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A influência da Jean-Claude Gardin e a linha francesa na evolução do conceito de linguagem documentária

The influence of Jean-Claude Gardin and the French approach on the evolution of documentary language's notion

Resumos

Revisão bibliográfica sobre a evolução das Linguagens Documentárias na Documentação e seu campo de estudo, a Lingüística Documentária. Apóia-se nas pesquisas desenvolvidas pela linha francesa na Europa, notadamente por Jean-Claude Gardin, e no Brasil, pelo Grupo Temma. Propõe-se um quadro das principais características das Linguagens Documentárias tendo como foco a apropriação da noção de estrutura da Lingüística Estrutural pela Documentação. Analisa-se a evolução da denominação das Linguagens Documentárias, as funções por elas exercidas, e uma comparação entre as duas linhas.

Linguagem documentária; Lingüística documentária; Linha francesa; Linha brasileira; Jean-Claude Gardin


Bibliographic review study on the evolution of Documentary Languages and its field of study, the Documentary Linguistics. Based upon the researches developed by the French approach in Europe, notably by Jean-Claude Gardin, and in Brazil, by Grupo Temma. It is proposed a framework of the main characteristics of Documentary Languages having the appropriation of the Structural Linguistics by the Documentation as a focus. It analyses the evolution of the denomination of Documentary Languages, their functions, and it compares both approaches.

Documentary language; Documentary Linguistic; French Approach; Brazilian Approach; Jean-Claude Gardin


A influência da Jean-Claude Gardin e a linha francesa na evolução do conceito de linguagem documentária

The influence of Jean-Claude Gardin and the French approach on the evolution of documentary language's notion

Michely Jabala Mamede Vogel

Escola de Comunicação e Arte-ECA/USP

RESUMO

Revisão bibliográfica sobre a evolução das Linguagens Documentárias na Documentação e seu campo de estudo, a Lingüística Documentária. Apóia-se nas pesquisas desenvolvidas pela linha francesa na Europa, notadamente por Jean-Claude Gardin, e no Brasil, pelo Grupo Temma. Propõe-se um quadro das principais características das Linguagens Documentárias tendo como foco a apropriação da noção de estrutura da Lingüística Estrutural pela Documentação. Analisa-se a evolução da denominação das Linguagens Documentárias, as funções por elas exercidas, e uma comparação entre as duas linhas.

Palavras-chave: Linguagem documentária; Lingüística documentária; Linha francesa ; Linha brasileira. Jean-Claude Gardin.

ABSTRACT

Bibliographic review study on the evolution of Documentary Languages and its field of study, the Documentary Linguistics. Based upon the researches developed by the French approach in Europe, notably by Jean-Claude Gardin, and in Brazil, by Grupo Temma. It is proposed a framework of the main characteristics of Documentary Languages having the appropriation of the Structural Linguistics by the Documentation as a focus. It analyses the evolution of the denomination of Documentary Languages, their functions, and it compares both approaches.

Keywords: Documentary language; Documentary Linguistic; French Approach;. Brazilian Approach. Jean-Claude Gardin.

1 Introdução

O conceito de Linguagem Documentária vem sido construído bem como as metodologias e instrumentos que a Ciência da Informação emprega para aperfeiçoar a indexação e a busca da informação. Da simples identificação de ocorrência e freqüência dos termos na literatura, passou-se a propor o arranjo organizacional dos termos que tem na noção de estrutura lingüística uma de suas referências principais.

Jean-Claude Gardin, pesquisador francês da área da Documentação, e seus colegas da própria França e da Espanha, vêm, desde a década de 60, investigando a questão das Linguagens Documentárias. E é através do estudo de seu trabalho que esta pesquisa buscou fazer um retrospecto do conceito da Linguagem Documentária, de acordo com a vertente francesa e seus desenvolvimentos tanto na França como no Brasil pelo Grupo Temma. Aborda-se, assim, o campo de estudos das Linguagens Documentárias e a evolução de seu conceito, e são propostos quadros comparativos da das duas vertentes, francesa e brasileira, e com algumas indicações do que pode ser considerado o estado atual do conceito de Linguagem Documentária.

2 A evolução do conceito de linguagem documentária

Passaremos agora a algumas contribuições de GARDIN à frente da vertente francesa, e seus desdobramentos por GARCÍA GUTIÉRREZ (Espanha) e por HUTCHINS (Inglaterra), quem seguem a abordagem de Gardin, e por isso considerados autores da linha francesa; em seguida, observamos os estudos do Grupo Temma, representando a vertente brasileira e que teve nessa linha sua origem.

