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O impacto das práticas de gestão do conhecimento no desempenho organizacional: um estudo em empresas de base tecnológica

The impact of knowledge management practices on organizational performance: a study on technology-based companies

Resumo

Para que a gestão do conhecimento impacte os rumos da empresa com inovações e vantagens competitivas, é necessário integrá-la à estratégia organizacional. Apesar de existirem estudos que apontam a correlação entre gestão conhecimento, desempenho e estratégia organizacionais, a prática se torna divergente. As organizações estão cientes da importância da gestão do conhecimento, mas é preciso sair do campo do discurso e converter ações em resultados. O presente trabalho tem como objetivo avaliar o impacto das práticas de gestão do conhecimento no desempenho organizacional, através de uma pesquisa quantitativa com a aplicação de um questionário survey em empresas de base tecnológica. A pesquisa utilizou o modelo empírico de Wu e Chen, para a validação das hipóteses definidas no estudo e a técnica de modelagem de equações estruturais foi aplicada. Os resultados obtidos possibilitam confirmar as relações existentes entre as cinco dimensões analisadas- ativos do conhecimento, aprendizagem organizacional, capacidade do processo de conhecimento, capacidade do processo de negócio e desempenho organizacional-, além de identificar que dentre os construtos analisados, o processo de negócio foi o que apresentou maior influência sobre o desempenho organizacional.

Palavras-Chave:
Conhecimento; Gestão do conhecimento; Desempenho organizacional; Empresas de base tecnológica

Abstract

In order for knowledge management to impact the company's directions, bringing innovations and competitive advantages, it is necessary to integrate it into the organizational strategy. Although there are studies that point out the correlation between knowledge management, organizational performance and strategy, this often does not occur in practice. Organizations are aware of the importance of knowledge management, but we must get out of the field of discourse and convert actions into results. The present work aims to evaluate the impact of knowledge management practices on organizational performance through a quantitative research with the application of a survey questionnaire in technology - based companies. The research, quantitative denominated,used the empirical model of Wu and Chen, for the validation of the hypotheses defined in the study, the modeling technique of structural equations was applied. The obtained results make it possible to confirm the existing relationships between the five analyzed dimensions- knowledge active, organization learning, knowledge process capacity, business management capacity and organizational performance- besides identifying that among the constructs analyzed, the business process was the one that had the greatest influence on the organizational performance.

Keywords:
Knowledge; Knowledge Management; Organizational Performance; high-tech enterprises

1 Introdução

Para que a gestão do conhecimento impacte os rumos da empresa com inovações e vantagens competitivas, é necessário integrá-la à estratégia organizacional. Para Davenport (1999DAVENPORT, T. H; PRUSAK, L. Conhecimento Empresarial. Rio de Janeiro: Campus, 1999. ) o conhecimento é o bem mais valioso da organização, e consequentemente, o mais difícil de gerenciar. A gestão do conhecimento se apresenta como um modelo com um conjunto de técnicas e ferramentas que se ocupam dos processos gerenciais e infraestrutura física e digital que facilitam, favorecem e estimulam os processos humanos de criação, compartilhamento e disseminação de conhecimentos individuais e coletivos (TERRA, 2005TERRA, J. C. Gestão do conhecimento: o grande desafio empresarial. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.).

Para que a gestão do conhecimento cause impactos relevantes na organização é necessário integrá-la à sua estratégia, o que pode causar uma melhora significativa no desempenho da organização. Slater, Olson e Hult (2010SLATER, S. F.; OLSON, E. M.; HULT, G. T. M. Worried about strategy implementation? Don’t overlook marketing’s role. Business Horizons, v. 53, n. 5, p. 469 - 479, 2010.) definem desempenho como o atingir dos objetivos estabelecidos pela organização ou a superação destes, podendo ser avaliado por aspectos financeiros, de mercado e/ou inovação.

Para Davenport (1999DAVENPORT, T. H; PRUSAK, L. Conhecimento Empresarial. Rio de Janeiro: Campus, 1999. ) poucas empresas têm sido capazes de estabelecer uma relação causal entre as atividades de gestão do conhecimento e o desempenho da organização. Os desafios relacionados à adoção das práticas e modelos associados à Gestão do Conhecimento não são triviais, pois, denotam significativos esforços de conscientização e de comunicação e ativa participação pessoal da alta administração.

No Brasil, existem poucas pesquisas correlacionando de forma prática e linear, gestão do conhecimento e desempenho organizacional. Assim, esta pesquisa propõe-se a oferecer uma contribuição tanto teórica, dissertando sobre os temas abordados, como prática, relacionando a gestão do conhecimento e o desempenho organizacional, por meio da aplicação do modelo teórico empírico de Wu e Chen (2014WU, I. L.; CHEN, J. L. Knowledge management driven firm performance: the roles of business process capabilities and organizational learning. Journal of Knowledge Management, v. 18, n. 1, p. 185-2014, 2014.), em empresas de base tecnológica, de modo a verificar esta relação.

O estudo está distribuído em seis sessões. A primeira sessão trabalha a introdução do assunto. Seguida da segunda sessão, é apresentada uma revisão sistemática explicando as formas de pesquisa para levantamento dos trabalhos e assuntos já existentes. A terceira sessão, trata do referencial teórico explicitando os principais conceitos para entendimento da pesquisa. A quarta sessão apresenta o processo metodológico utilizado na pesquisa para atingir os objetivos da pesquisa. Posteriormente, são apresentados os resultados e análises na quinta sessão, bem como as considerações finais na sexta sessão. Por final, são apresentadas as referências bibliográficas utilizadas nessa pesquisa.

