Open-access O Diálogo de Galileu e o Debate sobre a Natureza do Método Científico

Galileo’s Dialogue and the Debate on the Nature of the Scientific Method

Resumo

Neste artigo, refletimos sobre a natureza do método científico, tomando alguns tópicos do Diálogo de Galileu para análise deste. Percorro alguns tópicos da discussão galileana, procurando mostrar a dificuldade de enquadrá-los na visão tradicional do método científico como conjunto de regras abstratas, universais e independentes do assunto tratado. Tópicos como o brilho da Lua, as manchas solares, a irradiação e o protocolo de uso do telescópio são de difícil generalização. Adicionalmente, tal fato, permite-nos certas considerações sobre o “Galileu” de Feyerabend, apontando alguns erros e exageros. Finalizamos com uma pequena discussão de Richard Boyd cuja visão acerca dos métodos científicos, de caráter tópico e contingente, permite fazer sentido da nossa discussão de certos pontos do Diálogo.

Palavras-chave:
Manchas solares; luz difusa; telescópio; irradiação; Feyerabend; Boyd

Abstract

In this article, we reflect on the nature of the scientific method, taking some topics from Galileo’s Dialogue for analysis. I cover some topics of the Galilean discussion, trying to show the difficulty of fitting them into the traditional view of the scientific method as a set of abstract, universal rules that are independent of the subject matter. Topics such as the brightness of the Moon, sunspots, irradiation and the protocol for using the telescope are difficult to generalize. Additionally, this fact allows us to make certain considerations about Feyerabend’s “Galileo”, pointing out some errors and exaggerations. We conclude with a brief discussion by Richard Boyd, whose view of scientific methods, of a topical and contingent nature, allows us to make sense of our discussion of certain points of the Dialogue.

Keywords
Sunspots; diffused light; telescope; irradiation; Feyerabend; Boyd

1. Introdução

A discussão tradicional em filosofia da ciência confiou por muito tempo na análise do chamado método científico. Desde Francis Bacon, passando por Stuart Mill, positivistas, Popper e outros, parece claro que o método científico foi pensado como atópico e atemporal. Um único conjunto de regras e procedimentos percorreria todas as ciências em todos os tempos. Para muitos, Galileu teria descoberto e manuseado tal ferramenta dando origem à ciência moderna. O mesmo conjunto de regras ou procedimentos permitiria o avanço da ciência independentemente dos pressupostos teóricos de cada tópico em discussão. Hacking ilustra o ponto dizendo que

(…) um amplo espectro de filósofos analíticos da ciência tem asseverado que há um método científico, aplicado através das ciências naturais e humanas (…) e então dão explicações incompatíveis deste método, as bem conhecidas disputas metodológicas de Carnap, Popper, Lakatos e o resto [1].

Um intenso debate sobre quais seriam estas regras, se atuariam no chamado contexto de descoberta ou apenas no contexto de justificação, se seriam de natureza indutiva ou dedutiva, concentrou boa parte dos esforços filosóficos desde Bacon. Todos já ouviram falar das 3 grandes vertentes: indutivismo, dedutivismo e método hipotético-dedutivo [2, 3]1.

Curiosamente, a leitura do Diálogo sobre os dois Máximos Sistemas do Mundo de Galileu, o grande precursor da ciência, dificilmente se enquadra nos rótulos acima. A própria divergência entre seus intérpretes atesta a dificuldade. Koertge, por exemplo, diz:

Para Koyré, Galileu é um platonista que geometrizou física e a própria natureza. Para Randall, ele é um aristotélico paduano que intuiu primeiros princípios através da análise racional de umas poucas instâncias. Depois do que, nenhuma experiência adicional seria necessária. Crombie diz que Galileu foi um eclético, mas mais kantiano do que qualquer outro (…). Drake faz-lhe soar como muito semelhante a um físico moderno [4].

Como dissemos, particularmente difícil de enquadrar é O Diálogo sobre os dois Máximos Sistemas do Mundo, de 1632 (doravante, Diálogo). No Diálogo, são comparados o sistema ptolomaico-aristotélico com o sistema copernicano, ponderando-se argumentos e evidências para cada um dos sistemas. O centro do debate, que ocupa os séculos XVI e XVII, concerne à dúvida de se a Terra é móvel ou estacionária, tendo como pano de fundo a cosmologia aristotélica. A discussão desta ocupa principalmente a 1 jornada do Diálogo, tendo repercussão sobre as demais jornadas na medida em que coloca em dúvida a dissimilaridade entre Terra (região sublunar) e o Céu (região supralunar, incluindo a Lua). Se a Terra é afinal muito semelhante aos outros corpos celestes, notadamente aos 5 planetas conhecidos na época e a Lua, talvez apresente movimento como eles. A 1 jornada do Diálogo então procura estabelecer que o mundo é basicamente homogêneo, lançando dúvida sobre a concepção aristotélica das duas regiões. A 1 jornada é especialmente difícil de ser enquadrada nos 3 estereótipos clássicos de metodologia científica: indutivismo, dedutivismo e hipotético-dedutivismo. Neste artigo, examinaremos o Diálogo de Galileu, com ênfase (mas não exclusivamente) na primeira jornada com o objetivo de ver se o texto se encaixa dentro das descrições tradicionais de método científico. Utilizaremos também alguns elementos do Sidereus Nuncius.

