ARTES MARCIAIS MISTAS E A APRESENTAÇÃO CORPORAL DE LUTADORAS NO INSTAGRAM

MIXED MARTIAL ARTS AND THE BODY PRESENTATION OF FIGHTERS IN THE INSTAGRAM

João Paulo Silva de Oliveira Christiane Garcia Macedo Alvaro Rego Millen NetoSobre os autores

RESUMO

Objetivamos explorar a interpretação de imagens de lutadoras de artes marciais mistas (MMA) postadas no Instagram. Nos apoiamos nos debates pós-estruturalistas, especialmente aqueles que tratam do corpo e gênero. Para a coleta de dados, utilizamos dois grupos focais com estudantes universitários(as), um constituído por mulheres e outro por homens. A partir de uma análise de conteúdo, quatro categorias discursivas emergiram das interações grupais. Evidenciamos a permanência de estereótipos usuais sobre a participação da mulher no esporte, com o olhar dos homens tendencioso para a objetivação do corpo das lutadoras. As mulheres mostraram-se mais sensíveis às feminilidades plurais. A tendência de comparação entre atletas masculinos e femininos foi observada em ambos os grupos. Constata-se que a autoapresentação das lutadoras negocia, em certa medida, com a inconformidade de uma feminilidade hegemônica no espaço do Ultimate Fighting Championship (UFC).

Palavras-chave:
MMA; Mulher; Corpo; Instagram

ABSTRACT

We aim to explore the interpretation of images of mixed martial arts fighters (MMA) posted on Instagram. We rely on poststructuralist debates, especially those dealing with body and gender. For data collection, we used two focus groups with college students, one made up of women and the other of men. From a content analysis, four discursive categories emerged from group interactions. We highlighted the permanence of the usual stereotypes about women's participation in sport, looking at how men have biases due to the objectification of the fighters’ bodies. Women were more sensitive to plural femininities. The trend of comparison between male and female athletes was observed in both groups. The debate about the plural femininity was accepted, to some extent by the groups but other opinions also existed showing some resistance to the self-representation of the fighters regarding the non-conformity of hegemonic femininity in the UFC space.

Keywords:
MMA; Woman; Body; Instagram

Introdução

Historicamente, a participação das mulheres nas diversas práticas esportivas foi limitada pela naturalização da fraqueza do corpo e do sistema reprodutivo feminino. Quando inseridas no esporte, muitas vezes a imagem da mulher atleta está associada a anomalias, sendo representada em papel humorístico ou escandaloso11 Jennings LA. She´s a knockout! A history of women in fighting sports. London: Rowman & Littlefiel; 2015.. Para Jennings, apesar de nem todos os relatos históricos menosprezarem mulheres atletas, há aqueles que as criticam por serem fisicamente inaptas ou zombam por julgarem terem uma aparência muito masculinizada11 Jennings LA. She´s a knockout! A history of women in fighting sports. London: Rowman & Littlefiel; 2015..

Caso ilustrativo, nas artes marciais mistas (MMA), é a declaração do presidente do Ultimate Fighting Championship (UFC) Dana White quando comparou a atleta brasileira Cristiane “Cyborg” Justino, com o atleta masculino, também brasileiro, Wanderlei Silva - “Quando eu vi Cyborg no MMA Awards ela estava subindo as escadas e parecia o Wanderlei Silva em um vestido e salto”. Essa declaração faz clara alusão aos atributos corporais da atleta, que, de acordo com o dirigente do UFC, não representaria bem o MMA feminino.

A participação das mulheres no MMA, sobretudo no UFC - organização hegemônica nos eventos da modalidade - ao mesmo tempo que desafia normas tradicionais de gênero, também mantém práticas organizadas por uma concepção heteronormativa. Compreende-se como uma concepção heteronormativa, práticas que legitimam a lógica heterossexual como fundamental e natural; marginalizando orientações sexuais e expressões de gênero fora dos seus padrões22 Miskolci R. A teoria queer e a sociologia: O desafio de uma analítica da normalização. Sociologias 2009;11(21):150-182. Doi: 10.1590/S1517-45222009000100008
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. Um exemplo dessas práticas tidas como naturais é a persistentemente objetificação do corpo das lutadoras no espaço discursivo do UFC33 Weaving C. »,» ®,® §,§ ­,­ ¹,¹ ²,² ³,³ ß,ß Þ,Þ þ,þ ×,× Ú,Ú ú,ú Û,Û û,û Ù,Ù ù,ù ¨,¨ Ü,Ü ü,ü Ý,Ý ý,ý ¥,¥ ÿ,ÿ ¶,¶ Chiks fighting in a cage »,» ®,® §,§ ­,­ ¹,¹ ²,² ³,³ ß,ß Þ,Þ þ,þ ×,× Ú,Ú ú,ú Û,Û û,û Ù,Ù ù,ù ¨,¨ Ü,Ü ü,ü Ý,Ý ý,ý ¥,¥ ÿ,ÿ ¶,¶ : A philosophical critique of gender constructions in the Ultimate Fighting Championship. In: Channon A, Matthews C, editores. Global perspectives on women in combat sports: Women warriors around the world. Basingstoke: Palgrave Macmillan; 2015, p. 57-72..

