Percepções Parentais sobre o Temperamento Infantil e suas Relações com as Variáveis Sociodemográficas das Famílias

Parental Perceptions of Infant Temperament and its Relation to Family Sociodemographic Variables

Beatriz Schmidt Simone Dill Azeredo Bolze Mauro Luis Vieira Maria Aparecida Crepaldi Sobre os autores

RESUMO

O objetivo deste estudo foi analisar as percepções parentais sobre o temperamento de crianças com idade entre quatro e seis anos e a sua relação com as variáveis sociodemográficas. Participaram da pesquisa 104 famílias biparentais, totalizando 208 mães e pais respondentes. Os instrumentos aplicados foram o Questionário Sociodemográfico e o Children’s Behavior Questionnaire (CBQ), que avalia o temperamento infantil. Os resultados indicaram o afeto negativo como o fator do temperamento mais fortemente relacionado a diferentes variáveis sociodemográficas. Assim, obteve-se que, quanto maior o número de filhos e de membros da família, bem como menor a renda e a escolaridade parental, maiores os indicativos de reações infantis de desconforto, tristeza, medo, raiva e baixa capacidade de se acalmar.

Palavras-chave
temperamento; desenvolvimento infantil; relações pais-criança; relações familiares

ABSTRACT

The aim of this study was to analyze parental perceptions of the temperament of children aged between four and six years and its relation to sociodemographic variables. Participants were 104 two-parent families, totaling 208 respondents. The instruments were a Sociodemographic Questionnaire and the Children's Behavior Questionnaire (CBQ), which assesses infant temperament. The results indicated negative affect as the factor of temperament most strongly related to different sociodemographic variables. Thus, results suggest that the higher the number of children and family members, and the lower the income and level of education of the parents, the stronger are indications of children's reactions of discomfort, sadness, fear, anger, and low soothability.

Keywords
temperament; child development; parent-child relations; family relations

A família exerce um importante papel no processo de desenvolvimento humano, por promover a sobrevivência e a socialização do indivíduo. É a família que proporciona à criança os cuidados iniciais de que ela necessita e que, em virtude de sua dependência e imaturidade, não é capaz de realizar sozinha. A maioria das pessoas vivencia nesse ambiente as primeiras experiências gratificantes e, também, as aversivas. Por se tratar do nicho ecológico primário de socialização, as características do contexto familiar influenciam o desenvolvimento humano (Schmidt, 2012Schmidt, B. (2012). Relacionamento conjugal e temperamento de crianças com idade entre quatro e seis anos (Dissertação de Mestrado). Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil.).

Entre as variáveis contextuais que se associam a relacionamentos parentais-filiais e a desfechos desenvolvimentais, destacam-se as sociodemográficas (Carmo & Alvarenga, 2012Carmo, P. H. B., & Alvarenga, P. (2012). Práticas educativas coercitivas de mães de diferentes níveis socioeconômicos. Estudos de Psicologia, 17(2), 191-197. doi: 10.1590/S1413-294X2012000200001
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; Cassiano & Linhares, 2015Cassiano, R. G. M., & Linhares, M. B. M. (2015). Temperamento, prematuridade e comportamento interativo mãe-criança. Psicologia: Reflexão e Crítica, 28(2), 416-424. doi: 10.1590/1678-7153.201528222
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; Potharst et al., 2012Potharst, E. V., Schuengel, C., Last, B. F., Wassenaer, A. G., Kok, J. H., & Houtzager, B. A. (2012). Difference in mother-child interaction between preterm- and term-born preschoolers with and without disabilities. Acta Paediatrica, 101(6), 597-603. doi: 10.1111/j.1651-2227.2012.02599.x
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). Em estudo realizado nacionalmente, Carmo e Alvarenga (2012Carmo, P. H. B., & Alvarenga, P. (2012). Práticas educativas coercitivas de mães de diferentes níveis socioeconômicos. Estudos de Psicologia, 17(2), 191-197. doi: 10.1590/S1413-294X2012000200001
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) compararam o uso de práticas coercitivas em mães de diferentes níveis socioeconômicos e identificaram correlações estatisticamente significativas entre escolaridade materna e prática de punição física, indicando que, quanto menor o tempo de estudo da mãe, mais frequente a adoção desse tipo de prática. No que diz respeito especificamente ao desenvolvimento infantil, pesquisas têm identificado que desvantagens sociais e econômicas vivenciadas pelas famílias (por exemplo, baixa renda e baixo nível de escolaridade) estão associadas a problemas de comportamento em crianças, constituindo-se em fator de risco ao desenvolvimento (Brown, Ackerman, & Moore, 2013Brown, E. D., Ackerman, B. P., & Moore, C. A. (2013). Family adversity and inhibitory control for economically disadvantaged children: Preschool relations and associations with school readiness. Journal of Family Psychology, 27(3), 443-452. doi: 10.1037/a0032886
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; Jansen et al., 2009Jansen, P. W., Raat, H., Mackenbach, J. P., Jaddoe, V. W., Hofman, A., Verhulst, F. C., & Tiemeier, H. (2009). Socioeconomic inequalities in infant temperament: The Generation R Study. Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, 44(2), 87-95. doi: 10.1007/s00127-008-0416-z
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; Lengua et al., 2015Lengua, L. J., Moran, L., Zalewski, M., Ruberry, E., Kiff, C., & Thompson, S. (2015). Relations of growth in effortful control to family income, cumulative risk, and adjustment in preschool-age children. Journal of Abnormal Child Psychology, 43(4), 705-720. doi: 10.1007/s10802-014-9941-2
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; Mills et al., 2012Mills, R. S. L., Hastings, P. D., Helm, J., Serbin, L. A., Etezadi, J., Stack, D. M., Schwartzman, A. E., & Li, H. H. (2012). Temperamental, parental, and contextual contributors to early-emerging internalizing problems: A new integrative analysis approach. Social Development, 21(2), 229-253. doi: 10.1111/j.1467-9507.2011.00629.x
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). Alguns dos estudos sobre essa temática têm adotado o temperamento como medida comportamental, posto que disposições temperamentais predizem resultados disfuncionais em longo prazo (Cosentino-Rocha, Klein, & Linhares, 2014Cosentino-Rocha, L., Klein, V. C., & Linhares, M. B. M. (2014). Effects of preterm birth and gender on temperament and behavior in children. Infant Behavior & Development, 37, 446-456. doi: 10.1016/j.infbeh.2014.04.003
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; Jansen et al., 2009Jansen, P. W., Raat, H., Mackenbach, J. P., Jaddoe, V. W., Hofman, A., Verhulst, F. C., & Tiemeier, H. (2009). Socioeconomic inequalities in infant temperament: The Generation R Study. Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, 44(2), 87-95. doi: 10.1007/s00127-008-0416-z
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).

