, 1.159 concordaram em participar e 1.042 preencheram a DASS-21 completamente, sendo a composição da amostra final. A média de idade dos participantes foi de 21,13 (desvio-padrão = 2,81) anos e 65,7% eram do sexo feminino. As informações demográficas da amostra estão apresentadas na tabela 3.

Tabela 3
Caracterização da amostra de estudo

Observou-se que a maioria dos participantes estava cursando graduação na área de Ciências Humanas e Sociais, estava matriculada no primeiro e segundo ano do curso (56,9%), estudava no período diurno (manhã/tarde/integral – 64,8%), não possuía atividade laboral e pertencia aos estratos econômicos A e B (84,2%).

Características psicométricas do instrumento

O ajustamento do modelo da DASS-21 aos dados, bem como a análise confirmatória das subamostras “Teste” e “Validação” e o teste da diferença de CFI (ΔCFI) entre amostras independentes, estão apresentados na tabela 4.

Tabela 4
Indicadores psicométricos da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21) para a amostra de estudantes universitários

Verificou-se que, apesar do ajustamento adequado do modelo completo da DASS-21 à amostra, o item 2 do fator ansiedade apresentou peso fatorial insatisfatório. Além disso, destaca-se que a permanência desse item no modelo prejudica significativamente a variância explicada (s²) do fator. Dessa forma, optou-se pela exclusão desse item, o que resultou num modelo refinado (Mr) cujo ajustamento e pesos fatoriais (Figura 1) foram adequados. O ajustamento do modelo hierárquico de segunda ordem também foi adequado (Figura 1). Para as amostras independentes, foram verificadas e atestadas as invariâncias configuracional (modelo estrutural igual) e estrita (forte). A validade convergente foi adequada, bem como a confiabilidade. No entanto, observou-se ausência de validade de construto discriminante entre a depressão, ansiedade e estresse para a amostra.

Figura 1
Modelos da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21) aplicada a estudantes universitários.

À esquerda: Modelo trifatorial oblíquo refinado. À direita: Modelo hierárquico de segunda ordem.


O ajustamento da DASS-21 foi adequado em ambos os sexos (Homens – λ: 0,520–0,922; χ2/gl: 2,61; CFI: 0,972; TLI: 0,968; RMSEA: 0,067; Mulheres – λ: 0,630–0,941; χ2/gl: 4,37; CFI: 0,977; TLI: 0,974; RMSEA: 0,070). Observou-se invariância do modelo refinado entre os sexos (ΔCFImétrico-configuracional = −0,003 ΔCFIescalar-métrico = 0,001).

A prevalência de depressão, ansiedade e estresse entre os estudantes está apresentada na tabela 5.

Tabela 5
Prevalências de estudantes agrupados segundo as classificações de severidade da depressão, ansiedade e estresse

Nota-se que a maioria dos estudantes foi classificada como “normal” tanto com relação à depressão quanto à ansiedade e estresse, contudo 4,7%, 1,7% e 4,5% dos estudantes apresentaram, respectivamente, escores moderados a extremamente severos dessas condições. Não houve diferença significativa nas prevalências segundo o sexo.

DISCUSSÃO

O presente estudo confirmou a validade e confiabilidade da DASS-21 para avaliação da afetividade negativa em estudantes universitários.

