Open-access RELAÇÕES DE AMIZADE E EXPERIÊNCIAS SOCIOEMOCIONAIS NO CONTEXTO DA SURDEZ: UM RELATO DE PESQUISA COM ADULTOS SURDOS USUÁRIOS DE LIBRAS1

FRIENDSHIP RELATIONSHIPS AND SOCIOEMOTIONAL EXPERIENCES IN THE CONTEXT OF DEAFNESS: A RESEARCH REPORT WITH DEAF ADULTS WHO USE BRAZILIAN SIGN LANGUAGE

RESUMO

Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa que investigou os sentidos atribuídos à amizade por adultos surdos usuários da Língua Brasileira de Sinais (Libras) como primeira língua. A pesquisa adotou abordagem de métodos mistos, integrando dados quantitativos, obtidos por escalas psicométricas, e dados qualitativos, provenientes de entrevistas semiestruturadas. Participaram 50 adultos surdos do estudo estatístico e quatro do estudo qualitativo. As análises indicaram níveis moderados de satisfação com as amizades, com destaque para o papel do apoio emocional e da comunicação na construção dos vínculos. Os resultados evidenciaram a centralidade da confiança, da atenção sensível ao outro e da presença da Libras como fatores que favorecem a qualidade das amizades. As relações entre surdos foram descritas como mais espontâneas e acolhedoras, enquanto as amizades com ouvintes revelaram tensões ligadas à barreira linguística. A discussão teórica foi estruturada em temas e eixos interpretativos que articulam afetividade, linguagem, desenvolvimento e inclusão. Conclui-se que a amizade constitui um espaço significativo para o reconhecimento subjetivo, especialmente quando ancorada em práticas comunicacionais como o uso da Libras.

PALAVRAS-CHAVE:
Inclusão; Libras; Amizade; Relações interpessoais; Surdos.

ABSTRACT

This article presents the results of a study that investigated the meanings attributed to friendship by deaf adults who use Brazilian Sign Language (LIBRAS) as their first language. The study adopted a mixed-methods approach, integrating quantitative data obtained through psychometric scales and qualitative data from semi-structured interviews. Fifty deaf adults participated in the statistical study, and four participated in the qualitative study. The analyses indicated moderate levels of satisfaction with friendships, highlighting the role of emotional support and communication in the construction of social bonds. The results showed the centrality of trust, sensitive attention to others, and the presence of LIBRAS as factors that contribute to the quality of friendships. Relationships among deaf people were described as more spontaneous and welcoming, while friendships with hearing people revealed tensions related to language barriers. The theoretical discussion was organized into themes and interpretive axes that articulate affectivity, language, development, and inclusion. The study concludes that friendship constitutes a significant space for subjective recognition, especially when grounded in communicational practices such as the use of LIBRAS.

KEYWORDS:
Inclusion; LIBRAS; Friendship; Interpersonal relationships; Deaf people.

1 INTRODUÇÃO

As amizades exercem papel central no desenvolvimento socioemocional, à medida que possibilitam a expressão de afetos, o compartilhamento de experiências e a construção de identidade em contextos sociais. Em especial, a amizade é reconhecida como um espaço relacional que favorece tanto a regulação emocional quanto a percepção de pertencimento (Fehr, 2000; Hutz & Koller, 1999). Contudo, quando se considera a população surda, observa-se que os estudos sobre relações interpessoais ainda são escassos, sobretudo quando se busca compreender as funções afetivas e os sentimentos implicados nos vínculos entre surdos e ouvintes. Nesse sentido, investigar como adultos surdos percebem e constroem suas amizades contribui não apenas para ampliar o campo da Psicologia, mas também para qualificar práticas inclusivas no âmbito da Educação Especial.

Mediante essas concepções, esta pesquisa teve como objetivo compreender as relações de amizade de adultos surdos usuários da Língua Brasileira de Sinais (Libras), considerando os sentidos atribuídos aos vínculos afetivos com amigos surdos e ouvintes. A partir da articulação entre dimensões emocionais, comunicacionais e culturais, buscou-se responder à seguinte pergunta: Como adultos surdos descrevem e atribuem sentidos às suas experiências de amizade no contexto da surdez? Para tanto, foram utilizados instrumentos psicométricos e entrevistas semiestruturadas, com o intuito de abarcar tanto a dimensão estrutural quanto a vivencial das amizades. A ênfase na linguagem e nas amizades permitiu acessar aspectos subjetivos nem sempre visibilizados em pesquisas sobre inclusão ou suporte social.

A escolha pela população surda fundamenta-se no reconhecimento da surdez como marcador identitário (Skliar, 1998; Strobel, 2008) e na centralidade da Libras na construção de vínculos afetivos (Afonso, 2007; Bisol, 2008), ainda pouco explorados diante do predomínio de estudos escolares e linguísticos. Com abordagem de métodos mistos, o estudo envolveu 50 adultos surdos e utilizou instrumentos validados sobre amizade e suporte social, analisados por estatísticas descritivas e testes não paramétricos. As entrevistas com quatro participantes, validadas por equipe bilíngue, aprofundaram os dados, evidenciando a relação entre amizade, identidade, acessibilidade e desenvolvimento socioemocional.

2 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA

O presente estudo é parte de uma investigação mais ampla, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) envolvendo seres humanos - Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) 75733023.8.0000.5334 -, conforme as diretrizes da Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016. Seu recorte específico tem caráter descritivo-exploratório e foi delineado a partir de uma abordagem de métodos mistos, conforme proposto por Creswell e Clark (2013), com o objetivo de integrar dados quantitativos e qualitativos sobre a amizade no contexto da surdez. Participaram da pesquisa 50 adultos surdos, com idade entre 18 e 45 anos, usuários da Libras como primeira língua e residentes em diferentes regiões do Brasil. A seleção dos participantes foi realizada por meio de amostragem por conveniência, com divulgação em redes sociais e grupos bilíngues da comunidade surda.