2. Revisão sistemática e apresentação dos trabalhos relacionados à pesquisa

A revisão sistemática de literatura é uma forma de analisar e interpretar pesquisas relevantes para uma determinada questão, área temática ou de interesse (KITCHENHAM, 2004KITCHENHAM, B. A. Procedures for performing systematic reviews. Keele: Department of Computer Science, Keele University; 2004. Disponível em: http://www.inf.ufsc.br/~awangenh/kitchenham.pdf. Acesso em: 18 Ago. 2014.
http://www.inf.ufsc.br/~awangenh/kitchen...
). Um dos objetivos da revisão sistemática é identificar os trabalhos que relacionam de forma a encontrar uma linearidade entre os construtos.

Foi definida a estratégia da revisão sistemática de literatura em uma consulta geral nas bases de dados, que tem como objetivo detectar de forma relevante o que foi escrito sobre o assunto pesquisado, de acordo com o Quadro 1. Para os descritores Gestão do Conhecimento e Desempenho Organizacional utilizou-se as bases Scientific Periodicals Electronic Library (SPELL), Scientific Eletronic Library Online (Scielo) e Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (Anpad). Para o descritor Modelos de Gestão do Conhecimento e alguns quesitos de Desempenho Organizacional utilizou-se as bases Emerald Insight, Elseviver, Doiserbia e Canadian Center of Science and Education (CCSE). A escolha se deu devido a representatividade internacional que essas bases possuem em relação aos assuntos envolvidos nessa pesquisa.

QUADRO 1:
Atributos da Qualidade da Informação

Definidos os descritores, bem como as bases de referência para pesquisa, o planejamento foi definido em três etapas:

  • Pesquisa geral utilizando os descritores relacionadas no Quadro 1;

  • Pesquisa estruturada usando os descritores Gestão do Conhecimento, Gestão de Conhecimento e Desempenho organizacional levando em consideração os resultados encontrados nos títulos e resumos dos trabalho;

  • Análise e classificação dos resultados em 3 níveis: Dentro do contexto, a analisar, fora do contexto.

Para a pesquisa, utilizou-se a combinação das palavras chave “Gestão do Conhecimento” e “Desempenho Organizacional”. Os resultados obtidos foram usados como referência para a construção do trabalho de pesquisa, com as devidas análises de acordo com os objetivos propostos (KITCHENHAM, 2004KITCHENHAM, B. A. Procedures for performing systematic reviews. Keele: Department of Computer Science, Keele University; 2004. Disponível em: http://www.inf.ufsc.br/~awangenh/kitchenham.pdf. Acesso em: 18 Ago. 2014.
http://www.inf.ufsc.br/~awangenh/kitchen...
).

A partir do levantamento, foram destacados os estudos dos seguintes autores:

  • Lee e Choi (2003LEE, H.; CHOI, B. Knowledge management enablers, processes, and organizational performance: an integrative view and empirical examination. Journal of Management Information Systems, v. 20, n. 1, p. 179-228, 2003.): Propuseram uma visão integrada do conhecimento gestão e forneceram orientações estratégicas;

  • Mills e Smith (2011MILLS, M. A.; SMITH, A. T. Knowledge management and organizational performance: a decomposed view. Journal of Knowledge Management, v. 15, n.1, p. 156 - 171, 2011.): Avaliaram os impactos dos recursos de conhecimento específico de gestão sobre o desempenho organizacional;

  • Zack et al (2009ZACK, M.; MCKEEN, J.; SINGH, S. Knowledge management and organizational performance: an exploratory analysis. Journal of Knowledge Management, v. 13, n. 6, p. 392-409, 2009.): Apresentaram os resultados de uma investigação exploratória do impacto da gestão do conhecimento no desempenho organizacional;

  • Fugate et al (2009FUGATE, S. B; STANK, P. T; MENTZER, T. J. Linking improved knowledge management to operational and organizational performance. Journal of Operations Management 27, 2009.): Destacaram o papel das operações de logística na criação de valor;

  • Wu e Chen (2014WU, I. L.; CHEN, J. L. Knowledge management driven firm performance: the roles of business process capabilities and organizational learning. Journal of Knowledge Management, v. 18, n. 1, p. 185-2014, 2014.): Definiram um modelo para avaliar os impactos da gestão do conhecimento sobre o desempenho organizacional.

Por meio dos resultados obtidos na revisão sistemática, pode se identificar vários modelos que relacionam gestão do conhecimento e desempenho organizacional.

3 Referencial teórico

Nessa seção é apresentada a sustentação teórica da pesquisa, que examina o valor do conhecimento nas organizações, a gestão do conhecimento, as práticas de gestão do conhecimento, o desempenho organizacional e modelos empíricos que relacionam gestão do conhecimento e desempenho organizacional.

O Valor do conhecimento nas organizações e a Gestão do Conhecimento

O conhecimento é considerado por Porter (1998PORTER, M. E. Vantagens Competitivas: criando e sustentando um desempenho superior. Rio de Janeiro: Campus, 1998.) a única vantagem a oferecer diferenciação para uma competição sustentável, ou seja, as empresas devem promover a criação do conhecimento, as melhores práticas e a transferência das competências para toda a organização com o objetivo de aprimorar negócios.

Davenport (1999DAVENPORT, T. H; PRUSAK, L. Conhecimento Empresarial. Rio de Janeiro: Campus, 1999. ) reconhece que os aspectos intangíveis que adicionam valor aos produtos e serviços são todos baseados em conhecimento. Ao contrário de ativos materiais que se depreciam à medida que são utilizados, o ativo do conhecimento é ilimitado e cresce quando é estimulado e utilizado. Os recursos físicos e materiais não são mais o principal pilar para um desempenho organizacional satisfatório. O tamanho das instalações industriais e dos edifícios administrativos de uma empresa deixou de ser uma medida confiável de sua importância ou capacidade industrial, pois, o que agrega valor, inova e faz a diferença é o conhecimento.

