O licenciado em Psicologia no ensino fundamental: possibilidade de atuação

El licenciado en psicología en la enseñanza primaria: posibilidad de actuación

Omar Calazans Nogueira Pereira Sobre o autor

Resumo

Este relato tem como objetivo apontar a possibilidade de atuação do licenciado em Psicologia no Ensino Fundamental. Para isso, é descrita uma prática profissional realizada em uma disciplina de temas transversais. Os temas trabalhados e seus objetivos se aproximam dos objetivos do ensino de Psicologia, ainda que não seja propriamente uma disciplina da área. O licenciado nesse nível de ensino traz contribuições relevantes, desenvolve a emancipação dos indivíduos e a reflexão crítica. Nas produções orais e escritas dos alunos foi possível observar o desenvolvimento da empatia, do autoconhecimento, do reconhecimento e respeito pelas diferenças. Como sugestões, aponta-se a importância de os cursos de formação de professores de Psicologia incorporarem conteúdos para a atuação do licenciado no Ensino Fundamental e de possuírem práticas de estágio também neste nível de ensino.

Palavras-chave:
Educação; ensino da psicologia; ensino fundamental

Resumen

En este relato se tiene como objetivo apuntar la posibilidad de actuación del licenciado en Psicología en la Enseñanza Primaria. Para eso, se describe uma práctica profesional realizada en una asignatura de temas transversales. Los temas estudiados y sus objetivos se acercan de los objetivos de la enseñanza de Psicología, aunque que no sea propiamente una asignatura del área. El licenciado en este nivel de enseñanza trae contribuciones relevantes, desarrolla la emancipación de los individuos y la reflexión crítica. Em las producciones verbales e escritas de los alumnos, fueposible observar el desarrollo de la empatía, del autoconocimiento, del reconocimiento y respeto por las diferencias. Como sugerencias, se apunta la importancia de los cursos de formación de profesores de Psicología incorporar contenidos para la actuación del licenciado en la Enseñanza Primaria y de poseer prácticas de pasantía también en este nivel de enseñanza.

Palabras clave:
Educación; enseñanza de la psicología; enseñanza primaria

Abstract

This report aims at pointing out the possibility of practice by psychology graduates in elementary school. In order to do that, a professional practice is described within a discipline of cross-sectional themes. The themes approached and their objectives are very close to the objectives of psychology teaching, even though it is not exactly a discipline in the area. A graduate at this level of education brings relevant contributions, develops individual emancipation and critical thinking. In students’ oral and written productions, it was possible to observe the development of empathy, self-awareness, as well as the recognition and validation of differences by means of respect. It is highly recommended that the courses of teacher formation in psychology include contents for the practice by graduates in elementary education and also that these teachers go through stages of actual practice at this level of education as well.

Keywords:
Education; psychology teaching; elementary school

Introdução

Este texto tem como objetivo apontar a possibilidade de atuação do licenciado em Psicologia no Ensino Fundamental. Para isso, é descrita uma prática profissional realizada em uma disciplina de temas transversais.