Para a etapa quantitativa, foram utilizados quatro instrumentos: (1) Questionário Sociodemográfico e Sociolinguístico; (2) Escala de Suporte Social Percebido (Bastianello & Hutz, 2016); (3) Escala de Funções da Amizade adaptada para o português (Souza et al., 2016); e (4) Escala de Satisfação com a Amizade e Sentimentos Positivos e Negativos em relação ao amigo/à amiga indicado/a (Souza et al., 2016). As respostas foram organizadas em banco de dados para análise estatística descritiva, distribuição de percentis e aplicação de testes não paramétricos.

A etapa qualitativa envolveu entrevistas semiestruturadas com quatro participantes, realizadas em Libras e gravadas em vídeo, abordando concepções de amizade, sentimentos, comunicação e impactos da surdez nas relações. As gravações foram transcritas e traduzidas para o português com apoio de dois intérpretes, um surdo e uma ouvinte sinalizante, assegurando fidedignidade semântica (Gil, 2003; Lakatos & Marconi, 2003). A análise articulou dados quantitativos, tratados no Jamovi, e qualitativos, organizados em fichas descritivas por eixos temáticos, permitindo relacionar escores e narrativas. Sustentada pela análise convergente (Creswell & Clark, 2013), a estratégia evidenciou padrões interpretativos relevantes à dimensão relacional da surdez.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A organização dos dados empíricos seguiu uma estratégia integrada, orientada pelos métodos mistos, conforme Creswell e Clark (2013), articulando evidências quantitativas e qualitativas na estruturação dos resultados. Os dados estatísticos, oriundos de escalas padronizadas de amizade e sentimentos, foram analisados por meio de estatística descritiva e testes de correlação, enquanto os dados qualitativos, provenientes de entrevistas semiestruturadas, foram organizados em fichas descritivas baseadas em temas recorrentes e sentidos atribuídos pelos participantes. Em consonância com Gil (2003) e Lakatos e Marconi (2003), adotou-se um modelo analítico que privilegia densidade interpretativa e contextualização sociocultural, permitindo evidenciar convergências, tensões e singularidades nas experiências de amizade entre adultos surdos.

A definição dos temas e categorias analíticas, por sua vez, seguiu um processo indutivo, fundamentado na recorrência de significados nas falas dos participantes e na articulação com os dados estatísticos. Esse percurso interpretativo foi ancorado em referenciais da surdez, linguagem e desenvolvimento humano, com destaque para Terlektsi et al. (2020) e Strobel (2008), que situam as relações entre pares e a cultura surda. Gesser (2009, 2012) contribui para compreender barreiras comunicacionais, enquanto Bronfenbrenner e Morris (1998) e Skliar (1998) oferecem bases ecológicas e socioculturais. Paralelamente, Fehr (1996, 2012), Argyle (2013), Wright et al. (2010) e Souza e Hutz (2007) fundamentam as funções socioemocionais da amizade, sustentando uma leitura ampliada dos dados.

A seguir, apresenta-se o panorama inicial dos resultados e das discussões do estudo.

3.1 PANORAMA ESTATÍSTICO GERAL DAS AMIZADES NA AMOSTRA

A análise descritiva indicou níveis moderados de satisfação com as amizades (M = 29,14; DP = 4,74), acompanhados de sentimentos positivos (M = 25,4; DP = 4,01) e negativos (M = 17,7; DP = 5,82), evidenciando ambivalência afetiva. Esse fenômeno, caracterizado pela coexistência de emoções opostas no mesmo vínculo, revela que, embora as amizades proporcionem apoio e acolhimento, também envolvem frustração, insegurança e distância, especialmente diante de barreiras comunicacionais. Assim, as relações de amizade entre adultos surdos configuram-se como experiências complexas, nas quais a presença simultânea de afetos positivos e negativos expressa tanto a profundidade dos vínculos quanto os desafios para sua manutenção em contextos marcados por desigualdades linguísticas.

A Escala de Funções da Amizade revelou que as dimensões mais valorizadas pelos participantes foram “Apoio Emocional e Segurança” (M = 36,7; DP = 5,4), “Apoio Instrumental e Prático” (M = 29,4; DP = 4,9) e “Companheirismo e Validação Social” (M = 34,5; DP = 6,1), refletindo a importância de vínculos que proporcionem acolhimento e reconhecimento mútuo. A análise de percentis indicou que 75% da amostra obteve escores superiores a 33 pontos na primeira subescala, o que evidencia a centralidade do apoio emocional para a construção e a manutenção das amizades. Esses achados revelam que, mesmo diante de obstáculos comunicacionais, os participantes tendem a buscar relações capazes de promover segurança afetiva, compartilhamento de experiências e suporte prático.

Comparações entre grupos revelaram diferenças significativas na percepção da amizade conforme o tipo de amigo indicado. Os participantes que tinham como melhor amigo alguém surdo apresentaram escores mais elevados nas funções de ajuda e autovalidação, além de menor presença de sentimentos negativos. Por meio do teste de Mann-Whitney U, verificou-se diferença estatisticamente significativa na subescala de Companheirismo (U = 236, p = 0,023), favorecendo as amizades entre surdos. Esses resultados sugerem, por um lado, que o compartilhamento linguístico e cultural facilita a construção de vínculos afetivos mais sólidos; por outro lado, participantes com amigos ouvintes demonstraram maior frequência de sentimentos como angústia ou dificuldade de expressão, indicando possíveis barreiras nas interações. A variável gênero influenciou as relações: homens apresentaram menores escores em intimidade e expressão emocional, enquanto mulheres relataram maior satisfação e afetos positivos, indicando que normas de gênero modulam experiências afetivas e revelam tensões e elementos protetivos nas amizades.