O temperamento consiste em diferenças individuais com base constitucional na reatividade e na autorregulação, observadas nos domínios de emocionalidade, atividade motora e atenção, sendo influenciadas ao longo do tempo pela hereditariedade, maturação e experiência (Rothbart, 2004Rothbart, M. K. (2004). Commentary: Differentiated measures of temperament and multiple pathways to child disorders. Journal of Clinical Child and Adolescent Psychology, 33(1), 82-87.). Assim, o temperamento se caracteriza como uma variável individual que interage com variáveis ambientais e influencia trajetórias desenvolvimentais de crianças (Klein & Linhares, 2010Klein, V. C., & Linhares, M. B. M. (2010). Temperamento e desenvolvimento da criança: Revisão sistemática da literatura. Psicologia em Estudo, 15(4), 821-829. doi: 10.1590/S1413-73722010000400018
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; Willoughby, Stifter, & Gottfredson, 2015Willoughby, M. T., Stifter, C. A., Gottfredson, N. C. (2015). The epidemiology of observed temperament: Factor structure and demographic group diferences. Infant Behavior & Development, 39, 21-34. doi: 10.1016/j.infbeh.2015.02.001
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). Estudos indicam correlação positiva entre temperamento e psicopatologia (Rothbart, 2004Rothbart, M. K. (2004). Commentary: Differentiated measures of temperament and multiple pathways to child disorders. Journal of Clinical Child and Adolescent Psychology, 33(1), 82-87.; Willoughby et al., 2015Willoughby, M. T., Stifter, C. A., Gottfredson, N. C. (2015). The epidemiology of observed temperament: Factor structure and demographic group diferences. Infant Behavior & Development, 39, 21-34. doi: 10.1016/j.infbeh.2015.02.001
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). Dessa forma, destaca-se que, em seus extremos, as diferenças individuais do temperamento podem predispor a transtornos psicopatológicos, da mesma maneira que podem influenciar o modo de expressão, a evolução e a probabilidade de recidiva de psicopatologias (Linhares, Dualibe, & Cassiano, 2013Linhares, M. B. M., Dualibe, A. L., & Cassiano, R. G. M. (2013). Temperamento de crianças na abordagem de Rothbart: Estudo de revisão sistemática. Psicologia em Estudo, 18(4), 633-645. doi: 10.1590/S1413-73722013000400006
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).

Apesar de relativamente estável, o temperamento é passível de transformação ao longo do processo desenvolvimental (Linhares et al., 2013Linhares, M. B. M., Dualibe, A. L., & Cassiano, R. G. M. (2013). Temperamento de crianças na abordagem de Rothbart: Estudo de revisão sistemática. Psicologia em Estudo, 18(4), 633-645. doi: 10.1590/S1413-73722013000400006
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; Rothbart & Putnam, 2002Rothbart, M. K., & Putnam, S. (2002). Temperament and socialization. In: L. Pulkinnem & A. Caspi (Eds.), Paths to successful development: Personality in the life course (pp. 19-45). Cambridge: Cambridge University Press.). Dessa forma, há indicativos de que o ambiente é capaz de exercer influência sobre o temperamento (Melchiori, Biasoli-Alves, Souza, & Bugliani, 2007Melchiori, L. E., Biasoli-Alves, Z. M. M., Souza, D. C., & Bugliani, M. A. P. (2007). Família e creche: Crenças a respeito de temperamento e desempenho de bebês. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 23(3), 245-252. doi: 10.1590/S0102-37722007000300002
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). Destacam-se, nesse sentido, as características do contexto familiar de inserção da criança (Jansen et al., 2009Jansen, P. W., Raat, H., Mackenbach, J. P., Jaddoe, V. W., Hofman, A., Verhulst, F. C., & Tiemeier, H. (2009). Socioeconomic inequalities in infant temperament: The Generation R Study. Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, 44(2), 87-95. doi: 10.1007/s00127-008-0416-z
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; Linhares et al., 2013Linhares, M. B. M., Dualibe, A. L., & Cassiano, R. G. M. (2013). Temperamento de crianças na abordagem de Rothbart: Estudo de revisão sistemática. Psicologia em Estudo, 18(4), 633-645. doi: 10.1590/S1413-73722013000400006
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; Schoppe-Sullivan, Mangelsdorf, Brown, & Sokolowski, 2007Schoppe-Sullivan, S. J., Mangelsdorf, S. C., Brown, G. L., & Sokolowski, M. S. (2007). Goodness-of-fit in family context: Infant temperament, marital quality, and early coparenting behavior. Infant Behavior & Development, 30(1), 82-96. doi: 10.1016/j.infbeh.2006.11.008
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; Whiteside-Mansell, Bradley, Casey, Fussell, & Conners-Burrow, 2009Whiteside-Mansell, L., Bradley, R. H., Casey, P. H., Fussell, J. J., & Conners-Burrow, N. A. (2009). Triple risk: Do difficult temperament and family conflict increase the likelihood of behavioral maladjustment in children born low birth weight and preterm? Journal of Pediatric Psychology, 34(4), 396-405. doi: 10.1093/jpepsy/jsn089
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).

Com base nessa perspectiva, o presente estudo tem como objetivo analisar as percepções parentais sobre o temperamento de crianças com idade entre quatro e seis anos e a sua relação com as variáveis sociodemográficas das famílias, ponderando que poucas pesquisas têm investigado tal relação (Jansen et al., 2009Jansen, P. W., Raat, H., Mackenbach, J. P., Jaddoe, V. W., Hofman, A., Verhulst, F. C., & Tiemeier, H. (2009). Socioeconomic inequalities in infant temperament: The Generation R Study. Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, 44(2), 87-95. doi: 10.1007/s00127-008-0416-z
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; Willoughby et al., 2015Willoughby, M. T., Stifter, C. A., Gottfredson, N. C. (2015). The epidemiology of observed temperament: Factor structure and demographic group diferences. Infant Behavior & Development, 39, 21-34. doi: 10.1016/j.infbeh.2015.02.001
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). Destarte, foram examinados indicadores do temperamento infantil, consistentes nos três principais fatores propostos pela abordagem de Rothbart (2004Rothbart, M. K. (2004). Commentary: Differentiated measures of temperament and multiple pathways to child disorders. Journal of Clinical Child and Adolescent Psychology, 33(1), 82-87.) - a saber, extroversão, afeto negativo e controle com esforço -, e variáveis sociodemográficas atinentes à renda mensal, à escolaridade dos genitores, ao número de filhos e ao número de pessoas que residem no domicílio familiar, bem como ao sexo e à idade da criança focal.

Método

Participantes

Participaram do estudo 104 famílias biparentais heteroafetivas residentes em um Estado do Sul do Brasil. Mãe e pai (biológicos ou não) deveriam estar vivendo juntos por um período de, no mínimo, seis meses no momento da coleta de dados. Foram incluídos na amostra apenas mãe e pai que, quando do nascimento da criança focal, já haviam completado 18 anos. A criança focal, sobre a qual os cônjuges responderam aos instrumentos, poderia ser do sexo feminino ou masculino, mas deveria ter idade entre quatro e seis anos e frequentar Instituição de Educação Infantil (IEI) pública ou privada.

Vale destacar que não houve exclusão de famílias em virtude de características sociodemográficas, com a intenção de que os participantes constituíssem uma amostra heterogênea, com diversidade de nível de escolaridade dos pais, renda, composição familiar, incluindo famílias recasadas e extensas ou não e que tivessem um ou mais filhos. Optou-se por incluir famílias com características heterogêneas no intento de avaliar a relação entre as variáveis sociodemográficas e aquelas referentes às percepções parentais sobre o temperamento das crianças focais.

Instrumentos

Questionário Sociodemográfico. Composto por 15 questões concernentes a variáveis como composição familiar, número de pessoas que moram na residência, características da habitação, presença de funcionário contratado para auxiliar nos cuidados com a casa e com a(s) criança(s) (empregada doméstica ou babá, por exemplo), bem como idade, escolaridade, profissão, jornada de trabalho e renda mensal dos membros da família. Tal instrumento foi aplicado exclusivamente às mães.