Como a participação das mulheres em esportes competitivos é inconsistente com os tradicionais papéis femininos, historicamente observa-se uma tentativa de “proteger” as atletas de uma possível rejeição44 Kane MJ. Sex sells sex, not women's sports. The Nation 2011;293(7):28-29.. Para isso, suas habilidades atléticas são trivializadas através de estratégias de ambivalência, tentando reconciliar a incompatibilidade entre a feminilidade e o mundo masculino do esporte55 Cranmer G, Brann M, Nicholas B. Male athletes, female aesthetics: The continued ambivalence toward female athletes in ESPN's The Body Issue. Int J Sport Communication 2014;7(2):145-165. Doi: 10.1123/IJSC.2014-0021
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. Nessa direção, com a crescente participação das mulheres em esportes de combate, incluindo-se o MMA, observa-se uma tendência para que os corpos das mulheres lutadoras sejam sexualizados de maneiras que acomodem a atratividade heterossexual com a imagem de corpos fortes e resistentes66 Channon A, Quinney A, Khomutova A, Matthews CR. Sexualisation of the fighter's body: Some reflections on women's mixed martial arts. Corps 2018;16:383-391. Doi: 10.3917/corp1.016.0383
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.

Uma das mídias sociais mais utilizadas pelos(as) atletas na atualidade, que permite publicizar e dar visibilidade a imagens, especialmente as corporais, o Instagram é atualmente uma das principais redes virtuais de compartilhamento de fotos e, cada vez mais, vem influenciando o cotidiano tanto de pessoas comuns quanto de atletas famosos(as). Como o Instagram oferece a possibilidade de produção de imagens feitas pelos(as) próprios(as) usuários(as), as lutadoras de MMA que utilizam esse canal podem acioná-lo de formas distintas; o que, em tese, permite o transitar desde um lugar de resistência por parte das mulheres atletas em relação ao modo com que a mídia tende a retratá-las até, no limite, por uma estrita reprodução dos estereótipos socialmente construídos.

A partir dessa problemática, objetivamos descrever como estudantes universitários(as) interpretam as imagens corporais que as lutadoras de MMA publicam em suas contas da rede social Instagram. Nos apoiamos nos debates pós-estruturalistas, especialmente aqueles que tratam do corpo e das discussões sobre gênero. Visto que esses estudos nos ajudam a pensar as relações de saber e poder, a centralidade da linguagem e a produção sóciocultural do sujeito88 Silva TT. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. 3 ed. Belo Horizonte: Autêntica; 2011..

Métodos

Nesta pesquisa participaram oito estudantes universitários(as). Os(as) participantes são estudantes de uma instituição pública e de duas particulares que atenderam a uma chamada pública. Eles(as) foram convidados(as) para participar de uma discussão em grupo com o tema “Mulheres e Artes Marciais Mistas”. A técnica utilizada foi a de grupo focal, que “permite compreender processos de construção da realidade por determinados grupos sociais”9:11. A coleta de dados por meio de grupo focal é uma técnica importante para o conhecimento das representações e simbologias prevalentes sobre uma dada questão por pessoas que partilham alguns traços em comum, relevantes para o estudo do problema visado99 Gatti BA. Grupo focal na pesquisa em ciências sociais e humanas. Brasília: Líber Livro; 2005..

Formamos dois grupos de igual número, um exclusivamente com mulheres e outro só com homens, e realizamos uma sessão de grupo focal para cada grupo constituído. As sessões objetivaram reunir os(as) estudantes para discutir e comentar 18 imagens que nove lutadoras de MMA, campeãs ou ex-campeãs do UFC no momento da coleta (abril de 2018), publicaram em suas contas da rede social Instagram. As imagens foram selecionadas a partir dos dados de outra pesquisa que realizou uma análise com vistas à categorização das imagens dessas lutadoras a partir do estudo de Goffman1010 Goffman E. Gender advertisements. New York: Harper Torchbooks; 1988., e adaptações elaboradas em outros trabalhos77 Smith LR, Sanderson J. I´m going to Instagram it! An analysis of athlete self-presentation on Instagram. J Broadcast Eletron Media 2015;59:342-358. Doi: 10.1080/08838151.2015.1029125
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,1111 Hatton E, Trautner MN. Equal Opportunity Objectification? The sexualization of men and women on the cover of rolling stone. Sex Cult 2011;15:256-278. Doi: 10.1007/s12119-011-9093-2
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,1212 Kim K, Sagas M. Athletic or Sexy? A Comparison of female athletes and fashion models in sports illustrated swimsuit issues. Gend Issues 2014;31:123-141. Doi: 10.1007/s12147-014-9121-2
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. O tempo dedicado para cada sessão variou conforme o grau de envolvimento dos(as) participantes, e teve duração de 77 e 72 minutos, mulheres e homens respectivamente. O registro das interações foi feito por gravação de áudio, que foram transcritas e analisadas por um análise de conteúdo1313 Bardin L. Análise de Conteúdo. São Paulo: Edições 70; 2011., categorizando os sentidos e significados presentes nos discursos dos participantes buscando dialogar com os estudos de gênero pós-estruturalistas. Em nossa análise emergiram quatro categorias discursivas, a saber: atleta e também mulher; a gente sabe que isso vende; luta como um homem; e representatividade importa.