3.2 CONCEITO E SIGNIFICADOS ATRIBUÍDOS À AMIZADE

As entrevistas realizadas com os quatro participantes surdos revelaram compreensões densas e afetivamente marcadas sobre o que significa ser amigo. A pergunta “O que é ser amigo para você?” foi incorporada à entrevista semiestruturada elaborada por Isaías dos Santos Ildebrand e Luciana Karine Souza, a partir das proposições de Terlektsi et al. (2020), e possibilitou acessar concepções que ultrapassam definições convencionais ou instrumentais (Ildebrand, 2025). A análise das respostas permite identificar que, para esses adultos surdos, a amizade está diretamente relacionada à presença, ao acolhimento e à confiança. A atenção sensível ao outro4 e a disposição para apoiá-lo emocionalmente são elementos recorrentes nas falas. As definições fornecidas não apenas refletem aspectos subjetivos de valorização do vínculo, mas também evidenciam a centralidade da amizade como espaço de compensação das barreiras comunicacionais vividas no cotidiano.

Juan, de 28 anos, expressou uma concepção de amizade fortemente ancorada em sua vivência como sujeito surdo em uma cidade com pouca presença da comunidade sinalizante. Sua afirmação - “se não tem amigos, quem é que pode me ajudar?” - revela a centralidade do vínculo de amizade como espaço de apoio emocional e reconhecimento, especialmente diante de redes familiares ou comunitárias que, por vezes, não acolhem sua forma de comunicação. Ao destacar que há amigos “profundos” e outros com os quais ainda existe “certa timidez”, ele demonstra uma percepção graduada da intimidade, construída a partir da confiança, do tempo de convivência e da fluência compartilhada em Libras. O reconhecimento da amizade como algo que “é bom”, mas que “precisa de cuidado”, indica não só a valorização afetiva do vínculo, mas também a consciência de sua vulnerabilidade em contextos em que a comunicação é limitada. Nesse sentido, a fala de Juan exemplifica como a amizade, para pessoas surdas, pode operar como espaço de subjetivação, refúgio emocional e compensação simbólica frente a barreiras relacionais externas.

Luana, por sua vez, evidencia a dimensão emocional da amizade ao afirmar que um amigo deve perguntar como ela está e reconhecer seus sentimentos. Sua fala expressa desejo por empatia e reciprocidade, elementos essenciais às funções emocionais da amizade. Ao lamentar a escassez de amigos em sua cidade por falta de pessoas que sinalizem, ela evidencia que o acesso à comunicação é um fator limitante para a formação de vínculos. Ainda que deseje relações de proximidade e cuidado, Luana encontra dificuldades devido à ausência de interlocutores em Libras. Sua fala explicita o entrelaçamento entre linguagem, afeto e pertencimento, reforçando que a amizade para pessoas surdas não pode ser dissociada das possibilidades reais de interação em sua língua primeira, o que reforça a noção de vulnerabilidade relacional.

A definição oferecida por Paula destaca a importância da presença como critério central na amizade. Ao afirmar que “ser amigo é estar presente”, ela não apenas evoca a dimensão temporal do vínculo, mas também a qualidade do engajamento. Para além da ajuda em momentos difíceis, Paula sugere que a amizade está ancorada em experiências compartilhadas, troca de confidências e disponibilidade emocional. Sua formulação “vou explicar no que eu acredito” reforça a ideia de que o conceito de amizade é vivido de forma íntima e reflexiva. Isso denota um posicionamento ativo na construção do significado, o que indica maturidade emocional e consciência sobre os limites e as potencialidades das relações interpessoais no contexto da surdez.

Já Dênis apresenta uma visão abrangente e multifacetada da amizade. Para ele, um amigo é alguém que facilita a vida cotidiana, compartilha saberes, presta atenção e, também, discute com sinceridade. A presença do conflito aparece não como ruptura, mas como parte do amadurecimento do vínculo, o que revela uma concepção madura sobre relacionamentos. Ao dizer que “um bom amigo é aquele que nos auxilia na nossa vida”, Dênis enfatiza o papel ativo do amigo no processo de desenvolvimento pessoal. Sua fala articula apoio instrumental, segurança emocional e troca de experiências, refletindo as principais dimensões que foram estatisticamente valorizadas na Escala de Funções da Amizade. Assim, suas palavras confirmam a relevância do vínculo de amizade como eixo de estruturação emocional e social para adultos surdos.

As percepções dos quatro participantes entrevistados corroboram os dados estatísticos observados na Escala de Satisfação com a Amizade, cuja média (29,14) indicou um nível moderado de contentamento nas relações mantidas. As descrições das amizades oferecidas nas entrevistas revelam que essa satisfação decorre de vínculos nos quais há presença constante, ajuda prática, compreensão emocional e espaço para a partilha de vivências. Por exemplo, a ênfase de Dênis na presença diária e na troca de saberes alinha-se à função de “apoio instrumental e prático”, enquanto as reflexões de Luana sobre reconhecimento emocional e disponibilidade afetiva refletem aspectos da função “apoio emocional e segurança”. Esses dados qualitativos complementam e aprofundam os achados estatísticos ao revelar como cada função da amizade se manifesta na experiência subjetiva e nas práticas relacionais cotidianas dos participantes.

A percepção da amizade como espaço de confiança e acolhimento também se reflete nos altos escores observados na subescala de “companheirismo e validação social”, cuja média foi de 34,5 pontos. Os relatos de Juan e Paula ilustram essa dimensão ao valorizarem amigos que conhecem suas histórias, acolhem suas fragilidades e permanecem próximos. Quando Juan afirma que “tem coisas que só consigo falar com amigos”, ele está traduzindo em linguagem experiencial o item da escala que menciona “meu amigo me apoia emocionalmente quando estou mal”. As entrevistas, portanto, não apenas confirmam as dimensões teóricas previstas nos instrumentos, como também revelam os sentidos subjetivos atribuídos a essas experiências, aprofundando o entendimento sobre como a amizade é vivida por adultos surdos.

A centralidade da confiança emerge de forma intensa nos relatos, sobretudo na fala de Dênis, ao afirmar que o amigo é aquele “com quem podemos aprender juntos, trocar segredos e informações, compartilhar sobre a vida”. Essa confiança se estabelece como um elemento estruturante da amizade, tanto no sentido afetivo quanto no cognitivo, na medida em que sustenta a intimidade e o aprendizado. Paula reforça essa noção ao afirmar que a presença do amigo é condição essencial para o vínculo existir, o que implica não apenas estar fisicamente próximo, mas também manter um compromisso afetivo com o outro. Esses trechos indicam que a confiança é vivida como reconhecimento da própria identidade, valorizando-se a permanência, a sinceridade e a abertura emocional.