O ajustamento adequado da DASS-21 aos dados corrobora os resultados apresentados para amostras em diferentes contextos na literatura1414. Patias ND, Machado WL, Bandeira DR, Dell’Agio DD. Depression Anxiety and Stress Scale (DASS-21) – short form: adaptação e validação para adolescentes brasileiros. Psico-USF. 2016;21(3):459-69.,1919. Vasconcelos-Raposo J, Fernandes HM, Teixeira CM. Factor structure and reliability of the Depression, Anxiety and Stress scales in a large portuguese community sample. Span J Psychol. 2013;16(10):1-10.,3232. Bottesi G, Ghisia M, Altoèb G, Confortic E, Mellid G, Sicac C. The Italian version of the Depression Anxiety Stress Scales-21: factor structure and psychometric properties on community and clinical samples. Compr Psychiatry. 2015;60:170-81.. É importante destacar que, para esse ajustamento, foi necessária a remoção do item 2 (do fator ansiedade) devido ao baixo peso fatorial apresentado. Esse resultado também foi encontrado em outros estudos1010. Camacho A, Cordero ED, Perkins T. Psychometric properties of the DASS-21 among latina/o college students by the US-Mexico border. J Immigr Minor Health. 2016;18:1017-23.,1414. Patias ND, Machado WL, Bandeira DR, Dell’Agio DD. Depression Anxiety and Stress Scale (DASS-21) – short form: adaptação e validação para adolescentes brasileiros. Psico-USF. 2016;21(3):459-69.,1717. Sinclair SJ, Siefert CJ, Slavin-Mulford JM, Stein MB, Renna M, Blais MA. Psychometric evaluation and normative data for the Depression, Anxiety, and Stress Scales-21 (DASS-21) in a nonclinical sample of U.S. adults. Eval Health Prof. 2012;35(3):259-79.,3232. Bottesi G, Ghisia M, Altoèb G, Confortic E, Mellid G, Sicac C. The Italian version of the Depression Anxiety Stress Scales-21: factor structure and psychometric properties on community and clinical samples. Compr Psychiatry. 2015;60:170-81. e, portanto, nossa decisão em excluí-lo vai ao encontro da literatura. A presença do item 2 gerou redução da variância explicada pelo fator Ansiedade e prejudicou a validade convergente desse fator, o que pode ser explicado pela significativa relação teórica do conteúdo desse item com os fatores Depressão e Estresse, e não apenas com o fator Ansiedade. Esse fato já foi reportado por Sinclair et al.1717. Sinclair SJ, Siefert CJ, Slavin-Mulford JM, Stein MB, Renna M, Blais MA. Psychometric evaluation and normative data for the Depression, Anxiety, and Stress Scales-21 (DASS-21) in a nonclinical sample of U.S. adults. Eval Health Prof. 2012;35(3):259-79. Assim, a exclusão do item 2 possibilitou aumento considerável da variância explicada e da validade convergente do fator Ansiedade, propiciando, portanto, maior qualidade da informação obtida.

Em relação à falta de validade de construto discriminante entre a depressão, ansiedade e estresse, outros autores88. Pais-Ribeiro JL, Honrado A, Leal I. Contribuição para o estudo da adaptação portuguesa das escalas de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS) de 21 itens de Lovibond e Lovibond. Psicol Saúde Doenças. 2004;5(1):229-39.,1414. Patias ND, Machado WL, Bandeira DR, Dell’Agio DD. Depression Anxiety and Stress Scale (DASS-21) – short form: adaptação e validação para adolescentes brasileiros. Psico-USF. 2016;21(3):459-69., também reportaram esse resultado. Esse achado está relacionado à existência de alta correlação entre esses fatores. A proposta original do modelo teórico da DASS-2133. Lovibond SH, Lovibond PF. Manual for the Depression, Anxiety, Stress Scales Australia. 1995 [updated 10/11/2014]. Disponível em: http://www2.psy.unsw.edu.au/dass/. Acesso em: 2 mar. 2019.
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enfatiza a existência de sobreposição clínica entre a depressão, ansiedade e estresse e, portanto, a presença de alta correlação entre os fatores é esperada. Essa sobreposição pode justificar a falta de validade discriminante observada no presente estudo e representa um embasamento teórico, que também permite a inserção do fator de segunda ordem “afetividade negativa”.

