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Revista de Antropologia: 1953-2003 uma revista para muitas histórias

Resumos

A Revista de Antropologia, especialmente em sua primeira fase, publicou predominantemente estudos de etnologia. Faço aqui um rápido levantamento desse período inicial, sugerindo que esses estudos apresentam boas pistas para se escrever uma história da etnologia no Brasil. Lembro também que o jubileu da Revista coincidiria com o 90º aniversário de seu criador, Egon Schaden.

etnologia; história da antropologia; grupos indígenas brasileiros


As the history of Ethnology in Brazil is yet to be writen, I suggest the importance of Revista de Antropologia for such a history. Ethnological studies were dominant in the first twenty years of this journal and provides an excellent material for such a history: some clues for this endeavor are presented here. I remember also that the jubilee of Revista de Antropologia coincides with what would be the 90th anniversary of his creator, Egon Schaden.

Ethnology; History of Anthropology; Brazilian Indians


Revista de Antropologia: 1953-2003 uma revista para muitas histórias

Mariza Corrêa

Professora do Departamento de Antropologia – UNICAMP, Membro do Conselho Editorial da Revista de Antropologia

RESUMO

A Revista de Antropologia, especialmente em sua primeira fase, publicou predominantemente estudos de etnologia. Faço aqui um rápido levantamento desse período inicial, sugerindo que esses estudos apresentam boas pistas para se escrever uma história da etnologia no Brasil. Lembro também que o jubileu da Revista coincidiria com o 90º aniversário de seu criador, Egon Schaden.

Palavras-chave: etnologia, história da antropologia, grupos indígenas brasileiros.

ABSTRACT

As the history of Ethnology in Brazil is yet to be writen, I suggest the importance of Revista de Antropologia for such a history. Ethnological studies were dominant in the first twenty years of this journal and provides an excellent material for such a history: some clues for this endeavor are presented here. I remember also that the jubilee of Revista de Antropologia coincides with what would be the 90th anniversary of his creator, Egon Schaden.

Key-words: Ethnology, History of Anthropology, Brazilian Indians.

Por ocasião do trigésimo aniversário desta revista, Julio César Melatti escreveu um artigo que começava assim: "Quantas vezes recebi a Revista de Antropologia e não paguei por ela?". A frase revela um mundo de diferença entre os primeiros anos da revista, quando seu fundador, Egon Schaden (1913-1991), até pedia dinheiro emprestado aos colegas para imprimila, e o momento atual: basta consultar a sua ficha técnica para perceber como ela se profissionalizou ao longo dos anos1 1 O artigo de Melatti, publicado originalmente no Jornal de Brasília, foi republicado na Revista de Antropologia (vol. 27/28, 1984/1985), com o mesmo título: "O 30º aniversário da Revista de Antropologia". No volume de 1983 não se fazia menção ao aniversário da revista – mas sim ao centenário de nascimento de Curt Nimuendaju (1883-1945). . Como Paula Montero observou por ocasião do quadragésimo aniversário, o conjunto dos volumes publicados é uma excelente fonte para acompanhar a trajetória da antropologia nesse período, que coincide com o das reuniões brasileiras de antropologia – a primeira tendo se realizado no mesmo ano de 1953, no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Na foto oficial, lá está Egon Schaden, sentado na primeira fila e, como a reunião foi em novembro e o primeiro número da revista saiu em junho, podemos supor que entre os livros e papéis que todos têm nas mãos estava a Revista de Antropologia. Já no ano seguinte, em seu terceiro número (volume 2/1), a reunião era noticiada em detalhe e se publicava a contribuição que Egon Schaden levara para ela2 2 No volume seguinte (2/2) publicava-se também a importante convenção para a grafia dos nomes tribais, aprovada na I Reunião Brasileira de Antropologia. . Surpreendentemente, pois é conhecido o interesse dele na etnologia alemã e em sua divulgação no país3 3 Na reunião de 1982, em São Paulo, ele fez jus à fama e abriu a XIII reunião falando da importância dos etnólogos alemães para a etnologia brasileira. Creio que foi sua última participação nas reuniões de nossa associação. , o trabalho que ele apresentou se chamava "Problemas do ensino de Antropologia". Tendo nascido em 1913, Egon Schaden faria 90 anos este ano e merece, assim, ser lembrado, nesse duplo aniversário, pela marca que imprimiu à Revista de Antropologia.