Na Psicologia, atualmente está em vigor a Resolução no. 5Resolução no 5 do Conselho Nacional de Educação (2011, 15 de março). Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Psicologia, estabelecendo normas para o projeto pedagógico complementar para a Formação de Professores de Psicologia. Recuperado: 15 abr. 2016. Disponível: Disponível: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=7692-rces005-11-pdf&category_slug=marco-2011-pdf&Itemid=30192 .
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do Conselho Nacional de Educação, de 15 de março de 2011, que institui a obrigatoriedade do oferecimento da licenciatura em todos os cursos de Psicologia, sendo optativo para o aluno realizá-la. Pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996 (Lei no 9.394.1996Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996(1996, 20 de dezembro). Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Recuperado: 13 jan. 2015. Disponível: Disponível: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm .
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), a licenciatura é a formação específica de professores de diversas áreas do conhecimento (por exemplo, Biologia, História, Matemática) para atuarem na Educação Básica, que compreende Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Entretanto, no caso da Psicologia, não há, na grade curricular, uma disciplina específica da área em todos os níveis de ensino, como na Educação Infantil e no Ensino Fundamental (Maciel, 2009Maciel, M. S. (2009). Cursos técnicos: um campo de atuação para o licenciado em psicologia na cidade de belo horizonte. Dissertação de mestrado, Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerais.). Da mesma forma, apenas o Ensino Médio é mencionado pelas próprias entidades da Psicologia, como o Conselho Federal de Psicologia (CFP) na campanha “8 Razões para aprender psicologia no Ensino Médio” (CRPSP, n.d.Conselho Regional de Psicologia de São Paulo[CRPSP] (n.d.). 8 RAZÕES para aprender psicologia no Ensino Médio. Recuperado: 29 jun. 2015. Disponível: Disponível: http://www.crpsp.org.br/educacao/psiensinomedio.aspx .
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), e no material “Ensino de Psicologia no Ensino Médio” (CRPSP,2010Conselho Regional de Psicologia de São Paulo[CRPSP] (Org.). (2010). Ensino de Psicologia no Ensino Médio: impasses e alternativas. São Paulo: CRPSP.) promovidos pelo Conselho Regional de Psicologia de São Paulo.Dentre as publicações sobre o ensino de Psicologia na Educação Básica predominam aquelas referentes à presença no Ensino Médio e Técnico. No entanto, há também relatos sobre o Ensino Fundamental como o de Moreira, Ferreira e Costa (2007Moreira, J. A. M.; Ferreira, L. P.; Costa, V. E. S. M. (2007). Descrição de uma vivência de ensino orientada pela gestaltpedagogia. Revista da Abordagem Gestáltica, 13(2), 187-194.), que descrevem uma experiência de estágio de licenciatura em Psicologia na sétima série (atual oitavo ano) do Ensino Fundamental, tendo por base a gestaltpedagogia.

Para Leite (2007Leite, S. A. S. (2007). Psicologia no Ensino Médio: desafios e perspectivas. Temas em Psicologia, 15(1), 11-21.), a Psicologia traz como contribuição o auxílio no processo de constituição dos jovens como cidadãos críticos e participantes. Para isso, teria que ser adotada uma “estratégia de apropriação do conhecimento psicológico realizada de forma funcional, ou seja, relacionada com a vida que os alunos vivem” (Leite, 2007, p. 20). Contudo, há o risco, conforme aponta Dadico (2009Dadico, L. (2009). Práticas educacionais distintas: a psicologia no ensino médio paulista. Cadernos de Pesquisa, 39(137), 421-440.), que os conteúdos da disciplina de Psicologia sejam transmitidos sem uma articulação com a realidade social, cultural e econômica em que os alunos estão inseridos. Barros (2013Barros, C. C. (2013). Psicologia e educação para os direitos humanos. In: Sekkel,M. C.; Barros. C. C. (Orgs.), Licenciatura em psicologia: temas atuais(pp. 21-41). São Paulo: Zagodoni.), por sua vez, aponta a participação da Psicologia em uma educação para os direitos humanos que vise, dentre outros aspectos, o reconhecimento da dignidade do diferente. Uma educação na qual haveria o entendimento dos mecanismos envolvidos tanto no preconceito quanto no acolhimento das diferenças.