Ressaltamos que essa pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e seu Certificado de Apresentação para a Apreciação Ética (CAAE) está registrado no Sistema CEP/CONEP sob o número 80620317.8.0000.5196. Antes de iniciarmos as coletas, todos(as) os(as) participantes assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Atleta e também mulher

Neste tópico agrupamos o discurso dos(as) participantes referente à representatividade das imagens, respondendo à pergunta central do grupo focal: Como vocês interpretam essas imagens? “Para mim, eu vejo o dia-a-dia delas, o que elas fazem” (P2, homens); “[...] tem que quebrar com esse padrão de que ela é só isso e pronto [...] ela tem vida social, tem filhos, tem marido, tem a vida dela” (P1, mulheres). Em tese, a percepção dos dois grupos focais (o composto só por mulheres e o só por homens) é de que as lutadoras usam o Instagram para apresentar suas vidas pessoais, ou seja, não só para expor suas atividades referentes à profissão, mas também como forma de mostrar suas vidas para além do contexto esportivo.

Essa percepção está em acordo com as evidências de estudos sobre o uso das mídias sociais entre os(as) atletas77 Smith LR, Sanderson J. I´m going to Instagram it! An analysis of athlete self-presentation on Instagram. J Broadcast Eletron Media 2015;59:342-358. Doi: 10.1080/08838151.2015.1029125
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,1414 Geurin-Eagleman AM, Burch LM. Communicating via photographs: A gendered analysis of Olympic athletes visual self-presentation on Instagram. Sport Management Review 2016;19:133-145. Doi: 10.1016/j.smr.2015.03.002
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. Os resultados mostraram que em geral os(as) atletas usam as mídias sociais com a finalidade típica dessas, ou seja, para compartilhamento de suas vidas pessoais. No entanto, o estudo de Geurin-Eagleman e Burch14 constatou que as mulheres atletas tendem a se autoapresentar com ênfase em ambientes fora do contexto esportivo quando comparadas com os homens.

Uma extensa literatura já evidenciou a persistente cobertura da mídia esportiva em retratar as mulheres a partir da sua atratividade e secundarizando suas performances atléticas. Essa insistente representação molda nossas percepções de forma a naturalizar a ambivalência de uma pessoa ser atleta e também ser mulher, sobretudo nos esportes socialmente constituídos para homens. No caso dos homens atletas, essa necessidade não é evidente. Homens são atletas, e isso basta.

Evidenciamos essa naturalização nas interações, tanto do grupo focal das mulheres quanto dos homens: “Elas não deixam de ser mulheres por optar pelo MMA” (P3, mulheres); “[...] mas nós podemos observar que elas têm vida pessoal, são casadas, não perdeu essa fragilidade assim de mulher” (P1, mulheres); “Da mesma forma que elas mostram que são lutadoras, mostram também que são mães de família [...]. São mulheres em si” (P3, homens); “[...] na mesma hora que elas conseguem mostrar que são lutadoras, elas conseguem mostrar a beleza, a erotização” (P4, homens).

Todos os grupos veem, nas imagens, atletas que também são mães, têm família, têm vida social, por isso são também mulheres. Percebe-se um discurso de um determinado padrão feminino, ou seja, a mulher deve seguir um padrão imposto pela sociedade, e quando a mulher foge a esse padrão parece estranho aos olhos das pessoas. Assim, os grupos se baseiam em uma lógica heteronormativa, que prevê certa linearidade entre ter um corpo de mulher, assumir comportamentos considerados femininos e se relacionar sexualmente com homens. Ser lutadora tensiona essa linha o que pode levar a busca por reforçar outras características (ser mãe, vaidosa, o cuidado com os outros). Quando a mulher escolhe praticar um esporte considerado como esporte masculino, se tornaria masculinizada, deixando de lado as questões do ser feminino. A percepção observada no grupo das mulheres mostra claramente que quando indivíduos fazem escolhas que destoam do comportamento esperado, esses indivíduos, no caso aqui as mulheres que lutam o MMA, estão sujeitos a todo tipo de julgamento: “tem um certo preconceito contra elas, porque as pessoas falam muito, ah é muito machão” (P3, mulheres); “Muita gente acha que só porque elas lutam, elas perdem esse lado feminino” (P1, mulheres).

Também foi identificado um discurso típico de uma sociedade que normaliza comportamentos e expectativas dentro dos padrões da heteronormatividade. “A força compulsória da heterossexualidade defini e designa funções sociais para os indivíduos e seus corpos”1515 Petry AR, Meyer D. Transexualidade e heteronormatividade: Algumas questões para pesquisa. Textos Contextos 2001;10(1):193-198. de tal forma que quando uma mulher escolhe uma profissão vista pela sociedade como “profissão masculina” ela já “perde” o lado “feminino”. Pode-se analisar aqui o verbo “perder”, como se a mulher “perder” este feminino hegemônico vá fazê-la menos mulher. Pelo trecho “são casadas”, percebe-se um discurso sempre presente na sociedade, como se a mulher para ser feliz e realizada precise ser casada; a profissão e as realizações profissionais muitas vezes, ou na maioria das vezes, não fariam as mulheres felizes e completamente realizadas, se completando no casamento.