Vou, então, sugerir que, se é boa para pensar a antropologia no Brasil, a revista é ótima para pensar nossa etnologia – numa história que ainda está por ser feita. Analisando os primeiros 20 volumes da revista, editados por Egon Schaden, e fazendo um pequeno exercício quantitativo, não muito rigoroso, apesar de cuidadoso, podemos indicar algumas breves pistas para estimular a pesquisa sobre essa história4 4 Esse exercício só foi possível graças ao levantamento dos trabalhos publicados nesse período, feito pelo professor José Augusto Laranjeiras Sampaio, da UNEB, quando estudante de pós-graduação na Unicamp, como parte de um trabalho de pesquisa vinculado ao Projeto de História da Antropologia no Brasil, em 1984. .

Começo por um fracasso, já que os fracassos são tão significativos como os sucessos quando se trata de fazer história: com todas as dificuldades que tinha para ser impressa em seus primeiros anos, a revista provavelmente circulou pouco e serviu muito mais de incubadora de textos etnológicos do que como sua depositária final5 5 No volume 27/28, quase inteiramente dedicado ao I Encontro Tupi, e no qual se comemoram seus 30 anos de existência, a revista é mencionada apenas três vezes: duas por autores que citam seus trabalhos lá publicados (Berta Ribeiro e Edson Diniz) e a terceira por Eduardo Viveiros de Castro, que cita o trabalho de Aryon Rodrigues, "A classificação do tronco linguístico Tupi" (vol. 12, n. 1/2). O próprio Aryon, em seu artigo, cita como fonte desse trabalho o International Journal of American Linguistics. No importante levantamento bibliográfico de Anthony Seeger e Eduardo Viveiros de Castro, a Revista de Antropologia é mencionada três vezes – contra nove menções feitas à Revista do Museu Paulista. Retorno a esse ponto mais adiante. Ver Seeger e Viveiros de Castro (1977), em apêndice à revista Dados (16), do mesmo ano. Nenhum dos trabalhos citados em seguida é mencionado lá, com exceção do de Cadogan, mas sem menção à revista. . No número 1, por exemplo, publicavam-se a primeira parte de um importante conjunto de mitos guaranis, o Ayvu Rapyta de Leon Cadogan, um texto sobre a aculturação dos Bororo, de Guilherme Saake, e um texto de Curt Nimuendaju sobre os Tapajó, grupo desaparecido do Baixo Amazonas. O texto de Cadogan, que poderia ter contribuído para que a revista se tornasse mais conhecida, foi interrompido no terceiro segmento e publicado na íntegra no Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP – o quinto da série Antropologia, em 19596 6 Número 5 da série Antropologia e número 227 dos boletins da Faculdade – o que sugere que uma análise do que se publicava nesses boletins também contribuiria para avaliar a posição da antropologia em relação a outras disciplinas na época, e também, contextualizar melhor a própria criação da revista. . Seria de se perguntar se as dificuldades de financiamento teriam impedido a publicação de um número especial da revista com o trabalho de Cadogan – tal como sucedeu, por exemplo, com o trabalho do próprio Schaden, que publicou sua tese de cátedra no volume 13 (1965), o qual rapidamente se esgotou, sendo reeditado em livro quatro anos depois7 7 O livro foi publicado pela Livraria Pioneira de São Paulo, em 1969, com o mesmo título, Aculturação indígena. .

De Nimuendaju foi ainda publicado outro texto – um relatório inédito ao Serviço de Proteção aos Índios, de 1939, sobre os índios Machacari ( 6:1, 1958), complementado mais adiante por Hans Becher (1961), que registrou as observações de um viajante alemão sobre o mesmo grupo. E sobre ele foram publicadas "Notícia dos trabalhos lingüísticos inéditos de Curt Nimuendaju", por Yonne Leite (1960), e a conhecida biografia do próprio Schaden (1967/1968), "Notas sobre a vida e a obra de Curt Nimuendaju". Foi ainda publicado um artigo de Maria Isaura Pereira de Queiroz, no qual ela utiliza dados de Nimuendaju sobre os Xerente para discutir um artigo de Lévi-Strauss (1:2, 1953). Assim, seus artigos, somados aos que o usam extensamente (excluindo citações bibliográficas em outros) e aos artigos sobre ele, são em maior número que as publicações de Schaden sobre o assunto: seis a três, sinalizando o reconhecimento de sua importância no âmbito dos estudos etnológicos no período8 8 No total, Schaden publicou dez artigos no período, tratando, além da etnologia, também da docência e de pesquisas em andamento em seu departamento. Não estão incluídas nesse cômputo as resenhas – que merecem um tratamento especial. .