Com relação à invariância do modelo de medida da DASS-21 entre homens e mulheres, esse resultado vai ao encontro do apresentado por Gomez et al.3333. Gomez R, Summers M, Summers A, Wolf A, Summers J. Depression Anxiety Stress Scales-21: measurement and structural invariance across ratings of men and women. Assessment. 2014;21(4):418-26. e Lu et al.2020. Lu S, Hu S, Guan Y, Xiao J, Cai D, Gao Z, et al. Measurement Invariance of the Depression Anxiety Stress Scales-21 across gender in a sample of Chinese university students. Front Psychol. 2018;9(2064)., que verificaram invariância forte da DASS quando aplicada a homens e mulheres da comunidade de dois estados da Austrália e em universitários chineses. Esse fato permite sua utilização em ambos os sexos e viabiliza a realização de comparações diretas (escores médios ou prevalências). Apesar disso, destaca-se a necessidade de condução do processo de validação dos instrumentos psicométricos sempre que houver alteração das características amostrais, pois a validade e a confiabilidade não são propriedades do instrumento por si só, mas dos dados obtidos considerando diferentes contextos/amostras3434. Silva WR, Dias JCR, Maroco J, Campos JADB. Confirmatory factor analysis of different versions of the Body Shape Questionnaire applied to Brazilian university students. Body Image. 2014;11:384-90..

Em relação aos graus de severidade da depressão, ansiedade e estresse, observou-se maior prevalência de estudantes classificados como “normais”. Esse resultado está em consonância com o trabalho de Beiter et al.3535. Beiter R, Nash R, McCrady M, Rhoades D, Linscomb M, Clarahan M, et al. The prevalence and correlates of depression, anxiety, and stress in a sample of college students. J Affect Disord. 2015;173:90-6. com universitários norte-americanos, que verificou maior prevalência de grau de severidade normal para depressão [67% (IC 95% = 66,8-67,2)], ansiedade (60% (IC 95% = 59,7-60,3)] e estresse [62% (IC 95% = 61,7-62,3)] a partir dos escores da DASS-21. Contudo, pôde-se notar que essa prevalência foi significativamente maior em nosso estudo, apontando uma melhor condição da população universitária brasileira. Esse aspecto pode estar relacionado às diferenças entre as características culturais e demográficas das amostras. No tocante às amostras, é importante salientar que nosso estudo foi conduzido considerando a inclusão de universitários de diferentes áreas do conhecimento, o que não é visto nos estudos que utilizam a DASS-21, pois esses avaliaram majoritariamente os estudantes de Medicina1111. Fawzy M, Hamed SA. Prevalence of psychological stress, depression and anxiety among medical students in Egypt. Psychiatry Res. 2017;255:186-94.,1212. Iqbal S, Gupta S, Venkatarao E. Stress, anxiety & depression among medical undergraduate students & their socio-demographic correlates. Indian J Med Res. 2015;141:354-7. e revelaram maior distribuição de indivíduos com algum grau de depressão, ansiedade e estresse, o que pode ter ocorrido devido às demandas e pressões relacionadas à formação médica. No entanto, apesar da alta prevalência de estudantes classificados na categoria “normal” verificada em nosso estudo, não se deve desconsiderar que o instrumento identificou indivíduos com escores severos e extremamente severos tanto para a depressão quanto para a ansiedade e o estresse, o que fornece indícios de que esses estudantes também podem estar vivenciando estados emocionais que podem resultar em alta afetividade negativa, bem como observado entre os estudantes de Medicina1111. Fawzy M, Hamed SA. Prevalence of psychological stress, depression and anxiety among medical students in Egypt. Psychiatry Res. 2017;255:186-94.. Nesse contexto, é importante destacar que o rastreamento desses estados emocionais pode contribuir para o planejamento de estratégias de prevenção e/ou intervenção para a manutenção da saúde física e mental envolvendo todos os estudantes, independentemente do curso de graduação e, portanto, trata-se de uma estratégia interessante.

A prevalência de depressão, ansiedade e estresse foi semelhante entre homens e mulheres, apontando, portanto, para a necessidade de um olhar igualitário na investigação desses estados emocionais entre os indivíduos. Esse achado difere do resultado apresentado por Camacho et al.1010. Camacho A, Cordero ED, Perkins T. Psychometric properties of the DASS-21 among latina/o college students by the US-Mexico border. J Immigr Minor Health. 2016;18:1017-23. em estudo conduzido com universitários latinos residentes nos Estados Unidos.