Apesar de compartilharem da mesma percepção sobre a ambivalência que as imagens das lutadoras transmitem, os dois grupos apresentam diferenças discursivas de enorme significado simbólico. Mesmo sem imagens que mostrem as lutadoras no papel de mães, há, nas falas do grupo dos homens, referências aos papéis e funções socialmente esperados que sejam exercidos pelas mulheres, como o papel de mãe e esposa. Vê-se também a beleza e a erotização das atletas como requisitos indispensáveis para o ser mulher: “Da mesma forma que elas mostram que são lutadoras, mostram também que são mães de famílias [...]. São mulheres em si” (P3, homens); “[...] na mesma hora que elas conseguem mostrar que são lutadoras, elas conseguem mostrar a beleza e a erotização” (P4, homens). Observa-se um discurso enraigado no machismo estrutural, pois demonstra claramente que as mulheres precisam mostrar que são mães, que são esposas, que são sensuais, não bastando ser a lutadora campeã para ser uma mulher completa.

Em outra direção, pudemos observar, nos dois grupos focais, a argumentação de que, como há preconceito com o ato de mulheres participarem de lutas, a publicização das imagens dessas lutadoras em seus ofícios cumpre, em alguma medida, a função de amenizar as consequências do preconceito. Nesse sentido, reforça-se a noção de que o consumo de imagens “masculinizadas” de lutadoras subverte nossas associações cognitivas mais arraigadas e tensiona os limites corporais inerentes a uma visão binária de gênero. Em uma concepção determinista, o gênero é compreendido como estrutura binária que estabelece uma clara divisão entre homens e mulheres que “usualmente se concebem como polos opostos que se relacionam dentro de uma lógica invariável de dominação-subordinação”16:12. Mas atualmente, segundo a mesma autora17:23: “As possibilidades de viver os gêneros e as sexualidades ampliaram-se. As certezas acabaram. Tudo isso pode ser fascinante, rico e também desestabilizador”.

Embora a ascensão da participação das mulheres em diversas modalidades esportivas seja perceptível, há ainda um estigma implícito em torno da sexualidade das atletas no esporte feminino18, 19. Segundo Adelman20:449,

A persistência de grande ambivalência em relação ao significado da atividade física e esportiva das mulheres sugere que esta seja um dos mais importantes espaços de conflito relativos à definição da corporalidade feminina na atualidade, com certeza vinculado àquele outro campo de conflito, o da sexualidade. Portanto, torna-se interessante procurar entender exatamente o que está em jogo quando as mulheres se tornam atletas e, especificamente, atletas profissionais, identificadas com o esporte não só pelo prazer de praticá-lo, mas como forma de ganhar a vida e, ainda mais, participar de uma cultura, anteriormente masculina, que torna o/a atleta um símbolo do sucesso e da cultura nacional. Cabe perguntar em que medida a participação esportiva contribui para uma re-significação da corporalidade feminina, sendo possível também que prevaleça uma apropriação da atividade esportiva que consegue enquadrá-la dentro de padrões de normatividade social que reproduzem o controle (masculino, ou masculinista) sobre os corpos das mulheres.

Existe um medo na sociedade de que a participação em esportes incentive a homossexualidade ou até converta atletas mulheres em lésbicas e impeça que elas cumpram os convencionais papéis domésticos e maternos2121 Knight J, Giuliano T. Blood, sweat, and jeers: the impact of the media´s heterosexist portrayals on perceptions of male and female athletes. J Sport Behav 2003;26(3):272-284.. Historicamente diferentes técnicas/dispositivos servem de controle do corpo e da sexualidade atuando de forma a normalização dos sujeitos. No caso das mulheres, diferentes discursos e práticas (escola, família, igreja, ciências biomédicas, leis jurídicas) atuam significativamente no controle dos seus corpos de modo a associá-las sempre à figura de mãe e esposa2222 Foucault M. Vigiar e punir: História da Violência nas Prisões. São Paulo: Editora Vozes; 2001..

Essa percepção é observada apenas entre as participantes do grupo focal de mulheres universitárias: “eu acredito que muita gente olha, por exemplo, está lá assistindo a luta, ah, essa mulher deve ser lésbica [...] duvido, sapatão, não sei o que, duas mulheres se pegando, se esfregando, não sei o que” (P1, mulheres). Ainda que o moderador do grupo focal tenha provocado a discussão, os homens que participaram desta pesquisa silenciaram, desconversaram ou banalizaram a discussão: “Já existe esse negócio aí, mas é porque o povo se esconde, eu acho né [...] estou falando por causa da foto [...] Eu não, não vou ganhar dez centavos por isso aí, nem ligo” (P2, homens).

Percebe-se na fala do participante 2, um certo desprezo pela discussão da sexualidade da lutadora. Postura semelhante foi observada em jovens do Ensino Médio durante discussões relacionadas a identidade e relações de gênero. O estudo alerta para necessidade de incentivo ao engajamento envolvendo uma efetiva mudança de paradigmas masculinos, conscientizando para a desconstrução de masculinidades tóxicas2323 Queiroz AS. Identidade e relações de gênero na escola: Um olhar da análise de discurso crítica sobre o projeto mulheres inspiradoras. Cad Ling Soc 2018;19(3):85-104. Doi: 10.26512/les.v19i3.17428
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.