A diversidade de denominações e funções das Linguagens Documentárias é grande. A dissertação de Wanderley, citado por DODEBEI (2002, p.40), em 1973, apresentou um levantamento das denominações que as Linguagens Documentárias receberam ao longo do tempo. Elas foram chamadas de 'linguagens de indexação', por Melton, de 'linguagens descritoras', por Vickery, de 'codificações documentárias', por Grolier, de 'linguagens de informação', por Soergel, de 'vocabulários controlados', por Lancaster, de 'lista de assuntos autorizados', por Montgomery, e também de 'linguagens de recuperação da informação' ou 'linguagens de descrição de informação' (WANDERLEY, 1973, p.173 citado por DODEBEI, 2002, p.40).

Podemos, aqui, destacar diferentes traços: os instrumentos para realizar o processo (Melton), a função de descrição (Vickery), a artificialização (Grolier, Lancaster, Montgomery), o propósito (Soergel) e a função de recuperação. No entanto, é na denominação da linha francesa que serão enfatizados os aspectos de linguagem nessas ferramentas, como veremos a seguir.

2.1 A linha francesa

A linha francesa é representada por autores como GARDIN, COYAUD, CHAUMIER, o espanhol GARCÍA GUTIÉRREZ e o inglês HUTCHINS.

Jean-Claude GARDIN é um dos primeiros autores a reconhecer que a atividade de representação documentária se desenvolve no universo da linguagem. Uma das grandes contribuições do responsável pela introdução do termo ‘Análise Documentária' na literatura da Documentação, foi utilizar os parâmetros lingüísticos para propor a organização de Linguagens Documentárias, (LARA, 1999, p.52-4), o que mostra seu pioneirismo. Para GARCÍA GUTIÉRREZ, que cunhou ‘Lingüística Documentária': "Usava-se o termo 'linguagem' para denominar instrumentos classificadores desprovidos de essência lingüística. Isso até o aparecimento das linguagens combinatórias que inspiraram, despertaram um maior interesse pela lingüística"i i Todas as traduções dos textos em idiomas estrangeiros constituem tradução livre da autora. (1990, p.76).

Em 1966, GARDIN apresenta com o Léxico Documentário, a idéia do que viria a ser conhecido como Linguagem Documentária. Sua definição é "uma lista de termos, organizados ou não, quer servem à indexação documentária", ou ainda, um inventário das correspondências entre os termos dessas listas e as palavras ou frases em linguagem natural que eles representam (1966, p.175). Nessa época, COYAUD fala de "um sistema de signos" que permite a comunicação entre usuário e documentalista quando o primeiro busca um documento ou referência, a que chama de Linguagem Documentária (1966, p.5), e associa a Linguagem Documentária à comunicação.

CROSS e outros (1968, p.26), em pesquisa coordenada por GARDIN, já adotam o termo Linguagem Documentária em seu trabalho. Os autores afirmam que Linguagem Documentária é "todo conjunto de termos, e em alguns casos de procedimentos sintáticos convencionais, utilizados para representar certo conteúdo de documentos científicos, para fins de classificação ou de pesquisa retrospectiva de informação". Para eles, utilizamos as Linguagens Documentárias, com duas finalidades: 1) 'condensar' o conteúdo de textos científicos, a fim de acelerar a consulta, ainda que haja certa perda de informação; 2) normalizar a expressão desse conteúdo para que noções ou temas análogos sejam sempre designados pelos mesmos termos ou grupos de termos.

Mais tarde, em artigo sobre Análise Documentária e Lingüística, GARDIN passa a utilizar o termo 'Linguagem Informacional', que seria usado para as classificações e Linguagens de Indexação, cobrindo tanto listas de termos de índice ou descritores (1973 p.141). Em outro trabalho, GARDIN também usa o conceito de metalinguagem, como um sistema simbólico que faz a mediação entre textos e sua representação (GARDINii, 1974, citado por KOBASHI, 1989, p.48). O autor queria ressaltar o caráter simbólico do vocabulário organizado para gerar as representações de textos, e por isso emprega o termo 'metalinguagem' mas sem substituir por ele o termo Linguagem Documentária. Concomitantemente, CHAUMIER, trabalha com as ‘linguagens documentais', classificando-as em dois grupos: linguagens combinatórias (léxicos) e linguagens de estrutura hierárquica (classificações). Posteriormente, CHAUMIERiii (1978, p.17, citado por TÁLAMO, 2001, p.145) destaca que "embora a noção de linguagem documentária seja tão antiga quanto os primeiros sistemas documentários, sua utilização nem sempre foi acompanhada do rigor necessário".