A disciplina e os temas abordados

A prática profissional descrita neste relato foi desenvolvida nos anos de 2014 e 2015 em uma escola particular de Ensino Fundamental II e Ensino Médio, com aproximadamente 400 alunos, localizada na região central da cidade de São Paulo. Para este relato, foram selecionadas as aulas das turmas de quinto ano a nono ano do Ensino Fundamental, a saber, seis turmas em 2014 e cinco em 2015. Desde a criação do colégio, em meados dos anos 2000, na parte diversificada da grade curricular, havia a disciplina obrigatória “Desenvolvimento Pessoal e Social” (DPS), inspirada no projeto descrito por Serrão e Baleeiro (1999Serrão, M.; Baleeiro, M. C. (1999). Aprendendo a ser e a conviver (2a. ed.). São Paulo: FTD.), cujo objetivo geral é construir a cidadania. As aulas da disciplina possuíam 50 minutos e eram dadas uma vez por semana, totalizando quarenta aulas ao longo do ano para cada turma da escola. A disciplina não possuía provas como as demais no colégio, mas havia avaliações, que consistiam em exercícios realizados em sala, lições de casa, realização de trabalhos e apresentações. O professor tinha a liberdade na escolha dos temas, sem haver qualquer tipo de material a ser seguido fornecido pela escola, sendo que a escolha dos mesmos ocorria com base na demanda dos alunos identificada pelo professor. Abaixo, os principais temas trabalhados e seus objetivos.

Sexto ano

Tema: transições. Objetivos: identificar as mudanças entre o quinto ano e o sexto ano, entre o Ensino Fundamental I e Ensino Fundamental II. Reconhecer as semelhanças e as diferenças entre estes dois momentos; Tema: amizade. Objetivos: definir o que é amizade. Refletir sobre como fazer e manter amigos, e como perder amigos; Tema: identidade. Objetivos: fortalecer a identidade pessoal e desenvolver o autoconhecimento; Tema: mundo do trabalho. Objetivos: permitir a aproximação com o mundo do trabalho. Conscientizar sobre a atividades profissionais dos pais e as existentes na comunidade escolar; Tema: deficiência e inclusão. Objetivos: definir o que é deficiência e seus tipos. Apontar ações a serem realizadas para a inclusão de pessoas com deficiência.

Sétimo ano

Tema: a tecnologia e seus usos. Objetivos: discernir como a tecnologia afeta o cotidiano e as relações pessoais. Ampliar o uso consciente e seguro da internet e mídias sociais; Tema: mundo do trabalho. Objetivos: refletir sobre como o trabalho se modifica através do tempo e a influência do desenvolvimento da tecnologia nesse processo. Conscientizar sobre a relação entre características pessoais e atividades profissionais, assim como perceber a interdependência entre as diferentes profissões. Explorar atividades profissionais na imaginação; Tema: gênero. Objetivos: distinguir como os estereótipos de gênero influenciam o cotidiano; Tema: cidadania e eleições. Objetivos: perceber a relação entre as propostas de candidatos e os problemas existentes na comunidade/sociedade. Refletir sobre como seriam um candidato e um eleitor ideais.

Oitavo ano

Tema: bullying, racismo e preconceito. Objetivos: definir o que é bullying, racismo e preconceito, refletir sobre como identificá-los e qual a relação entre ambos; Tema: gênero. Objetivos:identificar desigualdades de gênero existentes na sociedade e que ações podem ser realizadas para diminuí-la.Tema: mundo do trabalho. Objetivos: estimular o autoconhecimento, identificando características pessoais, interesses e habilidades. Refletir sobre trajetórias profissionais, carreira e sucesso profissional; Tema: espaço público. Objetivos: definir o que é espaço público. Assinalar como os espaços públicos permeiam o cotidiano e como podem ser ocupados; Tema: família. Objetivos: definir o que é família e reconhecer a relação entre família e escola.

Nono ano

Tema: estereótipos de raça/etnia e mídia. Objetivos: identificar os estereótipos de raça e etnia presentes em filmes, séries, novelas, propagandas. Tema: gênero. Objetivos: definir identidade de gênero e orientação sexual. Refletir sobre machismo, homofobia e transfobia; Tema: mundo do trabalho. Objetivos: desconstruir estereótipos de gênero. Discutir sobre a desigualdade de gênero no mercado de trabalho. Identificar a trajetória profissional dos pais e refletir sobre fatores que influenciam escolhas profissionais.