2. Alguns Tópicos do Diálogo

Em seu exame dos dois máximos sistemas, Galileu percorre uma série de tópicos que são relevantes para comparar o sistema aristotélico-ptolomaico com o sistema copernicano. Examinaremos a discussão em torno dos seguintes tópicos da 1a jornada: manchas solares, a aspereza da Lua, o brilho da Lua e da Terra, a luz cinérea. Adicionalmente, trataremos do problema da irradiação pertencente a 3a jornada.

Como já dissemos, o grande tema da 1a jornada é estabelecer a homogeneidade do mundo em face da dicotomia Céu-Terra do aristotelismo. Na tentativa de estabelecer a existência de mudanças no mundo supralunar, Galileu discute as manchas solares que ele e outros haviam observado em frente ao sol entre os anos de 1611 e 1613. De um ponto de vista contemporâneo, sabemos que as manchas surgem e desaparecem da superfície solar, com duração de vários dias, movendo de um limbo ao outro na medida em que se dá a rotação do Sol. Na verdade, as manchas são evidência da rotação solar, fato cuja descoberta pode ser atribuída a Galileu. Ocorre que os aristotélicos supunham que as chamadas manchas eram de fato planetas ainda não descobertos que transitavam o corpo solar – tese defendida pelo jesuíta Christoph Scheiner. Simplício, o defensor de Aristóteles, diz

(…) estou muito inclinado a acreditar e até tenho a firme certeza de que sejam um agregado de muitos e vários corpos opacos, quase casualmente concorrentes entre si: por isso vemos frequentemente que numa mancha podem-se contar dez ou mais destes corpúsculos miúdos (…) [5, p. 138].

A ideia é que as “manchas solares” são ilusões criadas por vários corpos pequenos que transitam o Sol próximos uns dos outros. As mudanças de tamanho e aspecto de tais “manchas” se deveria a concorrência ou divergência de tais corpos, não havendo propriamente uma mudança qualitativa no Sol e, portanto, na região supralunar. Assim, a tese aristotélica da imutabilidade qualitativa do céu seria preservada. Contra a hipótese de Scheiner, um argumento galileano em particular nos interessa. Galileu argumenta que as manchas, quando viajam em direção ao limbo solar, têm o seu comprimento encurtado2, típico de figuras planas quando são vistas de forma oblíqua. Já a forma esférica não sofre encurtamento qualquer que seja o ângulo de visada. Salviati diz: “pois entre todas as figuras só a esfera nunca é vista encurtada, nem pode representar-se a não ser perfeitamente redonda” [5, p. 139]. A Geometria (e perspectiva) é então a chave para o argumento. Devo notar que o argumento é extremamente específico, pertinente ao tópico tratado, e dificilmente poderia ser generalizado como uma regra metodológica. Até certo ponto, podemos enquadrar a discussão no método de hipóteses: fazemos hipóteses sobre as “manchas” solares e as verificamos ou falsificamos através da observação. Contudo, o que está em jogo é a própria observação e a capacidade para ver em perspectiva que Galileu possuía acima de vários outros (talvez todos) astrônomos da época. O próprio Galileu, na mesma página citada acima, acentua a importância do conhecimento de perspectiva. Segundo David Wootton, por exemplo, Thomas Harriot, que provavelmente observou a lua antes de Galileu, não conseguiu entender realmente o que estava vendo (montanhas e crateras) porque não tinha o treino deste em perspectiva, adquirido pela visitação das galerias de arte italianas [7, p. 211] e do seu próprio treinamento artístico. O que está em jogo aqui é um saber ver que foi fundamental na construção do Diálogo como veremos ainda nos tópicos seguintes3.

O segundo tópico se refere à aspereza ou polidez da Lua. Segundo a tradição aristotélica, a Lua deveria ser uma esfera absolutamente perfeita sendo duríssima e polida como uma bola de cristal. Já nas observações feitas pelo recém-introduzido telescópio (1609) e relatadas no Sidereus Nuncius (1610), Galileu mostra convincentemente por meio de desenhos e explicações que a Lua tem relevo de forma muito semelhante à Terra. A descrição da irregularidade do terminador (que separa luz e sombra) e a existência de pontos brilhantes e isolados mesmo dentro das áreas escuras, evidenciando que o Sol, que não alcança o solo além do terminador, consegue iluminar os cumes das montanhas mais altas, tornam difícil a posição aristotélica sobre a polidez da Lua.