Para HUTCHINS as Linguagens Documentárias são meios de comunicação em sistemas de informação (1975, p.3) entre documentos e leitores potenciais (idem, p.9). Em nota de rodapé o autor afirma que as Linguagens Documentárias são abrangentes; ele considera dois tipos: Linguagens Classificatórias, como os sistemas de classificação decimal, e Linguagens de Indexação como os tesauros. HUTCHINS demonstra a necessidade de caracterizar os instrumentos que apresentam um espectro mais amplo de relações entre seus termos como sendo mais característicos de uma 'linguagem' em seu sentido efetivo. Para o autor, "as propriedades estruturais características das Linguagens Documentárias são largamente determinadas pelos seus requisitos funcionais particulares" (idem, p.11).

GARCÍA GUTIÉRREZ e LUCAS FERNÁNDEZ definem Linguagem Documentáriaiv como linguagens que "oferecem normas para indexar univocamente os documentos e as demandas estabelecidas pelos usuários com o fim de produzir mínimos índices de ruído e silêncio documentário" (1987, p.67). Os autores destacam as funções de organização ou classificação dos dados de um campo científico, técnico ou especializado e a unificação dos critérios de análise da informação na fase de entrada do sistema, com os da recuperação da informação, na fase da saída. GARCÍA GUTIÉRREZ ressalta a noção estrutural da Linguagem Documentária, ao apresentá-la como um sistema híbrido "com estrutura e funções próximas (...) aos sistemas naturais" (1990, p.33). A significação ocorre como resultado das relações de oposição, noção fundante do conceito de estrutura. Além disso, o autor pensa a Linguagem Documentária como um instrumento comutador e referencial do sistema (1990, p.79), cuja função é estritamente informativa (idem, p.70), e que intervém como mediadora nos processos de Análise Documentária (idem, p.71).

Mais tarde, GARCÍA GUTIÉRREZ define Linguagem Documentária como um "dispositivo léxico construído artificialmente para a análise e a recuperação de um sistema de informação" (1998, p.90). Neste momento, o autor sugere trabalhar a Linguagem Documentária como Linguagem Epistemográfica, que seria uma linguagem associativa, baseada em estruturas de organização horizontal, criada a partir de cenários que reproduzem construções discursivas em uma área do conhecimento, de modo a evidenciar o caráter enunciativo da linguagem. A este novo instrumento o autor denomina.

Pode-se afirmar que, a partir dos anos 80, a linha francesa passa a trabalhar com o termo Linguagem Documentária, que engloba características já levantadas desde os anos 60, e que foram sucessivamente refinadas e enriquecidas. Assim, poderíamos dizer que, em relação à sua denominação, as Linguagens Documentárias receberam diversas denominações, dispostas no quadro a seguir, e acreditamos que as Linguagens Documentárias trazem um pouco de cada um desses conceitos:

Quanto às suas funções, os autores concordam sobre o caráter organizador das Linguagens Documentárias, como também sobre seu papel de intermediação entre informação (do sistema) e usuário. Propomos o seguinte quadro de funções das Linguagens Documentárias:

É possível ver que, progressivamente, também as características formais das Linguagens Documentárias foram sendo refinadas. De uma lista de termos, vão a léxico, passam a incorporar a necessidade de procedimentos sintáticos, até serem reconhecidas formalmente como estruturas com significação dada pelo uso. Ou seja, a partir de uma lista com a finalidade de indexar, as Linguagens Documentárias efetivamente adquirem características de linguagem, o que contribui enormemente para superar a noção de uma lista de termos usados para representar conteúdos de documentos.