Quando não há desprezo, há silenciamento; postura que deve ser considerada na análise de grupo focal, já que a interação em grupo é a maior justificativa para utilização dessa técnica. Assim, as trocas entre participantes, os consensos, os dissensos, as rupturas, as descontinuidades e os silêncios merecem um olhar especial99 Gatti BA. Grupo focal na pesquisa em ciências sociais e humanas. Brasília: Líber Livro; 2005.. Esse silenciamento não significa, necessariamente, um consentimento, mas uma negociação diante de uma discordância em favor da aceitação do grupo, algo típico no processo de construção da masculinidade hegemônica. Sendo essa, segundo Connel e colaboradores2424 Connell RW, Messerschmidt JW, Fernandes FBM. Masculinidade hegemônica: Repensando o conceito. Rev Estud Fem 2013;21(1):241-282. Doi: 10.1590/S0104-026X2013000100014
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, normativa (e não normal/majoritária), produzida a partir de outras masculinidades consideradas subalternas e que legitima ideologicamente o domínio dos homens sobre as mulheres e também sobre outras formas de ser homem. Por isso, ela é reforçada para que o grupo aceite uma maneira de pensar.

Na tentativa de voltar à discussão referente à sexualidade das lutadoras, o moderador do grupo questionou sobre as possíveis influências para a escolha de que imagens postar. O participante 1, acha “que sim [...], tem a questão de ser um casal, existe um preconceito em si, no caso de duas mulheres se relacionar, mas na minha opinião [...] achei as três fotos normais” (P1, homens).

Percebemos inicialmente uma negociação e um cuidado na exposição de posicionamento contrário ao que tinha sido exposto anteriormente no grupo; na sequência, a discussão perde novamente seu direcionamento inicial: “Tipo assim, a gente quer associação e identificação [...] se a gente se identificar [...] fica mais simples e mais aceitável” (P2, homens).“Se tira então pelo o Pablo Vitar, que foi eleito a mulher mais sexy do Brasil” (P1, homens).

A gente sabe que isso vende

Nessa categoria, reunimos as falas que contemplaram a discussão sobre a objetificação do corpo da mulher atleta no MMA. Apesar de não privilegiarmos em nossa análise apenas a contagem de ocorrências terminológicas, mas sim o valor de significação das palavras, não pudemos deixar de notar as diferenças de adjetivos entre o grupo focal dos homens e a discussão do grupo das mulheres.

Os homens adjetivaram as mulheres como: “Gracinha, delicinha” (P2, homens), “Delicinha” (P3, homens), além de coisinha, bonita e monstro. A palavra forte - referente a força, elemento característico das modalidades de lutas - usada para adjetivar as lutadoras aparece quatro vezes. No grupo das mulheres os adjetivos foram: “Olha essa daqui, são muito bonitas” (P1, mulheres); “Só vejo mulheres lindas, fortes” (P3, mulheres), além de fofa, musa e estranha. O adjetivo forte, foi usado para caracterizar as lutadoras 14 vezes.

Tanto a aceitação da beleza como atributo natural das mulheres, como pensar que o olhar masculino é uma atividade natural, que seja passiva ou neutra2525 Shaw IS. O corpo feminino na propaganda. In: Lyra B, Santana G, organizadores. Corpo & Mídia. São Paulo: Arte & Ciência; 2003., são descontruídos no pensamento de Simone de Beauvoir2626 Beauvoir S. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 2016., que nos ensina que o corpo da mulher é visto como parte da natureza feminina, e sua humanidade e subjetividade são constantemente tolhidas culturalmente. “O corpo feminino é objetivado porque o homem se define através da objetificação da mulher”25:199; assim, o corpo da mulher é visto como objeto, e facilmente fragmento em partes:“Oh, eu só vi o Dana White quando você falou, por que eu estava olhando, só [...] perninha, biquininha” (P2, homens).

A exposição regular às experiências objetificadoras implica no modo de socialização de meninas e mulheres, contribuindo para levá-las a internalizar essa visão de si mesmas como um objeto, reforçando a ideia de que seu valor é dependente da sua aparência2727 Kroon Van Diest A, Perez M. Exploring the integration of thin-ideal internalization and self-objectification in the prevention of eating disorders. Body Image 2013;10:16-25. Doi: 10.1016/j.bodyim.2012.10.004
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. Adelman20:448 (2003, p. 448) problematiza: “O corpo feminino ‘ideal’ é magro e firme, embora não ‘musculoso demais’ - e requer muitas horas de trabalho, de investimentos em tempo e dinheiro que, com certeza, não estão à disposição de uma boa parcela da população feminina”.

Ao constatarem que uma das lutadoras em análise já foi por algum tempo a principal atleta da organização UFC - entre mulheres e homens - os(as) participantes concordam que “ela lutava pelo fato da beleza” (P1, homens), e que a atratividade das lutadoras “influencia demais” (P2, homens), “principalmente no caso do MMA feminino” (P1, homens). Buscando compreender um pouco mais essas afirmações, questionamos de que forma a aparência pode influenciar para que uma lutadora seja escolhida como a primeira do ranking da organização. Eles(as) acreditam “que venda mais por conta da beleza dela” (P4, homens), e que se além da aparência “uma bonitinha ganhar de uma ‘nega monstra’ [...] rapaz, vai no céu” (P2, homens). Os diálogos apresentam uma naturalização na ênfase da atratividade da lutadora e que essa falta de atratividade pode ser amenizada caso seja uma excelente lutadora: “Da mesma forma que a Cris Cyborg não tem a beleza dela, mas é uma ótima lutadora também” (P1, homens).