Não é esse ponto, entretanto, que gostaríamos de enfatizar. Desejamos considerar outro conjunto de considerações mobilizadas por nosso filósofo-astrônomo contra a polidez da Lua. Trata-se de argumentos de base física e com grande recurso a analogias. A questão toda gira sobre a noção não-técnica de “visibilidade”, um termo escolhido por nós. Galileu utiliza para a sua discussão, em que aspectos da luz estão envolvido, expressões como “mais lúcido”, “mais vivaz”, “mais claro”. Há uma passagem em que ele utiliza “mais universal” que corresponderia ao que chamamos de “mais visível”. Em um vocabulário mais contemporâneo, teríamos que lidar com as seguintes noções: brilho, contraste e visibilidade. Respectivamente, quantidade de luz, relação entre brilho do objeto e brilho do fundo em que este está inserido, facilidade de ser percebido ou evidenciado pelos sentidos. Galileu, através do personagem Salviati, tenta desfazer certas confusões de Simplício, o aristotélico. A questão é saber se para produzir o “brilho” da Lua uma superfície polida seria melhor do que uma superfície áspera. O diálogo então apresenta uma encenação em que um espelho é pendurado em um muro e são comparados o “brilho” do espelho e do muro na medida em que refletem a luz do sol. A tendência do senso comum, que é também a de Simplício, é dizer que o espelho é mais brilhante do que o muro, o que é verdade em certo sentido. Entretanto, a questão mais relevante é se o espelho é mais visível do que o muro. O espelho, por ser uma superfície polida, direciona os raios de luz em um ângulo muito específico que o tornará brilhante em uma direção dependente da posição da fonte de luz e do observador. Assim, fora deste ângulo específico o muro é mais visível do que o espelho4. O brilho é apenas um componente da visibilidade, sendo que aqui o cerne do argumento galileano é a capacidade das superfícies ásperas para espalhar a luz (scattered light). Salviati diz:

(…) vedes como a reflexão que vem do muro difunde-se para todas as partes opostas, mas aquela do espelho dirige-se somente para uma parte, em nada maior que aquela do próprio espelho; vedes igualmente como a superfície do muro, olhada de qualquer lugar, mostra-se sempre igualmente clara (…) [5, p. 157].

Sem pretender uma análise completa, podemos dizer que a visibilidade depende de brilho, contraste e espalhamento (ou difusão). A discussão ainda é ilustrada pelo conhecimento prático de Galileu, notando que os diamantes são lapidados de forma multifacetada para que possam ser mais visíveis, refletindo a luz em todas as direções. Se os diamantes e a Lua fossem como uma esfera polida, seriam praticamente invisíveis. Toda esta discussão, aliada às observações telescópicas de Galileu tornam a tese da aspereza da Lua extremamente plausível, mas o argumento só funciona quando assumimos que a Lua não tem luz própria e brilha por reflexão da luz solar. Alberto da Saxônia, por exemplo, considera que a Lua é lúcida e polida e que, portanto, o argumento do muro/espelho, já conhecido por ele, embora correto, não se aplica a mesma5. Assim, existe a necessidade de tornar pelo menos plausível que a Lua brilhe por luz refletida.

Isso é feito pela discussão da luz secundária da Lua (luz cinérea): aquela luz tênue, no começo da Lua crescente e no final da minguante, que vemos iluminar a parte complementar da Lua em relação à parte plenamente iluminada. Galileu dá talvez a primeira explicação detalhada deste fenômeno6. Quando a Lua está entre a Terra e o Sol, em sua fase nova, temos Terra cheia para aqueles que olham da Lua em direção à Terra. Quando a Lua começa a crescer com uma pequena parte iluminada pelo Sol, a Terra começa a minguar, estando quase cheia e devolvendo uma grande parte da luz refletida do Sol em direção à Lua. Quando a Lua começa a crescer, a Terra começa a minguar devolvendo cada vez menos luz para a Lua. É fenômeno conhecido que a luz cinérea diminui quando a Lua cresce, sendo progressivamente menos visível. Há então uma explicação extremamente coerente para o fato de que a Terra e a Lua brilhem por reflexão. Simplício continua a argumentar que há algo especial com brilho da Lua por ser extremamente vivaz e contrasta com o que ele pensa ser o caráter tenebroso da Terra. Salviati mostra, contudo, e aqui entra um novo argumento, que não há nada de tão especial com o brilho da Lua que quando vista durante o dia pode mesmo ser confundida com uma nuvem. O esplendor da Lua à noite se deve apenas ao maior contraste devido ao escurecimento do céu. Com grande capacidade imaginativa, Galileu é levado a afirmar que a Terra se vista do espaço, contra o céu escuro, apareceria tão ou mais vivaz do que a Lua. Hoje, sabemos que o albedo (refletividade difusa de uma superfície) médio da Terra varia entre 30% e 35% enquanto o da Lua é 13%. Essas considerações reforçam as semelhanças entre a Lua e a Terra e minam a cisão Céu/Terra advinda do quadro aristotélico. Tanto a distinção entre brilho e visibilidade quanto a distinção entre brilho e contraste, que operam nos argumentos acima, são também estratégias pertinentes ao tópico tratado e não tem potencial para serem generalizados em algo que poderia ser chamado de método científico com validade universal. O contexto é muito mais de um debate crítico.