3.2 A linha brasileira

Formado em 1986, o Grupo Temma é composto, em sua maioria, por pesquisadores e professores do Departamento de Biblioteconomia e Documentação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, e integra, também, alguns pesquisadores da UNESP-Marília. Sua preocupação principal se dirige à construção de conhecimentos relacionados à organização da informaçãov v Mais informações sobre o Grupo Temma podem ser obtidas no Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil, CNPq. http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional/resultbusca.jsp?campo=grupo&uf=branco&instituicao=branco&grandearea=branco&area=branco&regini=0&setorbranco&texto=Grupo+Temma&tipo=AND [Acesso em: 14.12.2006]. . Inicialmente organizado em torno da noção de Análise Documentária, vai progressivamente alterando seu vocabulário para aproximá-lo das questões gerais de organização da informação. Gostaríamos ressaltar o papel da professora doutora Johanna W. Smit, do Departamento de Biblioteconomia e Documentação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Nos anos 70 ela estudou na França com Jean-Claude Gardin e trouxe ao Brasil muito de suas idéias, com o que formou o Grupo Temma, e logo em seguida coordenou a publicação do livro Análise documentária: a análise da síntesevi, considerado literatura de referência para a Documentação, e cujos textos são citados neste trabalho.

Apresentamos agora uma retrospectiva do uso do termo Linguagem Documentária pelo Grupo Temma que apresenta muito em comum com a linha francesa.

CINTRA, no início dos anos 80, demonstra a característica de linguagem ao afirmar que as Linguagens Documentárias "possuem uma gramática que corresponde a um conjunto de regras ou instruções (relações booleanas, indicadores de funções, etc.)" (1983, p.5).

Poucos anos mais tarde, no livro organizado por SMITvii, VALE (1987, p.14) trabalha com o conceito de linguagem de indexação, observando que sua importância para "a eficácia de um sistema de recuperação de informação". No mesmo livro, CUNHA (1987, p.41) fala de Linguagem Documentária como gênero de léxico que serve para a "conversão entre conceitos apresentados de forma independente nas diversas linguagens, e conceitos de leitura "universal" definidos pela própria Análise Documentária".

Para discutir a questão da recuperação de informações, GUIMARÃES (1988, p.5) emprega o termo ‘linguagem de indexação'. Ele também a adota a divisão feita por CHAUMIERviii (citado por GUIMARÃES, 1988, p.86), de linguagens de estrutura hierárquica, que abrangem os sistemas de classificação, e linguagens de estrutura alfabética ou combinatória, como os índices e tesauros. GUIMARÃES pensa as Linguagens Documentárias como linguagens artificiais ou linguagens de indexação, que visam "ao controle do vocabulário e à padronização da linguagem no processo de busca" (1988, p.89), e são elaboradas com o objetivo de transmissão do conteúdo dos documentos. Os termos dessas linguagens não teriam "em primeiro plano, o compromisso de serem fiéis ao vocabulário do usuário" (idem, p.103), mas uma fidelidade com o vocabulário especializado (idem, p.103). A linguagem de indexação, cujo fim seria "representar o significado e o conteúdo dos documentos a serem recuperados através do índice" também é citada por FUJITA em 1988 (1988, p.24-25) e em 1992, como "um sistema de representação do conteúdo dos documentos e das perguntas, tendo como finalidade a recuperação dos documentos. Para isso é dotada de estrutura própria, controlada, padronizada e hierarquizada" cujo fim é "assegurar o controle do vocabulário para assuntos gerais e específicos". A autora considera o tesauro como a Linguagem Documentária mais característica.

CUNHA define Linguagem Documentária como uma "gramática, sintaxe construída a partir de um campo semântico previamente determinado" (1990, p.65). Ela propõe uma diferenciação quanto ao termo Linguagem Documentária, no singular, como sistema geral, e Linguagens Documentárias, no plural, como os "processos diversificados capazes de traduzir conteúdos de documentos em informações" (idem, p.19).

Para LARA, Linguagens Documentárias "são tradicionalmente denominadas instrumentos comutadores ou de conversão, uma vez que permitem representar a informação presente numa determinada forma lingüística em outra forma, dita documentária" (1993, p.4 – nota de rodapé 2). LARA vê as Linguagens Documentárias como "sistemas de significação, com a função de normalizar os conceitos de área, controlar seu uso e viabilizar a interface documentação-usuário" (idem, p.66). No entanto, a autora sugere trabalhar as distinções entre a Linguagem Documentária e instrumentos que têm características parecidas. Assim, as Linguagens Documentárias "não são taxionomia ou nomenclatura, não podendo pressupor, portanto, biunivocidade da relação significado-significante" (1993, p.78). Também não seriam léxicos, vocabulários, nomenclaturas ou terminologias, e nem metalinguagens (idem, p.70-71). Os léxicos seriam "conjunto das unidades que formam a língua de uma comunidade, atividades humana etc" (DUBOIS e outros, 1988, citados por LARA, 1993, p.70); os vocabulários, "conjunto das ocorrências que integram um determinado corpus discursivo, como uma lista de unidade da fala" (idem); a nomenclatura, um instrumento que pressupõe "biunivocidade da relação significante-significado" (ibidem); as terminologias, "conjunto de termos de uma área, definidos rigorosamente para designar as noções que lhes são úteis" (idem), e a metalinguagem, "uma semiótica cujo plano de conteúdo é, ele próprio, uma semiótica (HJELMSLEV, 1975, citado por LARA, 1993, p.71)".