Deve-se mencionar, ainda, que o presente estudo apresenta algumas limitações quanto ao desenho de estudo do tipo transversal, que não permite estabelecer relações de causa e efeito entre as variáveis, em relação à amostragem não probabilística por conveniência, que pode dificultar a generalização dos resultados para a população. No entanto, com o intuito de amenizar essas limitações, utilizamos uma amostra alargada para sustentar a representatividade de nossos resultados. Vale destacar que este é um estudo de rastreamento que não visa apontar um diagnóstico único e decisivo dos estágios de depressão, ansiedade e estresse, e sim alertar sobre as prevalências dessas condições na amostra de estudantes universitários. Assim, acredita-se que os resultados obtidos neste estudo podem representar um avanço na investigação da afetividade negativa entre estudantes universitários, uma vez que a DASS-21 foi aplicada em estudantes de diferentes áreas do conhecimento, fato que tem sido pouco considerado na literatura atual e pode contribuir para alertar as instituições de ensino em relação a seus estudantes e auxiliar na elaboração de estratégias visando à prevenção e à manutenção da saúde mental desses indivíduos.

CONCLUSÃO

O modelo refinado da DASS-21 apresentou adequada validade, confiabilidade e invariância fatorial entre amostras independentes e segundo sexo para a amostra de estudantes universitários. Apesar da alta prevalência de indivíduos com escores normais de depressão, ansiedade e estresse, verificou-se a existência de indivíduos acometidos por essas condições. Não houve diferença significativa entre as prevalências das afetividades negativas segundo sexo, o que evidencia a importância e a necessidade de um olhar igualitário na investigação desses estados emocionais nesses indivíduos.

AGRADECIMENTOS

O presente trabalho foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (Capes) – Código de Financiamento 001. Também agradecemos à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), pelo financiamento do estudo (Processos #2017/18679-0 e #2017/21149-3), e aos estudantes que consentiram em participar do estudo.

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  • Errata

    Where you read:
    Prevalências
    Após atestada a validade e a confiabilidade do modelo da DASS-21 para a amostra, os escores médios de depressão, ansiedade e estresse foram calculados. Baseados nesses escores, os indivíduos foram agrupados, considerando a severidade de depressão, ansiedade e estresse, utilizando pontos de corte propostos pelo autor da escala original3 para cômputo da prevalência dessas condições na amostra. As prevalências foram calculadas por ponto e por intervalo de confiança de 95% (IC 95%) e comparadas segundo o sexo. Esses pontos de corte foram obtidos a partir dos percentis da escala de resposta aos itens da DASS-21 e estão apresentados na tabela 2.
    Tabela 2
    Pontos de corte (escore médio) obtidos a partir dos percentis da escala de resposta aos itens da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21), propostos por Lovibond e Lovibond
    Should read:
    Prevalências
    Após atestada a validade e a confiabilidade do modelo da DASS-21 para a amostra, os escores médios de depressão, ansiedade e estresse foram calculados. Baseados nesses escores, os indivíduos foram agrupados, considerando a severidade de depressão, ansiedade e estresse, utilizando pontos de percentis propostos pelo autor da escala original3 para cômputo da prevalência dessas condições na amostra. As prevalências foram calculadas por ponto e por intervalo de confiança de 95% (IC 95%) e comparadas segundo o sexo. Esses pontos de corte foram obtidos a partir dos percentis da escala de resposta aos itens da DASS-21 e estão apresentados na tabela 2.
    Tabela 2
    Pontos de corte (escore médio) obtidos a partir dos percentis da escala de resposta aos itens da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21)

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Maio 2019
  • Data do Fascículo
    2019

Histórico

  • Recebido
    17 Dez 2018
  • Aceito
    16 Fev 2019
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