O conhecimento só se torna um ativo corporativo quando é acessível, gerenciado e cercado do mesmo cuidado dedicado à obtenção de valor de outros ativos tangíveis (DAVENPORT; PRUSAK, 1999DAVENPORT, T. H; PRUSAK, L. Conhecimento Empresarial. Rio de Janeiro: Campus, 1999. ). A gestão do conhecimento surgiu como um importante campo para a prática e pesquisa em sistemas de informação. Este campo foi construído sobre bases teóricas da economia da informação, gestão estratégica, cultura organizacional, comportamento organizacional, estrutura organizacional, inteligência artificial, gestão da qualidade e medição de desempenho organizacional (BASKERVILLE; DULIPOVICI, 2006BASKERVILLE, R.; DULIPOVICI, A. The theoretical foundations of knowledge management. Knowledge Management Research & Practice, v. 4, n. 2, p. 83-105, 2006.). A ideia de Dulipovici (2006) é confirmada por Kuriakose et al. (2010KURIAKOSE, K. K.; RAJ, B.; MURTY, S. A. V. S.; SWAMINATHAN, P. Knowledge Management Maturity Models - A Morphological Analysis. Journal of Knowledge Management Practice, v. 11, n. 3, p. 1-10, 2010. ), que define a gestão do conhecimento como um campo interdisciplinar que abrange áreas como as tecnologias da informação e comunicação, os sistemas de informação e a gestão de mudanças no intuito de melhorar processos e o desempenho organizacional.

Sabbag (2007) define a gestão do conhecimento nas organizações como um sistema integrado que visa desenvolver conhecimento e competência coletiva para ampliar o capital intelectual e a sabedoria das pessoas. Já para Davenport e Prusak (1999DAVENPORT, T. H; PRUSAK, L. Conhecimento Empresarial. Rio de Janeiro: Campus, 1999. ), a gestão do conhecimento refere-se à reunião de todas as tarefas que envolvam a geração, codificação e transferência do conhecimento.

A essência da gestão do conhecimento está na disposição das pessoas para compartilhar suas experiências e para entender o que as pessoas sabem, é preciso reproduzir o contexto dos seus conhecimentos. A gestão do conhecimento está centrada em três aspectos principais: (i) foco nos ativos intangíveis, (ii) tornar a gestão do conhecimento algo explícito e incentivar e (iii) criar mecanismos que facilitem aos empregados o compartilhamento de seus conhecimentos (NONAKA; TAKEUCHI, 1997NONAKA, I.; TAKEUCHI, H. Criação de conhecimento na empresa: como as empresas japonesas geram a dinâmica da inovação. Rio de Janeiro: Campus, 1997.).

O desafio das empresas está em converter o conhecimento tácito dos funcionários em conhecimento explícito, e para isso Nonaka e Takeuchi (1997NONAKA, I.; TAKEUCHI, H. Criação de conhecimento na empresa: como as empresas japonesas geram a dinâmica da inovação. Rio de Janeiro: Campus, 1997.) propõem um modelo de conversão do conhecimento. Esse modelo engloba quatro modos de conversão do conhecimento explicados em função das possibilidades de interações entre o conhecimento tácito (constituinte na mente das pessoas) e o explícito (já documentados), sendo a socialização, combinação, internalização e externalização.

A socialização é composta pela interação do conhecimento tácito entre pessoas - conversão de conhecimento tácito em conhecimento tácito; A combinação é o conjunto de conhecimento explícito controlado pelas pessoas; A internalização se concentra na conversão de conhecimento explícito em conhecimento tácito; Por fim, a externalização é a conversão de conhecimento tácito em conhecimento explícito.

Nonaka e Takeuchi (1997NONAKA, I.; TAKEUCHI, H. Criação de conhecimento na empresa: como as empresas japonesas geram a dinâmica da inovação. Rio de Janeiro: Campus, 1997.) afirmam que os quatro modos de conversão do conhecimento devem ser gerenciados de forma articulada e cíclica a fim de dominar o conjunto dos processos que fomentam um movimento cíclico de construção do conhecimento denominado “espiral de criação de conhecimento” ou modelo SECI.

Por meio das propostas explicitadas, percebe-se que a base do conhecimento organizacional consiste em ativos de conhecimento individuais e coletivos que a organização pode utilizar para realizar suas tarefas, bem como nos dados e informações sobre os quais constrói tal conhecimento (PROBST; RAUB; ROMHARDT, 2002PROBST, G.; RAUB, S.; ROMHARDT, K. Gestão do conhecimento: os elementos construtivos do sucesso. Porto Alegre: Bookman, 2002.).

Práticas de gestão do conhecimento

As práticas de gestão do conhecimento são conhecidas como rotinas diretamente envolvidas no desenvolvimento e na aplicação do conhecimento. As práticas ajudam as empresas a tomarem medidas orientadas a melhorar as capacidades de resposta e a superarem as limitações da inovação causadas pela cultura e história (COOMBS; HULL; PELTU, 2000COOMBS, R.; HULL, R.; PELTU, M. Knowledge Management Practices for Innovation: an audit tool for improvement. International Journal of Technology Management, v. 20, n. 5-8, Jan. 2000.). A APO (2009) considera que todas as práticas são fundamentais para as iniciativas de gestão do conhecimento, pois, promovem crescimento e evolução da internalização do capital intelectual nas organizações.

Segundo Becerra-Fernandez e Sabherwal (2001) existem dezenove práticas de gestão do conhecimento para avaliar a maneira como a gestão influi no âmbito organizacional, como mostra o Quadro 2. Retomando o modelo SECI de Nonaka e Takeuchi (1997NONAKA, I.; TAKEUCHI, H. Criação de conhecimento na empresa: como as empresas japonesas geram a dinâmica da inovação. Rio de Janeiro: Campus, 1997.), buscou se indicar como as práticas de gestão do conhecimento estão agrupadas.