Children's Behavior Questionnaire (CBQ). Desenvolvido por Putnam e Rothbart (2006Putnam, S. P., & Rothbart, M. K. (2006). Development of short and very short forms of the children's behavior questionnaire. Journal of Personality Assessment, 87(1), 103-113.) para ser respondido por cuidadores de crianças com idade entre três e sete anos, para avaliar o temperamento infantil. O CBQ ainda não está validado nacionalmente, contudo, apresenta versão em português (Brasil) adaptada por Klein e Linhares (2005Klein,V. C., & Linhares, M. B. M. (2005). Tradução do Children's Behavior Questionnaire - very short form. Recuperado de https://research.bowdoin.edu/rothbart-temperament-questionnaires/instrument-descriptions/the-childrens-behavior-questionnaire/.
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). No presente estudo, adotou-se a forma muito curta do instrumento (very short form), a qual se caracteriza como uma escala que varia de 1 (totalmente falsa) a 7 (totalmente verdadeira), além do item não se aplica. É composto por 36 questões que mensuram os principais fatores do temperamento: extroversão (dimensões nível de atividade, prazer de alta intensidade, impulsividade e timidez); afeto negativo (dimensões raiva, desconforto, tristeza, medo e capacidade de se acalmar); e controle com esforço (dimensões focalização da atenção, controle inibitório, prazer de baixa intensidade e sensibilidade perceptual). Tal instrumento foi aplicado individualmente à mãe e ao pai.

Procedimentos de Coleta de Dados

A amostra foi constituída por conveniência, a partir do envio de cartas-convite às famílias, por intermédio das IEIs frequentadas pelas crianças. Após o retorno das cartas-convite preenchidas pelos casais, realizou-se contato telefônico com os participantes, com o objetivo de agendar a visita domiciliar, situação em que ocorreu a aplicação dos instrumentos.

Análise dos Dados

Os dados obtidos foram tabulados e submetidos a análises estatísticas, mediante a utilização do Statistical Package for Social Sciences (SPSS) - versão 18.0. Realizou-se, inicialmente, análise quantitativa com base na estatística descritiva que visou a descrever os valores para cada variável, por meio de distribuição de frequências e porcentagens para variáveis categóricas, bem como média e desvio-padrão para variáveis contínuas. Na sequência, aplicou-se o teste Kolmogorov-Smirnov, que objetiva verificar se uma variável segue determinada distribuição. A partir desse momento, os dados receberam tratamento estatístico não paramétrico, uma vez que nem todas as variáveis obedeceram à distribuição normal. Desse modo, foram realizadas análises estatísticas inferenciais de comparação entre grupos (teste Mann-Whitney e Kruskal-Wallis), associação entre categorias (teste qui-quadrado) e relação entre variáveis (correlação de Spearman).

Aspectos Éticos

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina, sob o Certificado nº 520/2009. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados

Características Sociodemográficas das Famílias Participantes

A Tabela 1 apresenta as principais características sociodemográficas dos participantes.

Tabela 1
Principais características sociodemográficas das famílias

Para o presente estudo, foram entrevistadas 208 pessoas. Das mulheres participantes, 103 eram mães da criança focal e uma era madrasta; dos homens, 99 eram pais da criança focal e cinco eram padrastos . As mulheres apresentavam, em média, 33 anos (DP= ±6,28) no momento da coleta de dados, ao passo que os homens tinham 36 anos (DP= ±7,83), sendo as mães significativamente mais jovens (U=4193,50; Z=2,80; p<0,01).

No tocante aos níveis de escolaridade, o ensino médio foi completado por 32,7% das mães, sendo esse o grau de escolaridade mais prevalente entre as respondentes. O ensino superior foi concluído por 20,2% das mulheres e a pós-graduação, por 12,5% delas. Assim como as mães, o grau de escolaridade mais prevalente nos pais participantes foi o ensino médio completo (27,9%). O ensino superior foi concluído por 15,4% dos homens, enquanto 7,7% deles possuíam pós-graduação. Obteve-se que a escolaridade da mãe era maior que a escolaridade do pai tanto em níveis (χ²=154,24; p<0,01, com força C=0,77; p<0,01) quanto em termos de anos concluídos (U=3990,50; Z=2,07; p<0,05).

Das mães, 16,7% não possuíam jornada de trabalho fora de casa, sendo classificadas como trabalhadoras do lar ou desempregadas. Entre as demais, 21,6% possuíam jornada de até 30 horas semanais; 28,4%, até 40 horas semanais; e 33,3%, acima de 40 horas semanais. Dos pais, 5,9% não possuíam jornada de trabalho fora de casa, 3,9% trabalhavam até 30 horas semanais; 50% possuíam jornada de até 40 horas semanais; e 38,2%, acima de 40 horas semanais. Identificou-se que o pai possuía maior jornada de trabalho fora de casa do que a mãe (χ²=95,22; p<0,01, com força C=0,70; p<0,01).

No que diz respeito à renda familiar mensal, constatou-se que a faixa mais prevalente foi acima de R$ 4.000,00 (vide Tabela 1). Em termos de rendimento dos cônjuges, a remuneração média do pai foi aproximadamente 57% maior que a remuneração média da mãe, sendo essa diferença estatisticamente significativa (U=2505,00; Z=5,28; p<0,01).

Em relação à composição familiar, em 85,6% dos casos, as famílias se caracterizavam como nucleares e compostas por pais biológicos de todos os filhos. O tempo de união do casal variou de um ano a 27 anos, sendo a média 10,74 (DP= ±5,45). No que diz respeito ao número de filhos, a faixa mais prevalente se referiu às famílias com dois filhos no momento da coleta de dados. No concernente à criança focal, foram entrevistadas 57 famílias de crianças do sexo masculino e 47 famílias de crianças do sexo feminino. A faixa etária mais prevalente foi cinco anos no momento da coleta de dados, como indicado na Tabela 1.

A maior parte das crianças (53,8%) frequentava a IEI em período integral. Somente 8,7% das famílias declararam ter babá para cuidar da criança. A responsabilidade pelo cuidado da criança focal, quando ela não estava na escola, foi exclusivamente atribuída à mãe em 23,1% dos casos e ao pai em 6,7%. O cuidado conjunto por mãe e pai era realizado em 14,4% das famílias, por avós em 11,5% e por irmãos mais velhos em 6,7% das famílias.

Características do Temperamento das Crianças Focais

A Tabela 2 contempla os indicadores do temperamento infantil, com base nas percepções maternas e paternas, obtidas por meio de suas respostas ao CBQ.

Tabela 2
Indicadores do temperamento da criança avaliados pelas respostas de pai e de mãe ao CBQ1

O grupo de crianças avaliado apresentou altos escores médios (>5) no fator controle com esforço, segundo percepções parentais. Esse fator, que obteve as mais altas médias dentre os três fatores do temperamento abordados pelo CBQ, consiste nas dimensões focalização de atenção, controle inibitório, prazer de baixa intensidade e sensibilidade perceptual. Desse modo, mãe e pai consideraram, em média, como razoavelmente verdadeiro (5) e bastante verdadeiro (6) que sua criança fica muito concentrada quando está desenhando ou pintando em um livro, que ela é boa em seguir instruções, que gosta de atividades rítmicas suaves (como se balançar) e que comenta quando um dos pais muda a aparência, por exemplo.