A “atenção sensível ao outro” aparece como elemento de base nas definições de Luana, que espera de um amigo a capacidade de perceber suas emoções, mesmo que não oralizadas. Sua fala “que me pergunte se estou triste, se estou feliz” aponta para um desejo de reciprocidade emocional que ultrapassa a linguagem oral ou mesmo sinalizada. Trata-se de uma atenção qualificada que envolve empatia, leitura de expressões e cuidado ativo com o bem-estar do outro, características que também foram identificadas nas funções da amizade apontadas estatisticamente. A busca por reconhecimento, presente nos quatro relatos, revela que, para os surdos, ser amigo é mais do que interagir: é legitimar o outro em sua singularidade linguística, afetiva e cultural.

Assim sendo, os significados atribuídos à amizade pelos participantes surdos revelam um entrelaçamento profundo entre função emocional, confiança mútua, reconhecimento e acessibilidade comunicacional. As entrevistas mostram que os vínculos de amizade são vividos como espaços seguros de expressão subjetiva, especialmente quando construídos em Libras e mediados por relações de respeito. Ao articular os dados qualitativos com os escores obtidos nas escalas de amizade, percebe-se que as experiências vividas e os sentimentos relatados confirmam e enriquecem as tendências observadas estatisticamente. Essa convergência de dados reforça a importância de considerar os aspectos socioemocionais da amizade na formação de políticas e práticas inclusivas voltadas à população surda.

3.3 ACESSO À COMUNICAÇÃO E BARREIRAS RELACIONAIS

A compreensão das amizades na surdez está diretamente vinculada às condições comunicacionais que estruturam os vínculos. Para os participantes, a linguagem funciona como meio de interação e marcador de pertencimento, sendo a Libras decisiva para a qualidade das relações. Os relatos indicam tensões e afastamentos quando a comunicação é limitada, especialmente com ouvintes, enquanto os vínculos com surdos são descritos como mais espontâneos e satisfatórios. Os dados estatísticos reforçam esse padrão: maiores médias de suporte emocional (M = 20,7) e instrumental (M = 19,8) foram associadas a amizades com surdos, ao passo que as relações com ouvintes apresentaram menor percepção de apoio, evidenciando que a comunicação compartilhada sustenta proximidade e acolhimento.

Em relação aos sentimentos negativos, os escores médios (M = 17,7; DP = 5,82) indicam que, embora as amizades sejam, em geral, espaços positivos, há também experiências de desconforto e frustração. Esses sentimentos aparecem associados, sobretudo, a relações em que há falhas comunicacionais persistentes. Participantes que relataram amizades com ouvintes tendem a expressar sentimentos de insegurança, irritação e exclusão. Essas experiências são interpretadas como indicadores de barreiras simbólicas e afetivas, que não se reduzem à ausência de intérpretes, mas à falta de compromisso dos interlocutores em aprender ou se adaptar à Libras. Assim, os sentimentos negativos emergem como manifestações emocionais da desigualdade linguística, afetando diretamente a qualidade dos vínculos de amizade.

As entrevistas deixam evidente que as barreiras comunicacionais impactam profundamente a vivência relacional dos participantes com amigos ouvintes. Luana, por exemplo, ao afirmar que “é difícil fazer um amigo de verdade”, associou essa dificuldade ao fato de poucos ouvintes em sua cidade saberem Libras. Sua fala revela um desejo por reciprocidade, mas também um cansaço emocional diante do esforço constante de adaptação. Ela relatou que precisa “procurar amizades que sinalizem”, o que revela não apenas uma preferência, mas uma necessidade de pertencimento social e emocional. Esse deslocamento constante em busca de interlocutores acessíveis implica um desgaste subjetivo que compromete a espontaneidade da amizade.

Dênis também mencionou que, embora tenha amigos ouvintes, a interação é mais limitada. Ele afirmou que amizades profundas exigem presença e confiança, mas que a troca só acontece plenamente quando há linguagem compartilhada. Paula, por sua vez, relatou que sente a ausência de certas dimensões da amizade quando precisa se comunicar em português. Ela percebe que algumas pessoas evitam conversar com ela por receio de não compreender ou de cometer erros, o que a faz sentir-se excluída. Esse tipo de comportamento, ainda que sutil, é interpretado como rejeição, minando a construção de vínculos duradouros.

Juan relatou que, em amizades com ouvintes, sente timidez e limita sua expressão, antecipando dificuldades comunicacionais e evitando aprofundar vínculos como forma de proteção emocional. A barreira linguística, nesse contexto, restringe a intimidade e a possibilidade de ser compreendido sem mediações. As narrativas indicam que a ausência de interlocução fluida compromete a validação emocional e torna os vínculos mais superficiais. Assim, a comunicação configura-se como condição para o reconhecimento e a construção de relações significativas, reforçando a necessidade de políticas que valorizem a Libras como meio de promoção de vínculos sociais e de acessibilidade no cotidiano.

Em contrapartida, os relatos sobre amizades com outros surdos evidenciam sentimentos de espontaneidade, leveza e pertencimento. Paula descreveu que, com amigas surdas, “tudo acontece naturalmente”, sem que precise explicar seus sinais ou adaptar seu modo de ser.

A comunicação visual é fluida, e os encontros se dão em uma lógica de reconhecimento mútuo. Para ela, isso permite que as conversas sejam mais sinceras e que o afeto seja transmitido sem ruídos. O sentimento de liberdade aparece como elemento-chave da amizade com surdos, pois não há vigilância ou necessidade de traduzir-se o tempo todo.