QUADRO 2:
Práticas de gestão do conhecimento no contexto organizacional

Segundo Batista (2004BATISTA, F. F. O governo que aprende: gestão do conhecimento em organizações do executivo federal. Brasília: Ipea (Texto para Discussão n. 1022), 2004.) as práticas de gestão do conhecimento são definidas como práticas de gestão organizacional voltadas para a produção, retenção, disseminação, compartilhamento e aplicação do conhecimento dentro das organizações, assim como na relação com o mundo exterior. Isto envolve a captura, absorção e retroalimentação de todo o conhecimento que possa promover o desenvolvimento organizacional. Para tanto, as práticas de gestão do conhecimento deverão estar alinhadas a missão, a visão de futuro e as estratégias organizacionais.

Desempenho organizacional

Slater, Olson e Hult (2010SLATER, S. F.; OLSON, E. M.; HULT, G. T. M. Worried about strategy implementation? Don’t overlook marketing’s role. Business Horizons, v. 53, n. 5, p. 469 - 479, 2010.) definem o desempenho organizacional como o atingir ou a superação dos objetivos estabelecidos pela organização, podendo ser avaliado por aspectos financeiros, de mercado e inovação. O desempenho de uma organização refere-se aos resultados por ela alcançados em certo período, que são avaliados por meio de parâmetros quantificáveis denominados indicadores (FERNANDES; FLEURY; MILLS, 2006FERNANDES, B. H.; FLEURY, M. T.; MILLS, J. Construindo o diálogo entre competência, recursos e desempenho organizacional. Revista de Administração de Empresas, São Paulo, v. 46, n.4,p.48-65, out./dez. 2006.).

Segundo Guimarães (1998GUIMARÃES, T.A. Gestão do desempenho em organizações públicas descentralizadas. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DO CLAD, 3., 1998, Madri. Anais [...] Madri: Clad, 1998.) um indicador constitui uma variável mensurável, sua função é indicar o estágio de desenvolvimento desejável para a organização ou parte dela. Ao indicador é associado o conceito de meta, que designa um padrão ou referência a ser alcançada.

Historicamente, o processo de avaliação do desempenho organizacional esteve atrelado à utilização de relatórios financeiros, que expressavam os resultados de uma organização a partir de medidas como lucratividade, rentabilidade de produtos e retorno sobre o patrimônio. Tais medidas financeiras quando utilizadas isoladamente são inadequadas para orientar e avaliar a trajetória organizacional em ambientes competitivos.

Buscando aprimorar os mecanismos de gestão do desempenho, Kaplan e Norton (1997KAPLAN, R.; NORTON, D. P. A estratégia em ação: balanced scorecard. Rio de Janeiro: Campus, 1997.) desenvolveram o Balanced Scorecard (BSC), um sistema gerencial que pretende equilibrar a definição de indicadores e metas em diferentes perspectivas ou dimensões, conforme ilustrado na Figura 1.

Figura 1:
Perspectivas do BSC

Como a estratégia organizacional representa um conjunto de hipóteses sobre relações de causa e efeito, o BSC assume o pressuposto de que os objetivos e respectivos indicadores em cada perspectiva de desempenho exercem influência uns sobre os outros, de tal forma que a consecução de metas na perspectiva aprendizagem e crescimento, por exemplo, teria efeito positivo sobre os resultados associados a processos internos, e assim por diante (KAPLAN e NORTON, 1997KAPLAN, R.; NORTON, D. P. A estratégia em ação: balanced scorecard. Rio de Janeiro: Campus, 1997.).

Modelos empíricos de gestão do conhecimento e desempenho organizacional

Conceitualmente pode-se entender um modelo como uma estruturação simplificada da realidade que apresenta supostamente características ou correlação de forma generalizada (CHORLEY; HAGGGETT, 1975CHORLEY, Richard; Haggett, Peter. Modelos, paradigmas e a nova geografia. In: CHORLEY, Richard, HAGGETT, Peter. Modelos sócios-econômicos em geografia. Rio de janeiro : Livros Técnicos e Científicos/USP, 1975. p. 1-22. ). Para Sayão (2001SAYÃO, L. F. Modelos teóricos em ciência da informação: abstração e método científico. Ciência da Informação, Brasília, v. 30, n. 1, p. 82-91, jan./abr. 2001.) os modelos são representações simplificadas e inteligíveis do mundo, que permitem vislumbrar características essenciais de um domínio ou campo de estudo, mas ainda assim, são passíveis de modificação e atualização constante para seu próprio aperfeiçoamento.

Na revisão sistemática realizada, não foram encontrados estudos que abordassem a aplicação empírica de modelos de gestão do conhecimento e desempenho organizacional em empresas brasileiras, por se tratar de um tema pouco abordado no país. Dentre os estudos internacionais obtidos, foram identificados os seguintes modelos (Quadro 3):

QUADRO 3:
Práticas de gestão do conhecimento no contexto organizacional

Após a avaliação dos modelos, a pesquisa optou pelo modelo de Wu e Chen (2014WU, I. L.; CHEN, J. L. Knowledge management driven firm performance: the roles of business process capabilities and organizational learning. Journal of Knowledge Management, v. 18, n. 1, p. 185-2014, 2014.) por abranger a gestão do conhecimento em sua completude, além de avaliar as relações da mesma com o desempenho organizacional. Outra justificativa para a seleção deste modelo é que este se adequa às empresas de base tecnológica e aos processos de negócio.

A técnica utilizada para validar o modelo foi a de mínimos quadrados parciais, que é uma técnica de modelagem de equações estruturais. As variáveis no modelo de pesquisa foram formuladas como construções de formação de segunda ordem, que foram ainda mais determinados a partir da combinação de seus indicadores formativos de primeira ordem.