No fator extroversão, mãe e pai apontaram, em média, como nem verdadeira nem falsa (4) ou razoavelmente verdadeira (5) para o seu filho situações tais quais: parece estar sempre com muita pressa para ir de um lugar ao outro (dimensão nível de atividade); gosta de descer em escorregadores altos ou de outras atividades de aventura (dimensão prazer de alta intensidade); parece estar à vontade com quase todas as pessoas (dimensão timidez); frequentemente entra rapidamente em novas situações (dimensão impulsividade).

O afeto negativo, terceiro fator avaliado pelo CBQ, é constituído pelas dimensões raiva, desconforto, tristeza, medo e capacidade de se acalmar. Mãe e pai indicaram perceber, em média, como nem verdadeira nem falsa (4) ou como razoavelmente verdadeira (5) para seu filho as seguintes reações: fica muito frustrado quando não lhe deixam fazer algo que ele quer; fica muito incomodado com um machucado ou pequeno corte; tende a ficar triste se os planos da família não dão certo; tem medo de ladrões ou do “bicho-papão”; quando está zangado com alguma coisa, tende a ficar aborrecido por dez minutos ou mais.

A análise estatística não revelou diferença significativa entre as respostas dos cônjuges, o que indica que mulheres e homens concordaram com relação às características de controle com esforço, extroversão e afeto negativo da criança.

Relações entre as Percepções Parentais sobre o Temperamento das Crianças e as Variáveis Sociodemográficas das Famílias

Buscando identificar associações entre as variáveis sociodemográficas das famílias e o temperamento das crianças, o Questionário Sociodemográfico e o CBQ foram analisados. Identificou-se que as mães que têm apenas um filho tendem a considerar menos prevalentes as reações referentes ao fator afeto negativo em sua criança, em comparação às mães que têm mais de um filho (U=788,50; Z=2,01; p<0,05). Sendo assim, mães de dois ou mais filhos referem mais afeto negativo para a criança focal do que mães de somente um filho.

Ademais, buscou-se ainda verificar a existência de diferenças na forma de apresentação das características do temperamento, de acordo com o gênero da criança. Obteve-se que tanto a mãe (U=720,50; Z=2,99; p<0,01) quanto o pai (U=818,50; Z=2,11; p<0,05) referiram observar mais reações de afeto negativo nas crianças do sexo feminino, sendo esse o único fator que apresentou diferenças estatisticamente significativas entre os gêneros. Isto é, as médias dos fatores extroversão e controle com esforço, segundo as respostas de mãe e de pai, não diferiram de maneira significativa entre as crianças do sexo feminino e masculino.

Além disso, com o objetivo de investigar diferenças nos fatores do temperamento infantil em função da idade, realizou-se análise por três grupos de faixa etária (quatro, cinco e seis anos). Constatou-se que houve diferenças nas respostas das mães sobre o controle com esforço (χ²=10,99; p<0,01), sendo as médias progressivamente maiores de acordo com a idade das crianças. Assim, a média de controle com esforço foi 5,51 (DP= ±0,65) nas crianças com quatro anos; 5,86 (DP= ±0,61) com cinco anos; e 6,13 (DP= ±0,76) com seis anos de idade.

Ademais, partindo desses resultados, optou-se por comparar as médias maternas de controle com esforço, buscando identificar diferenças significativas entre dois grupos de crianças com idades distintas. Para tanto, foram comparadas crianças com as seguintes idades: (a) quatro anos e cinco anos; (b) quatro anos e seis anos; (c) cinco anos e seis anos. Por meio das comparações dois a dois, identificou-se que o controle com esforço das crianças de cinco anos foi significativamente maior que o controle com esforço das crianças de quatro anos (U=599,00; Z=2,65; p<0,01), bem como o controle com esforço das crianças de seis anos foi significativamente maior que o controle com esforço das crianças de quatro anos (U=108,50; Z=2,56; p=0,01), de acordo com as respostas das mães.

Apesar da média materna de controle com esforço ser maior nas crianças de seis anos (M=6,13; DP= ±0,79) em comparação às crianças de cinco anos (M=5,86; DP= ±0,61), essa diferença não foi significativa. Sendo assim, verificou-se que o controle com esforço aumentou significativamente dos quatro para os cinco anos e dos quatro para os seis anos, nas crianças focais, mas não dos cinco para os seis anos de idade. Nesse sentido, crianças com cinco anos apresentaram maior controle com esforço do que crianças com quatro anos, bem como crianças com seis anos apresentaram maior controle com esforço do que crianças com quatro anos.

A Tabela 3 contempla os demais resultados estatisticamente significativos das análises entre o Questionário Sociodemográfico e o CBQ.

Tabela 3
Correlações entre as variáveis sociodemográficas das famílias e o temperamento das crianças

Constata-se, com base na Tabela 3, que o único fator do CBQ que apresentou correlações estatisticamente significativas com variáveis sociodemográficas atinentes ao número de pessoas que residem no domicílio, escolaridade ou renda foi o afeto negativo. Verifica-se que quanto maior o número de habitantes na residência familiar e quanto menor a escolaridade de pai e de mãe, a renda de pai e de mãe e a renda mensal da família, mais a mãe tende a avaliar que a criança apresenta reações de raiva, medo, tristeza, desconforto e baixa capacidade de se acalmar.

É possível averiguar que o resultado da correlação, entre o número de pessoas vivendo na residência familiar e o afeto negativo identificado pela mãe, coaduna com o resultado do teste de comparação (Mann-Whitney) apresentado anteriormente, o qual revelou que mães de dois ou mais filhos referem mais afeto negativo na criança focal do que mães de apenas um filho (U=788,50; Z=2,01; p<0,05). Esses resultados apresentam conformidade, pois um maior número de filhos se associou a um maior número de pessoas vivendo na residência da família.

Com relação ao fator afeto negativo referido pelo pai, identificou-se que quanto menor a renda do pai e a renda familiar, mais o pai afirma que sua criança é muito difícil de acalmar quando está aborrecida, costuma ficar bastante frustrada quando não lhe deixam fazer o que quer, incomoda-se muito com um pequeno corte ou ferimento, bem como se sente deprimida ao não conseguir finalizar alguma tarefa.

Discussão

Primeiramente, ressalta-se que não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas entre as respostas da mãe e do pai aos fatores do CBQ, indicando que, em média, eles perceberam as manifestações das características de temperamento da sua criança de modo semelhante. Tais achados são congruentes com Putnam e Rothbart (2006Putnam, S. P., & Rothbart, M. K. (2006). Development of short and very short forms of the children's behavior questionnaire. Journal of Personality Assessment, 87(1), 103-113.), pois esses autores, no estudo que aborda o processo de desenvolvimento da very short form do CBQ, apontaram o bom grau de concordância entre mães e pais respondentes no que concerne ao temperamento da criança focal.

Outrossim, a análise do CBQ revelou que o fator que obteve mais altos escores médios no grupo de crianças avaliado foi o controle com esforço, de acordo com as respostas de mãe e de pai. Ademais, identificou-se ainda que as médias de controle com esforço foram progressivamente maiores de acordo com a idade das crianças focais, segundo as respostas maternas, sendo essa diferença estatisticamente significativa na comparação entre as crianças de quatro anos com as crianças de cinco anos e entre as crianças de quatro anos com as crianças de seis anos. Assim, embora não tenha sido identificada diferença estatisticamente significativa na comparação entre as crianças de cinco anos com as crianças de seis anos no que se refere ao fator controle com esforço, aos quatro anos de idade, as crianças focais apresentaram significativamente menor controle com esforço, ou seja, focalização de atenção, controle inibitório, prazer de baixa intensidade e sensibilidade perceptual, do que as crianças aos cinco e aos seis anos de idade, conforme as respostas das mães ao CBQ.