O número total dos artigos publicados nesses primeiros 20 volumes é 150; o número de artigos dedicados à etnologia, num sentido amplo, que inclui o grande número de artigos sobre etnolingüística e as notícias biobibliográficas de etnólogos, é 869 9 Baldus rivalizava com Schaden na divulgação do trabalho dos pesquisadores alemães: escreveu sobre Thurnwald e sobre Bastian; Schaden escreveu sobre Von den Steinen e Paul Ehrenreich, além do artigo citado sobre Nimuendaju. As outras notícias são sobre Roquette-Pinto (Fernando de Azevedo); Lévi-Bruhl (Florestan Fernandes); Rondon (Darcy Ribeiro); e Métraux e Herskovits (Ruy Coelho). . Se excluirmos os campeões não-brasileiros no número de publicações – Leon Cadogan, com nove títulos, e o etnolingüista argentino Germán Fernandez Guizzetti, que deve ter sido o apresentador dos trabalhos de Benjamin Lee Whorf aos leitores brasileiros, com seis títulos, depois de Nimuendaju –, o autor mais publicado é Roberto Cardoso de Oliveira, com três artigos, mais um no qual divide a autoria com Castro Faria. Os outros autores escrevem, em geral, um artigo ao longo do período, com exceção de Protásio Frikel, Baldus, Aryon Rodrigues e o jesuíta Adalberto Holanda Pereira, cada um deles com três títulos. O padre Guilherme Saake, o salesiano Casimiro Beksta e Eduardo Galvão publicaram dois artigos cada um durante o período. Além dos citados, como tais, outros autores podem ser padres, o que, aliado à publicação de um relatório de um encontro sobre a presença da Igreja no meio das populações indígenas, realizado em São Paulo, em fevereiro de 1968 (15/16, 1967/1968), confirma a importância dessa presença no meio etnológico brasileiro naquela época.

Numa rápida listagem dos artigos dedicados aos grupos indígenas do Brasil, encontramos a referência a 25 grupos ou regiões indígenas, por ordem de entrada em cena: Bororo (Saake); Tapajós (Nimuendaju); Xerente (Maria Isaura Pereira de Queiroz, com dados de Nimuendaju); Baniwa (Saake); Alto Xingu em geral (Y. L. Santos, Galvão e Viertler); Kayapó (Banner, Moreira Neto); Tupari (Caspar); Terena (Cardoso de Oliveira e Kietzman); Machacari (Nimuendaju e Becher); Xokleng e Kaingang (F. Schaden); Norte do Pará em geral (Frikel); Ticuna (Cardoso de Oliveira e S. C. Santos); Tupi-Guarani (Schaden, Rodrigues, Cesar, Taylor); Irántxe (Pereira); Cinta-Larga (Rodrigues e Pereira); Bakairi (Wheatley); Suyá (Lanna e Frikel); Nambikwara (Aytai); Tukano (Beksta); Siriono (Kelm); Tapayuna (Pereira); Mura (Pinheiro); Kamayurá (Viertler e Silva); e Kabori (Maku)(Munzel)10 10 Ver as referências no final do texto. Não listei dois artigos que parecem interessantes: um de Antonio Candido sobre as possíveis raízes indígenas de uma dança popular (o Cururu), na Revista de Antropologia (4:1, 1956), e outro uma discussão de Eduardo Galvão sobre a noção de aculturação, na Revista de Antropologia (5:1, 1957). .