O modelo de mensuração de segunda ordem foi construído para avaliar a validade convergente e discriminante da escala. A estrutura hierárquica BSC também fornece um quadro teórico abrangente para definir a relação nomológica desse modelo, segundo Wu e Chen (2014WU, I. L.; CHEN, J. L. Knowledge management driven firm performance: the roles of business process capabilities and organizational learning. Journal of Knowledge Management, v. 18, n. 1, p. 185-2014, 2014.).

O modelo de Wu e Chen (2014WU, I. L.; CHEN, J. L. Knowledge management driven firm performance: the roles of business process capabilities and organizational learning. Journal of Knowledge Management, v. 18, n. 1, p. 185-2014, 2014.) é ilustrado na Figura 2.

Figura 2:
Modelo de gestão do conhecimento e desempenho organizacional de Wu e Chen

Por meio do modelo proposto por Wu e Chen (2014WU, I. L.; CHEN, J. L. Knowledge management driven firm performance: the roles of business process capabilities and organizational learning. Journal of Knowledge Management, v. 18, n. 1, p. 185-2014, 2014.), as seguintes hipóteses foram formuladas:

  • H1: Mais ativos de conhecimento levam a maior capacidade de processo de conhecimento;

  • H2: Mais ativos de conhecimento levam a recursos de processos de negócios mais elevados;

  • H3: Recursos de processos de conhecimento superior levam a uma maior capacidade do processo de negócio;

  • H4: Recursos de processos de negócios mais elevados levar a um desempenho organizacional superior;

  • H5: Aprendizado organizacional superior leva a um maior efeito moderador sobre a relação entre os ativos de conhecimento e capacidades de processos de negócios;

  • H6: Aprendizado organizacional superior leva a um maior efeito moderador sobre a relação entre as capacidades de conhecimento e processos de negócios

Empresas de base tecnológica e suas caracterizações

As Empresas de Base Tecnológica são participantes ativas das mudanças tecnológicas e são capazes de apoiar o desenvolvimento socioeconômico de um país. O centro das EBT está na criação de caminhos que propiciem a transferência de tecnologias que sejam orientadas ao mercado e tem-se como resultado a comercializem de bens de consumo inovadores baseados no conhecimento científico e tecnológico (SARQUIS et al., 2015SARQUIS, Aléssio Bessa et al. Influence factors in the innovation process technology based companies. Revista Catarinense da Ciência Contábil, Florianópolis, v. 14, n. 43, p. 38-50, set./dez. 2015.).

Pinho et al. (2005PINHO, M. et al. Empresas de Base Tecnológica. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 2005. Relatório de Pesquisa.) salientam que as EBTs, principalmente as brasileiras, se concentram na realização de esforços tecnológicos significativos para a fabricação de produtos “incrementais” provenientes da imitação, adaptação ou engenharia reversa. Esse tipo de fabricação permite a construção de produtos inovadores que são capazes de substituir aqueles importados.

As EBTs podem se beneficiar de oportunidades advindas da inovação e, por meio de rotinas menos rígidas e mais flexíveis, apresentam uma elevada expectativa de crescimento e escalabilidade (SANTOS; PINHO, 2010SANTOS, Daniela Tatiane dos Santos; PINHO, Marcelo. Análise do crescimento das empresas de base tecnológica no Brasil. Produção, v. 20, n. 2, p. 214-223, abr./jun. 2010.; HYYTINEN; PAJARINEN; ROUVINEN, 2015HYYTINEN, Ari; PAJARINEN, Mika; ROUVINEN, Petri. Does innovativeness reduce startup survival rates? Journal of Business Venturing, v. 30, p. 564-581, 2015.).

Ao se estudar as Empresas de Base Tecnológica brasileiras, Santos e Pinho (2010SANTOS, Daniela Tatiane dos Santos; PINHO, Marcelo. Análise do crescimento das empresas de base tecnológica no Brasil. Produção, v. 20, n. 2, p. 214-223, abr./jun. 2010.) avaliaram a existência de uma taxa de crescimento maior que em outras organizações, o que faz das EBTs uma promessa mercadológica.

Por meio dessas empresas, é possível valorizar tecnologias e procedimentos disponíveis nas universidades, instituições, centros de pesquisas e, até mesmo, nas empresas, motivo esse que a torna fundamental no desempenho econômico e social.

Vale ressaltar que, mesmo com todas as vantagens proporcionadas pelas EBTs, esse tipo de empresa é caracterizado por um grau elevado de risco e pela necessidade de investimento, o que impacta diretamente o seu desenvolvimento e desempenho (BOCKEN, 2015BOCKEN, N. M. P. Sustainable venture capital e catalyst for sustainable start-up success? Journal of Cleaner Production, v. 108, p. 647- 658, 2015.). São exemplos de ramos de atuação dessas empresas: informática, eletrônica, mecatrônica, produção de materiais, instrumentalização, automação, química, entre outros.

4 Procedimentos metodológicos

A pesquisa é descritiva e se caracteriza, preponderantemente, por uma abordagem quantitativa. A análise quantitativa é apropriada para medir tanto opiniões, atitudes e preferências como comportamentos e a pesquisa descritiva expõe características de determinada população ou de determinado fenômeno (MORESI, 2003MORESI, E. A. D. (Org). Manual de Metodologia da Pesquisa. Brasília-DF: Universidade Católica de Brasília - UCB, mar., 2003.).

A coleta de dados foi realizada por meio de envio de questionário online (e-survey) a colaboradores de empresas de base tecnológica, independente do cargo que ocupavam. A escolha se deu de forma aleatória, por meio de contatos realizados via redes sociais, não sendo possível mensurar o universo da pesquisa. Ao total, foram obtidas 275 respostas, das quais 57 foram descartadas por apresentarem mais de 10% das respostas inconsistentes. Ao final, tem-se 212 respostas válidas para análise.