Esse dado é compatível com a literatura sobre a temática, a qual indica que, embora o temperamento seja relativamente estável ao longo do tempo, o processo de desenvolvimento influencia o modo como ele se apresenta (Else-Quest, Hyde, Goldsmith, & Van Hulle, 2006Else-Quest, N. M., Hyde, J. S., Goldsmith, H. H., & Van Hulle, C. A. (2006). Gender differences in temperament: A meta-analysis. Psychological Bulletin, 1, 33-72. doi: 10.1037/0033-2909.132.1.33
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). Nesse sentido, é natural que o controle com esforço seja maior em crianças de seis anos em comparação às crianças com menor idade. Isso porque o controle com esforço surge em torno do primeiro ano de vida e tende a ficar mais sofisticado e organizado, à medida que a criança se aproxima do período pré-escolar (Hill-Soderlund & Braungart-Rieker, 2008Hill-Soderlund, A. L., & Braungart-Reiker, J. M. (2008). Early individual differences in temperamental reactivity and regulation: Implications for effortful control in early childhood. Infant Behavior & Development, 31(3), 386-397. doi: 10.1016/j.infbeh.2007.12.007
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; Klein, 2009Klein, V. C. (2009). Reatividade à dor, temperamento e comportamento na trajetória de desenvolvimento de neonatos pré-termo até a fase pré-escolar (Tese de Doutorado). Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, Brasil.; Lengua et al., 2015Lengua, L. J., Moran, L., Zalewski, M., Ruberry, E., Kiff, C., & Thompson, S. (2015). Relations of growth in effortful control to family income, cumulative risk, and adjustment in preschool-age children. Journal of Abnormal Child Psychology, 43(4), 705-720. doi: 10.1007/s10802-014-9941-2
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). De tal modo, o referido fator do temperamento é o que aparece mais tardiamente no desenvolvimento, uma vez que a extroversão e o afeto negativo podem ser observados com clareza já nos primeiros meses de idade, por meio de reações de esquiva e de frustração ou, ainda, do sorriso (Klein, 2009Klein, V. C. (2009). Reatividade à dor, temperamento e comportamento na trajetória de desenvolvimento de neonatos pré-termo até a fase pré-escolar (Tese de Doutorado). Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, Brasil.; Rothbart, 2007Rothbart, M. K. (2007). Temperament, development, and personality. Current Directions in Psychological Science, 16(4), 207-212. doi: 10.1111/j.1467-8721.2007.00505.x
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). Apesar da origem constitucional do controle com esforço, seu desenvolvimento faz parte do processo de socialização, durante o qual as crianças podem aprender a controlar impulsos comportamentais e emocionais, apresentando reações mais aceitas socialmente (Karreman, van Tuijl, van Aken, & Dekovic, 2008Karreman, A., van Tuijl, C., van Aken, M. A. G., & Dekovic, M. (2008). Parenting, coparenting, and effortful control in preschoolers. Journal of Family Psychology, 22(1), 30-40. doi: 10.1037/0893-3200.22.1.30
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). Assim, compreende-se que o controle com esforço pode ser moldado pelas experiências contextuais (Lengua et al., 2015Lengua, L. J., Moran, L., Zalewski, M., Ruberry, E., Kiff, C., & Thompson, S. (2015). Relations of growth in effortful control to family income, cumulative risk, and adjustment in preschool-age children. Journal of Abnormal Child Psychology, 43(4), 705-720. doi: 10.1007/s10802-014-9941-2
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).

O controle com esforço se relaciona à habilidade de autorregulação voluntária, sendo definido como a capacidade de inibir uma resposta dominante em favor de uma subdominante (Hill-Soderlund & Braungart-Rieker, 2008Hill-Soderlund, A. L., & Braungart-Reiker, J. M. (2008). Early individual differences in temperamental reactivity and regulation: Implications for effortful control in early childhood. Infant Behavior & Development, 31(3), 386-397. doi: 10.1016/j.infbeh.2007.12.007
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; Karreman et al., 2008Karreman, A., van Tuijl, C., van Aken, M. A. G., & Dekovic, M. (2008). Parenting, coparenting, and effortful control in preschoolers. Journal of Family Psychology, 22(1), 30-40. doi: 10.1037/0893-3200.22.1.30
https://doi.org/10.1037/0893-3200.22.1.3...
). Gunnar, Sebanc, Tout, Donzella, e van Dulmen (2003Gunnar, M. R., Sebanc, A. M., Tout, K., Donzella, B., & Van Dulmen, M. M. H. (2003). Peer rejection, temperament and cortisol activity in preschoolers. Developmental Psychobiology, 43(4), 346-358. doi: 10.1002/dev.10144
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), em estudo desenvolvido junto a 82 pré-escolares, identificaram que a agressividade nas crianças esteve positivamente relacionada ao pobre controle com esforço e, por conseguinte, à maior rejeição por pares. Além disso, de acordo com Crawford, Schrock, e Woodruff-Borden (2011Crawford, N. A., Schrock, M., & Woodruff-Borden, J. (2011). Child internalizing symptoms: Contributions of child temperament, maternal negative affect, and family functioning. Child Psychiatry & Human Development, 42, 53-64. doi: 10.1007/s10578-010-0202-5
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), crianças com altos níveis de controle com esforço apresentam estratégias de enfrentamento mais adaptativas em situações ansiogênicas, demonstrando um sofisticado nível de regulação emocional. Além dos desfechos desenvolvimentais positivos em pré-escolares, o controle com esforço se associa ainda a bons resultados educacionais em crianças em idade escolar (Cosentino-Rocha et al., 2014Cosentino-Rocha, L., Klein, V. C., & Linhares, M. B. M. (2014). Effects of preterm birth and gender on temperament and behavior in children. Infant Behavior & Development, 37, 446-456. doi: 10.1016/j.infbeh.2014.04.003
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), uma vez que prediz prontidão e competência acadêmica (Lengua et al., 2015Lengua, L. J., Moran, L., Zalewski, M., Ruberry, E., Kiff, C., & Thompson, S. (2015). Relations of growth in effortful control to family income, cumulative risk, and adjustment in preschool-age children. Journal of Abnormal Child Psychology, 43(4), 705-720. doi: 10.1007/s10802-014-9941-2
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), bem como melhor habilidade para a leitura (Deater-Deckard, Mullineaux, Petrill, & Thompson, 2009Deater-Deckard, K., Mullineaux, P. Y., Petrill, S. A., & Thompson, L. A. (2009). Effortful control, surgency, and reading skills in middle childhood. Reading and Writing, 22(1), 107-116.). Nesse sentido, conforme Klein e Linhares (2010Klein, V. C., & Linhares, M. B. M. (2010). Temperamento e desenvolvimento da criança: Revisão sistemática da literatura. Psicologia em Estudo, 15(4), 821-829. doi: 10.1590/S1413-73722010000400018
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), altos escores nesse fator estão associados à supressão de tendências motivacionais e comportamentais dirigidas pelo afeto, o que possibilita a reprogramação do comportamento em situações de interesses conflitantes, relacionando-se a um melhor desenvolvimento emocional e social.