Dênis reforça essa experiência ao afirmar que, com amigos surdos, “as palavras não se perdem”. Ele comentou que, em Libras, consegue expressar seus sentimentos de forma direta, sem rodeios, e que essa possibilidade torna os encontros mais significativos. A naturalidade na troca de experiências não depende apenas da língua, mas do entendimento compartilhado sobre o mundo e as dificuldades enfrentadas por pessoas surdas. Essa afinidade cultural, segundo ele, facilita o apoio emocional e o senso de comunidade. O pertencimento, nesse caso, não é apenas linguístico, mas identitário.

Luana relatou que, com amigas surdas, sente-se mais livre e expressiva, destacando maior intensidade nas interações, no humor e na empatia, o que evidencia a Libras como forma de validação de sua subjetividade. Esses achados indicam que a comunicação compartilhada potencializa a qualidade das amizades, permitindo maior circulação de afetos. Assim, o acesso à linguagem revela-se dimensão estruturante dos vínculos: enquanto a fluidez comunicacional fortalece o suporte emocional e os sentimentos positivos, as barreiras nas relações com ouvintes geram frustração e isolamento. Desse modo, a amizade na surdez configura-se como experiência profundamente linguística e relacional, atravessada por pertencimento e reconhecimento. Já nas situações em que a comunicação é falha, surgem sentimentos negativos, como frustração e isolamento. Esse panorama reforça a tese de que a amizade, para adultos surdos, é vivida de modo relacional e linguístico, sendo atravessada por políticas de acesso, reconhecimento e pertencimento.

3.4 DISCUSSÃO DOS ACHADOS À LUZ DA LITERATURA

Os resultados evidenciam que, para adultos surdos usuários de Libras, a amizade é uma experiência relacional marcada por dimensões afetivas, comunicacionais e culturais. A integração entre dados estatísticos e narrativas revelou que, embora as amizades ofereçam suporte emocional e reconhecimento, as barreiras comunicacionais com ouvintes geram frustração e distanciamento. Essa complexidade exige uma análise que articule níveis interdependentes: o individual, relacionado às experiências subjetivas; o relacional, centrado na linguagem e na confiança; o sociocultural, que posiciona a surdez como diferença; e o educacional, vinculado à acessibilidade e às políticas linguísticas. Assim, a amizade configura-se como fenômeno situado em ecossistemas sociais (Bronfenbrenner, 2011) e atravessado por práticas de desigualdade (Skliar, 1998; Strobel, 2008).

Os dados indicam que a ausência de interlocução em Libras com ouvintes fragiliza a intimidade, o apoio emocional e o pertencimento, enquanto a fluência compartilhada e a identificação cultural fortalecem os vínculos como espaços de regulação emocional, apoio prático e reconhecimento identitário. Assim, as amizades operam simultaneamente como compensação frente à exclusão e como resistência ao capacitismo linguístico (Sacks, 1998; Skliar, 1998; Strobel, 2008). À luz da literatura, os achados evidenciam que a experiência relacional surda articula dimensões afetivas, linguísticas e culturais, exigindo análise para além de indicadores quantitativos. Essa perspectiva sustenta a discussão dos cinco eixos interpretativos, a seguir, que conectam os resultados da pesquisa com contribuições teóricas sobre amizade, surdez, desenvolvimento humano e linguagem, além de contribuir para pensar práticas inclusivas na Educação Especial.

3.4.1 EIXO 1 - A AMIZADE COMO ESPAÇO DE AFETO, DESENVOLVIMENTO E REGULAÇÃO EMOCIONAL

A amizade, como laço afetivo voluntário e estável, desempenha papel fundamental no bem-estar psicológico e na organização emocional ao longo da vida adulta. Segundo Argyle (2013), a qualidade das relações interpessoais está diretamente relacionada à sensação de felicidade, satisfação e autorrealização. Nos relatos dos participantes desta pesquisa, a amizade é compreendida como fonte de acolhimento, cuidado e expressão de sentimentos íntimos, o que corrobora a noção de que os amigos funcionam como reguladores emocionais diante das adversidades. Essa função se torna ainda mais evidente no contexto da surdez, em que a linguagem partilhada permite a construção de um espaço seguro para a expressão subjetiva. Assim, os vínculos de amizade assumem importância ainda maior, por serem um dos poucos ambientes em que as emoções podem circular com espontaneidade e reciprocidade.

As evidências estatísticas da pesquisa reforçam essa centralidade. A Escala de Sentimentos Positivos revelou média de 25,4 pontos, sugerindo que a maioria dos participantes vivencia com frequência emoções agradáveis em suas amizades. Entre os itens mais valorizados estavam sentir-se calmo, acolhido e feliz ao lado do(a) melhor amigo(a). Esses dados estão em consonância com o que Blieszner e Adams (1992) definem como os benefícios da amizade para a saúde mental e emocional, sobretudo na vida adulta. A amizade proporciona segurança emocional, promove sentimentos de aceitação e reduz estados de solidão. Isso é ainda mais relevante entre adultos surdos, que enfrentam barreiras comunicacionais e, muitas vezes, trajetórias marcadas por isolamento social e estigmas.

A literatura sobre desenvolvimento afetivo reforça a ideia de que os amigos cumprem uma função reguladora de sentimentos e emoções. Fehr (1996, 2012) afirma que a amizade se estrutura em torno de dimensões como intimidade, ajuda mútua, companhia e validação. Essas dimensões foram amplamente identificadas tanto nos escores das subescalas de Funções da Amizade quanto nas narrativas dos participantes. Por exemplo, Dênis afirmou que um amigo é alguém com quem se “troca segredos” e se enfrentam “os desafios da vida”. Esse tipo de vínculo, marcado por confiança e constância, configura-se como espaço de elaboração emocional, uma zona de segurança que permite ao indivíduo experimentar emoções complexas sem julgamento, favorecendo o equilíbrio interno e a resiliência diante de frustrações.