Para análise utilizou-se a Modelagem de Equações Estruturais, utilizando a abordagem PLS. A abordagem PLS (Partial Least Squares) oferece uma alternativa a abordagem tradicional baseada na estrutura de covariância, CB-SEM (Covariance-based Structural Equation Modeling techniques)... Para verificar a qualidade dos ajustes foi utilizado o R2, para comparar os índices com as variáveis qualitativas nominais foi utilizado o teste de Mann-Whitney e Kruskal Wallis e para comparar os índices com as variáveis quantitativas e qualitativas ordinais foi utilizada a Correlação de Spearman (MONECKE; LEISCH, 2012MONECKE, A.; LEISCH, F. semPLS: Structural Equation Modeling Using Partial Least Squares. Journal of Statistical Software, v. 48, n. 3, p. 1-32, May 2012. ; HENSELER, 2012; MONECKE; LEISCH, 2012).

5 Resultados da pesquisa

Na análise dos outliers (que são observações que apresentam um padrão de resposta diferente das demais), não foram encontrados valores fora do intervalo da escala de sua respectiva variável. Ja os outliers multivariados foram diagnosticados com base na medida D² de Mahalanobis.

De acordo com Hair, et al. (2009HAIR, J. F.; BLACK, W. C.; BABIN, B. J.; Anderson, R. E. E Tatham, R. L. Análise Multivariada de Dados. Porto Alegre: Bookman. 2009.), tal medida verifica a posição de cada observação comparada com o centro de todas as observações em um conjunto de variáveis, sendo que, ao final, é realizado um teste qui-quadrado. Os indivíduos que apresentam uma significância da medida inferior a 0,001 foram considerados outliers multivariados. Com base neste método, foram encontrados 7 indivíduos atípicos.

Para verificar a linearidade dos dados, foram analisadas as correlações das variáveis par a par, uma vez que um coeficiente de correlação significativo ao nível de 5% é indicativo da existência de linearidade. Através da matriz de correlação de Spearman (HOLLANDER; WOLFE, 1999HOLLANDER, M.; WOLFE, D. A. Nonparametric Statistical Methods. New York: John Wiley & Sons, 1999.), foram observadas 944 de 946 relações significativas ao nível de 5%, o que representa aproximadamente 99,78% das correlações possíveis.

Os constructos “Ativos do Conhecimento”, “Capacidade do Processo de Conhecimento”, “Capacidade do Processo de Negociação” e “Desempenho Organizacional” foram considerados como constructos de segunda ordem, ou seja, não eram formados diretamente pelos itens (perguntas), mas por outras variáveis latentes (indicadores). Para tratar essa característica da estrutura de mensuração, foi utilizada a abordagem “TwoStep” (SANCHEZ, 2013SANCHEZ, G. PLS Path Modeling with R. Berkeley: Trowchez Editions. 2013.). Dessa forma, primeiramente foram computados os escores das variáveis latentes de primeira ordem, utilizando a Análise Fatorial Exploratória (AFE) com o método de extração dos componentes principais e rotação promax (MINGOTI, 2007MINGOTI, S. A. Análise de Dados Através de Métodos de Estatística Multivariada: Uma Abordagem Aplicada. Belo Horizonte: UFMG, 2007.).

Para os constructos de primeira ordem, a Análise Fatorial Exploratória tem o objetivo de verificar a necessidade de excluir algum item (pergunta) dos constructos que não esteja contribuindo com a formação dos índices. Segundo Hair et al (2009HAIR, J. F.; BLACK, W. C.; BABIN, B. J.; Anderson, R. E. E Tatham, R. L. Análise Multivariada de Dados. Porto Alegre: Bookman. 2009.), itens com cargas fatoriais menores que 0,50 devem ser eliminados dos constructos, pois, não contribuem de forma relevante para formação da variável latente, prejudicando assim o alcance das suposições básicas para validade e a qualidade dos indicadores criados para representar o conceito de interesse.

Para analisar a qualidade e validade dos constructos de primeira ordem foi verificada a dimensionalidade, confiabilidade e validade convergente. Para verificar a validade convergente foi utilizado o critério proposto por Fornell e Larcker (1981FORNELL, C. e LARCKER, D. F. Evaluating structural equation models with unobservable variables and measurement error. Journal of marketing research, v. 18, n. 1, p.39-50, Feb. 1981.), que indica a validação convergente quando a variância média extraída (AVE) for superior a 50%, ou 40% no caso de pesquisas exploratórias (NUNNALY et al.,1994NUNNALY, J.; BERNSTEIN, I. H. Psychometric Theory. McGraw-Hill: New York. 1994.; HENSELER et al., 2009HENSELER, J.; RINGLE, C. M. e SINKOVICS, R. R. The use of partial least squares path modeling in international marketing. Advances in international marketing, v. 20, n. 1, 2009.).

Para mensurar a confiabilidade foi utilizado o Alfa de Cronbach e a Confiabilidade Composta (CHIN, et al., 1998). Segundo Tenenhaus et al. (2005TENENHAUS, M.; VINIZI, V.; CHATELIN, Y. e LAURO, C. PLS path modeling. Computacional statistics & Data Analysis, v. 48, n. 1, p. 159-205, 2005.), os indicadores Alfa de Cronbach (AC) e Confiabilidade Composta (CC) devem ser maiores que 0,70 para uma indicação de confiabilidade do constructo, sendo que em pesquisas exploratórias valores acima de 0,60 também são aceitos.