No presente estudo, os respondentes indicaram perceber, em média, como nem verdadeiras nem falsas ou como razoavelmente verdadeiras para as suas crianças as reações vinculadas ao prazer de alta intensidade, à impulsividade e ao nível de atividade. Essas dimensões, componentes do fator extroversão, quando em níveis excessivos, estão associadas a desfechos desenvolvimentais negativos, tais como maior rejeição por pares ou problemas externalizantes (Dollar & Stifter, 2012Dollar, J. M., & Stifter, C. A. (2012). Temperamental surgency and emotion regulation as predictors of childhood social competence. Journal of Experimental Child Psychology, 112, 178-194. doi: 10.1016/j.jecp.2012.02.004
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). Assim, altos escores em extroversão e em afeto negativo se relacionam a manifestações de agressividade (Rothbart, Ahadi, Hershey, & Fisher, 2001Rothbart, M. K., Ahadi, S. A., Hershey, K., & Fisher, P. (2001). Investigations of temperament at three to seven years: The Children's Behavior Questionnaire. Child Development, 72(5), 1394-1408.).

No que diz respeito ao afeto negativo, embora bastante próximas de altos escores médios, as respostas de mãe e de pai apontaram esse fator como nem verdadeiro nem falso ou como razoavelmente verdadeiro para o seu filho. Os traços vinculados ao afeto negativo se referem à frequência e à intensidade das experiências de medo, desconforto, tristeza, raiva e capacidade de se acalmar. Eles são descritos como um padrão de reatividade motora, afetiva e sensorial (Rothbart, 2004Rothbart, M. K. (2004). Commentary: Differentiated measures of temperament and multiple pathways to child disorders. Journal of Clinical Child and Adolescent Psychology, 33(1), 82-87.) que pode incluir respostas de evitação, movimentos corporais e expressões faciais negativas, bem como de inibição à aproximação. Além disso, no estudo desenvolvido por Crawford et al. (2011Crawford, N. A., Schrock, M., & Woodruff-Borden, J. (2011). Child internalizing symptoms: Contributions of child temperament, maternal negative affect, and family functioning. Child Psychiatry & Human Development, 42, 53-64. doi: 10.1007/s10578-010-0202-5
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), constatou-se que altos escores de afeto negativo em pré-escolares predizem sintomas de internalização longitudinalmente, em especial quando associados a baixos escores de controle com esforço.

Os fatores do CBQ foram também analisados no tocante ao gênero, com o intuito de verificar se a extroversão, o afeto negativo e o controle com esforço diferiram em função do sexo da criança. Os resultados mostraram que mãe e pai referiram perceber mais reações de afeto negativo (medo, desconforto, tristeza, raiva e baixa capacidade de se acalmar) nas crianças do sexo feminino, sendo esse o único fator que apresentou diferenças estatisticamente significativas entre os gêneros. Os achados da literatura são contraditórios no concernente às diferenças de gênero no temperamento infantil. Else-Quest et al. (2006Else-Quest, N. M., Hyde, J. S., Goldsmith, H. H., & Van Hulle, C. A. (2006). Gender differences in temperament: A meta-analysis. Psychological Bulletin, 1, 33-72. doi: 10.1037/0033-2909.132.1.33
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), em revisão da literatura que envolveu estudos realizados com crianças de três meses a 13 anos, constataram que, apesar da pequena diferença de gênero no que diz respeito a maiores escores na dimensão medo demonstrados por crianças do sexo feminino, o fator afeto negativo, de modo geral, não apresentou diferença significativa de acordo com o gênero. Entretanto, Chaplin, Cole, e Zahn-Waxler (2005Chaplin, T. M., Cole, P. M., & Zahn-Waxler, C. (2005). Parental socialization of emotion expression: Gender differences and relations to child adjustment. Emotion, 5(1), 80-88. ) indicaram que, em pré-escolares especificamente, diferenças de gênero na expressão emocional têm sido identificadas, sendo garotas mais propensas a demonstrar tristeza e menos propensas a demonstrar raiva que garotos. Do mesmo modo, entre crianças com idade entre 18 e 36 meses, Cosentino-Rocha et al. (2014Cosentino-Rocha, L., Klein, V. C., & Linhares, M. B. M. (2014). Effects of preterm birth and gender on temperament and behavior in children. Infant Behavior & Development, 37, 446-456. doi: 10.1016/j.infbeh.2014.04.003
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) também identificaram maiores escores de desconforto e medo (afeto negativo) no sexo feminino em comparação ao sexo masculino.

Igualmente, é importante destacar ainda o viés dos estereótipos de gênero no que diz respeito à afetividade das crianças. De acordo com Else-Quest et al. (2006Else-Quest, N. M., Hyde, J. S., Goldsmith, H. H., & Van Hulle, C. A. (2006). Gender differences in temperament: A meta-analysis. Psychological Bulletin, 1, 33-72. doi: 10.1037/0033-2909.132.1.33
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), as garotas são estereotipadas como apresentando maiores reações de medo e de tristeza e menores reações de raiva do que os garotos. Essas estereotipias podem influenciar o processo de desenvolvimento infantil, uma vez que os pais tendem a encorajar ou a reforçar que seus filhos apresentem comportamentos e reações aceitas socialmente com base nos estereótipos de gênero. Além disso, é possível levantar a hipótese de que as próprias respostas de mãe e de pai ao CBQ, durante o processo de coleta de dados, podem ter sido influenciadas por esses estereótipos de gênero, caracterizando-se, então, pela desejabilidade social.

Ademais, no que tange às análises correlacionais entre temperamento infantil e variáveis sociodemográficas atinentes a número de pessoas que residem no domicílio, escolaridade ou renda, identificaram-se relações estatisticamente significativas unicamente com o fator afeto negativo, tanto o referido pela mãe, quanto o referido pelo pai. Nesse sentido, constatou-se que a escolaridade de mãe e pai, assim como os rendimentos de mãe, pai e renda familiar total estiveram inversamente relacionados ao afeto negativo da criança, segundo as respostas maternas. Sendo assim, quanto menor a renda e a escolaridade dos pais, maior o afeto negativo infantil, de acordo com as mulheres. Igualmente, o afeto negativo referido pelo pai também se relacionou de maneira inversa à renda familiar total e à renda paterna.

Esses resultados coadunam com os achados de Jansen et al. (2009Jansen, P. W., Raat, H., Mackenbach, J. P., Jaddoe, V. W., Hofman, A., Verhulst, F. C., & Tiemeier, H. (2009). Socioeconomic inequalities in infant temperament: The Generation R Study. Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, 44(2), 87-95. doi: 10.1007/s00127-008-0416-z
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), em um estudo que visou a investigar as associações entre características socioeconômicas familiares e temperamento na infância, desenvolvido junto a mais de quatro mil crianças com seis meses de idade. Jansen et al. identificaram que as iniquidades socioeconômicas estão associadas ao temperamento, desde um período bastante precoce do processo de desenvolvimento infantil. No que diz respeito ao afeto negativo, especificamente, foi constatado que maiores escores na dimensão medo estiveram associados à menor escolaridade materna, ao menor status profissional da mãe e à menor renda familiar. Em adição a isso, identificou-se ainda que a menor escolaridade paterna também se associou a escores mais altos na dimensão medo. Desse modo, os achados de Jansen et al. são compatíveis com os da presente pesquisa, tendo em vista a constatação de relações entre características sociodemográficas das famílias e afeto negativo das crianças.