Os dados indicaram presença relevante de sentimentos negativos (M = 17,7), como insegurança e frustração, associados sobretudo a relações com ouvintes marcadas por falhas comunicacionais. Conforme Wright et al. (2010), a ausência de suporte emocional intensifica a ansiedade e compromete a autorregulação, revelando a ambivalência dos vínculos. Na perspectiva do desenvolvimento, Carbery e Buhrmester (1998) destacam a amizade como espaço de intimidade, validação e apoio contínuo, função particularmente relevante para adultos surdos diante de restrições comunicacionais e sociais. Nesse contexto, a amizade emerge como espaço de regulação emocional e proteção, permitindo a expressão de afetos e evidenciando sua centralidade frente a experiências de exclusão.

Complementarmente, os achados também dialogam com a literatura nacional. Souza e Hutz (2007), ao validarem os Questionários McGill de Amizade, já haviam identificado que a dimensão emocional da amizade é um dos fatores mais valorizados pelos brasileiros. Bittencourt e Menezes (2020), em revisão sobre habilidades sociais, também destacam que relações afetivas positivas contribuem para o desenvolvimento de competências emocionais e sociais. Isso se aplica aos participantes surdos desta pesquisa, cujos relatos e escores sugerem que a amizade não apenas regula emoções, mas também fortalece a autoestima, amplia o senso de pertencimento e cria espaços de aprendizagem relacional. A amizade, assim, aparece como eixo de desenvolvimento pessoal, emocional e social, sobretudo quando mediada por uma comunicação acessível e respeitosa.

3.4.2 EIXO 2 - COMUNICAÇÃO, LINGUAGEM E SUBJETIVIDADE NA AMIZADE DE SURDOS

A língua constitui um dos principais eixos da amizade, uma vez que permite a troca de experiências, a expressão emocional e o reconhecimento mútuo. No caso da população surda, a presença ou a ausência de interlocução em Libras não é apenas uma questão técnica ou pedagógica, mas um marcador profundo de pertencimento e subjetivação. Strobel (2008) argumenta que o acesso à língua de sinais é um direito identitário, cuja negação compromete o desenvolvimento afetivo e social dos sujeitos surdos. Os relatos desta pesquisa confirmam essa premissa: os vínculos em que há fluência em Libras são descritos como mais intensos, espontâneos e afetivamente gratificantes, enquanto as relações com ouvintes não sinalizantes são frequentemente marcadas por frustração, timidez ou distanciamento.

A literatura que compreende a surdez como diferença linguística e cultural, conforme Skliar (1998) e Lodi e Luciano (2009), permite interpretar as amizades como espaços de pertencimento mediados pela Libras. Os relatos indicam que, entre surdos, há maior liberdade expressiva e compreensão mútua, evidenciando a língua como condição para vínculos plenos. Sacks (1998) e Grosjean (1994a, 1994b) reforçam que a experiência surda se organiza em um universo visuoespacial, no qual a comunicação visual sustenta relações mais igualitárias. Assim, a presença da Libras favorece fluidez e validação nas amizades, enquanto sua ausência tende a comprometer a reciprocidade nas interações.

As barreiras comunicacionais descritas pelos participantes não se restringem à ausência de intérpretes ou à dificuldade em decodificar o português. Elas afetam diretamente a construção da subjetividade, pois limitam a possibilidade de se expressar integralmente. De Meulder et al. (2019) afirmam que o contexto de translinguagem entre surdos é politicamente marcado por disputas de poder e invisibilização de repertórios linguísticos. Nesse sentido, as amizades entre surdos não apenas garantem comunicação fluida, mas também representam espaços de resistência contra práticas de exclusão comunicacional. Os relatos de Juan e Dênis, que preferem amizades com surdos justamente por não precisarem “traduzir a si mesmos”, indicam que a comunicação em Libras não é apenas uma escolha funcional, mas um modo de afirmação identitária.

Oliveira (2014) observa que o modo de estruturação gramatical do português pode ser um dos fatores que alimentam o estigma sobre as capacidades cognitivas dos surdos. Isso foi evidenciado por Luana, que relata sentir-se inferiorizada em interações com ouvintes que não compreendem sua forma de expressão. Esse tipo de experiência interfere diretamente na qualidade da amizade, pois compromete a simetria relacional. Moreira (2008) reforça que a língua de sinais é o meio mais potente para o desenvolvimento da cognição e da afetividade em crianças e adultos surdos. A ausência desse meio nos ambientes sociais e escolares amplia a vulnerabilidade emocional e compromete a constituição de vínculos baseados na confiança e no reconhecimento mútuo.

As amizades vividas por pessoas surdas são, portanto, atravessadas por disputas em torno da linguagem, que não se limitam à comunicação, mas envolvem o direito à subjetividade, à reciprocidade e ao pertencimento. A Libras, nesse contexto, constitui-se como meio de expressão emocional e de resistência, pois possibilita a expressão de quem se é, sem a necessidade de adaptação ou simplificação. Os dados desta pesquisa revelam que, quando há linguagem compartilhada, há também afeto fluido, escuta mútua e desenvolvimento emocional. Assim, reafirma-se a tese de que a linguagem é, no caso das pessoas surdas, condição de existência relacional e, por isso, elemento central da análise das amizades na perspectiva da Educação Especial.

3.4.3 EIXO 3 - DIFERENÇA, ESTIGMA E RECONHECIMENTO SOCIAL

A experiência da surdez, longe de ser uma condição exclusivamente sensorial, carrega marcas sociais profundas. Os dados desta pesquisa revelam que os participantes vivenciam suas amizades sob a tensão constante entre o desejo de reconhecimento e a experiência do estigma. Para Goffman (1988), o estigma é um atributo relacional que desqualifica um indivíduo diante de determinadas expectativas sociais. No caso dos participantes surdos, o não domínio da língua oral é interpretado socialmente como deficiência, o que compromete o acesso a vínculos igualitários. Os relatos que descrevem a timidez nas interações com ouvintes e o esforço permanente de adaptação ilustram o peso simbólico da exclusão linguística e a consequente fragilização dos laços de amizade fora da comunidade surda.