Para verificar a dimensionalidade dos constructos foi utilizado o critério de Kaiser (1958KAISER, H. F. The varimax criterion for analytic rotation in factor analysis. Psychometrika, v. 23, n. 3, p. 187-200, 1958.), que retorna o número de fatores que devem ser retidos na Análise Fatorial Exploratória, ou seja, a quantidade de dimensões do constructo. A adequação da amostra para utilização da Análise Fatorial Exploratória foi medida através do indicador KMO que indica a proporção da variância dos dados que pode ser considerada comum a todas as variáveis. É uma medida que varia de 0,0 a 1,0, sendo que quanto mais próximo de 1,0 (unidade) mais apropriada será a amostra à aplicação da análise fatorial. É adequado aplicar a Análise Fatorial Exploratória ao conjunto de variáveis quando o KMO for maior que 0,50.

A Tabela 1 apresenta os resultados para a validade e qualidade dos constructos. Logo, pode-se destacar que:

  • Todos os constructos apresentaram validação convergente (AVE > 0,40);

  • Todos os constructos apresentaram Alfa de Cronbach (AC) e Confiabilidade Composta (CC) acima de 0,60. Ou seja, todos apresentaram os níveis exigidos de confiabilidade;

  • Em todos os constructos o ajuste da Análise Fatorial Exploratoria foi adequado, uma vez que todos os KMO foram maiores ou iguais a 0,50.

TABELA 1:
Confiabilidade, validade convergente e dimensionalidade dos indicadores dos constructos de segunda ordem.

Modelagem de equações estruturais

Embora os constructos de primeira ordem sejam reflexivos, os constructos de segunda ordem são formativos. Dessa forma, os constructos de primeira ordem são as causas de seus respectivos constructos de segunda ordem, enquanto que os itens (perguntas) são os reflexos de seus respectivos constructos de primeira ordem.

A validação de um modelo de mensuração formativo requer diferentes abordagens do modelo reflexivo. A avaliação convencional de validação e confiabilidade dos constructos não deve ser aplicada nos modelos formativos (BOLLEN, 1989BOLLEN, K. A. Structural Equations with Latent Variables. New York: John Wiley & Sons, 1989.). Portanto, para avaliar o modelo de mensuração formativo, foi verificado se os pesos eram significativos ou maiores que 0,20 e se as cargas fatoriais eram maiores que 0,6 (LOHMOLLER, 1989LOHMOLLER, J. B. Latent variable path modelling with partial least squares. Heidelberg, Germany: Physica Verlag, 1989.; CHIN, 1998).

Uma vez que houver pesos não significativos e cargas fatoriais baixas, inexiste o suporte empírico para manter o indicador no modelo (CENFETELLI; BASSELLIER, 2009CENFETELLI, R. T.; BASSELLIER, G. Interpretation of formative measurement in information systems research. MIS Quarterly, v. 33, n. 4, p. 698-707, 2009.). Também foi avaliado se o Fator de Inflação da Variância (VIF) era maior que 5, evitando assim problemas de multicolinearidade. Também foi identificado que as correlações entre os constructos eram menores que 0,85, de forma a indicar que cada constructo era suficientemente diferente um do outro.

A Tabela 2 apresenta as cargas fatoriais, os pesos com seus respectivos intervalos de confiança e valores-p e o Fator de Inflação da Variância (VIF).

TABELA 2:
Modelo de Mensuração.

O modelo de mensuração e o modelo estrutural foram realizados utilizando o método PLS. Modelos de Equações Estruturais são populares, sendo a abordagem PLS uma alternativa a abordagem tradicional baseada na covariância. A abordagem PLS, tem sido referida como uma técnica de modelagem suave com o mínimo de demanda, ao se considerar as escalas de medidas, o tamanho amostral e distribuições residuais (MONECKE; LEISCH, 2012MONECKE, A.; LEISCH, F. semPLS: Structural Equation Modeling Using Partial Least Squares. Journal of Statistical Software, v. 48, n. 3, p. 1-32, May 2012. ).

Para verificar o efeito moderador da Aprendizagem Organizacional sobre a relação entre Ativos do Conhecimento e Capacidade do Processo do Negócio e também entre Capacidade do Processo de Conhecimento e Capacidade do Processo do Negócio foi utilizada a Abordagem Produto Indicador (SANCHEZ, 2013SANCHEZ, G. PLS Path Modeling with R. Berkeley: Trowchez Editions. 2013.). A Abordagem do Produto Indicador cria uma nova variável latente produto da variável exógena e do efeito moderador, sendo esse produto uma nova variável no modelo estrutural. Um efeito moderador é causado por uma variável que influencia na força ou na direção da relação entre uma variável independente e uma variável dependente (BARON E KENNY, 1986BARON, R. M.; KENNY, D. A. The moderator-mediator variable distinction in social psychological research: Conceptual, strategic, and statistical considerations. Journal of personality and social psychology, 1986.). Para verificar a qualidade do ajuste foi utilizado o R2. O R2 representa em uma escala de 0 a 100 o quanto os constructos independentes explicam os dependentes, sendo que quanto mais próximo de 100% melhor.

Segundo os resultados apresentados na Tabela 3 e na Figura 3 tem-se que:

  • Houve influência significativa (Valor-p=0,000) e positiva (β=0,716 [0,65; 0,80]) dos Ativos de Conhecimento sobre a Capacidade do Processo de Conhecimento.

  • Houve influência significativa (Valor-p=0,000) e positiva (β=0,359 [0,21; 0,52]) dos Ativos de Conhecimento sobre a Capacidade do Processo de Negócio. Sendo assim, quanto maiores os Ativos de Conhecimento, maior tende a ser a Capacidade do Processo de Negócio;

  • Houve influência significativa (Valor-p=0,000) e positiva (β=0,550 [0,38; 0,68]) da Capacidade do processo de conhecimento sobre a Capacidade do Processo de Negócio. Sendo assim, quanto maior a Capacidade do processo de conhecimento, maior tende a ser a Capacidade do Processo de Negócio;

  • Houve influência significativa (Valor-p=0,000) e positiva (β=0,744 [0,66; 0,82]) da Capacidade do processo de negócio sobre o Desempenho Organizacional. Sendo assim, quanto maior a Capacidade do processo de negócio, maior tende a ser o Desempenho Organizacional;

TABELA 3:
Modelo Estrutural.