O nosso último tópico refere-se ao que hoje é conhecido como problema da irradiação, tendo sido tratado por Galileu em diversas obras, com aparição já no Sidereus Nuncius de 1610. Fontes luminosas de pequeno tamanho angular quando vistas de grandes distâncias apresentam ao observador uma imagem cujo tamanho aparente é de difícil determinação. É do domínio comum que ao observarmos planetas e estrelas durante a noite percebemos uma estrutura raiada que parte do centro do corpo celeste e se projetam para além do centro. O mesmo fenômeno pode ser visto em algumas fontes luminosas terrestres como luzes de postes muito brilhantes vistas à distância. Nestes casos, nós temos grande dificuldade de avaliar o tamanho aparente da fonte luminosa. [tamanho angular real]. Este fenômeno, hoje chamado de irradiação, tem explicação bastante complexa a qual aludiremos adiante.

O fenômeno ganha significado astronômico especial quando da avaliação do tamanho aparente dos discos planetários à vista desarmada. Pelas estimativas baseadas na teoria copernicana, o tamanho angular de Marte e Vênus deveria variar ao longo do ano 8 e 6 vezes respectivamente. Isso se deve basicamente ao fato de que, no sistema heliocêntrico, os dois planetas se colocam ora do mesmo lado do Sol em relação à Terra, ora do lado oposto. Contudo, o que era observado de fato era uma variação de 2 a 3 vezes entre o mínimo e o máximo diâmetro. Galileu mostra que, para objetos muito brilhantes e de pequeno tamanho angular, nós somos enganados pelos chamados raios adventícios, estranhos aos próprios objetos, constituindo um artefato da visão. Recomenda alguns procedimentos, como olhar os astros através de um canudo ou por um pequeno furo em um cartão, para eliminar os raios adventícios. E fez ainda melhor: com o seu pequeno telescópio – com consequente aumento da imagem – e com uma escala graduada conseguiu eliminar os raios adventícios e medir com precisão os discos planetários. Tendo feito assim, as variações dos discos de Vênus e Marte eram precisamente as esperadas pela teoria copernicana. Salviati dá a seguinte explicação fisiológica para o fenômeno:

(…) os objetos resplendentes, seja porque sua luz se refrata na umidade que está sobre as pupilas, seja porque se reflete nas bordas das pálpebras, espalhando seus raios refletidos sobre as mesmas pupilas (…), mostram-se aos nossos olhos circundados por novos raios, e por isso bastante maiores do que se apresentariam seus corpos despidos de tal irradiação [5, p. 419].

Sabemos hoje que o fenômeno é bastante complexo, incluindo aberração esférica do cristalino, difração e luz espalhada7. Mais importante do que a explicação galileana das causas fisiológicas da irradiação, contudo, é o seu uso crítico da observação, compreendendo que a visão tem limitações e condições próprias de funcionamento. Devemos notar que relativamente poucas situações de observação estão sujeitas ao fenômeno da irradiação. Até o século 17 e mesmo além, temos apenas fontes luminosas artificiais de baixo brilho, como tochas, em que o fenômeno em questão é pouco notável. Podemos especular que a raridade da irradiação, exceto quanto ao céu estrelado, tornou-o desimportante do ponto de vista evolutivo, explicando a inépcia do nosso aparato visual para lidar com ela. Afinal, qual a importância para a sobrevivência de determinar o tamanho angular real dos corpos celestes durante a noite? Lembramos ainda que o Sol e a Lua por serem corpos estendidos não apresentam irradiação. A relativa escassez de situações onde a irradiação é relevante mostra mais uma vez como certos temas que aparecem na obra galileana dependem de pontos muito específicos e substantivos com pouca perspectiva de generalização. Assim, pelo menos com relação aos exemplos discutidos, a concepção de método como conjunto de regras gerais e independentes do tópico fica prejudicada.

3. Feyerabend

Ao discorrer sobre o caráter tópico da “metodologia” galileana é impossível não tratar do “tudo vale” de Feyerabend cujo núcleo é um estudo de caso sobre Galileu. Em seu “Contra o Método”, acentua o caráter retórico, oportunista e propagandista da obra de Galileu, sugerindo mesmo que tais traços constituem a essência da ciência. Pelo que foi dito acima, podemos concordar com um ataque ao método científico como compreendido tradicionalmente: universal, abstrato (ou atópico) e atemporal. Entretanto, há muita coisa forçada e errada na discussão conduzida por Feyerabend. Acredito que há um exagero na máxima do “tudo vale” bem como avaliações erradas sobre algumas realizações de Galileu. Começaremos pelo ponto que se refere basicamente aos comentários de Feyerabend envolvendo a introdução e uso do telescópio por Galileu. O Sidereus Nuncius, que narra as observações telescópicas do nosso Linceu, foi publicado em 13 de março de 1610. Nesta obra, são famosos os desenhos que Galileu fez da Lua, mostrando seu relevo como crateras e montanhas. Feyerabend, em uma investida bastante precária, acusa os desenhos de Galileu de serem de má qualidade, lançando dúvida sobre a operação do telescópio e tornando dúbia a aceitação da descrição do relevo lunar. Feyerabend diz:

Basta um breve exame dos desenhos de Galileu e de uma fotografia de fases similares para convencer o leitor de que “nenhum dos aspectos registrados … pode ser identificado com segurança a nenhum marco conhecido da paisagem lunar” (Kopal, 1966, p. 207)” [10].