Os(as) participantes demonstram perceber que no caso do MMA, outras questões estão em negociação para a promoção de uma lutadora. Critérios para ranqueamento do UFC são alvos de polêmicas entre as próprias lutadoras2828 Bruno G. Calvillo critica Mackenzie Dern e detona ranking do UFC [Internet]. Esporte UOL [acesso 2018 dez 23]. Disponível em: <https://esporte.uol.com.br/ultimas-noticias/ag-fight/2018/11/15/calvillo-critica-mackenzie-dern-e-detona-ranking-do-ufc-e-sobre-ser-popular-ou-nao.htm>.
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. Além disso, um(a) atleta profissional tem outras fontes de renda e patrocínios. Para os(as) participantes, mostrar a “sensualidade e vendendo o produto [...] a gente falou da beleza naquela hora, justamente eles pegaram elas, porque elas são bonitas, e sabe dizer com a imagem” (P2, homens).

A ascensão da sexualização das lutadoras de MMA não só banaliza a participação das mulheres na modalidade como é prejudicial para o desenvolvimento do próprio esporte, na medida em que os corpos apresentados são padronizados dentro de uma cultura heteronormativa, excluindo possíveis talentos que não se enxergam dentro da modalidade66 Channon A, Quinney A, Khomutova A, Matthews CR. Sexualisation of the fighter's body: Some reflections on women's mixed martial arts. Corps 2018;16:383-391. Doi: 10.3917/corp1.016.0383
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.

Estudos realizados com adultos(as), mulheres e homens, evidenciaram que as imagens sexualizadas de atletas mulheres não aumentam o interesse ou apoio ao esporte feminino, e que há maior probabilidade de interesse pelo esporte quando as imagens ressaltam a competência atlética das mulheres2929 Kane MJ, Maxwell H. Expanding the boundaries of sport media research: Using critical theory to explore consumer responses to representations of women's sports. J Sport Manag 2011;25:202-216. Doi: 10.1123/jsm.25.3.202
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. Os resultados não diferem quando o foco da pesquisa são adolescentes. Nesse caso, não só o interesse é maior quando o foco da mídia são as capacidades esportivas das mulheres, como também é relatado que as imagens os fazem querer praticar um esporte3030 Heywood L, Dworkin S. Built to win: The female athlete as cultural icon. Minneapolis: University of Minneapolis Press; 2003..

Luta como um homem

O esporte ainda é um espaço de forte marcação de gênero; como exemplo, os títulos de competições com participação de mulheres contêm legendas agregadas: futebol feminino, vôlei feminino e, no caso do MMA, temos o WMMA para se referir à participação feminina. O desempenho masculino é sempre utilizado como critério de comparação, e esse discurso é sempre repetido e reproduzido: “Nem parece ser uma mulher, luta como um homem” (P3, mulheres). A utilização de exemplos de atletas homens também se faz presente, como demonstra a fala de uma das participantes:

Como por exemplo, o Anderson Silva, ele fraturou a canela e passou muito tempo sem lutar, mas ele não deixava de vender, ele continuava vendendo a imagem dele [...]. A gente dá muito exemplo de homens, porque os homens sempre estão mais em evidência do que as mulheres [...] tem mais exemplos masculinos (P3, mulheres).

Percebe-se um reconhecimento do padrão de discurso que é reproduzido, e também há consciência sobre a falta de representatividade midiática das lutadoras, o que favorece a referência masculina como padrão no MMA.

Nos diálogos no grupo focal com os homens evidenciamos novamente comparação da competência das mulheres tendo como referencial os homens. No entendimento dos participantes, o lutador homem “[...] fica muito estudando, eu observo isso” (P2 homens); são mais cautelosos e, por isso, usam como estratégia a observação do adversário, enquanto as mulheres são mais impulsivas, “as mulheres lutando é o tempo todo em cima” (P2 homens). Essa fala remete ao fato de que não há estratégia de observação da adversária; “o tempo todo em cima” significa, nesse contexto, agir por impulso, agressividade irracional. Na sequência dos diálogos, quando o mesmo participante argumenta novamente, percebemos uma contradição no discurso. Para ele a “mulher é mais racional, por isso elas são mais objetivas, mulher é mais racional que a gente, naturalmente elas já nascem assim, mulher é muito mais racional que homem” (P2, homens). No entanto, a justificava remete à natureza da mulher, ou seja, a racionalidade da mulher é uma característica determinada biologicamente.

Para outro participante, a diferença das estratégias de lutas entre mulheres e homens é a “questão do respeito entre os homens [...], qualquer vacilo para o homem, normalmente o peso da mão na hora que entrar vai ser totalmente diferente [...]. Mulher já não tem essa força toda com a mão” (P1 homens).

Percebemos mais uma comparação muito comum no contexto esportivo, a comparação entre o modo de jogar de mulheres e homens, referindo-se ao comportamento corporal das mulheres como menos eficientes do que o dos homens: “Porque luta não é vista como algo feminino, algo para as mulheres. Praticamente você não vê em qualquer lugar, na escola, na rua, brigando [...], tapas você vê mulher [...] mulher, você vê brigar mais por relacionamento” (P2, homens). Nesse caso, a comparação é entre o jeito como as mulheres batem, que geralmente é caricaturado com tapas - em vez de socos - sustentados por braços descordenados, sem utilização do tronco. A dificuldade em realizar um soco forte ou mais eficiente, geralmente é justificada pela manifestação de uma diferença biológica entre homens e mulheres, ou seja, uma “atitude feminina” de comportar-se e movimentar-se.