Os estudos etnológicos ocupam, então, um lugar central e definidor do que era a antropologia como disciplina entre os anos 1950 e o final dos anos 197011 11 Os estudos de comunidade, freqüentemente mencionados como a tônica desse período, recebem a atenção de três importantes artigos para sua análise – um inventário e dois artigos críticos (Nogueira, Franco Moreira e Ianni). . O mesmo se pode dizer de sua concorrente, a Revista do Museu Paulista, em sua nova fase, inaugurada em 1947 e dirigida por Herbert Baldus: nos dez anos seguintes inverteu-se a proporção dos temas de interesse da revista, a etnologia passando a ocupar também lá o primeiro lugar (Françoso, 2003)12 12 Ver Mariana de Campos Françozo, "Sergio Buarque de Holanda e a Antropologia" – texto apresentado para exame de qualificação no Programa de Mestrado em Antropologia Social da Unicamp, agosto de 2003. Mariana mostra que, no primeiro período da revista (1895-1938), os artigos sobre zoologia representavam 65% do total, contra 10% de artigos de antropologia, e que no período seguinte a antropologia passava a representar 74% daqueles publicados – a maior parte sobre temas etnológicos. . Diferentemente da revista editada por Schaden, no entanto, a revista do Museu tinha peso, e verba, institucional a apoiá-la, o que, mesmo assim, parecia não garantir a sua continuidade, já que, num caso como no outro, era vista como produto dos esforços individuais de seus diretores. Numa carta de 1967, Baldus se queixava: "A Revista do Museu Paulista, provavelmente, vai acabar, pois me aposentarei dentro de três meses e não encontraram sucessor para mim"13 13 Herbert Baldus a Donald Pierson, 21 de dezembro de 1967, arquivo do Projeto História da Antropologia no Brasil. Baldus faleceu três anos depois e a revista não acabou, mas essa é outra parte da história da etnologia. .

Schaden, simbolicamente mantido como diretor no número 21 da Revista de Antropologia, editado seis anos depois do número 20, comemorava o fato de que o Departamento de Ciências Sociais da USP passaria a editá-la14 14 Depois dele, João Baptista Borges Pereira e em seguida Paula Monteiro assumiram a direção da revista, agora dirigida por José Guilherme Magnani. . Mas, quem sabe tendo tido a mesma dúvida expressa por Baldus, ele organizou, em 1972, um volume com alguns trabalhos publicados na revista: na apresentação, avisa que metade dos trabalhos publicados trata das "culturas indígenas", dois dos "elementos afro-brasileiros", quatro são sobre o "mundo rural" e mais quatro sobre os "imigrantes e seus descendentes" – incluindo-se aí um artigo de Schaden, que não publicou nessa coletânea nenhum de seus artigos etnológicos, preferindo incluir nessa seção um de seu pai, Francisco Schaden. A coletânea não expressa a diversidade de artigos sobre etnologia publicados na revista, estando dirigida, segundo seu organizador, a mostrar a pluralidade de temas tratados pela antropologia brasileira. Curiosamente, no momento mesmo em que os estudos urbanos começavam a ser feitos pelos antropólogos brasileiros, não havia nenhum artigo sobre antropologia urbana, o que, segundo o organizador, "se explica pelo fato de ser o seu estudo empreendido geralmente por economistas ou por pesquisadores que o realizam em perspectiva sociológica" (Schaden, 1972).

A preeminência etnológica na revista foi diminuindo ao longo dos anos – a proporção dos artigos sobre etnologia é cada vez menor nos números seguintes ao último editado por Schaden – mas, em pelo menos duas outras ocasiões, foi retomada com força: no número editado por Lux Vidal, sobre o I Encontro Tupi (27/28, 1984/1985), e no número editado por Manuela Carneiro da Cunha, inteiramente dedicado à história indígena e do indigenismo (30/31/32, 1987/1988/1989). A conhecida capa cor de laranja também cederia lugar, pouco depois, em 1991, ao novo desenho de capa, o atual.

Apesar de ter participado assiduamente das reuniões da ABA – tendo sido eleito conselheiro em cinco delas (na II, III, IV, VII e IX reuniões) e feito conferências em pelo menos duas outras ocasiões (na X e XIII reuniões) –, Schaden nunca foi eleito seu presidente e a única reunião que organizou foi uma tentativa frustrada, já que poucos associados compareceram e não houve eleições, o que torna eloqüente o silêncio da revista, que registra todas as outras, sobre essa reunião (Schaden, 1971). Não obstante, sua tentativa foi mesmo assim incorporada à tradição de nossa disciplina, como a VIII Reunião Brasileira de Antropologia – embora a que efetivamente marcou o renascimento da associação, conforme explicitamente formulado na ata da X, tenha sido a IX reunião, realizada em sua terra natal, Santa Catarina, em 1974.