Toda a discussão de Feyerabend é bastante inepta. Em primeiro lugar, na citação acima, pede-se para comparar os desenhos de Galileu com fotografias de fases da Lua. Que espécie de comparação é essa? Nem mesmo é especificado se a fotografia é feita através de um telescópio e, em caso afirmativo, quais as especificações do telescópio e de qual momento, do desenvolvimento da tecnologia astronômica e fotográfica, seria a dita fotografia? Em segundo lugar, como registrado por Wootton e outros, Feyerabend reproduz no Contra o Método desenhos de uma cópia pirata do Sidereus com qualidade inferior aos originais de Galileu. Vejamos:

Como uma prova de sua segunda alegação, que as ilustrações de Galileu foram não confiáveis, Feyerabend reproduz uma ilustração de uma edição pirata do Mensageiro das Estrelas, como se fosse uma ilustração da edição autorizada. Esta segunda carga é deste modo simplesmente um erro tolo, como foi rapidamente apontado em um artigo na Science por Ewan A. Whitaker. Nenhum contemporâneo acusou Galileu de produzir ilustrações enganosas – ninguém naquele tempo enganou-se em tomar a cópia crua de Frankfurt pela coisa real [11].

Além deste erro, Feyerabend deixou de perceber a força que as ilustrações da Lua, no Sidereus, seguindo uma narrativa contínua, mostrando a alteração do padrão de sombras ao longo das fases lunares, tinham como indicativo da presença de relevo no nosso satélite. O aspecto dinâmico das observações de Galileu, feitas ao longo de muitos dias, fortalecem o seu caso como veremos ainda na discussão dos satélites de Júpiter.

A segunda objeção de Feyerabend que gostaríamos de examinar é aquela dirigida ao fato de que Galileu não possuía uma teoria sobre o funcionamento do telescópio. Disso e da distinção amplamente aceita na época entre os mundos sublunar e supralunar, Feyerabend conclui que as alegações de Galileu estavam insuficientemente justificadas. Muitos relatos que atestavam o bom funcionamento do telescópio no âmbito terrestre não eram tão positivos quanto ao âmbito celestial. Além disso, os primeiros telescópios, como é sabido, sofriam de várias aberrações: esférica, cromática e eventual imagem dupla. Feyerabend diz:

Só uma nova teoria da visão, contendo tanto hipóteses a respeito do comportamento da luz no telescópio quanto hipóteses a respeito da reação do olho em circunstâncias excepcionais, poderia ter feito uma ponte sobre o golfo entre o céu e a Terra, que era, e ainda é, um tal fato óbvio na física e na observação astronômica [10].

Os argumentos de Feyerabend parecem fazer sentido à primeira vista, mas, como veremos, são em última análise fracos. Além do argumento sobre a ausência da teoria ótica adequada, o filósofo austríaco elenca uma série de testemunhos de personagens da época que lançaram dúvida sobre o que observaram pelo telescópio. Sobre este último ponto, uma consulta de importantes historiadores da ciência mostra que o peso dos testemunhos durante os 9 meses que sucederam a publicação do Sidereus Nuncius estão mais para corroborar as alegações de Galileu do que para refutá-lo [12, p. 77–134, 13, p. 89–115, 11, p. 96–105]. Mais, de fato, as observações de Galileu foram completamente aceitas 12 meses após o Sidereus Nuncius. Um tanto paradoxalmente, Feyerabend demonstra conhecimento disso quando diz que “fica-se assombrado com a velocidade com que a realidade dos novos fenômenos foi aceita e, como era o costume, publicamente aceita” [10], criticando ainda McMullin por dar muita importância a este fato. Ora, se os contemporâneos de Galileu aceitaram as suas alegações e se hoje nós sabemos que são corretas, de que lado está o ônus da prova? De que maneira as alegações de Galileu seriam insuficientemente justificadas em qualquer sentido razoável de justificação?