Para Íris Young3131 Young I. Trowing like a girl: A phenomenology of feminine body comportment motility and spatiality. Human Studies 1980;3:137-156., a explicação de que a diferença observada entre o modo de jogar/lançar/socar de meninas e meninos seja essencialmente biológica é equivocada. A autora, a partir das ideias da teoria do corpo vivido (de Merleau-Ponty) e da teoria da situação da mulher (de Simone de Beauvior), compreende que as modalidades do comportamento corporal feminino motilidade e espacialidade existem num estado de tensão entre transcendência do sujeito e imanência do objeto. A experiência da mulher de posicionar-se e movimentar-se é comprometida culturalmente. Assim, numa sociedade fundamentada na lógica patriarcal, essa experiência é formada na relação que a mulher tem com seu corpo objetificado, e o comportamento corporal feminino é resultado da tensão entre transcendência e imanência, tendo o olhar do outro como ponto de referência3131 Young I. Trowing like a girl: A phenomenology of feminine body comportment motility and spatiality. Human Studies 1980;3:137-156.,2525 Shaw IS. O corpo feminino na propaganda. In: Lyra B, Santana G, organizadores. Corpo & Mídia. São Paulo: Arte & Ciência; 2003.. É importante ressaltar que a temática “comparação” não foi em nenhum momento provocada pela moderação das sessões, essa comparação surgiu na dinâmica das interações, tanto no grupos dos homens quanto no grupo das mulheres.

Representatividade importa

As imagens em análise possibilitaram a interação grupal versando sobre o quanto eram representativas, ou também sobre a falta de representatividade percebida nas trocas de diálogo ou na falta desse. Os dois grupos concordam com o quanto as imagens são importantes para quebrar preconceitos ou são modelos para outras pessoas, “uma base, influência para muitas pessoas que treinam [...]. Você acaba sendo um exemplo” (P4, homens).

Na percepção dos homens, as imagens postadas pelas lutadoras podem influenciar positivamente outras meninas e mulheres para a prática da luta. Colaborando com a opinião dos homens, as mulheres compreendem que o preconceito existente é justamente por falta de visibilidade, “porque, na verdade, em tudo a mulher tem aparecido mais [...]. Mas essa coisa de ser mais masculinizado é justamente porque a mulher não tinha espaço e muitas coisas que eram vistas como só para homens” (P3, mulheres).

Entre as 18 imagens usadas no grupo focal, não tínhamos uma representativa de lutadoras negras, e essa ausência não foi comentada em nenhum dos grupos. Outra representatividade que não foi notada foi a de mulheres mais pesadas. Nas competições do UFC, são quatro categorias femininas e oito categorias masculinas. As quatro categorias femininas e seus respectivos pesos são: peso palha (até 52kg); peso mosca (até 56,7kg); peso galo (até 61,2 kg); e peso pena (até 65,7 kg) - após o UFC 232, em 29/12/2018, a categoria pesopena não consta mais no ranking da organização.

Como não surgiu espontaneamente, a questão que envolve a normatização de padrões corporais das atletas de MMA foi provocada pelo mediador do grupo focal. A partir dessa estimulação, o grupo dos homens considerou que o padrão corporal é o único ponto de diferença entre o MMA feminino e o masculino, “porque quanto mais o corpo bonito, quanto mais harmonia corpo e rosto para a mulher é mais aceita, e negativamente se você não tiver isso” (P2, homens). Segundo eles,

[...] no MMA masculino são dois padrões, segue dois padrões [...], acredito que todo mundo aqui conhece o gordinho [Roy Nelson] do UFC, o cara é um excelente lutador, você vê que o padrão dele [...] é tanto quando ele finaliza a luta oh... (a fala é interrompida com o gesto de bater na barriga) [...], já no feminino segue só esse [...] acredito que exclui sim, com certeza algumas lutadoras com mais talento, mas que não tenha esse padrão e físico (P1, homens).

A diferença que os participantes do grupo focal de homens percebem entre o MMA feminino e o masculino é preocupante, já que, segundo eles, no caso do MMA feminino além do talento enquanto lutadora, a aparência é importante para o sucesso das mulheres nessa modalidade. A preocupação refere-se não só pela permanência de que a sensualidade continue desempenhando papel de maior definição do valor social dos corpos das lutadoras, mas também as práticas excludentes que demarcam o conjunto limitado de corpos femininos que são valorizados66 Channon A, Quinney A, Khomutova A, Matthews CR. Sexualisation of the fighter's body: Some reflections on women's mixed martial arts. Corps 2018;16:383-391. Doi: 10.3917/corp1.016.0383
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Algumas imagens possibilitaram a discussão sobre a sexualidade das atletas e o impacto que essas imagens podem causar negativamente para a marca das lutadoras enquanto atletas conceituadas, consequentemente pessoas públicas. Os(as) participantes concordam que, apesar dos avanços, a sociedade ainda é muito preconceituosa, sobretudo no contexto esportivo, espaço constituído de uma masculinidade hegemônica. Uma das participantes comenta sobre a pressão que as lutadoras homossexuais sofrem nas redes sociais e sobre a coragem de assumirem tal condição: “Eu acho que elas devem ter muito medo por causa disso, preconceito, mas em contrapartida devem ser muito corajosas, elas enfrentam isso no treino, na luta mesmo, elas talvez não tenham medo de se expor, não sei” (P4, mulheres).