Considerações finais

A disciplina descrita neste relato segue como uma possibilidade de atuação no Ensino Fundamental para o licenciado em Psicologia, assim como outras disciplinas de temas transversais que existem nas escolas. Os temas trabalhados e seus objetivos se aproximam dos objetivos do ensino de Psicologia, ainda que não seja propriamente uma disciplina da área. O licenciado nesse nível de ensino traz contribuições relevantes e desenvolve a emancipação dos indivíduos, desenvolvendo a reflexão crítica. Além disso, pode-se entender tal atuação como promotora de uma educação para os direitos humanos, tal como descreve Barros (2013Barros, C. C. (2013). Psicologia e educação para os direitos humanos. In: Sekkel,M. C.; Barros. C. C. (Orgs.), Licenciatura em psicologia: temas atuais(pp. 21-41). São Paulo: Zagodoni.). Nas produções verbais e materiais dos alunos, foi possível observar o desenvolvimento do autoconhecimento, do reconhecimento e respeito pelas diferenças, assim como o desenvolvimento da empatia, possibilitando se colocar no lugar do outro.

Como sugestões, aponta-se a importância que os cursos de formação de professores de Psicologia incorporem conteúdos para a atuação do licenciado no Ensino Fundamental e possuam práticas de estágio também neste nível de ensino. Do mesmo modo, é relevante que se façam levantamentos sobre a atuação dos licenciados em Psicologia no Ensino Fundamental, considerando que provavelmente tais práticas existem, mas não são divulgadas.

Referências

  • Barros, C. C. (2013). Psicologia e educação para os direitos humanos. In: Sekkel,M. C.; Barros. C. C. (Orgs.), Licenciatura em psicologia: temas atuais(pp. 21-41). São Paulo: Zagodoni.
  • Conselho Regional de Psicologia de São Paulo[CRPSP] (Org.). (2010). Ensino de Psicologia no Ensino Médio: impasses e alternativas São Paulo: CRPSP.
  • Conselho Regional de Psicologia de São Paulo[CRPSP] (n.d.). 8 RAZÕES para aprender psicologia no Ensino Médio Recuperado: 29 jun. 2015. Disponível: Disponível: http://www.crpsp.org.br/educacao/psiensinomedio.aspx
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  • Dadico, L. (2009). Práticas educacionais distintas: a psicologia no ensino médio paulista. Cadernos de Pesquisa, 39(137), 421-440.
  • Leite, S. A. S. (2007). Psicologia no Ensino Médio: desafios e perspectivas. Temas em Psicologia, 15(1), 11-21.
  • Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996(1996, 20 de dezembro). Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Recuperado: 13 jan. 2015. Disponível: Disponível: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm
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  • Maciel, M. S. (2009). Cursos técnicos: um campo de atuação para o licenciado em psicologia na cidade de belo horizonte Dissertação de mestrado, Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerais.
  • Moreira, J. A. M.; Ferreira, L. P.; Costa, V. E. S. M. (2007). Descrição de uma vivência de ensino orientada pela gestaltpedagogia. Revista da Abordagem Gestáltica, 13(2), 187-194.
  • Resolução no 5 do Conselho Nacional de Educação (2011, 15 de março). Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Psicologia, estabelecendo normas para o projeto pedagógico complementar para a Formação de Professores de Psicologia. Recuperado: 15 abr. 2016. Disponível: Disponível: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=7692-rces005-11-pdf&category_slug=marco-2011-pdf&Itemid=30192
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  • Serrão, M.; Baleeiro, M. C. (1999). Aprendendo a ser e a conviver (2a. ed.). São Paulo: FTD.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Nov 2019
  • Data do Fascículo
    2019

Histórico

  • Recebido
    18 Abr 2017
  • Aceito
    13 Jun 2017
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