LARA também fala de uma característica comunicativa, tal como COYAUD na linha francesa, e associa as Linguagens Documentárias às terminologias, a partir de referências à linguagem científica, feitas por GRANGER (1993, p.72). LARA retoma a idéia da separação do processo de elaboração das Linguagens Documentárias do processo de análise de textos com fins documentários. Mais do que denominações, seriam representações (idem). A autora retoma a questão em 2002, colocando a Linguagem Documentária como instrumento facilitador da comunicação, ao organizar a informação para mapear uma área e transferi-la a determinados grupos que apresentam objetivos específicos (LARA, 2002). Em 1993, a autora havia sugerido a utilização do termo ‘comunicação documentária'.

A idéia de ferramentas de tradução de conceitos aparece em GUIMARÃES, (1994, p.229), que também afirma que "as estratégias de análise monitoram a utilização das linguagens de indexação e não viceversa" (idem, p.5), e as linguagens de indexação resultariam dessa análise como "um conjunto documentário em uma determinada realidade de busca informacional" (idem, p.9). A afirmação de GUIMARÃES difere, nesse sentido, da de LARA no que diz respeito à autonomia do processo de construção da Linguagem Documentária.

De acordo com TÁLAMO (1997, p.2), o termo Linguagem Documentária teria se firmado na literatura, junto com a difusão do tesauro documentário, nos anos 70. Resultado da atividade documentária, não teria a organização como um fim em si mesma, mas possibilidade de acesso e circulação efetiva da informação. Assim como na linha francesa, defende-se a idéia de que o desenvolvimento das Linguagens Documentárias não é função da Análise Documentária. A Linguagem Documentária, para a autora, é uma construção feita a partir de hipóteses sobre a organização do conhecimento que dêem conta de determinada demanda de informação, tendo por variáveis a instituição, a área de conhecimento, o tipo de atividade, e os segmentos sociais envolvidos, e não se define em relação a acervos, mas "por força das relações que respondem pela organização da hipótese de representação do conhecimento" (idem, p.12). Para que seja bem sucedida, é fundamental a presença da estrutura na linguagem, decorrente de um sistema de relações, garantindo que suas unidades tenham significado e possam ser utilizadas como referência na representação dos textos que são objetos de sistemas documentários (ibidem, p.4).

TÁLAMO também fala em metalinguagem quanto pensa que a LD re-elaborando o conhecimento como informação. Dessa forma, a autora recupera a abordagem de GARDIN tornando-a mais clara (TÁLAMO, 1997, p.10-12).

CINTRA e outras consideram que as Linguagens Documentárias são "construídas para indexação, armazenamento e recuperação da informação e correspondem a sistemas de símbolos destinados a ‘traduzir' os conteúdos dos documentos" (2002, p.33), e que "com os limites próprios de uma linguagem construída, as linguagens documentárias – LDs – se valem de quase todos os conceitos apresentados para a LN [linguagem natural], constituem sistemas onde as unidades se organizam em relações de dependência" (idem, p.15). Para as autoras, "compete às LDs transformar estoques de conhecimento em informações adequadas aos diferentes segmentos sociais (idem, p.16-7). Como lembram BOCCATO e FUJITA (2006, p.28) "a linguagem documentária, enquanto veículo de comunicação, deve representar os campos conceituais respeitando a cultura da comunidade à qual a linguagem serve".

Por ser um sistema de significação construído a partir de uma hipótese de significação, LARA (2003) observa que não há uma relação biunívoca entre o que é representado e a forma da representação. A Linguagem Documentária é um signo particular. No mesmo texto, a autora reafirma seu caráter estrutural, enfatizando as relações de natureza lógica, ontológica, associativa e de equivalência, e sua organização em uma rede paradigmática com regras de combinação.