Igualmente, Willoughby et al. (2015Willoughby, M. T., Stifter, C. A., Gottfredson, N. C. (2015). The epidemiology of observed temperament: Factor structure and demographic group diferences. Infant Behavior & Development, 39, 21-34. doi: 10.1016/j.infbeh.2015.02.001
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) também verificaram níveis mais elevados de raiva em crianças oriundas de meios economicamente desfavorecidos, bem como de medo em filhos de famílias afro-americanas. No que diz respeito especificamente às diferenças étnicas nas reações de afeto negativo, esses autores discutiram que a maior parte das famílias em situação de pobreza na amostra investigada era afro-americana. Assim, há indicativos de que as diferenças étnicas no temperamento infantil são mais bem explicadas pela vulnerabilidade econômica vivenciada pelas famílias (Willoughby et al., 2015Willoughby, M. T., Stifter, C. A., Gottfredson, N. C. (2015). The epidemiology of observed temperament: Factor structure and demographic group diferences. Infant Behavior & Development, 39, 21-34. doi: 10.1016/j.infbeh.2015.02.001
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).

Outrossim, mães com dois ou mais filhos referiram maiores reações de raiva, desconforto, medo, tristeza e menor capacidade de se acalmar na criança focal em comparação às mães de apenas um filho. Do mesmo modo, quanto maior o número de pessoas residindo no domicílio familiar, mais as mulheres constataram afeto negativo na criança focal. Destaca-se, nesse sentido, que um dos fatores de risco ao desenvolvimento infantil se refere a características sociodemográficas, como o número de crianças e o número total de pessoas residindo no domicílio familiar (Mills et al., 2012Mills, R. S. L., Hastings, P. D., Helm, J., Serbin, L. A., Etezadi, J., Stack, D. M., Schwartzman, A. E., & Li, H. H. (2012). Temperamental, parental, and contextual contributors to early-emerging internalizing problems: A new integrative analysis approach. Social Development, 21(2), 229-253. doi: 10.1111/j.1467-9507.2011.00629.x
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). O maior número de crianças e o maior tamanho familiar estão associados à menor atenção individual aos filhos, à parentalidade menos positiva e à utilização de disciplina mais autocrática pelos pais, conforme apontaram Mills et al.. Nesse sentido, há indicativos de que o estresse familiar e a maior sobrecarga de trabalho materno em famílias numerosas têm efeitos sobre a qualidade da parentalidade, tornando as mães mais críticas quanto às reações de afeto negativo do seu filho. Por outro lado, parece também que tanto a parentalidade menos positiva, mais crítica e/ou punitiva quanto a menor atenção individual recebida pela criança no ambiente familiar favorecem as manifestações de raiva, tristeza, desconforto, medo e baixa capacidade de se acalmar, estando relacionadas, portanto, ao afeto negativo.

Cabe ressaltar que se constatou a relação entre número de filhos e número de pessoas na residência com o afeto negativo das crianças apenas para a mãe. A respeito disso, Leve, Scamarella, e Fagot (2001Leve, L. D., Scaramella, L. V., & Fagot, B. I. (2001). Infant temperament, pleasure in parenting, and marital happiness in adoptive families. Infant Mental Health Journal, 22(5), 545-558. doi: 10.1002/imhj.1017
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) apontaram que diferenças na forma como mulheres e homens caracterizam o temperamento infantil em relação às variáveis ambientais já foram identificadas. Como mãe e pai interagem de formas distintas com filhos, diferenças nas percepções sobre o temperamento são esperadas: de modo específico, a mãe tende, mais prevalentemente que o pai, a caracterizar a criança por temperamento difícil (Leve et al., 2001). Em consonância a esse assinalamento, Melchiori et al. (2007Melchiori, L. E., Biasoli-Alves, Z. M. M., Souza, D. C., & Bugliani, M. A. P. (2007). Família e creche: Crenças a respeito de temperamento e desempenho de bebês. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 23(3), 245-252. doi: 10.1590/S0102-37722007000300002
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) ponderaram ainda que as características do temperamento da criança podem ser percebidas de maneiras diferentes, dependendo do contexto cultural.

Considerações Finais

O objetivo deste estudo foi analisar as percepções parentais sobre o temperamento de crianças com idade entre quatro e seis anos e a sua relação com as variáveis sociodemográficas, obtendo como principais resultados os contemplados a seguir: (a) quanto maior o número de filhos e o número de habitantes na residência familiar, bem como quanto menor a escolaridade de mãe e de pai, a renda de mãe e de pai e a renda mensal da família, mais a mãe tende a avaliar que a criança focal apresenta reações de raiva, medo, tristeza, desconforto e baixa capacidade de se acalmar (afeto negativo); (b) no mesmo sentido da mãe, quanto menor a renda paterna e a renda familiar, mais o pai afirma que a criança demonstra características de temperamento atinentes ao fator afeto negativo. Tais resultados sugerem que dos três fatores do temperamento, o afeto negativo infantil se relaciona mais fortemente às variáveis sociodemográficas das famílias, conforme discutido anteriormente.

Considera-se que a presente pesquisa contribui com a literatura, no sentido de estabelecer discussões sobre temática cujo foco de interesse é recente, caracterizada por escassez de produções e resultados ainda inconsistentes (Jansen et al., 2009Jansen, P. W., Raat, H., Mackenbach, J. P., Jaddoe, V. W., Hofman, A., Verhulst, F. C., & Tiemeier, H. (2009). Socioeconomic inequalities in infant temperament: The Generation R Study. Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, 44(2), 87-95. doi: 10.1007/s00127-008-0416-z
https://doi.org/10.1007/s00127-008-0416-...
; Willoughby et al., 2015Willoughby, M. T., Stifter, C. A., Gottfredson, N. C. (2015). The epidemiology of observed temperament: Factor structure and demographic group diferences. Infant Behavior & Development, 39, 21-34. doi: 10.1016/j.infbeh.2015.02.001
https://doi.org/10.1016/j.infbeh.2015.02...
). Outrossim, investiga o temperamento de crianças com idade entre quatro e seis anos, período do desenvolvimento menos abordado nos trabalhos científicos sobre o tema, uma vez que a maior parte dos estudos tem priorizado crianças menores (Klein & Linhares, 2010Klein, V. C., & Linhares, M. B. M. (2010). Temperamento e desenvolvimento da criança: Revisão sistemática da literatura. Psicologia em Estudo, 15(4), 821-829. doi: 10.1590/S1413-73722010000400018
https://doi.org/10.1590/S1413-7372201000...
; Schmidt, Crepaldi, Vieira, & Moré, 2011Schmidt, B., Crepaldi, M. A., Vieira, M. L., & Moré, C. L. O. O. (2011). Relacionamento conjugal e temperamento de crianças: Uma revisão da literatura. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 63(3), 89-106.).

Ademais, há indicativos de que a mãe usualmente responde aos instrumentos de medida em pesquisas que abordam o temperamento infantil, em detrimento do pai (Klein & Linhares, 2010Klein, V. C., & Linhares, M. B. M. (2010). Temperamento e desenvolvimento da criança: Revisão sistemática da literatura. Psicologia em Estudo, 15(4), 821-829. doi: 10.1590/S1413-73722010000400018
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). Pondera-se que, no presente estudo, ambos os genitores responderam ao CBQ, de modo que os resultados abrangeram percepções de mãe e de pai. As medidas foram obtidas por meio do relato de dois informantes diferentes, possibilitando a comparação das repostas e a identificação de semelhanças e de diferenças entre elas. Salienta-se que o exame de concepções de mãe e de pai sobre o temperamento infantil é importante, levando em conta que mulheres e homens interagem de formas diferentes com os filhos e, portanto, podem apresentar percepções distintas acerca do temperamento das crianças (Leve et al., 2001Leve, L. D., Scaramella, L. V., & Fagot, B. I. (2001). Infant temperament, pleasure in parenting, and marital happiness in adoptive families. Infant Mental Health Journal, 22(5), 545-558. doi: 10.1002/imhj.1017
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).