Como Galileu convenceu a si mesmo e aos outros sobre a objetividade de suas observações ao telescópio? O caso das observações das estrelinhas mediceanas, que hoje chamamos de satélites galileanos de Júpiter, desempenham um papel importante na justificativa da fidedignidade das imagens telescópicas. Ocupando parte considerável do Sidereus Nuncius, a descrição de Galileu percorre suas observações de 44 noites, com seus desenhos mostrando 65 configurações (de 7 de janeiro a 1 de março de 1610) que são minuciosamente esboçadas através de desenhos. Atentando ao mais importante, o nosso astrônomo viu em algumas noites 2 estrelinhas, 3 ou 4 em outras, ou mesmo apenas 1, muito próximas de Júpiter e quase sempre alinhadas. Formavam configurações diversas, ora a oeste, ora a leste de Júpiter e em alguns casos suas distâncias ao planeta gigante mudavam em questão de horas. Portanto, movimentavam-se, apareciam e desapareciam. Galileu conseguiu mesmo, mais tarde, calcular os períodos orbitais e foi capaz de predizer as posições das estrelinhas. As “estrelinhas” eram satélites de Júpiter. Dada a descrição dos eventos acima, para mim, fica claro que uma teoria do funcionamento do telescópio não era de fato necessária para a conversão das mentes. O ônus da prova fica claramente do lado de quem alegava e alega que o telescópio produzia artefatos. Que tipo de artefato seria compatível com as descrições acima?

Galileu também estabeleceu um protocolo de observação pelo telescópio. Insistiu na importância de um suporte estável para o telescópio que, como qualquer astrônomo hoje sabe, é essencial para uma boa observação. Demonstrou que não basta uma olhadela pelo telescópio para o discernimento de detalhes, é preciso um processo contínuo e demorado e de preferência lançando mão de desenhos esboçando o que é visto. Sabemos que a observação mais demorada e o esboço são decisivos para ver mais e melhor. Quem observa por mais tempo vê mais. Por isso, algumas das seções públicas que Galileu conduziu, por algumas horas, tiveram resultado negativo com algumas pessoas não conseguindo enxergar os satélites de Júpiter.

Para finalizar as realizações de Galileu, no estabelecimento do telescópio como instrumento científico, comento a que considero absolutamente espantosa. O pequeno telescópio de Galileu (chamado por alguns de luneta) tinha uma objetiva, em números arredondados, de 30mm de diâmetro que, tomando o quadrado para superfície, dá 900mm2. A nossa retina tem 7mm de diâmetro com 49mm2 de superfície. Dividindo 900 por 49, temos 18,4, sendo este fator a quantidade de luz a mais que o telescópio capta em relação ao olho. Obviamente, isso leva ao desiderato de termos telescópios da maior abertura possível. O telescópio de Galileu apresentava diversas aberrações que constituíam um problema para o seu estabelecimento. Já bem no início de sua introdução e manuseio do telescópio (1609–1610), Galileu descobriu que colocando uma máscara (ou diafragma) na periferia da lente objetiva, diminuindo a sua abertura, o telescópio produzia uma melhor imagem. Isso se deve ao fato de que, no processo de polimento das lentes, havia grande dificuldade em dar a curvatura correta em direção às bordas da lente, sendo a ótica de melhor qualidade no centro8. Assim, Galileu faz um movimento contraintuitivo, pois o diafragma diminui a quantidade de luz captada pela lente, mas consegue obter uma imagem melhor do instrumento. Se ele realmente não conhecia a teoria ótica como é alegado9, tanto maior foi seu gênio. Para finalizar os argumentos favoráveis ao telescópio, há de se notar que não eram observados satélites em Vênus e Marte. Em passagem irônica, Galileu promete 10.000 escudos para quem fabricar um telescópio que mostre satélites em um planeta e não em outro [12, p. 112].

4. Métodos e Teorias

Tem sido objeto de muita discussão na filosofia da ciência pós-positivista o caráter teórico-dependente da metodologia científica. A determinação de observação relevante, o grau de confirmação de uma teoria (que depende de teorias de fundo), as variações relevantes para um teste empírico bem sucedido, para ficar em alguns exemplos, dificilmente podem ser construídos como regras teoricamente assépticas. Richard Boyd tem sido um dos autores cujo foco é elaborar as consequências da teórico-dependência dos métodos científicos. Em um quadro de defesa do realismo científico contra o construtivismo, Boyd [15] argumenta para a radical contingência da emergência da ciência. Só passamos a ter métodos confiáveis a partir das primeiras teorias bem sucedidas em cada área do conhecimento. Da perspectiva realista de Boyd, estas teorias, sendo aproximadamente verdadeiras, propiciaram (e propiciam) o desenvolvimento de métodos confiáveis que permitiram (e permitem) novos desenvolvimentos. Boyd diz:

(…) a emergência de métodos científicos epistemicamente bem sucedidos deve ter dependido logicamente, epistemicamente e historicamente da emergência de uma tradição teórica relevante e aproximadamente verdadeira e não vice-versa. Não é possível compreender a emergência inicial de tal tradição como uma consequência de alguma metodologia científica ou racional, abstratamente concebida, que seja ela mesma independente de teorias. Não há tal metodologia [15, p. 139].