Tentativas que pareceram frustrantes, ou frustradas, em sua época – a edição de uma revista de antropologia sem qualquer apoio institucional, a tentativa isolada de reerguer a Associação Brasileira de Antropologia e, enfim, estudos quase marginais no campo antropológico brasileiro, sobre os Tupi-Guarani15 15 Em seu artigo "Bibliografia etnológica básica tupi-guarani", Eduardo Viveiros de Castro observa: "O declínio da influência das escolas alemã e americana (difusionismo e culturalismo), e a ascensão dos estilos estrutural-funcionalista (inglês) e estruturalista (francês), estão claramente ligados à passagem de uma 'etnologia Tupi' para uma 'etnologia Jê'" (27/28, 1984/1985, p. 14). Esse número da revista, no entanto, sinaliza uma volta importante dos Tupi ao centro da cena etnológica brasileira. – acabaram, todas, por se incorporar à história de nossa disciplina. Quem sabe os etnólogos alemães não voltarão à cena antropológica brasileira em breve?

Notas

  • 1
    O artigo de Melatti, publicado originalmente no
    Jornal de Brasília, foi republicado na
    Revista de Antropologia (vol. 27/28, 1984/1985), com o mesmo título: "O 30º aniversário da
    Revista de Antropologia". No volume de 1983 não se fazia menção ao aniversário da revista – mas sim ao centenário de nascimento de Curt Nimuendaju (1883-1945).
  • No volume 9, de 1961, Schaden agradecia ao colega Ruy Galvão de Andrade Coelho por "socorrer" a publicação por dois anos seguidos.