As mulheres participantes percebem o preconceito que as lutadoras devem sofrer por expor sua sexualidade, por conseguinte compreendem como ato de coragem tal exposição em um espaço que potencializa os discursos heteronormativos. No entanto, elas questionam o posicionamento mais ativo das atletas em relação à defesa da causa LGBTQ+: “existe o movimento LGBT e eu particularmente nunca prestei atenção de ver elas apoiando esse tipo de movimento” (P1, mulheres).

O grupo das mulheres também interpreta que as imagens das lutadoras representam empoderamento e emancipação da mulher. Na percepção delas, ainda que em algumas fotos as lutadoras se autoapresentem dentro de um padrão de feminilidade hegemônica, “em nenhuma das fotos mostra uma mulher vulnerável, uma mulher coitadinha [...] em nenhuma mostra uma mulher submissa(P3, mulheres). Após provocação do moderador, os homens concordam que são imagens que, em certa media, traduzem empoderamento feminino: “Essa foto aí sim” (P1, homens). No entanto, a discussão não segue no sentido de compreender melhor sobre como as imagens podem apresentar as lutadoras como mulheres empoderadas, mas mais um participante posiciona-se sobre o significado das imagens. “No meu pensamento as mulheres já são emancipadas [...] eu não vejo diferença hoje na sociedade” (P2, homens).

Essa falta de compreensão, por parte dos homens, da luta das mulheres por ampliação dos direitos civis e políticos, demonstra falta de conhecimento de que “meninas e mulheres continuam tendo um papel subalterno no tecido social e familiar”32:524, e que a conquista de direitos, sobretudo da mulher, não é permanente; a vigilância deve ser constante.

Imagens de mulheres em desacordo com o senso tradicional de feminilidade representam emancipação feminina. A participação das mulheres no esporte, sobretudo naqueles profundamente marcados por gênero - que incorporam e exemplificam certas narrativas tradicionais de masculinidade - é, por si, uma postura emancipada; considerando que essa participação quebra paradigmas socialmente construídos e naturalizados como normalidade.

Porém, além das imagens que apresentam mulheres com olhar de superioridade, determinadas, fortes e musculosas, também foram apresentadas imagens em que a ideia de empoderamento está associada a uma mulher com uma marca de classe, ilustrada a partir da exaltação de um perfil ostentador de consumo. A ideia de empoderamento feminino baseada em conquistas individuais não compreende uma perspectiva de empoderamento social, e passa de uma acepção de conquistas coletivas a uma versão individualizada3333 Hamlin C, Peters G. Consumindo como uma garota: Subjetivação e empoderamento na publicidade voltada para mulheres. Lua Nova 2018;103:167-202. Doi: 10.1590/0102-167202/103
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Considerações finais

Este estudo explorou a dinâmica das interpretações de mulheres e homens universitários a partir de imagens de lutadoras de MMA, todas campeãs ou ex-campeãs do UFC, organização que na atualidade detém hegemonia nas competições de MMA. Na percepção dos(as) participantes da pesquisa, as lutadoras usam o Instagram com a finalidade própria dessa plataforma, divulgando suas vidas pessoais dentro e fora do contexto esportivo.

Os resultados evidenciaram a permanência de estereótipos sobre a participação da mulher em esportes que reforçam os ideais de masculinidade normativa, com o olhar dos homens participantes da pesquisa tendencioso para a objetivação do corpo das lutadoras. Já as participantes mulheres parecem ser mais sensíveis às diversas formas de vivenciar o ser mulher. As mulheres também demonstraram ser mais conscientes do processo histórico de luta das mulheres por igualdade de direitos. Os homens tenderam a se silenciar ou a banalizar tal discussão. Para os homens, a atratividade da lutadora influencia no desenvolvimento da carreira das atletas da organização UFC. As mulheres percebem os desafios e a coragem das lutadoras em análise.

Evidenciamos nos dois grupos a tendência de comparação entre mulheres e homens no esporte, com a permanência do discurso biologicista como determinante das diferenças. Os dois grupos também se assemelham no reconhecimento de que a veiculação das imagens de proeminentes lutadoras de MMA pode influenciar outras meninas e mulheres na prática das modalidades de lutas. Na percepção dos(as) participantes da pesquisa, as imagens analisadas transmitem a ideia de empoderamento das mulheres. No entanto, os dois grupos não notaram a ausência da representatividade de lutadoras negras e de lutadoras com padrão corporal fora do normalizado socialmente.

A partir dos dados e discussões apresentados na pesquisa pelos(as) seus(suas) participantes, constata-se que a autoapresentação das lutadoras negocia, em certa medida, a inconformidade de uma feminilidade normalizada no espaço masculino do UFC. Observa-se também que a coexistência de diferentes fatores (gênero, sexualidade, classe, raça e padrão corporal) e como eles se interseccionam no contexto das organizações que promovem o MMA, constroem poder, privilégios e hierarquias.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Nov 2020
  • Data do Fascículo
    2020

Histórico

  • Recebido
    07 Maio 2019
  • Revisado
    30 Abr 2020
  • Aceito
    10 Jun 2020
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