A história da ciência fala muito a favor da contingência aludida por Boyd. Se o método científico fosse algo abstrato e independente de pressuposições tópicas, manejado desde Galileu, por que teríamos diferentes datas para a emergência das ciências? Física no século 17, química no século 18, biologia no século 19 e assim por diante. Tomando a dependência teórica dos métodos científicos como um dado da discussão contemporânea, Boyd a interpreta de um ponto de vista realista: métodos confiáveis são guiados por verdade ou verdade aproximada das teorias. Tal interpretação não é estritamente necessária; podemos pensar, como Kuhn, que uma realidade construída explica a confiabilidade dos métodos. Não aprofundaremos este ponto, pois o importante para nós é o caráter tópico dos métodos científicos.

Gostaríamos de reforçar ainda o caráter tópico da metodologia científica através de exemplos de dois fenômenos atinentes às ciências da saúde e economia. Efeito placebo e profecia autorrealizadora, respectivamente. No estudo de princípios ativos na cura de doenças, é sabido que o simples ato de administrar algum tratamento ao paciente promove certo nível de melhora em sua saúde. Sem entrar na discussão do nível de eficácia do placebo, o importante é notar que para avaliar a eficácia do princípio ativo, devemos descontar o efeito placebo e o procedimento encontrado para isso é o ensaio duplo-cego. Nem o médico nem o paciente sabem inicialmente se foram tratados com o principio ativo. O segundo fenômeno de interesse, ocorrendo no âmbito socioeconômico são as profecias autorrealizadoras. Uma declaração pessimista sobre a economia, do presidente do Banco Central, por exemplo, pode de fato contribuir para a piora da mesma economia por meio da piora das expectativas dos agentes econômicos. O economista tem que levar este fenômeno em conta nas explicações econômicas. O conhecimento e o tratamento desses dois fenômenos são fundamentais para o avanço do conhecimento nas mencionadas ciências, sendo irrelevantes na física ou na química.

As considerações acima lançam dúvida sobre a unicidade, o caráter atemporal e o caráter abstrato do método científico. Os casos galileanos já discutido, por exemplo, tratam de observação tutorada, que vão de distinções conceituais (brilho vs contraste; brilho vs visibilidade), questões de perspectiva, aliadas a explicações físicas ainda rudimentares do funcionamento da visão e comportamento da luz. Prescrições de natureza metodológica, como no caso da irradiação, com diretrizes sobre como lidar com o fenômeno e medir acuradamente o tamanho angular de fontes luminosas pontuais, pressupõe atenção a fatos específicos de determinados domínios.

Muito da tônica geral do que Boyd diz se aplica a nossa discussão, exceto que na explicação boydiana as teorias que dão base aos métodos científicos são profundas10 e, nos casos que tratamos, apenas pressupostos muito gerais de senso comum e teorias às vezes rudimentares dão fundo aos procedimentos e métodos de investigação. O que é importante para nós, entretanto, é o caráter tópico e contingente dos procedimentos e métodos científicos. A introdução do telescópio em 1609 por Galileu dá ainda uma ilustração da contingência em ciência. Certamente, a ciência mudou radicalmente a partir deste momento, mas como uma metodologia abstrata e universal poderia fazer justiça a esta invenção? A introdução do telescópio, juntamente com o seu uso e o protocolo estabelecido por Galileu, dão base à regra metodológica de que o telescópio é mais informativo e fidedigno do que a visão desarmada (vide irradiação). Muitos dos itens do protocolo galileano de como usar o telescópio – que também poderíamos chamar de metodologia – dependem, por sua vez, das peculiaridades do telescópio. O tubo de um microscópio, por exemplo, não precisa ser movido para cima e para baixo e, portanto, a questão do suporte é menos crítica. A rotação da Terra, fundamental no uso do telescópio, é irrelevante para o uso do microscópio. A abertura é mais importante para o telescópio do que para os microscópios e por essa razão os telescópios modernos são gigantescos. Isso subscreveria a regra de, outras coisas sendo iguais, preferir o telescópio de maior abertura. Novamente, os métodos dependem de considerações muito específicas incluindo as características dos instrumentos.

5. Conclusão

Da discussão acima, podemos ver que, pelo menos para os casos exemplificados, nada como um método universal e abstrato é posto em funcionamento. O que está em jogo nos exemplos galileanos é a estabilização dos fenômenos convertendo-os em observações científicas. Estabilização essa que depende de considerações as mais diversas possíveis. Perspectiva no caso das manchas solares, padrão de sombras e entendimento da natureza da luz dispersa no caso do relevo lunar, a diferença entre brilho e contraste e a compreensão do fenômeno da irradiação no caso do tamanho dos planetas. Além disso, para estabelecer a confiabilidade do telescópio, Galileu estabeleceu um protocolo de observação que ia desde a configuração física do telescópio com sua montagem, passando pela observação estendida e pelo recurso ao esboço no papel, até o estabelecimento de fenômenos periódicos e de longa duração como sendo não-artefatuais. O caráter dinâmico das sombras lunares e a dança dos satélites de Júpiter foram habilmente exploradas por Galileu para o estabelecimento da fidedignidade do telescópio. Observações ao microscópio, por exemplo, não teriam necessariamente justificativas semelhantes. A própria introdução do telescópio no âmbito astronômico e seu aperfeiçoamento são completamente contingentes e condicionam parte dos chamados princípios metodológicos.