A noção de surdez como diferença cultural é central para compreender esses processos. Skliar (1998) e Afonso (2007) propõem uma abordagem socioantropológica que reconhece a surdez como um marcador identitário. Essa perspectiva rompe com a concepção biomédica da deficiência e valoriza os repertórios linguísticos e culturais próprios da comunidade surda. Nos dados da pesquisa, essa diferença é explicitada por Juan e Paula ao relatarem o conforto e a espontaneidade nas relações com surdos, em contraste com o esforço exigido nas amizades com ouvintes. Essa vivência da diferença, no entanto, não é reconhecida socialmente, o que reforça a posição marginal desses sujeitos nos espaços de convivência.

A estigmatização das identidades surdas também foi tematizada por Bisol (2008), que, ao investigar processos de adolescência entre surdos, identificou sentimentos de inferioridade e silenciamento frente ao mundo ouvinte. A exclusão comunicacional, nesse contexto, impacta diretamente a construção da autoestima e a manutenção dos vínculos afetivos. Os dados desta pesquisa confirmam esse panorama ao indicar que as relações com ouvintes, quando não sustentadas por respeito e esforço de comunicação, geram frustração e insegurança. Bisol e Sperb (2010) reforçam que o modo como a surdez é significada interfere na constituição das relações sociais. Quando a surdez é vista como incapacidade, os vínculos tornam-se assimétricos, comprometendo a reciprocidade necessária à amizade.

O reconhecimento social, como destaca Orsoni (2007), é um fator essencial para que a pessoa surda se constitua como sujeito de direitos e desejos. A ausência de interlocução em Libras nos espaços públicos e educacionais não apenas restringe a comunicação, mas inviabiliza o reconhecimento da subjetividade surda. Isso repercute nas amizades, que deixam de ser espaços de acolhimento e se tornam arenas de tensão. Os relatos de Luana e Dênis ilustram esse ponto: ambos mencionam sentimentos de exclusão em contextos em que a Libras não é compreendida, revelando que a negação da língua equivale à negação de sua presença como sujeito pleno nas relações.

Santiago e Andrade (2013) introduzem o conceito de “conforto linguístico” para expressar a importância de ambientes em que o surdo possa interagir sem esforço excessivo. Esse conceito ajuda a entender por que os vínculos com surdos são vividos como mais autênticos: não há necessidade de justificar o próprio modo de ser nem de mediar constantemente as expressões emocionais. Essa autenticidade, tão valorizada nos relatos, está diretamente ligada à aceitação da diferença e ao rompimento com práticas capacitistas. Guimarães et al. (2019) também reforçam que o reconhecimento da língua e da cultura surda é condição para o exercício da cidadania e para o fortalecimento dos vínculos interpessoais.

Assim, os achados desta pesquisa apontam que a amizade, para os adultos surdos, é vivida em um campo tensionado entre desejo de pertencimento e experiências de estigmatização. Por um lado, quando há valorização da diferença e reconhecimento das singularidades linguísticas e culturais, os vínculos se fortalecem e promovem bem-estar; por outro lado, quando a surdez é desconsiderada ou medicalizada, os laços tornam-se frágeis e marcados por insegurança. A análise desses dados à luz da literatura reforça que o reconhecimento não é apenas um gesto simbólico, mas um ato relacional que sustenta a amizade como experiência importante na vida das pessoas surdas.

3.4.4 EIXO 4 - ECOSSISTEMAS, DESENVOLVIMENTO E RELAÇÕES SIGNIFICATIVAS

A compreensão do desenvolvimento humano requer o reconhecimento dos múltiplos sistemas em que o indivíduo está inserido. De acordo com Bronfenbrenner e Morris (1998), o microssistema, composto pelas relações face a face em contextos imediatos, tem papel central na formação da identidade, da cognição e da afetividade. No caso dos participantes desta pesquisa, as amizades aparecem como parte desse microssistema, funcionando como espaços de validação emocional e aprendizado mútuo. Os vínculos com amigos surdos foram descritos como fundamentais para a constituição de uma autoimagem positiva, pois oferecem suporte emocional e garantem acessibilidade comunicacional. A ausência de relações próximas em ambientes escolares, familiares ou comunitários, por sua vez, limita esse processo e gera sentimentos de isolamento e baixa autoestima.

Bronfenbrenner (2011), ao propor a bioecologia do desenvolvimento humano, destaca que o potencial de crescimento dos indivíduos depende da qualidade e da continuidade das interações nos ambientes em que vivem. Essa perspectiva ajuda a compreender por que os participantes da pesquisa relatam dificuldade em manter amizades em cidades em que não há outras pessoas surdas ou em contextos que não valorizam a Libras. A ausência de pares com quem compartilhar experiências contribui para o empobrecimento do ecossistema relacional, afetando não só o bem-estar emocional, mas também a capacidade de se expressar e de construir laços de confiança. Como mostram os relatos de Luana e Juan, a solidão linguística compromete a vitalidade das relações e, consequentemente, o próprio desenvolvimento.

Tudge (2008) e Merçon-Vargas et al. (2020) enfatizam que os processos proximais - interações regulares e significativas - são a base do desenvolvimento humano, desde que ocorram em contextos de reciprocidade e continuidade. Nas amizades entre surdos, os participantes descrevem essas interações como intensas, presentes e espontâneas, indicando que o vínculo afetivo é sustentado por uma comunicação fluida e por um sentimento de pertencimento mútuo. Já nas relações com ouvintes, a ausência de continuidade e a assimetria comunicacional interrompem esses processos, fragilizando o desenvolvimento emocional e a construção de vínculos estáveis. Dessa forma, os achados mostram que a amizade não apenas acompanha o desenvolvimento, mas o constitui como experiência situada em ecossistemas específicos.

Gauvain (2001) destaca que aprendizagens significativas emergem de contextos que promovem segurança, reconhecimento e participação, o que permite compreender a amizade entre surdos como espaço de trocas cognitivas, emocionais e culturais. Os relatos indicam que o vínculo envolve aprender com o outro, ampliando sentidos compartilhados, especialmente em ambientes bilíngues e comunidades surdas. Nessa direção, Papalia e Feldman (2013) apontam o desenvolvimento como processo adaptativo mediado pelas interações sociais. Para participantes surdos, a presença de contextos que reconhecem a Libras favorece vínculos mais horizontais, evidenciando que as amizades funcionam como respostas às condições de inclusão e, também, como forças que transformam os contextos vividos.