Acredita-se que a pesquisa pode, também, ser considerada relevante por abranger uma amostra não clínica, isto é, composta por famílias (tanto os casais quanto as crianças) que não haviam sido previamente identificadas por apresentar problemas de desenvolvimento ou potencial de risco para tanto. Assim, destaca-se a intenção de compreender o temperamento infantil em relação aos processos de desenvolvimento normativo ou típico.

No que diz respeito às limitações, salienta-se que, em função da opção pela versão muito curta do CBQ (isto é, a very short form, composta por 36 questões), foi possível avaliar unicamente os três fatores gerais derivados teórica e empiricamente do temperamento, mas não separadamente as dimensões que os compõem (Putnam & Rothbart, 2006Putnam, S. P., & Rothbart, M. K. (2006). Development of short and very short forms of the children's behavior questionnaire. Journal of Personality Assessment, 87(1), 103-113.). A opção por tal versão - embora necessária, em virtude da longa bateria de instrumentos respondida pelos participantes no momento da coleta de dados, uma vez que este estudo faz parte de um projeto de pesquisa mais amplo - prejudicou a comparação dos resultados da presente pesquisa com aqueles disponíveis na literatura. Tal prejuízo ocorreu à medida que grande parte dos estudos revisados utilizou a versão standard (195 itens) e a short CBQ (94 itens), as quais são compostas pelas quinze dimensões do temperamento (Putnam & Rothbart, 2006Putnam, S. P., & Rothbart, M. K. (2006). Development of short and very short forms of the children's behavior questionnaire. Journal of Personality Assessment, 87(1), 103-113.). Contudo, apesar do prejuízo, acredita-se que tal condição não inviabilizou ou mesmo invalidou os resultados do estudo, que acompanharam tendências previstas na literatura sobre a temática, conforme apresentado na seção de Discussão.

No tocante aos desdobramentos para a prática, considerando a identificação da relação entre temperamento infantil - notadamente no que diz respeito ao fator afeto negativo - e variáveis sociodemográficas, concebe-se a importância da promoção de ações e de programas voltados à diminuição de iniquidades sociais e econômicas vivenciadas pelas famílias, por se constituírem em fator de risco a trajetórias desenvolvimentais (Mills et al., 2012Mills, R. S. L., Hastings, P. D., Helm, J., Serbin, L. A., Etezadi, J., Stack, D. M., Schwartzman, A. E., & Li, H. H. (2012). Temperamental, parental, and contextual contributors to early-emerging internalizing problems: A new integrative analysis approach. Social Development, 21(2), 229-253. doi: 10.1111/j.1467-9507.2011.00629.x
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). Ainda, ao se ponderar que o temperamento é influenciado ao longo do tempo pela hereditariedade, maturação e experiência, considera-se que os pais da criança se caracterizam como uma importante variável no processo de desenvolvimento do temperamento infantil (Klein, Gaspardo, & Linhares, 2011Klein, V. C., Gaspardo, C. M., & Linhares, M. B. (2011). Dor, autorregulação e temperamento em recém-nascidos pré-termo de alto risco. Psicologia: Reflexão e Crítica, 24(3), 504-512. doi: 10.1590/S0102-79722011000300011
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). De acordo com Putnam, Sanson, e Rothbart (2002Rothbart, M. K., & Putnam, S. (2002). Temperament and socialization. In: L. Pulkinnem & A. Caspi (Eds.), Paths to successful development: Personality in the life course (pp. 19-45). Cambridge: Cambridge University Press.), os pais passam a perceber com maior facilidade as diferenças individuais de cada criança, após o nascimento do segundo filho. Isso porque estratégias de alimentação, sono e contato com pessoas estranhas e situações novas que funcionaram bem com o primeiro filho podem se dar de modo diferente com o segundo filho. Tais diferenças individuais atinentes ao temperamento têm importantes implicações nas interações pais-criança (Putnam et al., 2002Rothbart, M. K., & Putnam, S. (2002). Temperament and socialization. In: L. Pulkinnem & A. Caspi (Eds.), Paths to successful development: Personality in the life course (pp. 19-45). Cambridge: Cambridge University Press.).

Sendo assim, por intermédio da identificação das disposições temperamentais infantis, o profissional pode intervir preventivamente, assumindo um papel de orientação aos pais, auxiliando-os no processo de compreensão das diferenças individuais e dando suporte para que aprendam como manejá-las (Klein, 2009Klein, V. C. (2009). Reatividade à dor, temperamento e comportamento na trajetória de desenvolvimento de neonatos pré-termo até a fase pré-escolar (Tese de Doutorado). Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, Brasil.). Intervenções desse tipo são importantes, haja vista que a literatura contempla associações entre práticas educativas parentais e temperamento (Malhado & Alvarenga, 2012Malhado, S. C. B., & Alvarenga, P. (2012). Relações entre o temperamento infantil aos oito meses e as práticas educativas maternas aos 18 meses de vida da criança. Estudos de Psicologia, 29(Supl.), 789-797. doi: 10.1590/S0103-166X2012000500015
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). Há indicativos de que crianças adaptáveis, sociáveis e fáceis de acalmar estimulam a responsividade e a sensibilidade parental, ao passo que crianças irritadiças ou extremamente demandantes podem provocar o afastamento ou menores índices de estimulação por parte dos pais. Por outro lado, o comportamento parental próximo, responsivo e afetuoso pode diminuir expressões de afeto negativo na criança, enquanto pais distantes podem aumentá-las (Putnam et al., 2002Putnam, S. P., Sanson, A., & Rothbart, M. K. (2002). Child temperament and parenting. In: M. Bornstein (Ed.), Handbook of Parenting (pp. 255-278). Mahwah: Erlbaum.). Espera-se, com base nas orientações que profissionais (tais como psicólogos) possam oferecer aos pais, um aumento da responsividade e da sensibilidade parental no processo de interação com os filhos, o que atua como fator de proteção à saúde mental das crianças (Klein, 2009Klein, V. C. (2009). Reatividade à dor, temperamento e comportamento na trajetória de desenvolvimento de neonatos pré-termo até a fase pré-escolar (Tese de Doutorado). Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, Brasil.), levando em consideração que as características do temperamento evocam reações em outras pessoas, fazendo aumentar ou diminuir o risco para a psicopatologia (Rothbart, 2004Rothbart, M. K. (2004). Commentary: Differentiated measures of temperament and multiple pathways to child disorders. Journal of Clinical Child and Adolescent Psychology, 33(1), 82-87.).

Por fim, como direcionamentos para pesquisas futuras, sugere-se avaliar a relação entre variáveis sociodemográficas e temperamento infantil, considerando a adoção das versões standard ou short do CBQ. Ademais, recomenda-se a realização de estudos longitudinais, para examinar a estabilidade dos achados ora relatados, ao longo do tempo. Propõe-se, também, pesquisas que investiguem os mecanismos que caracterizam a relação entre temperamento infantil e as variáveis sociodemográficas de famílias.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Nov 2018
  • Data do Fascículo
    2018

Histórico

  • Recebido
    11 Nov 2014
  • Revisado
    02 Jun 2015
  • Aceito
    07 Jul 2015
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