  • 2
    No volume seguinte (2/2) publicava-se também a importante convenção para a grafia dos nomes tribais, aprovada na I Reunião Brasileira de Antropologia.
  • 3
    Na reunião de 1982, em São Paulo, ele fez jus à fama e abriu a XIII reunião falando da importância dos etnólogos alemães para a etnologia brasileira. Creio que foi sua última participação nas reuniões de nossa associação.
  • 4
    Esse exercício só foi possível graças ao levantamento dos trabalhos publicados nesse período, feito pelo professor José Augusto Laranjeiras Sampaio, da UNEB, quando estudante de pós-graduação na Unicamp, como parte de um trabalho de pesquisa vinculado ao Projeto de História da Antropologia no Brasil, em 1984.
  • 5
    No volume 27/28, quase inteiramente dedicado ao I Encontro Tupi, e no qual se comemoram seus 30 anos de existência, a revista é mencionada apenas três vezes: duas por autores que citam seus trabalhos lá publicados (Berta Ribeiro e Edson Diniz) e a terceira por Eduardo Viveiros de Castro, que cita o trabalho de Aryon Rodrigues, "A classificação do tronco linguístico Tupi" (vol. 12, n. 1/2). O próprio Aryon, em seu artigo, cita como fonte desse trabalho o
    International Journal of American Linguistics. No importante levantamento bibliográfico de Anthony Seeger e Eduardo Viveiros de Castro, a
    Revista de Antropologia é mencionada três vezes – contra nove menções feitas à
    Revista do Museu
    Paulista. Retorno a esse ponto mais adiante. Ver Seeger e Viveiros de Castro (1977), em apêndice à revista
    Dados (16), do mesmo ano. Nenhum dos trabalhos citados em seguida é mencionado lá, com exceção do de Cadogan, mas sem menção à revista.
  • 6
    Número 5 da série Antropologia e número 227 dos boletins da Faculdade – o que sugere que uma análise do que se publicava nesses boletins também contribuiria para avaliar a posição da antropologia em relação a outras disciplinas na época, e também, contextualizar melhor a própria criação da revista.
  • 7
    O livro foi publicado pela Livraria Pioneira de São Paulo, em 1969, com o mesmo título,
    Aculturação indígena.
  • 8
    No total, Schaden publicou dez artigos no período, tratando, além da etnologia, também da docência e de pesquisas em andamento em seu departamento. Não estão incluídas nesse cômputo as resenhas – que merecem um tratamento especial.
  • 9
    Baldus rivalizava com Schaden na divulgação do trabalho dos pesquisadores alemães: escreveu sobre Thurnwald e sobre Bastian; Schaden escreveu sobre Von den Steinen e Paul Ehrenreich, além do artigo citado sobre Nimuendaju. As outras notícias são sobre Roquette-Pinto (Fernando de Azevedo); Lévi-Bruhl (Florestan Fernandes); Rondon (Darcy Ribeiro); e Métraux e Herskovits (Ruy Coelho).
  • 10
    Ver as referências no final do texto. Não listei dois artigos que parecem interessantes: um de Antonio Candido sobre as possíveis raízes indígenas de uma dança popular (o Cururu), na
    Revista de Antropologia (4:1, 1956), e outro uma discussão de Eduardo Galvão sobre a noção de aculturação, na
    Revista de Antropologia (5:1, 1957).
  • 11
    Os estudos de comunidade, freqüentemente mencionados como a tônica desse período, recebem a atenção de três importantes artigos para sua análise – um inventário e dois artigos críticos (Nogueira, Franco Moreira e Ianni).
  • 12
    Ver Mariana de Campos Françozo, "Sergio Buarque de Holanda e a Antropologia" – texto apresentado para exame de qualificação no Programa de Mestrado em Antropologia Social da Unicamp, agosto de 2003. Mariana mostra que, no primeiro período da revista (1895-1938), os artigos sobre zoologia representavam 65% do total, contra 10% de artigos de antropologia, e que no período seguinte a antropologia passava a representar 74% daqueles publicados – a maior parte sobre temas etnológicos.
  • 13
    Herbert Baldus a Donald Pierson, 21 de dezembro de 1967, arquivo do Projeto História da Antropologia no Brasil. Baldus faleceu três anos depois e a revista não acabou, mas essa é outra parte da história da etnologia.
  • 14
    Depois dele, João Baptista Borges Pereira e em seguida Paula Monteiro assumiram a direção da revista, agora dirigida por José Guilherme Magnani.
  • 15
    Em seu artigo "Bibliografia etnológica básica tupi-guarani", Eduardo Viveiros de Castro observa: "O declínio da influência das escolas alemã e americana (difusionismo e culturalismo), e a ascensão dos estilos estrutural-funcionalista (inglês) e estruturalista (francês), estão claramente ligados à passagem de uma 'etnologia Tupi' para uma 'etnologia Jê'" (27/28, 1984/1985, p. 14). Esse número da revista, no entanto, sinaliza uma volta importante dos Tupi ao centro da cena etnológica brasileira.
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    Recebido em novembro de 2003.

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    • SCHADEN, E. (org.) 1971 Introdução ao estudo da antropologia no Brasil, in Encontro de Estudos Brasileiros, São Paulo, IEB-USP.
    • SEEGER, A. & VIVEIROS de CASTRO 1977 Pontos de vista sobre os índios brasileiros: um ensaio bibliográfico, Boletim Informativo e bibliográfico de Ciências Sociais, n. 2.