3.4.5 EIXO 5 - ESTUDOS CONTEMPORÂNEOS SOBRE SURDEZ, AMIZADE E CONTEXTOS DIGITAIS

A amizade no século XXI é atravessada por transformações significativas nos modos de se relacionar, principalmente entre sujeitos que experienciam condições comunicacionais distintas. Millen et al. (2019) indicam que jovens surdos valorizam amigos que compartilham sua língua e identidade, mas também se abrem a novos formatos de relação mediados por tecnologias. Os participantes desta pesquisa expressaram tensões ao lidar com a escassez de amigos em suas cidades, o que os leva a buscar alternativas digitais para manter contato com amigos surdos, mesmo distantes. Essa busca evidencia que os vínculos afetivos não estão limitados ao espaço físico, mas se reorganizam conforme as possibilidades de interação que o tempo presente oferece.

As tecnologias digitais, como redes sociais e aplicativos com suporte a vídeo, foram apontadas como facilitadoras das amizades surdas, ampliando a continuidade dos vínculos e reduzindo vulnerabilidades (Scott et al., 2021). No entanto, nem todos os participantes as valorizam igualmente, havendo preferência pela interação presencial em alguns casos. A presença da Libras nas mediações digitais mostrou-se central para a qualidade das relações, pois possibilita fluidez comunicacional e manutenção do vínculo (Terlektsi et al., 2020). Quando a interação exige o uso do português escrito, surgem barreiras que comprometem a comunicação, indicando que a eficácia dessas tecnologias depende do respeito à língua do interlocutor (Movallali et al., 2018).

Essa intencionalidade se manifesta quando o outro se esforça para aprender Libras, buscar estratégias visuais de interação ou demonstrar escuta sensível às necessidades comunicativas da pessoa surda. Ramos-Cabo et al. (2022) defendem que a qualidade da comunicação depende da disposição em compreender gestos, sinais e expressões que extrapolam a fala oralizada. Na pesquisa, os vínculos mais sólidos foram justamente aqueles em que o outro demonstrava abertura à diferença linguística e afetiva. A discussão dos achados revelou uma forte convergência entre os dados empíricos e a literatura contemporânea. As amizades entre pessoas surdas são moldadas por fatores afetivos, linguísticos, culturais e multimodais, sendo vividas como espaços de cuidado e resistência. A Libras emerge como elemento central tanto para a constituição da subjetividade quanto para a manutenção de vínculos. Os contextos de exclusão comunicacional, por sua vez, produzem fragilidade relacional e sentimentos negativos.

Por fim, a análise dos achados à luz da literatura permitiu compreender que, para pessoas surdas, as amizades representam mais do que vínculos afetivos: constituem espaços fundamentais de reconhecimento, pertencimento e construção subjetiva. A presença da Libras como língua compartilhada não apenas viabiliza a comunicação, mas amplia as possibilidades de interação significativa e de intimidade nas relações interpessoais. Os dados evidenciam que, quando há acessibilidade linguística e atenção sensível à diferença, os laços de amizade se fortalecem e contribuem ativamente para o desenvolvimento emocional, social e identitário. Assim, torna-se imprescindível reconhecer que a promoção de ambientes escolares e sociais que valorizem a Libras e as interações entre pares surdos não se limita ao campo da inclusão, mas configura um compromisso ético com o direito à convivência, à afetividade e à construção de relações.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo investigou as experiências de amizade de adultos surdos usuários da Libras, articulando dimensões afetivas, linguísticas e socioculturais por meio de dados quantitativos e qualitativos. Os resultados indicam que a qualidade das amizades está diretamente relacionada à possibilidade de expressão em uma língua compartilhada, evidenciando a Libras como elemento central para o vínculo e o reconhecimento mútuo. A organização dos dados em eixos temáticos permitiu integrar diferentes níveis de análise, articulando achados estatísticos e narrativas. Fundamentado em referenciais multidisciplinares, como Bronfenbrenner (2011), Fehr (1996, 2012), Sacks (1998), Skliar (1998) e Strobel (2008), o estudo oferece uma compreensão ampliada das relações interpessoais no contexto da surdez.

Entre as contribuições, destaca-se a compreensão da amizade como experiência estruturada pela acessibilidade linguística, ampliando debates na Educação Especial para além da escolarização. Os achados subsidiam reflexões sobre formação docente bilíngue, valorização da Libras e promoção de ambientes inclusivos. Como limitação, apontam-se o número reduzido de participantes nas entrevistas e a não exploração aprofundada de variáveis contextuais. Perspectivas futuras incluem a ampliação da amostra, estudos longitudinais e investigações sobre redes de apoio e presença digital. Ao reconhecer a amizade como campo legítimo, o estudo reforça o papel dos vínculos acessíveis no desenvolvimento subjetivo e na participação social.

  • 4
    Optou-se pelo uso da expressão “atenção sensível ao outro” em substituição ao termo “escuta ativa” tradicionalmente empregado na literatura sobre relações interpessoais. Essa escolha visa respeitar o caráter visuoespacial da comunicação em Libras e reconhecer os modos próprios de atenção e responsividade construídos na experiência surda. O termo “escuta” pode ser interpretado de forma restrita ao canal auditivo, o que não corresponde à dinâmica comunicativa dos sujeitos surdos sinalizantes. Assim, a “atenção sensível ao outro” contempla não apenas o engajamento emocional e cognitivo nas interações, mas também a valorização da presença visual, do reconhecimento expressivo e da abertura para o diálogo em uma perspectiva culturalmente situada (Gesser, 2009, 2012; Strobel, 2008).

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que deu suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

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  • Editoras responsáveis
    Aline Maira da Silva (Editora-chefe)
    Patrícia Graff (Editora associada)

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    31 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    25 Nov 2025
  • Revisado
    07 Abr 2026
  • Aceito
    08 Abr 2026
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