Feyerabend tem razão ao afirmar que Galileu em muitos momentos não seguiu qualquer cânone metodológico consagrado pela literatura. Não tem razão, entretanto, em suas dúvidas sobre a cogência e racionalidade dos argumentos do Linceu. Exagera sobre a presença e a força dos elementos propagandísticos na obra de Galileu. Como evidenciamos, o caráter dinâmico e o protocolo de observação subjacente ao Sidereus Nuncius conferiram plena razoabilidade à aceitação do telescópio. Boyd é mais feliz ao acentuar o caráter tópico e radicalmente contingente da emergência dos métodos científicos. A confiabilidade destes depende de pressuposições corretas sobre o funcionamento da realidade. Assim, dado a compreensão do fenômeno da irradiação, podemos preconizar métodos para aferir corretamente o tamanho angular de fontes luminosas pontuais.

Evidentemente, outros temas da obra galileana, como a mecânica, teriam que ser examinados separadamente para ver se conclusões semelhantes podem ser obtidas. Seja como for, pretendemos ter evidenciado que pelo menos uma parte do que chamamos de metodologia depende do tópico tratado e possui um alto grau de contingência.

Disponibilidade de Dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Referências

  • [1] I. Hacking, em: The Disunity of Science, editado por P. Galison e D. Stump (Stanford University Press, Stanford, 1996).
  • [2] G. Hatfield, em: Reappraisals of the Scientific Revolution, editado por D. Lindeberg e R. Westman (Cambridge University Press, Cambridge, 1990).
  • [3] E. McMullin, em: Reappraisals of the Scientific Revolution, editado por D. Lindeberg e R. Westman (Cambridge University Press, Cambridge, 1990).
  • [4] N. Koertge, Journal of the History of Ideas 38, 389 (1977).
  • [5] G. Galileu, Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo: ptolomaico e copernicano (Editora 34, São Paulo, 2011).
  • [6] G. Galileo e C. Scheiner, On Sunspots, (Chicago University Press, Chicago, 2010).
  • [7] D. Wootton, The Invention of Science (Harper Perennial, New York, 2015).
  • [8] M. Peterson, Galileo’s Muse (Harvard University Press, Cambridge, 2011).
  • [9] H.I. Brown, Journal of the History of Ideas 46, 487 (1985).
  • [10] P. Feyerabend, Against Method (Verso, London, 1993).
  • [11] D. Wooton, Galileo: watcher of skies (Yale University Press, New Haven, 2010).
  • [12] M. Biagioli, Galileo’s Instruments of Credit: telescopes, images, secrecy (Chicago University Press, Chicago, 2006).
  • [13] G. Galileu, Sidereus Nuncius (Chicago University Press, Chicago, 2015).
  • [14] P. Machamer, Stud. Hist. Phil. Sci. 4, 1 (1973).
  • [15] R. Boyd, em: Inference, Explanation, and other Frustrations, editado por J. Earman (California University Press, Los Angeles, 1992).
  • 1
    Muito brevemente, para a perspectiva indutivista, o procedimento básico da ciência consiste em observar correlações entre particulares e produzir grandes generalizações. O dedutivismo, inspirado na abordagem euclidiana da matemática, propõe que a ciência seja organizada em torno de primeiros princípios evidentes dos quais se seguem por dedução as demais proposições. Já no hipotético-dedutivismo (também chamado de método de hipóteses), hipóteses cuja origem é irrelevante são livremente propostas, tendo as suas consequências testadas pela experiência.
  • 2
    Scheiner foi o primeiro a notar em publicação o encurtamento das manchas solares em direção ao limbo, embora não tenha tirado as concluões de Galileu [6, p. 69].
  • 3
    Ver Peterson [8, p. 267] para a relação entre Galileu e as artes, especialmente no que se refere ao seu treino visual.
  • 4
    Na paisagem urbana atual, quando contemplamos prédios do alto, podemos notar que suas vidraças só se destacam quando a luz do Sol incide em determinados ângulos (principalmente ao entardecer) enquanto que o corpo dos prédios são plenamente visíveis durante todo o dia.
  • 5
    Ver nota 94 da 1a jornada do Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo: ptolomaico e copernicano, anotada por P.R. Mariconda.
  • 6
    Leonardo Da Vinci é o precursor, dando uma explicação semelhante.
  • 7
    Ver Brown [9].
  • 8
    As lentes dos primeiros telescópios eram feitas a partir de lentes de óculos. Nestes, era pouco importante o polimento fino das bordas, pois enxergamos basicamente através da região central das lentes.
  • 9
    Machamer [14] contesta esta suposição mostrando que Galileu conhecia o suficiente de uma longa tradição de ótica geométrica que vinha desde Euclides e atravessou a idade média.
  • 10
    “(…) not only are methodological principles deeply dependent on theories, the theories they depend on are often deep” [15, p. 137].

Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    22 Abr 2025
  • Revisado
    18 Jun 2025
  • Aceito
    20 Jul 2025
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