A partir deste levantamento, pode-se afirmar que o Grupo Temma acrescenta ao conceito de Linguagem Documentária dado pela linha francesa, outras características que enfatizam seu caráter de 'linguagem'. De léxico reduzido e sintaxe precária, passou a ser elaborada seguindo parâmetros lingüísticos, portanto, compreendida como uma estrutura cujos termos devem necessariamente estar relacionados para que possam significar de modo determinado. Prevaleceu o termo Linguagem Documentária, admitindo-se uma visão mais abrangente do instrumento de indexação ao ressaltar os aspectos que reforçam as características de linguagem, e enfatizar a necessidade de considerar as hipóteses de organização do conhecimento, de acordo com os interesses e necessidades de usuários, a instituição que gera e organiza a informação, a área de conhecimento ou atividade, entre outros.

Ao verificar o aproveitamento e aprofundamento das questões levantadas pela linha francesa, propormos o seguinte quadro que co-relaciona denominações à abrangência de aplicação dos termos:

A ênfase na questão de significação das Linguagens Documentárias e a necessidade de circulação de informações são destacadas no quadro de funções:

Atualmente, observa-se, no Grupo Temma, que determinados autores têm investido nos estudos das relações entre a Linguagem Documentária e a Terminologia.

3.3 Linha francesa e linha brasileira: quadro comparativo

A partir do levantamento feito anteriormente, podemos propor uma sistematização dos conceitos de Linguagem Documentária. Reunimos, nos quadros a seguir, aspectos das Linguagens Documentárias relativos à sua estrutura, características e funções.

As Linguagens Documentárias, portanto, funcionam como Instrumento de comunicação para contextos específicos, como uma construção que atende, simultaneamente, aos objetivos e necessidades de seus usuários, da instituição que produz e organiza o conhecimento, das atividades, etc. Além disso, utilizam, em sua elaboração, referências a parâmetros lingüísticos, principalmente os da lingüística estruturalista.

4 Considerações finais

Desde a definição de seu campo de estudos, até o seu conceito em si, a discussão sobre as Linguagens Documentárias recebeu diversas abordagens entre os pesquisadores da linha francesa e do Grupo Temma, considerando suas funções e características, e, por conseguinte, suas denominações. A sintonia entre as duas linhas fez apontar para o que hoje se entende por Linguagem Documentária: um instrumento para uso em contexto específico, que pretende sintetizar e agrupar documentos, tendo em vista sua recuperação, e, portanto, a circulação das informações que os formam.

Em maior ou menor nível, as Linguagens Documentárias lidam com a linguagem natural e preocupam-se com a circulação e compreensão da informação. Lidam, portanto, com a noção de estrutura, mas nem tanto com o processo de estruturação que permitiria renovar e reorganizar continuamente o instrumento de organização de informações e de indexação. O que se pode perceber é que, gradativamente, as definições dos instrumentos se organizam para contemplar um maior número de características da linguagem em funcionamento. Não se pode afirmar, no entanto, que tenham êxito. Ao simular as características da linguagem natural, sempre estamos no circuito da artificialização. A incorporação de todas as características da linguagem significaria a própria negação das iniciativas. Ao final, voltaríamos à linguagem natural?...

Para isso, é fundamental considerar os desenvolvimentos da Lingüística Estruturalista – em especial, que colocam ênfase na enunciação - e da Terminologia para o desenvolvimento das Linguagens Documentárias. Essas áreas muito contribuíram para o que hoje conhecemos como Linguagem Documentária.

NOTAS

ii GARDIN, J.C. Les analyses de discours. Neuchâtel, Delachaux et Niestlé, 1974.

iiiCHAUMIER, J. Les langages documentaires. Paris, EME: 1978.

iv No espanhol, utiliza-se "Lenguaje Documental", mas convencionou-se traduzir o termo para o português como "Linguagem Documentária", tal como os franceses. As traduções portuguesas adotam o termo 'linguagem documental'.

vi SMIT, J.W. (coord.). Análise documentária: a análise da síntese. Brasília: IBICT, 1987.

vii Idem.

viii CHAUMIER, J. Travail et méthode du/de la documentaliste: connaissance du problème. Paris: ESF / Libr. Techniques,1980.

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  • i
    Todas as traduções dos textos em idiomas estrangeiros constituem tradução livre da autora.
  • v
    Mais informações sobre o Grupo Temma podem ser obtidas no Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil, CNPq.
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      05 Jan 2010
    • Data do Fascículo
      2009
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