Figura 3:
Ilustração do Modelo Estrutural

Analisando os resultados obtidos com a pesquisa, pode-se constatar que as hipóteses H1, H2, H3 e H4 foram confirmadas e as hipóteses H5 e H6 não foram confirmadas, conforme descrito no Quadro 3:

QUADRO 3:
Atributos da Qualidade da Informação

6 Considerações finais

O trabalho teve como objetivo analisar o impacto das práticas de gestão do conhecimento no desempenho organizacional, através do modelo de gestão do conhecimento e desempenho organizacional de Wu e Chen (2014WU, I. L.; CHEN, J. L. Knowledge management driven firm performance: the roles of business process capabilities and organizational learning. Journal of Knowledge Management, v. 18, n. 1, p. 185-2014, 2014.), utilizando como base de pesquisa empresas de base tecnológicas.

Para atingir o objetivo proposto, foram estabelecidos os seguintes objetivos estratégicos:

  • Traçar uma revisão sistemática de literatura a partir de modelos de gestão do conhecimento e desempenho organizacional em base de dados com descritos pré-estabelecidos;

  • Testar e validar as hipóteses do modelo de WU e Chen (2014WU, I. L.; CHEN, J. L. Knowledge management driven firm performance: the roles of business process capabilities and organizational learning. Journal of Knowledge Management, v. 18, n. 1, p. 185-2014, 2014.) em empresas de base tecnologicas brasileiras;

A escolha por empresas de base tecnológica deu-se pelas particularidades desse tipo de organização. Além dessas empresas na maioria das vezes serem compostas por estudantes universitários, recém-formados ou pesquisadores de determinada área, são grandes fontes consideráveis de tecnologia.

Pode-se ressaltar que tanto o objetivo geral, como os objetivos específicos foram alcançados por essa pesquisa. Isso pode ser visto, pois:

  • Foi realizada uma revisão sistemática na qual foram encontrados 42 modelos de gestão do conhecimento e desempenho organizacinal, dentre os quais foram selecionados 5 modelos por serem mais robustos e com uma maior aderência os objetivos traçados;

  • Dentro os 5 modelos avaliados, a pesquisa optou pelo modelo de Wu e Chen (2014WU, I. L.; CHEN, J. L. Knowledge management driven firm performance: the roles of business process capabilities and organizational learning. Journal of Knowledge Management, v. 18, n. 1, p. 185-2014, 2014.) por abranger a gestão do conhecimento em sua completude, além de avaliar as relações da mesma com o desempenho organizacional. Outra justificativa para a seleção deste modelo é que este se adequa a empresas de base tecnológica e aos processos de negócio;

  • As hipoteses levantadas no modelo de Wu e Chen (2014WU, I. L.; CHEN, J. L. Knowledge management driven firm performance: the roles of business process capabilities and organizational learning. Journal of Knowledge Management, v. 18, n. 1, p. 185-2014, 2014.) foram validadas no contexto de empresas de base tecnologicas brasileras.

Em se tratando das hipóteses definidas na pesquisa, foram alcançados os seguintes resultados:

  • Houve influência significativa (Valor-p=0,000) e positiva (β=0,716 [0,65; 0,80]) dos Ativos de Conhecimento sobre a Capacidade do Processo de Conhecimento. Sendo assim, quanto maiores os Ativos de Conhecimento, maiores tendem a ser a Capacidade do Processo de Conhecimento;

  • Houve influência significativa (Valor-p=0,000) e positiva (β=0,359 [0,21; 0,52]) dos Ativos de Conhecimento sobre a Capacidade do Processo de Negócio. Sendo assim, quanto maiores os Ativos de Conhecimento, maior tende a ser a Capacidade do Processo de Negócio;

  • Houve influência significativa (Valor-p=0,000) e positiva (β=0,550 [0,38; 0,68]) da Capacidade do processo de conhecimento sobre a Capacidade do Processo de Negócio. Sendo assim, quanto maior a Capacidade do processo de conhecimento, maior tende a ser a Capacidade do Processo de Negócio;

  • Houve influência significativa (Valor-p=0,000) e positiva (β=0,744 [0,66; 0,82]) da Capacidade do processo de negócio sobre o Desempenho Organizacional. Sendo assim, quanto maior a Capacidade do processo de negócio, maior tendem a ser o Desempenho Organizacional;

Nota-se que dentre os construtos, o que apresenta maior influência positiva (de 74,3%) sobre o desempenho organizacional é o processo de negócio, mas percebe-se que todos os construtos têm uma influência positiva sobre o desempenho organizacional.

A pesquisa contribuiu para semear os conceitos de gestão do conhecimento e desempenho organizacional dentro de organizações de base tecnológica de forma a apontar que, se as práticas de gestão do conhecimento forem bem definidas e trabalhadas, elas podem impactar positivamente o desempenho organizacional.

O estudo proposto se limitou a pesquisar apenas empresas de base tecnológica brasileiras. Além disso, pela forma de coleta de dados não é possível identificar o universo da pesquisa. Assim, uma sugestão de pesquisa futura seria a realização da mesma pesquisa em outros segmentos como indústria ou serviços em âmbito nacional, ou empresas de um determinado estado da federação.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Maio 2019
  • Data do Fascículo
    Jan-Mar 2019

Histórico

  • Recebido
    08 Mar 2018
  • Aceito
    05 Set 2018
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