    1 O artigo de Melatti, publicado originalmente no Jornal de Brasília, foi republicado na Revista de Antropologia (vol. 27/28, 1984/1985), com o mesmo título: "O 30º aniversário da Revista de Antropologia". No volume de 1983 não se fazia menção ao aniversário da revista – mas sim ao centenário de nascimento de Curt Nimuendaju (1883-1945). 2 No volume seguinte (2/2) publicava-se também a importante convenção para a grafia dos nomes tribais, aprovada na I Reunião Brasileira de Antropologia. 3 Na reunião de 1982, em São Paulo, ele fez jus à fama e abriu a XIII reunião falando da importância dos etnólogos alemães para a etnologia brasileira. Creio que foi sua última participação nas reuniões de nossa associação. 4 Esse exercício só foi possível graças ao levantamento dos trabalhos publicados nesse período, feito pelo professor José Augusto Laranjeiras Sampaio, da UNEB, quando estudante de pós-graduação na Unicamp, como parte de um trabalho de pesquisa vinculado ao Projeto de História da Antropologia no Brasil, em 1984. 5 No volume 27/28, quase inteiramente dedicado ao I Encontro Tupi, e no qual se comemoram seus 30 anos de existência, a revista é mencionada apenas três vezes: duas por autores que citam seus trabalhos lá publicados (Berta Ribeiro e Edson Diniz) e a terceira por Eduardo Viveiros de Castro, que cita o trabalho de Aryon Rodrigues, "A classificação do tronco linguístico Tupi" (vol. 12, n. 1/2). O próprio Aryon, em seu artigo, cita como fonte desse trabalho o International Journal of American Linguistics. No importante levantamento bibliográfico de Anthony Seeger e Eduardo Viveiros de Castro, a Revista de Antropologia é mencionada três vezes – contra nove menções feitas à Revista do Museu Paulista. Retorno a esse ponto mais adiante. Ver Seeger e Viveiros de Castro (1977), em apêndice à revista Dados (16), do mesmo ano. Nenhum dos trabalhos citados em seguida é mencionado lá, com exceção do de Cadogan, mas sem menção à revista. 6 Número 5 da série Antropologia e número 227 dos boletins da Faculdade – o que sugere que uma análise do que se publicava nesses boletins também contribuiria para avaliar a posição da antropologia em relação a outras disciplinas na época, e também, contextualizar melhor a própria criação da revista. 7 O livro foi publicado pela Livraria Pioneira de São Paulo, em 1969, com o mesmo título, Aculturação indígena. 8 No total, Schaden publicou dez artigos no período, tratando, além da etnologia, também da docência e de pesquisas em andamento em seu departamento. Não estão incluídas nesse cômputo as resenhas – que merecem um tratamento especial. 9 Baldus rivalizava com Schaden na divulgação do trabalho dos pesquisadores alemães: escreveu sobre Thurnwald e sobre Bastian; Schaden escreveu sobre Von den Steinen e Paul Ehrenreich, além do artigo citado sobre Nimuendaju. As outras notícias são sobre Roquette-Pinto (Fernando de Azevedo); Lévi-Bruhl (Florestan Fernandes); Rondon (Darcy Ribeiro); e Métraux e Herskovits (Ruy Coelho). 10 Ver as referências no final do texto. Não listei dois artigos que parecem interessantes: um de Antonio Candido sobre as possíveis raízes indígenas de uma dança popular (o Cururu), na Revista de Antropologia (4:1, 1956), e outro uma discussão de Eduardo Galvão sobre a noção de aculturação, na Revista de Antropologia (5:1, 1957). 11 Os estudos de comunidade, freqüentemente mencionados como a tônica desse período, recebem a atenção de três importantes artigos para sua análise – um inventário e dois artigos críticos (Nogueira, Franco Moreira e Ianni). 12 Ver Mariana de Campos Françozo, "Sergio Buarque de Holanda e a Antropologia" – texto apresentado para exame de qualificação no Programa de Mestrado em Antropologia Social da Unicamp, agosto de 2003. Mariana mostra que, no primeiro período da revista (1895-1938), os artigos sobre zoologia representavam 65% do total, contra 10% de artigos de antropologia, e que no período seguinte a antropologia passava a representar 74% daqueles publicados – a maior parte sobre temas etnológicos. 13 Herbert Baldus a Donald Pierson, 21 de dezembro de 1967, arquivo do Projeto História da Antropologia no Brasil. Baldus faleceu três anos depois e a revista não acabou, mas essa é outra parte da história da etnologia. 14 Depois dele, João Baptista Borges Pereira e em seguida Paula Monteiro assumiram a direção da revista, agora dirigida por José Guilherme Magnani. 15 Em seu artigo "Bibliografia etnológica básica tupi-guarani", Eduardo Viveiros de Castro observa: "O declínio da influência das escolas alemã e americana (difusionismo e culturalismo), e a ascensão dos estilos estrutural-funcionalista (inglês) e estruturalista (francês), estão claramente ligados à passagem de uma 'etnologia Tupi' para uma 'etnologia Jê'" (27/28, 1984/1985, p. 14). Esse número da revista, no entanto, sinaliza uma volta importante dos Tupi ao centro da cena etnológica brasileira.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      21 Jun 2004
    • Data do Fascículo
      2003

    Histórico

    • Recebido
      Nov 2003
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